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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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CAMINHA FESTEJA AO SENHOR BOM JESUS DOS MAREANTES

Decorreram nos passados dias 26 e 27 de Dezembro em Caminha os tradicionais festejos em Honra do Senhor Bom Jesus dos Mareantes.

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Como manda a tradição, as festividades tiveram o seu começo com o tradicional meio dia de fogo e prosseguiram com a realização de uma missa solene. A Banda de Música de Ponte de Lima abrilhantou os festejos e acompanhou a procissão, tendo seguidamente realizado um concerto na Igreja Matriz. Teve também lugar a bênção das embarcações no Cais da Rua.

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Nesta igreja encontra-se a capela do Bom Jesus dos Mareantes, mandada construir em 1511 às expensas de alguns caminhenses. De acordo com a respectiva ficha patrimonial, possui um “Altar em talha dourada do século XVIII (1701), entalhado por Manuel Almeida de Barcelos e dourado por Manuel Fernandes de Oliveira. Inserido na Capela do Bom Jesus dos Mareantes, capela particular da confraria com o mesmo nome, apresenta actualmente apenas 4 esculturas de vulto, a saber: Ecce Homo (localmente conhecido como Senhor dos Mareantes) ou Senhor da Cana Verde, São Sebastião, São Pedro e Santo António”

O culto ao Bom Jesus dos Mareantes em Caminha esteve sempre a cargo da Confraria dos Mareantes cujas origens remontam à Idade Média.

Fotos: Município de Caminha

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NATALE SOLIS INVICTI OU O SOLSTÍCIO DO INVERNO

Todo o mundo cristão celebra por esta altura o nascimento de Jesus, não obstante desconhecerem-se quaisquer referências históricas ou bíblicas que mencionem a data em que tal acontecimento se verificou. Por conseguinte, o Natal é festejado a 25 de Dezembro ou a 7 de Janeiro de acordo com as tradições católica ou ortodoxa, em virtude da adoção dos calendários juliano ou gregoriano. Ora, é nesta ocasião que ocorre o solstício do inverno ou nascimento do sol, precisamente a altura em que os raios solares deixam de decrescer e passam de a aumentar, fazendo de novo crescer os dias em relação às noites.

Desde a mais remota antiguidade que o ser humano adorou o sol, deificando-o e atribuindo-lhe a primazia sobre as demais divindades. Tal sucedeu na Caldeia, na Palestina e no Egipto, aqui adorado sob o nome de Ra. Na antiga Pérsia e na Índia, o deus Sol era designado por Mitra tendo o seu culto dado origem ao mitraísmo que viria mais tarde a rivalizar com o cristianismo a sua influência no Império romano, acabando por vir a sucumbir com a sua queda e mais tarde acabando por desaparecer por completo com o avanço do islamismo na Pérsia. Antes, porém, o mitraísmo fora assimilado pelos gregos e espalhou-se por todo o Império romano. O deus Mitra era geralmente representado por um jovem com um boné frígio, túnica e manto sobre o ombro esquerdo. Esta religião era superiormente dirigida por um sumo pontífice a os seus sacerdotes ostentavam sobre a cabeça uma mitra. Curiosamente, trata-se do chapéu com que os bispos se apresentam quando envergam as vestes pontificais, tendo a sua origem na Pérsia e no Egipto, correspondendo ao turbante e por conseguinte aludindo à adoração de Mitra.

Não admira, pois, que ao culto solar tenha sido sobreposta a adoração ao menino Jesus, sendo-lhe atribuída a data do seu nascimento precisamente numa altura em que os romanos celebravam o natale solis invicti consagrado ao deus Sol, à semelhança do que se verifica com inúmeras festividades pagãs que foram de algum modo adaptadas e "convertidas" à crença cristã. Na mesma ocasião realizavam os romanos as saturnais ou saturnálias que, como o próprio nome indica, eram festividades consagradas a Saturno, trocavam de presentes e organizavam um banquete público, aspetos que de alguma forma podemos relacionar com as tradicionais "festas dos rapazes" em várias localidades de Trás-os-Montes. Aliás, o culto a Saturno chegou a ser muito difundido na Península Ibérica, tendo diversos escritores da antiguidade referindo-se à existência de santuários entre os quais se supõe ter havido um na Ínsua do rio Minho, um local onde atualmente as gentes locais vão em peregrinação ao Senhor Jesus dos Mareantes, fazendo festa rija em Agosto. Saturno era o deus protetor dos semeadores e das sementes, pelo que os romanos acreditavam que durante as saturnais regressava a abundância, assegurando a fertilidade durante essa época do ano.

Ainda em relação ao mitraísmo, também este possuía extraordinárias semelhanças com o cristianismo, entre as quais a crença no céu e no inferno, na ressurreição, nos pastores que tal como os reis magos ofereciam presentes, no dilúvio, na santificação do domingo, na prática da confissão e da comunhão e, finalmente, a própria celebração do 25 de Dezembro!

A celebração do nascimento de Jesus constitui atualmente uma festa que é vivida com grande intensidade pelo povo português e que, apesar da sua significação profundamente religiosa, também não escapa às regras de funcionamento de uma sociedade mercantilizada, virada cada vez mais para os interesses materiais em detrimento dos valores espirituais. Não obstante, as festividades da quadra natalícia encontram-se profundamente enraizadas no nosso folclore revelando-se através das mais diversas manifestações de cariz popular, na gastronomia, na música, nas lendas e de um modo geral em todos os aspetos que envolvem tais celebrações. Não obstante, temos principalmente nos últimos tempos vindo a constatar que tradições oriundas de outros países têm vindo a substituir alguns costumes genuínos do nosso povo, como sucede com a reverência ao "Pai Natal", agora destituído para dar lugar a S. Nicolau, quando outrora as festividades decorriam exclusivamente em torno do "menino Jesus". Da mesma forma que o tradicional presépio cedeu o lugar ao nórdico pinheiro de Natal enfeitado com flocos de neve, mesmo em locais onde jamais nevou...

Carlos Gomes / http://www.folclore-online.com/

DIOCESE DE SETÚBAL EVOCA O BARQUENSE FREI AGOSTINHO DA CRUZ

Frei Agostinho da Cruz: D. José Tolentino Mendonça profere conferência, em Setúbal, a 3 de janeiro

Numa organização da Diocese de Setúbal, através da Comissão para as comemorações do IV Centenário da Morte de Frei Agostinho da Cruz e dos 480 anos do seu nascimento, estará presente no próximo dia 3 de Janeiro de 2020, em Setúbal, o Cardeal D. José Tolentino Mendonça, a fim de proferir uma conferência sobre o frade e poeta arrábido.

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O encontro está marcado para as 17h00 no Salão Nobre da Câmara Municipal setubalense.

Acontecerá ainda um momento musical a cargo do Mediaevus Ensemble, agrupamento que apresentará alguns poemas do homenageado com melodias compostas pelos seus músicos e pelo compositor António Laertes.

A iniciativa tem o apoio da edilidade sadina.

A Comissão das Comemorações para o IV Centenário da morte de Frei Agostinho da Cruz

Fonte: https://diocese-setubal.pt/

ARROLAMENTO DOS BENS CULTUAIS DA FREGUESIA DE ARCOS DE VALDEVEZ

Entre 7 de Setembro e 5 de Dezembro de 1911, procedeu-se ao arrolamento dos bens cultuais da freguesia e concelho de Arcos de Valdevez, constando da Igreja Paroquial de São Salvador.

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Tratou-se de um procedimento imposto pela Comissão Jurisdicional dos Bens Cultuais, um organismo criado a seguir à implantação do regime republicano no ano anterior destinado à expropriação do património eclesiástico.

Refira-se que desde a reforma administrativa de 18 de Julho de 1835 foram criadas as juntas de paróquia para se destacarem da estrutura eclesiástica que remonta à Idade Média, muito embora os seus limites geográficos fossem coincidentes com esta. Com a Lei nº 621, de 23 de Junho de 1916, a estrutura civil das juntas de paróquia passaram a designar-se por juntas de freguesia – de filius ecclesiae – que, ironicamente, quer dizer “filho da Igreja”.

São designados por bens cultuais porque se destinavam ao culto, não devendo serem confundidos com “bens culturais”.

Fonte: ANTT

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FESTIVAL INTERNACIONAL DE JARDINS EM PONTE DE LIMA VAI SER DEDICADO À TEMÁTICA DAS RELIGIÕES

Festival Internacional de Jardins 2020 – As Religiões nos Jardins

A 16ª edição do “Festival Internacional de Jardins de Ponte de Lima” já está a ser planeada. O júri do Festival já selecionou os 11 jardins, num universo de 40 propostas oriundas de 14países de todo o mundo, dos quais são exemplo instituições ligadas ao ensino: Áustria, com propostas oriundas da BokuUniversityof Natural ResourcesandLifeSciences, Vienna; Polónia, com propostas de alunos do curso de Arquitetura da AcademyofFinancesand Business "Vistula" e da VistulaUniversityLandscapeArchitecture Design; Itália,com uma proposta do LiceoArtistico e Musicale "A. Passaglia", de Lucca; Portugal com osalunos da EPRALIMA, curso de Técnico de Design de Interiores e Exteriores; para terminar o Colégio dos Cedros, de Vila Nova de Gaia.

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Como é habitual, as propostas selecionadas pelo júri vão fazer-se representar neste evento, entre os meses de maio e outubro de 2020.

Sob o tema “As Religiões nos Jardins”, o júri reuniu e avaliou criações provenientes de Portugal, Espanha, Escócia, República Checa, França, Inglaterra, Itália, Áustria, Roménia, Sérvia, Noruega, Polónia, Estados Unidos da América e Brasil. 

O evento distinguido internacionalmente em 2013 com o título GardenTourismAwards, no “NorthAmericanGardenTourism Conference”, em Toronto, Canadá, e em 2017 com a distinção “Europe for Festivals, Festivals for Europe”- EFFE Label 2017-2018, aposta na revitalização dos espaços urbanos, na preservação do ambiente e promove as boas práticas do uso dos jardins.

O Festival Internacional de Jardins é um projeto sustentável, visto que consegue manter a essência de preservar o ambiente, utilizando sempre que possível materiais usados em edições anteriores. Os novos jardins juntar-se-ão ao jardim mais votado da edição 2019, “Vertigem (IR) Reversível” de Portugal.

Confira as propostas selecionadas pelo júri para a 16ª edição do Festival Internacional de Jardins.

-Jardim de Osíris,de Oscar Sá e António Carvalho - Portugal

- La Chapelle,de Maria Jesus Mera Gonzaléz - Espanha

- The Dialogue Garden, de Magda Jandová e Viveiros Adoa - Espanha/ República Checa

- Peregrinação,de RecklessOrchard- Inglaterra

- Pandora's Box,de NACL TEAM (Sandro del Lesto, Martina Pappalardo e Silvia Giuffrida)- Itália

- SanctuaryofInvulnerability, de BokuUniversityof Natural ResourcesandLifeSciences, BalintEnyedi, MelanieMitterer e Claudia Wu - Áustria / Roménia

-TheSearching,de Viena, BokuUniversityof Natural ResourcesandLifeSciences, JuliaLinder, JasminLinder e SigridJystad - Áustria / Noruega

- GardenofLife,de Varsóvia, VistulaUniversityLandscapeArchitecrure Design, Mohyi Mahmoud, KarolinaBeinarovicha, TetianaHumeniuk e KhaledIbrahim- Polónia

- EyeofGod, de AgnieszkaBochenska e AleksandraGierko - Polónia

- AllSaintsDayEarthequake,de Thrace Design Studio, Yuliyallieva e Petar lliev- Estados Unidos da América 

- Jardins Religare,de Valter Nu e Valdir Nunes Santana- Brasil

Como aconteceu nas edições anteriores, durante a seleção das criações para o próximo ano, o Júri lançou o tema para o ano seguinte. Assim, em 2021, o Festival Internacional de Jardins de Ponte de Lima terá como tema “ Os Jardins e as Alterações Climáticas”.

ORIGENS E SIGNIFICADO DA COROA DO ADVENTO

A Coroa do Advento constitui um dos símbolos da época do Natal a anunciar o nascimento do Messias. Nos domingos do Advento, considerado o primeiro tempo do Ano Litúrgico correspondendo às quatro semanas que antecedem o Natal, as quais surgem representadas nas quatro velas. A família reúne-se à sua volta para rezar e celebrar. Seguindo a sua liturgia, é acesa a vela que corresponde à respectiva semana, entoando cânticos e fazendo leitura de passagens da Bíblia alusivas ao Advento.

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As origens desta tradição remontam a antigos ritos colares praticados pelos povos europeus através dos quais celebravam o nascimento do Sol ou seja, o solstício de Dezembro, os quais vieram mais tarde a dar origem às saturnais romanas.

A sua forma circular representava precisamente a divindade solar que ocupava um lugar central em todos os ritos pagãos. Durante o inverso, os povos antigos acendiam enormes fogueiras que, simbolizando a luz e o calor em cujo regresso se depositavam as esperanças, aparece simbolizado nas velas que fazem parte dos rituais da nossa fé.

Com efeito, através do rito, os povos antigos celebravam a ação criadora dos Deuses, assegurando dessa forma a ininterrupção do ciclo da vida e da morte num perpétuo renascimento e conferindo ao ritual um cunho de magia.

Porém, partindo de tais costumes e tradições, os cristãos transmitiram a esses povos pagãos uma nova espiritualidade, levando-os a substituir as suas crenças ancestrais. E, desse modo, também a Coroa do Advento adquiriu uma nova simbologia e um novo significado.

Para o cristão, a infinidade do círculo representado na forma circular da Coroa do Advento representa o amor de Deus e a sua eternidade, bem assim como a aliança entre Deus e o Homem.

Os seus ramos verdes simbolizam a Esperança e a Vida na crença da Vida Eterna e da Ressurreição que constitui precisamente aquilo que distingue o verdadeiro cristão.

Carlos Gomes / http://www.folclore-online.com/

CRENÇAS E SUPERSTIÇÕES DO INVERNO

Crenças e superstições em Novembro

Desde sempre o Homem acreditou na possibilidade dos mortos intercederem na acção criadora dos deuses e no próprio ciclo da natureza, contribuindo inclusivamente para o renascimento dos vegetais e das culturas que os demónios e maus espíritos do inverno fizeram desaparecer. Esta crença está na origem de uma infinidade de práticas relacionadas com o culto dos mortos que regra geral se iniciam em Novembro e prolongam-se até à Serração-da-Velha, atravessando as cerimónias solsticiais ou “saturnais” e os festejos carnavalescos.

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Naturalmente, os ritos variam consoante as celebrações em causa mas conservam entre si uma finalidade comum que é o de assegurar que o ciclo da vida e da morte não se interrompa, possibilitando por conseguinte que ao inverno suceda impreterivelmente a primavera. De acordo com as investigações feitas no domínio da arqueologia e da antropologia, acredita-se que as práticas do culto dos mortos tiveram o seu começo na fase de transição da pedra lascada para a pedra polida, sendo disso testemunho os inúmeros monumentos funerários como os dolméns ou antas, inscrições votivas e outros achados. O folclore trouxe até nós inúmeros vestígios desse modo de pensar e dos cultos praticados pelos nossos ancestrais, devendo por esse modo constituir uma importante fonte de estudo.

Pão por Deus! – pedem as crianças na região saloia, percorrendo as casas em alegre peditório. A ladaínha varia contudo de uma região para outra. Por exemplo, para os lados de Braga [Minho] é costume dizer-se do seguinte modo: “Bolinhos, bolinhós, / Para mim e para vós / E para quem está debaixo da cruz / Truz truz“. Na região de Ourém, o rapazio vai pelos casais e suplica: “Ti Maria: dai-me um bolinho em louvor de todos os santinhos!”. E, se a dona da casa é pessoa dada à brincadeira, ao assomar à soleira da porta responde prontamente: “Dou sim ! com uma tranca no focinho …

Por esta ocasião, as pessoas cumprem o ritual da visita aos cemitérios e cuidam das sepulturas dos seus entes queridos. Mas, também em casa é costume em muitas localidades, após a ceia, deixar até ao dia seguinte a mesa composta de iguarias para que os defuntos possam banquetear-se. Em Barqueiros, no concelho de Mesão Frio [Trás-os-Montes e Alto Douro], na noite de Todos-os-Santos coloca-se uma mesa com castanhas para os familiares falecidos, as quais ninguém tocará porque ficam “babadas dos defuntos”. Da mesma forma que o azeite que alumia os defuntos jamais alumiará os vivos. Entre alguns povos do leste europeu conserva-se ainda a tradição de organizar o festim no próprio cemitério a fim de que todos em conjunto – mortos e vivos – possam confraternizar!

A partir desta época do ano, as noites das aldeias são povoadas por criaturas extraordinárias que surgem nas encruzilhadas e amedrontam os notívagos. Uivam os lobos nas penedias enquanto as bruxas se reúnem debaixo das pontes. A prudência aconselha que ao gado se prendam pequenas saquinhas de amuletos que o resguardem do “mau olhado”. O serão é passado à lareira ouvindo histórias que nos embalam num mundo de sonhos e fantasia que nos alimenta a imaginação. E, quando finalmente é chegada a hora de dormir, faz-se o sinal-da-cruz para que o demónio não nos apoquente e a manhã do dia seguinte volte a sorrir radiante a anunciar uma vida nova.

Haloween ou “noite das bruxas”

A celebração nos Estados Unidos da América do Haloween ou “noite das bruxas” mais não constitui do que uma transposição que foi feita do culto dos mortos que os colonos levaram da Europa e que agora nos procuram vender da mesma forma que nos impingem a coca-cola e a comida de plástico que dispensa os talheres que apenas servem a gente civilizada – é a globalização de acordo com o modo de vida americano e que rejeita as diferenças culturais entre os povos.

Mas, o que nos surpreende é que, possuindo o nosso povo riquíssimas e profundas tradições, entre as quais as que se relacionam com o culto dos mortos, ainda exista quem, com aparente formação académica, insista em transmitir nas escolas aos seus alunos costumes que na realidade não lhes pertencem. Trata-se de uma pedagogia de natureza duvidosa que contraria inclusive o princípio da ligação da Escola com o meio que a envolve.

A tradição dionisíaca do S. Martinho

Fazendo juz ao rifão “pelo S. Martinho, vai à adega e prova o vinho“, cumpre-se invariavelmente em Novembro o ritual dionisíaco do S. Martinho. É chegada a altura de inspeccionar os vinhos das últimas colheitas verificando se fermentaram como deviam. Mas é também tempo de magusto com castanhas assadas ou cozidas devidamente regadas com vinho novo, a água-pé e geropiga. Após as avés-marias, a taberna da aldeia adquire uma animação orgíaca muito peculiar que lhe é conferida pelo elevado número de fiéis que ali acorre enquanto o taberneiro, qual sacerdote dionisíaco que altivo se perfila por detrás da ara do balcão como se de um altar se tratasse, serve uma após outra sucessivas rodadas de verdasco numa inebriante comunhão eucarística. A taberna é nos nossos dias como que um templo dedicado a Baco onde o culto é praticado livremente pelos seus iniciados, embora expurgado dos excessos com que tais festins ocorriam ao tempo da Roma antiga.

Como não podia deixar de acontecer, S. Martinho é bastante celebrado no nosso país, particularmente em localidades onde a tradição vinícola mais se faz sentir, algumas das quais lhe consagram inclusivamente feriado municipal. Alijó, Penafiel, Pombal, Torres Vedras e Golegã são disso alguns exemplos. É ainda à famosa lenda segundo a qual, S. Martinho de Tours vendo em pleno Inverno um pobre completamente despido tiritando de frio o agasalhou com metade da sua capa que cortou com a própria espada, que se atribui a origem do chamado “Verão de São Martinho” que geralmente ocorre nesta altura do ano.

Uma vez provados os vinhos e realizados os tradicionais magustos, é também tempo colher a azeitona e levá-la ao lagar, de iniciar a sementeira do trigo e do centeio, plantar cerejeiras e amendoeiras, damasqueiros e videiras, semear os agriões e colocar estacas nas plantas que possam ser afectadas com os ventos fortes de inverno. Em breve chegará o Dezembro e com ele as festas solsticiais e do nascimento de Cristo, as filhozes e as rabanadas, a missa do galo e as zambumbas.

Carlos Gomes / https://www.folclore-online.com/

AS BRUXAS SÃO AS SACERDOTISAS DO PAGANISMO

Quais sacerdotisas dos ritos próprios do culto pagão, as chamadas bruxas desde sempre povoam o nosso imaginário, associado ao mal e representando figuras demoníacas que ao longo dos séculos foram inculcadas nas nossas mentes pela religião Cristã que entre nós viria a impor-se ao paganismo. Tal como a figura de Pã, deus dos bosques, dos campos, dos rebanhos e dos pastores veio ao longo da Idade Média a ficar associada à do Diabo transfigurado na dama pé-de-cabra.

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Proveniente do latim paganus que significa literalmente camponês ou rústico, o paganismo constitui uma forma de expressão religiosa em íntima comunhão com os fenómenos da natureza e profundamente ligado às necessidades espirituais do indivíduo inserido no mundo rural. Prova evidente dessa realidade constitui as tradições que respeitam aos ritos do inverno e ao culto dos mortos, desde os peditórios de “Pão Por Deus” até à “Serração da Velha”, passando pela celebração do solstício de Inverno e o Entrudos, celebrações quase todas convertidas em celebrações cristãs como o Natal, como se de festividades pagãs não se tratassem a sua origem. O mesmo sucede com outras festividades como o Solstício de Verão, com os seus ritos associados ao fogo e transformados em festividades são-joaninas.

Existem entre nós vestígios de antigos santuários pagãos como a do deus Endovélico na região do Alandroal, registando a própria toponímia a sua ancestral influência como sucede com a serra do Larouco, proveniente do deus Laraucus.

Porém, no ano 312 deu-se a alegada conversão do Imperador Constantino ao Cristianismo e, a partir do ano 392, passou o paganismo a ser proibido no Império Romano e consequentemente reprimido e perseguido, sendo essas medidas agravadas com a pena de morte a partir de 435 para quem praticasse ritos envolvendo o sacrifício de animais. Não obstante, o paganismo continuou a praticar-se, de forma mais ou menos discreta, sobretudo entre as gentes que viviam no campo. E a conversão à nova religião trazida pelos invasores romanos não foi tarefa fácil, deparando-se com maiores dificuldades entre os povos de regiões com maior apego às mais ancestrais tradições como se verificou no Minho e em Trás-os-Montes.

Os antigos templos e santuários pagãos foram destruídos para em seu lugar serem erguidas igrejas, o mesmo sucedendo com as encruzilhadas dos caminhos rurais e outros locais de culto nas aldeias que deram lugar a cruzeiros e a pequenos nichos contendo retábulos com as “alminhas” do Purgatório que passaram espiritualmente a aterrorizar as mentes dos humildes camponeses, até então habituados a uma relação mais sadia com a natureza que os rodeavam. Os sacerdotes pagãos conferiram uma nova roupagem às festas pagãs, procurando por esse meio conferir-lhes um novo sentido.

Mas, ainda assim, a religiosidade pagã sobrevive ao lado da nova fé, traduzida na manutenção de velhas tradições como as máscaras transmontanas e as festas dos caretos, o entrudo e as fogueiras de S. João. E, mesmo no Minho onde aparentemente existe forte religiosidade cristã, o que se verifica realmente é uma verdadeira manifestação de exuberância que caracteriza o minhoto, mais não constituindo a festa cristã do que um pretexto para exteriorizar a sua alegria como uma forma de profunda comunhão com a vida e o meio que o rodeia, iluminada por magníficas girândolas de fogo-de-vistas que revelam o seu apego embora inconsciente a antigas práticas religiosas.

Devemos a tais práticas religiosas pagãs os nossos mais profundos conhecimentos de medicina popular no uso das mais variadas espécies botânicas, o saber da meteorologia baseado na observação constante dos fenómenos naturais e da própria astronomia transmitido de geração em geração através de axiomas, a riqueza da nossa gastronomia e um infinito universo de conhecimentos que fazem parte do rico património do nosso folclore.

Com o decorrer do tempo, as perseguições acentuaram-se, tornando-se mais implacáveis durante a Idade Média e sobretudo no período da Inquisição. As sacerdotisas do paganismo eram perseguidas sob a acusação de bruxaria, sempre associada a práticas identificadas com ritos satânicos e talentos que lhes permitiam voar sentadas em rudimentares vassouras…

Nos tempos que correm, tais feitos mais não passam de fantasias literárias e até antigos rituais ligados ao culto dos mortos foram pela sociedade de consumo transformados em motivos de diversão, tal como no passado foram associados ao mal. Mas, o certo é que as bruxas jamais deixaram de existir e o paganismo parece estar de volta!