VACINAÇÃO: O TRUNFO CERTEIRO

- Crónica de José Miguel Marques (Médico Interno de Formação Específica em Medicina Geral e Familiar)
O Programa Nacional de Vacinação (PNV) em Portugal, criado em 1965, tem tido significativo sucesso devido à adesão voluntária a um programa de saúde bem estruturado, credível e com uma relação custo-benefício claramente a favor da vacinação contra diversas doenças. O PNV é dinâmico e ao longo dos anos tem-se ajustado às necessidades das populações e à epidemiologia das doenças que ameaçam a comunidade.
Desde o início da pandemia de SARS-CoV-2 que as vacinas eram a resposta necessária. A dúvida prendia-se com a rapidez com que se poderia desenvolver uma ou mais vacinas seguras e eficazes. O desenvolvimento de vacinas e de medicamentos seguem critérios rigorosos de eficácia e segurança. Este processo não significa, todavia, que seja risco zero. A tolerância ao risco é um mal necessário para permitir uma avaliação de custo benefício em todas as tomadas de decisão, incluindo as decisões sobre vacinação e em saúde.
O “movimento anti-vacinas” bebe inspiração de uma fonte já seca. Isto é, o falso artigo de 1998 que relacionava uma vacina com o desenvolvimento de autismo, foi claramente revogado em 2010. Contudo, ainda hoje se sentem réplicas da desinformação gerada há 2 décadas. Ainda hoje a comunidade civil e científica esgrimam argumentos na discussão sobre o custo-benefício da vacinação, em despeito da vasta evidência a favor da vacinação.
É verdade que estamos num país livre. É verdade que a vacinação é recomendada e não obrigatória. É claro que há riscos. É claro que as vantagens são enormes, e não se limitam à nossa esfera individual mas têm repercussões altruisticamente positivas na comunidade.
Quem não se vacina não coloca apenas a própria saúde em risco, mas também a de seus familiares e outras pessoas com quem tem contato, além de contribuir para aumentar a circulação de doenças. Estima-se que vacinação terá evitado mais de 700 mortes em Portugal só nos últimos 2 meses, resultado direto da proteção que a vacina oferece contra a doença grave, internamentos e morte por COVID-19.
Nos dias de hoje há muito ruído sobre temas sensíveis. O desafio da nossa Era não é aceder a informação, mas sim separar o joio do trigo , distinguir o que são fake news e ruído para procurar o “sinal”, a mensagem adequada. Uma das estratégias mais simples de promover a qualidade de informação é ir à fonte. Em saúde, a fonte de informação é, em primeiro lugar, a Direção-Geral de Saúde como fonte oficial. Apenas em segundo lugar vêm as posições fundamentadas dos peritos e profissionais de saúde. Só através de uma priorização das fontes de informação é que seremos capazes de ponderar e esclarecer a informação veiculada e retransmitida por outras fontes.
Se em idades mais avançadas o benefício da vacinação contra COVID-19 é mais claro, interessa falar sobre a vacinação de crianças e jovens que serão vacinados agora até setembro. Por um lado, o governo quer vacinar o máximo possível e atingir imunidade de grupo até ao início do novo ano letivo. Por outro, surge uma missiva assinada por diversos profissionais que se opõem à vacinação das crianças e jovens. Outros defendem a vacinação de crianças e jovens o mais rápido possível. Os Estados Unidos defendem a vacinação em crianças, o Reino Unido é mais prudente e defende a vacinação apenas se as crianças tiveram doenças (comorbilidades). Portanto, percebe-se que há divisão das perspetivas. Ainda que a visão individual de cada um de nós possa ser facilmente enviesada por diversos fatores, nomeadamente experiências individuais, fatores emocionais e culturais, acredito que haja argumentos suficientes a favor da vacinação das crianças e jovens. Neste sentido, considero que devemos continuar a confiar na equipa da Comissão Técnica de Vacinação da DGS, que irá brevemente ponderar e decidir tendo em conta a melhor evidência disponível. Espero que haja forte adesão às recomendações da DGS para proteção da saúde, de cada um de toda a comunidade!