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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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VILA PRAIA DE ÂNCORA ESTÁ DE LUTO – FALECEU VASCO PRESA – O PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DE PESCADORES

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NOTA DE PESAR E RECONHECIMENTO – POR CARLOS SAMPAIO

Hoje, Vila Praia de Âncora chora a partida de um dos seus maiores homens do mar. Partiu o Mestre Vasco Presa, e com ele leva-se meio século de luta, coragem e resiliência na mais dura das profissões: a PESCA.

Durante mais de cinquenta anos, o Mestre Vasco enfrentou os quatro cantos do mundo, navegou mares revoltos e sobreviveu a tempestades que testariam qualquer coração humano.

Mas foi dessa escola dura, feita de suor, vento e maresia, que nasceu a sua mestria. E foi essa mesma mestria que o fez regressar à sua terra natal, ao seu Porto de Mar de Vila Praia de Âncora onde, ainda jovem, começou a pescar ao lado do pai e do avô.

Foram  mais de duas décadas de dedicação plena à comunidade piscatória de Vila Praia de Âncora.

Logo após a viragem do século, assumiu a direção da Associação dos Pescadores Profissionais e Desportivos de Vila Praia de Âncora. Lutou como poucos por um porto de mar mais seguro, mais digno e mais funcional.

Abdicou de centenas de marés de pesca para cumprir a sua missão de dirigente, mas nunca deixou de ser homem do povo, amigo de todos, pescador de todos. Vasco Presa tinha a grandeza de dar a sua “camisola” a quem precisasse, fosse profissional, desportivo ou forasteiro. Era porto de abrigo para quem enfrentava uma necessidade ou um perigo.

Desde 2012, tive o privilégio de partilhar com Vasco Presa não apenas lutas, mas também sonhos. Para mim, foi sempre referência. Para o meu pai, Francisco Sampaio, ele era já o Grão Mestre Vasco Presa – o Téro: senhor na cultura da pesca, senhor na cultura do mar, senhor na cultura da vida. A sua paixão era contagiante, e confesso que nesta última década e meia vivi como aprendiz desse Grão-Mestre. Muito ficou por aprender, porque o Vasco soube fintar o mar, o nevoeiro e a tormenta, mas não conseguiu fintar a doença.

A comunidade piscatória, as freguesias de Vila Praia de Âncora, o concelho de Caminha e até o país lhe deve muito. O melhor tributo que podemos prestar a este Grão-Mestre é não baixar os braços e lutar pela requalificação do nosso porto de mar e das infraestruturas portuárias que ele tanto defendeu. Vasco Presa será sempre o nosso farol, a nossa bússola e o nosso norte, para manter viva a paixão que ele nos legou: a paixão da pesca e do pescador.

À família, deixo uma palavra de respeito profundo.

À esposa 𝗦𝗮𝗺𝗲𝗶𝗿𝗼 quem chamava com carinho o seu “farol”, o porto seguro que o acompanhou em todas as marés da vida.

Aos filhos João e Cátia,camaradas de faina na apaixonante embarcação “Téro”, como tantas vezes dizia. Orgulhava-se de ver neles a mesma garra, porque afirmava que o mar lhes corria nas veias.

À filha Paula que desde cedo o acompanhou nas lidas da venda do pescado. Falava dela com emoção e respeito, pelo empenho, pela dedicação e pelo cuidado que tinha com todos os mestres das embarcações de Vila Praia de Âncora e arredores. Dizia sempre que era uma rapariga dócil, mas incansável e trabalhadora.

À filha mais nova, a Babi como carinhosamente a tratava, reconhecia nela um pilar firme e decisivo na venda do pescado no mercado. Admirava a sua personalidade forte e determinada, dizendo muitas vezes: “a Babi sabe o que quer”.

Os quatro filhos foram o maior orgulho da sua vida. Dois seguiram com ele a vida dura e bela do mar, vivendo a pesca como herança e missão. As filhas acompanharam em terra, dando continuidade à paixão e ao trabalho que o mar exigia. E junto deles, os seus seis netos, que tanto amava e em quem via a esperança e a continuidade de tudo aquilo que defendeu: uma família unida, o mar respeitado e a cultura piscatória preservada.

Grão-Mestre Vasco Pereira, parte fisicamente, mas permanecerá para sempre como símbolo maior da coragem, da fraternidade e da alma do nosso povo do mar.

A sua memória ficará para sempre ligada à identidade e à força da nossa comunidade piscatória.

Foi uma honra partilhar tantas lutas com o Vasco, mas acima de tudo foi um privilégio ter sido seu amigo. É nesse nome, de amigo, que hoje me despeço.

Com respeito e amizade,

Amigo Carlos Sampaio