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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

O MUSEU DE HERANÇA MADEIRENSE NOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos Arquipélagos dos Açores e da Madeira, destaca-se atualmente pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.

Atualmente, segundo dados dos últimos censos americanos, residem nos EUA mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, principalmente concentrados em Massachusetts, Rhode Island, Nova Jérsia e Califórnia.

No caso da comunidade madeirense, que representa entre 3 a 5% do total de portugueses residentes nos Estados Unidos, a mesma tem ainda hoje uma presença significativa, por exemplo, em New Bedford. Uma cidade costeira localizada no estado de Massachusetts, onde desde 1915 se realizam as Festas do Santíssimo Sacramento Madeirense, que se assumem anualmente como uma das maiores festas portuguesas nos EUA e umas das maiores celebrações lusas fora do território nacional, e que com a exceção dos dois últimos anos, devido aos constrangimentos pandémicos, juntam milhares de pessoas.

As festividades, interrompidas nos tempos mais recentes pela pandemia de coronavírus, decorrem há vários anos no Campo Madeira, um recinto onde durante vários dias é possível assistir a concertos de música, espetáculos, parada, dança e corridas, assim como degustar a gastronomia madeirense ou conhecer uma réplica de uma casa típica de Santana.

As comemorações estendem-se ainda ao “Museum of Madeirian Heritage” (Museu de Herança Madeirense), um espaço museológico, situado também na cidade de New Bedford, que foi fundado pelo saudoso José de Sousa e oficialmente inaugurado em 1998, pelo antigo presidente do Governo Regional da Madeira, Alberto João Jardim.

Propriedade da Fundação do Santíssimo Sacramento, o Museu de Herança Madeirense, que acolhe vários documentos recolhidos entre os emigrantes naturais do arquipélago, assim como uma vasta coleção de fotografias e objetos alusivos à pérola do Atlântico, tem como missão preservar e valorizar o legado histórico da emigração madeirense nos Estados Unidos da América.

Enquanto espaço singular que homenageia e perpetua a herança madeirense nos EUA, o Museu de Herança Madeirense, constitui-se como um exemplo inspirador para as comunidades portuguesas no mundo, principalmente naquilo que deve ser o respeito pelo seu passado, a construção do seu presente e a projeção do seu futuro.

FAFE: UMA CONSTRUÇÃO CONTEMPORÂNEA DOS “BRASILEIROS DE TORNA-VIAGEM”

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

Na senda das vagas contemporâneas de emigrantes portugueses para vários países do mundo, evidencia-se o ciclo transatlântico que se prolongou de meados do século XIX até ao primeiro quartel do século XX, e que teve como principal destino o Brasil.

Pressionados pela carestia de vida e baixos salários agrícolas, mais de um milhão de portugueses entre 1855 e 1914 atravessaram o oceano Atlântico, essencialmente seduzidos pelo crescimento económico da antiga colónia portuguesa. Procedente do mundo rural e eminentemente masculino, o fluxo migratório foi particularmente incisivo no Minho, um dos principais torrões de origem da emigração portuguesa para o Brasil.

Enobrecidos pelo trabalho, maioritariamente centrado na atividade comercial, e após uma vintena de anos geradores de um processo de interação social que os colocou em contacto com novas realidades, hábitos, costumes e posses, o regresso de “brasileiros de torna-viagem” a Portugal, trouxe consigo um espírito burguês empreendedor e filantrópico marcado pela fortuna, pelo gosto de viajar, e pelo fascínio cosmopolita da cultura e língua francesa.

Ainda que sintomática das debilidades estruturais do país, a emigração portuguesa para o Brasil entre o séc. XIX e XX, facultou através do retorno dos “brasileiros de torna-viagem”, os meios e recursos necessários para a transformação contemporânea do território nacional, com particular incidência no Norte de Portugal.

Como é o caso paradigmático de Fafe, uma cidade situada no distrito de Braga, no coração do Minho, cujo desenvolvimento contemporâneo teve um forte cunho de emigrantes locais enriquecidos no Brasil na transição do séc. XIX para o séc. XX. O retorno dos “brasileiros de torna-viagem” a Fafe alavancou, desde logo, nas décadas de 1870-80, a criação da Fábrica têxtil do Bugio, e da Companhia de Fiação e Tecidos de Fafe (Fábrica do Ferro), símbolos incontornáveis da indústria têxtil no Vale do Ave.

Paralelamente à dinâmica empreendedora, as iniciativas de natureza filantrópica dos emigrantes “brasileiros” de Fafe, abarcaram ainda no último quartel do séc. XIX, o lançamento da Igreja Nova de São José, a edificação do Asilo da Infância Desvalida, a construção do Jardim Público, símbolo do romantismo, o surgimento da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários, a instituição da Santa Casa da Misericórdia de Fafe, e já no alvorecer do séc. XX, o Asilo de Inválidos de Santo António.

As marcas da benemerência brasileira local estão ainda consubstanciadas na construção do Hospital de São José, administrado pela Santa Casa da Misericórdia de Fafe, e que foi alavancado por um conjunto de influentes fafenses no Rio de Janeiro, que angariaram os fundos necessários para a edificação da unidade de saúde, com a incumbência do mesmo seguir a planta arquitetónica do Hospital da Beneficência Portuguesa do Rio de Janeiro.

Estas marcas identitárias do ciclo do retorno dos "brasileiros de torna-viagem", singularmente presentes na arquitetura e urbanismo da cidade de Fafe, onde ainda hoje se destacam casas apalaçadas de grandes dimensões, aformoseadas com azulejos multicolores, varandas estreitas com guardas de ferro forjado ou fundido, diversos beirais de faiança pintados e claraboias, impulsionaram a edilidade a instituir no início do séc. XXI o Museu das Migrações e das Comunidades.

Percursor no seu género em Portugal, o espaço museológico, que tem o reconhecimento da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e integra a AEMI (Association of European Migration Institutions), assenta a sua missão no estudo, preservação e comunicação das expressões materiais e simbólicas da emigração portuguesa. Detendo-se particularmente na emigração para o Brasil do século XIX e primeiras décadas do XX, que em Fafe, na esteira da opinião de Eça de Queiroz sobre a emigração, constituiu uma “força civilizadora”.

UMA VIDA LUSO-FRANCESA

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

Os últimos anos têm sido pródigos na conceção e realização de obras de autoras nacionais ou lusodescendentes residentes no estrangeiro dedicadas às mundividências femininas no contexto migratório, umas das dimensões da emigração portuguesa que por via destes contributos literários começa a ser mais conhecida e estudada.

Um desses contributos literários, intitulado Uma vida luso-francesa, deu à estampa no final do ano passado e tem o cunho de Margarida Poças Serrano, educadora especial que trabalhou em França com refugiados e jovens com deficiência.

Natural de Reguengo do Fetal, Batalha, Margarida Poças Serrano emigrou para França, nomeadamente para Saint-Maur des Fossés, uma comuna a sudeste de Paris, em 1966, ainda criança, na companhia da mãe e de outras duas irmãs, ao encontro do pai e da irmã mais velha que tinham partido para o território gaulês três anos antes.

Formada em educação especial, uma educação organizada para atender específica e exclusivamente alunos com determinadas necessidades especiais, já depois de casada e do nascimento dos três filhos, a autora batalhense assina nesta obra, que tem a chancela da Chiado Books, um romance social inspirado livre­mente na trajetória de filha de emigrantes que partiram nos anos 60 em demanda de melhores condições de vida, na esteira da larga maioria da população que durante a ditadura portuguesa vivia na pobreza.

O livro aborda também, e sobretudo, a luta de uma menina para escapar ao destino que o seu pai lhe tinha traçado, mormente de mulher submissa ao chefe de família, e aos homens em geral. Rompendo assim com o ideal feminino preconizado na ditadura de Salazar, que advogava que a mulher existia para ser mãe, esposa e dona-de-casa, e desde cedo era educada para ser submissa ao poder patriarcal do pai, do irmão e, mais tarde, do marido.

A obra é igualmente é um testemunho pessoal da importância dos livros enquanto instrumento insubstituíveis para a formação, como foi o caso paradigmático de Margarida Poças Serrano, cuja trajetória e trabalho literário relembra a máxima de Gabriel García Márquez: “A vida de uma pessoa não é o que lhe acontece, mas aquilo que recorda e a maneira como o recorda”.

PASSADO, PRESENTE E FUTURO DO MOVIMENTO ASSOCIATIVO DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

O movimento associativo das comunidades portuguesas constitui um dos mais importantes elos de ligação dos milhões de compatriotas disseminados pelo estrageiro à língua, cultura, história e memória da pátria de origem, e simultaneamente uma das marcas mais expressivas da sua inserção nas pátrias de acolhimento.

Espaços privilegiados de cultura e participação cívica, as associações das comunidades portuguesas são a argamassa identitária que une a diáspora, e por isso mesmo, as mais genuínas embaixadoras de Portugal no mundo.

Nestes últimos dois anos marcados pela pandemia, contexto que mudou radicalmente o quotidiano das sociedades, o movimento associativo das comunidades lusas enfrenta grandes desafios. Este cenário foi recentemente abordado por um dos mais destacados dirigentes associativos da comunidade portuguesa na América, Jack Costa, o mais jovem presidente na história do Sport Club Português (SCP), em Newark, Nova Jérsia, coletividade que neste ano que agora finda comemorou o seu centenário, e foi condecorada com a Ordem do Mérito pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Em declarações à imprensa luso-americana, o atual vice-presidente da mesa da Assembleia Geral do SCP, fez uma radiografia completa sobre o passado, presente e futuro do meio associativo em Newark, e que é extensível, às demais associações espalhadas pelas comunidades portuguesas. Desde logo, reconheceu a dificuldade em “comemorar o centenário em pandemia”, cenário que um pouco por toda a geografia da diáspora, tem entravado a realização de eventos e iniciativas, que em muitos casos garantem a obtenção de receitas que permitem custear o normal funcionamento das associações, como seja o pagamento da água, luz, rendas dos espaços ou a sua manutenção.

Perspetivando o futuro do movimento associativo em Newark, Jack Costa, assumiu “olhar com um misto de preocupação e motivação. Preocupação por notar que cada vez é menor o número de pessoas que se dedicam às associações”. Uma problemática, que é inclusive anterior à pandemia, e que começa a alastrar no meio associativo das comunidades portuguesas, mormente, o envelhecimento dos seus quadros dirigentes, da maioria dos seus associados e da escassa participação dos lusodescendentes.

É nesse sentido, que o dirigente associativo luso-americano, defende que “vamos ter seriamente de parar para pensar no futuro das associações portuguesas”, sendo que os clubes devem “reinventarem-se para voltar a atrair as pessoas da minha geração e até mesmo as seguintes, porque quem sustenta o movimento associativo está a achegar à idade da reforma e é preciso sangue novo”.

Assim como, adotar um novo modelo de atuação e organização das associações, que em muitos casos, poderá passar por um paradigma de partilha de uma “casa comum”, capaz de reunir num só espaço com dignidade e dimensão a valiosa argamassa identitária das comunidades portuguesas. Nas palavras do mesmo “com bairrismos, não se vai lá. A única luz no fundo do túnel é a junção de muitas associações numa só onde todos tenham espaço. Só que muita gente não quer falar nisso, mas o tempo urge”.

Na esteira do olhar radiográfico de Jack Costa, e alargando o seu campo de visão a toda a geografia da diáspora, é condição “sine qua non” que o movimento associativo das comunidades portuguesas seja capaz de congregar sinergias e diluir divergências. De modo, a potenciar o coletivo, a união, e os cada vez mais parcos recursos humanos e financeiros que existem no movimento associativo em prol da cultura lusa.

Que esta união e solidariedade seja a incessante bandeira das comunidades portuguesas, em particular, do seu movimento associativo, e que esta seja a desígnio que nos oriente nestes tempos desafiantes no rumo da alegria, da saúde e de um próspero ano novo.

SOLIDARIEDADE: A ESTRELA DE NATAL DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

Natal é a festa por excelência da família, da paz, do amor, da alegria, da solidariedade e da esperança num futuro melhor, que este ano a humanidade aguarda com redobrada expectativa que marque o fim da malfadada pandemia de coronavírus.

Uma pandemia que tem acarretado nas sociedades efeitos assoladores no campo socioeconómico, espelhados em inúmeras vítimas e casos de infeção, assim como persistentes medidas de confinamento que entrevam a economia e o retomar da normalidade.

Disseminadas pelos quatro cantos do mundo, as comunidades portuguesas, a mais autêntica e consistente manifestação lusa além-fonteiras, não estão imunes a estes efeitos que alteram transversalmente o nosso quotidiano e rotinas.

Efeitos que ao longo dos últimos dois anos foram responsáveis pelo cancelamento ou adiamento de vários eventos e iniciativas que integram os planos anuais de atividades do movimento associativo das comunidades portuguesas, e que são em muitos casos essenciais para obter receitas que permitam financiarem o seu normal funcionamento. Assim como, pelo assomar de situações de precariedade, perda de rendimentos, desemprego e ameaça de insegurança económica no seio de diversos agregados de emigrantes portugueses.

Mas nestes tempos difíceis, as comunidades portuguesas têm demonstrado um enorme espírito de solidariedade (um dos, senão mesmo, o mais importante valor que nos humanizam e dão sentido ao Natal), apoiando quer os nossos concidadãos no estrangeiro, assim como os portugueses residentes no território nacional.

Um desses exemplos de solidariedade foi dinamizado no decurso desta quadra natalícia pela Fundação Nova Era Jean Pina, uma instituição presidida pelo empresário benemérito luso-francês, João Pina, administrador do Grupo Pina Jean, sediado nos arredores de Paris, que além de distribuir inúmeros produtos junto de instituições e agregados desfavorecidos em Portugal e França. Ofereceu, através da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, e da Federação Iberoamericana de Luso Descendentes, duas centenas de cabazes de Natal a famílias portuguesas e lusodescendentes residentes na Venezuela, segunda maior comunidade lusa na América Latina, a seguir ao Brasil, que nestes tempos desafiantes vive com graves dificuldades.

Na mesma esteira, no alvorecer deste mês a Academia do Bacalhau de Paris dinamizou a campanha “Roupa sem Fronteiras, recolhendo no seio da comunidade portuguesa da região parisiense, grandes quantidades de roupas, calçado e brinquedos que foram encaminhados para o Gabinete da Ação Social da Câmara Municipal de Viana do Castelo, para a Associação CPCJ de Cabeceiras de Basto, e para a Emmaüs, em França.

Na América do Norte, mais concretamente em Toronto, onde vive a maioria dos mais de meio milhão de compatriotas e lusodescendentes presentes no Canadá, tem vindo a ser dinamizado neste período marcado pela pandemia um dos mais salientes projetos de cariz solidário no seio diáspora. Designadamente, a construção a breve prazo de um centro, orçado em vários milhões de dólares, capaz de acolher mais de duas centenas de idosos, especialmente direcionado para a comunidade portuguesa.

Este projeto, há muito ambicionado pelos emigrantes lusos na maior cidade canadiana, está a ser dinamizado pela Magellen Community Charities (Instituição de Caridade Comunitária Magalhães). Uma organização sem fins lucrativos, em homenagem ao navegador português, que através da colaboração do poder politico e da solidariedade da comunidade luso-canadiana, pretende construir um lar culturalmente específico que terá que cumprir as seguintes condições: profissionais de saúde que falem português; atividades cultural e espiritualmente desenvolvidas em ambiente cultural sensível; promoção de programas sociais e recreativos em português e alimentação que deve incluir pratos tradicionais.

Como assinalou no início da apresentação pública do projeto, o comendador Manuel DaCosta, um dos mais ativos e beneméritos empresários portugueses em Toronto, e um dos diretores da Magellen Community Charities, é importante que a comunidade portuguesa esteja envolvida no projeto pela “oportunidade única, estamos empenhados para que tenha sucesso e para que toda a comunidade se envolva”.

Estes exemplos inspiradores de solidariedade, e muitos outros que estão atualmente a serem dinamizados no seio das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, reforçam que mesmo em tempos de pandemia, a solidariedade é a estrela de Natal das comunidades portuguesas.

Que a solidariedade que emana das comunidades portugueses nos irmane a todos a tornar o mundo um lugar melhor, e nos inspire uma Feliz Quadra Natalícia e um Próspero Ano Novo.

FUNDAÇÃO NOVA ERA JEAN PINA DOOU BENS À MISERICÓRDIA DE FAFE

  • Crónica de Daniel Bastos

A Fundação Nova Era Jean Pina, uma instituição presidida pelo empresário benemérito luso-francês, João Pina, administrador do Grupo Pina Jean, sediado nos arredores de Paris, que tem firmado várias parcerias com associações locais, doou no início desta semana meia tonelada de bens à Santa Casa da Misericórdia de Fafe.

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O historiador fafense Daniel Bastos (dir.), embaixador da Fundação Nova Era Jean Pina junto das comunidades portuguesas, e que tem intermediado a chegada dos diversos bens ao concelho, no armazém da Misericórdia de Fafe, acompanhado do vice-provedor da instituição local, Joaquim Antunes Rodrigues (esq.)

Uma das maiores instituições sociais do Norte do país, já com uma longa história, e cuja ação promove o desenvolvimento de respostas sociais direcionadas para a Terceira Idade, Infância e Saúde, como é o caso da gestão do Hospital de São José, a Misericórdia de Fafe foi contemplada com a oferta de meia tonelada de produtos de higiene para bebés e seniores, assim como produtos de limpeza e alimentares.

Além da Santa Casa da Misericórdia de Fafe, foram novamente contempladas com o envio de bens a Delegação de Fafe da Cruz Vermelha, instituição local que presta assistência humanitária e social, em especial aos mais vulneráveis, que recebeu meia tonelada de alimentos e produtos de higiene. Assim como, a Associação de Defesa dos Direitos dos Animais e Floresta (ADDAF), entidade local responsável pelo trabalho de voluntariado no canil municipal, que recebeu uma tonelada de ração para cães e lixívia.

Refira-se que a instituição luso-francesa ao longo dos últimos anos tem apoiado quer na Diáspora, como em Portugal, o desenvolvimento de projetos de solidariedade em prol de diversas associações de cariz social, tem previsto ainda durante esta quadra natalícia apoiar outras instituições sociais de Fafe. E que os custos de transporte dos bens que chegaram no início desta semana ao concelho provenientes de França, via a associação portuguesa Lusibanda, sediada em Le Havre, foram suportados pelos Transportes Mesquita, uma empresa de transportes internacionais em camião TIR, com sede na região norte, ambos membros associado da Fundação Nova Era Jean Pina.

LEONOR XAVIER: A ENIGRAÇÃO PORTUGUESA COMO FONTE DE INSPIRAÇÃO

  • Crónica de Daniel Bastos

No início desta semana passada, fomos surpreendidos com a triste notícia do falecimento da jornalista e escritora Leonor Xavier (1943 – 2021), cujo percurso profissional e literário conferiu um importante impulso à afirmação da mulher portuguesa na diáspora.

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Foto: Centro Nacional de Cultura

Nascida em Lisboa, Leonor Xavier licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em março 1975, no decurso da Revolução de Abril, emigrou na companhia do marido, o advogado Alberto Xavier, professor de Direito da Universidade de Lisboa e antigo titular da Secretaria de Estado do Planeamento, e os três filhos, para São Paulo, no Brasil.

Na capital paulista, viveu como recordaria mais tarde, quatro anos “decisivos na minha história de mulher”, passando de dona de casa para professora particular de francês e revendedora porta-a-porta de recipientes tupperware. No Rio de Janeiro, para onde se mudou em 1979, encetou o seu percurso como jornalista, tendo sido correspondente do Diário de Notícias, colaboradora da revista Manchete, do Jornal do Brasil e redatora do jornal Mundo Português.

Paralelamente à careira jornalista, no âmbito da qual recebeu por duas vezes o “Prémio de Melhor Jornalista da Comunidade Portuguesa no Rio de Janeiro”, publicou em terras de Vera Cruz os seus primeiros livros, mormente os ensaios Atmosferas e Entrevistas, e o romance Ponte aérea. Regressada a Lisboa em 1987, ano em que foi agraciada com o grau de Oficial da Ordem do Mérito, colaborou com as revistas Máxima, Vogue, Sábado e o Jornal de Letras, escreveu os romances O Ano da Travessia e Botafogo, e assinou as biografias de Maria Barroso (Um Olhar Sobre a Vida), Raul Solnado (A Vida Não Se Perdeu), de quem foi companheira, e do político Rui Patrício (A Vida Conta-se Inteira).

Vencedora em 2010 do Prémio Máxima de Literatura, com o livro Casas Contadas, e em 2016 do Prémio Frei Bernardo Domingues, com a obra Passageiro Clandestino, e autora de várias comunicações em congressos sobre a emigração portuguesa para o Brasil, a sua experiência migratória em terras brasileiras inspiraram vários dos seus trabalhos literários. Como a mesma asseverou em entrevista no alvorecer da década de 2010: “O emigrante é o meu discurso interior”, até porque “um livro que se escreve não é só uma narrativa de factos. O discurso interior é o compromisso com todas as situações que vivi”.

A REDE MUSEOLÓGICA DIGITAL DEDICADA À EMIGRAÇÃO PORTUGUESA

  • Crónica de Daniel Bastos

O desígnio e imperativo de valorização do conhecimento da história da emigração portuguesa têm impelido, nos últimos anos, o poder político a procurar incrementar estratégias culturais capaz de aglutinar os espaços museológicos ligados ao fenómeno migratório que se encontram disseminados pelo território nacional.

Uma dessas estratégias foi implementada no alvorecer do ano que agora está a findar, através da apresentação por parte da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, liderada por Berta Nunes, de um projeto que visa a criação de uma rede museológica digital dedicada à emigração lusa.

Uma rede museológica, cuja principal ambição passa por ligar a história da diáspora portuguesa e suas vias de acesso, via digital e num itinerário real, fisicamente implantado, apto a reconhecer os diferentes fluxos migratórios e capaz de atrair o interesse pelo país e suas gentes. Como sustenta Luís Castro Mendes, embaixador e antigo ministro da Cultura que preside ao conselho de consultores do projeto, pretende-se assim fomentar “uma rede entre espaços museológicos, com vantagens em relação a um museu que concentrasse tudo”.

Precursora de uma visão museológica desconcentrada, esta rede museológica visa, mediante a dinamização de uma plataforma online, disponibilizar os acervos do Museu das Migrações e das Comunidades, sediado em Fafe, do Espaço Memória e Fronteira, localizado em Melgaço, e do Museu da Emigração Açoriana, instalado na Ribeira Grande. Uma plataforma que seguramente também não olvidará projetos e instituições como o Cais da Língua e das Migrações, em Matosinhos, o Museu Português da Migração, no Sabugal, o Espaço Memória e Fronteira, no Fundão, o Museu do Salto, em Vilar Formoso, ou o Museu da Família Teixeira, na Madeira.

Esta plataforma, que pretende ligar os espólios que em Portugal contam a história da emigração portuguesa, pode e deve aglutinar ainda espaços museológicos que têm sido construídos ao longo das últimas décadas por portugueses no estrangeiro. Como, por exemplo, a Galeria dos Pioneiros Portugueses, em Toronto, impulsionada no presente pelo comendador Manuel DaCosta, e que se dedica à dinamização do legado dos pioneiros da emigração portuguesa para o Canadá; o Museu da Imigração, em Lausanne, na Suíça, criado pelo português Ernesto Ricou, que depois de quase uma vintena de anos de atividade na Avenida de Tivoli, tem uma nova casa na rua Saint-Martin 36, incluído no centro dedicado aos migrantes, com o apoio das igrejas católicas e protestantes; o Museu Etnográfico Português em Sydney, na Austrália, que tem procurado manter viva a identidade cultural da comunidade luso-australiana; ou o Museu Histórico Português em São José, Califórnia, dedicado às tradições lusas, em especial religiosas, neste estado norte-americano.

Uma ligação que pode e deve ainda procurar interligar-se com vários museus nacionais espalhados pela geografia da diáspora portuguesa, e cujos espólios acentuam o contributo marcante da imigração portuguesa no desenvolvimento dessas pátrias de acolhimento. Como, por exemplo, o Museu Nacional da Imigração Canadiano, localizado em Halifax, na província da Nova Escócia, que conserva nas suas variadas coleções inúmeros testemunhos da presença portuguesa no país; o Museu Nacional da História da Imigração em Paris, cujos documentos de arquivo, imagens, obras de arte, objetos da vida diária e testemunhos visuais e sonoros destacam o papel e importância da comunidade portuguesa em França, ou o Museu da Baleação de New Bedford, cuja ala dedicada aos baleeiros dos Açores, presta homenagem aos portugueses, mormente açorianos e o seu significativo contributo para a herança marítima norte-americana.  

Estes espaços museológicos, e outros que se encontram ou possam vir a ser projetados na pátria de origem ou de acolhimento dos portugueses espalhados pelo mundo, são uma indubitável mais-valia na perpetuação da memória da emigração lusa, e fundamentais para a prossecução da missão descentralizada e polinuclear da rede museológica digital dedicada à emigração portuguesa.

A EMIGRAÇÃO PORTUGUESA RETRATADA NA BANDA DESENHADA

  • Crónica de Daniel Bastos

A banda desenhada, um género literário em franco crescimento que assenta numa sequência de imagens (desenhadas e/ou pintadas) que narram uma história, podendo incluir ou não texto (legendas, diálogos ou pensamentos), começa a direcionar através dos seus autores e protagonistas a sua atenção para a temática da emigração portuguesa.

Um desses exemplos paradigmáticos é a banda desenhada Maria e Salazar, que retrata a história da emigração portuguesa para França. O livro foi lançado, no território gaulês em 2017, pelo autor francês Robin Walter, que desenvolveu a banda desenhada Maria et Salazar a partir do contacto com Maria, uma emigrante lusa que chegou a Paris em 1972, e que trabalhou como empregada doméstica na casa dos seus pais durante 30 anos.

O livro biográfico e autobiográfico foi editado no ano seguinte em português, tendo Robin Walter, que nesse ano participou no Amadora BD, um dos maiores eventos nacionais dedicados à banda desenhada, afirmado publicamente que a obra foi muito bem recebida “pela comunidade portuguesa em França. Muitas pessoas ficaram emocionadas e disseram-me que era a história dos seus pais e avós. Agora, quero continuar a transmitir esta história franco-portuguesa sobre estes portugueses um pouco nómadas que estão entre dois países”.

Esta história franco-portuguesa tinha sido já no início da década de 2010 abordada pelo desenhador francês lusodescendente, Cyril Pedrosa, no livro de banda desenhada Portugal. Misturando a ficção com alguns elementos autobiográficos, o autor nascido em 1972, em Poitiers, oriundo de uma família da Figueira da Foz que emigrou nos anos 30 para França, retrata em Portugal a história de um lusodescendente francês sem contacto com o país dos seus antepassados e que resolve tentar saber mais sobre as suas origens.

Nessa época, e no âmbito da sua participação no Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, Cyril Pedrosa precisou que aborda no livro “um Portugal imaginário, quer dizer, aquele que eu conheço e que não é o verdadeiro Portugal. É um Portugal “emocional”, o das sensações e da afeição que tenho por esse país, por esse povo, por essa língua. Sei perfeitamente que não conheço a realidade do país, para isso teria que viver nele. Mas conheço a beleza da sua língua, a generosidade dos portugueses e também conheço bastante bem a região de onde são originários os meus avós, uma pequena aldeia perto da Figueira da Foz (chamada Marinha da Costa, onde decorre a última parte do livro)”.

A ARTE PÚBLICA E A REPRESENTAÇÃO IDENTITÁRIA DA COMUNIDADE PORTUGUESA EM TORONTO

  • Crónica de Daniel Bastos

Nos últimos anos, temos assistido ao nível do espaço urbano nacional a uma cada vez maior interação entre arte e cidade, contexto que no âmbito da promoção de uma cidadania ativa e de uma gestão socialmente consciente do espaço público, tem impulsionado vários artistas a desenvolver uma série de obras, como por exemplo murais, em parceria com as comunidades locais.  

A arte pública, liberta dos códigos mais formais e específicos dos museus e galerias, tem feito também o seu caminho no seio da geografia da diáspora lusa. Assumindo mesmo, na linha preconizada pela socióloga Ágata Dourado Sequeira, um “papel de destaque na construção de um espaço público consciente da sua história, presente e futuro, e sobretudo dos cidadãos que o constroem simbolicamente”.

É o caso da comunidade portuguesa em Toronto, onde vive a maioria dos mais de 500 mil portugueses e lusodescendentes presentes no Canadá, que nas últimas décadas tem dinamizado uma série de intervenções artísticas no espaço público, visando através da sua representação identitária aproximar-se ainda mais da cidade e dar-se a conhecer melhor à comunidade canadiana em geral.

Ainda no mês passado, foi inaugurado no “Little Portugal” de Toronto, um mural do artista português Alexandre Farto, conhecido por Vhils, cuja inspiração centra-se na história do movimento feminino Cleaners Action, da década de 1970, liderado por trabalhadoras portuguesas. Como foi o caso de Idalina Azevedo, uma das líderes da greve conhecida por ‘Wildcat’, nas Torres TD, em Toronto, em 1974, que viabilizou alguns direitos para as empregadas de limpeza.

Além deste projeto da iniciativa da vice-presidente da Câmara Municipal de Toronto, a luso-canadiana Ana Bailão, da Associação Comercial do Little Portugal na Dundas, presidida por Anabela Taborda, e da Embaixada de Portugal no Canadá, o bairro português alberga desde o início de outubro, um galo de Barcelos gigante, um dos mais conhecidos símbolos da cultura popular lusa. Com quase três metros, e inserido no ano da arte pública promovido pela autarquia de Toronto, o mais icónico símbolo de Portugal é simultaneamente uma homenagem à comunidade luso-canadiana, e uma forma de revitalizar a Business Improvement Area (BIA), procurando assim atrair os consumidores ao pequeno comércio.

A zona entre as ruas Bathurst e Dufferin, conhecida desde os anos 70 como “Little Portugal”, tem sido pela sua ligação umbilical à comunidade luso-canadiana, alvo de várias manifestações culturais no campo de ação da arte urbana. Há sensivelmente um ano, o coração urbano da comunidade portuguesa em Toronto, foi palco da inauguração de um mural com mais de seis metros de altura, dedicado à fadista Amália Rodrigues, figura maior da cultura portuguesa do século XX, e referência e símbolo da portugalidade.

Criado no âmbito do projeto do empresário de Montreal, Herman Alves, que tem como objetivo criar uma aldeia global virtual colocando 25 murais em pontos centrais da diáspora portuguesa no mundo, este imponente mural junta-se a um outro instalado em Mississauga. Na mesma esteira, a Camões Square em Toronto, que tem desempenhado nas últimas décadas um papel notável na exaltação da portugalidade no centro da cidade, acolhe um enorme mural que retrata o ensino da língua portuguesa e o primeiro barco que levou emigrantes portugueses para o Canadá, o Saturnia.

É neste espaço simbólico, que se encontra o Portuguese Canadian Walk of Fame, que anualmente, por ação do empresário e filantropo Manuel DaCosta, laureia portugueses que se têm destacado no território canadiano, assim como, a fonte dos pioneiros portugueses, um mural de azulejos e um pequeno jardim. Ainda neste entrecho, refira-se que desde 2003, foi instalado na estação de metro Queen’s Park em Toronto, um painel de azulejos, fabricado em Lisboa, da autoria de Ana Vilela, que aborda a exploração portuguesa no Novo Mundo.

Estes exemplos de intervenções artísticas no espaço urbano de Toronto, e outros que se encontram ou possam vir a ser projetados, assumem-se claramente como uma importante mais-valia cultural e identitária da comunidade luso-canadiana, uma das mais dinâmicas comunidades portuguesas na América do Norte.

O TRAJE DE NOIVA DE VIANA DO CASTELO

  • Crónica de Abel Cunha

Não pretendendo assumir o papel de educador do povo, o facto é que o óbvio, raramente o é. vem isto a propósito de um post sobre o vestido de noiva de Viana criado por Fernando Lima em 2015 que foi objecto de inspiração para a poetisa Maria Isilda Monteiro, publicado na revista literária espanhola Oceanum e posteriormente partilhado num grupo do facebook.

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Neste questiona-se o facto de ser de cor preta e, ainda que não morra ninguém, aparentemente também ninguém se questionou por que carga de água são nos tempos actuais usualmente brancos. pode morrer-se ignorante mas, não se morre da mesma.

Será uma total perda de tempo explicar que o traje de cerimónia sempre foi preto pelo que sendo o casamento uma cerimónia, os nubentes vestiam de preto. a cor branca começou a ser usada a partir de 1840 aquando do casamento da rainha Victória de Inglaterra que decidiu casar de forma diferente e com isso criou uma moda que perdura até à actualidade. associa-se o branco à pureza da mulher e com isso o enraizamento no vestir de branco em dia de casório. felizmente que não é exigido comprovativo daquela.

No caso das mulheres minhotas, a tradição do vestido preto tem raizes demasiado profundas para comentários idiotas e atrevidos. o vestido preto das minhotas é o vestido de toda a sua vida, ajustado à volumetria que os anos vão determinando. origina-se no fato de morgada, pessoa com posses acima da média e que a acompanhará em todo e qualquer acto social pelos anos que viva.

É vestido pela primeira vez aquando da sua primeira mordomia (normalmente aos 18 anos quando colabora pela primeira vez na organização da festa ao santo do seu lugar ou da sua fé). será pouco mais tarde o seu vestido de noiva apenas trocando o habitual lenço de cabeça por um véu. será ao longo da vida o seu traje de cerimónia que usará em todos os actos civis e religiosos a que compareça. será por fim a sua mortalha ainda que pela sua riqueza e valor, muitas vezes tenha sido deixado testamentalmente a outrem.

Não deveria ser necessário este arrazoado sobre um assunto que parecendo óbvio, pelos vistos, não o é. e como a ignorância atrevida me causa calafrios.., fica o arrazoado…

FUNDAÇÃO "NOVA ERA JEAN PINA" ASSINA PROTOCOLO PARA DISTRIBUIÇÃO DE CABAZES DE NATAL À COMUNIDADE PORTUGUESA NA VENEZUELA

  • Crónica de Daniel Bastos

A Fundação “Nova Era Jean Pina”, representada pelo presidente da instituição, o empresário luso em França, João Pina, o Governo português, através da Secretária de Estado das Comunidades Portuguesas, Berta Nunes, e do presidente da Federação Iberoamericana de Luso Descendentes, Jany Ferreira, assinaram no passado dia 10 de novembro, em Lisboa, um protocolo que vai resultar na distribuição de 200 cabazes de Natal a famílias portuguesas e lusodescendentes residentes na Venezuela.

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Cerimónia de assinatura do protocolo, em Lisboa, com a presença da Secretária de Estado das Comunidades Portuguesas e do presidente da Fundação Nova Era Jean Pina

Este apoio, concretizado através da oferta de 200 cabazes de Natal por parte da Fundação Nova Era Jean Pina, uma instituição que assume como principal missão a promoção de uma cultura e rede de solidariedade na Diáspora, será entregue e operacionalizado pela Federação Iberoamericana de Luso Descendentes, em articulação com a rede diplomática e consular de Portugal na Venezuela, tem como objetivo melhorar o Natal de famílias portuguesas que vivem com graves dificuldades na Venezuela.

Refira-se que a cerimónia de assinatura do protocolo realizou-se em paralelo em Lisboa e em Caracas, e que a Fundação Nova Era Jean Pina ao longo dos últimos anos tem apoiado quer na Diáspora, como em Portugal, o desenvolvimento de projetos de solidariedade em prol das pessoas mais vulneráveis, como idosos, crianças institucionalizadas e desempregados.

EROSÃO: HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DA EMIGRAÇÃO

  • Crónica de Daniel Bastos

A freguesia de Cepães, uma povoação do concelho de Fafe, distrito de Braga, com intensa atividade industrial e aptidão agrícola, ao longo dos últimos quatro anos foi palco de um original projeto comunitário em rede que envolveu toda a comunidade local em torno de histórias e memórias da emigração.

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Partindo dos percursos migratórios do final do século XIX e do século XX para o Brasil e França, assim como das expressões materiais e simbólicas do ciclo de retorno dos emigrantes que marcam indelevelmente a região do Vale do Ave. E em particular o concelho de Fafe, contexto que impeliu a edilidade minhota a instituir no clarear do séc. XXI o Museu das Migrações e Comunidades, o grupo local EnfimTeatro, núcleo dramático da Sociedade de Recreio Cepanense, desenvolveu desde o primeiro trimestre de 2017 o projeto comunitário Erosão, tendo em vista a dinamização de atividades culturais.

Entre as várias atividades impulsionadas destacou-se a realização do filme Erosão. Uma pelicula inspirada no texto dramático “Terra Firme”, de Miguel Torga, um dos mais influentes escritores portugueses do século XX, ele próprio emigrante no Brasil nos anos 20, que retrata a longa e penosa espera de um filho há vinte anos ausente.

Os pilares fundamentais do filme Erosão, cuja antestreia ocorreu no decurso deste mês no Teatro Cinema de Fafe, assentam num profundo compromisso com as metamorfoses, linguagens, hábitos e tradições da comunidade local, assim como nos termos viagem, emigração, esperança, utopia, paisagem, património material e imaterial.

Como defendem os responsáveis da pelicula cinematográfica, estamos perante um trabalho planeado, suportado e executado, todo ele, por não-atores e elementos que pela primeira vez experimentaram determinados meios técnicos e materiais, pessoas que nunca haviam conhecido o caminho de aproximação, senão em sonho, à ideia de um filme.

Mais que uma abordagem original ao fenómeno migratório, o filme Erosão, que se encontra disponível para ser visualizado no território nacional e nas comunidades lusas espalhadas pelos quatro cantos do mundo, é um reflexo coletivo da valorização da emigração portuguesa, parte integrante da nossa história e da nossa identidade.

IN MEMORIAM MIGUEL MONTEIRO

  • Crónica de Daniel Bastos

No passado dia 3 de novembro, assinalaram-se doze anos do falecimento do saudoso historiador e professor, Miguel Monteiro (1955-2009), um dos mais reputados investigadores no campo do estudo dos “brasileiros de torna-viagem” na região noroeste do continente português, e em particular, no concelho de Fafe, uma cidade situada no distrito de Braga, cuja história e identidade está intrinsecamente ligada ao fluxo migratório para o Brasil no alvorecer do séc. XX.

Natural da freguesia do Rego, município de Celorico de Basto, onde concluiu a instrução primária, Miguel Monteiro, finalizou os estudos liceais na capital do Minho, tendo, no início dos anos 80, obtido a Licenciatura em História na Faculdade de Letras do Porto. Com uma profícua carreira no campo do ensino básico, secundário e superior, foi no entanto, no campo da investigação histórica, que o Mestre em História das Populações pela Universidade do Minho (1996), instituição onde foi doutorando em Sociologia e investigador do Núcleo de Estudos da População e Sociedade, deixou a suas principais marcas.

Mormente, ao nível da contribuição dos “brasileiros” de torna-viagem no noroeste de Portugal, e em particular, as suas marcas na Sala de Visitas do Minho. Como asseverou apaixonadamente, recuando localmente à segunda metade do séc. XIX, encontramos nos “brasileiros” de Fafe aqueles que alcançando fortuna no Brasil, “construíram residências, compraram quintas, criaram as primeiras indústrias, contribuíram para a construção de obras filantrópicas e participaram na vida pública e municipal, dinamizando a vida económica, social e cultural”.

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Mestre Miguel Monteiro (1955-2009)

Especialista na área da emigração portuguesa para o Brasil no decurso do séc. XIX para o séc. XX, contexto que levou a que em meados de 2000 tenha integrado o Comissariado Científico da exposição “Os Brasileiros de Torna-Viagem no Noroeste de Portugal”, da iniciativa da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, o investigador é autor, entre outras, das obras Fafe dos Brasileiros (1860-1930) – Perspectiva histórica e patrimonial, e Migrantes, Emigrantes e Brasileiros (1834-1926) – Territórios, itinerários e trajectórias.

O seu trabalho original em torno da figura do “brasileiro de torna-viagem”, e em particular, o contributo relevante que infundiu para a preservação e conhecimento do património que os “brasileiros” de Fafe deixaram no concelho, contribuiu decisivamente para que, em 12 de julho de 2001, por deliberação da Câmara Municipal de Fafe, fosse criado o Museu das Migrações e das Comunidades.

Percursor no seu género em Portugal, o espaço museológico assenta a sua missão no estudo, preservação e comunicação das expressões materiais e simbólicas da emigração portuguesa, detendo-se particularmente na emigração para o Brasil do século XIX e primeiras décadas do XX, e na emigração para os países europeus da segunda metade do século XX.

Agraciado pela edilidade fafense com a Medalha de Prata de Mérito Concelhio, no âmbito da sessão solene comemorativa do 5 de outubro de 2008, o trabalho e percurso de vida de Miguel Monteiro, alma mater do Museu das Migrações e das Comunidades, inspira-nos a máxima do jornalista e escritor britânico Graham Greene: “Os historiadores são pessoas que se interessam pelo futuro quando este já é passado”.

MANUEL CARVALHO: UM OLHAR ATENTO SOBRE A COMUNIDADE PORTUGUESA DE MONTREAL

  • Crónica de Daniel Bastos

O Canadá, uma nação que abrange grande parte da América do Norte e se estende desde o oceano Atlântico, a leste, até o oceano Pacífico, a oeste, alberga uma das mais dinâmicas comunidades portuguesas, que se destaca hodiernamente pela sua diversa atividade associativa, económica e sociopolítica.

Estima-se que atualmente vivam no Canadá mais de meio milhão de luso-canadianos, sobretudo concentrados em Ontário, Quebeque e Colúmbia Britânica, representando cerca de 2% do total da população canadiana que constitui um hino ao multiculturalismo. 

Em Montreal, a segunda maior cidade do Canadá e a primeira da região de Quebeque, onde o número total de portugueses e lusodescendentes deverá ser superior a 60.000 pessoas, ao longo das últimas décadas, o escritor Manuel Carvalho tem mantido um olhar atento sobre a realidade da comunidade luso-canadiana nesta região marcada historicamente pela tradição e cultura francesa.

Manuel Carvalho nasceu em 1946, em Cicouro, um povoado situado no extremo norte do concelho de Miranda do Douro, confinante com território espanhol. Depois de viver grande parte da juventude nos Outeiros da Gândara dos Olivais, nos arredores de Leiria, período em que se iniciou nas letras através da imprensa local, participou na Guerra do Ultramar em Angola, tendo emigrado para Montreal no alvorecer dos anos 80, onde exerceu a função de designer industrial.

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Manuel Carvalho, profícuo escritor luso-canadiano

Desde então, promoveu entre 1983 e 1985, os Jogos Florais Luso-Canadianos, e foi responsável em Montreal pela organização de bibliotecas, concursos, coletâneas literárias e festas culturais direcionadas para a comunidade portuguesa. Com uma vasta colaboração literária espalhada por diversos jornais e revistas no seio das comunidades portuguesas este genuíno cultor das artes e letras é coordenador da revista online “Satúrnia – Letras e Estudos Luso-Canadianos” onde tem divulgado dezenas de autores.

No decurso deste ano, Manuel Carvalho lançou o seu mais recente trabalho, o livro Horizontes, com chancela da Escritório Editora e capa da pintora Maria João Sousa (Majão), também ela emigrante no Canadá. O livro, que é dedicado aos portugueses de Montreal, reúne várias crónicas que o escritor mirandês tem ao longo dos últimos anos escrito nas páginas da imprensa luso-canadiana, e que espelham singularmente a mundividência da comunidade lusa em Montreal.

Na esteira de Onésimo Teotónio Almeida, professor catedrático no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros da Brown University, nos Estados Unidos, que assina o prefácio da obra: “Há décadas que venho lendo com prazer a escrita de Manuel Carvalho. Narrativas curtas, incisivas, feita de traços fortes e certeiros que, numa penada, economicamente desenham personagens e situações, esboçam cenas vivas, prenhes de humanidade, colocando o leitor por dentro de momentos fortes da experiência emigrante portuguesa no Canadá francês – mais precisamente Montreal - mas que poderiam se de qualquer canto da diáspora portuguesa – Newark, Paris, Dusseldorf, Londres, Johannesburg ou Sydney. Tudo narrado num português tão puro como o melhor tinto do Douro”.

GALA DA CAP MAGELLAN: O ENCONTRO DA COMUNIDADE PORTUGUESA EM FRANÇA

  • Crónica de Daniel Bastos

Uma das mais antigas e numerosas comunidades lusas no estrangeiro, a comunidade portuguesa em França, que ronda um milhão de pessoas, tem-se destacado ao longo dos anos pela sua notável dinâmica associativa, económica e sociopolítica, que muito tem contribuído para o desenvolvimento das pátrias de Victor Hugo e de Camões.

Essa intensa atividade tem impelido, desde 2010, ano em que a propósito do centenário da proclamação da Primeira República Portuguesa, os então presidentes da Câmara de Paris e Lisboa, Bertrand Delanoë e António Costa, acordaram receber a comunidade franco-portuguesa numa noite especial no Hôtel de Ville de Paris, a realização anual de uma Gala oferecida pela Câmara de Paris à comunidade luso-francesa.

Gala Cap Magellan 2021 – Entrega do Prémio Jean

Gala Cap Magellan 2021 – Entrega do Prémio Jean Pina Entreprise

 

Organizada pela Cap Magellan, uma associação de jovens luso-descendentes, fundada no princípio dos anos 90 em Paris, e que ao longo das últimas décadas tem assumido um papel ativo no desenvolvimento das relações entre a França e Portugal, a iniciativa tem como principal propósito homenagear as pessoas ou instituições que se têm distinguido no seio da comunidade luso-francesa.

No início deste mês, após as restrições impostas pela pandemia, realizou-se a 11.ª celebração desta Gala no Salão de Honra da Câmara de Paris, que uma vez mais computou a presença das forças vivas da comunidade portuguesa em França. Mais de 650 pessoas, entre elas, vários artistas, empresários, dirigentes associativos, políticos e estudantes, aplaudiram numa constante atmosfera de exaltação da cultura pátria, os diferentes premiados.

Foi o caso do jovem Hugo Augusto, distinguido como melhor aluno de liceu, Adeline Afonso, reconhecida como melhor estudante universitária, a associação “Dona Beatriz”, considerada a melhor associação, a coletividade “Des ailes pour le Portugal”, enaltecida como melhor projeto associativo, Christophe Paredes, realçado como melhor jovem empresário, ou Carlos Lopes, nomeado o artista revelação.

Uma das particularidades dos prémios da Cap Magellan, é que estes são apoiados por empresas lusas em França, como as seguradoras Império e Fidelidade, e por empresários lusodescendentes, como é o caso de Jean Pina, que robustecem assim o associativismo, a participação e o espirito comunitário dos portugueses no território no território gaulês.

GABRIEL MARTINEZ: O FOTÓGRAFO DOS EMIGRANTES PORTUGUESES EM HENDAIA NOS ANOS 60

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  • Crónica de Daniel Bastos

Na história da emigração lusa para França nos anos 60, época em que a miséria rural e a ausência de liberdade, num país amordaçado pela ditadura, impeliram a saída legal ou clandestina de mais de um milhão de portugueses, a cidade de Hendaia, na fronteira franco-espanhola, ocupa um dos capítulos mais simbólicos dessa gesta.

Estima-se que cerca de um em cada dois emigrantes cruzou nesse período a fronteira a “salto”, ou como se dizia então com “passaporte de coelho”, isto é, sem passaporte, através de uma viagem clandestina, na maioria da vezes feita ao cair da noite. A arriscada jornada por montanhas, rios e veredas, feita com o apoio dos chamados “passadores”, não raras vezes marcada por episódios trágicos, foi feita por centenas de milhares de portugueses, que após atravessarem os Pirenéus alcançavam a cidade fronteiriça francesa de Hendaia, onde compravam o almejado bilhete de comboio para a Gare de Austerlitz, cais de desembarque da emigração portuguesa em Paris.

Este momento simbólico de espera no cais da estação de Hendaia, onde milhares de emigrantes portugueses extenuados aguardaram ansiosamente o embarque para a viagem que os levou rumo a uma vida melhor, foi profusamente captado no final da década de 1960 pelo fotógrafo francês Gabriel Martinez.

Apaixonado por pintura e desenho, Gabriel Martinez, que tinha assumido a loja de fotografia do pai em Saint-Jean-de-Luz, comuna francesa na região administrativa da Nova Aquitânia, no departamento dos Pirenéus Atlânticos, retratou singularmente, nas palavras do mesmo, “um drama humano, um grande drama humano, famílias inteiras com a casa às costas”.

Nas fotografias a preto e branco, captadas há mais de meio século, o artista oriundo da costa basca, captou numa sala de espera e no cais da estação de Hendaia, homens, mulheres e crianças a dormirem em bancos, braços cruzados em cima de sacos, e muitas malas espalhadas pelo chão ou em cima de mesas, carregadas de sonhos e esperança.

Em 2008, com o apoio de Manuel Dias Vaz, presidente da Rede da Aquitânia para a História e Memória da Imigração, Gabriel Martinez publicou este valioso repositório ilustrado dos emigrantes portugueses em trânsito para Paris no livro “Sala de Espera”, da editora francesa Atlantica, ano em que as imagens foram também adquiridas pelo Museu da Aquitânia, que tem promovido ao longo dos últimos anos várias exposições itinerantes sobre esta etapa marcante da emigração portuguesa para França.

EMIGRATECA PORTUGUESA

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  • Crónica de Daniel Bastos

A emigração lusa, ao longo das últimas décadas, tem recebido uma crescente atenção por parte dos investigadores, que nas suas múltiplas formações e ângulos de análise têm dado um importante contributo para a compreensão deste fenómeno constante na sociedade portuguesa.

Um desses investigadores, que mais tem contribuído para o estudo e conhecimento da emigração portuguesa é seguramente o Professor Catedrático na Universidade de Aveiro, atualmente aposentado, Jorge Arroteia. Com uma formação de base em Geografia, e doutoramento em Ciências Sociais, Jorge Arroteia, que integrou órgãos científicos de vários estabelecimentos de ensino superior, é autor de diversos estudos e projetos de referência no campo da emigração portuguesa.

Natural da freguesia de Monte Redondo, no concelho de Leiria, um território fortemente marcado pelo fenómeno emigratório para o Brasil no início do séc. XX, e nos anos 60 para França, o investigador leiriense fundou em 2009 a “Emigrateca Portuguesa”, uma biblioteca digital especializada em assuntos da emigração lusa.

Constituída por amostras de trabalhos académicos sobre a emigração de nacionais, isoladamente e no seu contexto internacional, assim como por estudos sobre a população e a sociedade portuguesa, as comunidades luso-descendentes residentes no estrangeiro e a imigração em território nacional, este fundo bibliográfico especializado sobre o fenómeno migratório luso tem sido promovido pelo Museu do Casal de Monte Redondo. Um espaço museológico, administrado pela Associação de Defesa do Património Cultural de Monte Redondo, que se encontra instalado na terra natal do investigador leiriense, em edifício próprio, com espaço expositivo, biblioteca e reserva técnica.

A diversidade de trabalhos disponíveis e o interesse em facultar a sua consulta a um público mais vasto justificou, entretanto, a oferta de parte da documentação recolhida à Biblioteca José Saramago - Instituto Politécnico de Leiria, uma instituição de ensino superior, mantendo-se no entanto a divulgação on-line de um conciso acervo digital.

Enriquecida com um repositório de textos agrupados em tornos dos eixos temáticos - Memorial da Emigração Portuguesa / Lusitanis in Diáspora / Migrações e Desenvolvimento -, e uma listagem de sites de instituições nacionais e internacionais relacionadas com o estudo das migrações, a plataforma digital “Emigrateca Portuguesa” constitui uma ferramenta de trabalho útil e prática para o aprofundamento do conhecimento e estudo da emigração portuguesa.

VILA NOVA DE CERVEIRA: BENEMÉRITOS DA INSTRUÇÃO NA FREGUESIA DE COVAS

  • Crónica de João Manuel A. Domingues Caldas

É sempre bom recordar - mais não seja do que para demonstrar a nossa gratidão - aquelas pessoas que de forma desinteressada, apenas movidas pelo amor ao próximo, a uma causa ou à sua terra natal, disponibilizaram grande parte dos seus bens, das suas fortunas e do seu tempo, em prol do bem-estar de alguém ou de uma comunidade, como disso é exemplo aquilo que o antigo Jornal “Correio de Cerveira”, na sua edição de 28 de Fevereiro de 1928, publicou com o título “Beneméritos da Instrução”. Vejamos, na íntegra, esse artigo da autoria do Professor Romeu Pimenta, director e editor do referido semanário e que havia sido professor em Covas.

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Na foto, à esquerda e de pé, Luís Francisco Alves da Silva. No centro, de chapéu e de óculos, o então pároco de Covas, João Tavares. À direita, com uma criança ao colo, o professor Romeu Pimenta. Do mesmo lado e de pé, João Alves Silva.

 

«Vai para quinze anos que faleceu em Lisboa o abastado capitalista e proprietário naquela cidade, sr. José Lourenço Martins, natural da freguesia de Covas, deste concelho.

Foi para ali, segundo nos informaram, criança ainda, exercer o mister de moço de carvoaria e nem outra carreira poderia procurar, por não ter sentido em sua alma, de seu natural bem formada, os efeitos benéficos da Escola.

Dentro em pouco, porém, o desejo ardente que sentia de travar conhecimento com os livros amigos que das montras dos estabelecimentos o fascinavam, leva-o a procurar escolas nocturnas onde aprendeu a falar, a ler e a escrever correctamente, não só o português, como diversas línguas estrangeiras.

Com estes conhecimentos, e com um amor ingente pelo trabalho, ele devia, necessariamente, ser protegido pela Fortuna. E foi-o. Conseguiu angariar, honradamente, importantes cabedais. Envelheceu. Não tinha herdeiros forçosos, e por isso em testamento dispôs que todos os seus haveres fossem distribuídos em quinhões de onze contos, com que foram contemplados diversas pessoas, parentes, e casas de caridade. E como, por experiência, ele sabia que a primeira necessidade dos povos é a instrução, e esta só se pode ministrar proficuamente em edifícios próprios, destinou à construção de duas casas de escola, na sua freguesia, dois dos quinhões! Vinte e dois contos, no tempo em que se comprava uma casa boa para habitar, por 500$00!

Que lindas casas se não poderiam ter feito, de que esplêndido mobiliário e material didáctico, elas não poderiam ser dotadas, se essa importância houvesse caído em mãos dignas de realizarem o sonho do honrado benemérito, que ao fechar os olhos em terras distantes estava convencido de que dentro em pouco os seus conterrâneos teriam onde educar e instruir convenientemente os seus filhinhos!

Mas assim não sucedeu!

Encarregada de mandar fazer essa construção a Junta de Freguesia daqueles tempos, não tardaram em aparecer os primeiros empecilhos, motivados por caprichos que em pouco se transformavam em ódios profundos, chegando a dividir-se a freguesia em dois partidos, desejosos, cada um, de impor a sua vontade.

E o resultado desses caprichos e desses ódios foi passar o tempo, o que custava dez passou a custar mil e os vinte e dois contos que davam para construir um palácio, naquele tempo, passaram a não dar para levantar as paredes de uma casa decente. E as crianças de Covas, continuavam a frequentar uns casebres em completo estado de ruína e de abandono, e os professores a viverem em nuns pardieiros onde o vento e a chuva tinham entrada franca. E assim continuariam para todo o sempre, se não fora a simpática iniciativa de Francisco Torres, Carvalhinhos, Gandrachão, Gonçalves de Sousa, Alves da Silva e Francisco Silva, procurando adquirir por cedência do Estado, a antiga residência paroquial e terrenos adjacentes, para, nesse local, e aproveitando todos os materiais do velho casarão, darem começo à construção de edifícios escolares dignos desse nome.

Bem sabiam eles que o dinheiro do saudoso José L. Martins para pouco mais daria do que para as paredes, mas … estava ali Francisco Torres a animá-los com o seu trabalho constante e a garantir-lhes a realização do sonho dourado de toda a gente de Covas, com a sua bolsa bem recheada por virtude de muitos anos de trabalho honrado e persistente.

Iniciaram-se as obras …

Quem estas linhas escreve, teve ocasião de verificar com os seus próprios olhos, a dedicação e o carinho essa meia dúzia de amigos da Escola trabalhavam, sobretudo, principalmente, Francisco Torres!

Assombrava e comovia a dedicação daquele homem! Abandonava tudo, a sua casa, onde trabalhavam diariamente dezenas de operários e jornaleiros, as suas numerosas propriedades, parte das quais deixava ao abandono, para estar ali na “Casa da Escola”, como ele lhe chamava, a dirigir e a trabalhar, a fazer carretos com o seu gado e a puxar às pedras e às traves como qualquer operário, ele que possui bens de fortuna bastantes para viver em qualquer cidade, com todas as comodidades que só os ricos podem ter!

Quão digno de respeito e de admiração é este homem, que desprezou todas as comodidades e veio para a sua terra natal, que tem enchido de benefícios, e que muito dele ainda tem de esperar! …

Mas quem hoje der um passeio pela estrada de Covas, pode contemplar, ao chegar à Igreja daquela freguesia, um belo edifício, ao qual dá acesso uma ampla avenida ligada à estrada, com belos salões de aulas, boas casas de habitação, alpendres, grandes quintais, etc., etc.

O sonho lindo daqueles dedicados amigos da instrução tornou-se realidade.

Que os seus conterrâneos saibam reconhecer quando lhes devem, respeitando a memória querida de José Lourenço Martins, e adorando aqueles que, através de todas as dificuldades, conseguiram satisfazer o seu desejo de moribundo, tendo entre eles o primeiro lugar, quer pelo seu trabalho, quer pela grande soma que despendeu o sr. Francisco Fernandes Torres, a quem vão também, como a todos, mas a este principalmente, os protestos do nosso respeito e da nossa admiração.»

Depois de ter consultado os arquivos da Junta de Freguesia de Covas, nomeadamente os seus livros de actas, constatei que a polémica que se viveu nessa data relativamente à construção da escola, se deveu à escolha do local para a sua implantação. Um grupo de covenses queria que fosse construída sensivelmente onde hoje se encontra. O outro grupo queria que ela fosse construída um pouco mais abaixo, perto do cemitério.

A (IN)VISIBILIDADE DOS EMIGRANTES TRANSMONTANOS NAS FOTOGRAFIAS DE EDUARDO PEREZ SANCHEZ

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  • Crónida de Daniel Bastos

No decurso do mês de setembro, o fotógrafo autodidata Eduardo Perez Sanchez, nascido em Barcelona, mas há mais de meio século a viver na cidade invicta, apresentou na Cooperativa Árvore, no Porto, o seu primeiro livro, intitulado Trás-os-Montes, Uma Visão a Preto e Branco sobre as Gentes e o seu Viver na Década de 1980.

A obra, resultado de incursões fotográficas que Eduardo Perez Sanchez realizou na década de 1980 em aldeias de Trás-os-Montes, no Nordeste de Portugal continental, como Agordela, Calvo, Sá, Santa Valha e Vilarandelo, destaca-se não só pelo sentido estético, mas também, pelos detalhes descritivos que traduzem a realidade socio-histórica de uma das regiões mais periféricas e deprimidas do país.

Uma realidade de profundo ambiente rural, ainda muito marcante no limiar dos anos 80, um período de consolidação da democracia portuguesa, onde se praticava ainda uma agricultura de subsistência e as estruturas de habitação rural em pedra possuíam diminutas condições de habitabilidade e de conforto, designadamente falta de luz elétrica, água canalizada e saneamento básico.

Nesses “lugares de memória” transmontanos, captados há cerca de 40 anos pelo fotógrafo luso-catalão, que veem agora a luz dia, abundam essencialmente rostos, expressões, sentimentos e experiências da vida quotidiana de carências e dureza, por que passaram as povoações rurais do interior do país.

A presença constante de mulheres, crianças e idosos nas fotografias realizadas pelo fotógrafo septuagenário autodidata,  na região transmontana na década de 1980, recorda o fenómeno maciço da emigração portuguesa da segunda metade do séc. XX para os países industrializados da Europa Ocidental, especialmente para França, que esvaziou as aldeias do interior nortenho de homens na força na idade.

Um fenómeno marcante na sociedade portuguesa, sobretudo nos anos 60 e 70 durante a ditadura salazarista, quando mais de um milhão de portugueses partiram a “salto” motivados pela procura de melhores condições de vida ou em fuga à Guerra Colonial, e que foi particularmente incisivo em Trás-os-Montes, uma região fronteiriça onde o fardo da ruralidade e a estreiteza de horizontes impeliu uma forte vaga migratória.

A (in)visibilidade dos emigrantes trasmontanos nas fotografias de Eduardo Perez Sanchez, acentua a importância destes na história e identidade da região. A comparação do tempo transcorrido nas imagens a preto e branco do fotógrafo luso-catalão, com a realidade do presente, permite, quarenta anos depois apreender que o fenómeno migratório, malgrado a ligação ao processo de desertificação do interior, possibilitou a canalização de remessas para o sustento das famílias dos emigrantes que permaneceram nas terras de origem, e incrementou o desenvolvimento destes lugares desfavorecidos, ao nível da construção de casas, da aquisição de propriedades ou de estabelecimentos comerciais.