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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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A ASSOCIAÇÃO DE APOIO À COMUNIDADE PORTUGUESA NA SUÍÇA

  • Crónica de Daniel Bastos

Dentro do espaço europeu, a Suíça, oficialmente Confederação Suíça, uma república federal composta por vinte e seis estados, chamados de cantões, perdura como um dos principais destinos da emigração portuguesa, como comprovam os mais de 200 mil lusos que vivem e trabalham no território helvético, essencialmente na hotelaria, restauração, construção civil, indústria manufaturada, serviços de limpeza e agricultura.

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A dinâmica da emigração portuguesa na Suíça, que se desenvolveu, sobretudo, a partir de meados dos anos 80, está patente na existência de mais de duas centenas de associações lusas disseminadas pelo território helvético. Como listou há poucos anos o investigador Eduardo Araújo na sua tese de mestrado "Transnacionalismo e Etnicidade. O Movimento Associativo Português na Suíça".

Na última década, no seio do numeroso movimento associativo luso-suíço, tem-se destacado o papel ativo da Associação de Apoio à Comunidade Portuguesa na Suíça (AACP). Uma associação sem fins lucrativos, fundada em 2011, que tem como principais objetivos defender os interesses dos emigrantes portugueses na Suíça, favorecer, informar e orientar a integração dos emigrantes, divulgar a língua e a cultura portuguesa, e criar iniciativas para reforçar a compreensão e a colaboração intercultural.

Presidida atualmente pelo diligente dirigente associativo luso-suíço Nuno Domingos, e com instalações e várias valências recentemente inauguradas em Vevey, uma cidade localizada no Cantão de Vaud, a Associação de Apoio à Comunidade Portuguesa na Suíça tem prestado um valioso auxílio a compatriotas que vivem com dificuldades no território helvético. O inestimável apoio social, jurídico, psicológico e alimentar que a AACP presta a vários portugueses na Suíça, como por exemplo, a compatriotas que se encontram detidos em prisões helvéticas, revela a existência de vários casos de dificuldades e insucesso da emigração portuguesa.

Situações de insucesso, que no caso helvético muitas das vezes são olvidadas pela imagem de Eldorado da Suíça, designadamente de país onde as oportunidades de emprego são grandes e os salários são altos. No entanto, a realidade quotidiana luso-suíça é também marcada pela precariedade, desemprego e elevado custo de vida, contexto que demanda um reforço do apoio das autoridades portuguesa e helvéticas às estruturas associativas que como a AACP lidam diariamente com as dificuldades reais.

VIDAS COM SENTIDO – 225 HSTÓRIAS DE EMIGRAÇÃO

  • Crónica de Daniel Bastos

No início do presente mês, foi apresentada na capital portuguesa a obra “Vidas Com Sentido - 225 histórias de emigração”, um livro que retrata mais de duas centenas de histórias de emigrantes portugueses nos Estados Unidos, uma por cada um dos anos do consulado luso em Nova Iorque, e que é coordenado pela antiga cônsul-geral de Portugal do estado americano, Manuela Bairos.

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A conceção e realização da obra provieram da comemoração do 225.º aniversário do Consulado-Geral de Portugal em Nova Iorque, uma avoenga estrutura consular lusa cujo percurso histórico e diplomático é revelador da presença portuguesa nos Estados Unidos.

Estima-se, que desde o primeiro quartel do séc. XIX, até ao último quartel do séc. XX, tenham emigrado para a América cerca de meio milhão de portugueses, a maior parte deles oriundos dos Arquipélagos dos Açores e da Madeira, e que ao nível socioeconómico se inseriram em atividades ligadas à pesca, indústria têxtil, pecuária e pequena indústria. Atualmente, a população luso-americana ultrapassará já um milhão de pessoas, estando a maioria concentrada na Califórnia, Massachusetts, Rhode Island e Nova Jérsia.

O recente projeto editorial, que foi desenvolvido durante dois anos, e contou com a colaboração do coordenador-adjunto do ensino de Português nos Estados Unidos da América, de professores e alunos de três escolas comunitárias portuguesas (Farmingville, Brentwood e Mineola), assim como de vários membros de clubes portugueses, assentou na recolha de testemunhos de emigrantes lusos, em particular das mais antigas gerações de emigrantes portugueses em Nova Iorque. Segundo a diplomata, atualmente embaixadora de Portugal no Chipre, o foco principal deste trabalho foi concentrado na primeira geração de emigrantes portugueses em Nova Iorque, porque “era muito importante fixar estas histórias” de compatriotas que “estão a acabar”.

Um trabalho que a mesma caracterizou como “comovente”, dado que permitiu aos filhos e netos conhecer melhor os percursos migratórios e de vida dos seus pais e avós, e que simultaneamente demonstra como as representações diplomáticas e consulares são fundamentais para a dinamização da história, cultura e língua portuguesa no mundo.

“LIBERDADE PARA PENSAR”: O “EXPRESSO” QUE NÃO EXPRESSA

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Na década de 1990, julgo, aconteceu-me estar a participar num encontro nacional de comunicação empresarial e aproveitar um dos intervalos para adquirir o semanário “Expresso”. Acompanhava-me um dos vários colegas com quem tinha feito parceria na fundação da Associação Portuguesa de Comunicação Empresarial, que, surpreso, me perguntou se ainda me restava paciência para ler este semanário. Agarrando o mote, respondi-lhe que era leitor permanente do mesmo desde a sua fundação, ademais, não havia imprensa independente nem isenta de erros. Nós próprios, à nossa pequena escala, nas nossas empresas, também nem sempre produzíamos a mais feliz e objetiva informação. “Pois, mas procuramos informar na base de fontes fidedignas e de factos reais. Se não estamos suficientemente informados não noticiamos. Esse deve ser sempre o nosso princípio capital”, respondeu-me.

Continuei a manter-me fiel a este jornal, como acontece com várias outras publicações. Contudo, em 2009, quando deparo com uma manchete de primeira página no “Expresso” sobre a construção nos ENVC do tão propalado navio “Atlântida”, tive a sensação do vazio e o alerta do meu colega veio-me de imediato à memória. Não queria acreditar. Conhecendo, por dever de função, com particular minúcia os meandros de todo este folhetim que, no mínimo, se pode considerar hediondo, confronto-me com uma notícia feita na base de fontes não identificadas, incongruente e cheia de inverdades, que enxovalhava um construtor naval com provas dadas no mundo inteiro, com um número significativo de navios premiados, quase todos para Armadores estrangeiros.

Já ao fim do dia, recebo um telefonema do meu amigo, que me quer manifestar toda a sua solidariedade, dado conhecer muito bem a real valia da empresa onde trabalhava há décadas, acabando a dizer-me: “bem o alertei para a pouca fiabilidade desta gente, apesar dos ares de grandeza a que se dão. Eles precisam como pão para a boca de notícias aparatosas para a primeira página, e esta, à falta de melhor, deu-lhes jeito. Quando na hora de fecho da edição, por falta de uma notícia de encher o olho, atingem o desespero, caem nestas tentações, sem cuidar de saber as consequências de tal. E não vale a pena desmentir seja o que for. A verdade deles é que vai prevalecer”. De facto, perante um processo kafkiano como foi o caso do Atlântida que, com uma justiça decente, devia condenar muita gente a duras penas de prisão, o “Expresso” nunca mais recuou na sua posição noticiosa. Não ouviu ninguém, nada indagou, não apreciou documentos, enfim, nada fez no sentido de prestar uma informação séria aos seus leitores e, informando, ajudar até a justiça a fazer o seu trabalho. Continuei a ser seu leitor, até porque aprecio a escrita de alguns dos seus cronistas, mas as minhas reservas em relação à dita informação de referência passaram a ser cada vez maiores.

Há algumas semanas Luís Montenegro escreveu no “Expresso” uma crónica sobre o êxito da solução que Aguiar Branco encontrou para os ENVC. Como senti que no escrito havia muito de fantasioso e inverídico, escrevi uma curta carta para o Correio dos Leitores do jornal, onde tentava clarificar alguns factos. Já sabia, obviamente, que o destino da mesma era o caixote do lixo, apesar da lisura do texto, já suficientemente preparado para a “tesoura” que quase sempre utilizam, com a alegação de caracteres em excesso. Felizmente, o país não tem só o “Expresso”. Pouco tempo antes, também sobre os ENVC, o Jornal de Notícias tinha-me publicado uma carta bem longa a clarificar igualmente várias inverdades do seu cronista Nuno Melo. Só que na nossa imprensa ainda temos estas “vacas sagradas”, em que se arma o “Expresso”.

Aqui chegados, perguntará o leitor se os jornais são para ler ou abater? Penso que são mesmo para ler. Devemos lê-los e o maior número possível. Só assim estaremos preparados para distinguir a boa da má imprensa e compreender melhor o curto fundo de verdade que, tantas vezes, uma notícia dita grandiosa comporta em relação à realidade. Por outro lado, uma democracia não se consolida sem imprensa, seja ela séria ou menos séria. Mas a menos verdadeira convém sempre denunciá-la, para que a boa imprensa marque permanentemente presença.

Gonçalo Fagundes

goncalofagundes@gmail.com

AS CELEBRAÇÕES DE ABRIL NAS COMUNIDADES PORTUGUESAS

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  • Crónica de Daniel Bastos

A Revolução de 25 de Abril de 1974, também conhecida como Revolução dos Cravos, uma data estruturante na história contemporânea portuguesa, porquanto norteou o país na senda da liberdade e da democracia, é uma das principais datas comemorativas de Portugal.

Ainda este ano, no decurso das recentes celebrações evocativas do 45.º aniversário do 25 de Abril foram várias as iniciativas que desde o meio associativo, ao poder local até à sessão solene na Assembleia da República, deram corpo à comemoração desta efeméride por todo o território nacional.

A preservação da memória da Revolução de 25 de Abril de 1974 tem tido igualmente uma considerável dinâmica e impulso no seio das comunidades portuguesas, como manifestam ao longo das últimas décadas as muitas iniciativas que são realizadas nesta época pelos quatro cantos do mundo.

Ainda este ano, um coletivo de músicos de Portugal e do Luxemburgo assinalaram o 25 de Abril com concertos nos dois países, homenageando os "cantautores" da Revolução dos Cravos. No espetáculo "Abri'Lux", que incluiu Fado e jazz, participaram a cantora de jazz Luísa Vieira e músicos do Luxemburgo, que trouxeram ao palco temas de Zeca Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Fausto, Mário Laginha e Carlos Paredes.

Em Londres, outro dos principais destinos da emigração portuguesa, desde há alguns anos que um coletivo de juventude conhecido por Migrantes Unidos, e um grupo de portugueses a residir em Londres por várias décadas, festejam simbolicamente o 25 de Abril.

A divulgação e defesa dos valores da Revolução dos Cravos estiveram inclusivamente, por exemplo, na base da formação na Suíça da Associação 25 de Abril em Genebra, no passado dia 27 de abril em colaboração com o Atlier-Histoire en mouvement organizaram uma sessão dedicada ao “Balanço das modificações em Portugal 45 anos depois da queda da ditadura e o papel das mulheres no processo revolucionário”.

Na esteira dos valores democráticos e da liberdade, desde 1994 que subsiste em Toronto, onde reside e trabalha uma das maiores comunidades lusas na América do Norte, a Associação Cultural 25 de Abril, que tem como principal missão preservar a memória da revolução portuguesa de Abril de 1974.

O I CONGRESSO MUNDIAL DAS REDES DA DIÁSPORA PORTUGUESA

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  • Crónica de Daniel Bastos

Nos dias 13 e 14 de julho realiza-se, na cidade do Porto, o I Congresso Mundial das Redes da Diáspora Portuguesa, uma relevante iniciativa que tem como objetivo reunir e colocar em interação os protagonistas das Redes dos Portugueses da Diáspora, enquanto agentes particularmente ativos e reconhecidos, quer na comunidade portuguesa em que se inserem, quer na sociedade do respetivo país de acolhimento, para proceder a uma reflexão alargada sobre o trabalho realizado até ao presente com as comunidades portuguesas e, sobretudo, debater perspetivas de colaboração futura, com formulação de sugestões e recomendações.

O congresso, que é organizado pela Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, e Direção-Geral dos Assuntos Consulares e das Comunidades Portuguesas, e conta com o apoio Câmara Municipal do Porto e da Ordem dos Contabilistas Certificados, computa sessões de trabalho temáticas dedicadas às redes de Associativismo da Diáspora, Ciência e Conhecimento – Investigadores e Académicos da Diáspora; Economia e Desenvolvimento – Empreendedores da Diáspora; Cidadania – Luso Eleitos e Conselheiros das Comunidades Portuguesas; Apoio Local - Gabinetes de Apoio ao Emigrante; e Órgãos de Comunicação Social da Diáspora.

Aquando da sessão de apresentação da iniciativa, que decorreu no início do presente ano, o Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Luís Carneiro, sustentou a realização da iniciativa com o contributo incontornável da diáspora portuguesa no desenvolvimento e afirmação do país por todo o mundo.

Segundo o governante o contributo da diáspora portuguesa é "um dos mais importantes alicerces de afirmação linguística, cultural, económica e empresarial, política e institucional" nacional à escala global. Pelo que “reunir todas estas redes na cidade do Porto, avaliar o trabalho que tem sido desenvolvido com cada uma e termos uma leitura prospetiva para o futuro, ou seja, como poderemos dar outra eficácia de inserção de Portugal na vida internacional", é indubitavelmente um mais-valia para o esforço contínuo de desenvolvimento e afirmação do país por todo o mundo.

Subscrevendo as palavras do Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, acrescentaria que num mundo altamente interligado e em incessante interconexão global, o contributo da diáspora portuguesa é primordial para o provir nacional.

REGIONALISMO MINHOTO EM LISBOA: CASAS REGIONAIS OU “CASAS DE PASTO”?

As casas regionais – provinciais, comarcãs ou concelhias – definem-se geralmente como pessoas colectivas, com personalidade jurídica, sem fins lucrativos, e têm como objetivo principal a defesa e valorização dos interesses económicos, sociais e culturais da região que dizem representar, conforme é aliás invariavelmente consagrado nos respectivos estatutos.

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Invariavelmente, todas essas associações propõem-se, de acordo com os seus próprios fins estatutários, promover o estudo dos recursos naturais, com vista a fomentar o desenvolvimento económico, social e cultural da região; defender e valorizar o património histórico-monumental e artístico do Concelho; patrocinar realizações de caráter cultural, artístico e recreativo, concorrendo assim para uma maior formação dos sócios e habitantes da região; solicitar a colaboração dos organismos oficiais, no sentido de fazer acelerar e executar os fins da Associação; prestar toda a colaboração às iniciativas que visem o desenvolvimento do concelho; fomentar a solidariedade de todos os sócios e habitantes da região e concorrer para a sua maior formação, designadamente através da aproximação das associações locais.

Constata-se, porém, quem nem todas as casas regionais minhotas – são estas que particularmente nos interessa tendo em vista a nossa abrangência geográfica! – perseguem as finalidades a que se propuseram, funcionando nalguns casos como meras “casas de pasto” para refastelo de alguns comensais. Não vamos aqui identificar essas tabernas – pelo menos por enquanto! – porque fazemos votos que as mesmas venham a encontrar o rumo que lhes é devido…

Existem associações ditas regionalistas que, à maneira dos velhos “grupos almoçaristas” que se juntavam nas tabernas dos bairros lisboetas, não fazem mais do que uma patuscada anual para os amigos e quanto muito uma “suecada”. Mas, aos seus responsáveis não lhes falta o descaramento em afirmar-se regionalistas e garantir a pés juntos que estão a defender a região… sempre que engolem mais uma malga de verdasco! E, na hora devida, nunca se descuidam em aprontarem-se de plantão à porta da respectiva câmara municipal, de mão estendida, à espera do habitual subsídio… muito embora, em parte dos casos, já nem ligação tenham a esse concelho que dizem representar: os originários e seus descendentes já foram abandonando tais associações, deixando-as entregues a estranhos!

Os subsídios atribuídos pelas autarquias locais resultam dos impostos dos contribuintes e bem poderiam ser melhor aplicados em associações locais que prestam relevantes serviços à comunidade, que apresentam e cumprem projectos válidos para a região. Pois, quem quer comer e beber deve pagar do seu próprio bolso!

Se uma associação não cumpre os objectivos para que foi criada, não tem mais razão de existir. E, muito menos, usar indevidamente a denominação e símbolos de uma região para fins estranhos àqueles a que se propôs no acto da sua fundação. Elas constituem um meio e não um fim em si mesmas. Fazemos votos para que, das duas uma: corrijam o rumo em proveito da região que dizem representar ou simplesmente desapareçam e deixem de constituir mais um fardo para a nossa região!

Carlos Gomes

EMPREENDEDORISMO NA DIÁSPORA PORTUGUESA

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  • Crónica de Daniel Bastos

Cada vez mais encarado como a chave para o futuro, o empreendedorismo é a palavra de ordem em Portugal e no Mundo, e veio para ficar. Dos estudantes aos empresários, dos jovens desempregados aos de longa duração, da escola è empresa, dos docentes aos decisores económicos, políticos e sociais, a ideia chave é a mesma: é fundamental fortalecer e disseminar uma cultura empreendedora.

Este novo olhar universal, alicerçado no conhecimento e na inovação, na promoção e construção de ideias, na avaliação de oportunidades, na mobilização de recursos, na assunção de riscos e na concretização de iniciativas diferenciadas e de sucesso, tem implementado novos negócios, empresas e projetos que têm dinamizado e impulsionado as economias dos países.  

Portugal não foge à regra. O nosso país apresenta na atualidade, ao nível do empreendedorismo, muitos e bons exemplos de casos de sucesso que através da sua capacidade de iniciativa, risco e novas tecnologias, criam os seus próprios projetos que vão dando cartas inclusive além-fronteiras. Um desses mercados, que pelas suas inúmeras potencialidades começam a captar a atenção dos empreendedores lusos, é o da Diáspora Portuguesa, o chamado “mercado da saudade”, formado por milhões de portugueses a viver no estrangeiro. 

Um desses exemplos e potencialidades está a ser dinamizado nos últimos anos através do Acervo do Café, um projeto singular ligado ao café, um produto que faz parte indelevelmente da cultura portuguesa, e que foi fundado em 2016 pelo emigrante colecionador e empreendedor luso-suíço Manuel Guedes.

Projetado inicialmente como um acervo museológico de enorme relevância para a história do café português, motivado pelo espirito de colecionador, propensão que esteve na base da compra ou doação de documentos e objetos que estabelecem a relação entre Portugal e o café ao longo do tempo. Encontra-se já no horizonte próximo do Acervo do Café a comercialização de um "Blend" e a efetivação da marca numa perspetiva comercial, em estreita ligação com as comunidades portuguesas, através da elaboração de um produto assente nas características únicas e diferenciadoras do café expresso luso, um produto de eleição dos portugueses espalhados pelo mundo.

A COMUNIDADE PORTUGUESA NA AUSTRÁLIA

  • Crónica de Daniel Bastos

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No decurso do presente mês de março, o operador de serviço público de Rádio e Televisão de Portugal dedicou uma especial atenção à comunidade portuguesa na Austrália, através da realização de uma emissão, a partir do bairro mais de português de Sidney, o bairro de Petersham, onde se realiza anualmente o Festival do Bairro Português, ponto de reunião para milhares de portugueses e de outras comunidades desejosas de conviver com a cultura e tradições lusas.

Desde logo, é de enaltecer por parte do canal de televisão público, a realização de uma emissão dirigida às comunidades portuguesas. Porque, embora se enquadre no âmbito da missão da estação pública ao nível do reforço da coesão e identidade nacionais, a realização destas emissões são fundamentais para o esforço de aproximação às comunidades portuguesas, um dos mais importantes ativos estratégicos da política externa lusa. Sendo, nesse sentido, fundamental que as mesmas continuem a cobrir outras relevantes iniciativas socioculturais dinamizadas pelas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. 

No caso concreto do maior festival português realizado no continente-ilha, situado no hemisfério sul, na Oceânia, o programa televisivo teve o condão de desvendar uma comunidade luso-australiana, cujas raízes remontam à segunda metade do séc. XX com a chegada de um grupo de emigrantes da Ilha da Madeira à cidade portuária de Freemantle, perfeitamente estabilizada, integrada e organizada.

De facto, apesar de pequena, dados oficiais apontam para que vivam atualmente pouco mais de 55 mil portugueses na Austrália, a comunidade lusa encontra-se disseminada por metrópoles como Perth, Melbourne ou Sydney, onde é possível encontrar centros culturais e recreativos, restaurantes e bairros onde se pode falar exclusivamente a língua de Camões.

A abertura em 1997 do Museu Etnográfico Português em Sydney, e a realização desde 2002 do maior festival português, o Bairro Português Petersham Food & Wine Fair organizado anualmente pela câmara de Marrickville, evidenciam o orgulho na herança e raízes da comunidade luso-australiana. Assim como, a influência que a mesma tem exercido na Austrália, uma das economias mais desenvolvidas do mundo, ao longo das últimas décadas em áreas de atividade como a gastronomia e a restauração.

O QUE SENTE QUEM VIVE EMIGRADO

  • Crónica de Daniel Bastos

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O imperioso processo sociocultural de reconhecimento, valorização e dignificação da emigração que se tem encetado na sociedade portuguesa ao longo das últimas décadas, aliado ao peso estruturante que o fenómeno ocupa no provir nacional, tem concorrido para o surgimento de um conjunto significativo de teses de doutoramento e dissertações de mestrado sobre a emigração lusa.

Este relevante conjunto de trabalhos académicos, sustentados ainda com a realização de seminários, congressos e artigos científicos, representam um novo conhecimento para a área de estudo da emigração, tanto que os mesmos perpassam várias áreas de investigação e de conhecimento, como é o caso, da História, da Sociologia, da Linguística ou da Psicologia.

É no campo desta última ciência que estuda o comportamento e os processos mentais dos indivíduos, que decorre neste momento um original estudo / projeto, no âmbito do Doutoramento em Psicologia Social do académico Carlos Barros. O investigador do Centro de Investigação em Ciência Psicológica da Universidade de Lisboa pretende com a sua tese de especialização, saber como é que as pessoas (emigrantes e família em Portugal) se sentem integradas e “conectadas”, como se veem em família e como cidadãos.

Para atingir estes objetivos, o jovem investigador criou um inquérito com questões cuidadosamente elaboradas e adaptadas de autores de referência, que pretendem ir ao encontro dos temas mais importantes de se conhecer nestas realidades. No caso concreto dos emigrantes, procura também, através da construção e desenvolvimento dos dados abonados pelo inquérito, saber como estes se sentem nos países onde vivem.

Não sendo ainda conhecidas as conclusões deste original trabalho académico, compartilho o excerto vivencial do fotógrafo e contador de histórias, Marco Gil, que aventa que "O coração de um emigrante tem residência fixa, conhece o cheiro do país pelo detalhe e, se olharmos para o lado, vive sempre um perto de nós. E ainda que não lhe conheçamos a presença nunca na verdade lhes sentimos a ausência. Sei que nós, os que ficamos, sentimos a amargura daquela gente mas a dimensão da tristeza de quem tem que partir e ficar para trás é de um sentimento avassalador."

MUSEU DA EMIGRAÇÃO AÇORIANA: UM ESPAÇO DE MEMÓRIAS DA EMIGRAÇÃO PORTUGUESA

  • Crónica de Daniel Bastos

O historiador Daniel Bastos (esq.) no MEA-Museu da Emigração Açoriana, acompanhado de Rui Faria, coordenador do espaço museológico e presidente da AEA-Associação dos Emigrantes Açorianos, estabeleceu no início do presente mês de março uma parceria de cooperação com o MEA e tornou-se sócio da AEA.

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A emigração tem sido ao longo do tempo um fenómeno constante no modo de vida de milhares de açorianos. Embora as suas origens remontem aos primórdios do povoamento do arquipélago português situado no Atlântico nordeste, o seu carácter sistemático consubstanciou-se entre os séculos XIX e XX com o surgimento dos cinco grandes destinos da emigração açoriana: Brasil, Estados Unidos da América, Bermudas, Havai e Canadá.

Atualmente estima-se que cerca de 1,5 milhões de açorianos e seus descendentes residam no estrangeiro, números reveladores da grandeza da diáspora açoriana, muito mais se considerarmos que residem no arquipélago cerca de 250 mil pessoas, e que ajudam a compreender a razão destas numerosas comunidades serem denominadas “a 10.ª ilha dos Açores”.

Como sustenta António Machado Pires, acerca da “Emigração, Cultura e Modo de Ser Açoriano”, os “açorianos da emigração são hoje, pelo seu número e pela sua diversidade, um vasto prolongamento da unidade e da diversidade dos Açores. São continuadores, descendentes, representantes de um conjunto de tradições, de uma língua e de uma cultura”.

A mundividência e relevância da diáspora açoriana encontram-se plasmadas na missão e objetivos do Museu da Emigração Açoriana. Inaugurado em 2005, no antigo Mercado de Peixe da Ribeira Grande, o espaço museológico, aberto à união de esforços e trabalhos em parceria no âmbito da história da emigração portuguesa, preserva através de fotografias, documentos, roupas e memórias de diversos tipos, as trajetórias de milhares de açorianos que ao longo do devir histórico saíram do arquipélago para o estrangeiro em busca de melhores condições de vida.

O Museu da Emigração Açoriana, ao estruturar uma visão geral sobre as razões e destinos da diáspora açoriana, constitui não só, um elemento-chave na história da emigração açoriana, como valida a sua considerável base de dados com fichas de emigrantes e os requerimentos para emigração realizados no século XIX. Como também representa um elemento-chave para a compreensão e identidade do arquipélago, e do demais território nacional, ou não fosse a emigração um fenómeno constante da vida portuguesa.

A VOLTA AO MUNDO DE FERNÃO DE MAGALHÃES

  • Crónica de Daniel Bastos

No segundo semestre deste ano assinalam-se os 500 anos da primeira viagem de circum-navegação do mundo, iniciada pelo navegador português Fernão de Magalhães em setembro de 1519 e concluída pelo explorador espanhol Sebastián Elcano, em setembro de 1522, após a morte do navegador luso.

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Polémicas estéreis à parte, que recentemente sobrevieram na imprensa luso-espanhola a pretexto de uma pretensa “monopolização” portuguesa das Comemorações do V Centenário da Circum-Navegação, as fontes históricas sustentam que o intrépido navegador, nascido no seio de uma família nobre no norte de Portugal, realizou a primeira volta histórica ao mundo, ao serviço do rei Carlos I de Espanha, vindouro Imperador Carlos V do Sacro Império Romano-Germânico.

 O propósito da audaciosa viagem, que representou um dos maiores feitos da humanidade, visava demonstrar que as atuais ilhas Molucas, na Indonésia, à época conhecidas como as “Ilhas das Especiarias”, se encontravam do lado espanhol do mundo, podendo ser alcançadas navegando para ocidente. Indo assim ao encontro dos termos do Tratado de Tordesilhas, que no final do séc. XV, com o beneplácito papal, dividiu o mundo “descoberto e por descobrir” em duas partes, com os direitos de exploração, de cada uma delas, destinadas a Portugal (Oriente) e a Espanha (Ocidente).

Liderando uma frota de cinco navios, com 256 homens a bordo, Fernão de Magalhães dobrou a América do Sul, atravessando o estreito que hoje tem o seu nome, conseguindo desse modo alcançar após três meses de navegação no oceano Pacífico o arquipélago das Marianas, situadas na região do Oceano Pacífico ocidental. No entanto, Magalhães não sobreviveria ao fim da viagem, tendo sucumbido em 1521 nas Filipinas, já na rota de regresso a Espanha, tendo então o comando da expedição sido assumido por Elcano, que regressou a Sevilha em setembro de 1522, acompanhado de apenas 18 homens.

A volta ao mundo de Fernão de Magalhães deve obviamente ser comemorada e compartilhada por Portugal e Espanha, nações europeias pioneiras nos descobrimentos marítimas, que têm que assentar o seu valioso legado histórico no diálogo hodierno sobre a globalização, a diversidade cultural e a sustentabilidade ambiental.

O FUTURO DO MOVIMENTO ASSOCIATIVO DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS

  • Crónica de Daniel Bastos

O movimento associativo das comunidades portuguesas constitui um dos mais importantes elos de ligação dos inúmeros compatriotas espalhados pelos quatro cantos do mundo à língua, cultura, história e memória da pátria de origem, e simultaneamente uma das marcas mais expressivas da inserção nos territórios de acolhimento onde encetaram os seus percursos de vida e de trabalho.

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Espaços privilegiados de cultura e participação cívica, o movimento associativo é a argamassa identitária que une as comunidades portuguesas, catapultando as mesmas para um patamar de “verdadeiras embaixadoras de Portugal pelo mundo fora”, como sobrelevou numa das últimas comemorações do 10 de Junho o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

No entanto, é percetível no seio das comunidades portuguesas que o movimento associativo da diáspora enfrenta, hoje, um desafio fundamental para a sua própria sobrevivência futura, que advém essencialmente do envelhecimento dos seus quadros dirigentes e das dificuldades em captar a participação dos lusodescendentes. Este último ponto está inclusivamente neste momento, a ser alvo de uma pesquisa por parte do conselheiro das Comunidades Portuguesas no Canadá, Daniel Loureiro, luso-canadiano a residir em Montreal, que pretende através desta via "descobrir porque não há uma maior adesão dos lusodescendentes aos eventos da comunidade".

Segundo o mais jovem dos conselheiros das Comunidades Portuguesas, os jovens da comunidade "são orgulhos das suas raízes e de pertencerem à comunidade portuguesa", porém há que "preencher esse orgulho" com atividades para "manterem viva a comunidade" que dentro de 40 ou 50 anos terá que se "rejuvenescer".

O rejuvenescimento do movimento associativo das comunidades portuguesas é condição sine qua non para a sua sobrevivência, exigindo aos seus membros uma vivência cultural que seja capaz de ultrapassar os impactos e conflitos geracionais. Torna-se assim, indispensável a diversificação de atividades de animação sociocomunitária, que possam conciliar a cultura tradicional enraizada no movimento associativo, com novas dimensões socioculturais, como o cinema, a literatura, o design, a dança, o teatro, a arte ou a moda, entre outros, de modo a atrair as jovens gerações de lusodescendentes e as mesmas impulsionarem a presença portuguesa no mundo.

FOLCLORE: SERÁ QUE O TRAJE EVOLUI SEMPRE?

Existe uma certa ideia segundo a qual o traje classificado por tradicional evolui sempre pelo que, em consequência, defender as tradições seria preservá-las no nosso tempo tal como elas existiam antigamente. Sucede que essa maneira de pensar constitui um absurdo, a não ser que pretendamos confinar o povo de uma determinada região a uma espécie de “reserva” onde poderiam ser contemplados por curiosos turistas visitantes desses parques, como sucede nalguns locais dos Estados Unidos da América.

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As transformações sociais como a revolução industrial é exemplo, ditam frequentemente o desaparecimento de alguns costumes, incluindo o trajar, porque o trabalho artesanal e doméstico foi substituído pelos teares industriais e a criatividade do povo pela influência das nações mais industrializadas que exportam as suas modas e formas de viver. E o capitalismo enriquece com a produção padronizada e a massificação de hábitos e costumes, sendo por conseguinte avesso à preservação da diferença, incluindo a identidade dos povos!

Não raramente, certos costumes ficam lá atrás, cristalizados no tempo. É o que sucede, a título de exemplo, com a forma de trajar e o traje propriamente dito. Não mais se vêem lavradeiras no Minho com o seu trajar garrido como outrora a não ser nas festas e romarias como elemento folclórico. Mas, a função do rancho folclórico é o de preservar a memória de uma forma viva e atraente, de uma peça museológica que pertence ao passado, sem pretender alterar a marcha da História trazendo para o presente aquilo que não faz parte do seu quotidiano.

- Defender as tradições não é jamais pretender regressar à Pré-História!

Foto: Sérgio Moreira

REAL GABINETE PORTUGUÊS DE LEITURA DO RIO DE JANEIRO: UM BALUARTE DA CULTURA LUSÓFONA

  • Crónica de Daniel Bastos

O Real Gabinete Português de Leitura, fundado em 14 de maio de 1837, por cerca de 40 emigrantes portugueses do Rio de Janeiro, assume-se desde a sua génese até aos dias de hoje como um incontornável baluarte da cultura lusófona.

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Localizado no centro da “Cidade Maravilhosa”, o Real Gabinete Português de Leitura visou numa primeira fase a criação de uma biblioteca para ampliar os conhecimentos dos seus sócios, e dar oportunidade aos portugueses residentes na então capital do Império do Brasil de ilustrar o seu espírito. No entanto, ainda no alvorecer do séc. XX transformou-se uma biblioteca pública, tornando-se num polo dinamizador de cultura, um centro de socialização e um espaço de fruição aberto a todos os povos.

No decurso da inauguração do sublime edifício do gabinete, projetado pelo arquiteto português Rafael da Silva e Castro, e erguido no último quartel do séc. XIX em estilo neomanuelino, o escritor Ramalho Ortigão, um dos vultos mais destacados da Geração de 70 que foi convidado como orador oficial da solenidade, atestou no seu discurso a magnitude do Real Gabinete Português de Leitura: “Se um dia o nome de Portugal houver de desaparecer da carta política da Europa, esta Casa será ainda como a expressão monumental do cumprimento da profecia: (…) não se acabe a Língua, nem o nome português na terra”.

Esta escala imponente de magnitude cultural lusófona encontra-se patente no valioso acervo bibliográfico do Real Gabinete Português de Leitura, que contém cerca de 350 mil volumes entre obras raras, manuscritos, cartas e primeiras edições. Ainda nos primeiros anos da sua fundação, o Real Gabinete Português de Leitura adquiriu milhares de obras, algumas raras, entre os quais se destaca a primeira edição ou edição prínceps de “Os Lusíadas”, o clássico maior da língua portuguesa, escrito por Luís de Camões, que viu a luz do dia em março de 1572, e que pertenceu à Companhia de Jesus.

Mais recentemente, nomeadamente em 2014, o Real Gabinete Português de Leitura foi considerado pela revista Time, uma das mais conhecidas revistas de notícias semanais do mundo, publicada nos Estados Unidos da América, como uma das bibliotecas mais bonitas do mundo, destacando a sua história, arquitetura e acervo bibliográfico que a entronizam como um incontornável baluarte da cultura lusófona.

Fotos: Wikipédia

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MEMÓRIAS E RECORDAÇÕES DA EMIGRAÇÃO PORTUGUESA NA ALEMANHA

Ao longo dos últimos anos a Alemanha tem-se tornado um dos principais destinos da emigração portuguesa, contexto para que muito concorre o facto de ser um dos principais motores da economia europeia, e um dos países mais desenvolvidos do mundo.

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Em 2015, segundo dados do Observatório da Emigração, residiam no território alemão mais de 130 mil cidadãos portugueses, maioritariamente em idade ativa, com uma proporção de homens ligeiramente superior à de mulheres, sobretudo concentrados no estado da Renânia do Norte-Vestefália e em Bade-Vurtemberga.

 A emigração portuguesa para a Alemanha remonta à década de 1960, durante o período dos acordos de recrutamento de trabalhadores do Governo alemão, que visavam suprir o défice de trabalhadores de que a República Federal Alemã não dispunha para a sua reconstrução. É nesta época, que se enquadra a conhecida história do português Armando Rodrigues de Sá, natural de Vale de Madeiros, distrito de Viseu, que a 10 de setembro de 1964, ao desembarcar na estação de Colónia-Deutz recebeu o título de milionésimo imigrante na Alemanha, numa receção que incluiu banda de música e até a oferta de uma motorizada que hoje se encontra na Casa da História de Bona.

A génese da emigração portuguesa para a Alemanha encontra-se vertida no livro "A Vida Numa Mala - Armando Rodrigues de Sá e Outras Histórias" da jornalista portuguesa Cristina Dangerfield-Vogt e da historiadora alemã Svenja Länder, que abordam as histórias dos emigrantes lusos nos anos 60 em território alemão, e em particular do português que ainda figura nos manuais escolares alemães como o milionésimo imigrante a entrar na Alemanha.

No ocaso do ano passado, as memórias e recordações da primeira vaga da emigração portuguesa para a Alemanha foram revisitadas na exposição "Heimat|Fremde", do  Museu Humpis-Quartier, na cidade de Ravensburg. Através de fotografias antigas e testemunhos gravados em vídeos das primeiras gerações lusas que se deslocaram para esta região no sul da Alemanha, próxima da Suíça, Áustria e França, revalorizou-se o contributo relevante que os emigrantes portugueses ao longo de mais de meio século têm dado para o progresso da sociedade alemã.

ALEXANDRE FRANCO: UM DOS GRANDES ROSTOS DO JORNALISMO LUSO-CANADIANO

  • Crónica de Daniel Bastos

No decurso desta semana, fomos surpreendidos com a triste notícia do falecimento, aos 73 anos, de Alexandre Franco, um dos grandes rostos do jornalismo na comunidade portuguesa no Canadá. Uma comunidade que se destaca na América do Norte pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico, e que já no ano transato assistiu ao desaparecimento de uma outra figura incontornável do jornalismo luso-canadiano, mormente Fernando Cruz Gomes, decano dos jornalistas da comunidade portuguesa em Toronto.

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Natural da cidade moçambicana da Beira, num período em que o território localizado no sudeste do continente africano permanecia uma província ultramarina portuguesa, Alexandre Franco, iniciou no final dos anos 60 a sua profícua carreira jornalística em Lourenço Marques, hoje Maputo, na Rádio Clube de Moçambique.

O conturbado processo de descolonização trá-lo-ia numa primeira fase à pátria lusitana onde começou a trabalhar na Antena 1 e a treinar o Basquetebol Queluz, uma outra área em que se destacou como atleta e treinador, e que marcou a sua predileção pelo jornalismo desportivo. Pouco tempo depois emigraria para a América do Norte, primeiro para Montreal a maior cidade da província do Quebeque e a segunda cidade mais populosa do Canadá, onde foi colaborador da Rádio Portugal de Montreal.

E posteriormente para Toronto, a maior cidade canadiana, onde foi gerente da Rádio Clube Português de Toronto em 1983 e pouco mais tarde após licença para uma rádio FM na CIRV. Trabalhou ainda a partir dos finais dos anos 90 na OMNI-TV, onde esteve como apresentador das notícias desportivas, década em que começou a publicar um jornal luso-canadiano, na altura designado Stadium, apenas desportivo.

 Presentemente o generalista Milénio Stadium, assume-se como um jornal de referência da comunidade luso-canadiana, integrado na MDC Group do comendador Manuel da Costa, um dos mais ativos e beneméritos empresários portugueses em Toronto. Rosto público e estimado no seio da comunidade luso-canadiana, Alexandre Franco, que foi distinguido em 2010 pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal como o melhor jornalista da diáspora lusa, sublimou ao longo da sua vida a epígrafe de Victor Hugo: “A imprensa é a imensa e sagrada locomotiva do progresso”.

HOSPITAIS E SAÚDE NO OITOCENTOS: DIÁLOGO ENTRE BRASIL E PORTUGAL

  • Crónica de Daniel Bastos

No ocaso do ano passado, a editora Fiocruz, que concentra a maior parte dos lançamentos da Fundação Oswaldo Cruz, a mais importante instituição de ciência e tecnologia em saúde da América Latina, e uma das principais instituições mundiais de pesquisa em saúde pública, localizada no Rio de Janeiro, lançou o livro “Hospitais e Saúde no Oitocentos: diálogos entre Brasil e Portugal”.

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Organizado pelo arquiteto Renato Gama-Rosa, investigador da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), e Cybelle Miranda, investigadora da Universidade Federal do Pará (UFPA), o livro é constituído por sete capítulos. Designadamente, “Edifícios da Saúde no Rio de Janeiro Oitocentista” de Inês El-Jaick Andrade, Renato da Gama-Rosa Costa e Éric Alves Gallo; “Hospitais na Belém Oitocentista: classicismo e diálogo entre matrizes luso-brasileiras” de Cybelle Salvador Miranda; “Da Instituição Asilar ao Movimento Antimanicomial: a reconstituição da memória do Hospital Juliano Moreira do Pará” de Emanuella da Silva Piani Godinho e Cybelle Salvador Miranda; “Arquitetura da Saúde como Patrimônio: Hospital D. Luiz I da Benemérita Sociedade Portuguesa Beneficente do Pará” de Cibelly Alessandra Rodrigues Figueiredo; “A Casa da Misericórdia no Contexto da Arquitetura Portuguesa da Saúde na Centúria do Oitocentos em Portugal”  de Joana Balsa de Pinho e Fernando Grilo; “O Hospital da Misericórdia de Fafe e a Contribuição da Benemerência Brasileira em Portugal no Século XIX” de Daniel Bastos; e “A Arquitetura Assistencial em Portugal no Início do Século XX: o Sanatório de Sant’Ana” de Maria João Bonina e Fernando Grilo.

Ao longo dos sete capítulos do livro, os cientistas sociais luso-brasileiros revisitam a benemérita rede de dezenas de hospitais e associações de beneficência, que emigrantes portugueses na transição do séc.XIX para o séc. XX construíram em várias cidades brasileiras, principal destino da emigração lusa na época, que originalmente se destinavam à ajuda mútua entre os sócios, membros da comunidade portuguesa, e que ainda hoje são instituições de referência no Brasil e na América do Sul. Assim como o contributo da filantropia dos “brasileiros de torna-viagem”, emigrantes portugueses enriquecidos no Brasil, que no alvorecer do séc. XX estiveram, entre outras obras beneméritas, na base da construção de hospitais nas suas terras de origem.

O NOVO CICLO DA COMUNIDADE DOS PAÍSES DE LÍNGUA ORTUGUESA

  • Crónica de Daniel Bastos

O início de 2019 assinalou oficialmente a entrada em funções do novo secretário executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), o diplomata Francisco Ribeiro Telles, cargo que pela primeira vez nos mais de vinte anos da organização, é assumido por um português.

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Fundada em 1996, a CPLP é atualmente uma organização formada por nove países espalhados pelos cinco continentes, cuja língua oficial ou uma delas, é a língua portuguesa. Nomeadamente Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, que se encontram irmanados no desígnio da língua portuguesa, a quinta mais falada do mundo, enquanto vínculo histórico e património comum dos Estados-membros, assim como da amizade e cooperação.

Num mundo profundamente globalizado e interligado, onde surgem constantes desafios e oportunidades, a CPLP assume assim um papel relevante na dimensão e concertação que confere aos países que a compõem, como é o caso de Portugal. A enorme vitória diplomática que constituiu a eleição do português António Guterres para secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em 2016, não pode ser dissociado do dinamismo e magistratura de influência da CPLP. 

O papel da CPLP no mundo atual foi modelarmente expresso por António Guterres, no ano passado, no âmbito do Dia da Língua Portuguesa e da Cultura da CPLP (5 de maio). No discurso que então proferiu nos jardins da ONU, o secretário-geral sustentou: “É necessário dizer que nós na CPLP nos orgulhamos da nossa diversidade, reconhecemos que as nossas próprias sociedades são multiétnicas, multiculturais, multirreligiosas, e que isso é um bem, não é uma ameaça, e que isso deve ser valorizado, e afirmado, e que isso deve ser uma lição para outras partes do mundo, outros povos, outras culturas. E penso que a CPLP tem aqui um papel essencial a desempenhar".

Neste sentido, o novo ciclo que agora se inicia na CPLP é da maior importância para a prossecução da missão da organização. As prioridades do mandato assumidas por Francisco Ribeiro Telles, como a livre circulação de pessoas, a projeção da língua portuguesa e o diálogo sobre os oceanos, parecem ir ao encontro deste papel essencial que a CPLP deve continuar a desempenhar no mundo.

JOHN PHILIP SOUSA, UM INSIGNE LUSO-AMERICANO

  • Crónica de Daniel Bastos

No início do mês passado assinalaram-se os 164 anos do nascimento de John Philip Sousa, insigne compositor e maestro de banda luso-americano, do romantismo tardio, popularmente conhecido como “O Rei das Marchas”, como The Stars and Stripes Forever, marcha oficial dos Estados Unidos.

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John Philip Sousa nasceu em Washington, a 6 de novembro de 1854, terceiro dos dez filhos do português, natural dos Açores, João António Sousa e de uma austríaca, Marie Elisabeth Trinkaus. A sua precoce vocação musical levou a que ainda muito jovem se iniciasse nos estudos musicais, tocando violino, e aprendendo composição musical.

Em 1892, o musicógrafo luso-americano apresentou, em New Jersey, a sua própria banda, a “Sousa Band”, encetando um percurso musical fulgurante. Desde essa data até à década de 1930, realizou mais de quinze mil concertos, sendo que no ocaso do séc. XIX a sua banda representou os Estados Unidos da América na Exposição Universal de Paris.

Antes em 1888, tinha já composto a marcha “Semper Fidelis” que foi adotada como hino da Marinha dos Estados Unidos da América. A 14 de maio de 1897, em Filadélfia, no decurso da inauguração solene de uma estátua de George Washington, primeiro Presidente dos Estados Unidos da América, em que esteve presente o presidente norte-americano dessa época, William McKinley, foi tocada pela primeira vez em público a marcha intitulada The Stars and Stripes Forever (Estrelas e Barras para Sempre), considerada a obra-prima do luso-americano, e que mereceu as honras, por lei do Congresso dos Estados Unidos, de marcha nacional do país.

Afamado compositor e maestro, John Philip Sousa, escreveu também obras poéticas, de ficção, manuais, crónicas jornalísticas e uma autobiografia, tendo inclusivamente idealizado um instrumento de sopro da família dos metais, o Sousafone, uma tuba especial que o executante apoia no ombro para que possa executá-la enquanto anda ou marcha, e que é o maior dos instrumentos de sopro.

John Philip de Sousa, que faleceu no dia 6 de março de 1932, e foi sepultado com honras oficiais em Washington, no Cemitério do Congresso, é meritoriamente uma das figuras luso-americanas de maior destaque na cultura e história norte-americana.

A REDE MUNDIAL DE LUSO-ELEITOS

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  • Crónica de Daniel Bastos

No decurso dos últimos anos tem sido pública e notória a intervenção de portugueses e lusodescendentes na vida política além-fronteiras, fenómeno revelador da admirável integração das comunidades portuguesas e do papel importante que as mesmas desempenham no desenvolvimento das sociedades de acolhimento.

Este fenómeno crescente de participação cívica e política perpassa as várias comunidades portuguesas espalhadas pelo Mundo. No rescaldo das recentes eleições intercalares dos Estados Unidos da América, subiu para quatro o número de congressistas de origem lusa com assento na Câmara dos Representantes, em Washington, naquela que é já considerada a maior representação de sempre de legisladores a nível federal saídos de comunidades portuguesas.

Em França, destino tradicional da emigração portuguesa, a ação cívica e política lusa logrou no alvorecer do séc. XXI a criação da Associação CÍVICAAssociação dos Autarcas Portugueses em França, que conta com mais de trezentos membros ativos e cerca de dois milhares que enviam informações, num universo de quatro milhares de autarcas de origem portuguesa em território gaulês.

Nas últimas eleições autárquicas de Ontário, a província mais populosa do Canadá, cinco lusodescendentes foram eleitos numa região onde vive e trabalha uma das mais dinâmicas comunidades portuguesas da América do Norte. Um cenário similar ao que ocorreu nas eleições municipais belgas, onde foram eleitos sete candidatos portugueses e lusodescendentes, ou no Reino Unido, onde foi eleito o primeiro “Mayor” português, em Bridgwater, e um vereador de origem lusa na cidade de Oxford.

A ideia comummente aceite que os portugueses no Mundo, que totalizam mais de cinco milhões, são a mais importante e eficaz fonte de inserção nacional, tem nos muitos e bons exemplos de portugueses e lusodescendentes que exercem funções decorrentes do exercício democrático além-fronteiras, um dos pilares fundamentais na afirmação da pátria de Camões no concerto das nações. A rede universal de luso-eleitos constitui uma incontornável mais-valia na inserção de Portugal dos diferentes espaços, provendo o país de uma potencial magistratura de influência que as autoridades lusas não podem desaproveitar, antes pelo contrário, devem incentivar e dinamizar na promoção e projeção de Portugal no Mundo.