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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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ALEXANDRE FRANCO: UM DOS GRANDES ROSTOS DO JORNALISMO LUSO-CANADIANO

  • Crónica de Daniel Bastos

No decurso desta semana, fomos surpreendidos com a triste notícia do falecimento, aos 73 anos, de Alexandre Franco, um dos grandes rostos do jornalismo na comunidade portuguesa no Canadá. Uma comunidade que se destaca na América do Norte pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico, e que já no ano transato assistiu ao desaparecimento de uma outra figura incontornável do jornalismo luso-canadiano, mormente Fernando Cruz Gomes, decano dos jornalistas da comunidade portuguesa em Toronto.

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Natural da cidade moçambicana da Beira, num período em que o território localizado no sudeste do continente africano permanecia uma província ultramarina portuguesa, Alexandre Franco, iniciou no final dos anos 60 a sua profícua carreira jornalística em Lourenço Marques, hoje Maputo, na Rádio Clube de Moçambique.

O conturbado processo de descolonização trá-lo-ia numa primeira fase à pátria lusitana onde começou a trabalhar na Antena 1 e a treinar o Basquetebol Queluz, uma outra área em que se destacou como atleta e treinador, e que marcou a sua predileção pelo jornalismo desportivo. Pouco tempo depois emigraria para a América do Norte, primeiro para Montreal a maior cidade da província do Quebeque e a segunda cidade mais populosa do Canadá, onde foi colaborador da Rádio Portugal de Montreal.

E posteriormente para Toronto, a maior cidade canadiana, onde foi gerente da Rádio Clube Português de Toronto em 1983 e pouco mais tarde após licença para uma rádio FM na CIRV. Trabalhou ainda a partir dos finais dos anos 90 na OMNI-TV, onde esteve como apresentador das notícias desportivas, década em que começou a publicar um jornal luso-canadiano, na altura designado Stadium, apenas desportivo.

 Presentemente o generalista Milénio Stadium, assume-se como um jornal de referência da comunidade luso-canadiana, integrado na MDC Group do comendador Manuel da Costa, um dos mais ativos e beneméritos empresários portugueses em Toronto. Rosto público e estimado no seio da comunidade luso-canadiana, Alexandre Franco, que foi distinguido em 2010 pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal como o melhor jornalista da diáspora lusa, sublimou ao longo da sua vida a epígrafe de Victor Hugo: “A imprensa é a imensa e sagrada locomotiva do progresso”.

HOSPITAIS E SAÚDE NO OITOCENTOS: DIÁLOGO ENTRE BRASIL E PORTUGAL

  • Crónica de Daniel Bastos

No ocaso do ano passado, a editora Fiocruz, que concentra a maior parte dos lançamentos da Fundação Oswaldo Cruz, a mais importante instituição de ciência e tecnologia em saúde da América Latina, e uma das principais instituições mundiais de pesquisa em saúde pública, localizada no Rio de Janeiro, lançou o livro “Hospitais e Saúde no Oitocentos: diálogos entre Brasil e Portugal”.

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Organizado pelo arquiteto Renato Gama-Rosa, investigador da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), e Cybelle Miranda, investigadora da Universidade Federal do Pará (UFPA), o livro é constituído por sete capítulos. Designadamente, “Edifícios da Saúde no Rio de Janeiro Oitocentista” de Inês El-Jaick Andrade, Renato da Gama-Rosa Costa e Éric Alves Gallo; “Hospitais na Belém Oitocentista: classicismo e diálogo entre matrizes luso-brasileiras” de Cybelle Salvador Miranda; “Da Instituição Asilar ao Movimento Antimanicomial: a reconstituição da memória do Hospital Juliano Moreira do Pará” de Emanuella da Silva Piani Godinho e Cybelle Salvador Miranda; “Arquitetura da Saúde como Patrimônio: Hospital D. Luiz I da Benemérita Sociedade Portuguesa Beneficente do Pará” de Cibelly Alessandra Rodrigues Figueiredo; “A Casa da Misericórdia no Contexto da Arquitetura Portuguesa da Saúde na Centúria do Oitocentos em Portugal”  de Joana Balsa de Pinho e Fernando Grilo; “O Hospital da Misericórdia de Fafe e a Contribuição da Benemerência Brasileira em Portugal no Século XIX” de Daniel Bastos; e “A Arquitetura Assistencial em Portugal no Início do Século XX: o Sanatório de Sant’Ana” de Maria João Bonina e Fernando Grilo.

Ao longo dos sete capítulos do livro, os cientistas sociais luso-brasileiros revisitam a benemérita rede de dezenas de hospitais e associações de beneficência, que emigrantes portugueses na transição do séc.XIX para o séc. XX construíram em várias cidades brasileiras, principal destino da emigração lusa na época, que originalmente se destinavam à ajuda mútua entre os sócios, membros da comunidade portuguesa, e que ainda hoje são instituições de referência no Brasil e na América do Sul. Assim como o contributo da filantropia dos “brasileiros de torna-viagem”, emigrantes portugueses enriquecidos no Brasil, que no alvorecer do séc. XX estiveram, entre outras obras beneméritas, na base da construção de hospitais nas suas terras de origem.

O NOVO CICLO DA COMUNIDADE DOS PAÍSES DE LÍNGUA ORTUGUESA

  • Crónica de Daniel Bastos

O início de 2019 assinalou oficialmente a entrada em funções do novo secretário executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), o diplomata Francisco Ribeiro Telles, cargo que pela primeira vez nos mais de vinte anos da organização, é assumido por um português.

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Fundada em 1996, a CPLP é atualmente uma organização formada por nove países espalhados pelos cinco continentes, cuja língua oficial ou uma delas, é a língua portuguesa. Nomeadamente Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, que se encontram irmanados no desígnio da língua portuguesa, a quinta mais falada do mundo, enquanto vínculo histórico e património comum dos Estados-membros, assim como da amizade e cooperação.

Num mundo profundamente globalizado e interligado, onde surgem constantes desafios e oportunidades, a CPLP assume assim um papel relevante na dimensão e concertação que confere aos países que a compõem, como é o caso de Portugal. A enorme vitória diplomática que constituiu a eleição do português António Guterres para secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em 2016, não pode ser dissociado do dinamismo e magistratura de influência da CPLP. 

O papel da CPLP no mundo atual foi modelarmente expresso por António Guterres, no ano passado, no âmbito do Dia da Língua Portuguesa e da Cultura da CPLP (5 de maio). No discurso que então proferiu nos jardins da ONU, o secretário-geral sustentou: “É necessário dizer que nós na CPLP nos orgulhamos da nossa diversidade, reconhecemos que as nossas próprias sociedades são multiétnicas, multiculturais, multirreligiosas, e que isso é um bem, não é uma ameaça, e que isso deve ser valorizado, e afirmado, e que isso deve ser uma lição para outras partes do mundo, outros povos, outras culturas. E penso que a CPLP tem aqui um papel essencial a desempenhar".

Neste sentido, o novo ciclo que agora se inicia na CPLP é da maior importância para a prossecução da missão da organização. As prioridades do mandato assumidas por Francisco Ribeiro Telles, como a livre circulação de pessoas, a projeção da língua portuguesa e o diálogo sobre os oceanos, parecem ir ao encontro deste papel essencial que a CPLP deve continuar a desempenhar no mundo.

JOHN PHILIP SOUSA, UM INSIGNE LUSO-AMERICANO

  • Crónica de Daniel Bastos

No início do mês passado assinalaram-se os 164 anos do nascimento de John Philip Sousa, insigne compositor e maestro de banda luso-americano, do romantismo tardio, popularmente conhecido como “O Rei das Marchas”, como The Stars and Stripes Forever, marcha oficial dos Estados Unidos.

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John Philip Sousa nasceu em Washington, a 6 de novembro de 1854, terceiro dos dez filhos do português, natural dos Açores, João António Sousa e de uma austríaca, Marie Elisabeth Trinkaus. A sua precoce vocação musical levou a que ainda muito jovem se iniciasse nos estudos musicais, tocando violino, e aprendendo composição musical.

Em 1892, o musicógrafo luso-americano apresentou, em New Jersey, a sua própria banda, a “Sousa Band”, encetando um percurso musical fulgurante. Desde essa data até à década de 1930, realizou mais de quinze mil concertos, sendo que no ocaso do séc. XIX a sua banda representou os Estados Unidos da América na Exposição Universal de Paris.

Antes em 1888, tinha já composto a marcha “Semper Fidelis” que foi adotada como hino da Marinha dos Estados Unidos da América. A 14 de maio de 1897, em Filadélfia, no decurso da inauguração solene de uma estátua de George Washington, primeiro Presidente dos Estados Unidos da América, em que esteve presente o presidente norte-americano dessa época, William McKinley, foi tocada pela primeira vez em público a marcha intitulada The Stars and Stripes Forever (Estrelas e Barras para Sempre), considerada a obra-prima do luso-americano, e que mereceu as honras, por lei do Congresso dos Estados Unidos, de marcha nacional do país.

Afamado compositor e maestro, John Philip Sousa, escreveu também obras poéticas, de ficção, manuais, crónicas jornalísticas e uma autobiografia, tendo inclusivamente idealizado um instrumento de sopro da família dos metais, o Sousafone, uma tuba especial que o executante apoia no ombro para que possa executá-la enquanto anda ou marcha, e que é o maior dos instrumentos de sopro.

John Philip de Sousa, que faleceu no dia 6 de março de 1932, e foi sepultado com honras oficiais em Washington, no Cemitério do Congresso, é meritoriamente uma das figuras luso-americanas de maior destaque na cultura e história norte-americana.

A REDE MUNDIAL DE LUSO-ELEITOS

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  • Crónica de Daniel Bastos

No decurso dos últimos anos tem sido pública e notória a intervenção de portugueses e lusodescendentes na vida política além-fronteiras, fenómeno revelador da admirável integração das comunidades portuguesas e do papel importante que as mesmas desempenham no desenvolvimento das sociedades de acolhimento.

Este fenómeno crescente de participação cívica e política perpassa as várias comunidades portuguesas espalhadas pelo Mundo. No rescaldo das recentes eleições intercalares dos Estados Unidos da América, subiu para quatro o número de congressistas de origem lusa com assento na Câmara dos Representantes, em Washington, naquela que é já considerada a maior representação de sempre de legisladores a nível federal saídos de comunidades portuguesas.

Em França, destino tradicional da emigração portuguesa, a ação cívica e política lusa logrou no alvorecer do séc. XXI a criação da Associação CÍVICAAssociação dos Autarcas Portugueses em França, que conta com mais de trezentos membros ativos e cerca de dois milhares que enviam informações, num universo de quatro milhares de autarcas de origem portuguesa em território gaulês.

Nas últimas eleições autárquicas de Ontário, a província mais populosa do Canadá, cinco lusodescendentes foram eleitos numa região onde vive e trabalha uma das mais dinâmicas comunidades portuguesas da América do Norte. Um cenário similar ao que ocorreu nas eleições municipais belgas, onde foram eleitos sete candidatos portugueses e lusodescendentes, ou no Reino Unido, onde foi eleito o primeiro “Mayor” português, em Bridgwater, e um vereador de origem lusa na cidade de Oxford.

A ideia comummente aceite que os portugueses no Mundo, que totalizam mais de cinco milhões, são a mais importante e eficaz fonte de inserção nacional, tem nos muitos e bons exemplos de portugueses e lusodescendentes que exercem funções decorrentes do exercício democrático além-fronteiras, um dos pilares fundamentais na afirmação da pátria de Camões no concerto das nações. A rede universal de luso-eleitos constitui uma incontornável mais-valia na inserção de Portugal dos diferentes espaços, provendo o país de uma potencial magistratura de influência que as autoridades lusas não podem desaproveitar, antes pelo contrário, devem incentivar e dinamizar na promoção e projeção de Portugal no Mundo.

AS VIAGENS DOS AUTARCAS ÀS COMUNIDADES PORTUGUESAS

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  • Crónica de Daniel Bastos

Nos últimos anos temos assistido no seio das comunidades portuguesas disseminadas pelos quatro cantos do mundo, a um conjunto frequente de visitas de autarcas às pátrias para onde emigraram muitos filhos das suas terras à procura de melhores condições de vida.

A ligação forte entre o poder local, designadamente os seus representantes, e as populações, uma das maiores realizações do regime democrático português, impulsionaram ao longo das últimas décadas ao estabelecimento de laços de geminação de muitos municípios com cidades além-fronteiras onde estão presentes as comunidades lusas.

Os protocolos de geminação, que visam criarem relações de amizade, solidariedade e intercâmbio, e em vários casos relações aos níveis económico e cultural, têm sido um dos principais motivos das viagens dos autarcas às suas comunidades emigrantes. Muitas das vezes reforçadas pela existência nessas comunidades de associações e clubes vincadamente marcados pela sua terra de origem, que adotaram inclusive a denominação da sua proveniência, e de forma bairrista e desprendida muitos dos seus associados se constituem como genuínos embaixadores dos seus territórios de berço.

Embora sintomática de debilidades estruturais do país, como a queda demográfica ou o despovoamento, muitos autarcas de territórios fortemente marcados pelo fenómeno migratório, desde há muito tempo perceberam as potencialidades das suas comunidades emigrantes na dinamização e valorização da economia local.

As potencialidades do mercado da saudade têm levado inúmeros autarcas a participarem nas mais variadas iniciativas, festas e feiras realizadas periodicamente no seio das comunidades portuguesas, quase sempre animadas por espetáculos e músicas típicas das regiões dos emigrantes. Procurando deste modo promover e levar para junto da comunidade emigrante produtos e atividades económicas do seu concelho de forma a dinamizar a economia local.

Esta ligação dos autarcas às suas comunidades emigrantes são fundamentais para o progresso dos seus territórios, onde muitos emigrantes continuam a ter um papel fundamental no seu desenvolvimento, assim como um meio capaz de impulsionar o tecido socioeconómico, atrair investimentos e fortalecer a coesão e identidade local.  

MEMÓRIAS DE SÃO ROQUE DO FAIAL: AS VOZES DOS EMIGRANTES

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  • Crónica de Daniel Bastos

Na freguesia de São Roque do Faial, uma freguesia do concelho de Santana, ao norte da Ilha da Madeira, encravada na base do Maciço Montanhoso Central, entre a Ribeira da Metade e a Ribeira do Castelejo, está a ser dinamizado nos últimos anos um projeto comunitário singular em torno da temática da emigração.

Intitulado “Memórias de São Roque do Faial: as vozes dos emigrantes”, o projeto é fruto de uma ideia inspirada nos fluxos emigratórios desta povoação madeirense conhecida pela sua ruralidade e fantásticos miradouros. Esta realidade sócio histórica conduziu à criação de um espaço de partilha, conhecimento e informação sobre as tradições e cultura da freguesia com o principal objetivo de estabelecer um elo de ligação entre os residentes e emigrantes de São Roque do Faial.

Procurando preservar, respeitar e transmitir a cultura e tradição associada à pitoresca freguesia madeirense, bem como contactar diretamente e ativamente com os seus usos e costumes, de forma a manter vivas as tradições, como é o caso das vindimas, das romagens no Natal, das festas do verão, designadamente o dia do padroeiro S. Roque, das lendas e das imensas belezas naturais misturadas com aromas e cores, o projeto assenta parte significativa do seu trabalho no levantamento das histórias de vida e testemunhos dos emigrantes.

Não poderia ser de outra forma, porquanto numa povoação fortemente marcada pela emigração, como reconhecem os responsáveis do projeto comunitário, não há casa que não tenha família emigrante ou residentes que tenham sido emigrantes no Brasil, Venezuela, Austrália, África do Sul, Estados Unidos ou Inglaterra.

Neste sentido, este projeto comunitário que tem sido dinamizado ao longo dos últimos anos na freguesia de São Roque do Faial, reveste-se de um valor cultural de importância local, regional e nacional. Pois além de preservar aspetos culturais de carácter etnográfico da povoação e da região, e de divulgar junto das novas gerações a cultura tradicional, através da recolha e registo de usos e costumes, saberes e fazeres, histórias e memórias, existe um claro propósito de reconhecer, valorizar e dignificar as sucessivas gerações locais, que à imagem e semelhança de muitos compatriotas, um dia deixaram o país para demandarem outras paragens à procura de uma vida melhor.

GÉRALD BONCLOURT: O FOTÓGRAFO DA EMIGRAÇÃO PORTUGUESA

No ocaso do passado mês de outubro, fomos surpreendidos com a triste notícia do falecimento do nonagenário fotógrafo franco-haitiano Gérald Bloncourt. Um dos grandes nomes da fotografia humanista, cujas amplamente conhecidas imagens que imortalizam a história da emigração portuguesa para França, representam um fundamental para a (re)construção da identidade e memória coletiva nacional.

O fotógrafo Gérald Bloncourt, acompanhado do historiador Daniel Bastos, em Paris, aquando do lançamento em 2016 do livro realizado pelo investigador sobre a epopeia da emigração portuguesa para França 2

O fotógrafo Gérald Bloncourt, acompanhado do historiador Daniel Bastos, em Paris, aquando do lançamento em 2016 do livro realizado pelo investigador sobre a epopeia da emigração portuguesa para França

 

Radicado em Paris há mais de meio século, o antigo fotojornalista e colaborador de jornais de referência no campo social e sindical, teve o condão de retratar a chegada das primeiras levas massivas de emigrantes portugueses a França nos anos 60. A lente humanista do fotógrafo com dotes poéticos captou com particular singularidade as duras condições de vida dos nossos compatriotas nos bairros de lata nos arredores de Paris, conhecidos como bidonvilles, como os de Saint-Denis ou Champigny, com condições de habitabilidade deploráveis, sem eletricidade, sem saneamento nem água potável, construídos junto das obras de construção civil.

O fotógrafo Gérald Bloncourt, acompanhado do historiador Daniel Bastos, em Paris, aquando do lançamento em 2016 do livro realizado pelo investigador sobre a epopeia da emigração portuguesa para França 1

Menos conhecidas, mas nãos menos importantes, são as imagens que Bloncourt captou durante a sua primeira viagem a Portugal nos anos 60, onde retratou o quotidiano das cidades de Lisboa, Porto e Chaves. Assim como as da viagem a “salto” que fez com emigrantes além Pirenéus, e as das comemorações do 1.º de Maio de 1974 em Lisboa, que permanece ainda hoje como a maior manifestação popular da história portuguesa.

O trabalho fotográfico de Bloncourt sobre a emigração portugueses constitui um valioso repositório do último meio século nacional, que resgata das penumbras do esquecimento os protagonistas anónimos da história portuguesa que lutaram aquém e além-fronteiras pelo direito a uma vida melhor e à liberdade.

O trabalho e percurso de vida do fotógrafo francês de origem haitiana, que durante mais de vinte anos escreveu com luz a vida dos portugueses em França e Portugal, foram em 2016 distinguidos pelo Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa. No âmbito das Comemorações do 10 de Junho em Paris, Dia de Portugal de Camões e das Comunidades Portuguesas, cujas comemorações oficiais nesse ano aconteceram pela primeira vez numa cidade fora do país, o aclamado fotógrafo foi condecorado na cidade simbólica de Champigny, com a ordem de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

O fotógrafo Gérald Bloncourt, acompanhado do historiador Daniel Bastos, em Paris, aquando do lançamento em 2016 do livro realizado pelo investigador sobre a epopeia da emigração portuguesa para França 3

O fotógrafo Gérald Bloncourt, acompanhado do historiador Daniel Bastos, em Paris, aquando do lançamento em 2016 do livro realizado pelo investigador sobre a epopeia da emigração portuguesa para França 4

FERNANDO CRUZ GOMES, DECANO DOS JORNALISTAS DA COMUNIDADE PORTUGUESA EM TORONTO

  • Crónica de Daniel Bastos

No decurso deste mês, fomos surpreendidos com a triste notícia do falecimento, aos 78 anos, do decano dos jornalistas da comunidade portuguesa em Toronto, Fernando Cruz Gomes, um dos rostos mais conhecidos da numerosa prole luso-canadiana que vive na quarta maior cidade da América do Norte. 

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Natural da vila de Pampilhosa da Serra, no distrito de Coimbra, Fernando Cruz Gomes, iniciou nos finais dos anos 50 a sua vida profissional como jornalista, no vetusto “Primeiro de Janeiro”, um jornal diário que se publicou na cidade do Porto. Mas foi em solo africano, mais concretamente em Angola, antiga província ultramarina portuguesa, onde residiu durante 25 anos, que o seu trabalho jornalístico ganhou amplitude e profundidade, através do desempenho de funções em diversos meios de comunicação, jornais e rádios, como o "ABC Diário de Angola", a "Rádio Eclésia", no diário de Luanda "O Comércio", "A Província de Angola" (atual “Jornal de Angola”), no "Rádio Clube de Benguela" e na "Emissora Oficial de Angola".

No início da Guerra do Ultramar em Angola, a 15 de março de 1961, Fernando Cruz Gomes, chegou a acompanhar sozinho os combates entre as Forças Armadas Portuguesas e os Movimentos de Libertação deste território da costa ocidental de África. Durante o seu percurso jornalístico por terras africanas, o profissional de comunicação social, foi ainda presidente da secção de Angola do Sindicato Nacional de Jornalistas, onde se manteve até finais de 1974.

 A sua chegada ao Canadá ocorreu em 1975, ano do conturbado processo de descolonização. Na nova pátria de adoção, foi fundador e diretor de jornais comunitários, como "Popular", "Comércio", "Mundo", ABC Portuguese Canadian Newspaper e "A Voz", e editor e repórter na CIRV Rádio e na FPTV.

As suas multifacetadas funções jornalísticas em Toronto, inclusive de correspondente durante vários anos da Lusa, foram fundamentais para a promoção e conhecimento da língua, cultura e pulsar da comunidade luso-canadiana. E estiveram na base do justíssimo reconhecimento de que foi alvo em 2014, com a atribuição da Ordem do Infante D. Henrique pelos serviços relevante que prestou à pátria de Camões.

LIVRARIAS EMBAIXADORAS DA LÍNGUA E CULTURA LUSÓFONAS

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  • Crónica de Daniel Bastos

Nos últimos anos tem-se assistido em Portugal ao encerramento de um conjunto significativo de livrarias, muitas delas antigos espaços culturais de eleição, de encontro, de convívio e de cidadania. O recente fecho de portas, em Lisboa, da Aillaud & Lellos, da Book House, da Bulhosa Livreiros e da Pó dos Livros, ou no Porto, da Leitura, são apenas alguns destes tristes exemplos que têm pautado o panorama cultural nacional.

A evolução e a crise do mercado, a concorrência de grandes cadeias, a forte pressão nas rendas do mercado imobiliário, a falta de apoios ou a alteração do modo de ler, que já não se cinge exclusivamente a ler o livro em papel, são alguns dos motivos que estão na base do encerramento destes estabelecimentos culturais ameaçados de extinção.

Este fenómeno de empobrecimento da vida cultural não é um exclusivo do país, tendo-se igualmente acentuado nos últimos anos no seio das Comunidades Portuguesas. Longe vão os tempos em que a Livraria Lusófona, do editor João Heitor, foi durante mais de duas décadas um espaço singular na difusão da língua e cultura portuguesa a partir do Quartier Latin em Paris. Uma triste sina de desaparecimento que atingiu também nos tempos mais recentes a antiga livraria Orfeu, sediada em Bruxelas, propriedade do ativista cultural Joaquim Pinto da Silva, cujo desiderato visava promover as culturas portuguesas e galega no coração da Europa. Assim como, a Livraria Camões, em Genebra, do emigrante e livreiro natural do Porto, António Pinheiro, uma genuína embaixada literária de Portugal em terras helvéticas.

Com mais ou menos dificuldades, subsistem ainda algumas livrarias disseminadas pelas Comunidades Portuguesas, que como no território nacional, vão resistindo aos ventos da extinção, teimando em funcionar como polos agregadores e difusores da cultura e língua lusa. Como é o caso da Livraria - die portugiesische & brasilianische Buchhandlung em Berlim, a Luso Livro em Zurique, a Livraria Portuguesa de Macau, um espaço incontornável da portugalidade no Oriente, ou a recém-criada La petite portugaise, uma nova livraria portuguesa em Bruxelas que pretende divulgar a cultura lusófona.

A prossecução cultural destes espaços no seio das Comunidades Portuguesas, demandam neste sentido o apoio resoluto das instâncias competentes do Estado Português ao nível política cultural externa do país, que não podem olvidar a missão destas livrarias, verdadeiras embaixadoras da língua, cultura e expressão lusófona.

O PAPEL DOS CÔNSULES HONORÁRIOS DE PORTUGAL

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  • Crónica de Daniel Bastos

Em meados deste ano, realizou-se em Lisboa, no Museu do Oriente, o primeiro Seminário dos Cônsules Honorários intitulado “Rede honorária de Portugal no mundo: realidade e potencial”, que teve como principal objetivo promover e estimular uma reflexão e discussão sobre o papel destes representantes do Estado português, de modo a fortalecer os laços de união e cooperação com as comunidades portuguesas no mundo, e com as autoridades lusas.

A iniciativa, organizada pela Direção Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas do Ministério dos Negócios Estrangeiros com a colaboração do Instituto Diplomático, teve o condão de computar a presença de mais de 100 cônsules honorários portugueses provenientes de 58 países dos cinco continentes, o que, por si só, é revelador da importância desta rede consular que exerce funções de defesa dos direitos e interesses legítimos do Estado Português e dos seus nacionais.

A posição do Cônsul Honorário foi aprovada pela Convenção de Viena de 1963 sobre as Relações Consulares, na qual todos os países membros das Nações Unidas são signatários. Em geral, os cônsules honorários portugueses são figuras gradas da comunidade local, com ligação ao mundo dos negócios, e que fruto em grande parte de restrições financeiras e escassez de recursos, atuam como representantes do Estado em locais distantes dos postos de carreira onde há uma presença significativa da comunidade lusa.

Dados recentes apontam para que a rede consular portuguesa contenha um total de 233 cônsules honorários, cujas nomeações são de livre escolha ministerial de entre cidadãos nacionais ou estrangeiros de reconhecida aptidão para a promoção e da defesa dos interesses portugueses, distribuídos por 108 países, estando 32 em África, 84 na América, 41 na Ásia, 69 na Europa e 7 na Oceânia.

Numa época em que a internacionalização das empresas nacionais, a atração de investimento estrangeiro, a promoção da imagem do nosso país, desde a cultura ao turismo, e a dinamização de negócios em mercados estratégicos, são vitais para o desenvolvimento socioeconómico luso, a atuação e o papel dos cônsules honorários constituem indubitavelmente uma mais-valia na afirmação e projeção de Portugal no Mundo.

O FESTIVAL KUNCHI E OS LAÇOS ANCESTRAIS ENTRE PORTUGAL E O JAPÃO

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  • Crónica de Daniel Bastos

Uma vez mais, no âmbito de uma ancestral tradição japonesa, realiza-se nos próximos dias 7, 8 e 9 de outubro o Festival Kunchi, uma das festas populares mais conhecidas na cidade de Nagasaki, uma histórica metrópole da “Terra do Sol Nascente” fundada pelos portugueses na segunda metade do séc. XVI.

Portugal encerra a particularidade de o ser país europeu com a mais longa história de intercâmbio com o Japão, fruto de ter sido a primeira nação do “Velho Continente” a chegar e a estabelecer contactos com as gentes das “Terra do Sol Nascente”. Foi durante a expansão marítima quinhentista que se estabeleceram o início das trocas comerciais entre o Japão e os portugueses, à época chamados pelos japoneses “Nanban-jin”, isto é, “bárbaros do sul”, expressão que era nessa altura usada para identificar os povos ibéricos.

O intercâmbio comercial de há mais de quatrocentos anos, acarretava que os portugueses levassem para o território insular da Ásia Oriental, espingardas, pólvora, seda crua da China, entre outras mercadorias, e o Japão enviasse para a zona ocidental da Península Ibérica, prata, ouro e sabre japoneses, entre outros produtos. As vetustas relações comerciais entre as duas nações, estão na base de um conjunto expressivo de vocábulos de origem portuguesa que entraram na língua japonesa, como por exemplo, “pan” (pão), “koppu” (copo), “botan” (botão), “tabako” (tabaco) ou “shabon” (sabão).

A presença lusa no isolado Japão quinhentista e seiscentista teve igualmente uma conhecida dimensão missionária e evangelizadora, que redundou em ferozes perseguições movidas pelos xoguns aos missionários portugueses, receosos de uma eventual invasão por parte dos “bárbaros do sul” e temerosos da influência dos jesuítas nos nipónicos.

Ainda hoje uma das principais atrações do Festival Kunchi, celebrado todos os outonos desde o séc. XVI, e que depois também se tornou uma denúncia dos chamados cristãos-escondidos, é a “Nau Portuguesa”, apenas apresentada cada sete anos, e que constitui uma evocação histórica da expansão portuguesa até ao Japão. Assim como, um sinal perene que a história e cultura portuguesa são importantes e estratégicas para a afirmação do nosso país num mundo marcado pelos desafios da globalização, diversidade cultural e desenvolvimento.

A HERDADE VALE DA ROSA E O RECRUTAMENTO DE LUSO-VENEZUELANOS

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  • Crónica de Daniel Bastos

A grave crise política, económica e social que tem assolado a Venezuela nos últimos anos, tem impelido o retorno de milhares de luso-venezuelanos ao território nacional, sobretudo à Madeira, região autónoma de onde é oriunda a maioria do quase meio milhão de emigrantes portugueses que vivem neste país da América do Sul.

Estima-se que no ano passado, tenham chegado à “pérola do Atlântico" quase quatro mil lusodescendentes vindos do país liderado por Nicolas Maduro, e que se encontrem inscritos mil lusodescendentes no Instituto de Emprego da Madeira.

Com mais ou menos dificuldades, são públicos e notórios os esforços que as autoridades, e os serviços públicos regionais e nacionais, têm encetado na tentativa de procurar apoiar os cidadãos portugueses que regressaram ao país vindos da Venezuela, designadamente nas áreas da educação, da saúde, da segurança social e da inserção profissional.

Estes esforços não se esgotam nas esferas públicas regionais e nacionais, antes pelo contrário, têm colhido também apoio e recetividade na sociedade civil, mormente nos meios associativos e empresariais, que têm procurado dentro das suas possibilidades contribuir para a integração dos compatriotas que regressam da Venezuela em contexto de precariedade.

Um dos melhores exemplos desse apoio foi recentemente expresso pela Herdade Vale de Rosa, uma empresa agrícola do Baixo Alentejo que produz e comercializa uva de mesa, particularmente uva sem grainha, que através de um protocolo assinado com o Governo Regional da Madeira permite a emigrantes luso-venezuelanos terem acesso a oportunidades de emprego. Esta parceria imbuída de uma meritória responsabilidade social da Herdade Vale de Rosa, que já tem a trabalhar na sua estrutura cerca de 30 luso-venezuelanos, permite desde logo ao maior produtor nacional de uva de mesa suprir falta de mão-de-obra que não encontra na região onde se encontra implantada.

A necessidade de recrutamento da empresa, que prevê poder empregar cerca de 100 luso-venezuelanos, constitui um importante sinal de apoio à inserção socioprofissional de compatriotas regressados da Venezuela, assim como um sinal de esperança num futuro e uma vida melhor.

SOBRE A FORMAÇÃO LITÚRGICA DOS FIÉIS (3)

Continuo a elencar algumas questões, que considero importantes, relativas à participação dos fiéis nas celebrações da Eucaristia, e reveladoras da respetiva formação/educação litúrgica. Com a ajuda de Deus, terminarei hoje.

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Durante a consagração, ajoelho-me (sendo possível) e mantenho-me em respeitoso silêncio, perante o Mistério que está a acontecer diante de todos nós? Ou distraio-me com facilidade e até contribuo para a distração de outros?

No decorrer da Eucaristia, tenho consciência de que há orações específicas que apenas devem ser ditas pelo presidente da celebração, às quais os fiéis presentes respondem com “Ámen” ou outras palavras ou expressões por todos conhecidas (pelo menos deveriam ser!)? Estou consciente de que as palavras que Jesus disse na Última Ceia, e que são repetidas em todas as Eucaristias, durante a Consagração, apenas devem ser ditas pelo presidente da celebração? E que o mesmo deve acontecer na conclusão da oração eucarística (doxologia final) - ”Por Cristo, com Cristo, em Cristo,…” -, oração que exprime a glorificação de Deus e é ratificada e concluída pela aclamação do povo com o Amén. (IGMR, no 80).

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Lembro-me, sempre, que na Missa, no final da oração do Pai-Nosso não devo dizer “Amén”, porque o presidente da celebração continua a oração sozinho, dizendo “Livrai-nos, Senhor de todo o mal…”. Ou seja, o sacerdote como que desenvolve o último pedido que fazemos no Pai-Nosso “livrai-nos do mal”. E quando ele termina, junto-me aos restantes fiéis, respondendo de forma clara e convincente: “Vosso é o Reino, o poder e a glória para sempre”?

No momento adequando, e apenas se e quando o presidente ou o diácono diz “Saudai-vos na paz de Cristo”, “dou” a paz apenas às pessoas que estão ao meu lado, ou “cumprimento” todas as pessoas que estão ao meu lado, atrás, à frente, e ainda… Depois que o presidente diz “Eis o Cordeiro de Deus…” e os fiéis respondem “Senhor, eu não sou digno…”, permaneço de pé, quer vá ou não comungar, ou sento-me de imediato e começo a conversar com quem está ao meu lado?

Se a minha alma está em condições de ir comungar o Corpo do Senhor, integro-me na procissão (sim, é uma procissão!) e caminho calmamente, meditando sobre o que vou fazer, sem atropelar ninguém, antes cedendo a passagem sempre que necessário? Ou vou distraído, conversando e cumprimentando quem encontro no percurso? Se quero fazer uma reverência a Jesus presente nas hóstias que o ministro distribui aos fiéis, faço-o antes de comungar, de forma singela e sem atrapalhar nada nem ninguém, ou não? Se comungo na mão, faço-o em frente ao ministro ou comungo a caminhar, de volta ao lugar (ou, em direção à porta da rua!), sem ter o cuidado de não deixar cair partícula alguma ao chão? E por aqui me fico.

Por aquilo que se vai vendo em algumas celebrações, penso que é mesmo necessária uma formação/educação litúrgica contínua, particularmente dos que exercem ministérios ou serviços eclesiais: Ministros Extraordinários da Comunhão, Acólitos, Leitores, Salmistas, Catequistas, Zeladores, os que fazem o acolhimento…

E porquê? Por tudo o que já foi dito e para que não volte a acontecer que o altar de uma igreja, apesar de protegido, possa continuar a servir para que alguma zeladora “passe a ferro”, as toalhas, os manustérgios, os sanguíneos…

Fiquem bem, e com a graça de Deus!

José Pinto, Acólito

Texto publicado no jornal A Voz de Trás-os-Montes

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SOBRE A FORMAÇÃO LITÚRGICA DOS FIÉIS (2)

Continuo o meu raciocínio, iniciado na edição anterior, sobre a educação/formação litúrgica dos fiéis, particularmente no que concerne a uma participação ativa e consciente, de todos e de cada um de nós, na Eucaristia. Comecemos, pois, pelo princípio; e, sem intenção de ser exaustivo, levanto algumas questões para reflexão individual.

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Quando os sinos tocam, chamando-nos para a Missa (“o culto mais sublime que oferecemos ao Senhor”), nós fazemos a caminhada, até à igreja, conscientes do que, em comunidade, aí vamos fazer: celebrar a nossa fé em Jesus Cristo; louvar, agradecer e adorar a Deus; pedir perdão pelas nossas contínuas falhas para com Deus e para com os irmãos; ouvir a Palavra do Senhor, sem esquecer de a levar para a vida quotidiana; fazer memória da Paixão do Senhor e celebrar o seu Mistério Pascal? Ou vamos, essencialmente, para nos reencontrarmos e convivermos, durante algum tempo, com os amigos?

Antes de entrarmos na igreja, desligámos o telemóvel? Depois de passarmos a porta de entrada, o que fazemos: ajoelhamo-nos, benzemo-nos e preparamo-nos interiormente para a celebração em que vamos participar? Ou vamos visitar e rezar a todas as imagens dos santos colocados, ou não, nos altares laterais, e passamos rapidamente, sem nos deter, junto ao sacrário? Ou continuamos, alegremente, a nossa conversa iniciada na rua, mesmo depois de já ter começado o cântico de entrada?

Escreveu Romano Guardini, em “Sinais Sagrados”, recentemente reeditado (2ª ed., Set2017) pelo Secretariado Nacional de Liturgia, sobre o acto de nos ajoelharmos: “Quando dobrares o joelho, não o faças apressadamente e de forma descuidada. Dá alma ao teu acto! E que a alma do teu ajoelhar consista em inclinar também o coração diante de Deus, em profunda reverência. Quando entrares ou saíres da igreja ou passares diante do altar, dobra o joelho profunda e lentamente e que todo o teu coração acompanhe este flectir. Isso há-de significar: «Meu Deus altíssimo!...» Isto sim que é humildade e verdade, e fará sempre bem à tua alma.” E sobre o acto de nos benzermos: “Quando fizeres o sinal da cruz, fá-lo bem feito. Não seja um gesto acanhado e feito à pressa, cujo significado ninguém sabe interpretar. Mas uma cruz verdadeira, lenta e ampla, da testa ao peito, dum ombro ao outro. Sentes como ela te envolve todo?”

Concluída a oração colecta (a oração do presidente da celebração que recolhe as orações de todos os que estão a celebrar a Missa, e que, habitualmente, é dirigida a Deus Pai, por Cristo, no Espírito Santo), sentamo-nos de forma adequada e predispostos a escutar a Palavra de Deus? Ou sentamo-nos, displicentemente, de perna cruzada, como quem está numa mesa de café ou num sofá em casa, e sempre curiosos com o que se passa em qualquer local da igreja?

Iniciada a Liturgia da Palavra, estamos atentos a escutar o que Deus nos quer dizer naquele momento, e que pode dar um sentido totalmente novo ao que nos acontece no dia-a-dia?  Ou aproveitamos para comentar tudo e mais alguma coisa, com o vizinho do lado?

Quando toda a assembleia recita o Credo, fazemo-lo calmamente, pensando e acreditando nas palavras que proferimos? “Creio em Deus, Pai… Creio em Jesus Cristo… Creio no Espírito Santo… Creio na Igreja… Professo um só Baptismo… Creio na vida eterna…”. Ou não?

Vou ter de continuar na próxima edição! Fiquem com Deus.

José Pinto, Acólito

Texto publicado no jornal A Voz de Trás-os-Montes

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SOBRE A FORMAÇÃO LITÚRGICA DOS FIÉIS (1)

No dia 4 de Dezembro de 1963, durante a III Sessão pública, o II Concílio Ecuménico do Vaticano aprovou a Constituição «Sacrosanctum Concilium» sobre a Sagrada Liturgia, a qual abriu o caminho para uma profunda reforma da Liturgia da Igreja Católica Apostólica Romana.

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Foi o primeiro documento a ser votado, e dado o reduzidíssimo número de votos contra (4 non placet), em comparação com os votos a favor (2147 placet), este tema foi o único aprovado sem resistência pelos bispos do Concílio e adoptado quase por unanimidade. Desde então, permanece em contínua transformação, conforme prevê o mesmo documento: «Na verdade, a Liturgia compõe-se duma parte imutável, porque de instituição divina, e de partes susceptíveis de modificação, as quais podem e devem variar no decorrer do tempo, se porventura se tiverem introduzido nelas elementos que não correspondam tão bem à natureza íntima da Liturgia ou se tenham tornado menos apropriados.» (SC, 21)

A propósito da educação/formação litúrgica dos fiéis, que é de importância primordial, pode ler-se nesta Constituição: «Procurem os pastores de almas fomentar com persistência e zelo a educação litúrgica e a participação activa dos fiéis, tanto interna como externa, segundo a sua idade, condição, género de vida e grau de cultura religiosa, na convicção de que estão cumprindo um dos mais importantes múnus do dispensador fiel dos mistérios de Deus. (…).» (SC, 19)

Passados quase 54 anos desde a sua aprovação, parece-me que vai sendo tempo de se refletir e tomar consciência sobre qual é, atualmente, o grau de conhecimento dos fiéis sobre a Liturgia. Não sobre assuntos teológicos relacionados com a Liturgia, que poderão exigir alguma formação mais profunda (embora necessária e que não faz mal a ninguém…), mas sim sobre o que poderemos considerar de mais essencial, “mais básico”, (desculpem-me a expressão), para que qualquer baptizado possa celebrar dignamente a Eucaristia e participar noutras celebrações.

Quando não se sabe – porque não se aprendeu ou já se esqueceu - como fazer e/ou porque é que se faz assim e não de outra maneira, quase sempre se faz por ver fazer os outros (repetimos o que vemos), embora, muitas vezes, e lamentavelmente, de forma errada. E em vez de se dar um contributo sério e colaborar para a beleza da Liturgia, e ainda que inconscientemente, estamos a contribuir para que “o culto da majestade divina” (SC, 33) não seja participado e vivido como deve ser, com toda a dignidade e “nobre simplicidade” (SC, 34).

Diz um ditado popular, “Aprender até morrer”! No entanto, estou cada vez mais convencido de que nos assuntos relacionados com a celebração da nossa fé em Jesus Cristo, e depois da caminhada catequética até à recepção do Sacramento do Crisma (se não se interrompeu antes…), a “aprendizagem ao longo da vida” e a “formação contínua” são conceitos ou palavras vãs.

Se o Senhor Diretor da VTM me autorizar, continuarei com o meu raciocínio na próxima edição. Até lá, se Deus quiser, e “façam-me o favor de ser felizes”!

José Pinto, Acólito

Texto publicado no jornal A Voz de Trás-os-Montes

OS EMPRESÁRIOS DA DIÁSPORA E A VALORIZAÇÃO DO PATRIMÓNIO NACIONAL

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

No início do mês de setembro, foi conhecido que um grupo de emigrantes madeirenses, que até à data não pretendem ser identificados, adquiriu o Forte de São José, também conhecido como Forte do Ilhéu, Forte da Pontinha ou Bateria da Pontinha, uma histórica fortificação madeirense localizada na freguesia da Sé, na cidade e concelho do Funchal.

Construído em meados do século XVIII, o Forte de São José é o local da primeira fortificação madeirense, na época do seu descobrimento. Espaço primevo de abrigo aos descobridores da ilha, o antigo baluarte foi com o decurso do tempo pouco valorizado enquanto património histórico, arquitetónico e cultural regional e nacional, tendo no final do séc. XX o mesma sido adquirido por um particular, e recentemente por um grupo empresarial de emigrantes que tem em vista a recuperação e valorização desta original estrutura patrimonial, cultural e histórica.

A ação benemérita e empreendedora deste grupo de emigrantes, cuja intenção visa a breve trecho abrir o Forte de São José ao público, com um núcleo museológico e com um bar de apoio, é reveladora das potencialidades da diáspora portuguesa, e em particular dos emigrantes-empresários na recuperação e valorização de património imobiliário público nacional.

Conquanto o conhecimento, estudo, proteção, valorização e divulgação do património cultural, constituam um dever do Estado, que assim assegura a transmissão de uma herança nacional, cuja continuidade e enriquecimento visa unir as gerações num percurso civilizacional singular, a escassez de recursos aliada à inadiável necessidade de salvaguardar património público que se encontra devoluto, impeliu o Governo a criar nesta área de atuação o programa Revive.

Lançado em 2016 pelos ministérios das Finanças, Cultura e Economia, o programa Revive permite concessionar a investidores privados património público que se encontra devoluto tornando-o apto para afetação a uma atividade económica com finalidade turística, e assim gerar riqueza e postos de trabalho. Trata-se de um projeto importante para a salvaguarda da identidade histórica, cultural e social do país, e um elemento potenciador do turismo e riqueza das regiões, que pode seguramente alcançar uma maior atratividade e dinâmica se for bem divulgado junto dos empresários portugueses espalhados pelo mundo.

SÃO AS “FAKE NEWS” O NOVO CAMINHO DO JORNALISMO?

Fartos da informação autêntica – embora nem sempre verdadeira! – os leitores da imprensa tradicional e também das redes sociais parece terem virado subitamente para o consumo desenfreado e acrítico das notícias falsas, vulgo “fake news.

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À realidade parecem estar a preferir a mentira e a fantasia, às notícias fabricadas e ao sensacionalismo. E, para quem as produz, o que importa é tão-somente o interesse que elas despertam para as fazer render no mercado publicitário em função das audiências. A notícia – verdadeira ou falsa – virou mercadoria e perderam-se valores éticos do jornalismo. Até recentemente, diríamos que se tratava apenas de propaganda e manipulação…

Para não perder o comboio das novidades, alguma imprensa corre atrás de tudo quanto nas redes sociais dá à costa, mesmo em época de maré baixa. Quem não o fizer arrisca-se a ter de encerrar a edição em papel como recentemente sucedeu a um histórico jornal diário do nosso país, o “Diário de Notícias”. E, tudo leva a crer que em breve outros o seguirão!

Mas, por mais incrível que pareça, a maioria dos consumidores de “fake news” é levada a acreditar nas mais inacreditáveis falsas notícias que lhes apresentam… o excesso de informação e as novas tecnologias apenas têm vindo a contribuir para o embrutecimento das mentalidades!

É importante que continue a existir uma imprensa credível, seja em que suporte for, mas honesta, remando mesmo contra a maré: o BLOGUE DO MINHO está nesse barco!

RANCHOS FOLCLÓRICOS E “RANCHOS FOLCLÓRICOS”

  • Crónica de José Pinto

      Administrador do Portal “Folclore de Portugal – O Portal do Folclore Português

Num tempo em que os conceitos "aldeia global" e "globalização" assumem contornos algo preocupantes no que concerne à preservação das características essenciais e etnográficas da cultura popular do nosso povo, tornou-se necessário, cada vez mais, pôr em prática o que o etnólogo Jorge Dias defendia há décadas atrás: “Temos obrigação de salvar tudo aquilo que ainda é susceptível de ser salvo, para que os nossos netos, embora vivendo num Portugal diferente do nosso, se conservem tão Portugueses como nós e capazes de manter as suas raízes culturais mergulhadas na herança social que o passado nos legou.”

Também José Leite de Vasconcelos, anos antes, chamava a atenção para o facto de que muitos usos e costumes, muitas tradições se estavam a perder, dizendo “Acudamos a tudo, enquanto é tempo! De ano para ano extinguem-se ou transformam-se muitas cousas e surgem outras de novo em vez delas. Com a implantação da República em Portugal acabou o beija-mão no Paço, o trajo da corte, o fardamento dos archeiros. Não é preciso ser muito velho para notar grandes mudanças etnográficas sucedidas numa terra: quem vivendo hoje houvesse nascido nos meados do século XIX, lidou com cruzados, patacos e peças, viu a liteira, ouviu a sanfona - e nada disto existe hoje! Os romances ou xácaras, como é sabido, vão a desaparecer na tradição... Empenhemo-nos por isso na investigação das tradições populares...”

Nos tempos de hoje, o chamado progresso ou desenvolvimento (conceitos que expressam realidades bem diferentes), através dos mass media, particularmente da televisão e, nos últimos anos, da Internet, tem continuado a promover uma uniformização cultural à escala planetária, sem tomar consciência que assim está a destruir as especificidades culturais que caracterizam cada comunidade.

Os etnógrafos, os etnólogos e os folcloristas têm tentado lutar contra a acção erosiva do tempo na memória das pessoas, bem como da acção nefasta do progresso científico e técnico que não respeita a pessoa enquanto ser único, portador de uma cultura própria, que o identifica com determinada comunidade e não o deixa confundir com um ser de uma comunidade cultural.

É neste sentido, que muitos Ranchos Folclóricos ou Grupos Etnográficos (a designação não é importante) têm desempenhado uma acção meritória, e quantas vezes pouco reconhecida publicamente, na pesquisa, estudo, preservação e divulgação do património etnográfico-cultural das respectivas regiões.

Num labor constante, responsável e desinteressado, estes Grupos Folclóricos percorrem as aldeias, conversando com as pessoas mais idosas, numa tentativa de lhes fazer recordar vivências de tempos passados que urge preservar, e que constituem ou caracterizam muito do ser e do saber do nosso povo.

É por isso que o saudoso António Magalhães Cabral(que me honrou com a sua amizade, e com quem convivi e trabalhei durante alguns anos) não teve dúvidas em escrever que "Um grupo folclórico (ou rancho folclórico, etnográfico) é por inerência da sua constituição uma força ao serviço da investigação, defesa e promoção dos valores patrimoniais da comunidade em que se insere, no campo específico das tradições orais. Orais e não só, na medida em que estas se articulam com registos escritos e materiais. E é a pensar nisso que muitos ranchos folclóricos têm preferido a designação de etnográficos, ampliando assim os objectivos até à descrição atenta das manifestações culturais das populações, a nível regional, sub-regional e local."

No entanto, nem todos os Grupos ou Ranchos Folclóricos (muitas vezes auto denominados de Etnográficos), apresentam com autenticidade os aspectos essenciais da cultura popular da região ou localidade que dizem representar. Infelizmente, em primeiro lugar, para os seus antepassados, que devem andar às “voltas na cova” ao verem o ridículo da pseudo-representação divulgada pelos seus descendentes. Em segundo lugar, para as gerações vindouras, que não têm possibilidade de conhecer verdadeiramente as respectivas raízes culturais. Finalmente, também, para quem, sendo de fora, vê e pensa que as manifestações culturais que está a ver são típicas e autênticas, mas, afinal, estão a comer “gato por lebre”.

A propósito, o Padre Luís Morais Coutinho escreveu no seu livro «Subsídios Históricos e Etnográficos do Alto Douro» o seguinte: “Ao falar da dança etnográfica alto-duriense devo dizer que ela não escapa à destruição que por aí campeia como praga ou epidemia.

Grupos que se atribuem de Ranchos Folclóricos e nós não vemos de onde é o Folclore. O traje, a música, o ritmo e o gesto não dizem de onde são ou até dizem que não são. (…)

Dentro de alguns anos, os etnólogos vão ter tremendas dificuldades em separar o que é bom do que cheira mal...

Haja muito Folclore, mas do verdadeiro! Que possamos ver no traje, na música, no ritmo e no gesto a história do nosso povo! Que possamos ver as nossas raízes, afinal!

Mais palavras, para quê?

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AGOSTO, EMIGRANTES E ECONOMIA

  • Crónica de Daniel Bastos

Os dados mais recentes do desempenho da economia portuguesa, que tem mantido nos últimos anos uma trajetória de incremento, sustentam que no passado mês de agosto assistiu-se a uma forte dinâmica de crescimento alavancada no costumado regresso dos emigrantes à terra natal durante o período estival.

Daniel Bastos

A dinâmica económica resultante do regresso a casa nas férias de Verão de milhares de compatriotas que vivem e trabalham no estrangeiro, teve um impacto considerável ao nível da restauração e hotelaria, assim como ao nível do comércio. Segundo a Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP), a maior confederação empresarial do país, no segmento alimentar há inclusivamente lojas que registaram vendas em agosto superiores às habitualmente obtidas na quadra natalícia, época em que os estabelecimentos anseiam pelo potencial aumento de consumo.

As palavras de João Vieira Lopes, presidente da CCP, são inequívocas sobre o impacto económico do regresso dos emigrantes no Verão ao território nacional, com particular incidência no Centro e Norte, e sobretudo nas áreas do segmento alimentar:” Há lojas que conseguem faturar mais em agosto, com a vinda dos emigrantes, do que em dezembro, com o Natal”.

O dirigente da CCP salienta em especial, as vendas de vinho do Porto que os emigrantes “compram muito para levar e oferecer aos patrões e amigos”, assim como vestuário e calçado, “com preços mais atrativos em Portugal”, e eletrodomésticos e mobiliário.

A dinâmica que se verificou em agosto foi transversal a outras áreas da economia nacional, como por exemplo, no imobiliário, setor onde muitos emigrantes próximos da reforma e do regresso definitivo a Portugal continuam a aplicar as suas remessas, que continuam a aumentar não obstante o número de portugueses a saírem para o estrageiro estarem a recuar. Neste último campo, os dados continuam a indicar a França como a principal fonte das remessas dos emigrantes portugueses, embora o Reino Unido seja agora o principal destino dos novos emigrantes.

Pelos contributos atuais e vindouros, mas também pelas dinâmicas do passado, malgrado as causas e consequências negativas da emigração, o país contínua a ter nos emigrantes importantes catalisadores do seu desenvolvimento, e justos merecedores da nossa profunda admiração e respeito pelas suas trajetórias de vida.