Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

O MUNDO DAS VACINAS É MAIS SEGURO

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Presentemente, mesmo os não católicos rezarão para que se descubra a vacina que ponha fim a este drama criado pelo vírus que por aí anda. Poucos serão os que não torcem pela eficiência da ciência e desesperam pela incerteza da solução milagrosa que nos restitua a normalidade e alegria de viver. O ditado é velho, “só invocamos Santa Bárbara quando há trovoada”, mas tem que ser ruidosa e assustadora, caso contrário consideramo-la própria da época.

Vacinas.jpg

Há cem anos a pobreza fazia parte do quotidiano da população portuguesa. Contudo, as vacinas, com os seus adversários assumidos, faziam o seu caminho como solução para eliminar mortes. (Foto: Manuel Filgueira)

 

As vacinas nunca foram uma questão pacífica para alguns; isto porque muito boa gente, por vezes, teima em “levar a ciência ao pelourinho”, acusando a terapêutica oficial de não passar de um comércio com o qual muitos enriquecem; defendendo, a partir daí, práticas medicinais escoradas no nada. Contraditoriamente, em situações desesperadas, poucos são os que não procuram a cura no sistema de saúde pública, comportamento que não é de hoje.

No semanário “Expresso” de 23/05/2020, Francisco Louçã escreveu um artigo com o título “Há cem anos a recusar vacinas”, onde cita algumas das muitas guerras que se geraram na contestação à vacinação, especialmente no que toca a crianças, particularmente nas zonas rurais. Recorde-se que a criação do primeiro plano de vacinas data de 1899, tendo sido regulamentado pela jovem República em 1911.

Sabemos como o boato alarve se propaga à velocidade de vento invernoso, especialmente onde a incultura se faz sentir. Daí que não seja de admirar que, na base de relatos históricos,  Francisco Louçã nos diga, por exemplo, que “em 1911, por todo o concelho de Gouveia, distrito da Guarda,  se espalharam boatos de que, a expensas da Maçonaria, as crianças das escolas iam ser vacinadas para, por este meio, se lhes tirar a crença religiosa”. Mas há outros casos citados a provar que a proteção da saúde das populações por este meio não foi um problema pacífico e que tumultos, por vezes sangrentos, se foram gerando um pouco por toda a parte.

Contudo, vivemos no tempo em que a ciência tem méritos reconhecidos, já que o que foi criado em matéria de vacinas salvou milhões de pessoas da morte no mundo inteiro. Lembremos só as mais públicas: Varíola (1796), Raiva (1885), Tétanos (1890), Tuberculose (1921), Difteria (1923), Febre Amarela (1937), Poliomielite (1952), Sarampo (1971) e hepatite B (1971).  Ainda temos um longo caminho a percorrer para vacinar toda a população mundial e imunizá-la contra todo o tipo de vírus, os existentes e os que vão surgindo, como é o caso do que nos ameaça no momento. Porém, não lembra ao Diabo pôr em causa a vacinação, especialmente das crianças, como alguns vão advogando e praticando, com todo o tipo de perigos que isso comporta para a população em geral.

MANUEL DA COSTA – EMPRESÁRIO E FILANTROPO DA COMUNIDADE PORTUGUESA EM TORONTO

  • Crónica de Daniel Bastos

Uma das marcas mais características das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é a sua dimensão empreendedora, como corroboram as trajetórias de diversos compatriotas que criam empresas de sucesso e desempenham funções de relevo a nível cultural, social, económico e político.

Manuel DaCosta e Daniel Bastos.jpg

Destacado empresário da diáspora, o comendador Manuel da Costa (dir), é também proprietário da Peach Gallery, uma galeria de arte em Toronto que tem divulgado obras de artistas lusófonos, como em 2018, aquando da exposição “Con-Textos de Criatividade” do mestre-pintor português Orlando Pompeu, cuja curadoria esteve a cargo do historiador Daniel Bastos (esq.)

 

Nos vários exemplos de empresários portugueses da diáspora, cada vez mais reconhecidos como uma mais-valia estratégica na promoção internacional do país, destaca-se o percurso inspirador e de sucesso do comendador Manuel DaCosta, um dos mais ativos e beneméritos empresários portugueses em Toronto.

Natural de Castelo do Neiva, concelho de Viana do Castelo, Manuel DaCosta emigrou para o Canadá em 1970, com 14 anos de idade, na companhia da mãe e dos irmãos, ao encontro da figura paterna que emigrara três anos antes em demanda de melhores condições de vida para uma família humilde e numerosa de pescadores-lavradores, marcada pelo espectro de grandes carências, na esteira da larga maioria da população que durante a ditadura portuguesa vivia na pobreza, quando não na miséria.

A chegada a Toronto, a maior cidade do Canadá, numa fase de crescimento da emigração lusa para o território da América do Norte, marca o início de um percurso de vida de um verdadeiro “self-made man”. O trabalho, o esforço e a resiliência, valores coligidos no exemplo diário da mãe, transformaram o jovem castelense, que começou a trabalhar na colheita do tomate em Wallaceburg e anos mais tarde frequentou a Ryerson Polytechnical Institute, universidade onde se formou em arquitetura e aprendeu muitos dos alicerces que lhe permitiram progredir profissionalmente, num dos mais proeminentes empresários portugueses na área da engenharia de construção na província do Ontário.

Empresário multifacetado, com uma trajetória marcada pelo mérito e pela inovação, premissas que estão na base das insígnias do grau de comendador que lhe foram atribuídas pelas autoridades portuguesas, Manuel DaCosta dirige presentemente uma das mais importantes empresas de comunicação social luso-canadianas. Designadamente, a MDC Media Group, que incorpora órgãos de informação como a Camões Radio & TV, o jornal Milénio Stadium, as revistas Amar e Luso Life, e que desde a sua génese se tem posicionado como uma plataforma de inovação e informação ao serviço da comunidade lusófona no Canadá.

O sucesso que alcançou ao longo das últimas décadas no mundo dos negócios, tem sido constantemente acompanhado de um generoso apoio a projetos emblemáticos da comunidade portuguesa em Toronto, a quem devota uma forte preocupação com o conhecimento do seu passado, os desafios do seu presente e a sua futura matriz cultural e identitária.

Nunca abdicando da coragem, frontalidade e audácia de pensar, dizer e fazer, o comendador Manuel DaCosta, é entre outras iniciativas, fautor do Portuguese Canadian Walk of Fame, que anualmente laureia portugueses que se têm destacado no território canadiano. Assim como, dGaleria dos Pioneiros Portugueses, um espaço museológico singular em Toronto que se dedica à perpetuação da memória e das histórias dos pioneiros da emigração portuguesa para o Canadá.

Dinamizador e patrocinador de várias atividades, e projetos de cariz sociocultural e solidário, como o que promete vir a ser um dos mais relevantes da comunidade luso-canadiana, mormente a Magellen Community Charities, uma organização sem fins lucrativos que pretende inaugurar daqui a dois anos um centro para 320 idosos em Toronto, o empresário e filantropo não esquece também as suas raízes.

Ainda no ano transato, no âmbito das comemorações do 171.º aniversário de elevação de Viana do Castelo a cidade, o município alto-minhoto distinguiu Manuel DaCosta com o título de “Cidadão de Honra de Viana do Castelo” pelos notáveis serviços de cidadania e relevantes serviços na diáspora enquanto empresário e promotor da cultura portuguesa. Na base desta distinção esteve, igualmente, a sua estreita ligação ao torrão natal, Castelo do Neiva, que se mantém até aos dias de hoje através da presidência da Associação dos Amigos de Castelo do Neiva em Toronto, uma coletividade que contribuiu decisivamente para a construção da praça Gentes do Mar e da casa mortuária.

Uma das figuras mais conhecidas da comunidade lusa em Toronto, onde vive a maioria dos mais de 500 mil portugueses e lusodescendentes presentes no Canadá, o exemplo de vida do empresário e filantropo Manuel DaCosta, inspira-nos a máxima do poeta Friedrich Schiller: “Não temos nas nossas mãos as soluções para todos os problemas do mundo, mas diante de todos os problemas do mundo temos as nossas mãos”.

EMIGRAR PARA A SUIÇA

30128522348_0068acc1a9_b

  • Crónica de Daniel Bastos

Dentro do espaço europeu, a Suíça, oficialmente Confederação Suíça, uma república federal composta por vinte e seis estados, chamados de cantões, perdura como um dos principais destinos da emigração portuguesa, como comprovam os mais de 200 mil lusos que vivem e trabalham no território helvético, essencialmente na hotelaria, restauração, construção civil, indústria manufaturada, serviços de limpeza e agricultura.

A dinâmica da emigração portuguesa na nação helvética, que se desenvolveu sobretudo a partir da década de 1980, esteve na génese da criação, há pouco mais de um ano, do portal online “Emigrar para a Suíça”. Um projeto criado pelo jovem emigrante português Samuel Soares, que tem como principal objetivo apoiar e informar a comunidade lusa residente no território e todos quantos queiram emigrar para a Confederação Suíça.

Natural de Portimão, Samuel Soares contou recentemente à imprensa de língua portuguesa no mundo que conseguiu reunir cerca de 9 mil seguidores ao longo deste último ano. Segundo o mesmo, a grandeza desses números devem-se essencialmente a artigos publicados durante a quarentena, fase em que tem traduzido para português as informações que têm sido publicadas na página da Confederação Suíça para que os portugueses possam estar informados sobre o avançar da situação.

Ainda segundo o engenheiro civil de profissão, o número de pedidos de portugueses que pretendem viver na Suíça são cada vez maiores, contexto que tem concorrido para que surjam amiúde na plataforma questões relacionadas com a procura de casa, a busca de emprego, as autorizações de estadia prolongada e tudo o que esteja ligado à vida na Suíça.

O recente portal online “Emigrar para a Suíça”, na esteira de outras plataformas que estão a surgir e a ser dinamizadas no seio das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo, robustece a ideia-chave da investigadora no Centro de Estudos de Comunicação e Cultura (UCP) e no Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (ISCTE), Cátia Ferreira. Nomeadamente, que a “forma como os emigrantes portugueses comunicam está a mudar”, porquanto o “recurso à internet parece estar cada vez mais generalizado”, ou não fosse esta “uma tecnologia que atenua as barreiras culturais, que facilita o conhecimento de novas culturas e de contactos interculturais”.

IN MEMORIAN GÉRALD BLONCOURT

  • Crónica de Daniel Bastos

No decurso deste mês assinalam-se dois anos do falecimento do saudoso fotógrafo franco-haitiano Gérald Bloncourt (1926-2018), um dos grandes nomes da fotografia humanista, cujas amplamente conhecidas imagens que imortalizam a história da emigração portuguesa para França, representam um contributo fundamental para uma melhor compreensão e representação do nosso passado recente.

Gerald Bloncourt e Daniel Bastos.jpeg

Entre 2015 e 2019, o historiador Daniel Bastos (esq.) concebeu e realizou os livros “O Olhar de Compromisso com os filhos dos Grandes Descobridores” e “Dias de Liberdade em Portugal”, que eternizam, respetivamente, o valioso espólio fotográfico de Gérald Bloncourt (dir.) sobre a emigração e o nascimento da democracia portuguesa

 

Colaborador de jornais de referência no campo social e sindical, o antigo fotojornalista que esteve radicado em Paris mais de meio século, teve o condão de retratar a chegada das primeiras levas massivas de emigrantes portugueses a França nos anos 60. A lente humanista do fotógrafo com dotes poéticos captou com particular singularidade as duras condições de vida dos nossos compatriotas nos bairros de lata nos arredores de Paris, conhecidos como bidonvilles, como os de Saint-Denis ou Champigny, com condições de habitabilidade deploráveis, sem eletricidade, sem saneamento nem água potável, construídos junto das obras de construção civil.

Igualmente relevantes são as imagens que Bloncourt captou durante a sua primeira viagem a Portugal nos anos 60, onde retratou o quotidiano das cidades de Lisboa, Porto e Chaves. Assim como as da viagem a “salto” que fez com emigrantes além Pirenéus, e as dos primeiros dias de liberdade em Portugal, como as das comemorações do 1.º de Maio de 1974 em Lisboa, acontecimento que permanece ainda hoje como a maior manifestação popular da história portuguesa.

O trabalho fotográfico de Bloncourt sobre a emigração e a génese da democracia portuguesa constitui um valioso repositório do último meio século nacional, que resgata das penumbras do esquecimento os protagonistas anónimos da história nacional que lutaram aquém e além-fronteiras pelo direito a uma vida melhor e à liberdade.

O trabalho e percurso de vida do fotógrafo francês de origem haitiana, que durante mais de vinte anos escreveu com luz a vida dos portugueses em França e Portugal, foram em 2016 distinguidos pelo Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa. No âmbito das Comemorações do 10 de Junho em Paris, Dia de Portugal de Camões e das Comunidades Portuguesas, cujas comemorações oficiais nesse ano aconteceram pela primeira vez numa cidade fora do país, o aclamado fotógrafo foi condecorado na cidade simbólica de Champigny, com a ordem de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

MALDITO VÍRUS

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

É usual ouvir dizer-se “haja saúde que o resto logo se resolverá”. É verdade, sem saúde há descrença e dificilmente concebemos projetos ou ultrapassamos obstáculos. Contrariamente, quando nos sentimos bem parece que somos donos do mundo. Regra geral, esta é a realidade, se bem que cada um não deixe de encarar a doença como uma fatalidade que a todo o momento lhe pode bater à porta.  Daí a preocupação com a diminuição da assistência médica neste tempo de pandemia. Em relação a práticas profiláticas, como é o caso do chamado check-up anual com o intuito de despistar doenças, que boa parte da população não dispensa, até se compreende algum atraso. Porém, tudo é diferente quando sentimos que algo está mal e não conseguimos um médico para nos observar. Pior ainda, é quando há necessidade de tratar doenças crónicas desde há muito acompanhadas e que agora deixaram de o ser.

Imagem_Textogfmeira2out.png

Quem viveu o tempo em que tudo se tratava com mezinhas, de efeito psicológico e nada curativo, sabe que hoje dispomos de uma assistência médica que ombreia com as melhores do mundo, quer nos domínios da prevenção quer do tratamento efetivo. Se compararmos o hoje com as práticas de há 50 anos, dizer mal do SNS que temos é quase uma heresia. Mas é verdade que ainda estamos longe do ideal e que há insuficiências em muitas áreas, a começar no médico de família para todos.  E também é real que a covid 19 criou insuficiências a juntar às que já tínhamos.

Há dias, um amigo que há muito não era observado por um médico dizia-me que começava a crer nos receios destes em consultar doentes, adiando consultas ou fazendo-as telefonicamente. Pessoalmente, acredito mais na perturbação inerente à pandemia que enfrentamos como justificação para este tipo de casos. Ouvindo alguns clínicos, estes são perentórios na defesa da consulta regular e presencial, já que consideram ser a melhor forma de observar e sentir os males do doente, fazendo um conveniente diagnóstico e a melhor prescrição medicamentosa. Reconhecendo, ainda, a importância da sua intervenção para serenar o doente, sacudindo-lhe receios, quantas vezes infundados.

Aqui chegados, só podemos concluir que o coronavírus veio desarticular, em todos os domínios, a vida das pessoas, inclusive no comportamento social, criando afastamentos, desconfianças e, por vezes, até menor civismo. Há dias ao cruzar-me num passadiço com uma cidadã, com suficiente distanciamento, esta não se coibiu de me repreender pelo não uso da máscara, quanto a mim injustificadamente, até pelo local ermo em que transitávamos. Tal comportamento só demonstra que ainda temos que fazer um longo caminho para saber conviver com uma situação de todo inesperada, que, tudo indica está para durar.

PARA QUE SERVE A REGIONALIZAÇÃO?

35922660_1749853358428503_3697575518795726848_n.jp

  • Crónica de Carlos Gomes

A Constituição da República Portuguesa aprovada em 1976, incluindo as suas sucessivas revisões, consagra a constituição de regiões administrativas alegadamente como uma forma de descentralização administrativa e, consequentemente, de aprofundamento da democracia e participação cívica. A própria designação – Regionalização – a isso sugere. Porém, decorrido quase meio século, os seus mentores não foram até ao momento capazes de implementar a dita regionalização. Aliás, não foram capazes de irem além da extinção dos cargos dos governadores civis e, consequentemente, dos distritos, mesmo ao arrepio da própria constituição… exceptuando os círculos eleitorais!

De vez em quando, a regionalização volta à liça do debate político, como agora acontece com a ideia de aproveitar as comissões coordenadoras regionais (CCR’s) como catapulta, apesar do consignado na Constituição. Mas, será que a instituição das chamadas regiões administrativas – uma caricatura das antigas províncias – revela algum interesse para o aprofundamento da nossa democracia e, sobretudo para o desenvolvimento do país?

O BLOGUE DO MINHO transcreve o que está previsto na Constituição da República Portuguesa a respeito da instituição das regiões administrativas, deixando aos leitores o seu juízo.

CAPÍTULO IV

Região administrativa

Artigo 255.º

Criação legal

As regiões administrativas são criadas simultaneamente, por lei, a qual define os respetivos poderes, a composição, a competência e o funcionamento dos seus órgãos, podendo estabelecer diferenciações quanto ao regime aplicável a cada uma.

Artigo 256.º

Instituição em concreto

  1. A instituição em concreto das regiões administrativas, com aprovação da lei de instituição de cada uma delas, depende da lei prevista no artigo anterior e do voto favorável expresso pela maioria dos cidadãos eleitores que se tenham pronunciado em consulta direta, de alcance nacional e relativa a cada área regional.
  2. Quando a maioria dos cidadãos eleitores participantes não se pronunciar favoravelmente em relação a pergunta de alcance nacional sobre a instituição em concreto das regiões administrativas, as respostas a perguntas que tenham tido lugar relativas a cada região criada na lei não produzirão efeitos.
  3. As consultas aos cidadãos eleitores previstas nos números anteriores terão lugar nas condições e nos termos estabelecidos em lei orgânica, por decisão do Presidente da República, mediante proposta da Assembleia da República, aplicando-se, com as devidas adaptações, o regime decorrente do artigo 115.º.

Artigo 257.º

Atribuições

Às regiões administrativas são conferidas, designadamente, a direção de serviços públicos e tarefas de coordenação e apoio à ação dos municípios no respeito da autonomia destes e sem limitação dos respetivos poderes.

Artigo 258.º

Planeamento

As regiões administrativas elaboram planos regionais e participam na elaboração dos planos nacionais.

Artigo 259.º

Órgãos da região

Os órgãos representativos da região administrativa são a assembleia regional e a junta regional.

Artigo 260.º

Assembleia regional

A assembleia regional é o órgão deliberativo da região e é constituída por membros eleitos diretamente e por membros, em número inferior ao daqueles, eleitos pelo sistema da representação proporcional e o método da média mais alta de Hondt, pelo colégio eleitoral formado pelos membros das assembleias municipais da mesma área designados por eleição direta.

Artigo 261.º

Junta regional

A junta regional é o órgão executivo colegial da região.

Artigo 262.º

Representante do Governo

Junto de cada região pode haver um representante do Governo, nomeado em Conselho de Ministros, cuja competência se exerce igualmente junto das autarquias existentes na área respetiva.

A REDE DE AUTARCAS PORTUGUESES EM FRANÇA

30128522348_0068acc1a9_b

  • Crónica de Daniel Bastos

No decurso dos últimos anos tem sido pública e notória a intervenção de portugueses e lusodescendentes na vida política além-fronteiras, fenómeno revelador da admirável integração das Comunidades Portuguesas e do papel importante que as mesmas desempenham no desenvolvimento das sociedades de acolhimento.

Este fenómeno crescente de participação cívica e política, que perpassa as várias comunidades lusas espalhadas pelos quatro cantos do mundo, assume uma enorme proporção e relevância em França, nação europeia onde vive a maior comunidade de portugueses no estrangeiro.

Nas últimas eleições municipais francesas, que decorreram entre 15 de março e 28 de junho deste ano, num conjunto de mais 15 mil candidatos de origem portuguesa, segundo dados recolhidos pela CIVICA e o Luso Jornal, respetivamente, a associação de autarcas de origem lusa no território gaulês e o jornal de referência da comunidade luso-francesa, foram eleitos mais de 7 mil autarcas com raízes nacionais.

Disseminados por todo o território gaulês, os milhares de eleitos locais de origem portuguesa, muito presentes na região de Île-de-France, a mais populosa da França e onde se situa Paris, desempenham deste modo um papel de capital importância no desenvolvimento e promoção da qualidade de vida da população francesa, tanto pela proximidade como pela capacidade em dar respostas céleres e eficazes às suas necessidades.

Concomitantemente, esta notável rede de autarcas lusos em França evidencia que os portugueses no Mundo, que totalizam mais de cinco milhões, são incontornavelmente um dos pilares fundamentais para a afirmação hodierna da pátria de Camões no concerto das nações.

De facto, a rede de autarcas lusos em França, assim como as diversas redes de luso-eleitos dispersas pela vasta geografia das Comunidades Portuguesas, constituem uma tremenda mais-valia na inserção de Portugal nos diferentes espaços, provendo o país de uma potencial magistratura de influência que as autoridades portuguesas não podem desaproveitar, antes pelo contrário, devem dinamizar na promoção e projeção de Portugal no Mundo.     

OS MAILS QUE ME CHEGAM

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Não acontece com regularidade, mas de vez em quando alguém interage comigo para contrariar ou aplaudir os assuntos que vou abordando nesta coluna. Simpáticos uns, nem tanto outros, mas tudo dentro da normalidade e quase sempre procurando fundamentar opiniões expressadas. Confesso que recebo esta correspondência com interesse, tendo sempre a preocupação de lhe dar resposta, até porque só tenho a aprender com algumas propostas bem estruturadas que me chegam.

Imagem_Mails.jpg

Na edição de 20 de agosto da AAL, na minha crónica “O Banco do Estado”, indicava deficiências orgânicas à CGD, que se traduziam no retardado atendimento dos clientes, havendo necessidade de esperar horas para se ser atendido, agora com agravamento da situação, dado o momento pandémico que vivemos. Ora um banco público não pode manifestar menos eficácia que o privado, caso contrário perguntarão os cidadãos “para que precisamos de uma entidade do Estado que não responde celeremente às necessidades dos clientes”. E eu penso que é fundamental um setor público, na banca ou outros, que enfileire com as políticas de desenvolvimento do país.

Pouco tempo decorrido, de um assessor de imprensa da Caixa recebo um email a chamar-me a atenção de que esta dispõe do sistema de Caixadireta e que, através do computador ou telemóvel tudo, ou quase tudo, pode ser tratado, evitando deslocações aos clientes, com benefícios para todas as partes. Agradeci a resposta, mas discordei, como bem se compreende. No futuro assim será, mas entretanto – e muito falta – ainda há uma percentagem da população, se calhar maioritária, que não domina, e jamais o conseguirá, as ferramentas informáticas. Ora esses não podem ser desprezados, e muito menos por um banco com as responsabilidades da CGD, quando nem a banca privada o faz.

Mas nem tudo é mau. A Caixa acaba de recolocar os monitores que orientam os clientes no atendimento, agora, por força da Covid, remetidos para o hall de entrada. A partir daí, acabou a tarefa incomoda de alguém que grita do interior o número do cliente que se segue. Era uma operação que devia ter sido executada logo que o malfadado vírus virou praga, mas mais vale tarde do que nunca. Somos tão disciplinados em algumas práticas e tão negligentes noutras.

Por proposta de alguns leitores, mais carecidos do que o normal em assistência médica, era meu propósito, nesta mesma coluna, falar também sobre questões de saúde, mas os caracteres atingiram o número estipulado. Fica para a próxima, até porque, dada a sua delicadeza, trata-se de um assunto que deve ser abordado com objetividade e o maior sentido de responsabilidade.

goncalofagundes@gmail.com

CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA PORTUGUESA PERMITE FUNCIONAMENTO DO PARLAMENTO COM APENAS 180 DEPUTADOS

35922660_1749853358428503_3697575518795726848_n.jp

  • Crónica de Carlos Gomes

A Assembleia da República tem o mínimo de cento e oitenta e o máximo de duzentos e trinta Deputados, nos termos da lei eleitoral. – Artigo 148º da Contituição da República Portuguesa! -

De acordo com a Constituição da República Portuguesa, a Assembleia da República pode funcionar com um número mínimo de 180 deputados, do que se deduz que desse facto nada resultaria qualquer anomalia para o funcionamento da democracia. Porém, desde a aprovação da actual Constituição, a composição do parlamento teve sempre o número máximo de 230 deputados, sem qualquer explicação plausível para o efeito.

Se a Assembleia da República pode funcionar com apenas 180 deputados sem prejuízo da democracia – conforme aliás o que a própria Constituição consigna – não se encontra motivo para que não se adopte essa opção, sobretudo numa época em que se exige contenção com os gastos públicos a fim de fazer frente ao desemprego, à pandemia e a outros problemas sociais.

O que parece não estar de acordo com o funcionamento da própria democracia é o estabelecimento de número par de deputados num órgão deliberativo, algo impeditivo a uma mera colectividade de cultura e recreio em relação às quais se exige número ímpar… a não ser que seja outra a actividade recreativa!

É DE POLÍTICA QUE VOU FALAR. E DESPUDORADAMENTE DE MIM TAMBÉM!

95307916_10213150206788614_559877969472913408_n.jp

  • Crónica de Carlos da Torre

É de política que vou falar. E despudoradamente de mim também. Digo-o desde já, para que não se sintam induzidos para uma leitura que não queiram. Podem parar por aqui.

Sou já um sexagenário. Com os sessenta feitos há um ano. Em 1974 fiz os meus quinze anos já depois de Abril. Tive o imenso privilégio de viver um ambiente de mudança profunda do país no cerne da juventude. Já não tive de escolher entre a emigração/exílio ou a guerra colonial, como dois dos meus cinco irmãos mais velhos que foram para França, outro combateu em Angola e os outros dois estiveram na tropa antes da guerra. Vivi muitos desencantos com os caminhos que a nossa história foi tomando. Senti orgulho em muitos avanços sociais. Aprendi a viver em liberdade e a valorizar a democracia, ela própria instrumento fundamental da liberdade. Adquiri muito cedo a consciência de que a liberdade e a democracia estão profundamente diminuídas por muitas desigualdades e por muitas dependências, quantas vezes aviltantes! Mas se há algo muito claro para mim, é de que não podemos nunca ceder ao impulso de que prescindir da liberdade e da democracia pode ser caminho para melhorá-las. Também fui notando que, não poucas vezes, a corrupção que tende a germinar sob diversas formas no meio de grandes e de pequenos poderes, nos mais diversos regimes políticos, tem um efeito suficientemente perverso ao ponto de ser capaz de se reproduzir mais forte entre os que a tomam como principal bandeira diferenciadora. O que significa que é frequentemente usada como causa que atrai para mudanças políticas que embrulhadas na luta anticorrupção, não só não acabam com a corrupção como lhe acrescentam muitas mais injustiças e atentados à liberdade e à dignidade das pessoas. Veja-se o recente exemplo brasileiro como paradigmático.

Isto aqui para nós, diga-se o que se quiser, mas é bom de ver que a política como assunto sério e responsável é uma carga de trabalhos. A verdade é essa! A maior parte de nós prefere ficar de fora, na bancada, e usar da sua sapiência, quantas vezes completamente desinformada, para apontar o dedo a tudo e a todos. Participar com sentido de cidadania é coisa que evitamos, vezes sem conta com a sobranceria declarada ou implícita de que somos pessoas limpas e a política é sempre suja. E esse discurso multiplica-se, vulgariza-se, toma conta da forma como vemos tudo, desabituamo-nos de olhar para factos e tentar percebê-los, passamos a estar sempre à espera exclusivamente dos factos que confirmem a nossa verdade simples, suja e cómoda que sustenta as nossas convicções firmes e dispensadas de esforço.

Depois aparecem uns Adolfos, Antónios ou, já numa escala de sucedâneo de patamar inferior, Andrés… pouco importa o nome, pouco importa a estatura intelectual ou política da personagem… Importa que é alguém que está disposto a fazer um caminho de retrocesso civilizacional, no que a civilização tem de ganhos de dignidade humana, liberdade e respeito pelas diferenças. Começam por fazê-lo dentro das regras do jogo. Com muitas críticas razoáveis à mistura. Sem contornos ideológicos nítidos para a maior parte das pessoas. Sempre a dizerem o que muita gente gosta de ouvir. Depois vão acentuando as marcas do seu caminho. Vão tentando mostrar força. É repetição histórica tentarem mostrar força antes do tempo. Quando ainda não a têm… Um misto de ansiedade e teste, talvez. Subestimá-los é um erro que pode sair caro. O contrário pode ajudá-los. Não estamos a lidar com uma pessoa. Estamos a lidar com um fenómeno mais amplo. A pessoa que o personifica em determinado momento até pode ser apenas instrumental e transitória.

Certo certo é que a democracia precisa que lidemos com este fenómeno com inteligência e com redobrada participação cívica.

UM MUNDO ÀS AVESSAS

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

A partir de um estudo realizado pelo PERDA (Projeto de Estudo e Reflexão sobre Desperdício Alimentar - desde os campos até à mesa dos consumidores), o último semanário “Expresso” dá-nos a conhecer números sobre o desperdício alimentar, mundial e nacional, que são motivo para cuidada reflexão.

Imagemmundoavessas.jpg

Outros tempos, outras práticas, outra vida. Assim bem valeria a pena voltar atrás. Será difícil, mas bem poderíamos trabalhar para abraçar de novo a natureza

 

Ficamos então a saber que no mundo, anualmente, o custo do esbanjamento alimentar (em termos económicos, sociais e ambientais) é na ordem dos 2,24 mil milhões de euros; e que, no mesmo período, se desaproveitam 89 milhões de toneladas de comida, sendo que um milhão acontece em Portugal. Abordando concretamente o que se passa connosco, neste país de parcos recursos, temos um valor pouco simpático de desperdício, sobretudo nos alimentos que, remetidos para aterros sanitários, muito contribuem par diminuir a duração destes e colocar novos problemas de acomodação dos resíduos, em permanente crescimento.

Estamos longe da conjuntura em que tudo se aproveitava e nada se perdia. No tempo em que não havia sobras nos pratos das refeições e em que se comia o pão, mesmo que duro, porque em casa, especialmente na aldeia, apenas se cozia a broa uma vez por semana; no tempo em que todos os restos tinham aproveitamento, em última instância para fazer florescer a horta caseira. Mas, acima de tudo, estamos longe da sociedade em que praticamente não se produziam lixos. É evidente que ninguém quer voltar à época de ter que racionar o pouco, tantas vezes passando fome, para conseguir o mínimo para cada refeição. Mas isso foi o que aconteceu ao longo de décadas a um número incontável de portugueses.

Ninguém deseja voltar ao passado, apesar de frequentemente alguns afirmarem que esse é que era o tempo a que deveríamos retornar; à época do trabalho, da ordem e do respeito, negando o progresso que, felizmente, é o caminho evidente da humanidade. Mas não refletir sobre o que desperdiçamos, para nos sabermos ajustar melhor a um planeta que precisa de ser mais harmonioso na satisfação de necessidades básicas, eliminando pobrezas extremas, sem colocar em causa a sua sustentabilidade, é não conjugarmos com a realidade, vivendo egoisticamente, não respeitando os carecidos e pondo em causa o futuro das novas gerações.

A reflexão e a ação deveriam ser, em cada dia, uma constante de todo o ser humano. O mundo perfeito jamais existirá, por mais que o aspiremos. Mas é bem possível construí-lo de forma mais justa, de maior proximidade e de mais longa duração.

goncalofagundes@gmail.com

MANUEL NUNES, O INVENTOR DO UKULELE

30128522348_0068acc1a9_b

  • Crónica de Daniel Bastos

O arquipélago da Madeira, cais singular de chegadas e partidas no oceano Atlântico, tem sido, ao longo da história portuguesa, um dos territórios nacionais mais fortemente marcado pelo fenómeno da emigração.

Impelidos pelo desígnio de uma vida melhor coligida às necessidades de mão-de-obra por parte do mercado estrageiro, os madeirenses encontram-se espalhados pelos quatro cantos do mundo. Com particular incidência na África do Sul, Austrália, Brasil, Canadá, E.U.A., França, Reino Unido e Venezuela, onde reside atualmente uma das maiores comunidades madeirenses espalhadas pelo mundo.

No quadro da presença histórica de madeirenses no mundo, como revela a investigadora Susana Caldeira, destaca-se o pioneirismo da chegada de naturais da pérola do Atlântico ao Havai, um dos cinquenta estados norte-americanos localizado num arquipélago em pleno Oceano Pacifico, cuja capital e maior cidade é Honolulu. 

Como sustenta a investigadora na obra “Da Madeira para o Hawaii: A Emigração e o Contributo Cultural Madeirense”, a emigração portuguesa para este arquipélago norte-americano “começou com o primeiro grupo de 120 madeirenses que chegaram lá no dia 29 de Setembro de 1878, a bordo do navio Priscilla, respondendo a uma crescente demanda de mão-de-obra para as plantações de açúcar. Depois desse primeiro embarque, milhares de madeirenses seguiram o seu sonho de uma vida melhor no que eles chamavam a "Terra Nova". De longe, o maior grupo de portugueses era oriundo da Madeira tendo, assim, constituído o corpo principal dos antepassados da comunidade portuguesa”.

É nesta leva primitiva de portugueses para o Havai, que se enquadra a trajetória migratória do madeirense Manuel Nunes (1843-1922), marceneiro e fabricante, considerado o inventor oficial do ukulele, afamado instrumento musical havaiano. Figura incontornável da história da emigração madeirense no crepúsculo do séc. XIX, Manuel Nunes, tornou-se um dos mais importantes fabricantes de ukuleles e o seu inigualável labor manteve-se no mercado durante mais de quatro décadas, sendo que muitos dos seus instrumentos feitos à mão ostentam uma etiqueta onde se pode ler “M. Nunes, Inventor of the Ukulele and Taro Patch Fiddles in Honolulu in 1879”.

PORQUE NÃO EXISTE APENAS UM CÍRCULO NACIONAL ÚNICO UMA VEZ QUE ACABARAM COM OS DISTRITOS?

“Os Deputados representam todo o país e não os círculos por que são eleitos” – Artigo 152º, alínea 2 da Constituição da República Portuguesa

  • Crónica de Carlos Gomes

Foram extintos os distritos e deixaram de ser nomeados pelo governo os respectivos governadores civis. Mas, a mesma lógica não foi aplicada à área de circunscrição dos círculos eleitorais. Inexplicavelmente… ou talvez não!

35922660_1749853358428503_3697575518795726848_n.jp

O nosso sistema eleitoral, baseado no método de Hondt, possibilita a formação de maiorias parlamentares que nem sempre corresponde a uma maioria de votos expressos nas urnas. E tal entorse resulta do facto de ser permitido o estabelecimento de coligações pré-eleitorais que em cada círculo vão disputar os chamados “restos” com partidos de menor representação. E, sempre que assim sucede, podem tais coligações somar mais um punhado de deputados nos vários círculos eleitorais, o que de outra forma não aconteceria.

Sucede que, tal como refere na alinea 2 do Artigo 152, “Os Deputados representam todo o país e não os círculos por que são eleitos”. Assim sendo, não existe nada que justifique a manutenção de vários círculos eleitorais, tal como actualmente se apresentam, correspondendo à área de circunscrição dos distritos entretanto extintos, sem a sua substituição pelas regiões administrativas como estava constitucionalmente previsto. De resto, muitos dos candidatos, a começar pelos próprios cabeças-de-lista, concorrem na maior parte das vezes em distritos com os quais não possuem qualquer espécie de relacionamento ou identificação, apenas obedecendo a critérios partidários como a hierarquia interna.

Reza a alinea 1 do Artigo 149º da Constituição da República Portuguesa que “Os Deputados são eleitos por círculos eleitorais geograficamente definidos na lei, a qual pode determinar a existência de círculos plurinominais e uninominais, bem como a respetiva natureza e complementaridade, por forma a assegurar o sistema de representação proporcional e o método da média mais alta de Hondt na conversão dos votos em número de mandatos.”

Sucede que, a não ser que a lei impedisse a formação de tais coligações pré-eleitorais, obrigando os partidos políticos a concorrerem cada um por si, nada se alteraria em relação à situação actual. E, neste caso, a menção na Constituição à criação de “círculos plurinominais e uninominais” é uma balela em tudo semelhante à que permite a eleição de apenas 180 deputados (Artigo 148º da Constituição da República Portuguesa) apesar de um órgão deliberativo dever contar com número ímpar de componentes.

A criação de um círculo eleitoral único em território nacional constituiria uma forma de corrigir a entorse que a aplicação do método de Hondt cria nestas circunstâncias. Se acabaram com os distritos, porque será que os mantêm para eleger deputados?

A QUEM INTERESSOU A FUSÃO DAS FREGUESIAS?

  • Crónica de Carlos Gomes

Em 30 de Maio de 2012, foi publicada em Diário da República a Lei nº. 22/2012, que aprovou o regime jurídico da reorganização administrativa territorial autárquica que teve como objeto o estabelecimento dos “objetivos, os princípios e os parâmetros da reorganização administrativa territorial autárquica e define e enquadra os termos da participação das autarquias locais na concretização desse processo” e a consagração da “obrigatoriedade da reorganização administrativa do território das freguesias e regula e incentiva a reorganização administrativa do território dos municípios.” O diploma pode ser consultado em http://dre.pt/pdf1sdip/2012/05/10500/0282602836.pdf

35922660_1749853358428503_3697575518795726848_n.jp

Esta iniciativa visava alegadamente racionalizar os gastos com o funcionamento das autarquias locais, possibilitando a redução de recursos humanos e meios logísticos, incluindo instalações, equipamentos e custos de comunicações.

É certo que os arredores dos grandes centros urbanos de Lisboa e Porto viram surgir novas freguesias, muitas das quais foram entretanto elevadas à categoria de vilas e cidades e até, nalguns casos, a municípios, resultado do despovoamento das cidades em virtude da terciarização ou seja, da implantação crescente do comércio e serviços em detrimento da habitação. E, desse modo, a migração interna que a partir dos finais do século XIX despovou as zonas rurais do interior para se concentrar sobretudo em Lisboa, passou a partir de meados do século XX a registar uma deslocação para os subúrbios. E, enquanto a periferia crescia desmesuradamente – o concelho de Sintra é o segundo do país com maior concentração populacional – o concelho de Lisboa mantinha inalterada a sua organização administrativa. As freguesias da baixa lisboeta já não dispunham habitantes para sequer manter um autarca a tempo inteiro.

Dessa forma, se nos casos de Lisboa e Porto a fusão de freguesias tenha feito algum sentido, apesar de ainda não terem sido apresentados resultados comparativos que comprovem a tal racionalização de custos, a mesma questão levanta sérias dúvidas em relação ao interior do país.

Numerosas localidades não dispunham à partida de eleitores em número suficiente para assegurar a manutenção de um autarca a tempo inteiro e, consequentemente, com remuneração e direito a subvenção vitalícia e eventualmente outras regalias. Porém, com a aprovação da referida Lei nº. 22/2012, a fusão de duas ou mais freguesias passou a possibilitar a existência de um ou mais autarcas a tempo inteiro consoante o cálculo feito do número de eleitores “fundidos”.

Sucede que em muitas localidades do interior, tais custos nem sequer existiam porque, em virtude de não disporem de eleitores em número suficiente, a população reunia em plenário, não existindo pois assembleia de freguesia e consequentemente gastos com “senhas de presença”… não dispõem de funcionários, despesas com rendas, electricidade e comunicações. Mas, a fusão veio a causar maior distânciamento entre os eleitores e os seus representantes, muitos dos quais perfeitamente desconhecedores dos problemas das áreas geográficas que passaram a administrar.

- Porque será que não se apresentam agora as contas comparativas dos gastos efectuados antes e depois da referida “reorganização administrativa territorial autárquica”?

ManifestaçãoFreguesias 092

PRODUÇÃO LITERÁRIA NAS COMUNIDADES PORTUGUESAS EM TEMPOS DE PANDEMIA

30128522348_0068acc1a9_b

  • Crónica de Daniel Bstos

Nestes tempos difíceis que atravessamos, devido aos efeitos da pandemia de coronavírus, que gerou num curto espaço de tempo uma crise socioeconómica mundial sem precedentes, uma das áreas mais afetadas pelo contexto de isolamento social e quebra de rendimentos tem sido o sector cultural.

Diariamente são conhecidas verdadeiras batalhas de sobrevivência que muitos artistas enfrentam no seu quotidiano, agravadas pelo cancelamento de iniciativas que sustentavam músicos, atores, humoristas, técnicos e demais agentes culturais que se encontram submersos em dificuldades e incertezas.

A crise que afeta severamente o sector cultural estende-se igualmente ao mundo dos livros e autores, onde as quedas expressivas nos números de vendas de livros, o encerramento de livrarias e editoras, e os poucos hábitos de leitura são uma realidade infelizmente cada vez mais presente na sociedade portuguesa.

Perante este quadro cultural sombrio, os dados recentes da 90.ª edição da Feira do Livro de Lisboa, que decorreu entre os dias 27 de agosto e 13 de setembro, e que apontam para terem sido igualadas, ou até superadas, as vendas do ano passado, constituem-se como sinais de esperança para um sector que vive verdeiros momentos de sufoco.

Alento que surge também na diáspora, onde a capacidade de arrojo e resiliência de autores e editoras têm sido também capazes de manter ativa a produção literária em tempos de pandemia, e assim aprofundarem o conhecimento sobre as comunidades portuguesas.

Os recentes lançamentos e apresentações de obras literárias no seio das comunidades portuguesas, como foi o caso, por exemplo, da apresentação no passado dia 13 de setembro, na Casa do Alentejo em Toronto, do livro “Avós: Raízes e Nós”, organizado pelas ativistas culturais, Aida Baptista, Ilda Januário e Manuela Marujo, e que reúne textos de cerca de sessenta autores, reforçam estes sinais de esperança.

Ainda no Canadá, onde vive e trabalha uma das maiores comunidades portuguesas na América do Norte, foi recentemente lançada em Montreal, a “Antologia Literária Satúrnia – Autores Luso-Canadianos”, organizada pelo escritor Manuel Carvalho, e que reporta mais de uma centena de autores luso-canadianos que, ao longo dos anos, difundiram as suas emoções e memórias por jornais, revistas e livros.

Em meados deste ano, a Oxalá Editora, uma editora na Alemanha, vocacionada para a publicação da obra de autores da diáspora, através do contributo das escritoras, Irene Marques, Paula de Lemos, Luísa Costa Hölzl, Luísa Semedo, Gabriela Ruivo Trindade, Maria João Dodman, São Gonçalves, Luz Marina Kratt, Helena Araújo e Altina Ribeiro, editou o livro “Correr Mundo – Dez mulheres, dez histórias de emigração”.

Na mesma altura, marcada já pelos impactos da Covid-19, Isabel Mateus, escritora radicada no Reino Unido, lançou a obra “Anna, A Brasileirinha de São Paulo” que mergulha na epopeia da emigração portuguesa para o Brasil. E Victor Alves Gomes e Joana Inês Moreira, a viverem em Bruxelas, na Bélgica, projetaram o livro “Um emigrante eurocrata”.

Estes exemplos, e muitos outros que foram apresentados ou se encontram no prelo, como a vindoura obra coletiva “Alma Latina”, coordenada por José Maria Ramada, e que reúne contributos literários luso-suíços, revelam a capacidade de arrojo e resiliência de autores e editoras da diáspora, e constituem inspiradores sinais de esperança no presente e futuro da produção literária no seio das comunidades portuguesas.

PORQUE FECHAM OS CAFÉS?

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Simples: porque nada é eterno, porque tudo nasce, vive e morre. Nada existe para sempre, por mais que gostemos das variadas coisas que acabam. O café Caravela fechou portas e nas redes sociais deplorou-se o facto, pela saudade que deixa, porque era local de encontro e de tertúlia, onde as amizades se estabeleciam; porque, entre outras, tem uma história ainda viva na memória de muitos vianenses, que assentava na rivalidade dos seus frequentadores (enquanto café Bar e Caravela, dois espaços independentes) com os clientes do café Américo, localizado quase em frente (encerrou em 1985), os primeiros mais conservadores e mais alinhados com o Estado Novo, os segundos vistos como oposicionistas ao sistema. Pois, e o Américo, centro de negócios e vida intensa, especialmente à sexta-feira, também deixou saudades e, quando fechou portas, dele muito se falou e escreveu, mas como tantos, seguindo a lógica própria da vida, teve o seu fim. Entre outros, menos saudade não deixaram o Beira Mar, na Alameda João Alves Cerqueira, com os três painéis de Carolino Ramos, que são uma preciosidade (felizmente ainda lá estão; vamos ver até quando, porque nessa matéria os crimes são incontáveis) e como foram recentemente o Guerreiro, o Moderno e o Copacabana.

vianna (2).jpg

A Praça da República na década de 1970, ainda com a Pastelaria Caravela e o Café Bar

 

Contudo, perante esta evidência do que acaba e do que surge, não podemos deixar de lamentar realidades e comportamentos. Realidade é, desde há muito, a modorra em que caiu a nossa Praça da República, pouco estimuladora para quem lá queira arriscar investimento. Se recuarmos no tempo, bem nos lembramos que, pela sua nobreza e monumentalidade, este espaço era o mais procurado da cidade e o local onde os vianenses mais se concentravam, mas hoje assim não é. Há dias e horas, especialmente quando faz nortada fria, que ali não se vê viva alma. Será difícil acertar em soluções para fazer da nossa Praça o centro de convívio que sempre foi? Acho que não. Se não temos ideias, temos a obrigação de aprender com quem já teve problemas idênticos e soube resolvê-los.

Uma outra questão que é visível em boa parte dos estabelecimentos encerrados, desta ou outra área - como acontece com muito do que finda neste país -, é a falta de respeito por aqueles que ao longo do tempo os mantiveram em laboração, tantas vezes com dedicação extrema a troco de mísero salário. Por vezes, fecha-se a porta e, depois, logo se verá, não se dando sequer satisfação a quem os serviu, deixando estes por conta do destino. Se a justiça fosse célere e fidedigna, estas práticas seriam bem menos usuais. Tristemente, enquadrados numa Europa maioritariamente de direitos, ainda levamos o direito muito pouco a sério.

goncalofagundes@gmail.com

vianna (1).jpg

Uma imagem recente da Praça

A VIAGEM DA ESPERANÇA. A EMIGRAÇÃO PORTUGUESA PARA BARQUISIMETO (1948-1958)

30128522348_0068acc1a9_b

  • Crónica de Daniel Bastos

No decurso dos últimos anos o acervo bibliográfico sobre o fenómeno migratório nacional tem sido profusamente enriquecido com o lançamento de um conjunto diversificado de estudos que ampliam o conhecimento sobre a história da emigração portuguesa.

Neste conjunto diversificado de trabalhos, destaca-se recentemente a investigação levada a cabo pelo historiador e professor universitário venezuelano, Froilán Ramos Rodriguez, sobre a emigração portuguesa, grande parte dela madeirense, para a cidade de Barquisimeto na Venezuela, e que está na base do livro “Travesía de la esperanza. La inmigración portuguesa en Barquisimeto (1948-1958)”.

Atualmente docente na Universidade Católica da Santíssima Conceição (UCSC), no Chile, Froilán Ramos Rodriguez, tendo como estudo de caso Barquisimeto, capital e cidade mais populosa do estado de Lara, onde existem dois relevantes clubes portugueses com raízes madeirenses, mormente o Centro Luso Larense e o Centro Atlântico da Madeira, revisita a história dos emigrantes portugueses na Venezuela.

Uma história analisada a partir da segunda metade do séc. XX, período em que os emigrantes portugueses na Venezuela, maioritariamente oriundos da Madeira, passaram a dedicar-se ao comércio de produtos alimentares, como padarias, pequenas mercearias, lugares de venda de sandes e sumos, e inclusivamente à pequena e média indústria, especialmente no setor das manufaturas. Contexto que firmou a comunidade portuguesa, que hoje será composta por aproximadamente meio milhão de luso-venezuelanos, num pilar estruturante do desenvolvimento urbano, económico e sociocultural da sociedade venezuelana.

Numa época em que a Venezuela vive uma situação complexa do ponto de vista económico, politico e social, que se agravou ainda mais devido à pandemia de coronavírus, a “viagem da esperança” de Froilán Ramos Rodriguez ao reconstruir a memória do passado da comunidade portuguesa na pátria de Simón Bolívar, representa também um sinal de coragem no presente e de esperança no futuro de uma comunidade, que nas palavras do investigador “se ha identificado por su laboriosidad, (…) su trabajo constante en su establecimiento, su silencio y reserva, su devoción por la Virgen de Fátima y su gusto por el fútbol”.

MONUMENTOS AOS COMBATENTES DA GUERRA COLONIAL NAS COMUNIDADES PORTUGUESAS

30128522348_0068acc1a9_b

  • Crónica de Daniel Bastos

A Guerra Colonial (1961-1974), época de confrontos bélicos entre as Forças Armadas Portuguesas e os Movimentos de Libertação das antigas províncias ultramarinas de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, representa um dos acontecimentos mais marcantes da história nacional e africana de expressão portuguesa do séc. XX.

Conflito bélico dramático, trágico e traumatizante para mais de um milhão de portugueses, que prestaram serviço militar nas três frentes de combate, onde tombaram cerca de 8.300 soldados, assim como para as populações angolanas, guineenses e moçambicanas, cujo número total de vítimas, entre guerrilheiros e civis, terá sido superior a 100 mil mortos.

A densidade vivencial e o impacto da também conhecida como Guerra do Ultramar na sociedade portuguesa têm sustentado ao longo das últimas décadas a inauguração no território nacional de inúmeros monumentos de homenagem aos militares mortos, e que rondam já cerca de três centenas.

No cômputo da lista de monumentos alusivos aos combatentes da Guerra Colonial, que se encontram assinalados pela Liga dos Combatentes (LC) no livro “Monumentos Aos Combatentes da Grande Guerra e do Ultramar”, grande parte deles construídos no séc. XXI, e que segundo tenente-general Chito Rodrigues, Presidente da LC, são “a expressão de um sentimento profundo nacional acerca do que foi a guerra colonial e dos sacrifícios que o povo português fez nesse conflito", destaca-se ainda a existência de três monumentos construídos no seio das comunidades portugueses no Canadá e nos Estados Unidos.

No Canadá, onde se estima que na atualidade vivam mais de meio milhão de luso-canadianos, o primeiro monumento a ser erigido em memória dos combatentes que tombaram na guerra do Ultramar foi inaugurado em 2009, na cidade de Winnipeg, capital da província de Manitoba.

Projetado pelo arquiteto português Varandas dos Santos, o memorial impulsionando pela Associação Portuguesa de Veteranos de Guerra de Manitoba e Núcleo da Liga dos Combatentes de Portugal em Winnipeg, e concretizado com o apoio da Província de Manitoba, da Liga dos Combatentes, da Comunidade Luso-Canadiana, da Associação Portuguesa de Manitoba e da Chapel Lawn Memorial Gardens, invoca os militares do passado, presente e futuro.

Em 2012, a cidade de Oakville, junto a Toronto, capital da província de Ontário onde se estima que vivam mais de 20 mil antigos combatentes da Guerra do Ultramar, assistiu à inauguração, no cemitério Glen Oak Memorial Garden, de uma estátua em homenagem aos militares portugueses e canadianos mortos em situações de guerra.

Monumento de homenagem aos militares portugueses e

O historiador Daniel Bastos (dir), cujo percurso tem sido alicerçado no seio das Comunidades Portuguesas, em visita, em 2019, ao monumento de homenagem aos antigos combatentes da Guerra do Ultramar na cidade de Oakville, junto a Toronto, na companhia do ex-combatente da Guerra Colonial e Presidente da Assembleia Geral da Associação Cultural 25 de Abril em Toronto, Artur Jesus (esq.)

 

O monumento, concebido em conjunto pelo arquiteto Varandas dos Santos e pelo comendador José Mário Coelho, e impelido pela Associação dos Ex-combatentes do Ultramar Português no Ontário, foi instalado no talhão denominado “Nossa Senhora de Fátima”. O monumento, que contou com apoios financeiros da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas e da Liga de Combatentes de Portugal, sobressai pela existência de vários elementos, dos quais se destacam uma Cruz de Cristo e um capacete de um soldado, tendo ainda a inscrição: “Sacrificados em vida, respeitados na morte”.

Ainda na América do Norte, mas já nos Estados Unidos, mais concretamente em Lowell, cidade do condado de Middlesex em Massachusetts, estado que alberga uma grande comunidade luso-americana de origem açoriana, foi inaugurado em 2000 um monumento em memória dos falecidos e ex-combatentes do ultramar português e dos participantes da Revolução de 25 de Abril de 1974. Impulsionado pela numerosa comunidade luso-americana, com especial destaque para Dimas Espínola, uma referência no mundo comunitário luso de Lowell, o monumento teve o apoio resoluto, entre outros, do Portuguese American Center, do Portuguese American Civic League e da Associação de Veteranos de Lowell.

MONUMENTOS AO EMIGRANTE EM PORTUGAL

30128522348_0068acc1a9_b

  • Crónica de Daniel Bastos

A dimensão e relevância da emigração no território nacional, uma constante estrutural da sociedade portuguesa, têm impelido a construção nos últimos anos, um pouco por todo o país, de vários monumentos ao emigrante, com o objetivo de reconhecer e homenagear o contributo que prestam ao desenvolvimento das suas terras de origem.

Como observam as sociólogas Alice Tomé e Teresa Carreira no artigo Emigração, Identidade, Educação: Mitos, Arte e símbolos Lusitanos, este fenómeno de construção de monumentos ao emigrante “marca na atualidade a paisagem portuguesa”, sendo em grande medida o reflexo da “alma de um povo lutador, trabalhador, fazedor de mitos que, pelas mais variadas razões, não hesita em dobrar fronteiras”.

São muitos e variados os exemplos de monumentos aos emigrantes que povoam a paisagem portuguesa, como facilmente se comprova através de uma simples pesquisa na Internet. No Minho, por exemplo, alfobre tradicional da emigração portuguesa, há dois anos foi inaugurada na freguesia de Belinho, concelho de Esposende, uma estátua que celebra os emigrantes da povoação, e cuja simbologia alarga-se ao município numa homenagem a todos aqueles que “deram novos mundos ao mundo”.

No concelho de Ourém, um município localizado na região do Centro que se construiu com a emigração, ergueu-se em 2011, na freguesia de Espite, num território que é conhecido como o “berço” dos franceses, um monumento ao emigrante. No Funchal, capital do arquipélago da Madeira, região indelevelmente marcada pelo fenómeno da emigração, desde a década de 1980 que subsiste um monumento ao emigrante madeirense, e que homenageia os emigrantes naturais da “Pérola do Atlântico” instalados por todo o mundo. Na mesma esteira, em Ponta Delgada, no Arquipélago dos Açores, existe desde o fim do séc. XX, um monumento aos emigrantes e que laureia o povo açoriano disperso pelo mundo.

Nesta última região autónoma, foi inaugurado no mês passado na Ribeira Grande, também na ilha de S. Miguel, a Praça do Emigrante, um espaço público urbano que homenageia os emigrantes açorianos que partiram em busca de melhores condições de vida, e cuja animação cultural passa a estar a cargo da AEA – Associação dos Emigrantes Açorianos, um organismo independente, com sede nas instalações do Museu da Emigração Açoriana.

Uma praça, cujo centro é ocupado por um imponente globo revestido a pedra de calçada portuguesa, com quatro metros de diâmetro, concebido por Luís Silva, e intitulado “Saudades da Terra”, expressão que Gaspar Frutuoso, personagem insigne do passado micaelense, utilizou no século XVI para resumir um sentimento maior, comum não só aos emigrantes açorianos, mas a todos os emigrantes portugueses.

Além do globo, a Praça do Emigrante é engrandecida por um desenho na calçada em redor, denominado “Shore To Shore”, da autoria do escultor canadiano Luke Marston, trineto do picoense Joe Silvey, um pioneiro da sociedade multicultural no Canadá. Assim como por uma “Calçada dos Mundos”, concebida por Liliana Lopes, e dois murais, um deles com bandeiras dos principais destinos da emigração açoriana (Bermudas, Brasil, Canadá, Estados Unidos da América, Havai e Uruguai).

O BANCO DO ESTADO

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Nenhum país conseguirá desenvolvimento digno de registo gerindo deficientemente o seu tempo normal de atividade. Jamais será possível uma nação atingir bons níveis de rentabilidade se não estiver bem organizada, com fluidez de processos e funcionamento regular da sua vida económica e social. Infelizmente, nesta matéria, apesar do empenho de alguns, ainda há entre nós um longo caminho a percorrer.

Avenida_GGD.jpg

A Caixa Geral de Depósitos, ainda no seu aspeto primitivo, instalada na Avenida dos Combatentes da Grande Guerra, com conclusão em 1938 do século passado. Uma entidade simpática aos olhos dos vianenses, com uma história que bem deveria ser cuidada. Esta imagem tem circulação de 1943

 

Sendo um atributo de todos, a organização terá sempre que começar por cima, já que não basta o voluntarismo para fazer funcionar uma estrutura imperfeita. Há anos que em Portugal se apresenta o simplex como a melhor solução para a desburocratização da nossa sociedade. Criam-se estruturas próprias para o fim, se calhar dispendiosas, cultiva-se o exibicionismo na apresentação de inúmeras medidas, mas quase sempre a “montanha pare um rato”. Algo se vai fazendo, mas muito pouco para as necessidades. Adiante.

Há dias um familiar meu perdeu todos os documentos. De imediato deu conhecimento aos dois bancos com quem se relacionava para imobilizar os seus cartões de crédito. A orientação foi validada mas, para a Caixa Geral de Depósitos, o banco do Estado – um elefante branco que quase só tem servido para dar dinheiro a ricos e sorver o dinheiro dos contribuintes –, o cancelamento era definitivo e novo cartão deveria ser requisitado, com custos estabelecidos. Já o banco privado, na expectativa da recuperação dos documentos, tem como prática esperar até 30 dias para repor a normalidade. Caso raro, os documentos apareceram, pelo que haveria que agir em conformidade com as regras.

O que foi fácil e rápido no privado acabou num tormento no banco público. No dia de requisição de novo cartão, como sempre, largas dezenas de pessoas aguardavam com impaciência para serem atendidas, olhando em desespero para o monitor que indicava a ordem de atendimento. Como o acomodamento para tanta gente é difícil, agravado face às novas regras sanitárias, a instabilidade foi uma constante. Rematando, o que ali se via era um quadro dantesco, de cariz terceiro-mundista. Nada que admire, porque quem por lá passa já sabe deste fadário.

Pese o empenho dos funcionários de serviço, foram horas de espera, com uma manhã perdida. Meio-dia consumido com a requisição de um simples cartão. Com Paulo Macedo, gestor “reputadíssimo”, ao que dizem, a CGD está a dar lucro e com proveito para o estado. Pois, calcule-se os milhões de horas perdidas por ano em todo o universo CGD, multiplique-se estas pelo mínimo de 5 euros/hora e constate-se quanto é que o banco do Estado dá ao país ou quanto o país fica a perder com o banco do Estado. Sinceramente, não é este sector público que, pessoalmente, reivindico.

goncalofagundes@gmail.com