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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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RETRATOS DA EMIGRAÇÃO PORTUGUESA NA LITERATURA INFANTO-JUVENIL

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  • Crónica de Daniel Bastos

Nas últimas décadas a literatura infanto-juvenil, um ramo da literatura dedicado especialmente às crianças e jovens adolescentes, tem-se assumido concomitantemente como um dos géneros mais apreciados no panorama editorial português e uma relevante ferramenta para a criação de hábitos leitura.

Impulsionados por programas públicos, como o Plano Nacional de Leitura (PNL) e a Rede de Bibliotecas Escolares (RBE) que têm contribuído decisivamente em Portugal para o desenvolvimento de uma estratégia de promoção da literacia no público mais jovem, cada vez mais escritores, ilustradores e projetos editoriais têm apostado na conceção de livros destinados a crianças e jovens adolescentes.

Entre as várias temáticas abordadas, o fenómeno da emigração, uma realidade socio-histórica incontornável na sociedade portuguesa, tem sido alvo de múltiplas abordagens por parte de autores de literatura para crianças e jovens. É o caso, por exemplo, de António Mota, um dos mais conhecidos autores de literatura portuguesa juvenil que em 2012 lançou a obra O Agosto que Nunca Esqueci, um livro recomendado pelo PNL para leitores fluentes dos 12 aos 14 anos, que constitui um retrato da emigração portuguesa dos anos 60.

Recentemente, no passado mês de dezembro, foi apresentado na cidade costeira da Póvoa de Varzim o livro infantil Emigração. Que palavra esquisita!, uma obra assinada por Marta Pinto e ilustrada por Natacha Lourosa, cuja narrativa percorre a história de Clara, uma menina como tantas outras que vê o pai ter de viajar para longe, para outro país, para trabalhar, e que aguarda ansiosa pelo seu regresso.

Ainda nesse mês, a Associação dos Emigrantes Açorianos (AEA), cuja sede funciona nas instalações do Museu da Emigração Açoriana, na Ribeira Grande, ilha de São Miguel, lançou o livro infanto-juvenil Açores, uma caça ao sonho americano, que narra a história dos primeiros açorianos que chegaram aos Estados Unidos da América, por via da caça à baleia, no século XVIII. Com textos de Patrícia Carreira e ilustrações de Romeu Cruz, o livro bilingue que se encontra traduzido para inglês, estará disponível na costa Leste dos Estados Unidos a partir de fevereiro, sendo que as receitas das suas vendas reverterão para a edição de um novo livro, em maio, sobre a história da emigração açoriana para o Canadá, outro dos principais destinos da diáspora açoriana.

OS PARADIGMAS DA SAÚDE

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

A saúde é um dos mais delicados problemas com que Portugal se debate na atualidade. Não era assim no tempo do Estado Novo. Nessa época, a saúde nunca foi questão porque para a esmagadora maioria da população ela apenas não existia. No mundo rural, em boa medida, as populações nasciam e morriam sem que fossem vistas pelo médico ou alguma vez fossem medicadas. “Obrigatório”, in extremis, era a presença do Abade junto dos moribundos para que estes, confortados na alma, partissem sossegadamente em direção ao paraíso desejado.

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Felizmente os tempos mudaram e a cultura da saúde, ao nível comportamental e curativo, foi-se impondo naturalmente. Os indicadores falam por si. Os profissionais da área, que pelo que vamos ouvindo são ainda insuficientes para as necessidades, estão em permanente crescimento. Em 1960 havia no país 79,8 médicos para 100.000 habitantes, mas em 2018 eram 521,8. Já os enfermeiros, no mesmo espaço de tempo e para a mesma população, saltaram de 107,6 para 716,2. Não é por acaso que a esperança média de vida em Portugal, que era de 64 anos em 1960, esteja prestes a atingir os 85. Dai que hoje, e bem, ninguém abdique de ser minimamente respeitado em questões de saúde.  

Todavia, esta realidade coloca-nos problemas novos, especialmente ao nível de custos. Em 1980 o Serviço Nacional de Saúde custava ao erário público 219,1 milhões de euros, mas em 2017 já tinha saltado para 9.693,5 milhões (cresceu 44 vezes). Por cidadão, em 2000 gastava-se 1046,5 euros, mas em 2018 o custo já ia em 1783,9 (quase o dobro em 18 anos). Em percentagem do PIB gastava-se 8,4% em 2000, mas em 2018 o valor era de 9,0%.

Com este quadro, era obrigatório dispor de uma economia pujante de forma a acudir a uma situação que, está provado, impõe diariamente maior suporte financeiro. Mas não temos. Resta-nos, realisticamente, apostar no uso de boas práticas, já que a saúde é vital numa sociedade de valores. Gritar na praça pública com cada um a culpar o outro de responsabilidades, banalizar o insulto, opinar a esmo e sem sentido nas redes sociais e ter tantos outros comportamentos pouco atinados em nada ajuda. Os agentes da política e da saúde, as forças vivas da sociedade e os cidadãos em geral têm que criar entendimentos mínimos sobre procedimentos e objetivos, no sentido de que a nossa saúde mantenha os valores de qualidade que afortunadamente ainda vai tendo.

goncalofagundes@gmail.com

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VIDAS SEM FRONTEIRAS

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  • Crónica de Daniel Bastos

Já não é novidade para ninguém que as novas tecnologias estão a mudar a forma como vivemos em sociedade. Uma “sociedade em rede” marcada pela constante revolução digital impulsionada pela internet, ferramenta de trabalho que ao possibilitar uma rápida difusão do conhecimento e informação transformou o mundo numa grande aldeia global.

O uso desta poderosa ferramenta do homem está, por força disso mesmo, cada vez mais presente na experiência emigratória portuguesa espalhada pelos quatro cantos de um mundo incontornavelmente digital e interconectado. Como assinala Cátia Ferreira, investigadora no Centro de Estudos de Comunicação e Cultura (UCP) e no Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (ISCTE), num relevante artigo publicado no final da década transata intitulado Identidades lusófonas em rede: importância da internet na relação dos emigrantes portugueses nos EUA com a cultura de origem, a “forma como os emigrantes portugueses comunicam está a mudar, o recurso à internet parece estar cada vez mais generalizado. Este novo meio de comunicação é apontado por muitos emigrantes como um dos meios mais utilizados no contacto com a cultura de origem, promovendo assim situações de diálogo intercultural que fomentam o desenvolvimento de identidades em rede”.

Um dos exemplos paradigmáticos das potencialidades do “diálogo intercultural” e das “identidades em rede” impelido pelo uso da internet no seio do fenómeno migratório nacional, encontra-se vertido na plataforma online “Vidas Sem Fronteira”, que pretende formar uma rede de participantes que queiram partilhar experiências interessantes para o sucesso de uma emigração.

Dinamizada por duas amigas, mulheres e mães portuguesas, Joana Barbosa e Maria Pereira, que se casaram com homens que escolheram carreiras internacionais, opção socioprofissional que contribui para que as famílias de ambas mudem frequentemente de país, a plataforma assume-se como um espaço de partilha de vivências e de contactos para quem, por exemplo, pretenda começar um novo percurso de vida no estrangeiro. Com várias abordagens de temas e assuntos, e com uma rede de participantes onde impera o universo feminino, este projeto singular também presente nas redes sociais, constitui-se essencialmente como uma valiosa plataforma de resolução de dificuldades e desafios entre cidadãos portugueses disseminados pelo mundo.

MILLENIALS, CIDADÃOS DO MUNDO, RELATOS DA NOVA DIÁSPORA

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  • Crónica de Daniel Bastos

Numa época em que se assiste a um surgimento cada vez maior de obras dedicadas à temática da emigração portuguesa, sintomático da importância que o fenómeno assume no país, o ano que agora termina assinalou recentemente o lançamento do livro Millenials, cidadãos do mundo, relatos da nova diáspora.

O livro, de autoria de Cristiana Lopes, uma emigrante portuguesa atualmente com 30 anos, natural da Gafanha da Nazaré, cidade costeira do concelho de Ílhavo, é baseado na experiência que a licenciada em Gestão pela Universidade de Aveiro empreendeu aos 22 anos. Período em que Cristiana Lopes, agora a viver e trabalhar em Madrid, em Espanha, realizou um estágio profissional na Cidade do México, capital densamente povoada do México, que acabou por ser a sua casa durante cinco anos, e onde conheceu o marido e pai da sua filha.

Ao longo de mais de 200 páginas, a obra que aborda ainda percursos de outros jovens lusos espalhados pelo mundo atual, constitui um relato fidedigno dos desafios e exigências por que passam os novos emigrantes portugueses, isto é, os membros da Geração Y ou millennials. Um conceito sociológico que designa aqueles que nasceram entre os anos de 1980 e 2000, e que no caso português é comummente apontada como a geração mais qualificada de sempre.

As histórias de vida apresentadas no livro acentuam deste modo as diferenças entre a nova e a antiga emigração portuguesa. Uma nova emigração engrossada por um cada vez mais significativo número de quadros com qualificações académicas superiores, já bastante distante da mundividência dos emigrantes portugueses que partiam “a salto” ou de mala de cartão das décadas de 1960-70.

Como apontava no verão passado a revista semanal Notícias Magazine, num interessante artigo sobre Os novos mundos dos emigrantes portugueses, cada vez mais “qualificada, mais bem preparada, com novas ferramentas, outra mentalidade. Sempre conectada aos seus e ao país. A emigração portuguesa está a mudar. Anda pelo Mundo, não se acomoda, cria oportunidades, não se move pela fortuna, parte pelas experiências e pelo enriquecimento pessoal e profissional. Não é escrava do trabalho, aproveita a vida. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”.

JANEIRAS E REIS NO NORTE DE PORTUGAL

A convite do diretor deste espaço, Sr. Carlos Gomes, a quem agradeço, irei deixar algumas palavras a todos quantos se predispõem a ler este razorado de questões e visões sobre algo que muito me tem vindo a preocupar.

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De forma indiscutível, no norte de Portugal, a tradição dos Cânticos ao Menino teve uma abrangência geográfica e social quase nula. 

Nos trabalhos que me tenho predisposto realizar para o Orfeão da Feira, descobrimos recentemente que na Freguesia de Sanfins e Rio Meão, em termos religiosos, existiam novenas pelas 06h00 da manhã, na igreja, onde o terço se rezava e caso houvesse gente com alma para tal, alguns momentos eram cantados. Esta tradição ter-se-á perdido por volta da década de 50 do século passado. 

Curioso o facto da hora e do ajuntamento da comunidade ser muito semelhante ao que ainda hoje se vive com enorme fervor na Madeira, com as Missas do Parto. 

Avançando do religioso para o profano, algo me começa a doer e a causar incómodo. A realização de encontros de Janeiras e Reis dentro de templos religiosos. 

É um tema sensível, dado muitos defenderem que com a retirada do Santíssimo do Sacrário, o templo se transforma numa sala de espetáculo, contudo, na minha forma de ver, esta questão está a provocar nos Grupos sérios problemas que passarei a enumerar para mais fácil análise:

  1. Uma mentira contada muitas vezes, torna-se uma verdade ao fim de algum tempo. Estamos a transmitir para as gerações vindouras que os cânticos de Janeiras e Reis não eram cantados, de porta em porta por grupos, unicamente constituídos por homens, mas sim, nas igrejas e com belos arranjos musicais nada chegados à característica do povo d'antanho. 
  2. É impossível dar as boas festas e pedir a esmola do fumeiro ao patrão da casa, com ele pregado na cruz diante do altar. 
  3. À época de representação, a Igreja, era, ao contrário de hoje, extremamente rígida com a música litúrgica e os instrumentos que eram autorizados para o culto religioso. As formas da Viola Braguesa eram comparadas ao corpo desnudo de uma mulher, pelo que, a sua entrada nos templos religiosos era proibida. Hoje, vemos surgir, com ou sem Santíssimo no Sacrário a festada completa. 
  4. A invenção. Temos todos de ser muito honestos neste meio, mas infelizmente não o somos. De ano para ano, cada vez são mais os Grupos a organizar os seus encontros em templos religiosos e como as questões acima enumeradas começam a ser pensadas, à boa maneira portuguesa, dá-se um jeitinho no problema. Grande parte do reportório apresentado nestes encontros, ou é de autor, não sendo assim Folclore ou então são recolhas de Janeiras e Reis "suavizadas" para poderem estar presentes nestes encontros. 

Recordo com saudade o Encontro de Janeiras e Reis do Rancho Regional Recordar é Viver de Paramos - Espinho, onde uma cozinha de lavrador com tudo que esta merece, e uma equipa de gente com uma queda incrível para o Teatro Etnográfico, faziam-nos transportar para o início do séc. XX e ali ouvíamos as belas ladaínhas das saudações acompanhadas pela viola, testos, pinhas e demais instrumentos que o povo improvisava, os cânticos já dentro de casa a vozes, e as despedidas. 

Somos povo.

A dignidade do espetáculo não fica ferida se o espaço onde o realizarmos tiver condições, quer para o público, quer para os grupos não se verem obrigados a alterar aquilo que absorveram do povo que dizem representar.

Para remate, nada tenho contra os encontros nas igrejas, nas localidades e com grupos que tenham tido nas suas comunidades estas tradições. 

Faço votos de um 2020 feliz e pleno de sucesso. 

Este vosso amigo, 

Fábio Pinto

Folclorista

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A PERSISTÊNCIA COMO PRÁTICA

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Em crónica recente falei do bom aproveitamento do tempo que fazem muitos daqueles que vivem na situação de reforma; de como se valorizam fazendo novas aprendizagens, de como aprendem a viver de forma diferente, de como se sentem úteis e como, tantas vezes, descobrem em si algo que estava escondido. A presente abordagem vai, mais uma vez, para um caso isolado a merecer distinção.

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“O aborrecimento é uma das faces da morte”, dizia o escritor Julien Green (1900 – 1998). Trata-se de um conceito que nos aconselha algum esforço anti tédio e tristeza. Nada melhor por isso que o preenchimento dos tempos desocupados. Há dias constatei isso também com o Arquiteto Fernando Meireles, que considera a arquitetura como coisa do passado e a condição de artista plástico como ocupação do presente. Visitei-o na galeria da Fundação da Caixa de Crédito Agrícola, na rua de Aveiro, onde está patente a sua mais recente exposição, uma mostra deveras interessante, julgo. Trata-se de um pintor cujas exposições costumo visitar. Entendo que procura sempre o novo e aprofunda à exaustão as diversas técnicas da pintura.

Há pintores cuja obra, mesmo que vista espaçadamente, não oferece dificuldades de identificação. Outros há que pela diversidade de estilos e técnicas, estabelecem muitas vezes a dúvida de autoria. Fernando Meireles confessa o seu experimentalismo e a sua insatisfação em relação ao que vai fazendo. Um pequeno vídeo que corre permanentemente na galeria revela-nos isso. Trata-se de uma característica própria de quem ama a arte, princípio que o autor não renega. Ainda bem, porque a sua pintura, pela temática, segurança, aprofundamento de execução e equilíbrio de cores vai surpreendendo positivamente. A obra em presença foi trabalhada na base da técnica mista, com recurso a colagens de desenhos previamente produzidos, de onde emergem figuras musculadas, abstratizantes ou com definição acentuada, esbatida nos contornos pelos fundos de cores fortes e pouco variadas, predominando nestes um geometrismo minimalista.

Estamos assim, ajuízo, perante uma das melhores exposições deste pintor a tempo inteiro, que justifica bem a nota, nada parca em adjetivos, que lhe escreveu para o catálogo de uma das suas mostras Justino Alves (1940/2015), um pintor de méritos, prémio nacional de pintura em 1969. É razão para dizer, Fernando Meireles, que a persistência é o caminho.

goncalofagundes@gmail.com

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A (RE)CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DOS LUSODESCENDENTES

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  • Crónica de Daniel Bastos

Em cena desde 21 de novembro, o musical “Fado – A Música mais Triste do Mundo”, uma peça composta pela dramaturga Elaine Ávila, professora de teatro do Douglas College em Vancouver, na costa oeste do Canadá, que retrata as barreiras linguísticas e culturais dos lusodescendentes, despediu-se no final da semana passada do palco do Firehall Arts Centre, localizado na mesma metrópole.

Segundo informações veiculadas pela dramaturga, filha de emigrantes açorianos, à imprensa, a peça teatral foi inspirada em histórias de vida de membros da comunidade portuguesa em Vancouver. Nomeadamente associados do Centro Cultural Português de Burnaby, na Colúmbia Britânica, a província mais ocidental do Canadá, onde se estima que vivam aproximadamente 35 mil portugueses e lusodescendentes.

Histórias de vida, nas palavras da luso-canadiana, de quem por exemplo, com “14 anos saiu de casa e veio trabalhar para o Canadá atravessando meio oceano, ou que viram pela primeira vez neve, que foi como que flores a caírem do céu”. Assim como, da sua própria trajetória de vida, testemunhando a mesma que quando “imigramos para um novo país, todos nós corremos o perigo de perdermos a nossa cultura, a própria língua, o que me aconteceu nos Estados Unidos, pois há muita pressão de fingirmos que não somos portugueses”.

Num país tão fortemente marcado pelo fenómeno migratório, tanto que se encontrarão na atualidade cerca de 5 milhões de portugueses e lusodescendentes espalhados pelos quatro cantos do mundo, a problemática da (re)construção da identidade dos lusodescendentes tem captado nos últimos anos a atenção de vários especialistas sobre a emigração lusa, alguns deles provenientes inclusive do espaço da lusodescendência.

Um desses exemplos paradigmáticos encontra-se vertido na tese de doutoramento da socióloga Heidi Martins. Nascida na Suíça e filha emigrantes de transmontanos, a lusodescendente concluiu o seu grau académico na Universidade do Luxemburgo, uma instituição de ensino superior de investigação multilingue e de foco internacional, com um trabalho dedicado à questão de identidade e sentimentos de pertença de filhos de emigrantes portugueses no Grão-Ducado. Nação europeia, onde os filhos da pátria de Camões são a comunidade estrangeira mais numerosa, contabilizando sensivelmente 95 mil pessoas, ou seja, cerca de 15% da população total.

A MÁ GESTÃO DA PROPAGANDA

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Miguel Sousa Tavares costuma dizer, com alguma lógica, que por vezes o melhor da televisão é a publicidade. Tenho critérios próprios sobre matéria publicitária e a sedução pelo que nos é sugerido muito pouco me toca. Contudo, não deixo de reconhecer que há anúncios de produtos onde a criatividade é manifesta, a demonstrar que temos bons criadores, bons designers e bons produtores artísticos.

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O cartaz é outro instrumento de propaganda onde a imaginação se pode evidenciar. Vem de tempos a sua produção. O Estado Novo, através do SNI, pela mão de António Ferro (1895/1956), para promover o regime e o país produziu cartazes que hoje são considerados preciosidades. É um encanto olhar os concebidos por Almada Negreiros e outros grandes artistas, independentemente do interesse da mensagem propagandeada. Não menos encantadores são os dos vinhos Ramos Pinto, no mercado desde 1880. “Os Vinhos do Porto de Adriano Ramos Pinto dão alegria aos tristes e audácia aos tímidos”, diz um dos mais antigos cartazes deste produtor, com recurso, como muitos outros, ao elemento feminino em poses sensuais.

A revolução de 25 de Abril de 1974, com a instalação da liberdade e a criação de organizações múltiplas, em especial os partidos políticos, fez do cartaz um elemento de uso corrente. Tudo começou com muito improviso à mistura, mas a aposta regular neste suporte propagandístico fez imperar a qualidade, particularmente no arranjo gráfico. Hoje, com características bem diferentes do que antigamente se fazia, temos cartazes de superior qualidade, produzidos por designers que são já referência extrafronteiras.

Porém o uso do cartaz, independentemente do tipo e formato, tem obrigatoriamente que ser bem gerido. E aqui quase ninguém cumpre regras mínimas. Os partidos políticos, então, são uma vergonha. As últimas eleições aconteceram a 6 de outubro passado, mas não faltam no espaço urbano cartazes a anunciar candidatos e propostas como se o ato eleitoral não tivesse já decorrido. Nos mupis (mobiliário urbano para a informação) distribuídos pela cidade, uma das faces, a menos visível, está ao serviço do Município. Acontece que boa parte das mesmas estão a anunciar iniciativas que já aconteceram há larguíssimo tempo, algumas há anos. Assim não se faz boa informação nem se respeita os elementos informativos no que eles tem de melhor, que é a conceção e a mensagem.

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MIGRAÇÕES E ESTADO-PROVIDÊNCIA

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  • Crónica de Daniel Bastos

No final do passado mês de novembro decorreu no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL) a primeira conferência no âmbito dos 10 anos do Observatório da Emigração, dedicada ao tema “Migrações e Estado-Providência”.

No decurso do colóquio, que contou com a participação de cientistas sociais do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES), do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT), e do Professor do Centro de Estudos de Etnicidade e Migrações da Universidade de Liège, Jean-Michel Lafleur, que se tem debruçado sobre as formas como os migrantes transfronteiriços lidam com os riscos sociais em áreas como a saúde e o desemprego, uma equipa do IGOT constituída por Jennifer McGarrigle, Bruno Machado, Maria Lucinda Fonseca e Alina Esteves, defendeu nas palavras desta última investigadora que “Os emigrantes têm uma perceção muito incompleta do país para que vão”, em particular quanto ao funcionamento dos mecanismos sociais.

A conclusão expressa pela investigadora Alina Esteves, que alcançou eco na imprensa nacional, ou não fosse Portugal um país profundamente marcado pela emigração, é sustentada nos resultados que a equipa obteve através do projeto Mobile Welfare – Regimes de Segurança Social na Europa na era da mobilidade. Um projeto que criou sinergias entre o Instituto Demográfico Interdisciplinar da Holanda (NIDI), o Instituto Internacional para a Migração da Universidade de Oxford, o Centro de Investigação para as Migrações da Universidade de Varsóvia e o IGOT, e que levou a equipa lusa a realizar, ao longo de três anos, 39 entrevistas a cidadãos britânicos em Portugal e a cidadãos portugueses no Reino Unido.

A investigação permitiu aferir que as motivações que têm impelido a emigração portuguesa para o território britânico, um dos destinos mais procurados pelos emigrantes lusos nos últimos anos, entroncam nas categorias económicas e de realização pessoal, e que o aumento hodierno de residentes britânicos em Portugal, estima-se que o número de cidadãos do Reino Unido a viver em Portugal ultrapasse os 25 mil, não é alheio ao custo de vida baixo. Concomitantemente, como anotam os investigadores, quer os portugueses no Reino Unido, como os britânicos em Portugal, esforçam-se por criar redes de segurança para percalços que surjam nas suas trajetórias de vida.

NUNCA É TARDE PARA APRENDER!

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Valorizar experiências e adquirir novos conhecimentos pode acontecer em qualquer fase da vida. Diz-se, e bem, que só é culturalmente pobre quem teima em não querer aprender. Infelizmente, com o evoluir da idade muita gente tende a privilegiar o ócio, abdicando de uma existência ativa e enriquecedora. Quando trabalhava, costumava dizer que muitos dos colegas reformados, contrariamente ao que acontecia no seu tempo ativo, estavam a perder dinamismo, quer físico quer intelectual, numa conjuntura que devia ser rica em vivências. Mas há sempre alguém que, neste contexto livre de horários, teima em não se acomodar. Não falta quem se valorize de forma individual ou coletiva, quem aprenda a tocar instrumentos, quem se inicie em línguas estrangeiras, quem se habitue à pintura e quem faça muitas outras coisas.

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Estes dias deparei no rés-do-chão dos antigos Paços do Concelho com uma exposição de fotografia de Luís Carvalhido, meu ex-colega de trabalho. O Luís foi trabalhador administrativo nos ENVC, enquadrado nas rotinas próprias de todas as áreas de serviços. De espirito vivo e insubmisso, notava-se nele que, quando oportuno, haveria de experimentar algo para além do que fazia na sua vida profissional. E foi a fotografia que o atraiu, provavelmente o hobby a que se dedicava desde muito novo.

A mostra em presença mostra-nos um fotógrafo suficientemente maduro mas, assumidamente, em duradoura aprendizagem, próprio de quem compreende que a perfeição é inatingível, mesmo para quem é exaustivo no que faz. O que se vê na produção do Luís Carvalhido já não é a fotografia/retrato fruto da boa utilização dos equipamentos fotográficos, de objetivos bem definidos e de enquadramentos adequados, obra que desperta imediato interesse a quem a observa. O que vemos nesta exposição prima pela diferença, já que se trata de fotografia trabalhada com sentido e objetividade, que prende o visitante na sua decifração, para a saber interpretar e senti-la num segundo tempo. Trata-se já de obra ousada e desafiadora para quem a observa.

Visto o currículo do autor constante do flyer que acompanha a exposição, bem se compreende o trabalho em presença. Muitos livros publicados, muitos prémios, viagens pelo mundo, formação àqueles que querem ser fotógrafos, enfim, um longo e aturado percurso. Boa e produtiva reforma, Luís. Está provado que o ócio não cabe na tua prática.   

goncalofagundes@gmail.com

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A PROBLEMÁTICA DA EMIGRAÇÃO QUALIFICADA

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  • Crónica de Daniel Bastos

Segundo dados recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE), o ano de 2017 assinalou em Portugal uma diminuição do fluxo emigratório, expressa na saída de 31 mil e 753 portugueses que escolheram o estrangeiro para alcançar uma vida melhor, menos 17% do que no ano transato, período em que saíram 38 mil e 272.

Paralelamente, as estatísticas oficiais apontam que no mesmo ano registou-se um aumento do fluxo imigratório, contabilizado na entrada de 36 mil e 639 cidadãos estrangeiros que adotaram o território nacional como uma nova etapa das suas vidas, mais 18% do que no ano anterior, época em que entraram 43 mil e 353.   

A informação veiculada pelo INE revela deste modo que ao longo dos últimos anos, após recuperação de uma das mais graves crises do país e consequente incremento do desempenho socioeconómico, foi possível no ano de 2017 obter um saldo migratório positivo, invertendo a trajetória de declínio verificada desde o início da década de 2010.

Numa fase da vida coletiva nacional em que se auguram colossais desafios demográficos, ainda no mês passado o Gabinete de Estatísticas da União Europeia (Eurostat), através do documento Ageing Europe 2019, indica que dentro de três décadas cerca de metade da população portuguesa terá 55 anos ou mais, a manutenção deste saldo migratório positivo constitui uma condição “sine qua non” para a sustentabilidade do país.

No entanto, os dados recentes do INE revelam que manutenção deste salto migratório positivo está longe de ser um dado adquirido, porque além do mesmo ter que ser complementado com o crescimento da taxa de natalidade, que continua a ser das mais baixas da União Europeia, a emigração qualificada continua a engrossar o fluxo migratório nacional.

Nesse sentido, enquanto o país continuar envolto num inverno demográfico, e a assistir à “fuga de cérebros”, ou seja, à saída de emigrantes altamente qualificados, nas palavras abalizadas do Professor catedrático da Universidade de Coimbra, Rui Machado Gomes, “um dos fenómenos mais controversos da sociedade portuguesa contemporânea”, e não sendo o mesmo compensado pela entrada de pessoas com qualificações equivalentes, a competitividade, o progresso, a sustentabilidade e o futuro de Portugal continuarão perturbantes.

COMPARAR O INCOMPARÁVEL

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Ainda há quem teime em comparar o país do Estado Novo com o tempo pós 25 de Abril, tentando convencer-nos de uma situação financeira mais vantajosa antes do que a verificada presentemente. Basta uma pesquisa rápida à internet para que logo se encontre teóricos, aparentemente sabidos, a tentar provar o improvável. Munidos de um conjunto de quadros e gráficos, tentam fazer um paralelo entre os dois períodos na base da evolução do PIB português, comparando-o com as economias mais avançadas do mundo. Jogando com os números, tentam subverter realidades, passando um atestado de menoridade a quem sentiu na pele os efeitos da política de má memória de Salazar e Caetano.

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Os indicadores, em todos os domínios, são uma ferramenta de estudo importante para nos informar e saber compreender da bondade ou nem tanto das gestões com que nos confrontamos. Mas é preciso ser sério nestas abordagens, já que é sempre possível manipular os dados de acordo com os interesses que defendemos e assim ludibriar incautos. Mais importante que os valores económicos e financeiros são as formas de vida que teve quem viveu os dois períodos em questão.

Há dias, um amigo que tem negócio de porta aberta dizia-me que se confronta regularmente com clientes a perorar sobre este tipo de teses. “Para esses, sem rodeios e abstraindo-me de juízos teóricos e grandes perdas de tempo, eu tenho argumentos fáceis”, dizia-me. Meia dúzia de perguntas e o assunto fica arrumado: “Nesse tempo que lhe deixa saudades, andou descalço em dias de neve; socorria-se da sopa dos pobres, em filas intermináveis para apanhar uma malga de caldo de couves e unto, que só chegava para metade dos enfileirados; andava esfarrapado, com calças mal remendadas para, sem o conseguir, iludir um frio de tolher os ossos; estudou numa escola gelada, de vidros partidos e sem casas de banho, onde só se sabia reprovar; fazia percursos intermináveis a pé porque não havia transporte e o que havia era caro; defecava no meio da horta, com a chuva a bater-lhe no rabo; tomava banho com água fria de balde e só no verão porque no inverno o coração não resistia; alimentava-se, esporadicamente, com sopa, broa e sardinhas, quando as havia? Não passou por isto, pois não? Olhe, mais de 50% dos portugueses, tal como eu, por isso passou. “E a conversa morre aqui”, termina o meu amigo. De facto, não vale a pena argumentos para realidades tão evidentes.

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MEMÓRIAS DA EMIGRAÇÃO E DAS COMUNIDADES

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  • Crónica de Daniel Bastos

No âmbito das comemorações do 25.º aniversário da Direcção-Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas (DGACCP), estrutura central do Ministério dos Negócios Estrangeiros aprovada pelo Decreto-Lei  n.º 48/94, de 24 de Fevereiro, que coordena e executa as ações relativas à política de apoio às Comunidades Portuguesas, o governo português lançou no início do ano a iniciativa “Memórias da Emigração e das Comunidades Portuguesas”.

A ação, dinamizada pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - NOVA FCSH, tem como principal objetivo identificar, mapear, registar e patrimonializar os testemunhos de vida, as memórias e objetos de todos aqueles que participaram e participam da diáspora portuguesa, constituindo um espaço de encontro e de reflexão acerca do importante papel das comunidades portuguesas no mundo.

A iniciativa de enorme alcance e relevância, dado que simultaneamente procura dignificar e reconhecer a herança e as potencialidades das comunidades portuguesas, é aberta à participação de todos que se revejam nestes compromissos, e que queiram contribuir com as suas histórias e recordações para uma melhor compreensão da memória e a identidade de Portugal no Mundo.

Uma das iniciativas mais notórias ligadas a este projeto colaborativo decorreu na semana passada, entre os dias 13 e 15, no decurso do 1º Encontro “Memória para todos: História, Património e Comunidades”, no Teatro Aberto, em Lisboa.

Organizado pelo Centro República e o Instituto de História Contemporânea da NOVA FCSH em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa, o 1.º Encontro “Memória para todos: História, Património e Comunidades”, reuniu diferentes agentes, projetos e atividades empenhados na identificação, organização, curadoria, investigação e divulgação da memória e arquivos de e para comunidades.

Entre as várias participações, destacou-se a do Professor Emérito de Sociologia da Universidade de Essex, Paul Thompson, um dos pioneiros da História Oral, que na obra “A Voz do Passado”, sustenta, inclusive ao nível das comunidades migrantes, que “a história oral devolve a história às pessoas, nas suas próprias palavras. E ao dar-lhes um passado, ajuda-as também a caminhar para um futuro construído por elas mesmas”.

CONTRADIZER PARA ESCLARECER

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

A comentar a minha crónica de 31/10/2019, na qual abordava a insuficiente organização da nossa sociedade, um leitor teve a amabilidade de me “censurar” por email. Quando se escreve estamos sempre expostos à divergência, mas é na base do desacordo que fazemos debate e aprofundamos o esclarecimento. Quando criticamos e sugerimos devemos ser bem-intencionados e pedagógicos, nunca abdicando, contudo, de ter opinião.

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Voltando ao leitor, este acha que é uma realidade a nossa pouca organização no trabalho. Porém, ironicamente, foi dizendo que, em matéria de eficácia, os ENVC não devem figurar como o melhor exemplo, já que esta nunca foi uma empresa lucrativa, tendo por essa razão acabado nas mãos de privados, agora sem problemas e a funcionar bem.

É fácil contrariar esta teoria, mas não em artigo curto, que se deseja enxuto porque já ninguém tem paciência para densas e longas leituras. No entanto, deixo pequenas notas para reflexão de todos os que têm visão idêntica. Diz-me este interlocutor que “não basta saber construir bem os navios, já que as empresas têm como principal objetivo o lucro”. Não há verdade mais evidente. Uma empresa que acumula prejuízos, salvaguardando as de objetivo social, não tem futuro. É um conceito que interiorizei para a vida.

Constatando realidades, a crise na construção naval a nível mundial já era patente na década de 1970, portanto há mais de meio século. As razões, em boa medida, assentavam na distorção do mercado internacional, com uma oferta superior à procura, resultante da entrada forte no negócio, a baixo preço, dos países do continente asiático, situação que ainda prevalece. Daí que já se possa considerar um feito para os ENVC ter resistido tão longo tempo, sabendo contornar obstáculos incomensuráveis. Isto conseguindo períodos áureos como, por exemplo, os resultados financeiros de excelência na década 1980/1990.

A construção de um navio exige inteligência, conhecimento, organização, planeamento, esforço e, distintamente, interligação de atividades, para que resulte em obra superiormente qualificada. E isso, pelo menos noutros tempos, aqui fazia-se bem, todavia com custos que o mercado teimava em não suportar, sendo este um desafio de difícil superação. Quando trabalhava costumava dizer que, mesmo em crise, os ENVC poderiam ser a melhor empresa do mundo. Mantenho esta convicção. A história nos dirá se sim ou não.

goncalofagundes@gmail.com

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MAR DE SONHOS – A EMIGRAÇÃO NOS VAPORES TRANSATLÂNTICOS

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  • Crónica de Daniel Bastos

O Centro Português de Fotografia (CPF), instituição pública que assegura a conservação, valorização e proteção legal do património fotográfico nacional, no âmbito das suas dinâmicas dispõe de uma exposição itinerante que retrata a época em que a ligação entre o continente europeu e americano era feito por navio.

A exposição intitulada “Mar de Sonhos – a emigração nos vapores transatlânticos”, assenta em 22 fotografias, datadas do início do século XX, de autoria de Aurélio da Paz dos Reis (1862-1931), um importante e apaixonado fotógrafo amador, que se tornou também o grande pioneiro do cinema português.

As imagens a preto e branco de Aurélio da Paz dos Reis têm o condão de retratar o ciclo transoceânico da emigração portuguesa na transição para o século XX. Um período histórico nacional, em que a permanência de uma prática agrícola tradicional, uma incipiente industrialização e uma profunda assimetria entre o mundo rural e urbano, o interior e o litoral, levaram a que entre 1855 e 1914, mais de um milhão de portugueses, pressionados pela carestia de vida e baixos salários agrícolas, encetassem uma trajetória transoceânica em direção ao Brasil, aos EUA, à Argentina e à Venezuela.

Procedente do mundo rural e eminentemente masculino, este fluxo migratório, particularmente atraído pelo crescimento económico brasileiro, foi incisivo no Entre Douro e Minho, e sobretudo possível à revolução que se deu na navegação através da transição dos veleiros para os barcos a vapor.

O crescimento da emigração de portugueses para o Brasil esteve na origem, em 1852, da fundação da “Companhia de Navegação a Vapor Luso-Brasileira”, que teve ao seu serviço dois vapores, o “Donna Maria Segunda” e o “Dom Pedro Segundo”, ambos com capacidade para mais de 400 passageiros. Às vantagens da maior capacidade de transporte de passageiros, os barcos a vapor da “Companhia de Navegação a Vapor Luso-Brasileira”, e mais tarde da “Mala Real Inglesa”, que passou a garantir as ligações entre Portugal e o Brasil, aliavam ainda maior comodidade, segurança e rapidez, encurtando o tempo desta viagem transoceânica para menos de um mês.

Os barcos a vapor mantiveram-se até ao alvejar da segunda metade do séc. XX, época em que chegaram a Portugal os navios equipados com propulsão a diesel e se iniciou o ciclo da emigração intra-europeia, o grande meio de transporte dos emigrantes lusos. 

LUÍS ESTEVES, PRESIDENTE DA CASA DO CONCELHO DE CASTRO DAIRE, LEVA AS “CASAS REGIONAIS EM LISBOA” AO COLÓQUIO INTERNACIONAL PROMOVIDO PELO INATEL E O CENTRO DE ESTUDOS DE ECONOMIA PÚBLICA E SOCIAL (CEEPS)

Casas Regionais em Lisboa em Colóquio Internacional - 18 e 19 NOV - Teatro da Trindade INATEL

CASAS REGIONAIS EM LISBOA é tema apresentado no X Colóquio Ibérico de Economia Social do CIRIEC, I Colóquio Internacional de Economia Social da Fundação INATEL, subordinado ao tema genérico ‘Sustentabilidade do Território, Património e Turismo Social’, a acontecer, nos dias 18 e 19 de Novembro, no Teatro da Trindade em Lisboa.

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A comunicação está ao encargo de Luís Esteves, nosso conhecido presidente de direção das Casa de Castro Daire em Lisboa, membro do Conselho Nacional da CPCCRD (Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto) e membro da direção da ACCL (Associação das Colectividades de Lisboa) e sua intervenção intitula-se ‘Casas Regionais em LisboaRepositórios rurais em espaços culturais urbanos’.

O colóquio contará com um primeiro dia, para a participação de especialistas nacionais e internacionais nos temas em apreço e com um segundo dia, para a realização de comunicações por parte de docentes e investigadores provenientes de várias instituições de ensino e investigação, alargando o debate e aprofundando o conhecimento sobre as matérias neste contexto. A abertura cabe aos principais representantes das entidades envolvidas e dos representantes da Comissão Europeia e Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social de Portugal e termina com um concerto Worl Music Concept com Lula Pena (Portugal) e Muzsikás (Hungria).

Luís Esteves dedica a sua investigação de doutoramento, ao fenómeno de estruturas associativas, sem fins lucrativos, do século XX, resultante do fluxo migratório das aldeias para as cidades. Estes espaços urbanos são elementos estruturantes, de identidade e memória, arquivos de herança rural, enriquecedores do património histórico e cultural. Aspiração de ‘reaportuguesar’ Portugal num país idealizado, por meio das atividades realizadas em coletivo de ritos e rituais, por via da recolha do folclore e levantamentos etnográficos dos usos e costumes dos antepassados. Estudo de investigação-ação, inserido num modelo etnográfico que revela as práticas do migrante português como ser intermediário do reconhecimento e transmissão do seu próprio património. Principais atores de promoção e divulgação da cultura tradicional e popular portuguesa na capital lisboeta, incluindo a salvaguarda e produção da documentação geral mais significativa.

Através da análise em campo, as Casas Regionais em Lisboa funcionam como locais de sociabilidade, pontos de encontro, que implicam simultaneamente os modos de interação na vida quotidiana e suas formas de agrupamento permanente cujos estatutos e modos de funcionamento são núcleos geradores de iniciativas próprias, aglutinadores de vontades, universo de dirigentes e dirigidos, possuidores de organogramas semelhantes. O que torna possível a afirmação da singularidade de cada uma destas Casas Regionais como repositório de uma tradição que tem na sua fonte um complexo de valores de património ético comum com o qual os associados se identificam e em torno do qual se mobilizam. São estes valores que fazem a diferença, a defesa de interesses e promoção de temáticas de relevo para as regiões, manifestações evidentes da sociedade organizada, ou seja, como expressão da sociedade civil, fator de estabilização e pacificação de caráter intergeracional que assenta em larga medida nos laços dos afetos que radicam na cultura, valores, modos de ser e de estar. 

PARADOS NO TEMPO

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Há anos atrás, um amigo abordou-me para que fizesse um escrito a favor da instalação de uma pista de skate na nossa cidade. Tinha um neto entusiasta por esta prática que acabara de ser detido no espaço citadino por agentes da PSP, criando uma situação incómoda, quiçá caricata, pelos contornos que envolveu. Vim a saber mais tarde que, perante diligências de vários pais, havia promessas da parte de vereadores municipais de que a construção de uma pista em Viana para a prática da modalidade iria acontecer em breve.

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Agora que também tenho gente apaixonada por este hobby (daí uma declaração de interesses da minha parte), perguntei ao meu amigo se o neto ainda era praticante e onde praticava. Resposta rápida: “o rapaz já tem 18 anos, porém a paixão cresceu em harmonia com a idade”. Sorriso nos lábios, entendendo a minha curiosidade, foi adiantando locais onde era possível os miúdos fazerem boas acrobacias. “O meu vai muito para a Galiza, mas por aqui não faltam boas pistas a começar na da Póvoa de Varzim, que prima pela excelência”. Referiu ainda Ponte de Lima e que parques para esta prática era o que por aí mais havia. “Na internet está lá tudo”, rematou. Manifestando pressa, foi-se afastando, mas ao longe ainda foi dizendo: “olha, se estás à espera de que em Viana também haja pista, espera sentado”.

Não foi muito além do que já conhecia. Apercebendo-me da azáfama de jovens casais a preparar passeios para fora da cidade para que os filhos possam fazer boas corridas e dar uns saltos com razoável margem de segurança em parques próprios e longe de olhares reprovadores dos agentes da ordem, já tinha visitado a internet para saber algo sobre a matéria.

Curioso, não resisto a nova consulta. É desta forma que reparo num trabalho sobre o assunto abundante em informação no portal do JN, na página “Local”, de onde extraio e reproduzo este comentário de um praticante da modalidade, de nome Orlando Conde: "menos de um ano depois de ter sido inaugurado, o parque poveiro de skate arrasta gente de todo o Norte do país e até de Espanha. Aos fins-de-semana são às centenas os que enchem este espaço”.

Pois, é por isso que em dias de folga passeamos na nossa cidade e a sentimos deserta. Bonita, sossegada para circularmos à vontade, sem incómodos para os idosos, que também têm direito a dela usufruir, mas tristonha e quase que envergonhada, dando a ideia de acompanhar mal o progresso que o país vai tendo.

Imagem de www.visao.sapo.pt

O FENÓMENO DA EMIGRAÇÃO NA MÚSICA PORTUGUESA

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  • Crónica de Daniel Bastos

A emigração, parte integrante da história e cultura nacional, tem sido ao longo dos anos uma profícua fonte de inspiração para inúmeros cantores, letristas, compositores e artistas, que nos mais diversos estilos musicais têm evocado as agruras da partida e da saudade de quem demanda no estrangeiro melhores condições de vida.

Os mais antigos recordar-se-ão seguramente da voz suave e triste de Adriano Correia de Oliveira que interpretou o “Cantar de Emigração”, com letra de Rosalia de Castro e música de José Niza. Uma das mais emblemáticas trovas do cantor de intervenção, o “Cantar de Emigração” constitui um retrato fidedigno da emigração portuguesa “a salto” para França nos anos 60, um período marcado pela saída maciça de jovens, sobretudo do Norte de Portugal, impelidos pela miséria rural, a ausência de liberdade e a fuga ao cumprimento do serviço militar, antecâmara da incorporação na Guerra Colonial.

Esta experiência marcante de fuga à pobreza de centenas de milhares de portugueses, que na sua maioria encontraram nos setores da construção civil e de obras públicas da região de Paris, cidade que muitos conheceram como expressa António Barreto “antes de ir a Lisboa ou de ver o mar”, seria celebrizada nos anos 80 com o tema “Um Português (Mala de Cartão) ” de Linda de Suza, uma das mais afamadas cantoras lusas, emigrante em França. Ainda em terras gaulesas, os anos 90 assistiram ao sucesso entre a comunidade portuguesa de Graciano Saga, um cantor popular que ficou conhecido com músicas sobre a Diáspora, de que se destaca o tema "Vem devagar emigrante" e "Amiga Emigrante".

A influência do fenómeno da emigração na expressão musical portuguesa não se cinge ao passado mais recente ou às canções de intervenção e música popular. A multiplicidade de projetos musicais onde está retratada na atualidade a temática da emigração vai desde o Fado e a Pop, singularmente representada em 2013 no dueto de Pedro Abrunhosa com o fadista Camané, que no tema “Para os braços da minha mãe” abordam a nova vaga de emigração; até ao Rap, discurso rítmico com rimas e poesias que o rapper brigantino Jorge Rodrigues e a cantora Vanessa Martins usaram em 2016 na música “Filha de emigrantes”, uma composição que retrata a vida hodierna dos emigrantes e a saudade que sentem da família e do país de origem.

TRABALHO COM SUCESSO SÓ DE FORMA ORGANIZADA

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

É consabido que mais importante que trabalhar muito é trabalhar bem. E o bem, neste contexto, significa organizadamente, com método e com sentido. Um trabalho executado de forma exaustiva e em desordem pode ser menos produtivo do que aquele que, menos fatigante, teve a vantagem de ser previamente estudado.

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Quando se afirma que não somos aqui o mesmo povo que somos no estrangeiro, porque mais produtivo fora do que em Portugal, não julgamos bem. Somos na verdade a mesma gente, só que a operar em conjunturas diferentes. Qualquer trabalhador, mesmo que indiferenciado, inserido numa atividade organizada, não tem formas de inverter cadeias e obstar a produção. O contrário acontece a trabalhadores qualificados e briosos a operar em contexto desorganizado, já que dificilmente conseguem impor bom ritmo laboral.

Mais nociva ainda é a desorganização em trabalhos diferenciados mas com interdependência. Nenhuma organização, seja ela empresa, instituição ou estado, atinge valores de boa eficácia sem interligar adequadamente as tarefas a executar. Os ENVC eram exemplo no trabalho bem planificado, porque nunca falhavam no cumprimento dos prazos das encomendas contratualmente acordadas, algo complexo e de difícil observância, já que o circuito de construção de um navio passa por uma rede complexa de serviços, atividades e pessoas com técnicas diferenciadas, mas onde a interação figura como exigência superior.

O oposto vê-se, por exemplo, nos trabalhos de limpeza ou execução de obras levados a cabo pelos serviços municipais na nossa cidade. Na limpeza, de noite ou de dia cortam-se ervas, juntam-se detritos de diversa ordem, por vezes amontoam-se, outras nem isso, e deixa-se ficar para que alguém os venha recolher. Como a recolha só se faz decorridos vários dias, quando a operação se realiza já não há lixo a remover porque este já foi levado pelo vento, com todas as consequências daí inerentes. Na execução de obras acontece a prática da delonga. Quantas vezes observamos uma obra que se inicia, com perturbações de trânsito e incómodos de outra ordem, castigando duramente os cidadãos, que por falta de planeamento consome tempo que nunca deveria consumir. Dá que pensar constatar progressos em muitas práticas e observar situações onde teimamos em regredir. Assim, dificilmente nos juntamos aos primeiros. É pena porque temos condições para ser melhores.

goncalofagundes@gmail.com

A ARTE DO NOSSO QUOTIDIANO

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Anton tchekhov dizia que as obras se dividiam em duas categorias: as que lhe agradavam e as que não gostava. E que sobre arte não conhecia outro critério. Considerado um dos maiores escritores russos, Anton tchekhov (1860/1904), supostamente via a arte de uma forma linear: gostando ou não. É curioso porque se trata de um conceito universalmente perfilhado por boa parte dos cidadãos. Só que Tchekhov saberia apreciar o melhor do ponto de vista estético, percebendo bem onde estava a qualidade, em oposto ao que acontece com muita gente. Considerações à parte, só de forma esforçada entendemos suficientemente a arte que, para além de conhecimentos básicos, passa por observação cuidada e preocupação em entender a sensibilidade do artista expressa na obra. E nem sempre as primeiras observações e gostos resultam bem na escolha.

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No tempo do Estado Novo, Viana promoveria, quando muito, uma dúzia de exposições em cada ano. Hoje, pelo contrário, há galerias em suficiência, públicas e privadas, em variados pontos da cidade, expondo formas artísticas diversas, de diferentes autores, vianenses ou não. Não faltam mostras para saber o que os artistas vão fazendo e o que pretendem mostrar-nos. Com ou sem formação artística superior, mais ou menos exigentes, figurativos ou com contornos abstratizantes, todos apresentam arte e todos gostam de ser visitados. Nunca perdemos nada em ir até eles, mesmo os que não passam de um certo amadorismo, porque jovens iniciados.

Há dias estive na Galeria Noroeste da Fundação da Caixa Agrícola, na Rua de Aveiro. Também ali se expõem temáticas alternadas, até porque o espaço a isso se proporciona. Presentemente, estão patentes trabalhos do Arquiteto Marques Franco, mostra denominada “Tresleituras II”. Alguém me tinha dito, de forma não depreciativa, que se tratava de uma exposição de artesanato. Mas o que ali temos é uma mostra bem interessante. Não de pintura, mas de pequenas esculturas em madeira, tendo como tema figuras e trajes tradicionais do Minho, e alguns, poucos, cabeçudos. Só que é tudo bem diferente do que, habitualmente, neste âmbito, por aí se faz. Ali está bem patente a técnica, a ousadia, a criatividade e o bom gosto. Vê-las é um desafio, tal como as figuras, pela pose, nos interpelam a nós. E já que se falou de artesanato, ninguém desdenharia ter em casa algumas peças da artesã Rosa Ramalho, julgo.

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