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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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ARCOS DE VALDEVEZ: ZÉS PEREIRAS FAZEM ARRUADA NAS FESTAS EM HONRA DE NOSSA SENHORA DA LAPA

As Festas em Honra de Nossa Senhora da Lapa continuam com grande animação.

Hoje vários Grupos de Bombos animaram a vila.

Grupo de Bombos Os Malinos - Arcos de Valdevez

Grupo de Bombos Os Dragões de S. Jorge – Arcos de Valdevez

Grupo de Bombos Dalaenses - V.N Famalicão

Grupo de Bombos ACEMC - Paços de Ferreira

Grupo de Bombos Amigos da Borga – Amarante

Grupo de Bombos de S. Lourenço - Marco de Canaveses

Grupo de Bombos de Lindoso - Ponte da Barca

Teve a oportunidade de assistir ao 22º Malha - Malha de Bombos na Praça Municipal e à Concentração dos Grupos de Bombos no Largo da Lapa?

Pelas 15h00 realizou-se o Desfile dos Grupos de Bombos no Largo da Lapa.

À noite, no Rio Vez junto à Ponte Centenária, acontece grande Festa do Rio com Barcos Alegóricos pelas 22h30 com o tema “As 7 maravilhas do mundo moderno”

À 01h00 Espetáculo de Fogo-de-artifício na Praia Fluvial da Valeta e à 01h30 Festival Ínsua do Vez

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VIANA DO CASTELO: SARGACEIROS DE CASTELO DE NEIVA RECRIAM TRADIÇÃO DA JANGADA

Os sargaceiros de Castelo do Neiva lançam ao mar a jangada do sargaço. A jangada com o sargaço é transportada num carro de bois. O sargaço estendido na areia da praia e depois, transportado nas carrelas, levado para fertilizar os campos.

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As gentes de Castelo de Neiva dedicavam-se outrora à pesca, à apanha do sargaço, à agricultura. Situada escassa distância a sul de Viana do Castelo, beneficia de uma paisagem é alegre e ridente, com campos e montes em seu redor, banhada pelo mar e com o rio Neiva a seus pés.

Constituído em Dezembro de 2001, o Grupo Folclórico e Etnográfico de Castelo do Neiva procedeu uma vez mais à recriação do lançamento da jangada de sargaço na praia da freguesia.

Fotos: Grupo Folclórico e Etnográfico de Castelo do Neiva

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BRAGA / RUSGA DE S. VICENTE: Ó MEU SÃO JOÃO DA PONTE / ENFEITADO DE AÇUCENAS / CASAE AS MOÇAS DE BRAGA / DAE ALÍVIO ÀS SUAS PENAS – FOTO DE ABEL CUNHA

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Cancioneiro de musicas populares contendo letra e musica de canções, serenatas, chulas, danças, desc... / collecção recolhida e escrupulosamente trasladada para canto e piano por Cesar A. das Neves ; coord. a parte poetica por Gualdino de Campos ; pref. pelo Exmo Sr. Dr. Teophilo Braga. - Porto : Typ. Occidental, 1893-1899. - 33 cm

Fonte: Biblioteca Nacional de Portugal

VIANA DO CASTELO: NEVES APRESENTA O “AUTO DA FLORIPES”

Estão já a decorrer as Festas da Senhora das Neves!

Como é habitual, um dos pontos altos da programação é a representação do Auto da Floripes. Nesse sentido, o Presidente da Câmara recebeu ontem não apenas a mordomia das festas, mas também uma breve apresentação do Auto, que andou a ser promovida pelas principais artérias da cidade.

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O Auto da Floripes é, nos dias que correm, um dos poucos resistentes do velho teatro popular e, por isso mesmo, impõe-se a nível nacional e internacional no panorama do património cultural imaterial. Como manda a tradição, esta representação de teatro popular é sempre levada a palco no dia 5 de agosto, no Largo das Neves.

Opondo cristãos e turcos, o Auto da Floripes é um drama de cariz guerreiro que se insere no “Ciclo Carolíngio”, por se inspirar na segunda parte do livro “História de Carlos Magno e dos Doze Pares de França”. Nesta peça encontramos vários elementos reunidos, que vão desde ação, expressão dramática, texto, canto, até à dança e a mímica.

Apesar do carácter evangelizador na sua génese, o Auto da Floripes é uma história de ficção que tem também um papel lúdico e que intercala os vários momentos solenes com comédia e sátira.

Fotos: João Tiago Lomba

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CAMINHA: A ROMARIA DE SÃO JOÃO D’ARGA

A serra d’Arga é um pequeno maciço montanhoso do Noroeste atlântico, situado entre os rios Âncora e Coura, no ponto em que se tocam os concelhos de Caminha, Viana do Castelo, Ponte de Lima e Paredes de Coura. De constituição fundamentalmente granítica (com alguns xistos nas vertentes orientais), ele é formado por rochas do Maciço Ibérico, prolongando para ocidente o sistema da Peneda, Soajo e Extremo; e a sua altitude máxima não excede os 800 metros. Os solos da serra, sob o ponto de vista agrícola, são extremamente pobres: na sua maioria são bravios, despidos de arborização e apenas com matos rasteiros (alguns dos quais espécies botânicas notáveis) entre afloramentos de granito, onde ainda hoje pulula o lobo, e que servem de locais de pastagem para os rebanhos, que constituíam até há pouco uma das fontes de receita mais importantes da gente serrana. Noutros tempos vinham mesmo gados de Arcos de Valdevez para aqui, deles recebendo o alcaide-mor de Caminha um vintém por cabeça. Hoje, esses terrenos estão, em várias partes, aproveitados para o repovoamento florestal. Junto aos pontos mais altos da serra, espraiam-se três amplas chãs, ou agras (donde teria derivado o nome da montanha), junto das quais se encontram outras tantas aldeias, que representam o povoamento fundamental da serra: as Argas de Cima, a mais agreste de todas, a de Baixo, e a de S. João – as duas primeiras com 415 habitantes em 68 fogos, a última com 126 habitantes em 25 fogos (em 1930). Aí se cultiva algum centeio, milho grosso e, outrora, miúdo, um pouco de castanha e linho; e, como arvoredo, têm o carvalho, o sobreiro, o pinheiro, o castanheiro e o azinheiro.

Em certos pontos da serra vêem-se vestígios de fortificações castrejas, atestando um povoamento muito remoto. Para alguns autores, ela seria o Monte Medulio dos romanos, em cujas faldas teria ficado a cidade de Benis, próximo da junção dos rios Minho e Coura. Na toponímia popular, a serra d’Arga é às vezes chamada a Montanha Santa, justificando-se este nome pela tradição da existência de numerosos ermitas e anacoretas que nela viviam e pelos vários conventos e capelas que subsistem ou de que restam ruínas e vestígios.

Nos últimos anos, os aspectos da vida humana nas povoações da serra d’Arga modificaram-se radicalmente. A ocupação florestal, reduzindo o pastoreio a proporções insignificantes, obrigou essas populações à procura de novos meios de subsistência, que implicaram o abandono das velhas estruturas económico-sociais. É esse facto, estimulado ainda pelo desenvolvimento global do País que caracteriza a época actual, e pela construção de estradas que tomou a serra acessível e as deslocações fáceis, que abalou profundamente a integridade desse mundo, que até há pouco se mantivera fechado nos seus valores tradicionais imutáveis. Hoje, a serra perde pouco a pouco a sua originalidade; e a emigração maciça da gente serrana, para a cidade e sobretudo para o estrangeiro, completa esse movimento de desintegração fundamental.

Em breve, à romaria de S. João d’Arga as pessoas deixarão de ir em rusgas, como dantes, com os seus belos trajes feitos em casa com o pano dos teares, ao som dos seus cantares, que tão bem exprimem a cultura local; e a gente mais nova será já totalmente estranha às subtis graças da «gota».

O pequeno santuário de S. João d’Arga, onde tem lugar a romaria que constitui o objecto deste artigo, fica isolado no meio dos bravios da freguesia de Arga de Baixo, numa plataforma da serra, a meia encosta duma das vertentes do ribeiro de S. João, abertas à largueza do horizonte, que descem para o norte até ao rio Coura.

O seu patrono é S. João Baptista ; mas a sua festa é a 29 de Agosto, com início na véspera e a noitada – o que mostra que se celebra não o nascimento do santo, mas a sua degolação.

A capela do santuário é desse singelo e rústico românico corrente no Norte do País, e sobretudo no Minho, em construções desta natureza, e que se reconhece na cachorrada do beiral e no pórtico do lado norte; o seu próprio frontal, a poente, foi porém substituído no século XVIII por uma fachada de um pós-joanino muito pobre. A capela-mor é um acréscimo recente e incaracterístico, que se prolonga, na fachada sul, por um corpo saliente. Aí se situa a sacristia e uma sala onde os mordomos, no dia da romaria, recebem as promessas e os óbulos, vendem «registos», dão o santo a beijar, alugam «mortalhas», etc. Interiormente, merecem referência um tosco «Baptismo de Cristo», em alto-relevo, policromado, no granito branco da serra, acima do arco do cruzeiro, e as molduras e nichos, também de pedra, com as imagens de S. Sebastião e Santo Oginha (o lendário ladrão da serra que se arrependeu e se fez santo) de cada lado desse arco, que enquadra a capela-mor, onde está a imagem do orago.

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Caminha. S. João d’Arga. A capela em dia de romaria, isolada no coração da serra de Arga.

A capela é cercada por um terreiro irregular, ladeado a norte e a sul por dois edifícios corridos, em granito bem aparelhado, enegrecido pelo tempo, de dois pisos maciços e atarracados, o de cima com acesso por várias escadas de pedra, exteriores, e com uma galeria à frente, entrecortada de pilares que sustentam o telhado e correspondendo a um espaço aberto, no de baixo: os quartéis, que certos autores consideram vestígios de um antiquíssimo mosteiro beneditino que por ali existiu e onde, na ocasião da festa, os romeiros das várias freguesias, mediante um pequeno aluguer anual pago aos festeiros, têm os seus quartos onde deixam os merendeiros e descansam um pouco, durante a noite. No espaço aberto, sob a galeria, no térreo, armam-se, nessa ocasião, tendas de comes e bebes e, à entrada do recinto, um balcão onde um dos mordomos recebe também as ofertas e óbulos para o santo; no lado sul, vê-se a meio uma sepultura de pedra, fazendo de tanque, para onde corre a água que vem por calhas desde uma fonte arcada de mergulho, aberta no monte, a umas dezenas de metros do santuário; entre os dois «quartéis», no lado frontal, a poente, em frente à capela, rasga-se a entrada do terreiro, que, fora, dá para um pequeno largo onde se ergue um cruzeiro; desse largo parte um caminho, largo e plano, que leva a outro cruzeiro, a duas centenas de metros mais ao sul, também a meia encosta: é o caminho da procissão.

O santo taumaturgo é de grande renome local, advogado contra males de toda a espécie e em particular quistos, verrugas e doenças de pele; e, além das práticas e promessas gerais – ex-votos de cera, voltas em tomo da capela, a pé ou de joelhos, com flores (sobretudo cravos), a imagem do santo ou qualquer outra oferenda nas mãos, num circuito estreito que uma guarda de arame separa do terreiro, etc. – há uma promessa específica: sal, que geralmente se leva à cabeça e que se junta às arrobas numa arca, na sacristia, e na dependência dos quartéis. Uma outra promessa, agora desaparecida (e que aliás se encontra em outros lugares, endereçada a santos ou em vista a males diferentes) é a de telhas roubadas.

Com antecedência, ou na manhã, no próprio dia 28, das aldeias próximas vêm, chamados pelos mordomos, em carros ou em carroças (e hoje em automóveis), os armadores encarregados do arranjo dos andores e das decorações, os materiais para se erguerem os coretos da música, a palha fresca para os quartéis, os toldos e bancos com que se armam as tendinhas de vinho, café e doces, flores de papel e quinquilharias, e hoje as instalações da luz e altifalante, que agora triunfa, do alto da frontaria da capela. E, no próprio dia 28, logo de manhã, chegam as duas bandas de música que tocarão nos coretos do recinto, à vez, alternando com o altifalante e até com a música dos ranchos.

Sem estradas até há poucos decénios, só a pé se podia chegar a este santuário, pelas ásperas veredas que trilham a serra. Apesar disso, à festa compareciam romeiros de todas as redondezas, próximas e distantes, da serra e de todo o Alto Minho, dos concelhos de Caminha, Viana do Castelo, Ponte de Lima, Paredes de Coura, Arcos de Valdevez, etc. (e mesmo do Porto, Lisboa e outras partes mais longínquas). As gentes de fora utilizavam quaisquer transportes de estrada até às povoações do sopé da serra e seguiam depois a pé para cima; as gentes da serra faziam todo o percurso a pé, cada freguesia em grupo, subindo e descendo as encostas, em «rusgas» alegres, ao som dos seus cantares típicos, acompanhados pela concertina – as mulheres com os seus trajes de festa, coloridos e vistosos, não raro descalças, segundo o hábito minhoto, para melhor andarem, o cesto do merendeira à cabeça recoberto por uma toalha branca, bordada e franjada. Havia paragens certas pelo caminho, que se repetiam todos os anos, onde se descansava um pouco; e com frequência se armava logo aí um pequeno bailarico.

Á vista do arraial, as mulheres refrescavam no ribeiro os pés pisados da jornada e calçavam as suas belas meias rendadas e as suas chinelas abertas, hoje já raras. A chegada de um grupo era anunciada com foguetes, e as bandas da música saíam ao seu encontro a recebê-lo, acompanhando-o a tocar para a entrada no recinto e para as três voltas que, ainda em grupo, logo à chegada se dão em tomo da capela, antes das devoções. E pode dizer-se, sem dúvida, que a jornada era mesmo um dos grandes atractivos da festa. Hoje a serra está cortada de estradas florestais; da que leva a Arga de Baixo pela vertente fronteira ao santuário, parte, já perto dele, um curto ramal até à entrada do terreiro, donde parte também o caminho da procissão; e a grande maioria dos romeiros utilizam automóveis (e isto actua como efeito e como poderoso factor de desintegração do seu carácter primitivo). Só das aldeias mais próximas da serra, vai ainda gente a pé à romaria; e as bandas só essa gente vai receber. Em 1970, ano em que foi efectuado este estudo, a música foi esperar apenas o grupo da aldeia a quem pertenciam os mordomos (que era Arga de S. João), que chegou, como outrora, em rusga, cantando ao som da concertina, acompanhada por um pequeno tambor, ferrinhos, pandeiretas e seixos.

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Caminha, S. João d’Arga. Os devotos beijam a cruz que tocou os pés da imagem de S. João.

A romaria, nos seus aspectos religiosos e lúdicos gerais, em nada se distingue das demais romarias nortenhas: as mesmas devoções e promessas, o mesmo género de andores, de procissão, as práticas mágico-religiosas; as ornamentações, foguetes e fogos-de-artifício, música, tendas e diversões, cantares e danças. A mordomia, aqui, pertence, à vez, a cada uma das três aldeias da serra: as Argas de Cima, de Baixo e de São João; em 1970, ela competiu a esta última, como dissemos.

Na mesa da mordomia, à entrada, a salva transborda de moedas, das oferendas, óbulos, compra de registos, pagamentos de promessas, etc. Outrora, viam-se mesmo cordões, peças antigas e outros valores em ouro. Como a imagem do patrono, no altar-mor, fica a uma altura fora de alcance, vêem-se, pousados na mesa do altar, dois crucifixos de madeira; os devotos tocam a imagem com um desses crucifixos, nos pés, mãos ou vestido, e depois beijam-no na parte que encostou ao santo (fig. 18). Mas esta romaria tinha um aspecto que lhe conferia um carácter especial: a qualidade definida e a importância dos seus elementos lúdicos fundamentais, nomeadamente dos trajes, dos cantares e sobretudo das danças dos seus romeiros mais genuínos – as gentes da serra, em particular, e das regiões vizinhas, de uma frequentação tradicional regular. Em todas as romarias se dança, e isso foi e é um dos grandes atractivos dessas celebrações; e onde existam formas próprias da dança popular, elas aparecem nas romarias da respectiva região. O Alto Minho é precisamente uma das grandes áreas portuguesas da dança e do traje feminino; as suas danças típicas – as Gotas, os Viras, as Rosinhas – aliás com variantes de aldeia para aldeia, são sempre de uma grande beleza, e o seu povo tinha – e tem – a paixão de tais danças, e não perdia uma ocasião em que pudesse dançar. Não se pode decerto dizer que cada aldeia preparava as suas danças para esta ou para qualquer romaria, porque a dança era ali uma ocupação normal de todas as ocasiões. Mas o São João d’Arga era um verdadeiro certame ou academia dessas danças, um dos acontecimentos onde por excelência elas se manifestavam na sua forma mais brilhante. Ali se juntava a fina flor dos dançadores, dos tocadores, dos cantadores, que muitas vezes acompanhavam já a caminhadà dos romeiros. E podia dar-se largas a essa paixão pela dança sem restrições, logo após a chegada, durante a tarde e a noite inteiras. Sem dúvida, em grande medida, muita gente ia ao São João d’Arga propositadamente para dançar, não qualquer dança, mas essas danças definidas, Gotas, Viras, Rosinhas, Senhor da Serra e outras, e era isso, tanto como a devoção ao santo, a razão fundamental da jornada. Ainda hoje vêm romeiros de partes muito distantes apenas por esse motivo; vimos mesmo um emigrante que trabalha na Alemanha e que escolheu o mês de Agosto para férias, a fim de poder ir ao São João d’Arga dançar a Gota. Estas danças são portanto, aqui, não um elemento ocasional e arbitrário, mas, em si mesmas, uma razão primordial e concreta da romaria, que, sem elas, na sua forma definida, fica incompleta. Sem dúvida essas danças podem dançar-se com qualquer traje: mas só como belo traje feminino da região elas se realizam na sua expressão estética mais perfeita. Esse traje é um verdadeiro complemento da dança, que a valoriza extraordinariamente e é por ela igualmente valorizado. E a romaria era também uma das ocasiões e das razões mais importantes de ser e de se usar esse traje.

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Caminha, S. João d’Arga. As danças no adro da capela.

Cada grupo dançava à moda da sua terra, e, se as pessoas não se conhecessem, logo se reconheciam pelas próprias danças e pelos trajes – saias verdes e azuis e barras pretas bordadas a cores, e aventais lisos também bordados a cores, da serra: saias vermelhas ou azuis com barra preta bordada a branco e aventais repuxados, de cores, de Outeiro, Perre, Meadela ou Santa Marta; saias vermelhas com barra da mesma cor e aventais repuxados, de cores, da Areosa; saias avergastadas, às riscas pretas e brancas, com aventais vermelhos, de borlas, de Carreço e Afife ; etc. – feitos no tear caseiro e completados com a camisa sem gola e de ombros franzidos e bordados, colete aberto, um lenço cruzado na cabeça e outro pelas costas, meia rendada branca e chinela preta ou bordada – todos exibiam o seu melhor traje, realçado pelo ouro dos cordões, laças, relicários e brincos.

Ao fim da tarde há uma pausa nas danças e diversões, para a procissão, que sai na ordem do costume – a cruz ladeada pelos lampiões a abrir a marcha, e logo depois os pendões, e, cintilantes de flores prateadas e fitas de seda e grinaldas de flores, os andores dos três santos com o patrono em último lugar – e em 1970 apenas os de S. Sebastião e do patrono –, seguidos pelos penitentes e os amortalhados; atrás, o padre, sob o dossel; e, a fechar, as bandas e o cortejo dos fiéis. Aqui, os andores são acompanhados pelas mordomas, geralmente vestidas com os seus trajes mais ricos. O percurso é curto: da capela ao cruzeiro da encosta, que se contorna, e regresso pelo mesmo caminho.

Depois da procissão, é a hora das merendas. Os grupos dispersam-se pelo monte, as mulheres com os seus cestos à cabeça, e cada um procura um sítio propício para abancar. Os merendeiras são apetitosos e fartos, e constituem também um dos atractivos da festa. Come-se e bebe-se à larga, e guarda-se o que sobra para comer durante a noite e no dia seguinte de manhã. Quando começa a escurecer, os velhos e as crianças e aqueles que se sentem cansados instalam-se para a noite, uns nos «quartéis», cada freguesia no seu compartimento, sobre a palha, a maioria ao ar livre, no chão, uns contra os outros, embrulhados em mantas, no terreiro ou no monte, onde calha, entre os demais que deambulam aguardando a noitada. Com o anoitecer, a animação aumenta; numa confusão crescente, por toda a parte se ouvem concertinas, que vão juntando grupos, e recomeçam as danças, hoje alternando ou coexistindo com a vozearia do altifalante. Há naturalmente fluxos e refluxos, toma-se café, bebe-se, come-se qualquer coisa das merendas ou dos doces que se vendem no terreiro; na varanda e escadas dos «quartéis», as pessoas apinham-se contemplando a festa; a meio da noite queima-se o fogo-de-artifício; mas logo prosseguem os cantares e a dança, sem descanso, nos espaços livres que deixa a gente que dorme, ao mesmo tempo que as devoções e as promessas se cumprem em silêncio dentro ou à volta da capela – até ao amanhecer.

Com toda a evidência, é aqui patente o verdadeiro sentido da romaria, nessa coexistência de elementos religiosos e elementos lúdicos, a mistura de danças, cantos e devoções, uns ao lado dos outros, estremados apenas, como que simbolicamente, pelo arame que delimita, à volta da capela, os dois espaços.

A festa, de facto, acaba com a noitada. Para os romeiros da véspera, a manhã do dia 29 é apenas a debandada: no ribeiro, todos se refrescam e lavam antes de partirem, comem-se as sobras dos farnéis e toma-se depois o caminho do regresso, num formigar igual ao da véspera, em sentido inverso: e ouvem-se, a afastar-se, ecos das concertinas pelos montes. Vêm ainda romeiros e cumprem-se devoções e promessas; mas a frequência é muito menor, e há apenas cerimónias religiosas, antes do meio-dia.

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Caminha. S. João d’Arga. A procissão.

BIBLIOGRAFIA

Ernesto Veiga de Oliveira – A Romaria de S. João d’Arga. in « Cultura e Arte » . página cultural de «O Comércio do Porto ». 9.1.1962.

José Augusto Vieira – O Minho Pitoresco. I, págs. 174-176, Lisboa. 1886.

José Rosa de Araújo – Os Santos da Serra d’Arga, in «Arquivo do Alto Minho », vol. II, D. fase. III. Viana do Castelo

  1. António Carvalho da Costa – Corografia Portuguesa.I. págs. 248-250. Braga. 1868.

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, s. v. Arga.

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1 « Geographica », 28, Lisboa. 1971, págs. 2-17.

Este texto, em versão alemã (trad. de Heidemarie Frank) acompanha o filme realizado em 1970 pelo Instituto do Filme Científico, de Göttingen, em colaboração com o Centro de Estudos de Etnologia. de Lisboa, N.° E 2021, intitulado Kirchfest « Romaria » von S. João de Arga (Minho), e publicado em Institut für den Wissenschftlichen Film, Sektion Ethnologie, Série 8, n.° 1. Göttingen, 1978.

Fonte: https://books.openedition.org/etnograficapress/6018

“CANCIONEIRO DA SERRA D’ARGA” – QUADRAS DE AMOR

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Serra d’Arga. Namorados

Quadras de Amor

A poesia é tão antiga como o homem. Em cada ser humano existe um poeta e não há nada na vida do homem que não escape aos sentimentos mais profundos da alma. O amor é, agora, o tema.

Pela transcendência do assunto, «pelo fácil e pelo difícil» que o envolve, se compreende a seguinte quadra:

Quem me dera dar-te um beijo,
Um beijo não custa a dar;
São duas bocas unidas,
Quatro lábios a beijar.

Noutros tempos, o beijo era tão sagrado que logo havia desordem ou compromisso de casamento, quando observado pelos pais.

Hoje, está tão banalizado que deixou de ser expressão do que era, perdendo o significado sagrado que tinha em épocas mais distantes.

A simplicidade e a imagem a que o povo recorria para transmitir os seus sentimentos ou exaltar alegrias ou paixões, são de uma beleza encantadora

Quando os passarinhos choram
Numa árvore tão pequena,
Que fará meu coração
Cheio de tanta pena?

Nas quadras que se vão seguir pode verificar-se o que diz a filosofia popular a propósito do amor, da traição, do belo e do feio. Aqui está um retrato excelente do amor na sabedoria popular: umas vezes, demasiado pessimista; outras, cheio de lições de moral.

Quadras de Amor    

água daquela serra
Por copos de vidro desce;
Nem a água mata a sede
Nem o meu amor me esquece.

Abaixo da Serra d’Arga
Onde fica minha aldeia,
Na linda terra de Dem
Onde o meu amor passeia.

A água do ribeirinho
Sobe ao Céu deita pavor;
Só há lágrimas na terra
Por donde anda meu amor.

Abre-te, janela d’oiro,
Tira-te tranca de vidro,
Resolve o teu coração
Que o meu está resolvido.

A água do Rio Lima
Foge que desaparece;
Nem a água apaga a sede
Nem o meu amor me esquece.

Abre-te, janela d’oiro,
Vira-te, tranca de vidro;
Vem cá fora, meu amor,
Que quero falar contigo.

Abaixa-te Alto do Tapado,
Que eu quero ver Castanheira,
Quero ver o meu amor
Lá nos campos da Lapeira.

Abre-te, peito, e fala,
Ó coração vem cá fora,
Anda ver o teu amor
Que chegou aqui agora.

Abaixa-te ó Serra d’Arga
Abaixa-te um nadinha;
Quero ver o meu amor
No terreiro de Caminha.

A carta que te escrevi
Já ta deitei na varanda;
Só te peço, meu amor,
Que faças o que ela manda.

Recolha levada a efeito na Serra d’Arga, nas freguesias de Arga de Cima, Arga de Baixo, Arga de São João e Dem por Artur Coutinho, transcritas na obra «Cancioneiro da Serra d’Arga».

Fonte: https://folclore.pt/cancioneiro-da-serra-darga-quadras-de-amor/