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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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MONUMENTOS AOS COMBATENTES DA GUERRA DO ULTRAMAR NAS COMUNIDADES PORTUGUESAS

  • Crónica de Daniel Bastos

No decurso do mês de fevereiro assinalam-se os 60 anos do início da Guerra do Ultramar (1961-1974), um período de confrontos bélicos entre as Forças Armadas Portuguesas e os Movimentos de Libertação das antigas províncias ultramarinas de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, que constitui um dos acontecimentos mais marcantes da história nacional e africana de expressão portuguesa do séc. XX.

Um conflito bélico dramático, trágico e traumatizante para mais de um milhão de portugueses, que prestaram serviço militar nas três frentes de combate, onde tombaram cerca de 8.300 soldados, assim como para as populações angolanas, guineenses e moçambicanas, cujo número total de vítimas, entre guerrilheiros e civis, terá sido superior a 100 mil mortos.

A densidade vivencial e o impacto da também conhecida como Guerra Colonial na sociedade portuguesa têm sustentado ao longo das últimas décadas a inauguração no território nacional de inúmeros monumentos de homenagem aos militares mortos, e que rondam já cerca de três centenas.

No cômputo da lista de monumentos alusivos aos Combatentes da Guerra do Ultramar, que se encontram assinalados pela Liga dos Combatentes (LC) no livro “Monumentos Aos Combatentes da Grande Guerra e do Ultramar”, grande parte deles construídos no séc. XXI, e que segundo o tenente-general Chito Rodrigues, Presidente da LC, são “a expressão de um sentimento profundo nacional acerca do que foi a guerra colonial e dos sacrifícios que o povo português fez nesse conflito", destaca-se ainda a existência de quatro monumentos construídos no seio das comunidades portugueses no Canadá e nos Estados Unidos.

No Canadá, onde se estima que na atualidade vivam mais de meio milhão de luso-canadianos, o primeiro monumento a ser erigido em memória dos combatentes que tombaram na guerra do Ultramar foi inaugurado em 2009, na cidade de Winnipeg, capital da província de Manitoba.

Projetado pelo arquiteto português Varandas dos Santos, o memorial impulsionando pela Associação Portuguesa de Veteranos de Guerra de Manitoba e Núcleo da Liga dos Combatentes de Portugal em Winnipeg, e concretizado com o apoio da Província de Manitoba, da Liga dos Combatentes, da Comunidade Luso-Canadiana, da Associação Portuguesa de Manitoba e da Chapel Lawn Memorial Gardens, invoca os militares do passado, presente e futuro.

Em 2012, a cidade de Oakville, junto a Toronto, capital da província de Ontário onde se estima que vivam mais de 20 mil antigos combatentes da Guerra do Ultramar, assistiu à inauguração, no cemitério Glen Oak Memorial Garden, de uma estátua em homenagem aos militares portugueses e canadianos mortos em situações de guerra.

O monumento, concebido em conjunto pelo arquiteto Varandas dos Santos e pelo comendador José Mário Coelho, e impelido pela Associação dos Ex-combatentes do Ultramar Português no Ontário, foi instalado no talhão denominado “Nossa Senhora de Fátima”. O monumento, que contou com apoios financeiros da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas e da Liga de Combatentes de Portugal, sobressai pela existência de vários elementos, dos quais se destacam uma Cruz de Cristo e um capacete de um soldado, tendo ainda a inscrição: “Sacrificados em vida, respeitados na morte”.

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O historiador Daniel Bastos (dir), com um percurso alicerçado no seio das Comunidades Portuguesas, visitou em 2019 o monumento de homenagem aos antigos combatentes da Guerra do Ultramar na cidade de Oakville, junto a Toronto, na companhia do ex-combatente e Presidente da Assembleia Geral da Associação Cultural 25 de Abril em Toronto, Artur Jesus (esq.)

 

Também no território canadiano, designadamente em Laval, cidade da província do Quebeque, região onde o número total de portugueses e lusodescendentes deverá ser superior a 60.000 pessoas, foi inaugurado, no dia 1 de Novembro de 2014, o Monumento aos Combatentes Portugueses. Erigido num espaço fornecido pela Associação Portuguesa de Laval, e impulsionado pelo Núcleo do Quebeque da Liga dos Combatentes, antiga Associação Ex-Combatentes do Ultramar (Angola, Guiné e Moçambique) do Quebeque, o monumento invoca singelamente a memória dos militares caídos no cumprimento do dever.

Ainda na América do Norte, mas já nos Estados Unidos, mais concretamente em Lowell, cidade do condado de Middlesex em Massachusetts, estado que alberga uma grande comunidade luso-americana de origem açoriana, foi inaugurado em 2000 um monumento em memória dos falecidos e ex-combatentes do ultramar português e dos participantes da Revolução de 25 de Abril de 1974. Impulsionado pela numerosa comunidade luso-americana, com especial destaque para Dimas Espínola, uma referência no mundo comunitário luso de Lowell, o monumento teve o apoio resoluto, entre outros, do Portuguese American Center, do Portuguese American Civic League e da Associação de Veteranos de Lowell.

Disseminados pelo território nacional e pelas comunidades portuguesas no mundo, mormente na América do Norte, os Monumentos aos Combatentes da Guerra do Ultramar, observam um dever de memória, pois como relembra o ensaísta francês Joseph Joubert “A memória é o espelho onde observamos os ausentes”.

MARIA BEATRIZ ROCHA TRINDADE: UMA VIDA DE TRABALHO ACADÉMICO SOBRE MIGRAÇÕES

  • Crónica de Daniel Bastos

No decurso das últimas décadas o estudo sobre o fenómeno migratório tem sido profusamente enriquecido com um conjunto diversificado de atividades e trabalhos que têm dado um importante contributo para o conhecimento da emigração portuguesa.

Neste conjunto diversificado de atividades e trabalhos, onde se cruzam os olhares interdisciplinares das ciências sociais, encontram-se, entre outros, livros, artigos em revistas científicas, congressos, conferências, relatórios, dissertações de licenciatura, mestrado e doutoramento.

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Autora, prefaciadora, coordenadora e colaboradora de várias obras relacionadas com a emigração portuguesa, Maria Beatriz Rocha-Trindade (esq.) apresentou em 2017 o livro “Terras de Monte Longo” do historiador Daniel Bastos (dir.)

 

Autora de uma vasta bibliografia sobre matérias relacionadas com as migrações, onde se destacam, entre outros, os livros Sociologia das Migrações (1995), Migrações - Permanência e Diversidade (2009), A Serra e a Cidade - O Triângulo Dourado do Regionalismo (2009) ou Das Migrações às Interculturalidades (2014). E colaboradora habitual de revistas científicas internacionais neste domínio, Maria Beatriz Rocha-Trindade, nascida em Faro, é Doutorada pela Universidade de Paris V (Sorbonne) e Agregada pela Universidade Nova de Lisboa (FCSH).

Professora Catedrática Aposentada na Universidade Aberta, foi responsável pela fundação nos inícios dos anos 90, nesta instituição de ensino superior público, do Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais (CEMRI). Um centro pioneiro na área das Migrações e Relações Interculturais, que conta atualmente com mais de meia centena de investigadores, e que tem dinamizado ao longo dos últimos anos uma intensa pesquisa interdisciplinar e formação avançada na área das migrações e das relações interculturais em contexto nacional e internacional.

O pioneirismo da insigne académica e investigadora está igualmente expresso na introdução em Portugal do ensino da sociologia das migrações, primeiro na Universidade Católica, no curso de Teologia, em 1994, e dois anos depois, na Universidade Aberta, a nível de licenciatura e de mestrado.

Membro de diversas organizações científicas portuguesas e estrangeiras, designadamente da Comissão Científica da Cátedra UNESCO sobre Migrações, da Universidade de Santiago de Compostela, do Museu das Migrações e das Comunidades, criado em 2001 por deliberação do Município de Fafe, e da Comissão Científica do Centro de Estudos de História do Atlântico/CEHA, a Professora Maria Beatriz Rocha-Trindade, coordena presentemente a Comissão de Migrações da Sociedade de Geografia de Lisboa.

Constituída por membros oriundos de vários quadrantes da sociedade que têm estudado e refletido sobre o fenómeno migratório, emigração/imigração, a Comissão de Migrações da Sociedade de Geografia de Lisboa, uma das mais relevantes instituições culturais do país, tem sido responsável pela dinamização de relevantes iniciativas no campo do fenómeno migratório. Como por exemplo, em 2019, quando realizou o colóquio “CPLP - que presente e que futuro?”, ou no ano anterior, o “Fórum Luso-Estudos/ Edição 2018”, o seminário “Enologia, Mobilidade e Turismo” e a conferência “Jornalismo para a Paz em contexto de mobilidade”.

O percurso de vida singular e o trabalho académico laborioso da Professora Catedrática Maria Beatriz Rocha-Trindade, Titular da Ordre National du Mérite, de França, com o grau de Chevalier, da Medalha de Mérito do Município de Fafe e da Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública, de Portugal, estão sublimemente sintetizados nas palavras do docente e investigador Jorge Malheiros, no prefácio da obra Das Migrações às Interculturalidades: “a investigação em migrações em Portugal não seria a mesma coisa sem a Professora Maria Beatriz Rocha-Trindade”.

DEMOCRACIA COM FALHAS?

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  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Perdemos a condição de democracia plena, para passarmos a ser considerados como cidadãos de um país com falta dela. Isto é o que nos diz um Estudo da revista The Economist, entidade que avalia a qualidade da democracia no mundo. Um dos argumentos apresentados para tal é atribuído à pandemia e aos confinamentos a que esta nos obriga, razão porque, dizem, também outros países foram penalizados. Depois, há ainda outras razões, a saber, os debates com o primeiro-ministro no Parlamento, que eram quinzenais e passaram a bimestrais, e a pouca transparência no processo de nomeação do presidente do Tribunal de Contas, factos importantes, mas acidentais.

A partir desta avaliação, não faltaram os aproveitamentos políticos em que somos férteis, muito especialmente por parte dos partidos do eixo da governação. Já sabemos que quem agora ou logo governa procura na oposição passar a mensagem da sua elevada prática democrática, acusando quem é poder de não o ser tanto. Mas estes aproveitamentos partidários não vêm tanto a propósito. Quando muito poderão ser tema para outras ocasiões.

A propósito, vem o conceito de democracia. Por mim, entendo que em Portugal gozamos deste estado social de forma integrada. Naturalmente, tem os defeitos de todos os países livres. Sim, porque em matéria de governação nada é perfeito, já que o ser humano também não o é. Entendo que quanto mais evoluídos formos, nos mais alargados domínios, melhor democracia construiremos e, com mais razão, melhor a reivindicaremos.

Os observatórios, de forma abrangente, são muito interessantes, porque para além de nos ajudar a compreender o funcionamento das sociedades, podem alertar-nos para as insuficiências das mesmas, contribuindo, igualmente, para o estímulo da intervenção das populações na reivindicação dos seus direitos e deveres de cidadania. Mas estas entidades afirmam-se menos se não primarem pela objetividade. Declarar que, perante este drama pandémico que assola o universo, a obrigatoriedade do confinamento desvaloriza a democracia, é pouco bem julgado. Por esta ordem de ideias, esta valorizava-se nada fazendo para salvar vidas!

Repiso, felizmente, a democracia em Portugal, com os seus defeitos e virtudes, é mesmo plena. E os portugueses assumem-se como bons democratas quando respeitam o confinamento e confiam nas orientações das entidades que velam pela nossa saúde. O que se vai vendo e, pasme-se, em alguns países europeus, na contestação ao confinamento, como a querer abrir as portas à morte, é que deve ser visto como fragilidades democráticas. A mim, espanta-me o que vejo por exemplo na Holanda, um país que nos habituamos a ver ordeiro, trabalhador e de cultura bem acima da média (à parte a sua condição de facilitador a fugas ao fisco a países estrangeiros), e que agora, em boa parte, se manifesta estrondosamente contra o confinamento. Mas, neste mundo, estamos sempre a ser surpreendidos.

MANUEL BETTENCOURT – ENTRE O SONHO AMERICANO E O ORGULHO NAS RAÍZES PORTUGUESAS

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  • Crónica de Daniel Bastos

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos Arquipélagos dos Açores e da Madeira, destaca-se hoje pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.

Atualmente, segundo dados dos últimos censos americanos, residem nos EUA mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, principalmente concentrados na Califórnia, Massachusetts, Rhode Island e Nova Jérsia. A grande maioria da população luso-americana trabalha por conta de outrem, na indústria, mas são já muitos os que trabalham nos serviços ou se destacam na área científica, no ensino, nas artes, nas profissões liberais e nas atividades politicas.

No seio da numerosa comunidade lusa nos EUA, onde proliferam centenas de associações recreativas e culturais, clubes desportivos e sociais, fundações para a educação, bibliotecas, grupos de teatro, bandas filarmónicas, ranchos folclóricos, casas regionais e sociedades de beneficência e religiosas, destacam-se percursos de vida de vários compatriotas que alcançaram o sonho americano ("the American dream”).

Entre as várias trajetórias de portugueses que começaram do nada na América e ascenderam na escala social graças ao trabalho, ao mérito e ao empenho, destaca-se o percurso inspirador e de sucesso do comendador Manuel Bettencourt, uma das figuras mais gradas da comunidade luso-americana.

Natural de Ribeirinha, uma aldeia do concelho de Santa Cruz da Graciosa, ilha Graciosa, arquipélago dos Açores, Manuel Bettencourt emigrou para a América no final dos anos 60, na casa dos vinte anos de idade, ao encontro dos pais que tinham partido um ano antes em demanda de melhores condições de vida para uma família humilde e numerosa, marcada pelo espectro de grandes carências, na esteira da larga maioria da população que durante a ditadura portuguesa vivia na pobreza, quando não na miséria.

A chegada à Califórnia, estado no oeste dos EUA, numa fase de crescimento da emigração açoriana para o território americano, marca o início de um percurso de vida de um verdadeiro self-made man”, que sem saber falar inglês, desde logo arranjou trabalho no hotel onde o pai fazia limpezas. Durante cerca de uma década, Manuel Bettencourt, ao mesmo tempo que lavava pratos e servia às mesas, compondo assim os rendimentos da família formada por uma dezena de irmãos, deu asas ao sonho de estudar, de tirar um curso superior, que acalentava desde o torrão natal, em particular do Faial onde tirou o segundo ano do liceu.

O trabalho, o esforço e a resiliência, valores coligidos no seio familiar, permitiram ao jovem graciosense fazer, em regime noturno, o ensino secundário, e depois graduar-se em Educação Geral no San Jose City College e posteriormente licenciar-se em Biologia na San Jose State University.

A progressão na carreira e a valorização profissional levariam Manuel Bettencourt nos quatro anos seguintes a ir para o México, para Guadalajara, estudar Estomatologia, com o objetivo de regressar à Califórnia e abrir um consultório em Santa Clara, atual centro de Silicon Valley, desígnio que cumpriria e que o levou a exercer cirurgia dentária durante 30 anos.

Profissional de medicina dentária renomado, com uma trajetória marcada pelo carecimento, humildade, dedicação e mérito, o dentista luso-americano que sempre trabalhou de perto com os seus compatriotas, demonstrou sempre ao longo da sua vida uma faceta de apoio aos mais necessitados. Contexto que concorreu para que nunca tenha recusado um paciente por falta de dinheiro, ou se mostre ainda hoje disponível para prestar cuidados dentários a inúmeras crianças de agregados carenciados de imigrantes mexicanos.

Atualmente reformado, o sucesso que alcançou no campo da cirurgia dentária foi constantemente acompanhado de uma enorme dedicação às tradições e instituições da comunidade portuguesa na Califórnia, tendo ao longo das últimas décadas ocupado diversos cargos de direção no movimento associativo.

Os notáveis serviços de cidadania e os relevantes contributos em prol da comunidade luso-americana, assim como o reiterado orgulho nas raízes portuguesas que o levam quase todos os anos ao torrão natal, estão na base das condecorações de Comendador da Ordem de Mérito (2002), Comendador da Ordem do Infante D. Henrique (2011) e Insígnia Autonómica de Reconhecimento (2015) que lhe foram atribuídas pelas autoridades nacionais e regionais.

Uma das figuras mais gradas da comunidade luso-americana, o exemplo de vida do comendador Manuel Bettencourt, inspira-nos a máxima do escritor indiano Rabindranath Tagore:“Quanto maiores somos em humildade, tanto mais próximos estamos da grandeza”.

NO RESCALDO DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS

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  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Em eleições há sempre vencedores e vencidos, e os vencedores de hoje até poderão ser os derrotados de amanhã. Ninguém gosta de ser perdedor em “contendas” e muito menos em eleições políticas, porque quem perde vê a sua mensagem desvalorizada. Mas o tempo não acaba com derrotas pontuais. Há que não as desdenhar e saber assumir erros para não os repetir, mas enquanto vivos, em defesa de causas, não se deve acarinhar o desânimo.

Penso que o maior vencedor nestas eleições foi a democracia, porque 90% dos votantes apostaram no estado democrático vigente. Pouco se falou da intervenção de Marcelo de Rebelo de Sousa na noite eleitoral, mas entendo que se tratou de um discurso convictamente sentido na defesa do direito e do muito que ainda há para fazer na melhoria das condições de vida dos portugueses. De salientar, a dado passo, a referência que fez em relação à revolução de abril, prestes a chegar ao meio século, salientando que estes 50 anos devem ser comemorados com satisfação e orgulho, já que foi este ato que nos devolveu a liberdade e nos abriu caminho para o progresso (cito de memória). 

Não votei no candidato vencedor. Votei no que se revelou tecnicamente mais bem preparado, de discurso simples e educado, tal como reconheceu o insuspeito Marques Mendes, no seu comentário dominical da SIC. Votei em João Ferreira, mas convivo bem com o Presidente que temos, que afirmou categoricamente a André Ventura que era e queria continuar a ser o Presidente de todos os portugueses, velando na integra pelos seus direitos; que contrariava a prisão perpétua e a pena de morte, que acreditava no Ser Humano e na sua recuperação, tal como acontece em todos os países civilizados, citando até o humanismo do papa em defesa das suas causas. Ora um presidente com este discurso e com esta prática plural de chegar a todos, que é eleito por 60,70% dos votantes, mostra um resultado eleitoral que rejeita o extremismo.

Há quem tema o resultado da dita extrema direita, que, explicitamente, nem sei bem o que é, mas é bom constatar factos. Vi todos os debates e, decorrido quase meio século em liberdade, chocou-me ver o candidato dessa fação insultar tudo e todos, não deixar falar ninguém, apontado o dedo, ameaçando uma parte da sociedade, nada apostado em discutir como resolveria os problemas dos portugueses se fosse poder. Sem uma ideia, sem um projeto, contrariamente, por exemplo, ao candidato da Iniciativa liberal que revelou conceitos, ao manifestar uma maior aposta no sector privado e menos estado, como a querer provar que não foi apanhar o seu projeto às redes sociais, onde só se fala de desgraças e perpassa a ideia de que estamos num país de bandidos. Infelizmente, as redes sociais estão a afastar as pessoas, em vez de as unir.

Mas não há que iludir realidades sobre hipotéticas novas arrumações de forças no xadrez político de Portugal. E aí que se cuidem os verdadeiros sociais democratas do PSD. Depois de ouvir André Ventura a desafiar Rui Rio de que sem eles o PSD jamais seria Governo, bem que este Rio, desnorteado, corre veloz rumo mar, para afundar a social democracia, apodada de trave mestra do programa do PSD.

JEAN PINA, DE SONHADOR A PROMOTOR DA SOLIDARIEDADE LUSO-FRANCESA

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  • Crónica de Daniel Bastos

Uma das marcas mais características das comunidades portuguesas é a sua dimensão empreendedora e benemérita, como corroboram os percursos de diversos compatriotas que criam empresas de sucesso e dinamizam atividades de relevo a nível económico, político, cultural e social.

Nos vários exemplos de empresários da diáspora, cada vez mais reconhecidos como uma mais-valia na promoção do país, destaca-se a trajetória do empresário português João Pina, radicado na região de Paris, um dos mais dinâmicos e beneméritos empresários portugueses em França.

Natural de Trinta, uma pequena povoação do concelho da Guarda, João Pina emigrou para França nos anos 80, com 19 anos de idade, na esteira de milhares de portugueses que procuravam na pátria gaulesa uma vida melhor. A chegada a Paris, ainda que marcada inicialmente por um conjunto de contratempos e dificuldades, como foi o caso de um acidente grave que fez com que ficasse em coma vários dias, e que concorreu para que se tornasse um zeloso devoto de Nossa Senhora de Fátima, assinalou um percurso de empresário de sucesso na área da construção civil, como é vivificado na obra biográfica assinada em 2016 por Elizabete Dente - “Jean Pina de sonhador a promotor”.

Presentemente administrador do Grupo Pina Jean, sediado nos arredores de Paris, um conjunto de seis empresas com atividades em áreas como a construção civil, limpeza e reciclagem de resíduos, que o elevam a um dos mais relevantes empresários luso-franceses, o êxito que João Pina, conhecido em terras gaulesas por Jean Pina, alcançou ao longo das últimas décadas no mundo dos negócios, tem sido reiteradamente acompanhado de uma inequívoca solidariedade em prol da comunidade portuguesa em França.

O espírito solidário de Jean Pina foi paradigmaticamente consubstanciado em novembro de 2019, quando o empresário guardense constituiu a Fundação Nova Era Jean Pina. O lema da instituição “Solidariedade em Movimento” é revelador da sua missão primacial. Mormente, dinamizar a cooperação entre França e Portugal através da promoção, apoio e desenvolvimento de projetos de solidariedade para com as pessoas mais desfavorecidas e vulneráveis, como idosos, crianças institucionalizadas e desempregados.

Foi nesta entrecho, que por exemplo, o empresário luso-francês esteve em 2018 na base do estabelecimento de protocolos entre instituições franco-portuguesas de apoio a deficientes. Ou no ano seguinte, na concretização de um protoloco de cooperação com o Centro Cultural Português em Paris do Instituto Camões com o Groupe Jeunesse SOS – M.E.C.S. Félix Faure, com vista à inserção de alunos franceses através da iniciação à língua e cultura portuguesa.

Dinamizador e patrocinador de várias atividades, e projetos de cariz sociocultural e solidário, o empresário e benemérito da comunidade em França não esquece as suas raízes, sendo que pessoalmente ou através da Fundação Nova Era Jean Pina tem sido responsável pela realização de múltiplas iniciativas na região da Guarda.

Atividades no torrão natal que ao longo dos últimos anos têm impelido o encontro de empresários guardenses em Paris, e a oferta de bens alimentares à Loja Social “Mão Amiga” e a idosos e crianças da região da Guarda. Assim como a doação de roupa, brinquedos e material para a ala de Pediatria e Oncologia do Hospital da Guarda, e a entrega de duas dezenas de bolsas de estudo a reclusos do Estabelecimento Prisional da Guarda.

Têm sido várias as ceias de Natal organizadas por Jean Pina na Guarda para as quais convida crianças institucionalizadas e idosos isolados. Ainda recentemente para mitigar as dificuldades socioeconómicas causadas pela pandemia de coronavírus, a sua fundação ofereceu cerca de meio milhar de cabazes de Natal a famílias carenciadas da cidade mais alta de Portugal.

A inesgotável generosidade de Jean Pina na região da Guarda levaram no final do ano passado a Assembleia Municipal de Celorico da Beira a aprovar um voto de louvor à fundação Nova Era e ao empresário luso-francês. Ainda nesse ano, a Assembleia de Freguesia da Guarda, Almeida e o Município de Mangualde tinham aprovado por unanimidade votos de louvor pelo trabalho de Jean Pina, méritos que tinham já concorrido em 2015 para que tivesse sido distinguido com a Medalha de Mérito Municipal da Cidade da Guarda.

Uma das figuras mais conhecidas da comunidade lusa em França, provavelmente a maior comunidade portuguesa fora de Portugal, o exemplo de vida do empresário e benemérito Jean Pina inspira-nos a máxima de Madre Teresa de Calcutá: “Eu sei que o meu trabalho é uma gota no oceano, mas sem ele o oceano seria menor”.

NAVIO GIL EANNES TAMBÉM PAGA IMI!

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Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Não sabia, pois não, caro leitor? Mas é verdade. O fisco, que tantas vezes não cobra milhões de euros que tanta falta fazem aos cofres do Estado, está preocupado com a cobrança do IMI (Imposto Municipal Sobre Imóveis) ao Gil Eannes. Sim, porque no entender do fisco, trata-se de um imóvel!!!

Sobre o Gil Eannes já muito se disse, mas é bom relembrá-lo, para que alguém, que tantas vezes não faz o que deveria fazer, deite mãos à consciência e não contribua para desmotivar quem neste país aposta em preservar património e não deixe silenciar o passado, que de tão grandioso não pode ser olvidado.

Porque este navio Hospital tinha desempenhado nobre missão na proteção dos nossos pescadores nos mares da Terra Nova, quando no seu fim de vida estava para ser desmantelado e vendido como sucata, a partir de um forte movimento criado na nossa cidade, foi resgatado ao sucateiro que o tinha adquirido, mas que dele só se desfez recuperando todo o dinheiro investido, mais o lucro que entendeu como devido.

Regressado a Viana, foi a solidariedade dos ENVC, de pequenos empreiteiros, de agentes comerciais e cidadãos anónimos que, com trabalho, materiais e outros contributos o recuperaram para lhe dar dignidade e enobrecer esta Viana de tão longas tradições marítimas.

Mas a empreitada está longe de concluída, apesar de o navio se apresentar hoje com uma recuperação respeitadora do seu funcionamento original em todas as valências, que se pode considerar notável. Ainda há muito nele para fazer, e a sua regular manutenção custa somas impressionantes (veremos quando tiver que docar novamente para tratamento de casco), daí que só possa ser mantido com muito entusiasmo e gozando das boas vontades dos poderes e dos cidadãos em geral.

Culturalmente, o Gil Eannes é hoje um dos mais emblemáticos e ricos patrimónios da cidade. Tanta gente vem até nós para o visitar e fala dele gabando-o; tanta gente incentiva a sua manutenção e, especialmente os que se ligam ao mar e à construção naval, sentem orgulho por o verem na doca. Mas parece que alguém tem ciúmes de que assim seja. Nesta Viana, que José Rosa Araújo tantas vezes apelidou de acabrunhada e da pequena intriga (que não o é tanto), parece que há poderes ocultos que apostam em manter o velho e frear o novo.

O Gil Eannes está obrigado a pagar 1700 € de IMI, quando até está fundeado num espaço que não pertence à Fundação que o sustenta. É razão para dizer que, depois de o ter resgatado in extremis e de o ter recuperado estoicamente, alguém está apostado em pôr fim ao sonho de o ver por muito tempo no espaço que lhe pertence, como símbolo maior na assistência a pescadores que protagonizaram atos de intrepidez nos mares frios e traiçoeiros da Terra Nova. Alguém está apostado em enviá-lo de novo para a sucata, para que deixe de ser um dos maiores símbolos da construção naval em Viana do Castelo. Haja apreço pelo esforço de tanta e tanta gente que, empenhadamente, quer que o passado seja lembrado e que Viana progrida e não durma, como muito se tem dito.

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A saída do Gil Eannes da doca nº1 dos ENVC, em 20 de março de 1955, depois de 26 meses de construção

A COERÊNCIA QUE NOS FALTA

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  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Há atributos que evidenciam superiormente o Ser Humano; e entre eles a coerência. Ninguém, por mais prodigioso que seja, é levado realmente a sério quando inverte o discurso ou quando não é coerente com ele. E se isto vale para todas as situações, na política tem um peso de grande relevo.

Vai-se afirmando que a pouca seriedade dos políticos virou hábito e que, neste campo, as práticas até são toleráveis. Nada de mais errado. Os partidos e os políticos são o suporte da democracia. Sem estes o que podemos ter são regimes de cunho ditatorial. E a democracia defende-se com políticos de comportamentos irrepreensíveis. Nada na vida é perfeito e todos estamos sujeitos ao erro e à incoerência, mas há fronteiras que não podem nem devem ser ultrapassadas.

Nos primeiros dias de dezembro do ano passado, segundo a imprensa, em Bruxelas a polícia deteve 25 homens que participavam numa orgia ilegal. Entre estes estava um eurodeputado húngaro e membro do partido de extrema-direita de Viktor Orbán, que governa o país. Não faltará quem diga que as pessoas são livres de fazer o que bem entendem, mas as sociedades gerem-se, para todos, por princípios e leis. E para um eurodeputado que representa quem o elegeu, os princípios até se antecipam às leis. Acresce que József Szájer, de seu nome, era um famoso guardião do que ele próprio considerava a cartilha dos bons costumes, opondo-se, por isso, à igualdade de direitos para as minorias sexuais, descriminando e condenando abertamente a comunidade homossexual na Hungria.

Contudo, este caso, dada a sua baixeza, é bem pouco exemplificativo da incoerência na política. Gente que veste a indumentária da pureza e pela calada da noite se entretém em orgias, merece poucos comentários. Basta apenas denunciá-lo como um caso de política de pocilga.

Entre nós, o que observamos em relação ao comportamento de boa parte dos políticos sobre a desgraça que estamos a viver com a Covid 19, que nos catapultou para os piores lugares do mundo em termos de infetados e mortos, demonstra contradição e pouca seriedade. Está provado que o Governo andou muito mal ao facilitar ajuntamentos familiares no período de Natal, mas também ninguém teve a coragem de dizer que era um mau passo. Estou a lembrar-me concretamente do Presidente do CDS, afirmando que era preciso ser tolerante, que o Natal era a festa da família e que para muita gente este poderia ser o último encontro familiar. Mas agora que temos o quadro desgraçado que se vê, que nos pesa na alma pelos mortos incontáveis, condena-se acidamente quem governa o país. Ninguém quer avocar responsabilidades, mas era bom que todos fossem coerentes e assumissem que todos erraram, porque com uma oposição suficientemente crítica e mesmo condenatória, os poderes, provavelmente, pensariam duas vezes. É bonito e pedagógico assumir tanto as boas como as más decisões.

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OS NOTÁVEIS EXEMPLOS DE SOLIDARIEDADE DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS EM TEMPOS DE PANDEMIA

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  • Crónica de Daniel Bastos

Nestes tempos difíceis que atravessamos, devido aos efeitos da pandemia de coronavírus que ao longo do último ano gerou uma crise socioeconómica mundial sem precedentes, as comunidades portuguesas têm sido palcos constantes de muitos e bons exemplos de solidariedade.

Uma generosidade que perpassa a geografia universal dos portugueses no estrangeiro, e que se tem revelado essencial para mitigar o espectro de desemprego, as perdas de rendimento e as grandes dificuldades de vida que bateram à porta de muitos compatriotas.

Os exemplos deste sentimento de responsabilidade, partilha e auxílio no seio da diáspora lusa têm sido muitos, verdadeiramente inspiradores, a todos os títulos notáveis, e não devem deixar de ser enaltecidos e prosseguidos no nosso quotidiano.

É o caso, por exemplo, da incomensurável onda de generosidade que tem sido dinamizada em França, onde vive a maior comunidade portuguesa de emigrantes, mais de um milhão, e que através do coletivo “Todos Juntos” reuniu, no decurso do ano transato, várias toneladas de alimentos para ajudar famílias carenciadas de emigrantes lusos que vivem na região parisiense.

Na mesma esteira solidária, e durante o mesmo período, a comunidade portuguesa e de luso-descendentes na África do Sul, que se estima que atualmente ronde o meio milhão de pessoas, na sua maioria com raízes madeirenses, através do Fórum Português da África do Sul, entregou cerca de 400 toneladas de alimentos ao Governo sul-africano para ajudar no combate à fome na província de Gauteng, a mais afetada pela pandemia da covid-19.

Por esta altura em Toronto, a maior cidade do Canadá, onde reside uma das mais dinâmicas comunidades portuguesas da América do Norte, uma das mais relevantes plataformas de comunicação social lusa, a MDC Media Group, presidida pelo comendador Manuel da Costa, um dos mais ativos e beneméritos empresários luso-canadianos, que incorpora órgãos de informação como o jornal Milénio Stadium, as revistas Amar e Luso Life, e a Camões Rádio e TV, persevera na recolha de alimentos para entregar no Food Banks Canada.

Ainda na maior cidade do Canadá, e com o apoio constante dos diversos órgãos de informação da MDC Media Group, ao longo dos últimos tempos a equipa de voluntários liderada por José Dias, Luís Miguel de Castro e Carlos Lopes têm dinamizado a “Food for Thought”. Através da generosidade de vários estabelecimentos e figuras gradas da comunidade luso-canadiana, o grupo de voluntários têm conseguido distribuir “alimento para a alma” de vários agregados de concidadãos que por estes dias vivem com mais dificuldades.

Estes notáveis exemplos de solidariedade, e muitos outros que estão atualmente a ser dinamizados no seio das comunidades portuguesas, dão sentido à incitação universal e intemporal de Nelson Mandela, um dos símbolos dos direitos humanos mais reconhecidos do século XX: Um dos desafios do nosso tempo, sem ser beato ou moralista, é reinstalar na consciência do nosso povo esse sentido de solidariedade humana, de estarmos no mundo uns para os outros, e por causa e por meio dos outros”.

RETRATOS DA EMIGRAÇÃO PORTUGUESA NA LITERATURA INFANTO-JUVENIL

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  • Crónica de Daniel Bastos

Nas últimas décadas a literatura infanto-juvenil, um ramo da literatura dedicado especialmente às crianças e jovens adolescentes, tem-se assumido como um dos géneros mais apreciados no panorama editorial português e uma relevante ferramenta para a criação de hábitos leitura.

Impulsionados por programas públicos, como o Plano Nacional de Leitura (PNL) e a Rede de Bibliotecas Escolares (RBE) que têm contribuído decisivamente em Portugal para o desenvolvimento de uma estratégia de promoção da literacia no público mais jovem, cada vez mais escritores, ilustradores e projetos editoriais têm apostado na conceção de livros destinados a crianças e jovens adolescentes.

Entre as várias temáticas abordadas, o fenómeno da emigração, uma realidade socio-histórica incontornável no território nacional, tem sido alvo de múltiplas abordagens por parte de autores de literatura para crianças e jovens. É o caso, por exemplo, de António Mota, um dos mais conhecidos autores de literatura juvenil que em 2012 lançou a obra O Agosto que Nunca Esqueci, um livro recomendado pelo PNL para leitores fluentes dos 12 aos 14 anos, que constitui um retrato da emigração portuguesa dos anos 60.

Em 2017, a famalicense Marta Pinto assinou o livro infantil Emigração. Que palavra esquisita!. Uma obra ilustrada por Natacha Lourosa, e cuja narrativa percorre a história de Clara, uma menina como tantas outras que vê o pai ter de viajar para longe, para outro país, para trabalhar, e que aguarda ansiosa pelo seu regresso.

No ocaso do ano de 2019, a Associação dos Emigrantes Açorianos (AEA), cuja sede funciona nas instalações do Museu da Emigração Açoriana, na Ribeira Grande, ilha de São Miguel, lançou o livro infanto-juvenil Açores, uma caça ao sonho americano, que narra a história dos primeiros açorianos que chegaram aos Estados Unidos da América, por via da caça à baleia, no século XVIII. Com pesquisa de Rui Faria, textos de Patrícia Carreiro, ilustrações de Romeu Cruz e tradução de Cristina Oliveira, o livro bilingue que se encontra traduzido para inglês, ficou disponível na costa Leste dos Estados Unidos a partir do início do ano seguinte, sendo que as receitas das suas vendas revertem para a edição de um novo livro sobre a história da emigração açoriana para o Canadá, outro dos principais destinos da diáspora açoriana.

Já no decurso do ano transato, e no seio das comunidades portuguesas, a empresária lusodescendente de terceira geração na Califórnia e dirigente do Conselho de Liderança Luso-americano (PALCUS), Ângela Simões, lançou o livro bilingue “Maria and Joao go to the Festa! A Maria e o João vão à Festa!”. Com ilustrações da luso-americana Hélia Borges Sousa e tradução portuguesa do professor luso-americano Diniz Borges, natural da ilha Terceira, nos Açores, e diretor do Portuguese Beyond Borders Institute da Universidade de Fresno State, na Califórnia, o livro direcionado para crianças dos 6 aos 12 anos, narra uma história que retrata a tradição das "Festas" das comunidades portuguesas nos Estados Unidos, e que imerge assim na génese dos emigrantes portugueses na América.

Porquanto as crianças são o presente e futuro do mundo, a conceção e realização de obras no campo da literatura infanto-juvenil, com enfoque no fenómeno migratório, uma constante estrutural da história portuguesa, é simultaneamente, um importante contributo para a aprendizagem. Assim como para o processo educativo, mormente a educação para a cidadania, que visa contribuir para a formação de pessoas responsáveis, autónomas, solidárias, que conhecem e exercem os seus direitos e deveres em diálogo e no respeito pelos outros, com espírito democrático, pluralista, crítico e criativo.

É EM LIBERDADE QUE SE APERFEIÇOAM AS SOCIEDADES

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  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Em dezembro de 2016 escrevi: “O ser humano é muito contraditório. Pode mesmo dizer-se que profundamente contraditório. Como é possível que o povo americano, depois de eleger um presidente de cor, simpático, cordial, amigo do mundo, das pessoas, da paz, da natureza e preocupado com os pobres (criou um sistema de saúde para mais de 20 milhões de americanos abandonados), como é possível, dizia, que tenham agora eleito um personagem tresloucado, que pode arrastar o mundo para o pior, que deixou a população mundial em estado de choque e que, no mínimo, pode baralhar todos os entendimentos possíveis entre as nações, à luz de novas evidências e de profundas alterações na economia do planeta que habitamos. Os que vêm o mundo na base da dicotomia socialismo/imperialismo ou progresso/conservadorismo dirão que Obama não passou de um produto suavizado do americanismo protagonista de todos os males das sociedades. Mas o mundo teve tantas e tão profundas alterações que, pensado como há décadas atrás, obriga-nos a cometer as mais evidentes idiotices. Obama, no colete-de-forças a que esteve submetido por todos os poderes da América economicamente liberal, foi um grande Presidente, e deixa-nos um legado que a história irá provar que foi grandioso”.

Não sou analista, futurólogo e muito menos profeta, porque nestes nem acredito. Sou apenas um cidadão preocupado, que tento, o melhor que sei, compreender o mundo e deixar os alertas que me parecem convenientes. Por vezes engano-me (quem não se engana) nas considerações que vou tecendo, mesmo jogando pelo seguro, mas, infelizmente, tantas vezes lá acontece o que mais temo.

Tomara ter-me enganado no que pensei e que previa em relação ao sucessor de Obama. E sobre as desgraças deste bizarro personagem, ainda há pouco escrevi: “nestes últimos quatro anos o mundo tornou-se menos respeitável, mais inseguro e pior habitável”. Também não me surpreende que ele há dias tentasse um golpe de estado pela via insurrecional, para assim se perpetuar no poder na considerada mais firme democracia do mundo. Surpreendidos, se é que ficaram, pode ter acontecido com aqueles que o toleraram, o justificaram e lhe bateram palmas, como o tão propalado historiador e colunista do Observador, Rui Ramos, que a 2/10/20 escreveu: “porque não podem preferir Trump, sem se desonrarem, aqueles que querem uma América diferente da que Biden propõe? A histeria anti-Trump é uma maneira de a esquerda tentar limitar a escolha política”. Colunistas desta estirpe, com as análises que fazem, bem podem limpar as mãos à parede.

O que acaba de acontecer mostra-nos que não pode haver contemplações com quem se limita a aproveitar as falhas das sociedades democráticas, tolerantes e respeitadoras do direito. Os pontos fracos das sociedades livres, que sempre os haverá, colmatam-se em liberdade. O resto são tentativas de ressuscitar estados totalitários. E isso já tivemos durante 48 anos.

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Normalidades e o seu contrário

REPÚBLICA DOMINICANA: AÇORIANOS EM SÃO DOMINGOS

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  • Crónica de Daniel Bastos

No decurso dos últimos anos o acervo bibliográfico sobre o fenómeno migratório tem sido profusamente enriquecido com o lançamento de um conjunto significativo de livros que têm ampliado o estudo e conhecimento sobre a história da emigração portuguesa.

Um dos exemplos mais recentes que asseveram a importância destas obras na análise e compreensão da emigração nacional, encontra-se vertido no livro “Açorianos em São Domingos” da autoria do antropólogo e historiador luso-brasileiro, Luiz Nilton Corrêa.

A obra, lançada no ocaso do ano passado com a chancela da Letras Lavadas e o apoio da Direção Regional das Comunidades, do Governo dos Açores, e que é resultado da dissertação de mestrado realizada pelo investigador luso-brasileiro entre 2006 e 2008 na Universidade dos Açores, com orientação do saudoso professor Carlos Cordeiro, conhecido pelo seu trabalho de investigação sobre a identidade açoriana, aborda a saga dos emigrantes micaelenses na República Dominicana em 1940.

Embrenhando-se num fenómeno marcante na vida de milhares de açorianos, estima-se presentemente que cerca de 1,5 milhões de açorianos e seus descendentes residam no estrangeiro, o trabalho de Luiz Nilton Corrêa tem o condão de deslindar uma dos movimentos da emigração açoriana que não é tão conhecido como o dos seus cinco grandes destinos nos séculos XIX e XX (Brasil, Estados Unidos da América, Bermudas, Havai e Canadá).

Mormente, o processo de emigração e repatriamento de um grupo de micaelenses que seguiu em 1940 para a República Dominicana, país que divide o território da ilha Hespaniola com a República do Haiti, atualmente conhecido como um dos principais destinos turísticos mundiais, e cuja capital e maior cidade é São Domingos.

Em plena II Guerra Mundial, como desvenda Luiz Nilton Corrêa, o segundo maior e mais diverso país caribenho, através de um pretenso atrativo pacote de apoios fomentou uma política de atração de milhares de refugiados do conflito bélico, assim como de imigrantes, de modo a incrementar o seu desenvolvimento populacional e económico.

Foi neste entrecho, que em 1940 um grupo de centena e meia de emigrantes naturais de São Miguel, marcados pelo espectro da pobreza e na demanda de melhores condições de vida, encetaram uma trajetória efémera em direção à República Dominicana. O almejado eldorado caribenho revelou-se uma experiência traumatizante, que acentuou ainda mais o sofrimento e a pobreza vivenciada na pátria de origem, e que terminou tragicamente com a morte de dois emigrantes micaelenses e o repatriamento do grosso dos mesmos através de diligências do governo ditatorial do Estado Novo, após pressão das comunidades açorianas nos Estados Unidos da América e nas Bermudas.

Na esteira das palavras da investigadora Susana Serpa Silva, tendo em conta a “importância de que se reveste a temática da emigração – intimamente ligada à História, à memória e à identidade arquipelágicas”, o recente livro dedicado à saga dos emigrantes micaelenses na República Dominicana em 1940 constitui mais um importante contributo para a compreensão da história da emigração açoriana, e do demais território nacional, ou não fosse a emigração um fenómeno constante da vida portuguesa.

TRIBUTO À MULHER

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  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Iniciamos 2021. Naturalmente, todos aspiramos a que seja suficientemente melhor o ano que se inicia do que o agora terminado.  Para tal, basta que nos libertemos desta famigerada pandemia que nos atormenta e nos tolhe a todos os níveis. Mas sobre essa eventual nova realidade o futuro nos esclarecerá.

Uma entrevista à Escritora chilena Isabel Allende (prima de Salvador Allende, Presidente do Chile morto no golpe militar levado a cabo por Pinochet em 1973), publicada na revista do Expresso de 18/12/2020, deu-me o mote para a primeira crónica do ano.  Na língua espanhola, Isabel Allende está considerada como a escritora mais lida no mundo. Tem 20 romances publicados e mais de 70 milhões de livros vendidos. Acaba de lançar “Mulheres da Minha Alma”, onde procura dar novo fôlego ao feminismo que sempre advogou.

Desta escritora famosa, que se lê com prazer e nos encanta pela alma que põe nas entrevistas que dá, li apenas “A casa dos espíritos”, um livro que, pela sua grandeza, está recomendado como sugestão de leitura para o Ensino Secundário. Nesta entrevista que deu à jornalista Luciana Leiderfarbarb, Isabel explica porque continua a sua luta pela emancipação das mulheres. Diz-se feminista desde os 5 anos, quando o pai abandonou a mãe com três crianças, sendo ela a mais velha, com três anos apenas. A situação da mãe, sem trabalho, virou suplício, porque, à época, as mulheres praticamente não trabalhavam e uma mulher separada expunha-se a todo o tipo de boatos. Isabel nasceu em 1942.

Partindo da sua experiência, a Escritora desfia um rol de desgraças para a maior parte dos seres femininos. “O mundo inteiro vive num patriarcado, que é um sistema de opressão permanente contra a outra parte da Humanidade”, confessa. Depois justifica a sua asserção com variadíssimos exemplos e chega a afirmar que a mulher, em muitos países, vale menos que gado; onde um pai pode casar uma filha ainda criança ou trocá-la por duas vacas. Sobre o combate a tais situações, diz: “o feminismo começa por erradicar o medo, protegendo a mulher contra a violência sistemática a que está sujeita. Depois, uma mulher tem que ter controle sobre o seu corpo. E tem de ter um salário, porque se depende dos outros, não há feminismo que lhe valha”. Quando lhe é perguntado se são as mulheres fortes que inspiram a sua escrita, diz que sim e que não as inventa, porque não as há fracas.

Isabel Allende criou uma Fundação para proteger as crianças do sexo feminino em muitas partes do mundo, já que são rejeitadas pelos progenitores, só porque são meninas. Quando lemos ou ouvimos esta Escritora chilena, se divulgarmos a sua ação, os seus conceitos e alertas, quase estamos isentos de dissertar sobre a superior importância da mulher na sociedade, até porque muitos o fazem para sossegar a dor que lhes vai na alma. Um amigo que muito estimo, feminista assumido, se me ler dirá de imediato: mulheres ao poder.

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Capa da última obra de Isabel Allende, apresentada em Portugal em Novembro de 2020

OS DESAFIOS DO FUTURO PRÓXIMO DO MOVIMENTO ASSOCIATIVO DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS

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  • Crónica de Daniel Bastos

O movimento associativo das comunidades portuguesas constitui um dos mais importantes elos de ligação dos inúmeros compatriotas espalhados pelo estrangeiro à língua, cultura, história e memória da pátria de origem, e simultaneamente uma das marcas mais expressivas da sua inserção socioprofissional nos territórios de acolhimento.

Espaços privilegiados de cultura e participação cívica, o movimento associativo é a argamassa identitária que une as comunidades portuguesas, e um conjunto essencial de estruturas que as elevam à condição das mais genuínas embaixadoras de Portugal no mundo.

Nestes tempos de pandemia, que mudou radicalmente a forma como as sociedades operam, o meio associativo das comunidades lusas encontra-se submerso em dificuldades e incertezas.

Dificuldades e incertezas resultantes do cenário pandémico, que entrava a realização de eventos e iniciativas, como foi o caso paradigmático do Dia de Portugal, qual barómetro anual da dinâmica e vitalidade do meio associativo na diáspora, que este ano que agora finda se cingiu a comemorações simbólicas.

Celebrações minimalistas que substituíram a realização de tradicionais iniciativas, que em muitos casos garantem a obtenção de receitas que permitem custear o normal funcionamento das associações, como seja o pagamento da água, luz, rendas dos espaços ou a sua manutenção.

Nesse sentido, o risco de fecho definitivo de diversas associações no seio das comunidades portuguesas, nunca foi tão real, e é ainda agravado por problemáticas muito anteriores ao surgimento da pandemia. Designadamente, o envelhecimento dos seus quadros dirigentes, da maioria dos seus associados e da escassa participação dos lusodescendentes.

Este perigo acrescido de encerramento coloca portanto vários desafios ao futuro próximo do movimento associativo das comunidades portuguesas, que desde logo deve colocar definitivamente em cima da mesa, não só, quando a vida tender a normalizar em 2021 com os programas de vacinação em massa, a diversificação de atividades capazes de conciliarem a cultura tradicional enraizada nas coletividades com novas dimensões socioculturais, como o cinema, a literatura ou a moda, de modo a atrair as jovens gerações de lusodescendentes.

Como também a adotar um novo modelo de atuação e organização das associações, que em muitos casos, poderá passar por um paradigma de partilha de uma “casa comum”, capaz de reunir num só espaço com dignidade e dimensão a valiosa argamassa identitária das comunidades portuguesas.

Uma “Casa de Portugal”, de portas abertas a parcerias com agremiações, escolas e universidades onde se ensina a língua portuguesa, com uma agenda capaz de congregar diversas sinergias, de diluir diferenças e divergências. E assim potenciar o coletivo, a união, e os cada vez mais parcos recursos humanos e financeiros que existem no movimento associativo luso em prol da cultura portuguesa.

Uma “Casa de Portugal“ em que se possa organizar vários eventos culturais do movimento associativo. Desde as festas e festivais de folclore, à programação de artes plásticas, cinema, dança, literatura, teatro, ciclos de conferências ou divulgação de trabalhos dos investigadores que cada vez mais proliferam na lusodescendência.

Que esta união e solidariedade possa emanar ininterruptamente nas comunidades portugueses, em particular, no movimento associativo, de modo a que rapidamente se ultrapassem os desafios do seu futuro próximo. E que esta seja a centelha que nos guie nestes tempos conturbados no rumo da alegria, da saúde e de um próspero ano novo.

NATAL EM TEMPO DE PANDEMIA NAS COMUNIDADES PORTUGUESAS

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  • Crónica de Daniel Bastos

Natal é a festa por excelência da família, da paz, do amor, da alegria, da solidariedade e da esperança num futuro melhor, que este ano a humanidade aguarda ansiosa que marque o fim da malfadada pandemia de coronavírus.

Uma pandemia que tem acarretado nas sociedades efeitos devastadores no campo socioeconómico, espelhados em milhares de vítimas e de casos de infeção, assim como generalizadas medidas de confinamento que paralisam a economia e colocam os países às portas de uma recessão sem precedentes.

Disseminadas pelos quatro cantos do mundo, as comunidades portuguesas, a mais autêntica e consistente manifestação lusa além-fonteiras, não estão imunes a estes efeitos que alteram transversalmente o nosso quotidiano e rotinas.

Efeitos que ao longo dos últimos meses foram responsáveis pelo cancelamento ou adiamento de eventos e iniciativas que integram os planos anuais de atividades do movimento associativo das comunidades portuguesas, e que são em vários casos essenciais para obter receitas que permitam financiarem o seu normal funcionamento. Mas também pelo crescente aumento de relatos de situações de precariedade, perda de rendimentos, desemprego e ameaça de insegurança económica no seio de diversos agregados de emigrantes portugueses.

Em França, onde vive a maior comunidade portuguesa de emigrantes, mais de um milhão, o Instituto Nacional de Estatística e de Estudos Económicos gaulês divulgou recentemente que há mais 500 mil desempregados no país, fruto da atual crise económica provocada pela pandemia e que está a afetar muitos compatriotas. Ainda há poucos dias, Ilda Nunes, provedora da Santa Casa da Misericórdia de Paris (SCMP), uma relevante instituição cuja missão e valores visam a assistência à comunidade portuguesa em França, veiculou publicamente que os pedidos de ajuda aumentaram consideravelmente entre a comunidade portuguesa, mormente entre 25 a 30%.

 Nesta fase de grandes dificuldades, a comunidade portuguesa em França, à imagem e semelhança de outras comunidades lusas, tem demonstrado um enorme espírito de solidariedade, um dos, senão mesmo, o mais importante valor que nos humanizam e dão sentido ao Natal. E que ao longo dos anos, as comunidades lusas perseveram em manter como umas suas principais matrizes socioculturais, apoiando quer os nossos concidadãos no estrangeiro, assim como os portugueses residentes no território nacional.

Foi nesta esteira, que no sábado passado o coletivo “Todos Juntos”, após ter recolhido 15 toneladas de alimentos em junho para a Santa Casa da Misericórdia de Paris, voltou a fazer uma recolha de alimentos na região parisiense para ajudar as famílias apoiadas pela SCMP, e planeia inclusive dinamizar novas iniciativas no próximo ano.

É nesta linha de exemplos solidários, que em Toronto, no Canadá, território onde vive e trabalha uma das mais dinâmicas comunidades lusas da América do Norte, ao longo dos últimos tempos a equipa de voluntários liderada por José Dias, Luís Miguel de Castro e Carlos Lopes têm dinamizado a “Food for Thought”. Através da generosidade de vários estabelecimentos e figuras gradas da comunidade luso-canadiana, o grupo de voluntários têm conseguido distribuir “alimento para a alma” de vários agregados de concidadãos que por estes dias vivem com mais dificuldades.

Estes exemplos inspiradores de solidariedade, e muitos outros que estão atualmente a serem dinamizados no seio das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, reforçam que o Natal, mesmo em tempos de pandemia, é uma época de esperança, de ainda mais união e de solidariedade.

Que esta esperança, união e solidariedade que emana das comunidades portugueses, nos irmane a todos a tornar o mundo um lugar melhor, em que nas noites frias de Inverno o calor da esperança, da união e da solidariedade aqueça os nossos corações, e nos guie nestes tempos conturbados e desafiantes no rumo da alegria, da saúde, de uma feliz quadra natalícia e um próspero ano novo.

GENUINAMENTE NATAL

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  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Teremos um Natal mais comedido, menos efusivo e menos participado. Muitos já vêm dizendo que esta não será verdadeiramente a festa da família, antes a do distanciamento, em que predominará a tristeza e até o medo, porque quase ninguém sabe em que condições de saúde se encontra. Poderá ser um pouco isto que acontecerá, mas tudo depende da forma como cada um se ajusta às realidades de cada momento, e em especial neste.

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Pintura de Natal. Quadro de Carolino Ramos (1951) na Igreja de Serreleis

 

O período Natalício tem, na verdade, um sentido bem-querido para quase todos os cidadãos do mundo, particularmente para os cristãos. É o tempo em que as famílias mais se aproximam e em que o sentimento solidário mais se vinca; que as amizades se solidificam e no qual a tolerância mais prevalece, aceitando com espontaneidade perdões por erros que eventualmente se possam ter cometido; no fundo, este é o tempo que, provavelmente, todos desejariam que fosse para a vida.

E podemos ter o tempo natalício permanentemente connosco. Basta que cada um faça um pouco da parte que lhe toca, na convicção de que a vida tem muito mais sentido quando vivida com naturalidade, sem aversões e sabendo sacudir ambições desmedidas, que tantas vezes levam ao atropelamento de terceiros. Não se pode desejar comunidades perfeitas, porque isso não passa de um sentimento utópico, já que o Ser Humano transporta consigo demasiadas imperfeições, mas é possível ter um pouco do espírito natalício em cada dia nas nossas casas e na sociedade em geral.

Mas voltemos ao princípio. Teremos mesmo um Natal pandémico, que obriga a menores contactos, menos efusividade, mais distanciamento e, generalizando, mais prudência. Pois, mas o sentimento solidário pode estar em cada um de nós, com cada um no seu devido espaço. As efusividades nem sempre são reveladoras de afetos interiorizados. Não há razões para sentirmos um Natal diferente, no convencimento de que o verdadeiro espírito não vai este ano estar presente na casa de cada um. Estará sempre se cada um o souber assumir autenticamente.

Difícil será o Natal de tantos e tantos deserdados, de tanta gente afetada por guerras sem sentido, por ódios religiosos ou de qualquer outra ordem, por insuficiências de toda a espécie, onde o minimamente essencial não se pode colocar na mesa, e tantas outras desgraças. Se pensarmos um pouco em todos esses, veremos que não há razões para desânimos e que o nosso mal não vale de nada, se comparado com o de muitos em todas a partes do mundo.

Para o próximo ano, muito provavelmente, a normalidade voltará a instalar-se. Partindo desta possível realidade, temos mais razões para dizer que haverá sempre Natal. Então que cada um tenha o melhor Natal. Boas Festas para todos.

OLHARES LITERÁRIOS FEMININOS SOBRE A EMIGRAÇÃO PORTUGUESA

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  • Crónica de Daniel Bastos

Nos últimos anos o panorama literário sobre o fenómeno migratório tem sido profusamente enriquecido com um conjunto expressivo de obras de autores nacionais ou lusodescendentes residentes no estrangeiro, que através do mundo dos livros têm dado um importante contributo para o conhecimento de múltiplas dimensões da realidade emigratória portuguesa.

Neste panorama literário, destacam-se cada vez mais obras escritas por autoras que vivem nas comunidades portuguesas, e que têm tido o condão de aclarar o papel das mulheres no seio da emigração. Um dos lados, como refere a reputada investigadora no domínio da História das mulheres e do género, Irene Vaquinhas, “menos conhecido e estudado do fenómeno migratório”.

Enquadra-se neste contexto, por exemplo, o livro em forma de contos “Correr Mundo - Dez mulheres, dez histórias de emigração”, lançado com a chancela da Oxalá Editora em março do ano que agora finda, no âmbito do Dia Internacional da Mulher. A obra, onde são abordadas a “saudade da infância e das origens, da língua, da família, as questões da identidade e do desenraizamento, a desvalorização dos emigrantes no país de acolhimento pela natureza do seu trabalho, as dificuldades de adaptação, as viagens até ao país de acolhimento”, é assinada por Irene Marques, professora de Literatura e Escrita Criativa nas Universidades de Toronto e Ryerson, no Canadá, que em 2019 arrecadou o Prémio Ferreira de Castro; Paula de Lemos, investigadora de Literatura Comparada na Universidade de Trier, na Alemanha, e detentora do Prémio Manuel Teixeira Gomes 2002; Luísa Costa Hölzl, tradutora, poetisa e professora de Língua Portuguesa da Universidade de Munique, na Alemanha; Luísa Semedo, doutorada em Filosofia e Conselheira das Comunidades Portuguesas eleita em França, que em 2017 ganhou o Prémio Literário e de Ilustração Eça de Queiroz; Gabriela Ruivo Trindade, formada em Psicologia e a viver em Londres, vencedora do Prémio LeYa em 2013; Maria João Dodman, doutorada em Literatura pela Universidade de Toronto e professora na York University, no Canadá; São Gonçalves, escritora e poetisa que reside no Luxemburgo;  Luz Marina Kratt, escritora e jornalista que vive entre a Suíça e a Áustria; Helena Araújo, blogger e escritora residente em Berlim, na Alemanha; e Altina Ribeiro, conhecida escritora da comunidade portuguesa em França.

Na mesma data comemorativa, as pintoras Maria João Sousa, Gracinda da Rocha e Cândida Martins, em conjunto com a poetisa Deolinda Xavier Cabo, há vários anos radicadas na comunidade portuguesa do Quebeque, Canadá, lançaram o livro “Mãos de Mulher”. Uma obra onde se entrelaça a pintura e a poesia, e que nas palavras do prefaciador Manuel Carvalho, patenteia “retalhos do torrão natal nunca esquecido e do novo mundo que as acolheu, numa mescla aparentemente dispersa mas que uma leitura mais atenta nos faz vislumbrar o significado, por vezes sinuosos, e tantas vezes dolorido, destes percursos existenciais, a fluir entre o onírico e o real, na busca incessante da felicidade e do sentido da caminhada humana”.

Ainda na esteira literária sobre o fenómeno migratório, Isabel Mateus, escritora estabelecida no Reino Unido, lançou em meados deste ano a obra “Anna, A Brasileirinha de São Paulo” que mergulha na epopeia da emigração portuguesa para o Brasil. Segundo a consagrada socióloga das Migrações, Maria Beatriz Rocha-Trindade, neste livro a autora “oriunda de Trás-os-Montes, uma das regiões mais afetadas pela saída dos que procuraram melhorar vida fora do país, conseguiu, através da sua escrita, reconstituir o cenário em que se deslocou uma família, excelente paradigma dos que no início do século XX, deixando aldeias perdidas do interior, atravessaram o Atlântico tentando atingir o sonho que o relato de muitos conterrâneos tinha ajudado a construir”.

Estes exemplos de olhares literários femininos, e outros que foram apresentados ou se encontrem porventura no prelo, representam um relevante contributo para o conhecimento da emigração portuguesa. Um fenómeno complexo, que nas palavras abalizadas do saudoso pensador Eduardo Loureço, nos “põe em causa, a diversos níveis, de maneira indirecta, a imagem de nós mesmos mas por isso deve ser apreendida na sua verdade, de maneira adulta e não servir de pretexto como serve a muita gente, a fantasmas colectivos, uns positivos outros negativos, que têm pouco a ver com ela”.

EROSÃO, UM PROJETO DE VALORIZAÇÃO DA IDENTIDADE CULTURAL DA EMIGRAÇÃO

  • Crónica de Daniel Bastos

Na freguesia de Cepães, uma freguesia do concelho de Fafe, situada no distrito de Braga, com intensa atividade industrial e aptidão agrícola, ao longo dos últimos três anos tem sido dinamizado um original projecto comunitário em rede que e envolve toda a comunidade local em torno da história e memória da emigração. 

Partindo dos percursos migratórios do final do século XIX e do século XX para o Brasil e França, assim como das expressões materiais e simbólicas do ciclo de retorno dos emigrantes que marcam indelevelmente a região do Vale do Ave. E em particular o concelho de Fafe, contexto que impeliu o município minhoto a instituir no alvorecer do séc. XXI o Museu das Migrações e Comunidades, o grupo local EnfimTeatro, núcleo dramático da Sociedade de Recreio Cepanense, está a desenvolver desde o primeiro trimestre de 2017 o projeto comunitário Erosão, tendo em vista a dinamização de atividades culturais nas áreas do teatro e cinema.

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O historiador Daniel Bastos (esq.), cujo percurso tem sido alicerçado no seio das Comunidades Portuguesas, acompanhado em 2018 dos responsáveis do projeto comunitário Erosão, José Rui Rocha e Nuno Pacheco, na Sociedade de Recreio Cepanense, no âmbito de uma conferência sobre a Emigração Portuguesa

 

Tendo como objetivos capitais o desenvolvimento, formação, divulgação, produção e ação artística, cultural e educativa, através de um amplo, exigente e democrático acesso à cultura. O EnfimTeatro tinha projetado para o final deste ano em que se assinalam os 25 anos da morte de Miguel Torga, um dos mais influentes escritores portugueses do século XX, cujo percurso de vida e literário foi marcado pela sua experiência nos anos 20 como emigrante no Brasil, o lançamento do filme Erosão.

Esta dinâmica de trabalho, que não é imune aos efeitos da pandemia de coronavírus que um pouco por todo o lado tem contribuído para o cancelamento ou adiamento de eventos e iniciativas que integram os planos anuais de muitas associações, assenta no pressuposto basilar que a comunidade é protagonista. Pelo que, os termos viagem, emigração, esperança, utopia, tradições, memória, identidade e património são os pilares fundamentais da estrutura do argumento do filme que funciona simultaneamente como catalisador de uma rede cultural, tanto que a iniciativa conta com a colaboração de diversas instituições, associações e grupos comunitários.

Como sustentam os seus responsáveis, o projeto Erosão embrenha-se na comunidade, nas suas metamorfoses, linguagens, hábitos e tradições, comprometendo-se com as suas virtudes e dificuldades, ou seja, está vinculado com a paisagem, o património material e imaterial, as pessoas, enfim, o território.

Foi nessa esteira, que em meados de setembro a comunidade local assistiu à realização do evento ambulante “A Arte do Jogo do Pau”, composto por teatro de rua e representações de jogo do pau, uma das artes marciais portuguesas mais antigas com tradição no Norte de Portugal, principalmente no Minho, e que era praticado com varapau ou cajado, um instrumento de trabalho e simultaneamente uma arma do dia-a-dia das pessoas.

Mais que uma abordagem singular ao fenómeno migratório, o projeto Erosão dinamizado pelo grupo comunitário EnfimTeatro, constitui uma relevante valorização das tradições, usos, costumes e da emigração, partes integrantes da história e da identidade portuguesa.

DE NOVO NO GIL EANNES

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Passei por lá para observar nova exposição de fotografia, desta vez do José Pastor, que tal como a anterior do Egídio Santos, é uma exposição de visita aconselhada. Também esta tem, em boa parte, como tema central o mar: os estaleiros, o porto e a costa marítima. São imagens captadas e trabalhadas por alguém que tem um grande domínio da arte de fotografar, daí a grandeza do trabalho que se mostra, mercê dos pormenores e ângulos fotografados, jogos de luzes, em função das horas em que as imagens foram conseguidas, do realce que se dá às pequenas coisas, da grandeza dos planos e tantas outras combinações. Mas o livro do José Pastor recentemente apresentado diz bem do seu mérito.

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A entrega ao Armador do Gil Eannes aconteceu a 20/03/1955. Provavelmente, esta imagem é do dia anterior. Limpava-se a doca nº 1 (151 x 18,5 metros), ordenavam-se e enfeitavam-se os espaços por onde as autoridades e o povo iria circular e colocava-se cordas nos toros que equilibravam o navio, para retirar estes na hora da flutuação. Seria a última tarefa a que obrigaria o Gil Eannes antes da sua saída.

 

Vista a exposição, eu e o Carlos Vieira, ambos tocados pelos navios, tivemos o grato prazer de sermos acompanhados em mais uma visita ao Gil Eannes pelo homem que se tem empenhado na sua recuperação. Nicolau Alves, prestavelmente, mostrou-nos o resultado do trabalho árduo desenvolvido, surpreendente para quem conheceu este Navio Hospital quando ele, em adiantado estado de degradação, entrou novamente nos ENVC para uma primeira solidária recuperação.

Com o objetivo de alertar na revista “Roda do Leme” para a lenta agonia do Gil Eannes, acompanhado pelo António Basto, tive a oportunidade de visitar o navio em setembro de 1996, quando o mesmo apodrecia no Cais de Alcântara. Pessoalmente, confesso que tinha poucas esperanças de que o apelo publicado resultasse em ação alguma com vista à sua recuperação. No entanto, mercê da iniciativa do nosso Município, presidido por Defensor Moura, Viana, com muitos entusiastas, onde também me integrei, fez regressar esta nobre embarcação ao local em que foi construída.

Hoje, ao visitar este “Hospital Marítimo”, não posso deixar de admirar quem tão bem o tem tratado, respeitando escrupulosamente as funcionalidades que tinha quando partiu para a Terra Nova. Não falta muito, talvez, cerca de 30% de todas as áreas, para que se apresente tal como era em 20 de março de 1955, quando deixou Viana. Para mais, enriquecido com pormenores da sua atividade hospitalar. Recuperadas brilhantemente, na parte de assistência hospitalar, lá estão a sala de operações, a enfermaria, os gabinetes de atendimento dos doentes, o Raio X, a farmácia, etc. Depois, os aposentos de todo o pessoal que dava vida a este “Anjo do Mar”, do comandante e pessoal médico ao capelão, passando pelas mais diversas especialidades, onde tudo foi resposto, para que tudo fosse como há meio século passado. Mas há muitas outras áreas recuperadas que se torna exaustivo citá-las. Referência obrigatória para a estação do TSF, uma obra de arte. Trabalha-se agora na recuperação da casa das máquinas, com boa parte já realizada, um mundo grandioso que encanta quem ama os navios. A tudo isto temos que juntar um sistema de proteção que foi montado, para que os visitantes tudo possam ver, mas em nada mexer, degradar ou roubar, como regularmente acontecia.

Ao felicitar Nicolau Alves por tão brilhante serviço prestado, este logo teve o cuidado de afirmar que com ele está mais gente, que são especialmente os colegas, que durante o dia não regateiam esforços para o êxito que está à vista de todos. Vale a pena visitar de novo o Gil Eannes. E quem nunca lá foi tem agora mais razões para o visitar.

O PASSADO E O FUTURO

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Há quatro anos atrás, o mundo, na sua imensa complexidade, entendia-se melhor e reunia algumas condições para encontrar soluções minimizadoras dos grandes problemas com que deparava, particularmente no que toca à sua preservação, tão difícil ela era, mas hoje suficientemente agravada.

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Há quatro anos atrás, quando os EUA assumiram a sua saída do Acordo de Paris e Trump afirmou que iria propor um plano B para o ambiente, o Presidente Francês, Emmanuel Macrom, respondeu-lhe com uma frase que, parecendo banal, ficará para a história: “não há plano B porque não há planeta B”, querendo dizer-lhe que ou defendíamos o plano anteriormente acordado ou, então, deixava de haver planeta, já que os problemas ambientais estão a atingir um ponto de não retorno à sobrevivência.

Há quatro anos atrás, boa parte das nações, nomeadamente da Europa e da América do Norte, sem esquecer outras, procuravam pontes de entendimento mínimo para combater o terrorismo e tentar dar estabilidade a áreas do planeta assoladas por fanatismos religiosos, com práticas bárbaras, tantas vezes assumidas em direto pela comunicação social.

Há quatro anos atrás, o mundo procurava impor regras nos mercados financeiros e económicos, fazer acordos comerciais, dar mais fluidez à circulação de bens e produtos e tentar socorrer os países menos desenvolvidos, porque, compensá-los, mesmo que insuficientemente, também é uma das suas obrigações, dada a usurpação dos seus recursos naturais ao longo de séculos.

Mas, neste tempo de quatro anos, o mundo entrou em turbulência. As nações ficaram órfãos de um entendimento global mínimo; a diplomacia passou a ser feita na base de tuites; os tiranetes procuraram o caminho da destabilização, da arrogância e do insulto; as questões ambientais assumiram um agravamento preocupante; a paz piorou porque se fizeram acordos espúrios; reverteram-se passos importantes que tinham sido dados no reconhecimento das independências e do direito dos povos a viver em paz; em suma o mundo tonou-se menos respeitável, mais inseguro e  pior habitável.

Os próximos quatro anos poderão ser insuficientes para reverter o que de mau foi feito em idêntico período passado. Mas, como está bem provado, o mundo não para na sua caminhada em direção a um mundo melhor. Foi um recuo? Sem dúvida que demos passos atrás. Mas os passos atrás fazem parte da história. O que se deseja é que, com outra gente, os próximos quatro anos sejam passos gigantescos na aproximação dos estados, na unidade dos povos, na eliminação dos males e na construção de um Universo melhor.