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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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MUSEU HISTÓRICO DE SÃO JOSÉ: UM ESPAÇO DEDICADO À HERANÇA CULTURAL PORTUGUESA NA CALIFÓRNIA

  • Crónica de Daniel Bastos

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos Arquipélagos dos Açores e da Madeira, destaca-se atualmente pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.

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Atualmente, segundo dados dos últimos censos americanos, residem nos EUA mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, principalmente concentrados em Massachusetts, Rhode Island, Nova Jérsia e Califórnia. É neste último estado, que vive e trabalha a maior comunidade luso-americana do país, constituída por mais de 300 mil pessoas, e cuja presença histórica no oeste dos EUA remonta à centúria oitocentista, aquando da corrida ao ouro, da dinamização da pesca da baleia e do atum, e mais tarde das atividades ligadas à agropecuária.

A secular presença portuguesa na Califórnia, que se manifesta hodiernamente na existência de diversas associações, clubes e fundações luso-americanas, esteve na base da inauguração a 7 de junho de 1997, na antecâmara do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, do Museu Histórico de São José.

Erigido pela Sociedade da Herança Portuguesa da Califórnia, o museu, que ocupa um espaço de 650 metros quadrados, possuiu uma forte componente dedicada à emigração portuguesa para a Califórnia, às suas tradições, em especial religiosas. De tal modo, que o edifício constitui uma réplica do primeiro Império (Capela do Espírito Santo), à volta da qual se desenvolvem as festividades do Espírito Santo.

O Museu Histórico de São José alberga um conjunto de várias exposições que perpassam a história da emigração portuguesa para a Califórnia e o papel da comunidade lusodescendente num dos mais prósperos estados norte-americanos. O papel e importância da comunidade portuguesa concorreram decisivamente para que há dois anos fosse oficialmente inscrita na legislatura estadual da Califórnia, após aprovação unânime no Senado, uma resolução a declarar junho de 2019 como "Mês da Herança Nacional Portuguesa".

Enquanto espaço singular que homenageia e perpetua a herança cultural lusa nos Estados Unidos da América, em particular na Califórnia, o Museu Histórico de São José constitui-se como um exemplo inspirador para as Comunidades Portuguesas disseminadas pelo mundo, principalmente naquilo que deve ser o respeito pelo seu passado, a construção do seu presente e a projeção do seu futuro.

LIVRARIA PORTUGUESA DE MACAU: UMA VITRINA DA CULTURA LUSÓFONA NO ORIENTE

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  • Crónica de Daniel Bastos

No atual contexto de crise, originado pela pandemia da Covid-19 e os efeitos do confinamento social, as livrarias, espaços incontornáveis de cultura e cidadania, travam diariamente, no território nacional e nas comunidades portuguesas no mundo, hercúleas batalhas de sobrevivência.

Muitas são as que no decurso dos últimos tempos pereceram no campo de batalha, soçobrando às incursões da concorrência de grandes cadeias, à forte pressão nas rendas do mercado imobiliário, à falta de apoios ou à alteração do modo de ler, que já não se cinge exclusivamente a ler o livro em papel.

No entanto, ainda há quem resista, insistindo em manter as portas abertas apesar das incessantes contrariedades, quais faróis de uma sociedade em que nunca foi tão necessário parar para ler, refletir e cultivar a sabedoria. É o caso da Livraria Portuguesa de Macau, uma das principais vitrinas da cultura lusófona no Oriente, que para além de funcionar como local de venda de livros e de outros produtos culturais, organiza regularmente sessões de apresentação de livros e exposições. 

Fundada em 1985 pelo Instituto Cultural de Macau, numa época em que o território asiático ainda se encontrava sob administração lusa, a Livraria Portuguesa de Macau é atualmente detida pelo Instituto Português do Oriente  (IPOR). Uma entidade pública empresarial nacional, que assume como missão central preservar e difundir a língua portuguesa e a cultura lusófona no Oriente, com vista à continuidade e aprofundamento do diálogo intercultural.

Enfrentando as diversas dificuldades com que as estruturas livreiras se debatem quotidianamente, a que assomam os problemas relacionados com a importação de livros a partir do país, mormente a distância e o custo do transporte, a Livraria Portuguesa de Macau persiste na dinamização de iniciativas e atividades direcionadas para a comunidade portuguesa em Macau.

Mas para além da comunidade lusa em Macau, cifrada em milhares de compatriotas, a Livraria Portuguesa tem procurado simultaneamente atrair um público mais vasto, de residentes de Macau que não dominam a língua de Camões e também de turistas que visitam a região autónoma chinesa.

Enquanto espaço relevante de promoção da língua portuguesa, o quarto idioma mais falado no mundo como língua materna (depois do mandarim, do inglês e do espanhol), e que está a conquistar cada vez mais estudantes chineses, segundo dados recentes do Instituto Camões atualmente cerca de cinco mil chineses estudam português em 47 universidades, a Livraria Portuguesa de Macau desempenha uma missão fundamental na dinamização da cultura lusófona no Oriente, assim como no fortalecimento das relações interculturais luso-chinesas.

ILDEBERTO MEDINA – UM EXEMPLO DE CONQUISTA DO SONHO AMERICANO

  • Crónica de Daniel Bastos

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos Arquipélagos dos Açores e da Madeira, destaca-se hoje pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.

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Atualmente, segundo dados dos últimos censos americanos, residem nos EUA mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, principalmente concentrados na Califórnia, Massachusetts, Rhode Island e Nova Jérsia. A grande maioria da população luso-americana trabalha por conta de outrem, na indústria, mas são já muitos os que trabalham nos serviços ou se destacam na área científica, no ensino, nas artes, nas profissões liberais e nas atividades politicas.

No seio da numerosa comunidade lusa nos EUA, onde proliferam centenas de associações recreativas e culturais, clubes desportivos e sociais, fundações para a educação, bibliotecas, grupos de teatro, bandas filarmónicas, ranchos folclóricos, casas regionais e sociedades de beneficência e religiosas, destacam-se percursos de vida de vários compatriotas que alcançaram o sonho americano ("the American dream”).

Entre as várias trajetórias de portugueses que começaram do nada na América e ascenderam na escala social graças ao trabalho, ao mérito e ao empenho, destaca-se o percurso inspirador e de sucesso de Ildeberto Medina, uma das figuras mais gradas da numerosa comunidade luso-americana de Providence, estado norte-americano de Rhode Island.

Natural da ilha Graciosa, arquipélago dos Açores, Ildeberto Medina emigrou para a América em 1977, com apenas 15 anos, na companhia dos pais e do irmão, repetindo as pisadas da avó paterna, que no ocaso do séc. XIX tinha partido para a Costa Leste dos Estados Unidos num barco baleeiro em demanda de melhores condições de vida.

A chegada a Boston, capital e cidade mais populosa do estado norte-americano de Massachusetts, numa fase de incremento da emigração açoriana para o território americano, não correu como planeado devido à inadaptação dos pais à nova realidade, contexto que motivou a família a retornar ao torrão natal. 

Nunca esmorecendo na ambição de alcançar o sonho americano, Ildeberto e o irmão mais novo, desta vez sozinhos, cruzaria pouco tempo depois novamente o Oceano Atlântico. Em 1979, a partir de Providence, realizaria o seu primeiro trabalho por conta própria, começando aí um percurso de autêntico“self-made man” que o catapultou a empresário do ramo da construção civil com a fundação da empresa “Medina Construction” em 1985.

Ao longo dos últimos 40 anos, o trabalho incansável, a resiliência inabalável e a constante dedicação à família, elevaram o graciosense, que logrou inclusive acabar o liceu e ingressar no ensino universitário norte-americano onde se formou em Línguas, a um empreendedor de reconhecidos méritos na comunidade luso-americana, como revelam as inúmeras distinções que tem alcançado.

A mais recente foi atribuída este mês pelo Mayor Roberto Silva, autarca lusodescendente de East Providence, que distinguiu Ildeberto Medina com proclamação oficial no âmbito dos 40 anos de empreendedorismo do proprietário da “Medina Painting & Remodeling” e sócio de várias empresas. Nos fundamentos da atribuição da distinção sobressai o trajeto singular do empresário luso-americano: “Através de contínuos esforços, árduo trabalho, em sistema de part-time, ao mesmo tempo que frequentava a escola, desde a sua chegada aos EUA, empenhou-se na conquista do êxito da sua iniciativa empresarial. E como tal a cidade de East Providence reconhece a sua bravura e sacrifício concluído no êxito empresarial”.

Apoiante constante do associativismo luso-americano, e uma das figuras mais gradas da comunidade de East Providence, o exemplo de vida de Ildeberto Medina, empresário de sucesso que nunca olvida as suas raízes portuguesas, inspira-nos a máxima do historiador italiano Cesare Cantú: “O mais saboroso pão e a mais agradável comodidade são os que conquistamos com o nosso suor”.

O CALVÁRIO DOS TRABALHADORES E EMPRESÁRIOS TRANSFRONTEIRIÇOS

O ponto de passagem autorizado Valença-Tui, entre Portugal e Espanha, viveu, esta terça-feira de manhã, um ambiente infernal, com dezenas de quilómetros de filas para entrar em Portugal, com a passagem pelo controlo do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras a demorar uma média de 2 horas. Ao buzinão audível de revolta, vários trabalhadores transfronteiriços fizeram chegar o seu testemunho desesperante ao AECT Rio Minho, por email, telefone, nas redes sociais…

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Apesar de evocar sensibilidade para o assunto, o Senhor Ministro da Administração Interna do Governo de Portugal, Doutor Eduardo Cabrita, tem mantido uma posição completamente inflexível e intransigente, sendo da sua inteira responsabilidade e competência esta afronta aos trabalhadores e empresários transfronteiriços.

Quer no primeiro confinamento em 2020, quer neste segundo encerramento de fronteiras decretado no início deste ano, o Município de Vila Nova de Cerveira e o AECT Rio Minho encetaram todas as diligências consideradas legalmente disponíveis. Realizamos ações de protesto nas pontes; à semelhança do primeiro confinamento, a Câmara Municipal de Vila Nova de Cerveira manifestou-se disponível para colaborar nas operações de fiscalização a implementar na Ponte Internacional da Amizade (Cerveira-Tomiño); mantivemos várias reuniões com o próprio Ministro da Administração Interna de Portugal e com o Delegado do Governo de Espanha; remetemos ofícios e dossiers de testemunhos de trabalhadores e empresários ao Senhor Presidente da República, aos Senhores Primeiros Ministros de Portugal e de Espanha, aos ministros da Administração Interna, dos Negócios Estrangeiros, da Economia, do Trabalho, da Coesão Territorial; estabelecemos contactos com os senhores deputados na Assembleia da República; conseguimos uma reunião de sensibilização junto da Comissão Europeia; dinamizamos reuniões com uma comitiva de eurodeputados portugueses e galegos no Parlamento Europeu;  convocamos conferências de imprensa; promovemos um estudo sobre os prejuízos socioeconómicos provocados por estes encerramentos…

Nunca quisemos colocar em causa a defesa da saúde pública. Apenas queremos que haja bom-senso político para com os milhares de trabalhadores e empresários transfronteiriços, e que vivem diariamente um calvário, um desgaste físico e emocional para exercer as suas funções laborais, sendo afunilados por um único ponto de passagem autorizado.

Legalmente não sabemos o que fazer mais.

Intervenções ilegais? Não sabemos fazer.

Reafirmamos a necessidade de reabertura urgente das fronteiras, bem como a compensação financeira para trabalhadores e empresários transfronteiriços, devido aos elevados prejuízos provocados por esta decisão injusta e desproporcionada, no tempo e na forma.

Os responsáveis políticos por esta ruína socioeconómica transfronteiriça têm de assumir as suas responsabilidades.

O Diretor do AECT Rio Minho e Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Cerveira,

Fernando Nogueira

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A REDE MUSEOLÓGICA DEDICADA À EMIGRAÇÃO PORTUGUESA

O desígnio e imperativo de valorização do conhecimento da história da emigração portuguesa têm impelido, nos últimos anos, o poder político a procurar incrementar uma estratégia cultural capaz de aglutinar os espaços museológicos ligados ao fenómeno migratório que se encontram disseminados pelo território nacional.

Esta estratégia cultural ganhou recentemente um novo e decisivo impulso, através da apresentação por parte da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, liderada por Berta Nunes, de um projeto que visa a criação de uma rede museológica digital dedicada à emigração lusa.

Uma rede museológica, cuja principal ambição passa por ligar a história da diáspora portuguesa e suas vias de acesso, via digital e num itinerário real, fisicamente implantado, apto a reconhecer os diferentes fluxos migratórios e capaz de atrair o interesse pelo país e suas gentes. Na esteira das palavras de Luís Castro Mendes, embaixador e antigo ministro da Cultura que preside ao conselho de consultores deste projeto, pretende-se deste modo fomentar “uma rede entre espaços museológicos, com vantagens em relação a um museu que concentrasse tudo”.

Precursora de uma visão museológica desconcentrada, esta rede museológica passará, através da dinamização de uma plataforma online, a disponibilizar assim os acervos do Museu das Migrações e das Comunidades, sediado em Fafe, do Espaço Memória e Fronteira, localizado em Melgaço, e do Museu da Emigração Açoriana, instalado na Ribeira Grande. E depois de estruturada, abarcará ainda projetos e instituições como o Cais da Língua e das Migrações, em Matosinhos, o Museu Português da Migração, no Sabugal, o Espaço Memória e Fronteira, no Fundão, e o Museu do Salto, em Vilar Formoso.

Esta plataforma, que passará a ligar os espólios que em Portugal contam a história da emigração portuguesa, pode e deve aglutinar ainda espaços museológicos que têm sido construídos ao longo das últimas décadas por portugueses no estrangeiro. Como, por exemplo, a Galeria dos Pioneiros Portugueses, em Toronto, impulsionada no presente pelo comendador Manuel DaCosta, e que se dedica à dinamização do legado dos pioneiros da emigração portuguesa para o Canadá; o Museu da Imigração, em Lausanne, na Suíça, criado pelo português Ernesto Ricou, e que nesta altura procura novo local; o Museu Etnográfico Português em Sydney, na Austrália, que tem procurado manter viva a identidade cultural da comunidade luso-australiana; ou o Museu Histórico Português em São José, Califórnia, dedicado às tradições lusas, em especial religiosas, neste estado norte-americano.

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O historiador Daniel Bastos (esq.), cujo percurso tem sido alicerçado no seio das Comunidades Portuguesas, acompanhado em 2016 do comendador Manuel DaCosta (dir.) na Galeria dos Pioneiros Portugueses, em Toronto, no âmbito de uma conferência sobre a Emigração Portuguesa

Estes espaços museológicos, e outros que se encontram ou possam vir a ser projetados na pátria de origem ou de acolhimento dos portugueses espalhados pelo mundo, são uma indubitável mais-valia na perpetuação da memória da emigração lusa, e fundamentais para a prossecução da missão descentralizada e polinuclear da vindoura rede museológica.

Como menciona Maria Beatriz Rocha-Trindade, uma das consultoras de referência deste projeto, no artigo Museus de Migrações – Porquê e para quem?, um “museu é, antes de tudo, um instrumento de educação e de difusão cultural destinado a criar referências, visíveis e concretas, que ultrapassem o fluir do tempo. Tanto os centros de pesquisa, que em regra os integram ou lhe estão associados, como os acervos que vão sendo constituídos produzem registos para memória futura”.

MENINA E MOÇA ME LEVARAM

  • Crónica de Daniel Bastos

Os últimos anos têm sido pródigos na conceção e realização de obras de autoras nacionais ou lusodescendentes residentes no estrangeiro dedicadas às mundividências femininas no contexto migratório, umas das dimensões da emigração portuguesa que por via destes contributos literários começa a ser mais conhecida e estudada.

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Um desses contributos literários, intitulado Menina e Moça me Levaram, acabou recentemente de dar à estampa através do trabalho proficiente da professora Aida Baptista, que nos últimos anos de docência desempenhou o cargo de Leitora de Língua e Cultura Portuguesas no Estrangeiro, ao serviço do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa (ICALP) e do Instituto Camões (IC).

Colaboradora da imprensa de língua portuguesa no mundo, onde publica regularmente artigos ligados ao fenómeno migratório, e autora dos livros Passaporte Inconformado e Chão da Renúncia, Aida Baptista é a responsável pela organização de uma obra que demanda o seu título no evocativo de saudade que dá início ao prólogo do livro Saudades, mais conhecido por História de Menina e Moça de Bernardim Ribeiro.

Assente num conjunto de histórias, contadas na primeira pessoa, de mulheres das mais diversas origens, profissões e faixas etárias, que, levadas por escolhas alheias (salvo raras exceções), passaram por processos migratórios em diferentes contextos geográficos, a obra  Menina e Moça me Levaram, com chancela da Editora Alma Letra, conta ainda com prefácio de Manuela Aguiar, antiga secretária de Estado da Emigração.

O lançamento da coletânea, que nas palavras da prefaciadora encontra-se “cheia de ensinamentos, e experiências, comovente, intimista poética, pitoresca, factual, escrita a muitas mãos, muitos destinos. Com elas viajamos pelas memórias, por paisagens de alma e sentimentos, por roteiros que cruzaram todos os continentes e mares”, integra-se nas comemorações dos 25 anos de vida ativa da Associação Mulher Migrante (AMM).

Uma associação de estudo, cooperação e solidariedade cuja principal missão passa pela análise da problemática das migrações femininas; pela cooperação com as mulheres profissionais e dirigentes de associações das comunidades portugueses no mundo e com imigrantes que vivem em território nacional; pelo combate ativo contra ideias e movimentos xenófobos; e pelo apoio à integração das mulheres na sociedade de acolhimento e defesa dos seus direitos de participação social, económica e política.

Nesse sentido, a coletânea Menina e Moça me Levaram, enquanto repositório de um conjunto diverso de experiências e narrativas vivenciadas por mulheres assume-se como um relevante contributo no alumiamento da componente feminina no fenómeno migratório, que vai ao encontro do anelo da “dama da literatura brasileira” Lygia Fagundes Telles: “Sempre fomos o que os homens disseram que nós éramos. Agora somos nós que vamos dizer o que somos”.

A PRESENÇA PORTUGUESA NO MUSEU DA IMIGRAÇÃO DO CANADÁ

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  • Crónica de Daniel Bastos

O Canadá, uma nação que abrange grande parte da América do Norte e se estende desde o oceano Atlântico, a leste, até o oceano Pacífico, a oeste, alberga uma das mais dinâmicas comunidades lusa que se destaca atualmente pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico.

Conquanto a presença regular de portugueses no território remonte ao início do séc. XVI, a emigração portuguesa para o Canadá começou a ter expressão a partir de 1953. Ano em que ao abrigo de um acordo luso-canadiano, que visava suprir a necessidade de trabalhadores para o sector agrícola e para a construção de caminhos-de-ferro, desembarcaram a 13 de maio em Halifax, província de Nova Escócia, um grupo pioneiro de oitenta e cinco emigrantes lusitanos.

Se entre 1953 e 1973, terão entrado no Canadá mais de 90.000 portugueses, na sua maioria originários dos Açores, estima-se que presentemente vivam no segundo maior país do mundo em extensão territorial, mais de meio milhão de luso-canadianos. Sobretudo concentrados em Ontário, Quebeque e Colúmbia Britânica, representando cerca de 2% do total da população canadiana que constitui um hino ao multiculturalismo. 

A dinamização da presença portuguesa no território canadiano tem merecido por parte da comunidade lusa uma especial atenção, como revela a fundação no início do séc. XXI da Galeria dos Pioneiros Portugueses. Um espaço museológico em Toronto, impulsionado no presente pelo comendador Manuel da Costa, que se dedica à perpetuação da memória e das histórias dos pioneiros da emigração portuguesa para o Canadá.

A relevância da presença portuguesa neste território da América do Norte está igualmente patente num dos mais importantes museus nacionais do Canadá, mormente o Museu Nacional da Imigração Canadiano do Pier 21.

Localizado em Halifax, na província da Nova Escócia, no oeste do Canadá, as instalações do Museu da Imigração do Canadá ocupam o Pier 21, um antigo porto com terminal de navios transatlânticos, que funcionou entre 1928 a 1971, e que durante esse período recebeu mais de um milhão de imigrantes. Em 1999, o antigo porto deu lugar ao Museu da Imigração, sendo que em 2011 tornou-se oficialmente no Museu Nacional da Imigração Canadiano.

Enquanto espaço museológico singular que homenageia o contributo estruturante da imigração no progresso do Canadá e que o catapulta para um dos países mais desenvolvidos do mundo, o Museu Nacional da Imigração Canadiano conserva nas suas variadas coleções inúmeros testemunhos da presença portuguesa no país. Designadamente antigos pertences de emigrantes lusos que chegaram ao Canadá entre 1953 e 1954, como passaportes, fotos de famílias, uma guitarra e roupas, que em parte foram doados pela Casa da Madeira Community Centre.

No espólio do Museu da Imigração do Canadá destaca-se na entrada do núcleo museológico uma escultura em madeira, uma obra de arte que retrata os 500 anos da presença portuguesa no território, e que foi doada em 2003 pelo emigrante luso Maurício Almeida. Assim como, uma garrafa com vinho da madeira aberta, que chegou ao Canadá com o emigrante português Augusto da Silva em 1953, e está identificada como “O que trarias? Quem e o que deixarias para trás?”.

Mais de que um espaço museológico onde estão conservados e expostos objetos sobre o fenómeno migratório, o Museu da Imigração do Canadá reconhece e valoriza na prossecução da sua missão a importância dos imigrantes, como é o caso dos portugueses, na construção do notável mosaico cultural da nação canadiana.

PATOÁ, UM IDIOMA DE ORIGEM PORTUGUESA EM VIAS DE EXTINÇÃO

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Crónica de Daniel Bastos

A presença pioneira dos portugueses na Ásia no séc. XVI e XVII, catalisadora dos primeiros contactos entre a Europa e o Oriente, difundiu durante a epopeia dos descobrimentos a língua de Camões por diversas regiões do continente asiático.

Através da dominação política, do comércio ou da missionação, a influência lusa no maior dos continentes terrestres, ao longo da expansão marítima, estendeu-se ao subcontinente indiano, a Ceilão, às áreas em torno da Baía de Bengala, ao Golfo Pérsico, a Sião, a Timor, às Molucas, à China e ao Japão.

Como salienta o investigador Hugo Cardoso, em O português em contacto na Ásia e no Pacífico, a língua lusa enraizou-se a partir de então “na região asiática ao ponto de se converter em importante língua franca de comércio e diplomacia, sobretudo para comunicação com e entre as demais potências europeias (britânicos, franceses, neerlandeses, dinamarqueses) que se começaram a estabelecer na Ásia a partir de finais do século XVI”.

Uma das regiões asiáticas que ainda hoje conserva importantes vestígios da presença lusa, em particular no campo linguístico, é indubitavelmente Macau, um território sob administração portuguesa até 1999, situado na costa sul da China, nação que reassumiu a soberania sobre a região em 20 de dezembro desse ano.

Durante a vetusta administração lusa em Macau desenvolveu-se inclusivamente um crioulo de base portuguesa, normalmente denominado como patoá, mas também conhecido como língu nhonha, papiâ cristâm di Macau, papiaçâm, maquista, ou macaísta, que mistura português, cantonês, malaio, cingalês, mas também tem influências do inglês, tailandês, japonês e algumas línguas da Índia.

Como aponta Alexandra Hagedorn Rangel, na dissertação de mestrado Filhos da terra: a comunidade macaense, ontem e hoje, devido “ao desenvolvimento da escolarização feita em português durante o século XX, o patuá acabou por cair em desuso e, hoje em dia, apenas as pessoas de muita idade é que ainda falam o patuá com fluência”.

De fato, atualmente o crioulo de Macau é um idioma de origem portuguesa em vias de extinção, a quem restam apenas meia centena de falantes, sendo que um dos mais conhecidos, Aida de Jesus, ou Dona Aida, fundadora do restaurante Riquexó, conhecida como a "madrinha da cozinha macaense", faleceu no decurso do mês de março aos 105 anos.

Na esteira do linguista Ataliba Teixeira de Castilho, as “línguas não são eternas. Pelo contrário, elas morrem enquanto outras nascem e se multiplicam”, sendo que no caso específico do Patoá, património imaterial da presença portuguesa em Macau, a sua reminiscência deve continuar a servir de base ao fortalecimento das seculares relações luso-chinesas.

O FESTIVAL DAS MIGRAÇÕES, CULTURAS E CIDADANIA EM TEMPOS DE PANDEMIA

  • Crónica de Daniel Bastos

No início de março realizou-se uma vez mais, no Grão Ducado do Luxemburgo, um país da Europa Setentrional circundado pela Bélgica a oeste, a França a sul e a Alemanha a leste, uma nova edição do Festival das Migrações, Culturas e Cidadania, um dos maiores eventos das comunidades estrangeiras a residir neste território.

Como é o caso da comunidade lusa, tanto que em 2015, havia mais de 90.000 portugueses no território, representando 17% da população do Luxemburgo, sendo que inclusive a língua de Camões é mesmo uma das cinco línguas mais faladas no país depois do francês, luxemburguês e alemão.

Este ano, a 38.ª edição da iniciativa organizada pelo Comité de Ligação das Associações de Estrangeiros (CLAE), que constitui um ponto de encontro anual dos estrangeiros no Luxemburgo, devido ao cenário de pandemia que o mundo atravessa decorreu em formato on-line.

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O historiador Daniel Bastos (dir), cujo percurso tem sido alicerçado no seio das Comunidades Portuguesas, apresentou no 33.º Festival das Migrações, das Culturas e da Cidadania, na companhia do ativista cultural Joaquim Pinto da Silva (esq.), o livro “Gérald Bloncourt – O olhar de compromisso com os filhos dos Grandes Descobridores”

 

Ao contrário dos anos anteriores, cujo modelo organizativo assentava na realização do festival na LuxExpo no Kirchberg, e paralelemente na dinamização de uma Feira do Livro e num encontro de culturas e artes contemporâneas, ArtsManif, eventos que contavam a presença de escritores e artistas dos quatro cantos do mundo, inclusivamente do espaço lusófono. A 38.ª edição decorreu em torno de quatro mesas redondas dedicadas à habitação, integração, impacto psicológico da pandemia e sobre o mundo associativo no Luxemburgo, e atraiu cerca de 2.500 pessoas que se ligaram para acompanhar um ou mais dos eventos programados e transmitidos ao vivo na página do CLAE.

Num ano complexo e desafiante para o mundo, o Festival das Migrações, Culturas e Cidadania reinventou-se mas mantendo a sua essência na valorização e partilha das culturas, ou na linha de pensamento de Jorge de La Barre, sociólogo que se tem interessado pela etnomusicologia, persiste em “dar a voz ao Outro, respeitar as diferenças, as maneiras de ser e de dizer”.

De fato, numa época em que a tentação de construção de muros a separar povos e culturas é grande, onde os populismos ganham terreno à custa das consequências económicas, da crise de refugiados e de intolerâncias religiosas, o Festival das Migrações, Culturas e Cidadania remanesce como uma pedrada no charco que agita as águas, reafirmando a premência da construção de uma cidadania europeia e mundial ativa, assente no primado universal da diversidade cultural e dos valores dos direitos humanos.

A OPOSIÇÃO AO ESTADO NOVO NAS COMUNIDADES PORTUGUESAS DA AMÉRICA DO NORTE

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  • Crónica de Daniel Bastos

Entre 1933 e 1974 vigorou em Portugal um regime autoritário e conservador, designado de Estado Novo, sustentado na força repressiva da polícia política (PIDE), nas amarras da censura e na ausência de liberdade. Um regime idealizado pelo seu principal mentor, Oliveira Salazar, ditador de um país eminentemente rural, pobre, atrasado e analfabeto.

Apesar da repressão e violência foram vários os que se opuseram às ideias do Estado Novo, e instaram na luta politica de oposição ao regime em defesa dos ideais da liberdade e da democracia. O movimento político de oposição à ditadura portuguesa estendeu-se também às comunidades portuguesas no estrangeiro, que na segunda metade do século XX foram robustecidas por centenas de milhares de compatriotas em fuga à miséria rural, à carestia de vida, e no início dos anos 60, à Guerra Colonial.

No contexto da luta contra o Estado Novo no seio das comunidades portuguesas, como aponta a investigadora Susana Maria Santos Martins, na tese de doutoramento Exilados portugueses em Argel. A FPLN das origens à rutura com Humberto Delgado (1960-1965), intervieram nas décadas de 1960-70 várias associações oposicionistas ao regime de Salazar na América do Norte.

Em Newark, Nova Jérsia, cidade que ainda hoje alberga uma das maiores comunidades portuguesas nos Estados Unidos da América (EUA), constituiu-se em 1960 o Committee Pro-Democracy in Portugal, a primeira associação de democratas lusos nos EUA. A coletividade, que teve como principal mentor Abílio de Oliveira Águas, antigo cônsul português em Providence (Rhode Island) no ocaso dos anos 20, e figura tutelar na comunidade luso-americana, congregou diversos emigrantes e exilados políticos na oposição ao regime salazarista.

A associação luso-americana, que teve um papel decisivo no depoimento em 1963 de Henrique Galvão contra Portugal na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, manteve-se ativa até aos anos 70, período em que faziam parte dos seus órgãos, Eduardo Covas, António José de Almeida, António Dias, Virgílio Varela e Abílio Águas. Tendo prosseguido até então uma diligente ligação com vários grupos oposicionistas, como o grupo Portugal Democrático, no Brasil, com a Frente Portuguesa de Libertação Nacional (FPLN), na Argélia, com a Acção Democrato-Social (ADS), em Portugal, com a Associação Socialista Portuguesa (ASP), em Genebra, e mais tarde, com o Partido Socialista (PS) que apoiou após a Revolução de Abril.

No Canadá, nação para onde emigraram entre 1953 e 1973 mais de 90.000 portugueses, na sua maioria originários dos Açores, uma das principais coletividades lusas oposicionistas foi criada no final dos anos 50 em Toronto. Denominada Portuguese Canadian Democratic Association (PCDA), a associação luso-canadiana, impulsionada por figuras como Fernando Círiaco da Cunha, aglutinou vários emigrantes e exilados políticos na denúncia do regime ditatorial português, através da dinamização de manifestações públicas e da publicação em 1964 do periódico A Verdade, e mais tarde, O Boletim.

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Manifestação de emigrantes e exiliados lusos em Toronto, no Canadá, a exigirem a libertação de presos políticos em Portugal (1966) - Photo by Reed, York University Libraries, Clara Thomas Archives & Special Collections, Toronto Telegram fonds, F0433, ASC08256.

 

Ainda no Canadá, mas em Montreal, a partir dos anos 60, foi criado o Movimento Democrático Português de Montreal, ao qual estavam ligados figuras como Rui Cunha Viana, Domingos da Costa Gomes, José das Neves Rodrigues, Jaime Monteiro e Eugénio Vargas. E que teve nas páginas do boletim Movimento, o seu principal instrumento de denúncia junto da comunidade luso-canadiana da ditadura salazarista e da Guerra Colonial na maior cidade da província do Quebeque.

Em Montreal, na esteira das demais comunidades portuguesas na América do Norte, as páginas da imprensa comunitária foram o instrumento privilegiado dos grupos oposicionistas de crítica à ausência de liberdade na pátria de origem e de denúncia da Guerra Colonial. Entre as décadas de 1960-70, o semanário independente em língua portuguesa, Luso-Canadiano, fundado por Henrique Tavares Bello, e que contou com a colaboração de Cunha Viana e Domingos da Costa Gomes, adotou assumidamente uma feição oposicionista ao regime instituído em Portugal. Neste mesmo período, a ação oposicionista de Henrique Tavares Bello em Montreal encontrava-se ainda, em interligação com Firmino Rita, associada à dinamização do Canada Movement for Freedom in Portugal and Colonies.

No seu conjunto, as várias dinâmicas oposicionistas ao Estado Novo na América do Norte no decurso das décadas de 1960-70, tiveram um papel importante na consciencialização política das comunidades portuguesas nos Estados Unidos e no Canadá, assim como na denúncia internacional do regime ditatorial e da Guerra Colonial em dois dos mais importantes palcos da política e diplomacia mundial.

O QUE SÃO A EMIGRAÇÃO E A IMIGRAÇÃO?

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  • Crónica de Carlos Gomes

A emigração – e por confrontação a imigração! – constitui uma acção que consiste em sair de uma região ou país para se estabelecer noutro. Trata-se de um fenómeno que em regra está associado a razões de ordem económica que levam as pessoas a procurarem melhores condições de vida em locais diferente, dentro ou fora do seu próprio país.

Com origem no latim migro e are, migrar significa simplesmente passar de um lugar a outro. Assim sendo, quando o termo migrar é antecedido do prefixo e – emigrar – refere-se àquele que sai do seu próprio país. Ao invés, sempre que o mesmo é antecedido do prefixo iimigrar – alude a quem vindo de fora entra no nosso país para aí se fixar. Por fim, quando se trata de um fenómeno interno ao próprio país, classificamos simplesmente como uma migração interna. É o caso de muitos minhotos que, sobretudo a partir de meados do século XIX, abandonaram a miséria que viviam nos campos rumo a Lisboa e a outros centros urbanos onde se registava crescimento industrial.

Mas a emigração – versus imigração – não constitui um fenómeno exclusivamente social. Nem todas as pessoas emigram por razões económicas. Existem ainda aqueles que o fazem por razões políticas, para se subtraírem aos deveres militares, na recusa da participação em conflitos bélicos com os quais estão em desacordo, refugiados de guerra ou situações de violência nos seus países… ou simplesmente por cobardia!

Os emigrantes – e os imigrantes! – são frequentemente utilizados como meio de arremesso ou simplesmente uma fonte económica a brotar remessas inesgotáveis em dinheiro destinadas a cobrir a má gestão dos governantes. Quem não se recorda de há cerca de meio século ter ouvido dizer que a emigração era o “escape da ditadura” e exigir o “regresso imediato dos emigrantes”? Entretanto, a avaliar pelo que tem sucedido nas últimas décadas, tudo leva a crer que a emigração passou a ser um “escape da democracia”…

Também quem imigra nem sempre o faz por necessidade económica ou de sobrevivência. Sem pretender generalizar – tal seria da maior injustiça e desumanidade! – existe quem vem de fora para o nosso país motivado por razões políticas ou simplesmente por oportunismo social, procurando tirar partido das regras de funcionamento do Estado Social. Ou ainda, munidos de ideários violentos à mistura de gente desgraçada e temerosa. 

Sob pena de deixarmos criar tensões sociais e políticas onde à partida não existem, vai sendo necessário separar o trigo do joio. E, não deixar que a seara seja contaminada pelas ervas daninhas!

AS MULHERES DO CASTELO DO NEIVA EM “AS MULHERES DO MEU PAÍS"

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Maria Lamas (1893/1983) foi uma personalidade evidente na área da literatura e de forte combatividade na luta pela emancipação da mulher, particularmente em Portugal, se bem que a sua ação não reconhecesse fronteiras. Para ela, a mulher, em todo o mundo, deveria libertar-se da condição inferior a que estava submetida pelas sociedades, contexto que, infelizmente, ainda hoje é patente em imensas zonas do planeta. Como escritora, quase sempre os seus livros tinham a mulher como referência principal. Nesta vertente, o seu livro mais conhecido e que mais destaque lhe deu foi “As mulheres do meu país”, editado em 1950 por uma editora e distribuidora que se criou para o efeito, a “Actuális, Lda”, uma vez que, dada a animosidade que o Estado Novo lhe manifestava, era-lhe praticamente vedado o acesso às editoras existentes em Portugal. Os 15 fascículos que compunham a obra foram vendidos, individualmente, ao preço de 15,00 escudos (na época, praticamente o salário diário de um operário qualificado), com pagamento adiantado, o custo total era de 200,00 escudos. Este trabalho, pela sua dimensão, que obrigaram a escritora a percorrer o país de extremo a extremo, consumiu cerca de dois anos. Em 2002 a Editorial Caminho, com uma tiragem de 3000 exemplares, reeditou o livro (tipo álbum), cópia fiel do primeiro, com um custo de que não me recordo bem, mas, julgo, próximo dos 20 mil escudos. Esgotadíssimo que está, é hoje vendido a preços proibitivos. Felizmente adquiri-o e é a partir dele que extraio algumas passagens sobre a apreciação que a autora faz à época das mulheres do Castelo do Neiva.

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Uma sargaceira do Castelo do Neiva com a roupa do mar

Com as gentes do Castelo

Maria Lamas era uma cidadã de forte sensibilidade, daí também a forma sentida como descrevia a vida das mulheres, que, segundo ela, não se poupavam a esforços, já que para além da gestão do lar, sempre com a preocupação de cuidar bem dos filhos e do marido, tinham outras atividades, particularmente no campo e no mar. A escritora refere o Castelo do Neiva como uma freguesia com muita proximidade a Viana, que fica junto da estrada, com todas as características de freguesia rural, configurada com campos rasos, correspondentes à veiga de Afife, que vão até aos fieiros e ao mar, distanciados a uns três quilómetros. “Fieiros são as dunas, onde se erguem os palheiros de sargaço, semelhantes a pequenas cabanas, cobertos de colmos, com retângulos de lousas, suspensos em volta, a pesar, dando ao longe a impressão de janelinhas claras”, diz a autora.

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Uma camponesa e sargaceira do Castelo do Neiva com a croça, caroça ou palhoça, que se usa em todo o Minho quando chove. Tem na cabeça o chapéu de oleado, de ir ao mar

 

Maria Lamas afirma que as mulheres castelenses, aloiradas, sardentas, com acentuado tipo nórdico, tal como em geral as robustas mulheres de entre Lima e Cávado, transpõem diariamente, mais de uma vez, aquela distância (povoado/mar) no tempo do sargaço e do mexoalho ou pilado – caranguejos pequenos de grande valor no adubamento das terras – fazendo-o sem grande esforço, tão habituadas estão a vencer quilómetros, nas suas lides quotidianas.

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Com seis anos de idade, esta pequenita do Castelo do Neiva parece uma mulherzinha e trabalha como tal. Ficou assustada quando a fotografaram, na ocasião em que ela condizia dois boizinhos à pastagem

 

Sobre a vida do mar, regista a escritora que homens em barcos minúsculos navegam para tentar a sorte da pesca, muitos deles não sendo verdadeiramente pescadores, já que trabalham simultaneamente na terra, ambicionando, os que são novos e vigorosos, arranjar trabalho como banquistas na frota bacalhoeira de Viana do Castelo. Mas nesta vida de mar as mulheres ajudam-nos tanto quanto podem na faina, esperando-os no areal para puxar os barcos para o areal, quase sempre sozinhas, sendo mais uma achega nas dificuldades do pão diário. Mas, relata Maria Lamas, é na terra que a compensação é maior, com o sargaço e o pilado com rendimento apreciável. “Por isso nenhuma foge à canseira de o recolher e lá estão depois, igualmente, ajudando às carrilas, no transporte do adubo para os fieiros ou para o carro dos bois.

Definindo as sargaceiras castelenses, Maria Lamas escreve que usam casaco e saia de tecido branco, de lã, grosso, a que chamam branqueta. “Vão descalças, como andam sempre. Na cabeça põem um chapéu de oleado. Mudam de roupa nas barracas da praia e são menos cuidadosas com o seu aspeto do que as moças de Viana do Castelo para cima”

O terreno, segundo a escritora, é mais áspero e exige-lhes maior dispêndio de forças, pela distância e grande ondulação dos fieiros, que encobre o mar em Castelo do Neiva. “Desaparecem aqui as cores vistosas que fazem realmente a mocidade das raparigas e a gente tem aspeto mais rude, embora a dureza da vida se iguale”.

Mas os homens também não escapam à observação atenta da escritora, dizendo que estes quando falam a estranhos sobre as mulheres, principalmente quando são homens com certas preocupações de civilizados, as referem como esposas, adivinhando-se que o fazem mais em atenção à pessoa a quem se dirigem do que à sua companheira.

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Duas vendedeiras de peixe do Castelo do Neiva. Elas e as companheiras andam léguas por dia, de verão e de Inverno, levando a sardinha e outro peixe miúdo aos lugarejos mais isolados. Raramente chegam a obter dez escudos de lucro diário. Como todas as mulheres do Minho Litoral que se dedicam a este negócio, não deixam de trabalhar na faina rural e têm os mesmos costumes que as camponesas

 

Numa apreciação mais pessoal Maria Lamas diz que as mulheres, sem se diferenciarem das outras mulheres do Minho Litoral, pela variedade das atividades a que são forçadas, revelam-se expedientes e demonstram vivacidade invulgares. “Simultaneamente camponesas e sargaceiras, familiarizadas com as incertezas e perigos da pesca, elas afirmam a sua personalidade como sabem e podem: discutindo, defendendo-se daqueles que desconfiam e, até, sendo ardilosas se tanto for preciso para governar a vida”

As vendeiras de peixe pelas aldeias também merecem a atenção da autora, que refere as caminhadas que abrangem léguas, sempre descalças, sem fadiga aparente, sempre de canastra à cabeça.  Refere as filhas pequenitas, que acompanham as mulheres nestas andanças, parecendo miniaturas das mães: vestindo como elas, caminhando como elas, copiam-lhes os movimentos, as expressões e a maneira de pensar. “Mas não são só as mulheres da beira-mar que se dedicam à venda do peixe; muitas vêm de Darque e outras povoações distantes do litoral, comprar na lota o peixe miúdo para o seu negócio e voltam depois carregadas, até onde têm freguesia”.

Maria Lamas descreve alargadamente e com sentido realista as vivências das gentes castelenses, muito particularmente das mulheres, mas esta realidade está bem presente ainda na memória de muita gente viva. Ainda malnascido, quando a escritora calcorreou os nossos caminhos, os nossos campos e a nossa praia para privar com muitos e ver in loco as realidades daquele tempo, muito do que ela diz não me é estranho.

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OS APOIOS CONSTANTES DE EMIGRANTES PORTUGUESES ÀS CORPORAÇÕES DE BOMBEIROS

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  • Crónica de Daniel Bastos

Um dos mais importantes pilares da proteção civil em Portugal, os bombeiros desempenham um serviço fundamental em ações de socorro decorrentes de acidentes rodoviários, combate a incêndios, desastres naturais e industriais, emergência pré-hospitalar e transporte de doentes, assim como abastecimento de água às populações, socorros a náufragos, e inúmeras ações de prevenção e sensibilização junto das populações.

Exemplos de altruísmo e de cidadania, às vezes sem o devido reconhecimento dos poderes políticos, as corporações de bombeiros em Portugal debatem-se constantemente com grandes dificuldades, resultantes da falta crónica de meios financeiros, que em muitos casos entravam inclusive a prestação de serviços essenciais às populações.

Ao longo dos últimos anos, muitas destas dificuldades e entraves, agravados pelos contextos das crises económicas, têm sido mitigados e ultrapassados graças à generosidade de vários emigrantes portugueses, que um pouco por todo o território nacional são um apoio vital para o funcionamento de corporações e para a prossecução de relevantes serviços prestados pelos bombeiros às populações.

Os exemplos de apoios constantes de emigrantes às corporações de bombeiros no território nacional são muitos e variados. No decurso do passado mês de fevereiro, por exemplo, dois emigrantes portugueses, bombeiros na Suíça, Filipe Luís e José Luís Páscoa, e um empresário luso com atividade económica na Suíça, José Carlos Teixeira, ofereceram equipamento, no valor económico de 70 mil euros, aos Bombeiros Voluntários de Mondim de Basto, uma corporação localizada no distrito de Vila Real, que atravessa publicamente um período de carência de equipamentos de proteção individual.

Este exemplo de generosidade em prol dos bombeiros, muitas vezes conhecidos como “Soldados da Paz”, tem sido o lema de vida do emigrante luso Fernando Ribeiro, um ex-bombeiro, com casa em Amarante, cidade do distrito do Porto, e radicado na Suíça há mais de quarenta anos. Desde 2003, quando um incêndio quase cercou a sua habitação em Amarante, Fernando Ribeiro ajudou mais de uma dezena de corporações de bombeiros, através do reencaminhamento para Portugal de material usado e seminovo, como por exemplo, equipamentos completos de proteção individual, incluindo casacos, calças, botas, luvas, capacetes e outro tipo de material pesado, como mangueiras, reboques, pás, agulhetas, motobombas e escadas, estimado no valor de três milhões de euros.

Entre as várias corporações do norte e centro do país apoiadas pelo emigrante em terras helvéticas, a quem a Federação dos Bombeiros do Distrito do Porto atribuiu a Medalha de Ouro de Mérito, encontram-se Amarante, Póvoa de Varzim, Marco de Canavezes, Vila do Conde, Baião, Leça do Balio, Mesão Frio, Santa Marinha do Zêzere, Felgueiras, Vila Meã, Tondela, Murça, Caldas da Rainha, Vila Franca de Xira e Fafe.

Nesta última cidade minhota, a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Fafe, cuja génese no alvorecer do séc. XX se encontra ligada à magnanimidade dos emigrantes “brasileiros de torna-viagem”, tem contado nas últimas décadas com o apoio generoso do empresário Manuel Pinto Lopes. Um emigrante fafense radicado em França, que direta ou indiretamente já ofereceu à coletividade uma dezena de viaturas, mormente, veículos para combate a fogos florestais e urbanos, ambulâncias e autoescadas.

Entre os emigrantes portugueses que se têm constituído como genuínos filantropos das corporações de bombeiros, destaca-se também, por exemplo, o empresário de restauração luso-americano, Manuel Carvalho. Quando no verão de 2016, o líder da Fundação “Família Carvalho”, que é natural de Tamengos, concelho de Anadia, e reside nas últimas quatro décadas em Mineola, Nova Iorque, teve conhecimento das dificuldades financeiras dos bombeiros da sua terra natal, rapidamente organizou no início do ano seguinte um evento solidário em prol da coletividade anadiense.

A iniciativa, que decorreu durante um jantar na Churrasqueira “Bairrada”, da qual Manuel Carvalho é proprietário, mobilizou a comunidade luso-americana de Mineola e permitiu a angariação de uma quantia de cerca de 25 mil euros, que foram entregues à Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Anadia com o objetivo de auxiliar nas obras do quartel e na aquisição de uma viatura.

Estes notáveis exemplos de generosidade em prol das corporações de bombeiros, e muitos outros que foram ou estão a ser dinamizados no seio das comunidades portuguesas, evidenciam que o contributo dos emigrantes portugueses vai muito além do envio de remessas que têm uma forte influência na economia portuguesa, o seu contributo é igualmente marcante na promoção do progresso social e do desenvolvimento humano nacional.

PORTUGUESE TIMES: 50 ANOS AO SERVIÇO DA COMUNIDADE LUSO-AMERICANA

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  • Crónica de Daniel Bastos

Ao longo dos anos a comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cujos dados dos últimos censos americanos apontam que é atualmente constituída por mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, principalmente concentrados na Califórnia, Massachusetts, Rhode Island e Nova Jérsia, tem sido palco de uma notável multiplicidade de meios de comunicação social, em particular, ligados à imprensa escrita.

Como destaca o jornalista Vamberto Freitas em Algumas considerações sobre a imprensa portuguesa nos EUA, entre “quase todos aqueles que nestes últimos anos se têm interessado pelos centros lusos radicados nos Estados Unidos da América, uma das facetas da vida comunitária que geralmente mais os impressiona parece ser a exis­tência, sempre precária mas persistente, da Imprensa falada e escrita em língua portuguesa”.

As raízes da imprensa de língua portuguesa no território norte-americano remontam mesmo à segunda metade do séc. XIX, isto é, ao período inicial da emigração lusa para os EUA, quando muitos portugueses participaram na corrida ao ouro e na fundação de colónias agrícolas na Califórnia, ou se começaram a ligar aos negócios ligados à pesca da baleia.

Este contexto socio-histórico singular mereceu, inclusivamente, em 29 de novembro de 2013 amplo destaque no jornal The Herald News (Fall River), através de uma reportagem assinada por Kevin Andrade sobre a imprensa luso-americana. Segundo o jornalista de investigação luso-americano, existiram cerca de mil jornais nos Estados Unidos publicados em língua portuguesa, que constituem indubitavelmente um enorme e importante manancial para o conhecimento e estudo da história da comunidade portuguesa na América.

No profícuo campo dos jornais luso-americanos, um dos órgãos de informação que mais se tem destacado pelo seu dinamismo e longevidade tem sido o Portuguese Times. Um semanário de língua portuguesa fundado em Newark, New Jersey, em 1971 por Augusto Saraiva, que veio a ser adquirido em 1973 por António Alberto Costa, e que no início de 1974 assentou praça em New Bedford.

Com circulação nacional e assinantes em quase todos os estados americanos, o Portuguese Times, que tem presentemente como administrador Eduardo Sousa Lima e diretor Francisco Resendes, assinalou no decurso do mês de fevereiro o seu cinquentenário de publicação ininterrupta.

Ao longo do último meio século, o semanário luso-americano tem-se assumido como um jornal de referência da comunidade portuguesa nos EUA, em particular na Nova Inglaterra, uma região no nordeste dos Estados Unidos que abrange os estados de Maine, Vermont, Nova Hampshire, Massachusetts, Connecticut e Rhode Island.

Capaz de ultrapassar os contratempos e as adversidades, e na maior parte dos casos sobrevivendo graças ao espírito de carolice dos seus proprietários, diretores, colaboradores, leitores e empresários mecenas, com mais ou menos dificuldades expostas pelas crises económicas, o Portuguese Times ao longo dos últimos cinquenta anos tem conseguido resistir e renovar-se. Dando um exemplo genuíno de altruísmo e serviço em prol da comunidade portuguesa no território norte-americano, ajudando a promover a cidadania, a valorizar a cultura, as tradições e o dinâmico movimento associativo luso.

Descendente de uma provecta estirpe de jornais publicados em língua portuguesa no território norte-americano, o jornal Portuguese Times, orgulhoso do seu passado, projeta-se no presente e no futuro como um órgão de informação comunitário que constrói pontes entre Portugal e os Estados Unidos da América, dilui a saudade e a distância, fortalece a identidade cultural lusa e difunde Portugal na maior potência mundial.

MONUMENTOS AOS COMBATENTES DA GUERRA DO ULTRAMAR NAS COMUNIDADES PORTUGUESAS

  • Crónica de Daniel Bastos

No decurso do mês de fevereiro assinalam-se os 60 anos do início da Guerra do Ultramar (1961-1974), um período de confrontos bélicos entre as Forças Armadas Portuguesas e os Movimentos de Libertação das antigas províncias ultramarinas de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, que constitui um dos acontecimentos mais marcantes da história nacional e africana de expressão portuguesa do séc. XX.

Um conflito bélico dramático, trágico e traumatizante para mais de um milhão de portugueses, que prestaram serviço militar nas três frentes de combate, onde tombaram cerca de 8.300 soldados, assim como para as populações angolanas, guineenses e moçambicanas, cujo número total de vítimas, entre guerrilheiros e civis, terá sido superior a 100 mil mortos.

A densidade vivencial e o impacto da também conhecida como Guerra Colonial na sociedade portuguesa têm sustentado ao longo das últimas décadas a inauguração no território nacional de inúmeros monumentos de homenagem aos militares mortos, e que rondam já cerca de três centenas.

No cômputo da lista de monumentos alusivos aos Combatentes da Guerra do Ultramar, que se encontram assinalados pela Liga dos Combatentes (LC) no livro “Monumentos Aos Combatentes da Grande Guerra e do Ultramar”, grande parte deles construídos no séc. XXI, e que segundo o tenente-general Chito Rodrigues, Presidente da LC, são “a expressão de um sentimento profundo nacional acerca do que foi a guerra colonial e dos sacrifícios que o povo português fez nesse conflito", destaca-se ainda a existência de quatro monumentos construídos no seio das comunidades portugueses no Canadá e nos Estados Unidos.

No Canadá, onde se estima que na atualidade vivam mais de meio milhão de luso-canadianos, o primeiro monumento a ser erigido em memória dos combatentes que tombaram na guerra do Ultramar foi inaugurado em 2009, na cidade de Winnipeg, capital da província de Manitoba.

Projetado pelo arquiteto português Varandas dos Santos, o memorial impulsionando pela Associação Portuguesa de Veteranos de Guerra de Manitoba e Núcleo da Liga dos Combatentes de Portugal em Winnipeg, e concretizado com o apoio da Província de Manitoba, da Liga dos Combatentes, da Comunidade Luso-Canadiana, da Associação Portuguesa de Manitoba e da Chapel Lawn Memorial Gardens, invoca os militares do passado, presente e futuro.

Em 2012, a cidade de Oakville, junto a Toronto, capital da província de Ontário onde se estima que vivam mais de 20 mil antigos combatentes da Guerra do Ultramar, assistiu à inauguração, no cemitério Glen Oak Memorial Garden, de uma estátua em homenagem aos militares portugueses e canadianos mortos em situações de guerra.

O monumento, concebido em conjunto pelo arquiteto Varandas dos Santos e pelo comendador José Mário Coelho, e impelido pela Associação dos Ex-combatentes do Ultramar Português no Ontário, foi instalado no talhão denominado “Nossa Senhora de Fátima”. O monumento, que contou com apoios financeiros da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas e da Liga de Combatentes de Portugal, sobressai pela existência de vários elementos, dos quais se destacam uma Cruz de Cristo e um capacete de um soldado, tendo ainda a inscrição: “Sacrificados em vida, respeitados na morte”.

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O historiador Daniel Bastos (dir), com um percurso alicerçado no seio das Comunidades Portuguesas, visitou em 2019 o monumento de homenagem aos antigos combatentes da Guerra do Ultramar na cidade de Oakville, junto a Toronto, na companhia do ex-combatente e Presidente da Assembleia Geral da Associação Cultural 25 de Abril em Toronto, Artur Jesus (esq.)

 

Também no território canadiano, designadamente em Laval, cidade da província do Quebeque, região onde o número total de portugueses e lusodescendentes deverá ser superior a 60.000 pessoas, foi inaugurado, no dia 1 de Novembro de 2014, o Monumento aos Combatentes Portugueses. Erigido num espaço fornecido pela Associação Portuguesa de Laval, e impulsionado pelo Núcleo do Quebeque da Liga dos Combatentes, antiga Associação Ex-Combatentes do Ultramar (Angola, Guiné e Moçambique) do Quebeque, o monumento invoca singelamente a memória dos militares caídos no cumprimento do dever.

Ainda na América do Norte, mas já nos Estados Unidos, mais concretamente em Lowell, cidade do condado de Middlesex em Massachusetts, estado que alberga uma grande comunidade luso-americana de origem açoriana, foi inaugurado em 2000 um monumento em memória dos falecidos e ex-combatentes do ultramar português e dos participantes da Revolução de 25 de Abril de 1974. Impulsionado pela numerosa comunidade luso-americana, com especial destaque para Dimas Espínola, uma referência no mundo comunitário luso de Lowell, o monumento teve o apoio resoluto, entre outros, do Portuguese American Center, do Portuguese American Civic League e da Associação de Veteranos de Lowell.

Disseminados pelo território nacional e pelas comunidades portuguesas no mundo, mormente na América do Norte, os Monumentos aos Combatentes da Guerra do Ultramar, observam um dever de memória, pois como relembra o ensaísta francês Joseph Joubert “A memória é o espelho onde observamos os ausentes”.

MARIA BEATRIZ ROCHA TRINDADE: UMA VIDA DE TRABALHO ACADÉMICO SOBRE MIGRAÇÕES

  • Crónica de Daniel Bastos

No decurso das últimas décadas o estudo sobre o fenómeno migratório tem sido profusamente enriquecido com um conjunto diversificado de atividades e trabalhos que têm dado um importante contributo para o conhecimento da emigração portuguesa.

Neste conjunto diversificado de atividades e trabalhos, onde se cruzam os olhares interdisciplinares das ciências sociais, encontram-se, entre outros, livros, artigos em revistas científicas, congressos, conferências, relatórios, dissertações de licenciatura, mestrado e doutoramento.

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Autora, prefaciadora, coordenadora e colaboradora de várias obras relacionadas com a emigração portuguesa, Maria Beatriz Rocha-Trindade (esq.) apresentou em 2017 o livro “Terras de Monte Longo” do historiador Daniel Bastos (dir.)

 

Autora de uma vasta bibliografia sobre matérias relacionadas com as migrações, onde se destacam, entre outros, os livros Sociologia das Migrações (1995), Migrações - Permanência e Diversidade (2009), A Serra e a Cidade - O Triângulo Dourado do Regionalismo (2009) ou Das Migrações às Interculturalidades (2014). E colaboradora habitual de revistas científicas internacionais neste domínio, Maria Beatriz Rocha-Trindade, nascida em Faro, é Doutorada pela Universidade de Paris V (Sorbonne) e Agregada pela Universidade Nova de Lisboa (FCSH).

Professora Catedrática Aposentada na Universidade Aberta, foi responsável pela fundação nos inícios dos anos 90, nesta instituição de ensino superior público, do Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais (CEMRI). Um centro pioneiro na área das Migrações e Relações Interculturais, que conta atualmente com mais de meia centena de investigadores, e que tem dinamizado ao longo dos últimos anos uma intensa pesquisa interdisciplinar e formação avançada na área das migrações e das relações interculturais em contexto nacional e internacional.

O pioneirismo da insigne académica e investigadora está igualmente expresso na introdução em Portugal do ensino da sociologia das migrações, primeiro na Universidade Católica, no curso de Teologia, em 1994, e dois anos depois, na Universidade Aberta, a nível de licenciatura e de mestrado.

Membro de diversas organizações científicas portuguesas e estrangeiras, designadamente da Comissão Científica da Cátedra UNESCO sobre Migrações, da Universidade de Santiago de Compostela, do Museu das Migrações e das Comunidades, criado em 2001 por deliberação do Município de Fafe, e da Comissão Científica do Centro de Estudos de História do Atlântico/CEHA, a Professora Maria Beatriz Rocha-Trindade, coordena presentemente a Comissão de Migrações da Sociedade de Geografia de Lisboa.

Constituída por membros oriundos de vários quadrantes da sociedade que têm estudado e refletido sobre o fenómeno migratório, emigração/imigração, a Comissão de Migrações da Sociedade de Geografia de Lisboa, uma das mais relevantes instituições culturais do país, tem sido responsável pela dinamização de relevantes iniciativas no campo do fenómeno migratório. Como por exemplo, em 2019, quando realizou o colóquio “CPLP - que presente e que futuro?”, ou no ano anterior, o “Fórum Luso-Estudos/ Edição 2018”, o seminário “Enologia, Mobilidade e Turismo” e a conferência “Jornalismo para a Paz em contexto de mobilidade”.

O percurso de vida singular e o trabalho académico laborioso da Professora Catedrática Maria Beatriz Rocha-Trindade, Titular da Ordre National du Mérite, de França, com o grau de Chevalier, da Medalha de Mérito do Município de Fafe e da Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública, de Portugal, estão sublimemente sintetizados nas palavras do docente e investigador Jorge Malheiros, no prefácio da obra Das Migrações às Interculturalidades: “a investigação em migrações em Portugal não seria a mesma coisa sem a Professora Maria Beatriz Rocha-Trindade”.

DEMOCRACIA COM FALHAS?

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  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Perdemos a condição de democracia plena, para passarmos a ser considerados como cidadãos de um país com falta dela. Isto é o que nos diz um Estudo da revista The Economist, entidade que avalia a qualidade da democracia no mundo. Um dos argumentos apresentados para tal é atribuído à pandemia e aos confinamentos a que esta nos obriga, razão porque, dizem, também outros países foram penalizados. Depois, há ainda outras razões, a saber, os debates com o primeiro-ministro no Parlamento, que eram quinzenais e passaram a bimestrais, e a pouca transparência no processo de nomeação do presidente do Tribunal de Contas, factos importantes, mas acidentais.

A partir desta avaliação, não faltaram os aproveitamentos políticos em que somos férteis, muito especialmente por parte dos partidos do eixo da governação. Já sabemos que quem agora ou logo governa procura na oposição passar a mensagem da sua elevada prática democrática, acusando quem é poder de não o ser tanto. Mas estes aproveitamentos partidários não vêm tanto a propósito. Quando muito poderão ser tema para outras ocasiões.

A propósito, vem o conceito de democracia. Por mim, entendo que em Portugal gozamos deste estado social de forma integrada. Naturalmente, tem os defeitos de todos os países livres. Sim, porque em matéria de governação nada é perfeito, já que o ser humano também não o é. Entendo que quanto mais evoluídos formos, nos mais alargados domínios, melhor democracia construiremos e, com mais razão, melhor a reivindicaremos.

Os observatórios, de forma abrangente, são muito interessantes, porque para além de nos ajudar a compreender o funcionamento das sociedades, podem alertar-nos para as insuficiências das mesmas, contribuindo, igualmente, para o estímulo da intervenção das populações na reivindicação dos seus direitos e deveres de cidadania. Mas estas entidades afirmam-se menos se não primarem pela objetividade. Declarar que, perante este drama pandémico que assola o universo, a obrigatoriedade do confinamento desvaloriza a democracia, é pouco bem julgado. Por esta ordem de ideias, esta valorizava-se nada fazendo para salvar vidas!

Repiso, felizmente, a democracia em Portugal, com os seus defeitos e virtudes, é mesmo plena. E os portugueses assumem-se como bons democratas quando respeitam o confinamento e confiam nas orientações das entidades que velam pela nossa saúde. O que se vai vendo e, pasme-se, em alguns países europeus, na contestação ao confinamento, como a querer abrir as portas à morte, é que deve ser visto como fragilidades democráticas. A mim, espanta-me o que vejo por exemplo na Holanda, um país que nos habituamos a ver ordeiro, trabalhador e de cultura bem acima da média (à parte a sua condição de facilitador a fugas ao fisco a países estrangeiros), e que agora, em boa parte, se manifesta estrondosamente contra o confinamento. Mas, neste mundo, estamos sempre a ser surpreendidos.

MANUEL BETTENCOURT – ENTRE O SONHO AMERICANO E O ORGULHO NAS RAÍZES PORTUGUESAS

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  • Crónica de Daniel Bastos

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos Arquipélagos dos Açores e da Madeira, destaca-se hoje pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.

Atualmente, segundo dados dos últimos censos americanos, residem nos EUA mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, principalmente concentrados na Califórnia, Massachusetts, Rhode Island e Nova Jérsia. A grande maioria da população luso-americana trabalha por conta de outrem, na indústria, mas são já muitos os que trabalham nos serviços ou se destacam na área científica, no ensino, nas artes, nas profissões liberais e nas atividades politicas.

No seio da numerosa comunidade lusa nos EUA, onde proliferam centenas de associações recreativas e culturais, clubes desportivos e sociais, fundações para a educação, bibliotecas, grupos de teatro, bandas filarmónicas, ranchos folclóricos, casas regionais e sociedades de beneficência e religiosas, destacam-se percursos de vida de vários compatriotas que alcançaram o sonho americano ("the American dream”).

Entre as várias trajetórias de portugueses que começaram do nada na América e ascenderam na escala social graças ao trabalho, ao mérito e ao empenho, destaca-se o percurso inspirador e de sucesso do comendador Manuel Bettencourt, uma das figuras mais gradas da comunidade luso-americana.

Natural de Ribeirinha, uma aldeia do concelho de Santa Cruz da Graciosa, ilha Graciosa, arquipélago dos Açores, Manuel Bettencourt emigrou para a América no final dos anos 60, na casa dos vinte anos de idade, ao encontro dos pais que tinham partido um ano antes em demanda de melhores condições de vida para uma família humilde e numerosa, marcada pelo espectro de grandes carências, na esteira da larga maioria da população que durante a ditadura portuguesa vivia na pobreza, quando não na miséria.

A chegada à Califórnia, estado no oeste dos EUA, numa fase de crescimento da emigração açoriana para o território americano, marca o início de um percurso de vida de um verdadeiro self-made man”, que sem saber falar inglês, desde logo arranjou trabalho no hotel onde o pai fazia limpezas. Durante cerca de uma década, Manuel Bettencourt, ao mesmo tempo que lavava pratos e servia às mesas, compondo assim os rendimentos da família formada por uma dezena de irmãos, deu asas ao sonho de estudar, de tirar um curso superior, que acalentava desde o torrão natal, em particular do Faial onde tirou o segundo ano do liceu.

O trabalho, o esforço e a resiliência, valores coligidos no seio familiar, permitiram ao jovem graciosense fazer, em regime noturno, o ensino secundário, e depois graduar-se em Educação Geral no San Jose City College e posteriormente licenciar-se em Biologia na San Jose State University.

A progressão na carreira e a valorização profissional levariam Manuel Bettencourt nos quatro anos seguintes a ir para o México, para Guadalajara, estudar Estomatologia, com o objetivo de regressar à Califórnia e abrir um consultório em Santa Clara, atual centro de Silicon Valley, desígnio que cumpriria e que o levou a exercer cirurgia dentária durante 30 anos.

Profissional de medicina dentária renomado, com uma trajetória marcada pelo carecimento, humildade, dedicação e mérito, o dentista luso-americano que sempre trabalhou de perto com os seus compatriotas, demonstrou sempre ao longo da sua vida uma faceta de apoio aos mais necessitados. Contexto que concorreu para que nunca tenha recusado um paciente por falta de dinheiro, ou se mostre ainda hoje disponível para prestar cuidados dentários a inúmeras crianças de agregados carenciados de imigrantes mexicanos.

Atualmente reformado, o sucesso que alcançou no campo da cirurgia dentária foi constantemente acompanhado de uma enorme dedicação às tradições e instituições da comunidade portuguesa na Califórnia, tendo ao longo das últimas décadas ocupado diversos cargos de direção no movimento associativo.

Os notáveis serviços de cidadania e os relevantes contributos em prol da comunidade luso-americana, assim como o reiterado orgulho nas raízes portuguesas que o levam quase todos os anos ao torrão natal, estão na base das condecorações de Comendador da Ordem de Mérito (2002), Comendador da Ordem do Infante D. Henrique (2011) e Insígnia Autonómica de Reconhecimento (2015) que lhe foram atribuídas pelas autoridades nacionais e regionais.

Uma das figuras mais gradas da comunidade luso-americana, o exemplo de vida do comendador Manuel Bettencourt, inspira-nos a máxima do escritor indiano Rabindranath Tagore:“Quanto maiores somos em humildade, tanto mais próximos estamos da grandeza”.

NO RESCALDO DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS

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  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Em eleições há sempre vencedores e vencidos, e os vencedores de hoje até poderão ser os derrotados de amanhã. Ninguém gosta de ser perdedor em “contendas” e muito menos em eleições políticas, porque quem perde vê a sua mensagem desvalorizada. Mas o tempo não acaba com derrotas pontuais. Há que não as desdenhar e saber assumir erros para não os repetir, mas enquanto vivos, em defesa de causas, não se deve acarinhar o desânimo.

Penso que o maior vencedor nestas eleições foi a democracia, porque 90% dos votantes apostaram no estado democrático vigente. Pouco se falou da intervenção de Marcelo de Rebelo de Sousa na noite eleitoral, mas entendo que se tratou de um discurso convictamente sentido na defesa do direito e do muito que ainda há para fazer na melhoria das condições de vida dos portugueses. De salientar, a dado passo, a referência que fez em relação à revolução de abril, prestes a chegar ao meio século, salientando que estes 50 anos devem ser comemorados com satisfação e orgulho, já que foi este ato que nos devolveu a liberdade e nos abriu caminho para o progresso (cito de memória). 

Não votei no candidato vencedor. Votei no que se revelou tecnicamente mais bem preparado, de discurso simples e educado, tal como reconheceu o insuspeito Marques Mendes, no seu comentário dominical da SIC. Votei em João Ferreira, mas convivo bem com o Presidente que temos, que afirmou categoricamente a André Ventura que era e queria continuar a ser o Presidente de todos os portugueses, velando na integra pelos seus direitos; que contrariava a prisão perpétua e a pena de morte, que acreditava no Ser Humano e na sua recuperação, tal como acontece em todos os países civilizados, citando até o humanismo do papa em defesa das suas causas. Ora um presidente com este discurso e com esta prática plural de chegar a todos, que é eleito por 60,70% dos votantes, mostra um resultado eleitoral que rejeita o extremismo.

Há quem tema o resultado da dita extrema direita, que, explicitamente, nem sei bem o que é, mas é bom constatar factos. Vi todos os debates e, decorrido quase meio século em liberdade, chocou-me ver o candidato dessa fação insultar tudo e todos, não deixar falar ninguém, apontado o dedo, ameaçando uma parte da sociedade, nada apostado em discutir como resolveria os problemas dos portugueses se fosse poder. Sem uma ideia, sem um projeto, contrariamente, por exemplo, ao candidato da Iniciativa liberal que revelou conceitos, ao manifestar uma maior aposta no sector privado e menos estado, como a querer provar que não foi apanhar o seu projeto às redes sociais, onde só se fala de desgraças e perpassa a ideia de que estamos num país de bandidos. Infelizmente, as redes sociais estão a afastar as pessoas, em vez de as unir.

Mas não há que iludir realidades sobre hipotéticas novas arrumações de forças no xadrez político de Portugal. E aí que se cuidem os verdadeiros sociais democratas do PSD. Depois de ouvir André Ventura a desafiar Rui Rio de que sem eles o PSD jamais seria Governo, bem que este Rio, desnorteado, corre veloz rumo mar, para afundar a social democracia, apodada de trave mestra do programa do PSD.

JEAN PINA, DE SONHADOR A PROMOTOR DA SOLIDARIEDADE LUSO-FRANCESA

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  • Crónica de Daniel Bastos

Uma das marcas mais características das comunidades portuguesas é a sua dimensão empreendedora e benemérita, como corroboram os percursos de diversos compatriotas que criam empresas de sucesso e dinamizam atividades de relevo a nível económico, político, cultural e social.

Nos vários exemplos de empresários da diáspora, cada vez mais reconhecidos como uma mais-valia na promoção do país, destaca-se a trajetória do empresário português João Pina, radicado na região de Paris, um dos mais dinâmicos e beneméritos empresários portugueses em França.

Natural de Trinta, uma pequena povoação do concelho da Guarda, João Pina emigrou para França nos anos 80, com 19 anos de idade, na esteira de milhares de portugueses que procuravam na pátria gaulesa uma vida melhor. A chegada a Paris, ainda que marcada inicialmente por um conjunto de contratempos e dificuldades, como foi o caso de um acidente grave que fez com que ficasse em coma vários dias, e que concorreu para que se tornasse um zeloso devoto de Nossa Senhora de Fátima, assinalou um percurso de empresário de sucesso na área da construção civil, como é vivificado na obra biográfica assinada em 2016 por Elizabete Dente - “Jean Pina de sonhador a promotor”.

Presentemente administrador do Grupo Pina Jean, sediado nos arredores de Paris, um conjunto de seis empresas com atividades em áreas como a construção civil, limpeza e reciclagem de resíduos, que o elevam a um dos mais relevantes empresários luso-franceses, o êxito que João Pina, conhecido em terras gaulesas por Jean Pina, alcançou ao longo das últimas décadas no mundo dos negócios, tem sido reiteradamente acompanhado de uma inequívoca solidariedade em prol da comunidade portuguesa em França.

O espírito solidário de Jean Pina foi paradigmaticamente consubstanciado em novembro de 2019, quando o empresário guardense constituiu a Fundação Nova Era Jean Pina. O lema da instituição “Solidariedade em Movimento” é revelador da sua missão primacial. Mormente, dinamizar a cooperação entre França e Portugal através da promoção, apoio e desenvolvimento de projetos de solidariedade para com as pessoas mais desfavorecidas e vulneráveis, como idosos, crianças institucionalizadas e desempregados.

Foi nesta entrecho, que por exemplo, o empresário luso-francês esteve em 2018 na base do estabelecimento de protocolos entre instituições franco-portuguesas de apoio a deficientes. Ou no ano seguinte, na concretização de um protoloco de cooperação com o Centro Cultural Português em Paris do Instituto Camões com o Groupe Jeunesse SOS – M.E.C.S. Félix Faure, com vista à inserção de alunos franceses através da iniciação à língua e cultura portuguesa.

Dinamizador e patrocinador de várias atividades, e projetos de cariz sociocultural e solidário, o empresário e benemérito da comunidade em França não esquece as suas raízes, sendo que pessoalmente ou através da Fundação Nova Era Jean Pina tem sido responsável pela realização de múltiplas iniciativas na região da Guarda.

Atividades no torrão natal que ao longo dos últimos anos têm impelido o encontro de empresários guardenses em Paris, e a oferta de bens alimentares à Loja Social “Mão Amiga” e a idosos e crianças da região da Guarda. Assim como a doação de roupa, brinquedos e material para a ala de Pediatria e Oncologia do Hospital da Guarda, e a entrega de duas dezenas de bolsas de estudo a reclusos do Estabelecimento Prisional da Guarda.

Têm sido várias as ceias de Natal organizadas por Jean Pina na Guarda para as quais convida crianças institucionalizadas e idosos isolados. Ainda recentemente para mitigar as dificuldades socioeconómicas causadas pela pandemia de coronavírus, a sua fundação ofereceu cerca de meio milhar de cabazes de Natal a famílias carenciadas da cidade mais alta de Portugal.

A inesgotável generosidade de Jean Pina na região da Guarda levaram no final do ano passado a Assembleia Municipal de Celorico da Beira a aprovar um voto de louvor à fundação Nova Era e ao empresário luso-francês. Ainda nesse ano, a Assembleia de Freguesia da Guarda, Almeida e o Município de Mangualde tinham aprovado por unanimidade votos de louvor pelo trabalho de Jean Pina, méritos que tinham já concorrido em 2015 para que tivesse sido distinguido com a Medalha de Mérito Municipal da Cidade da Guarda.

Uma das figuras mais conhecidas da comunidade lusa em França, provavelmente a maior comunidade portuguesa fora de Portugal, o exemplo de vida do empresário e benemérito Jean Pina inspira-nos a máxima de Madre Teresa de Calcutá: “Eu sei que o meu trabalho é uma gota no oceano, mas sem ele o oceano seria menor”.