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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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GÉRALD BONCLOURT: O FOTÓGRAFO DA EMIGRAÇÃO PORTUGUESA

No ocaso do passado mês de outubro, fomos surpreendidos com a triste notícia do falecimento do nonagenário fotógrafo franco-haitiano Gérald Bloncourt. Um dos grandes nomes da fotografia humanista, cujas amplamente conhecidas imagens que imortalizam a história da emigração portuguesa para França, representam um fundamental para a (re)construção da identidade e memória coletiva nacional.

O fotógrafo Gérald Bloncourt, acompanhado do historiador Daniel Bastos, em Paris, aquando do lançamento em 2016 do livro realizado pelo investigador sobre a epopeia da emigração portuguesa para França 2

O fotógrafo Gérald Bloncourt, acompanhado do historiador Daniel Bastos, em Paris, aquando do lançamento em 2016 do livro realizado pelo investigador sobre a epopeia da emigração portuguesa para França

 

Radicado em Paris há mais de meio século, o antigo fotojornalista e colaborador de jornais de referência no campo social e sindical, teve o condão de retratar a chegada das primeiras levas massivas de emigrantes portugueses a França nos anos 60. A lente humanista do fotógrafo com dotes poéticos captou com particular singularidade as duras condições de vida dos nossos compatriotas nos bairros de lata nos arredores de Paris, conhecidos como bidonvilles, como os de Saint-Denis ou Champigny, com condições de habitabilidade deploráveis, sem eletricidade, sem saneamento nem água potável, construídos junto das obras de construção civil.

O fotógrafo Gérald Bloncourt, acompanhado do historiador Daniel Bastos, em Paris, aquando do lançamento em 2016 do livro realizado pelo investigador sobre a epopeia da emigração portuguesa para França 1

Menos conhecidas, mas nãos menos importantes, são as imagens que Bloncourt captou durante a sua primeira viagem a Portugal nos anos 60, onde retratou o quotidiano das cidades de Lisboa, Porto e Chaves. Assim como as da viagem a “salto” que fez com emigrantes além Pirenéus, e as das comemorações do 1.º de Maio de 1974 em Lisboa, que permanece ainda hoje como a maior manifestação popular da história portuguesa.

O trabalho fotográfico de Bloncourt sobre a emigração portugueses constitui um valioso repositório do último meio século nacional, que resgata das penumbras do esquecimento os protagonistas anónimos da história portuguesa que lutaram aquém e além-fronteiras pelo direito a uma vida melhor e à liberdade.

O trabalho e percurso de vida do fotógrafo francês de origem haitiana, que durante mais de vinte anos escreveu com luz a vida dos portugueses em França e Portugal, foram em 2016 distinguidos pelo Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa. No âmbito das Comemorações do 10 de Junho em Paris, Dia de Portugal de Camões e das Comunidades Portuguesas, cujas comemorações oficiais nesse ano aconteceram pela primeira vez numa cidade fora do país, o aclamado fotógrafo foi condecorado na cidade simbólica de Champigny, com a ordem de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

O fotógrafo Gérald Bloncourt, acompanhado do historiador Daniel Bastos, em Paris, aquando do lançamento em 2016 do livro realizado pelo investigador sobre a epopeia da emigração portuguesa para França 3

O fotógrafo Gérald Bloncourt, acompanhado do historiador Daniel Bastos, em Paris, aquando do lançamento em 2016 do livro realizado pelo investigador sobre a epopeia da emigração portuguesa para França 4

FERNANDO CRUZ GOMES, DECANO DOS JORNALISTAS DA COMUNIDADE PORTUGUESA EM TORONTO

  • Crónica de Daniel Bastos

No decurso deste mês, fomos surpreendidos com a triste notícia do falecimento, aos 78 anos, do decano dos jornalistas da comunidade portuguesa em Toronto, Fernando Cruz Gomes, um dos rostos mais conhecidos da numerosa prole luso-canadiana que vive na quarta maior cidade da América do Norte. 

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Natural da vila de Pampilhosa da Serra, no distrito de Coimbra, Fernando Cruz Gomes, iniciou nos finais dos anos 50 a sua vida profissional como jornalista, no vetusto “Primeiro de Janeiro”, um jornal diário que se publicou na cidade do Porto. Mas foi em solo africano, mais concretamente em Angola, antiga província ultramarina portuguesa, onde residiu durante 25 anos, que o seu trabalho jornalístico ganhou amplitude e profundidade, através do desempenho de funções em diversos meios de comunicação, jornais e rádios, como o "ABC Diário de Angola", a "Rádio Eclésia", no diário de Luanda "O Comércio", "A Província de Angola" (atual “Jornal de Angola”), no "Rádio Clube de Benguela" e na "Emissora Oficial de Angola".

No início da Guerra do Ultramar em Angola, a 15 de março de 1961, Fernando Cruz Gomes, chegou a acompanhar sozinho os combates entre as Forças Armadas Portuguesas e os Movimentos de Libertação deste território da costa ocidental de África. Durante o seu percurso jornalístico por terras africanas, o profissional de comunicação social, foi ainda presidente da secção de Angola do Sindicato Nacional de Jornalistas, onde se manteve até finais de 1974.

 A sua chegada ao Canadá ocorreu em 1975, ano do conturbado processo de descolonização. Na nova pátria de adoção, foi fundador e diretor de jornais comunitários, como "Popular", "Comércio", "Mundo", ABC Portuguese Canadian Newspaper e "A Voz", e editor e repórter na CIRV Rádio e na FPTV.

As suas multifacetadas funções jornalísticas em Toronto, inclusive de correspondente durante vários anos da Lusa, foram fundamentais para a promoção e conhecimento da língua, cultura e pulsar da comunidade luso-canadiana. E estiveram na base do justíssimo reconhecimento de que foi alvo em 2014, com a atribuição da Ordem do Infante D. Henrique pelos serviços relevante que prestou à pátria de Camões.

LIVRARIAS EMBAIXADORAS DA LÍNGUA E CULTURA LUSÓFONAS

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  • Crónica de Daniel Bastos

Nos últimos anos tem-se assistido em Portugal ao encerramento de um conjunto significativo de livrarias, muitas delas antigos espaços culturais de eleição, de encontro, de convívio e de cidadania. O recente fecho de portas, em Lisboa, da Aillaud & Lellos, da Book House, da Bulhosa Livreiros e da Pó dos Livros, ou no Porto, da Leitura, são apenas alguns destes tristes exemplos que têm pautado o panorama cultural nacional.

A evolução e a crise do mercado, a concorrência de grandes cadeias, a forte pressão nas rendas do mercado imobiliário, a falta de apoios ou a alteração do modo de ler, que já não se cinge exclusivamente a ler o livro em papel, são alguns dos motivos que estão na base do encerramento destes estabelecimentos culturais ameaçados de extinção.

Este fenómeno de empobrecimento da vida cultural não é um exclusivo do país, tendo-se igualmente acentuado nos últimos anos no seio das Comunidades Portuguesas. Longe vão os tempos em que a Livraria Lusófona, do editor João Heitor, foi durante mais de duas décadas um espaço singular na difusão da língua e cultura portuguesa a partir do Quartier Latin em Paris. Uma triste sina de desaparecimento que atingiu também nos tempos mais recentes a antiga livraria Orfeu, sediada em Bruxelas, propriedade do ativista cultural Joaquim Pinto da Silva, cujo desiderato visava promover as culturas portuguesas e galega no coração da Europa. Assim como, a Livraria Camões, em Genebra, do emigrante e livreiro natural do Porto, António Pinheiro, uma genuína embaixada literária de Portugal em terras helvéticas.

Com mais ou menos dificuldades, subsistem ainda algumas livrarias disseminadas pelas Comunidades Portuguesas, que como no território nacional, vão resistindo aos ventos da extinção, teimando em funcionar como polos agregadores e difusores da cultura e língua lusa. Como é o caso da Livraria - die portugiesische & brasilianische Buchhandlung em Berlim, a Luso Livro em Zurique, a Livraria Portuguesa de Macau, um espaço incontornável da portugalidade no Oriente, ou a recém-criada La petite portugaise, uma nova livraria portuguesa em Bruxelas que pretende divulgar a cultura lusófona.

A prossecução cultural destes espaços no seio das Comunidades Portuguesas, demandam neste sentido o apoio resoluto das instâncias competentes do Estado Português ao nível política cultural externa do país, que não podem olvidar a missão destas livrarias, verdadeiras embaixadoras da língua, cultura e expressão lusófona.

O PAPEL DOS CÔNSULES HONORÁRIOS DE PORTUGAL

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  • Crónica de Daniel Bastos

Em meados deste ano, realizou-se em Lisboa, no Museu do Oriente, o primeiro Seminário dos Cônsules Honorários intitulado “Rede honorária de Portugal no mundo: realidade e potencial”, que teve como principal objetivo promover e estimular uma reflexão e discussão sobre o papel destes representantes do Estado português, de modo a fortalecer os laços de união e cooperação com as comunidades portuguesas no mundo, e com as autoridades lusas.

A iniciativa, organizada pela Direção Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas do Ministério dos Negócios Estrangeiros com a colaboração do Instituto Diplomático, teve o condão de computar a presença de mais de 100 cônsules honorários portugueses provenientes de 58 países dos cinco continentes, o que, por si só, é revelador da importância desta rede consular que exerce funções de defesa dos direitos e interesses legítimos do Estado Português e dos seus nacionais.

A posição do Cônsul Honorário foi aprovada pela Convenção de Viena de 1963 sobre as Relações Consulares, na qual todos os países membros das Nações Unidas são signatários. Em geral, os cônsules honorários portugueses são figuras gradas da comunidade local, com ligação ao mundo dos negócios, e que fruto em grande parte de restrições financeiras e escassez de recursos, atuam como representantes do Estado em locais distantes dos postos de carreira onde há uma presença significativa da comunidade lusa.

Dados recentes apontam para que a rede consular portuguesa contenha um total de 233 cônsules honorários, cujas nomeações são de livre escolha ministerial de entre cidadãos nacionais ou estrangeiros de reconhecida aptidão para a promoção e da defesa dos interesses portugueses, distribuídos por 108 países, estando 32 em África, 84 na América, 41 na Ásia, 69 na Europa e 7 na Oceânia.

Numa época em que a internacionalização das empresas nacionais, a atração de investimento estrangeiro, a promoção da imagem do nosso país, desde a cultura ao turismo, e a dinamização de negócios em mercados estratégicos, são vitais para o desenvolvimento socioeconómico luso, a atuação e o papel dos cônsules honorários constituem indubitavelmente uma mais-valia na afirmação e projeção de Portugal no Mundo.

O FESTIVAL KUNCHI E OS LAÇOS ANCESTRAIS ENTRE PORTUGAL E O JAPÃO

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  • Crónica de Daniel Bastos

Uma vez mais, no âmbito de uma ancestral tradição japonesa, realiza-se nos próximos dias 7, 8 e 9 de outubro o Festival Kunchi, uma das festas populares mais conhecidas na cidade de Nagasaki, uma histórica metrópole da “Terra do Sol Nascente” fundada pelos portugueses na segunda metade do séc. XVI.

Portugal encerra a particularidade de o ser país europeu com a mais longa história de intercâmbio com o Japão, fruto de ter sido a primeira nação do “Velho Continente” a chegar e a estabelecer contactos com as gentes das “Terra do Sol Nascente”. Foi durante a expansão marítima quinhentista que se estabeleceram o início das trocas comerciais entre o Japão e os portugueses, à época chamados pelos japoneses “Nanban-jin”, isto é, “bárbaros do sul”, expressão que era nessa altura usada para identificar os povos ibéricos.

O intercâmbio comercial de há mais de quatrocentos anos, acarretava que os portugueses levassem para o território insular da Ásia Oriental, espingardas, pólvora, seda crua da China, entre outras mercadorias, e o Japão enviasse para a zona ocidental da Península Ibérica, prata, ouro e sabre japoneses, entre outros produtos. As vetustas relações comerciais entre as duas nações, estão na base de um conjunto expressivo de vocábulos de origem portuguesa que entraram na língua japonesa, como por exemplo, “pan” (pão), “koppu” (copo), “botan” (botão), “tabako” (tabaco) ou “shabon” (sabão).

A presença lusa no isolado Japão quinhentista e seiscentista teve igualmente uma conhecida dimensão missionária e evangelizadora, que redundou em ferozes perseguições movidas pelos xoguns aos missionários portugueses, receosos de uma eventual invasão por parte dos “bárbaros do sul” e temerosos da influência dos jesuítas nos nipónicos.

Ainda hoje uma das principais atrações do Festival Kunchi, celebrado todos os outonos desde o séc. XVI, e que depois também se tornou uma denúncia dos chamados cristãos-escondidos, é a “Nau Portuguesa”, apenas apresentada cada sete anos, e que constitui uma evocação histórica da expansão portuguesa até ao Japão. Assim como, um sinal perene que a história e cultura portuguesa são importantes e estratégicas para a afirmação do nosso país num mundo marcado pelos desafios da globalização, diversidade cultural e desenvolvimento.

A HERDADE VALE DA ROSA E O RECRUTAMENTO DE LUSO-VENEZUELANOS

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  • Crónica de Daniel Bastos

A grave crise política, económica e social que tem assolado a Venezuela nos últimos anos, tem impelido o retorno de milhares de luso-venezuelanos ao território nacional, sobretudo à Madeira, região autónoma de onde é oriunda a maioria do quase meio milhão de emigrantes portugueses que vivem neste país da América do Sul.

Estima-se que no ano passado, tenham chegado à “pérola do Atlântico" quase quatro mil lusodescendentes vindos do país liderado por Nicolas Maduro, e que se encontrem inscritos mil lusodescendentes no Instituto de Emprego da Madeira.

Com mais ou menos dificuldades, são públicos e notórios os esforços que as autoridades, e os serviços públicos regionais e nacionais, têm encetado na tentativa de procurar apoiar os cidadãos portugueses que regressaram ao país vindos da Venezuela, designadamente nas áreas da educação, da saúde, da segurança social e da inserção profissional.

Estes esforços não se esgotam nas esferas públicas regionais e nacionais, antes pelo contrário, têm colhido também apoio e recetividade na sociedade civil, mormente nos meios associativos e empresariais, que têm procurado dentro das suas possibilidades contribuir para a integração dos compatriotas que regressam da Venezuela em contexto de precariedade.

Um dos melhores exemplos desse apoio foi recentemente expresso pela Herdade Vale de Rosa, uma empresa agrícola do Baixo Alentejo que produz e comercializa uva de mesa, particularmente uva sem grainha, que através de um protocolo assinado com o Governo Regional da Madeira permite a emigrantes luso-venezuelanos terem acesso a oportunidades de emprego. Esta parceria imbuída de uma meritória responsabilidade social da Herdade Vale de Rosa, que já tem a trabalhar na sua estrutura cerca de 30 luso-venezuelanos, permite desde logo ao maior produtor nacional de uva de mesa suprir falta de mão-de-obra que não encontra na região onde se encontra implantada.

A necessidade de recrutamento da empresa, que prevê poder empregar cerca de 100 luso-venezuelanos, constitui um importante sinal de apoio à inserção socioprofissional de compatriotas regressados da Venezuela, assim como um sinal de esperança num futuro e uma vida melhor.

SOBRE A FORMAÇÃO LITÚRGICA DOS FIÉIS (3)

Continuo a elencar algumas questões, que considero importantes, relativas à participação dos fiéis nas celebrações da Eucaristia, e reveladoras da respetiva formação/educação litúrgica. Com a ajuda de Deus, terminarei hoje.

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Durante a consagração, ajoelho-me (sendo possível) e mantenho-me em respeitoso silêncio, perante o Mistério que está a acontecer diante de todos nós? Ou distraio-me com facilidade e até contribuo para a distração de outros?

No decorrer da Eucaristia, tenho consciência de que há orações específicas que apenas devem ser ditas pelo presidente da celebração, às quais os fiéis presentes respondem com “Ámen” ou outras palavras ou expressões por todos conhecidas (pelo menos deveriam ser!)? Estou consciente de que as palavras que Jesus disse na Última Ceia, e que são repetidas em todas as Eucaristias, durante a Consagração, apenas devem ser ditas pelo presidente da celebração? E que o mesmo deve acontecer na conclusão da oração eucarística (doxologia final) - ”Por Cristo, com Cristo, em Cristo,…” -, oração que exprime a glorificação de Deus e é ratificada e concluída pela aclamação do povo com o Amén. (IGMR, no 80).

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Lembro-me, sempre, que na Missa, no final da oração do Pai-Nosso não devo dizer “Amén”, porque o presidente da celebração continua a oração sozinho, dizendo “Livrai-nos, Senhor de todo o mal…”. Ou seja, o sacerdote como que desenvolve o último pedido que fazemos no Pai-Nosso “livrai-nos do mal”. E quando ele termina, junto-me aos restantes fiéis, respondendo de forma clara e convincente: “Vosso é o Reino, o poder e a glória para sempre”?

No momento adequando, e apenas se e quando o presidente ou o diácono diz “Saudai-vos na paz de Cristo”, “dou” a paz apenas às pessoas que estão ao meu lado, ou “cumprimento” todas as pessoas que estão ao meu lado, atrás, à frente, e ainda… Depois que o presidente diz “Eis o Cordeiro de Deus…” e os fiéis respondem “Senhor, eu não sou digno…”, permaneço de pé, quer vá ou não comungar, ou sento-me de imediato e começo a conversar com quem está ao meu lado?

Se a minha alma está em condições de ir comungar o Corpo do Senhor, integro-me na procissão (sim, é uma procissão!) e caminho calmamente, meditando sobre o que vou fazer, sem atropelar ninguém, antes cedendo a passagem sempre que necessário? Ou vou distraído, conversando e cumprimentando quem encontro no percurso? Se quero fazer uma reverência a Jesus presente nas hóstias que o ministro distribui aos fiéis, faço-o antes de comungar, de forma singela e sem atrapalhar nada nem ninguém, ou não? Se comungo na mão, faço-o em frente ao ministro ou comungo a caminhar, de volta ao lugar (ou, em direção à porta da rua!), sem ter o cuidado de não deixar cair partícula alguma ao chão? E por aqui me fico.

Por aquilo que se vai vendo em algumas celebrações, penso que é mesmo necessária uma formação/educação litúrgica contínua, particularmente dos que exercem ministérios ou serviços eclesiais: Ministros Extraordinários da Comunhão, Acólitos, Leitores, Salmistas, Catequistas, Zeladores, os que fazem o acolhimento…

E porquê? Por tudo o que já foi dito e para que não volte a acontecer que o altar de uma igreja, apesar de protegido, possa continuar a servir para que alguma zeladora “passe a ferro”, as toalhas, os manustérgios, os sanguíneos…

Fiquem bem, e com a graça de Deus!

José Pinto, Acólito

Texto publicado no jornal A Voz de Trás-os-Montes

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SOBRE A FORMAÇÃO LITÚRGICA DOS FIÉIS (2)

Continuo o meu raciocínio, iniciado na edição anterior, sobre a educação/formação litúrgica dos fiéis, particularmente no que concerne a uma participação ativa e consciente, de todos e de cada um de nós, na Eucaristia. Comecemos, pois, pelo princípio; e, sem intenção de ser exaustivo, levanto algumas questões para reflexão individual.

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Quando os sinos tocam, chamando-nos para a Missa (“o culto mais sublime que oferecemos ao Senhor”), nós fazemos a caminhada, até à igreja, conscientes do que, em comunidade, aí vamos fazer: celebrar a nossa fé em Jesus Cristo; louvar, agradecer e adorar a Deus; pedir perdão pelas nossas contínuas falhas para com Deus e para com os irmãos; ouvir a Palavra do Senhor, sem esquecer de a levar para a vida quotidiana; fazer memória da Paixão do Senhor e celebrar o seu Mistério Pascal? Ou vamos, essencialmente, para nos reencontrarmos e convivermos, durante algum tempo, com os amigos?

Antes de entrarmos na igreja, desligámos o telemóvel? Depois de passarmos a porta de entrada, o que fazemos: ajoelhamo-nos, benzemo-nos e preparamo-nos interiormente para a celebração em que vamos participar? Ou vamos visitar e rezar a todas as imagens dos santos colocados, ou não, nos altares laterais, e passamos rapidamente, sem nos deter, junto ao sacrário? Ou continuamos, alegremente, a nossa conversa iniciada na rua, mesmo depois de já ter começado o cântico de entrada?

Escreveu Romano Guardini, em “Sinais Sagrados”, recentemente reeditado (2ª ed., Set2017) pelo Secretariado Nacional de Liturgia, sobre o acto de nos ajoelharmos: “Quando dobrares o joelho, não o faças apressadamente e de forma descuidada. Dá alma ao teu acto! E que a alma do teu ajoelhar consista em inclinar também o coração diante de Deus, em profunda reverência. Quando entrares ou saíres da igreja ou passares diante do altar, dobra o joelho profunda e lentamente e que todo o teu coração acompanhe este flectir. Isso há-de significar: «Meu Deus altíssimo!...» Isto sim que é humildade e verdade, e fará sempre bem à tua alma.” E sobre o acto de nos benzermos: “Quando fizeres o sinal da cruz, fá-lo bem feito. Não seja um gesto acanhado e feito à pressa, cujo significado ninguém sabe interpretar. Mas uma cruz verdadeira, lenta e ampla, da testa ao peito, dum ombro ao outro. Sentes como ela te envolve todo?”

Concluída a oração colecta (a oração do presidente da celebração que recolhe as orações de todos os que estão a celebrar a Missa, e que, habitualmente, é dirigida a Deus Pai, por Cristo, no Espírito Santo), sentamo-nos de forma adequada e predispostos a escutar a Palavra de Deus? Ou sentamo-nos, displicentemente, de perna cruzada, como quem está numa mesa de café ou num sofá em casa, e sempre curiosos com o que se passa em qualquer local da igreja?

Iniciada a Liturgia da Palavra, estamos atentos a escutar o que Deus nos quer dizer naquele momento, e que pode dar um sentido totalmente novo ao que nos acontece no dia-a-dia?  Ou aproveitamos para comentar tudo e mais alguma coisa, com o vizinho do lado?

Quando toda a assembleia recita o Credo, fazemo-lo calmamente, pensando e acreditando nas palavras que proferimos? “Creio em Deus, Pai… Creio em Jesus Cristo… Creio no Espírito Santo… Creio na Igreja… Professo um só Baptismo… Creio na vida eterna…”. Ou não?

Vou ter de continuar na próxima edição! Fiquem com Deus.

José Pinto, Acólito

Texto publicado no jornal A Voz de Trás-os-Montes

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SOBRE A FORMAÇÃO LITÚRGICA DOS FIÉIS (1)

No dia 4 de Dezembro de 1963, durante a III Sessão pública, o II Concílio Ecuménico do Vaticano aprovou a Constituição «Sacrosanctum Concilium» sobre a Sagrada Liturgia, a qual abriu o caminho para uma profunda reforma da Liturgia da Igreja Católica Apostólica Romana.

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Foi o primeiro documento a ser votado, e dado o reduzidíssimo número de votos contra (4 non placet), em comparação com os votos a favor (2147 placet), este tema foi o único aprovado sem resistência pelos bispos do Concílio e adoptado quase por unanimidade. Desde então, permanece em contínua transformação, conforme prevê o mesmo documento: «Na verdade, a Liturgia compõe-se duma parte imutável, porque de instituição divina, e de partes susceptíveis de modificação, as quais podem e devem variar no decorrer do tempo, se porventura se tiverem introduzido nelas elementos que não correspondam tão bem à natureza íntima da Liturgia ou se tenham tornado menos apropriados.» (SC, 21)

A propósito da educação/formação litúrgica dos fiéis, que é de importância primordial, pode ler-se nesta Constituição: «Procurem os pastores de almas fomentar com persistência e zelo a educação litúrgica e a participação activa dos fiéis, tanto interna como externa, segundo a sua idade, condição, género de vida e grau de cultura religiosa, na convicção de que estão cumprindo um dos mais importantes múnus do dispensador fiel dos mistérios de Deus. (…).» (SC, 19)

Passados quase 54 anos desde a sua aprovação, parece-me que vai sendo tempo de se refletir e tomar consciência sobre qual é, atualmente, o grau de conhecimento dos fiéis sobre a Liturgia. Não sobre assuntos teológicos relacionados com a Liturgia, que poderão exigir alguma formação mais profunda (embora necessária e que não faz mal a ninguém…), mas sim sobre o que poderemos considerar de mais essencial, “mais básico”, (desculpem-me a expressão), para que qualquer baptizado possa celebrar dignamente a Eucaristia e participar noutras celebrações.

Quando não se sabe – porque não se aprendeu ou já se esqueceu - como fazer e/ou porque é que se faz assim e não de outra maneira, quase sempre se faz por ver fazer os outros (repetimos o que vemos), embora, muitas vezes, e lamentavelmente, de forma errada. E em vez de se dar um contributo sério e colaborar para a beleza da Liturgia, e ainda que inconscientemente, estamos a contribuir para que “o culto da majestade divina” (SC, 33) não seja participado e vivido como deve ser, com toda a dignidade e “nobre simplicidade” (SC, 34).

Diz um ditado popular, “Aprender até morrer”! No entanto, estou cada vez mais convencido de que nos assuntos relacionados com a celebração da nossa fé em Jesus Cristo, e depois da caminhada catequética até à recepção do Sacramento do Crisma (se não se interrompeu antes…), a “aprendizagem ao longo da vida” e a “formação contínua” são conceitos ou palavras vãs.

Se o Senhor Diretor da VTM me autorizar, continuarei com o meu raciocínio na próxima edição. Até lá, se Deus quiser, e “façam-me o favor de ser felizes”!

José Pinto, Acólito

Texto publicado no jornal A Voz de Trás-os-Montes

OS EMPRESÁRIOS DA DIÁSPORA E A VALORIZAÇÃO DO PATRIMÓNIO NACIONAL

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

No início do mês de setembro, foi conhecido que um grupo de emigrantes madeirenses, que até à data não pretendem ser identificados, adquiriu o Forte de São José, também conhecido como Forte do Ilhéu, Forte da Pontinha ou Bateria da Pontinha, uma histórica fortificação madeirense localizada na freguesia da Sé, na cidade e concelho do Funchal.

Construído em meados do século XVIII, o Forte de São José é o local da primeira fortificação madeirense, na época do seu descobrimento. Espaço primevo de abrigo aos descobridores da ilha, o antigo baluarte foi com o decurso do tempo pouco valorizado enquanto património histórico, arquitetónico e cultural regional e nacional, tendo no final do séc. XX o mesma sido adquirido por um particular, e recentemente por um grupo empresarial de emigrantes que tem em vista a recuperação e valorização desta original estrutura patrimonial, cultural e histórica.

A ação benemérita e empreendedora deste grupo de emigrantes, cuja intenção visa a breve trecho abrir o Forte de São José ao público, com um núcleo museológico e com um bar de apoio, é reveladora das potencialidades da diáspora portuguesa, e em particular dos emigrantes-empresários na recuperação e valorização de património imobiliário público nacional.

Conquanto o conhecimento, estudo, proteção, valorização e divulgação do património cultural, constituam um dever do Estado, que assim assegura a transmissão de uma herança nacional, cuja continuidade e enriquecimento visa unir as gerações num percurso civilizacional singular, a escassez de recursos aliada à inadiável necessidade de salvaguardar património público que se encontra devoluto, impeliu o Governo a criar nesta área de atuação o programa Revive.

Lançado em 2016 pelos ministérios das Finanças, Cultura e Economia, o programa Revive permite concessionar a investidores privados património público que se encontra devoluto tornando-o apto para afetação a uma atividade económica com finalidade turística, e assim gerar riqueza e postos de trabalho. Trata-se de um projeto importante para a salvaguarda da identidade histórica, cultural e social do país, e um elemento potenciador do turismo e riqueza das regiões, que pode seguramente alcançar uma maior atratividade e dinâmica se for bem divulgado junto dos empresários portugueses espalhados pelo mundo.

SÃO AS “FAKE NEWS” O NOVO CAMINHO DO JORNALISMO?

Fartos da informação autêntica – embora nem sempre verdadeira! – os leitores da imprensa tradicional e também das redes sociais parece terem virado subitamente para o consumo desenfreado e acrítico das notícias falsas, vulgo “fake news.

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À realidade parecem estar a preferir a mentira e a fantasia, às notícias fabricadas e ao sensacionalismo. E, para quem as produz, o que importa é tão-somente o interesse que elas despertam para as fazer render no mercado publicitário em função das audiências. A notícia – verdadeira ou falsa – virou mercadoria e perderam-se valores éticos do jornalismo. Até recentemente, diríamos que se tratava apenas de propaganda e manipulação…

Para não perder o comboio das novidades, alguma imprensa corre atrás de tudo quanto nas redes sociais dá à costa, mesmo em época de maré baixa. Quem não o fizer arrisca-se a ter de encerrar a edição em papel como recentemente sucedeu a um histórico jornal diário do nosso país, o “Diário de Notícias”. E, tudo leva a crer que em breve outros o seguirão!

Mas, por mais incrível que pareça, a maioria dos consumidores de “fake news” é levada a acreditar nas mais inacreditáveis falsas notícias que lhes apresentam… o excesso de informação e as novas tecnologias apenas têm vindo a contribuir para o embrutecimento das mentalidades!

É importante que continue a existir uma imprensa credível, seja em que suporte for, mas honesta, remando mesmo contra a maré: o BLOGUE DO MINHO está nesse barco!

RANCHOS FOLCLÓRICOS E “RANCHOS FOLCLÓRICOS”

  • Crónica de José Pinto

      Administrador do Portal “Folclore de Portugal – O Portal do Folclore Português

Num tempo em que os conceitos "aldeia global" e "globalização" assumem contornos algo preocupantes no que concerne à preservação das características essenciais e etnográficas da cultura popular do nosso povo, tornou-se necessário, cada vez mais, pôr em prática o que o etnólogo Jorge Dias defendia há décadas atrás: “Temos obrigação de salvar tudo aquilo que ainda é susceptível de ser salvo, para que os nossos netos, embora vivendo num Portugal diferente do nosso, se conservem tão Portugueses como nós e capazes de manter as suas raízes culturais mergulhadas na herança social que o passado nos legou.”

Também José Leite de Vasconcelos, anos antes, chamava a atenção para o facto de que muitos usos e costumes, muitas tradições se estavam a perder, dizendo “Acudamos a tudo, enquanto é tempo! De ano para ano extinguem-se ou transformam-se muitas cousas e surgem outras de novo em vez delas. Com a implantação da República em Portugal acabou o beija-mão no Paço, o trajo da corte, o fardamento dos archeiros. Não é preciso ser muito velho para notar grandes mudanças etnográficas sucedidas numa terra: quem vivendo hoje houvesse nascido nos meados do século XIX, lidou com cruzados, patacos e peças, viu a liteira, ouviu a sanfona - e nada disto existe hoje! Os romances ou xácaras, como é sabido, vão a desaparecer na tradição... Empenhemo-nos por isso na investigação das tradições populares...”

Nos tempos de hoje, o chamado progresso ou desenvolvimento (conceitos que expressam realidades bem diferentes), através dos mass media, particularmente da televisão e, nos últimos anos, da Internet, tem continuado a promover uma uniformização cultural à escala planetária, sem tomar consciência que assim está a destruir as especificidades culturais que caracterizam cada comunidade.

Os etnógrafos, os etnólogos e os folcloristas têm tentado lutar contra a acção erosiva do tempo na memória das pessoas, bem como da acção nefasta do progresso científico e técnico que não respeita a pessoa enquanto ser único, portador de uma cultura própria, que o identifica com determinada comunidade e não o deixa confundir com um ser de uma comunidade cultural.

É neste sentido, que muitos Ranchos Folclóricos ou Grupos Etnográficos (a designação não é importante) têm desempenhado uma acção meritória, e quantas vezes pouco reconhecida publicamente, na pesquisa, estudo, preservação e divulgação do património etnográfico-cultural das respectivas regiões.

Num labor constante, responsável e desinteressado, estes Grupos Folclóricos percorrem as aldeias, conversando com as pessoas mais idosas, numa tentativa de lhes fazer recordar vivências de tempos passados que urge preservar, e que constituem ou caracterizam muito do ser e do saber do nosso povo.

É por isso que o saudoso António Magalhães Cabral(que me honrou com a sua amizade, e com quem convivi e trabalhei durante alguns anos) não teve dúvidas em escrever que "Um grupo folclórico (ou rancho folclórico, etnográfico) é por inerência da sua constituição uma força ao serviço da investigação, defesa e promoção dos valores patrimoniais da comunidade em que se insere, no campo específico das tradições orais. Orais e não só, na medida em que estas se articulam com registos escritos e materiais. E é a pensar nisso que muitos ranchos folclóricos têm preferido a designação de etnográficos, ampliando assim os objectivos até à descrição atenta das manifestações culturais das populações, a nível regional, sub-regional e local."

No entanto, nem todos os Grupos ou Ranchos Folclóricos (muitas vezes auto denominados de Etnográficos), apresentam com autenticidade os aspectos essenciais da cultura popular da região ou localidade que dizem representar. Infelizmente, em primeiro lugar, para os seus antepassados, que devem andar às “voltas na cova” ao verem o ridículo da pseudo-representação divulgada pelos seus descendentes. Em segundo lugar, para as gerações vindouras, que não têm possibilidade de conhecer verdadeiramente as respectivas raízes culturais. Finalmente, também, para quem, sendo de fora, vê e pensa que as manifestações culturais que está a ver são típicas e autênticas, mas, afinal, estão a comer “gato por lebre”.

A propósito, o Padre Luís Morais Coutinho escreveu no seu livro «Subsídios Históricos e Etnográficos do Alto Douro» o seguinte: “Ao falar da dança etnográfica alto-duriense devo dizer que ela não escapa à destruição que por aí campeia como praga ou epidemia.

Grupos que se atribuem de Ranchos Folclóricos e nós não vemos de onde é o Folclore. O traje, a música, o ritmo e o gesto não dizem de onde são ou até dizem que não são. (…)

Dentro de alguns anos, os etnólogos vão ter tremendas dificuldades em separar o que é bom do que cheira mal...

Haja muito Folclore, mas do verdadeiro! Que possamos ver no traje, na música, no ritmo e no gesto a história do nosso povo! Que possamos ver as nossas raízes, afinal!

Mais palavras, para quê?

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AGOSTO, EMIGRANTES E ECONOMIA

  • Crónica de Daniel Bastos

Os dados mais recentes do desempenho da economia portuguesa, que tem mantido nos últimos anos uma trajetória de incremento, sustentam que no passado mês de agosto assistiu-se a uma forte dinâmica de crescimento alavancada no costumado regresso dos emigrantes à terra natal durante o período estival.

Daniel Bastos

A dinâmica económica resultante do regresso a casa nas férias de Verão de milhares de compatriotas que vivem e trabalham no estrangeiro, teve um impacto considerável ao nível da restauração e hotelaria, assim como ao nível do comércio. Segundo a Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP), a maior confederação empresarial do país, no segmento alimentar há inclusivamente lojas que registaram vendas em agosto superiores às habitualmente obtidas na quadra natalícia, época em que os estabelecimentos anseiam pelo potencial aumento de consumo.

As palavras de João Vieira Lopes, presidente da CCP, são inequívocas sobre o impacto económico do regresso dos emigrantes no Verão ao território nacional, com particular incidência no Centro e Norte, e sobretudo nas áreas do segmento alimentar:” Há lojas que conseguem faturar mais em agosto, com a vinda dos emigrantes, do que em dezembro, com o Natal”.

O dirigente da CCP salienta em especial, as vendas de vinho do Porto que os emigrantes “compram muito para levar e oferecer aos patrões e amigos”, assim como vestuário e calçado, “com preços mais atrativos em Portugal”, e eletrodomésticos e mobiliário.

A dinâmica que se verificou em agosto foi transversal a outras áreas da economia nacional, como por exemplo, no imobiliário, setor onde muitos emigrantes próximos da reforma e do regresso definitivo a Portugal continuam a aplicar as suas remessas, que continuam a aumentar não obstante o número de portugueses a saírem para o estrageiro estarem a recuar. Neste último campo, os dados continuam a indicar a França como a principal fonte das remessas dos emigrantes portugueses, embora o Reino Unido seja agora o principal destino dos novos emigrantes.

Pelos contributos atuais e vindouros, mas também pelas dinâmicas do passado, malgrado as causas e consequências negativas da emigração, o país contínua a ter nos emigrantes importantes catalisadores do seu desenvolvimento, e justos merecedores da nossa profunda admiração e respeito pelas suas trajetórias de vida.

A PEREGRINAÇÃO DO MIGRANTE E DO REFUGIADO EM FÁTIMA

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

Nos passados dias 12 e 13 de agosto realizou-se, mais uma vez, a tradicional Peregrinação do Migrante e do Refugiado em Fátima, um dos mais importantes santuários marianos do mundo, e um dos mais emblemáticos locais de peregrinação cristã e devoção católica em todo o mundo.

A jornada de fé e devoção, que assinala a quarta Aparição de Nossa Senhora aos Pastorinhos, marcou o arranque da Semana Nacional das Migrações, congregando na Cova da Iria, migrantes de várias partes do mundo.

Este ano, o tema da 46.ª Semana Nacional das Migrações promovida pela Obra Católica Portuguesa das Migrações, da Conferência Episcopal Portuguesa, centrou-se na frase basilar “Cada forasteiro é ocasião de encontro – Migrantes e refugiados no caminho para Cristo”. Na esteira da mensagem e da ação que o Papa Francisco tem dedicado aos migrantes e refugiados, e no reiterado pedido do chefe da Igreja Católica à comunidade internacional e aos fiéis para não abandonarem os migrantes e refugiados.

A opção por esta temática atual e premente, que a comunidade internacional parece incapaz de resolver, foi modelarmente elucidada por D. António Vitalino, vogal da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana: “Perante o drama dos refugiados, que fogem à guerra, à fome, à seca e à pobreza, muitos morrendo pelos caminhos perigosos, vítimas de máfias sem escrúpulos, como cristãos e seres humanos não podemos ficar insensíveis a tudo isto”.

Ainda na conferência de imprensa que antecedeu as cerimónias, o Cardeal D. António Marto, bispo de Leiria-Fátima, vincou o “drama humanitário da transmigração epocal de povos que se dirigem à Europa, vindos do Médio-Oriente e de África”. Caraterizando as vagas crescentes destes refugiados e migrantes que todos os dias tentam entrar no Velho Continente, como “um exército de pobres que aqui chega, após dois anos de viagem pelo norte de África. Não estão em causa os números, mas pessoas concretas, com uma história, uma cultura, uma família, sentimentos, dramas e aspirações”.

Neste sentido, é de enaltecer a defesa reiterada do respeito e dignidade dos migrantes e refugiados que a Igreja Católica tem sustentado no mundo atual, assim como o seu papel de coesão e identidade que ao longo dos anos tem desempenhado no seio das comunidades portuguesas.

EXPOSIÇÃO DE PAULA PEREIRA: OBSERVANDO-A FICAMOS MAIS RICOS!

Já aqui falamos desta mostra para anunciar a sua abertura, que aconteceu no passado dia 3 do mês em curso, na Galeria da Santa Casa da Misericórdia de Viana, mas sem que a conhecêssemos por inteiro, daí que só agora se possa fazer uma abordagem mais bem conseguida da mesma.

Apresentação do PowerPoint

A Paula Pereira é uma artista que nos surpreende pela criatividade e pela diversidade da sua arte. São os temas, os estilos e as técnicas que julga adequadas aos desafios que lhe possam fazer terceiros ou que ela faz a si própria que nunca deixam de nos surpreender. Acontece ainda que em cada uma das suas exposições há sempre algo mais, como é o caso das suas inesperadas instalações, onde a sua imaginação se alarga e se afirma para estímulo da nossa curiosidade.

Desta vez as Festas d’Agonia são o tema, motivo que muitos outros artistas têm explorado. Sem qualquer intuito de tentar valorizar ou desvalorizar alguém, o que se pode afirmar é que esta exposição da Paula Pereira cativa pela diferença. No mesmo espaço estão duas variantes que, aludindo à mesma temática, se apresentam com cariz bem distinto. Numa primeira parte, em forma geometrizada, pincelada expressiva e abundante na cor temos os motivos que são habituais e dão riqueza às nossas Festas: os forasteiros, os cabeçudos, as mordomas, as bailadeiras, os concertinistas, a procissão ao mar, etc. Na segunda, temos a representação de um surpreendente diálogo telefónico entre duas vianesas que comentam a Romaria e em relação à qual, neste diálogo, surgem as mais diversas expressões: entusiasmo, surpresa, expectativa, espanto, etc. Os quadros apresentam-se todos numa linha uniforme, compostos sobre linho tratado, onde o cabelo das personagens é trabalhado em croché, dotando todas as obras de uma elemento artesanal que resulta em simbiose perfeita com a componente plástica.

A exposição completa-se com uma instalação assaz curiosa. Uma estrutura, também ela de caris artístico, suporta um conjunto de caixas com motivos diversos, onde o croché é novamente explorado, permitindo observar no seu interior imagens de mulheres cobertas em parte com peças do traje à vianesa. Chama-se a atenção para este pormenor

Fica o elogio à artista pelo seu permanente empenhamento em criar formas artísticas diferente e culturalmente ricas. Mas fica também o convite, não só aos amantes da arte mas aos vianenses em geral, para uma visita à simpática Galeria da Santa Casa da Misericórdia, para uma observação demorada de um trabalho artístico que, para além do prazer, muito valorizará o nosso conhecimento.

Gonçalo Fagundes Meira

OS DENTISTAS PORTUGUESES E A VIA DA EMIGRAÇÃO

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

O fenómeno da emigração de profissionais de saúde (médicos, enfermeiros, dentistas, fisioterapeutas e farmacêuticos), alvo de aceso debate na sociedade portuguesa ao longo da última década, é revelador de um país que continua enleado nas suas próprias contradições.

Um país que investe parte significativa dos seus recursos na formação das gerações “mais bem preparadas de sempre”, que por falta de emprego, ou atraídas por melhores condições financeiras e a garantia de progressão na carreira, têm na emigração uma via para a construção dos seus projetos de vida. Um país, dos mais envelhecidos da União Europeia, que precisa de contratar profissionais de saúde, como médicos e enfermeiros, mas cuja escassez de recursos financeiros entrava a abertura de vagas, a fixação de população jovem e o incremento da natalidade.

Os dados recentemente divulgados pelo estudo “Números da Ordem”, promovido pela Ordem dos Médicos Dentistas (OMD), são um espelho destas contradições. Segundo o mesmo, Portugal atingiu no ano passado um rácio de um médico dentista por 1.033 habitantes, praticamente o dobro do que é recomendado a nível internacional.

A desadequação do curso de medicina dentária ao mercado de trabalho, porquanto em Portugal existem sete faculdades de Medicina Dentária que todos os anos colocam no mercado de trabalho entre 500 a 600 profissionais, concorre amplamente para que estes profissionais de saúde não encontrem colocação no território nacional e tenham na emigração um caminho de realização socioprofissional.

Como acentua o bastonário dos Médicos Dentistas, Orlando Monteiro da Silva, ao longo dos últimos anos tem-se assistido a um contínuo aumento da emigração no seio desta classe profissional. Neste momento, existem cerca de dois milhares de médicos dentistas portugueses a exercerem no estrageiro, sobretudo no Reino Unido, França, Suíça e vários países da Escandinávia, países europeus cujas condições salariais e valorização da carreira, estão a atrair estes profissionais de saúde.

No entanto, como alerta a OMD, os Médicos dentistas chegam apenas a metade dos agrupamentos de centros de saúde em Portugal, sendo ainda necessário um esforço para alargar os cuidados de saúde oral à população, particularmente a que não possui recursos financeiros para contratar um seguro de saúde ou ir a uma clínica privada.

PORTUGAL: O PAÍS DA MODA EM FRANÇA

*Crónica de Daniel Bastos

Numa entrevista concedida no ano passado à Rádio e Televisão de Portugal, o Embaixador francês em Portugal, Jean-Michel Casa, afirmou que Portugal é o “país da moda” em França, um dos principais destinos da emigração portuguesa.

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A declaração do diplomata gaulês, sustentada nas estatísticas sobre o fluxo de nacionais franceses a entrar em território luso, que indicam que no final do ano de 2017 a comunidade francesa em Portugal ascendia a mais de 17 mil pessoas, sendo já uma das maiores comunidades estrangeiras no país, permanece atual e consentânea com a realidade em várias áreas da sociedade portuguesa.

Desde logo, é ajustada à realidade da economia portuguesa, sector em que a França ocupa um papel cimeiro ao nível do investimento e cujas empresas são geradores de um considerável volume de negócios e criação de postos de trabalho.

O sector imobiliário nacional é paradigmático da tendência de atração francesa por Portugal. Ainda recentemente o Gabinete de Estudos da Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal (APEMIP), divulgou dados que revelam que um quinto das casas compradas em Portugal no ano transato foram adquiridas por estrangeiros, destacando-se os franceses como os que mais investiram neste ramo do setor secundário da economia.

No mesmo ano, na época estival, os turistas residentes em França foram os maiores compradores em Portugal, despendendo mais de 500 milhões de euros, sensivelmente 27% do total de gastos de turistas estrangeiros no país. Nesse sentido, e tendo em linha de conta que o Turismo é uma atividade económica estratégica para o desenvolvimento socioeconómico do país, designadamente para o emprego e para o crescimento das exportações, os turistas franceses têm tido um contributo importante na recuperação económica portuguesa.

O sol, a qualidade de vida, a segurança, a proximidade cultural, os benefícios fiscais e o custo de vida menor que em França, têm contribuído igualmente nos últimos anos para que milhares de pensionistas gauleses venham residir para solo português. Assim como para o estabelecimento em Portugal de franceses altamente qualificados, interessados em viver nas zonas históricas e em fazer negócios, reforçando os laços privilegiados de amizade, e de cooperação económica e financeira luso-francesa.

OS PORTUGUESES SÃO UM POVO QUE QUER A PAZ E A CONCÓRDIA – E REPUDIA TODAS AS FORMAS DE INCITAÇÃO AO ÓDIO!

Temos vindo a assistir a uma escalada crescente de incitação ao ódio racial, étnico e religioso, promovido e alimentado por algumas forças políticas e órgãos de comunicação social, directamente ou através das redes sociais. Tal campanha insidiosa estende-se à nossa própria História e cultura com o propósito deliberado de neutralizar os portugueses numa teia de complexos e preconceitos.

É sistemática a acusação de racismo e esclavagismo aos portugueses a tal ponto que roça as raias do insulto. É a negação da nossa identidade como povo e nação que é colocada em causa para que espezinhem o nosso carácter e dignidade. Aprovam sucessivamente leis que vão contra os nossos padrões civilizacionais e olhamos impotentes perante tais mudanças como se tudo resumisse a um mero balancete financeiro do deve e haver.

Àgora é o ódio ao judeu e ao muçulmano, ao preto e ao branco, ao árabe e ao chinês, ao nacional e ao imigrante. Deixou de haver sexo masculine e feminino para passer a existir géneros – incluindo os intersexos! – e toda a espécie de crime, a começar pela pedófilia, em vias de ser reconhecida como orientação sexual.

No respeito pelo ser humano e na observância da lei e dos direitos dos cidadãos, quaisquer que sejam as suas crenças religiosas ou opções ideológicas, os portugueses antes de mais querem viver em paz e repudiam todas as campanhas de incitação ao ódio. Não querem importar de outros países modas que não correspondem à sua maneira de ser. É chegada a altura de repudiar veementemente tais campanhas odiosas e garantir um ambiente de paz e harmonia para quem vive no nosso país!

O PROJETO SOLIDÁRIO DA REDE MÉDICA PORTUGUESA NA VENEZUELA

  • Crónica de Daniel Bastos

A Comunidade Portuguesa na Venezuela, segunda maior comunidade lusa na América Latina, a seguir ao Brasil, constituída por meio milhão de portugueses e lusodescendentes, vive por estes tempos marcada pela angústia do presente e a incerteza do futuro.

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Esta intranquilidade é resultante da grave crise económica e social em que mergulhou a pátria Simón Bolívar, que ainda no início deste século era o país mais rico da América do Sul, e onde na atualidade a população sofre uma séria escassez de alimentos e medicamentos. O panorama socioeconómico sombrio regista a falta de comida, o aumento nos índices de mortalidade infantil e materna, a privação de remédios essenciais, como antibióticos e analgésicos, a carência de luvas, gazes, seringas ou produtos de limpeza.

A Comunidade Portuguesa na Venezuela não está imune à crise, sendo conhecidas várias situações de compatriotas que já não conseguem satisfazer as necessidades mais básicas. Situação que tem contribuído para o regresso de milhares de luso-venezuelanos a Portugal, sobretudo à Madeira, onde nos últimos anos segundo o Governo Regional já regressaram mais de quatro mil emigrantes da Venezuela.

Mas é também nestes tempos sombrios de crise, que se têm gerado genuínos exemplos de resiliência e solidariedade no seio da Comunidade Portuguesa na Venezuela. Como é o caso da Associação de Médicos Luso-venezuelanos (Assomeluve), que durante o mês de julho delineou uma rede médica portuguesa centrada em atender as necessidades prioritárias de saúde dos compatriotas.

Este projeto solidário, que conta com o apoio do Governo português, da Embaixada de Portugal na Venezuela e dos consulados locais, tem segundo a gastrenterologista Clara Maria Dias de Oliveira, porta-voz da Assomeluve, como principal missão “estabelecer as necessidades prioritárias dos portugueses na Venezuela, e prestar atenção médica geral e especializada", e irá começar em cinco regiões da Venezuela, no Distrito Capital (Caracas, Miranda e Vargas) e nos estados de Lara, Bolívar, Carabobo e Anzoátegui.

O exemplo de solidariedade praticado pela Associação de Médicos Luso-venezuelanos em prol da Comunidade Portuguesa é digno de louvor e de reconhecimento público, e um sinal de esperança no futuro da Comunidade Portuguesa na Venezuela.

JOSÉ BATISTA DE MATOS É O ROSTO DA EMIGRAÇÃO PORTUGUESA EM FRANÇA

* Crónica de Daniel Bastos

No início do mês de julho, fomos surpreendidos com a triste notícia do falecimento, aos 84 anos, do antigo conselheiro das comunidades portuguesas, José Batista de Matos, um dos rostos mais conhecidos da emigração lusa em França, a maior comunidade de portugueses no estrangeiro.

Daniel Bastos

Natural do concelho da Batalha, Batista de Matos emigrou para França na década de 1960, época em que a miséria rural, a ausência de liberdade e o deflagrar da Guerra do Ultramar impeliram a saída legal ou clandestina de centenas de milhares de portugueses em direção ao território gaulês.

Como uma parte significativa dos emigrantes desse período o batalhense experienciou as condições miseráveis do enorme bairro de lata “bidonville” de Champigny, nos arredores de Paris, que nos anos 60 albergou mais de uma dezena de milhares de portugueses, e se tornou um dos principais centros de distribuição de trabalhadores de nacionalidade lusa em França.

Encarregado-geral no metro de Paris onde trabalhou trinta anos e ajudou a construir mais de duas dezenas de estações, e conhecido operário-ativista do maio de 68, Batista de Matos cedeu vários documentos sobre a emigração portuguesa ao Museu da História da Imigração, em Paris. Um espaço museológico que reconhece o contributo do fenómeno migratório em França, e que tem na trajetória de vida de Batista de Matos um exemplo paradigmático do relevante contributo da comunidade portuguesa no desenvolvimento da pátria francesa.

Membro fundador e dirigente da Associação Portuguesa de Fontenay-sous-Bois, comuna francesa onde foi responsável pela inauguração do primeiro monumento ao 25 de abril de 1974, fora de Portugal, Batista de Matos foi em 10 de junho de 2011 distinguido pelo Presidente da República, Cavaco Silva, com a Comenda da Ordem de Mérito.

O percurso de vida de Batista de Matos, autor do livro Uma vida de militância cívica e cultural, constitui um rosto expressivo da emigração portuguesa dos anos 60 para França, um ícone da primeira geração de emigrantes cujo trabalho e sacrifício permitiu alcançar melhores condições de vida e de dignidade que o país de origem lhes privava.