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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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GALA DA CAP MAGELLAN: O ENCONTRO DA COMUNIDADE PORTUGUESA EM FRANÇA

  • Crónica de Daniel Bastos

Uma das mais antigas e numerosas comunidades lusas no estrangeiro, a comunidade portuguesa em França, que ronda um milhão de pessoas, tem-se destacado ao longo dos anos pela sua notável dinâmica associativa, económica e sociopolítica, que muito tem contribuído para o desenvolvimento das pátrias de Victor Hugo e de Camões.

Essa intensa atividade tem impelido, desde 2010, ano em que a propósito do centenário da proclamação da Primeira República Portuguesa, os então presidentes da Câmara de Paris e Lisboa, Bertrand Delanoë e António Costa, acordaram receber a comunidade franco-portuguesa numa noite especial no Hôtel de Ville de Paris, a realização anual de uma Gala oferecida pela Câmara de Paris à comunidade luso-francesa.

Gala Cap Magellan 2021 – Entrega do Prémio Jean

Gala Cap Magellan 2021 – Entrega do Prémio Jean Pina Entreprise

 

Organizada pela Cap Magellan, uma associação de jovens luso-descendentes, fundada no princípio dos anos 90 em Paris, e que ao longo das últimas décadas tem assumido um papel ativo no desenvolvimento das relações entre a França e Portugal, a iniciativa tem como principal propósito homenagear as pessoas ou instituições que se têm distinguido no seio da comunidade luso-francesa.

No início deste mês, após as restrições impostas pela pandemia, realizou-se a 11.ª celebração desta Gala no Salão de Honra da Câmara de Paris, que uma vez mais computou a presença das forças vivas da comunidade portuguesa em França. Mais de 650 pessoas, entre elas, vários artistas, empresários, dirigentes associativos, políticos e estudantes, aplaudiram numa constante atmosfera de exaltação da cultura pátria, os diferentes premiados.

Foi o caso do jovem Hugo Augusto, distinguido como melhor aluno de liceu, Adeline Afonso, reconhecida como melhor estudante universitária, a associação “Dona Beatriz”, considerada a melhor associação, a coletividade “Des ailes pour le Portugal”, enaltecida como melhor projeto associativo, Christophe Paredes, realçado como melhor jovem empresário, ou Carlos Lopes, nomeado o artista revelação.

Uma das particularidades dos prémios da Cap Magellan, é que estes são apoiados por empresas lusas em França, como as seguradoras Império e Fidelidade, e por empresários lusodescendentes, como é o caso de Jean Pina, que robustecem assim o associativismo, a participação e o espirito comunitário dos portugueses no território no território gaulês.

GABRIEL MARTINEZ: O FOTÓGRAFO DOS EMIGRANTES PORTUGUESES EM HENDAIA NOS ANOS 60

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  • Crónica de Daniel Bastos

Na história da emigração lusa para França nos anos 60, época em que a miséria rural e a ausência de liberdade, num país amordaçado pela ditadura, impeliram a saída legal ou clandestina de mais de um milhão de portugueses, a cidade de Hendaia, na fronteira franco-espanhola, ocupa um dos capítulos mais simbólicos dessa gesta.

Estima-se que cerca de um em cada dois emigrantes cruzou nesse período a fronteira a “salto”, ou como se dizia então com “passaporte de coelho”, isto é, sem passaporte, através de uma viagem clandestina, na maioria da vezes feita ao cair da noite. A arriscada jornada por montanhas, rios e veredas, feita com o apoio dos chamados “passadores”, não raras vezes marcada por episódios trágicos, foi feita por centenas de milhares de portugueses, que após atravessarem os Pirenéus alcançavam a cidade fronteiriça francesa de Hendaia, onde compravam o almejado bilhete de comboio para a Gare de Austerlitz, cais de desembarque da emigração portuguesa em Paris.

Este momento simbólico de espera no cais da estação de Hendaia, onde milhares de emigrantes portugueses extenuados aguardaram ansiosamente o embarque para a viagem que os levou rumo a uma vida melhor, foi profusamente captado no final da década de 1960 pelo fotógrafo francês Gabriel Martinez.

Apaixonado por pintura e desenho, Gabriel Martinez, que tinha assumido a loja de fotografia do pai em Saint-Jean-de-Luz, comuna francesa na região administrativa da Nova Aquitânia, no departamento dos Pirenéus Atlânticos, retratou singularmente, nas palavras do mesmo, “um drama humano, um grande drama humano, famílias inteiras com a casa às costas”.

Nas fotografias a preto e branco, captadas há mais de meio século, o artista oriundo da costa basca, captou numa sala de espera e no cais da estação de Hendaia, homens, mulheres e crianças a dormirem em bancos, braços cruzados em cima de sacos, e muitas malas espalhadas pelo chão ou em cima de mesas, carregadas de sonhos e esperança.

Em 2008, com o apoio de Manuel Dias Vaz, presidente da Rede da Aquitânia para a História e Memória da Imigração, Gabriel Martinez publicou este valioso repositório ilustrado dos emigrantes portugueses em trânsito para Paris no livro “Sala de Espera”, da editora francesa Atlantica, ano em que as imagens foram também adquiridas pelo Museu da Aquitânia, que tem promovido ao longo dos últimos anos várias exposições itinerantes sobre esta etapa marcante da emigração portuguesa para França.

EMIGRATECA PORTUGUESA

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  • Crónica de Daniel Bastos

A emigração lusa, ao longo das últimas décadas, tem recebido uma crescente atenção por parte dos investigadores, que nas suas múltiplas formações e ângulos de análise têm dado um importante contributo para a compreensão deste fenómeno constante na sociedade portuguesa.

Um desses investigadores, que mais tem contribuído para o estudo e conhecimento da emigração portuguesa é seguramente o Professor Catedrático na Universidade de Aveiro, atualmente aposentado, Jorge Arroteia. Com uma formação de base em Geografia, e doutoramento em Ciências Sociais, Jorge Arroteia, que integrou órgãos científicos de vários estabelecimentos de ensino superior, é autor de diversos estudos e projetos de referência no campo da emigração portuguesa.

Natural da freguesia de Monte Redondo, no concelho de Leiria, um território fortemente marcado pelo fenómeno emigratório para o Brasil no início do séc. XX, e nos anos 60 para França, o investigador leiriense fundou em 2009 a “Emigrateca Portuguesa”, uma biblioteca digital especializada em assuntos da emigração lusa.

Constituída por amostras de trabalhos académicos sobre a emigração de nacionais, isoladamente e no seu contexto internacional, assim como por estudos sobre a população e a sociedade portuguesa, as comunidades luso-descendentes residentes no estrangeiro e a imigração em território nacional, este fundo bibliográfico especializado sobre o fenómeno migratório luso tem sido promovido pelo Museu do Casal de Monte Redondo. Um espaço museológico, administrado pela Associação de Defesa do Património Cultural de Monte Redondo, que se encontra instalado na terra natal do investigador leiriense, em edifício próprio, com espaço expositivo, biblioteca e reserva técnica.

A diversidade de trabalhos disponíveis e o interesse em facultar a sua consulta a um público mais vasto justificou, entretanto, a oferta de parte da documentação recolhida à Biblioteca José Saramago - Instituto Politécnico de Leiria, uma instituição de ensino superior, mantendo-se no entanto a divulgação on-line de um conciso acervo digital.

Enriquecida com um repositório de textos agrupados em tornos dos eixos temáticos - Memorial da Emigração Portuguesa / Lusitanis in Diáspora / Migrações e Desenvolvimento -, e uma listagem de sites de instituições nacionais e internacionais relacionadas com o estudo das migrações, a plataforma digital “Emigrateca Portuguesa” constitui uma ferramenta de trabalho útil e prática para o aprofundamento do conhecimento e estudo da emigração portuguesa.

VILA NOVA DE CERVEIRA: BENEMÉRITOS DA INSTRUÇÃO NA FREGUESIA DE COVAS

  • Crónica de João Manuel A. Domingues Caldas

É sempre bom recordar - mais não seja do que para demonstrar a nossa gratidão - aquelas pessoas que de forma desinteressada, apenas movidas pelo amor ao próximo, a uma causa ou à sua terra natal, disponibilizaram grande parte dos seus bens, das suas fortunas e do seu tempo, em prol do bem-estar de alguém ou de uma comunidade, como disso é exemplo aquilo que o antigo Jornal “Correio de Cerveira”, na sua edição de 28 de Fevereiro de 1928, publicou com o título “Beneméritos da Instrução”. Vejamos, na íntegra, esse artigo da autoria do Professor Romeu Pimenta, director e editor do referido semanário e que havia sido professor em Covas.

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Na foto, à esquerda e de pé, Luís Francisco Alves da Silva. No centro, de chapéu e de óculos, o então pároco de Covas, João Tavares. À direita, com uma criança ao colo, o professor Romeu Pimenta. Do mesmo lado e de pé, João Alves Silva.

 

«Vai para quinze anos que faleceu em Lisboa o abastado capitalista e proprietário naquela cidade, sr. José Lourenço Martins, natural da freguesia de Covas, deste concelho.

Foi para ali, segundo nos informaram, criança ainda, exercer o mister de moço de carvoaria e nem outra carreira poderia procurar, por não ter sentido em sua alma, de seu natural bem formada, os efeitos benéficos da Escola.

Dentro em pouco, porém, o desejo ardente que sentia de travar conhecimento com os livros amigos que das montras dos estabelecimentos o fascinavam, leva-o a procurar escolas nocturnas onde aprendeu a falar, a ler e a escrever correctamente, não só o português, como diversas línguas estrangeiras.

Com estes conhecimentos, e com um amor ingente pelo trabalho, ele devia, necessariamente, ser protegido pela Fortuna. E foi-o. Conseguiu angariar, honradamente, importantes cabedais. Envelheceu. Não tinha herdeiros forçosos, e por isso em testamento dispôs que todos os seus haveres fossem distribuídos em quinhões de onze contos, com que foram contemplados diversas pessoas, parentes, e casas de caridade. E como, por experiência, ele sabia que a primeira necessidade dos povos é a instrução, e esta só se pode ministrar proficuamente em edifícios próprios, destinou à construção de duas casas de escola, na sua freguesia, dois dos quinhões! Vinte e dois contos, no tempo em que se comprava uma casa boa para habitar, por 500$00!

Que lindas casas se não poderiam ter feito, de que esplêndido mobiliário e material didáctico, elas não poderiam ser dotadas, se essa importância houvesse caído em mãos dignas de realizarem o sonho do honrado benemérito, que ao fechar os olhos em terras distantes estava convencido de que dentro em pouco os seus conterrâneos teriam onde educar e instruir convenientemente os seus filhinhos!

Mas assim não sucedeu!

Encarregada de mandar fazer essa construção a Junta de Freguesia daqueles tempos, não tardaram em aparecer os primeiros empecilhos, motivados por caprichos que em pouco se transformavam em ódios profundos, chegando a dividir-se a freguesia em dois partidos, desejosos, cada um, de impor a sua vontade.

E o resultado desses caprichos e desses ódios foi passar o tempo, o que custava dez passou a custar mil e os vinte e dois contos que davam para construir um palácio, naquele tempo, passaram a não dar para levantar as paredes de uma casa decente. E as crianças de Covas, continuavam a frequentar uns casebres em completo estado de ruína e de abandono, e os professores a viverem em nuns pardieiros onde o vento e a chuva tinham entrada franca. E assim continuariam para todo o sempre, se não fora a simpática iniciativa de Francisco Torres, Carvalhinhos, Gandrachão, Gonçalves de Sousa, Alves da Silva e Francisco Silva, procurando adquirir por cedência do Estado, a antiga residência paroquial e terrenos adjacentes, para, nesse local, e aproveitando todos os materiais do velho casarão, darem começo à construção de edifícios escolares dignos desse nome.

Bem sabiam eles que o dinheiro do saudoso José L. Martins para pouco mais daria do que para as paredes, mas … estava ali Francisco Torres a animá-los com o seu trabalho constante e a garantir-lhes a realização do sonho dourado de toda a gente de Covas, com a sua bolsa bem recheada por virtude de muitos anos de trabalho honrado e persistente.

Iniciaram-se as obras …

Quem estas linhas escreve, teve ocasião de verificar com os seus próprios olhos, a dedicação e o carinho essa meia dúzia de amigos da Escola trabalhavam, sobretudo, principalmente, Francisco Torres!

Assombrava e comovia a dedicação daquele homem! Abandonava tudo, a sua casa, onde trabalhavam diariamente dezenas de operários e jornaleiros, as suas numerosas propriedades, parte das quais deixava ao abandono, para estar ali na “Casa da Escola”, como ele lhe chamava, a dirigir e a trabalhar, a fazer carretos com o seu gado e a puxar às pedras e às traves como qualquer operário, ele que possui bens de fortuna bastantes para viver em qualquer cidade, com todas as comodidades que só os ricos podem ter!

Quão digno de respeito e de admiração é este homem, que desprezou todas as comodidades e veio para a sua terra natal, que tem enchido de benefícios, e que muito dele ainda tem de esperar! …

Mas quem hoje der um passeio pela estrada de Covas, pode contemplar, ao chegar à Igreja daquela freguesia, um belo edifício, ao qual dá acesso uma ampla avenida ligada à estrada, com belos salões de aulas, boas casas de habitação, alpendres, grandes quintais, etc., etc.

O sonho lindo daqueles dedicados amigos da instrução tornou-se realidade.

Que os seus conterrâneos saibam reconhecer quando lhes devem, respeitando a memória querida de José Lourenço Martins, e adorando aqueles que, através de todas as dificuldades, conseguiram satisfazer o seu desejo de moribundo, tendo entre eles o primeiro lugar, quer pelo seu trabalho, quer pela grande soma que despendeu o sr. Francisco Fernandes Torres, a quem vão também, como a todos, mas a este principalmente, os protestos do nosso respeito e da nossa admiração.»

Depois de ter consultado os arquivos da Junta de Freguesia de Covas, nomeadamente os seus livros de actas, constatei que a polémica que se viveu nessa data relativamente à construção da escola, se deveu à escolha do local para a sua implantação. Um grupo de covenses queria que fosse construída sensivelmente onde hoje se encontra. O outro grupo queria que ela fosse construída um pouco mais abaixo, perto do cemitério.

A (IN)VISIBILIDADE DOS EMIGRANTES TRANSMONTANOS NAS FOTOGRAFIAS DE EDUARDO PEREZ SANCHEZ

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  • Crónida de Daniel Bastos

No decurso do mês de setembro, o fotógrafo autodidata Eduardo Perez Sanchez, nascido em Barcelona, mas há mais de meio século a viver na cidade invicta, apresentou na Cooperativa Árvore, no Porto, o seu primeiro livro, intitulado Trás-os-Montes, Uma Visão a Preto e Branco sobre as Gentes e o seu Viver na Década de 1980.

A obra, resultado de incursões fotográficas que Eduardo Perez Sanchez realizou na década de 1980 em aldeias de Trás-os-Montes, no Nordeste de Portugal continental, como Agordela, Calvo, Sá, Santa Valha e Vilarandelo, destaca-se não só pelo sentido estético, mas também, pelos detalhes descritivos que traduzem a realidade socio-histórica de uma das regiões mais periféricas e deprimidas do país.

Uma realidade de profundo ambiente rural, ainda muito marcante no limiar dos anos 80, um período de consolidação da democracia portuguesa, onde se praticava ainda uma agricultura de subsistência e as estruturas de habitação rural em pedra possuíam diminutas condições de habitabilidade e de conforto, designadamente falta de luz elétrica, água canalizada e saneamento básico.

Nesses “lugares de memória” transmontanos, captados há cerca de 40 anos pelo fotógrafo luso-catalão, que veem agora a luz dia, abundam essencialmente rostos, expressões, sentimentos e experiências da vida quotidiana de carências e dureza, por que passaram as povoações rurais do interior do país.

A presença constante de mulheres, crianças e idosos nas fotografias realizadas pelo fotógrafo septuagenário autodidata,  na região transmontana na década de 1980, recorda o fenómeno maciço da emigração portuguesa da segunda metade do séc. XX para os países industrializados da Europa Ocidental, especialmente para França, que esvaziou as aldeias do interior nortenho de homens na força na idade.

Um fenómeno marcante na sociedade portuguesa, sobretudo nos anos 60 e 70 durante a ditadura salazarista, quando mais de um milhão de portugueses partiram a “salto” motivados pela procura de melhores condições de vida ou em fuga à Guerra Colonial, e que foi particularmente incisivo em Trás-os-Montes, uma região fronteiriça onde o fardo da ruralidade e a estreiteza de horizontes impeliu uma forte vaga migratória.

A (in)visibilidade dos emigrantes trasmontanos nas fotografias de Eduardo Perez Sanchez, acentua a importância destes na história e identidade da região. A comparação do tempo transcorrido nas imagens a preto e branco do fotógrafo luso-catalão, com a realidade do presente, permite, quarenta anos depois apreender que o fenómeno migratório, malgrado a ligação ao processo de desertificação do interior, possibilitou a canalização de remessas para o sustento das famílias dos emigrantes que permaneceram nas terras de origem, e incrementou o desenvolvimento destes lugares desfavorecidos, ao nível da construção de casas, da aquisição de propriedades ou de estabelecimentos comerciais.

MUSEU DAS MIGRAÇÕES E DAS COMUNIDADES: UM ESPAÇO DE MEMÓRIA DA EMIGRAÇÃO PORTUGUESA

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  • Crónica de Daniel Bastos

A dimensão e impacto da emigração no país, nas palavras abalizadas de Vitorino Magalhães Godinho, uma “constante estrutural” da demografia portuguesa, têm impelido a construção nas últimas décadas, no seio dos territórios municipais, de vários núcleos museológicos dedicados à salvaguarda da memória do processo histórico do fenómeno migratório nacional.

É o caso, por exemplo, do Museu das Migrações e das Comunidades, sediado em Fafe, uma cidade do interior norte de Portugal, situada no distrito de Braga, no coração do Minho, cujo desenvolvimento contemporâneo teve um forte cunho de emigrantes locais enriquecidos no Brasil na transição do séc. XIX para o séc. XX. Também conhecidos como "brasileiros de torna-viagem", que na esteira da trajetória transoceânica empreendida por mais de um milhão de portugueses entre 1855 e 1914, conseguiram voltar engrandecidos à sua terra natal, e assim sustentaram a criação das primeiras indústrias, a construção de casas apalaçadas, e a edificação de obras filantrópicas ligadas à saúde, ao ensino e à caridade.

Estas marcas identitárias do ciclo do retorno dos "brasileiros de torna-viagem", singularmente presentes no centro urbano da "Sala de visitas do Minho", e profusamente estudadas pelo saudoso mestre Miguel Monteiro, impulsionaram o Município de Fafe a instituir no início do séc. XXI o Museu das Migrações e das Comunidades.

Percursor no seu género em Portugal, o espaço museológico assenta a sua missão no estudo, preservação e comunicação das expressões materiais e simbólicas da emigração portuguesa, detendo-se particularmente na emigração para o Brasil do século XIX e primeiras décadas do XX, e na emigração para os países europeus da segunda metade do século XX.

Entre os acervos documentais que compõem o Museu das Migrações e das Comunidades, que tem o reconhecimento da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e integra a AEMI (Association of European Migration Institutions), destaca-se uma coleção de mais de uma centena de fotografias oferecidas ao Museu pelo consagrado fotógrafo franco-haitiano Gérald Bloncourt, cujas amplamente conhecidas imagens que imortalizam a história da emigração portuguesa para França, representam um contributo fundamental para a (re)construção da identidade e memória coletiva nacional.

Como realça a socióloga Maria Beatriz Rocha-Trindade, no artigo Museus de Migrações – Porquê e para quem?, a instituição sediada no coração do Minho, um território fortemente marcado pela emigração, e da qual a autora de uma vasta bibliografia sobre matérias relacionadas com as migrações é consultora científica, o Museu das Migrações e das Comunidades, ao longo dos últimos anos, tem desempenhado um papel fundamental na “conservação e transmissão da memória que faz parte da própria história portuguesa”.

POR ONDE ANDAM OS VERDADEIROS ESCRITORES? – INTERROGA MÁRCIA PASSOS

Os grandes escritores são homens que, pela sua "reclusão", colhem ideias que podem dar grandes livros... Recolhem as informações e escrevem.

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Não consigo pensar em mim sem escrever, mesmo que o que escreva seja uma grande porcaria... ou uma grande treta.

Os homens nasceram para fazer letras, apareçam eles na televisão, ou sejam eles anónimos. O que distingue (segundo António Lobo Antunes, que conviveu com esses conterrâneos e com esses políticos e que conheceu Mário Soares), um bom escritor dum mau, é que os maus estão sempre a serem vendidos, enquanto que os bons não são vendidos nem estão nas prateleiras das livrarias aos milhares. Tendo em vista isso e apesar de discordar com ele em várias matérias, compreendo o que o escritor diz ao entrevistador.

Escrever é muito difícil, e se vendemos muito, já falhamos. Podemos escrever enes de histórias e se são só vendas, não entramos para a História. Este ponto de vista foi escrita em 2005 e não há nada mais atual do que isso. Também fala de algumas desilusões com os contratos com as editoras, de como foi mudando a sua forma de escrever... diz igualmente que "Uma coisa é escrever, outra é fazer literatura" e lamenta que nomes que, anteriormente eram tão mencionados nas nossas conversas tenham desaparecido ao longo dos anos como a autora Augusta-Bessa Luís ou Fernando Namora, entre outros... escritores esses que antes faziam parte do mercado literário, hoje estão a desaparecer e a ficarem esquecidos das prateleiras da Bertrand e outras livrarias.

Por onde andarão esses escritores?

A CULTURA MARÍTIMA AÇORIANA NO MUSEU DA BALEAÇÃO EM NEW BEDFORD

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  • Crónica de Daniel Bastos

No seio da fértil cultura marítima açoriana, a baleação, também conhecida como pesca ou caça às baleias, ocupa um papel basilar na memória coletiva de muitas localidades açorianas, em particular, na ilha do Pico, o grande centro do antigo complexo baleeiro insular.

As raízes históricas da baleação açoriana remontam ao ocaso do séc. XVIII quando navios baleeiros da Nova Inglaterra, região no nordeste dos então recém-independentes Estados Unidos da América (EUA), que abrange os estados de Maine, Vermont, Nova Hampshire, Massachusetts, Connecticut e Rhode Island, recrutavam no arquipélago tripulação para as suas longas campanhas.

A experiência adquirida a bordo dos navios americanos foi decisiva para o estabelecimento da atividade baleeira nos Açores, uma atividade indissociável da cultura e da história arquipelágica, ou no conceito de Vitorino Nemésio da açorianidade.

Uma atividade que tendo perdurado até ao termo da década de 1980, época em que Portugal entrou para a Comunidade Económica Europeia (CEE) e a caça comercial seria entretanto proibida pela Comissão Baleeira Internacional, foi concomitantemente percursora da diáspora açoriana nos EUA, cuja presença no território se adensou a partir da segunda metade do séc. XIX, através da emigração de milhares de açorianos ligados aos negócios da pesca da baleia.

Um dos exemplos paradigmáticos do fenómeno migratório açoriano para a América impulsionado pela baleação encontra-se em New Bedford, uma cidade costeira situada no estado de Massachusetts. Com uma população de 100 mil habitantes, da qual cerca de 40% terá ascendência portuguesa, os pescadores açorianos constituíram a primeira vaga da imigração lusa em New Bedford a partir de 1870, época em que a cidade que detém um dos portos de pesca mais importantes dos EUA era um centro mundial da indústria baleeira.

Este relevante legado histórico esteve na base da edificação do Museu da Baleação de New Bedford, um espaço administrado pela Sociedade Histórica Old Dartmouth, fundada em 1903, e que tem como principal missão avançar no entendimento da influência da indústria baleeira e do porto de New Bedford na história, economia, ecologia, artes e culturas da região, da nação e do mundo.

Foi nesse sentido que, em 2010, foi inaugurado no Museu da Baleação de New Bedford, uma ala dedicada aos baleeiros dos Açores, designada de Galeria do Baleeiro Açoriano, e que se assume como o único espaço de exposição permanente nos EUA que presta homenagem aos portugueses, mormente açorianos, e o seu significativo contributo para a herança marítima norte-americana.  

O projeto da Galeria do Baleeiro Açoriano teve a sua génese em 1999, quando a saudosa professora universitária luso-descendente, Mary T. Vermette, apresentou uma proposta ao então ministro dos Negócios Estrangeiros, Jaime Gama, para que Portugal ajudasse a abrir o núcleo museológico. Diligência que levou o Estado português a aprovar uma contribuição de cerca de 700 mil dólares, e o Governo dos Estados Unidos a contribuir com 1,2 milhões para a renovação da ala do museu dedicada à galeria.

Constituída por mais de uma centena de objetos, a Galeria do Baleeiro Açoriano além de conter peças de arte, artefactos, filmes e fotografias sobre os laços marítimos, culturais e sociais que unem os dois lados do Atlântico, homenageia ainda figuras históricas da comunidade açoriana de New Bedford, designadamente marinheiros, mestres, proprietários de embarcações e empresários marítimos.

Mais recentemente, através de fundos provenientes de uma bolsa atribuída pela fundação William M. Wood, criada por um magnata da indústria têxtil filho de um baleeiro açoriano, a Galeria do Baleeiro Açoriano foi enriquecida com dois relevantes elementos, nomeadamente um modelo em grande escala de um bote baleeiro açoriano e um posto de vigia recriado.

Como realça Ricardo Manuel Madruga da Costa, em A ilha do Faial na logística da frota baleeira americana no “Século Dabney”, a Galeria do Baleeiro Açoriano no Museu da Baleação em New Bedford, constitui “um admirável tributo que retrata, com criterioso uso de recursos ao nível das peças e da icnografia expostas, o que representou, de facto, a presença tão significativa do baleeiro das ilhas dos Açores”.

PONTE DE LIMA: OBRIGADO ENGENHEIRO VÍTOR MENDES! – A OPINIÃO DE JOSÉ GONÇALVES

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Não tendo um partido, que sempre defenderei, a nível nacional, optei sempre por apoiar e votar Vítor Mendes.

Nas eleições locais, há que escolher gente de bem, que não dorme com o partido às costas, mas é um Homem Sério, em defesa do concelho que o elegeu por mérito próprio.

Ele soube reintegrar-se nesta Terra, que não sendo sua, criou raízes profundas, pois é a Terra dos seus filhos.

Fez obra de valorização no concelho, que o povo sabe reconhecer.

Há quem diga que votar CDS, nunca, mas votam muitas vezes em quem por lá passou e deixou um deserto de ideias para o concelho.

Alguns que estiveram lá, foi para resolver em primeiro lugar os seus problemas..

Todos vêem, mas com um olhar de óculos bem escuros.

Vítor Mendes vai deixar saudades, disso não duvido.

Vasco Ferraz será o seu sucessor se o povo assim quiser.

É jovem e tem a força da Natureza.

Que saiba seguir, e melhorar se for possível, este grande património, que é o concelho mais belo, deste nosso Portugal.

Vejam as multidões a preferir Ponte de Lima, pela sua beleza e condições de bem estar...

Obrigado Engenheiro Vítor Mendes!

José Gonçalves

IN MEMORIAM COMENDADOR BERNARDINO COUTINHO

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  • Crónica de Daniel Bastos

No decurso deste ano assinalam-se os cinco anos da morte do Comendador Bernardino Coutinho (1937-2016), um dos principais mentores das celebrações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas em Newark, cidade onde se concentra uma das maiores comunidades lusas nos Estados Unidos da América (EUA).

Bernardino Coutinho nasceu em Marco de Canaveses, cidade do distrito do Porto, cujo pavilhão gimnodesportivo recebeu o nome deste filho ilustre que emigrou para a América com a esposa, Maria Coutinho, em 1967, com 30 anos, para trabalhar numa padaria.

Após seis anos de trabalho árduo, o casal marcuense lançou-se por conta própria, abrindo em 1973 o seu negócio de panificação na Chestnut Street. Rapidamente, o profissionalismo, o empenho, o esforço e a dedicação, permitiram expandir as Padarias Coutinho na cidade de Newark, designadamente no Ironbound, conhecido como o “bairro dos portugueses”, e implantar-se na cidade de Harrison e no distrito de North Arlington, ambos localizados no estado americano de Nova Jérsei.

O sucesso na área da panificação, inclusive nos anos 80 o casal Coutinho chegou a confecionar um bolo de aniversário do então presidente dos EUA, Ronald Reagan, foi amalgamado por parte de Bernardino com um profundo comprometimento com a comunidade portuguesa, tornando-se num dos seus mais extraordinários ativistas. Como espelha, o facto de ter lançando em 1980 as celebrações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas em Newark, a cujo comité de organização presidiu durante 30 anos, tendo as mesmas chegado a ser consideradas as maiores em toda a diáspora lusa.

No início da década de 90, Bernardino Coutinho criou uma fundação com o seu nome com o principal objetivo de dinamizar atividades beneméritas, sobretudo ligadas à cultura portuguesa e à integração da comunidade lusa na sociedade norte-americana. Nessa esteira, durante anos a Fundação Bernardino Coutinho proporcionou aulas de inglês e de cidadania, impeliu a criação do Rancho Folclórico Dança na Eira, e foi um dos grandes impulsionadores do Ironbound Soccer Club, uma coletividade que acolhe atualmente, no âmbito do desporto juvenil, mais de um milhar de crianças.

O compromisso e a responsabilidade de Bernardino Coutinho com a comunidade portuguesa, que levam a que ainda hoje seja recordado como o principal impulsionador das comemorações do Dia de Portugal nos EUA, estiveram na base da sua distinção com a Ordem do Infante D. Henrique, atribuída pelo então Presidente da República, Ramalho Eanes.

 Ao longo da sua vida, o saudoso ativista comunitário, que foi também presidente do Sport Club Português de Newark, um dos mais antigos dos EUA, e da Luso Internacional Sports Association-LISA, recebeu inúmeras homenagens. Destacando-se, entre outras, um doutoramento Honoris Causa do Essex County College, e a Ellis Island Medal of Honor, um prémio americano fundado pela Ellis Island Honors Society (EIHS), que distingue personalidades que se destacam pelo seu conhecimento, coragem indomável, compaixão sem limites, talentos únicos e generosidade altruísta.

O percurso de vida notável do Comendador Bernardino Coutinho ficou ainda patente no alvorecer deste ano, com a inclusão da sua estátua no Monumento ao Imigrante localizado no parque Peter Francisco, na cidade de Newark, e que assim perpetua a sua memória e marcas inolvidáveis na comunidade portuguesa nos EUA.

CARLOS RAMOS: HERÓI SEM CAPA DA COMUNIDADE PORTUGUESA NA SUÍÇA

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  • Crónica de Daniel Bastos

As comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo são um campo fértil em exemplos notáveis de uma cidadania comprometida com a dignidade do ser humano, merecedores do nosso maior respeito e admiração.

Um desses exemplos inspiradores, que nunca devemos esquecer, é indubitavelmente o do comendador Carlos Ramos, antigo conselheiro da comunidade portuguesa na Suíça, a quem tem devotado ao longo das últimas décadas uma intensa dinâmica associativa, e um dos sobreviventes e heróis de Alcafache, o maior acidente ferroviário de sempre em Portugal.

Natural do concelho de Tondela, distrito de Viseu, Carlos Ramos decidiu emigrar para a Suíça em 1985, aos 25 anos de idade, em demanda de melhores condições de vida e numa época em que a nação helvética começava a tornar-se o principal pólo de atração da emigração lusa em detrimento da França. A 11 de setembro desse ano, o jovem tondelense apanhou o “comboio do emigrante” Sud Express, em Santa Comba Dão, que o levaria para a Suíça, sendo que apenas 20 minutos após o início da viagem sobreveio um choque frontal entre o Sud Express e o regional que vinha da Guarda.

O trágico acidente ferroviário, que ocorreu junto ao Apeadeiro de Moimenta-Alcafache, na freguesia de Moimenta de Maceira Dão, concelho de Mangualde, e cuja estimativa oficial aponta para 49 mortos, dos quais apenas 14 foram identificados, continuando ainda 64 passageiros oficialmente desaparecidos, projetou Carlos Ramos do comboio mas sabendo que havia pessoas presas dentro da carruagem, regressou ao mesmo e conseguiu salvar duas vidas tendo com o seu gesto assombroso partido as pernas e sofrido queimaduras em 70% do corpo.

Gravemente ferido, o sobrevivente e herói de Alcafache seria evacuado para Lisboa no helicóptero que transportava o então Presidente da República, Ramalho Eanes, que acabou por ter um papel decisivo no seu salvamento e com quem criou uma forte amizade que perdura até aos dias de hoje. Após um período doloroso de recuperação, que incluiu dezenas de operações, e que nem sempre teve o devido reconhecimento do seu gesto de altruísmo extraordinário por parte dos responsáveis dos Caminhos de Ferro Portugueses, Carlos Ramos, detentor de um espírito abnegado, franco e resiliente, emigraria definitivamente para a Suíça em 1993, já casado e com um filho de um ano, estabelecendo-se em Neuchâtel como viticultor.

Foi a partir da capital do cantão suíço homónimo que o herói sem capa da comunidade portuguesa em terras helvéticas encetou uma relevante dinâmica em prol do movimento associativo luso. Designadamente, no Centro Português de Neuchâtel, no Grupo de Veteranos de Neuchâtel e na Casa do Benfica de Neuchâtel, e que o catapultaria até há poucos anos como membro do Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP) da Suíça.

Radicado há quase trinta anos na nação helvética, o exemplo de vida inspirador e notável do emigrante tondelense, foi oficialmente reconhecido em 2018, quando o atual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, com a presença do general Ramalho Eanes e o então Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Luís Carneiro, distinguiu Carlos Ramos, no Palácio de Belém, com as insígnias de Comendador da Ordem do Mérito.

Uma ordem honorífica portuguesa que visa distinguir atos ou serviços meritórios que revelem abnegação em favor da coletividade, praticados no exercício de quaisquer funções, públicas ou privadas, e que no caso de Carlos Ramos, é inteiramente justa e merecida, e revive a máxima de Giacomo Leopardi: “O primeiro motivo por que se está disposto a ajudar outro nas devidas ocasiões é a alta apreciação que se tem de si mesmo”.

TONY AMARAL: FUNDADOR E BENEMÉRITO DA COMUNIDADE PORTUGUESA DE PALM COAST (ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA)

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  • Crónica de Daniel Bastos

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos arquipélagos da Madeira e dos Açores, destaca-se hoje pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.

No seio da numerosa comunidade lusa nos EUA, segundo dados dos últimos censos americanos residem no território mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, destacam-se vários percursos de vida de compatriotas que alcançaram o sonho americano ("the American dream”).

Entre as várias trajetórias de portugueses que começaram do nada na América e ascenderam na escala social graças à capacidade de trabalho e de mérito, destaca-se o percurso inspirador e de sucesso de Tony Amaral, benemérito e fundador da comunidade portuguesa de Palm Coast.

Natural do concelho de Ovar, distrito de Aveiro, António Amaral emigrou para a América em 1964, com 13 anos de idade, na companhia da mãe e dos quatro irmãos, ao encontro da figura paterna que emigrara três anos antes em demanda de melhores condições de vida para uma família de lavradores marcada pelo espectro de grandes carências, na esteira da larga maioria da população que durante a ditadura portuguesa vivia na pobreza, quando não na miséria.

A chegada a Nova Jérsia, para onde o pai emigrara no alvorecer dos anos 60, e onde o jovem ovarense haveria de conhecer a esposa Maria, também emigrante, natural de Viseu, e com quem se casou aos 18 amos, marca o início de um percurso de vida de um verdadeiro “self-made man”, que começou por ajudar o pai na mercearia no nordeste dos EUA.

A capacidade empreendedora, impelida no limiar da década de 1980 pelos sobressaltos que viveu nessa época aquando de uma série de assaltos à sua loja, num período em que já era pai, levaram António Amaral, mais conhecido como Tony, em 1983 para Palm Coast, cidade localizada no estado da Flórida, no condado de Flagler, onde na altura já tinha um terreno.

Dotado de rasgo e visão, um ano depois Tony Amaral abriu em Palm Coast uma construtora, e começou a dedicar-se à compra e venda de terrenos. Em particular, a emigrantes lusos radicados em Nova Jérsia e Connecticut, numa época em que Flórida se assumia como uma terra de oportunidades, e Palm Coast, onde atualmente a comunidade luso-americana ronda os cinco mil habitantes, acolhia a chegada dos primeiros portugueses através da ação empreendedora nos sectores da construção e do imobiliário da Amaral Custom Homes.

O sentido de esforço, trabalho e dedicação, permitiram ao fundador da comunidade portuguesa de Palm Coast, construir nas últimas décadas um império empresarial com bases sólidas nas áreas da construção civil e imobiliário, que foi capaz de obter dividendos do crescimento populacional da Flórida, um dos maiores entre os estados americanos, e simultaneamente resistir à crise do subprime que acometeu os EUA na primeira década do séc. XXI.

Radicado há mais de cinquenta anos nos EUA, o sucesso que o empresário alcançou ao longo dos últimos anos no mundo dos negócios, tem sido acompanhado de uma singular dimensão benemérita em prol da comunidade luso-americana. O espírito solidário de Tony Amaral, fundamental para a construção do Portuguese American Cultural Center of Palm Coast, foi paradigmaticamente consubstanciado em 2006, quando o empresário ovarense constituiu a Fundação Amaral, que além de atribuir bolsas de estudo a jovens de origem portuguesa, possuiu igualmente uma vertente humanitária, expressa durante este período de pandemia no fornecimento a agregados carenciados de alimentos e produtos de higiene.

Os relevantes serviços de cidadania e o reiterado orgulho nas raízes portuguesas, sentimento pátrio que incitou Tony Amaral em 2017, no decurso dos incêndios de Pedrógão Grande, a dinamizar um movimento que arrecadou milhares de dólares para ajudar as vítimas, concorreram para que recentemente, no dia 25 de julho, Dia do Município de Ovar, a autarquia do distrito de Aveiro entregasse ao seu filho ilustre a Medalha Municipal Prata.

Uma das figuras mais proeminentes da comunidade luso-americana, o exemplo de vida de Tony Amaral, inspira-nos a máxima do escritor Franz Kafka: “A solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana”.

PONTE DE LIMA E A IMPORTÂNCIA DO RIO LIMA

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  • Crónica de Carlos Gomes

A propósito do feito que o atleta limiano Fernando Pimenta acaba de realizar, cabe-nos lembrar a importância do rio Lima desde os tempos mais remotos.

O rio Lima foi sempre de enorme importância, não apenas para os limianos mas também para outros povos. Desde logo, a ele que se deve a origem da feira e a fundação da vila de Ponte de Lima precisamente no local onde se cruza com a estrada romana de Braga a Astorga aqui servida pelas pontes romana e medieval. Por aqui passaram antes as legiões romanas, razão pela qual escolheram o local para a construção da referida ponte.

Séculos mais tarde, o rio Lima passou a assistir à passagem dos peregrinos que rumavam a Santiago de Compostela, servindo-se da ponte – de Ponte de Lima – para atravessá-lo a pé enxuto.

Com os seus embarcadouros, o rio Lima foi uma importante via navegável para transporte de pessoas e mercadorias. E aqui se captura uma das melhores lampreias que fazem as delícias dos seus apreciadores.

Durante muito tempo, guardou no seu leito as ameias da ponte medieval, as poucas que nos anos oitenta foram recuperadas e restituídas à ponte onde ainda se encontram.

Na segunda metade da década de 70 do século passado, tornou-se local de extracção de areias para a construção civil.

Mas, o rio Lima também é feito do sal das lágrimas dos limianos, causa de desespero das gentes da região. As inundações cíclicas que destruíam património e os constantes afogamentos causados àqueles que, confiando na sua pacatez, ousavam atravessá-lo para encurtar o caminho para a feira quinzenal, esquecendo-se precisamente que se tratava do mítico rio Lethes – o rio do Esquecimento na mitologia clássica!

Nas suas margens juntavam-se as lavadeiras e coravam a roupa ao sol, emprestando a Ponte de Lima um curioso quadro pitoresco que a maior parte da pontelimenses retém na memória com saudade dos tempos idos. E veio o açude a juzante de Nossa Senhora da Guia. Mas, o rio Lima ainda não era devidamente valorizado, pelo menos nos mais modernos conceitos, promovendo o desporto e o turismo.

E, eis que graças à existência do rio Lima e ao seu aproveitamento, passa a poder praticar-se desportos náuticos, criando as condições para que os seus atletas triunfem nas mais variadas competições, como acaba de suceder com o limiano Fernando Pimenta nos Jogos Olímpicos que decorrem no Japão.

Este exemplo – refiro-me às potencialidades do rio Lima – deve servir de inspiração para o aproveitamento que sempre deve ser feito dos recursos que a Natureza coloca à nossa disposição. E, o próprio rio Lima, tem ainda muito para nos oferecer, saibamos nós entender o que se encontra à nossa volta!

A EMIGRAÇÃO DE FUTEBOLISTAS PORTUGUESES

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  • Crónica de Daniel Bastos

Um dos aspetos que mais se tem acentuado nas últimas décadas em Portugal, ao nível do futebol, uma das modalidades, senão a mais importante modalidade desportiva do país, é a emigração de jogadores nacionais para os quatro cantos do mundo. Como salientam João Nuno Coelho e Nina Clara Tiesler, no estudo O  aradoxo do jogo português: a omnipresença do futebol e a ausência de espectadores dos estádios, parece mesmo “que hoje o país é conhecido no estrangeiro especialmente pelo futebol e respectivas celebridades”.

Não obstante, o mediatismo de jogadores como Cristiano Ronaldo, João Félix, Bruno Fernandes ou Renato Sanches, o rol hodierno da diáspora futebolística lusa não se cinge apenas aos casos mais famosos, pelo contrário, espraia-se por inúmeros atletas que impelidos por motivos profissionais ou razões financeiras, ciclicamente optam por jogar no estrangeiro.

Ainda num dos últimos estudos elaborados pelo Observatório do Futebol do Centro Internacional de Estudos do Desporto (CIES), em 2019, havia 362 jogadores lusos a jogar em campeonatos estrangeiros. Contexto que contribuiu para que Portugal fosse nesse ano o 13.º país com mais atletas profissionais de futebol a jogar além-fronteiras, sobretudo, em Inglaterra, o principal destino dos portugueses, seguido de Espanha e da Grécia.

De acordo com o estudo em causa, o topo dos países exportadores de jogadores de futebol foi em 2019 ocupado pelo Brasil, que teve nesse ano 1600 futebolistas a atuar no estrangeiro, seguido da França, com 948 atletas, e da Argentina, com 913.

Ainda ao nível dos atletas portugueses que jogam no estrangeiro, é também cada vez mais notório o número crescente de lusodescendentes que integram plantéis de equipas de tradicionais países de destino da emigração portuguesa. Mormente a França, Suíça e Luxemburgo, e que por via do seu talento futebolístico já integraram as convocatórias da Seleção Nacional, como é o caso, entre outros, de Raphael Guerreiro, Anthony Lopes, Cédric Soares ou Adrien Silva.

Os dados vindouros sobre a emigração de futebolistas lusos devem seguramente continuarem nesta senda de incremento, catapultando estes atletas como autênticos embaixadores da projeção do nome e dos valores de Portugal no Mundo.

VACINAÇÃO: O TRUNFO CERTEIRO

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  • Crónica de José Miguel Marques (Médico Interno de Formação Específica em Medicina Geral e Familiar)

O Programa Nacional de Vacinação (PNV) em Portugal, criado em 1965, tem tido significativo sucesso devido à adesão voluntária a um programa de saúde bem estruturado, credível e com uma relação custo-benefício claramente a favor da vacinação contra diversas doenças. O PNV é dinâmico e ao longo dos anos tem-se ajustado às necessidades das populações e à epidemiologia das doenças que ameaçam a comunidade.

Desde o início da pandemia de SARS-CoV-2 que as vacinas eram a resposta necessária. A dúvida prendia-se com a rapidez com que se poderia desenvolver uma ou mais vacinas seguras e eficazes. O desenvolvimento de vacinas e de medicamentos seguem critérios rigorosos de eficácia e segurança. Este processo não significa, todavia, que seja risco zero. A tolerância ao risco é um mal necessário para permitir uma avaliação de custo benefício em todas as tomadas de decisão, incluindo as decisões sobre vacinação e em saúde.

O “movimento anti-vacinas” bebe inspiração de uma fonte já seca. Isto é, o falso artigo de 1998 que relacionava uma vacina com o desenvolvimento de autismo, foi claramente revogado em 2010. Contudo, ainda hoje se sentem réplicas da desinformação gerada há 2 décadas. Ainda hoje a comunidade civil e científica esgrimam argumentos na discussão sobre o custo-benefício da vacinação, em despeito da vasta evidência a favor da vacinação.

É verdade que estamos num país livre. É verdade que a vacinação é recomendada e não obrigatória. É claro que há riscos. É claro que as vantagens são enormes, e não se limitam à nossa esfera individual mas têm repercussões altruisticamente positivas na comunidade.

Quem não se vacina não coloca apenas a própria saúde em risco, mas também a de seus familiares e outras pessoas com quem tem contato, além de contribuir para aumentar a circulação de doenças. Estima-se que vacinação terá evitado mais de 700 mortes em Portugal só nos últimos 2 meses, resultado direto da proteção que a vacina oferece contra a doença grave, internamentos e morte por COVID-19.

Nos dias de hoje há muito ruído sobre temas sensíveis. O desafio da nossa Era não é aceder a informação, mas sim separar o joio do trigo , distinguir o que são fake news e ruído para procurar o “sinal”, a mensagem adequada. Uma das estratégias mais simples de promover a qualidade de informação é ir à fonte. Em saúde, a fonte de informação é, em primeiro lugar, a Direção-Geral de Saúde como fonte oficial. Apenas em segundo lugar vêm as posições fundamentadas dos peritos e profissionais de saúde. Só através de uma priorização das fontes de informação é que seremos capazes de ponderar e esclarecer a informação veiculada e retransmitida por outras fontes.

Se em idades mais avançadas o benefício da vacinação contra COVID-19 é mais claro, interessa falar sobre a vacinação de crianças e jovens que serão vacinados agora até setembro. Por um lado, o governo quer vacinar o máximo possível e atingir imunidade de grupo até ao início do novo ano letivo. Por outro, surge uma missiva assinada por diversos profissionais que se opõem à vacinação das crianças e jovens. Outros defendem a vacinação de crianças e jovens o mais rápido possível. Os Estados Unidos defendem a vacinação em crianças, o Reino Unido é mais prudente e defende a vacinação apenas se as crianças tiveram doenças (comorbilidades). Portanto, percebe-se que há divisão das perspetivas. Ainda que a visão individual de cada um de nós possa ser facilmente enviesada por diversos fatores, nomeadamente experiências individuais, fatores emocionais e culturais, acredito que haja argumentos suficientes a favor da vacinação das crianças e jovens. Neste sentido, considero que devemos continuar a confiar na equipa da Comissão Técnica de Vacinação da DGS, que irá brevemente ponderar e decidir tendo em conta a melhor evidência disponível. Espero que haja forte adesão às recomendações da DGS para proteção da saúde, de cada um de toda a comunidade!

MANUEL EDUARDO VIEIRA: O “REI DA BATATA-DOCE” NA AMÉRICA

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  • Crónica de Daniel Bastos

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos arquipélagos da Madeira e dos Açores, destaca-se hoje pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.

No seio da numerosa comunidade lusa nos EUA, segundo dados dos últimos censos americanos residem no território mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, destacam-se vários percursos de vida de compatriotas que alcançaram o sonho americano ("the American dream”).

Entre as várias trajetórias de portugueses que começaram do nada na América e ascenderam na escala social graças a capacidades extraordinárias de trabalho, mérito e resiliência, destaca-se o percurso inspirador e de sucesso do comendador Manuel Eduardo Vieira, o maior produtor mundial de batata-doce biológica.

Natural de São João, freguesia do concelho de Lajes do Pico, arquipélago dos Açores, Manuel Eduardo Vieira antes de se fixar no território norte-americano, emigrou com 17 anos em 1962, no início do deflagrar da Guerra do Ultramar, para o Rio de Janeiro. Ao encontro de um tio, que o acolheu a pedido da mãe, e lhe permitiu estudar para além da 4.ª classe concluída no torrão natal, no seio de uma família humilde, com carências e enleada nas lides agrícolas.

A estadia no Brasil, que durou cerca de uma década, proporcionou ao picoense a formação na área de Contabilidade e Gestão, a experiência de trabalho de escritório em diversas empresas, o encontro com a futura esposa Laurinda, também emigrante, natural de Chaves, e foi ainda berço de nascimento dos seus três filhos.

A ida de Manuel Eduardo Vieira para os EUA ocorreria no começo dos anos 70, período em que os pais e o irmão Artur, já tinham emigrado para a Califórnia e onde trabalhavam no Vale de São Joaquim, numa empresa agrícola do tio António Vieira Tomás, que serviu de palco à sua primeira experiência profissional na área.

O esforço e o nunca desistir perante as dificuldades, patentes no facto de ter começado a estudar inglês à noite e a trabalhar no campo, durante o dia, forjaram um homem que conquistou a pulso o sonho americano. E que teve o impulso decisivo quando em 1977 o tio lhe fez a proposta de vender-lhe a A.V. Thomas Produce que produzia então batata-doce em cerca de 20 hectares de terreno, e tinha uma única linha de tratamento e de embalagem instalada num barracão na cidade de Livingston.

O duplo emigrante açoriano teve o engenho e arte de relançar a empresa, adquirida por 145 mil dólares, introduzindo técnicas pioneiras e inovadoras à produção da batata-doce, como a certificação de produção biológica em 1988, ou recentemente a batata-doce em embalagem individual e pronta a ir ao micro-ondas, e expandindo a propriedade que presentemente tem mais de 1200 hectares. Contexto que a transforma, segundo o departamento de Agricultura dos Estados Unidos, na maior produtora mundial de batata-doce biológica, com um volume de negócios que ultrapassa os 50 milhões de euros, e onde nas épocas da apanha, trabalham cerca de 900 trabalhadores, e que levou inclusive na década de 90 a cadeia de supermercados Safeway a oferecer a Manuel Eduardo Vieira uma placa de matrícula personalizada com as palavras King Yam “Rei da Batata-Doce”.

Empresário e empreendedor com uma trajetória marcada pelo mérito e pela inovação, premissas que levaram a que em 2013 vencesse a primeira edição do “Best Leader Awards (BLA) EUA” na categoria de “Lifetime Achievement”, e que dois anos antes, impeliu o então Presidente da República, Cavaco Silva, a atribuir-lhe a comenda da Ordem de Mérito, Manuel Eduardo Vieira mantém uma ligação umbilical à sua terra natal.

Ainda em 2017, foi inaugurada na praceta do Centro Social da Silveira, Lajes do Pico, onde foi o principal benemérito da obra do Salão do Centro Social, Cultural e Recreativo, uma estátua em sua homenagem e que eterniza igualmente a generosidade que tem repartido por diversas associações da ilha do Pico.

Radicado há cerca de cinquenta anos nos Estados Unidos da América, o sucesso que o emigrante picoense alcançou ao longo dos últimos anos no mundo dos negócios, tem sido acompanhado igualmente de um apoio constante à comunidade luso-americana, onde foi fundador e primeiro presidente da Sociedade Filarmónica Lira Açoriana de Livingston, da Casa dos Açores de Hilmar e da Igreja da Paróquia de Nossa Senhora da Assunção em Turlock.

Uma das figuras mais proeminentes da comunidade luso-americana, o exemplo inspirador e de sucesso do comendador Manuel Eduardo Vieira, encontra-se vertido numa das suas principais máximas de vida: “As coisas boas não aparecem facilmente, é preciso trabalhar duro para consegui-las. Se temos uma meta a atingir, não podemos desistir, porque com trabalho, organização e muita disciplina, tudo é possível”.

ENVELHECER NAS COMUNIDADES PORTUGUESAS

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  • Crónica de Daniel Bastos

Dentro dos desafios e problemáticas que as sociedades enfrentam na atualidade, o envelhecimento populacional assume uma cada vez maior premência, dadas as suas implicações coletivas e multidimensionais, como é o caso, do mercado laboral, da proteção social, das estruturas familiares ou dos laços intergeracionais.

Como apontam as Nações Unidas, o número de idosos, com 60 anos ou mais, deve duplicar até 2050 e mais do que triplicar até 2100, passando de 962 milhões em 2017 para 2,1 mil milhões em 2050 e 3,1 mil milhões em 2100. Se o envelhecimento populacional é um fenómeno mundial, na Europa assume maiores proporções, até porque, hoje em dia, o velho continente tem a maior percentagem da população com 60 anos ou mais (25%).

No quadro do inverno demográfico mundial e europeu, a sociedade portuguesa é uma das mais afetadas, apontando mesmo o Instituto Nacional de Estatística (INE) que quase metade da população portuguesa terá mais de 65 anos dentro de meio século. Este cenário de envelhecimento da população que reside no território nacional, também é visível no seio das comunidades lusas, em particular, nos países com maior e mais antiga tradição de emigração portuguesa.

Segundo o estudo sociológico, A emigração portuguesa no século XXI, a percentagem dos idosos entre os emigrantes lusos aumentou, por exemplo, no Canadá 11 pontos percentuais, passando de 17% para 28%, entre 2001 e 2011, e nos EUA aumentou sete pontos percentuais, de 16% para 23%. Crescimento elevado da percentagem dos idosos é ainda observável entre os emigrantes portugueses em França, destino europeu mais antigo. Essa percentagem duplicou, passando de 8% para 16% entre 2002 e 2011”.

É neste contexto de populações nacionais emigradas mais envelhecidas, que ganha especial relevância a iniciativa que está a ser por estes dias dinamizada no seio da comunidade portuguesa em Toronto, onde vive a maioria dos mais de 500 mil compatriotas e lusodescendentes presentes no Canadá. Designadamente, o projeto de construção a breve prazo de um centro, orçado em vários milhões de dólares, capaz de acolher mais de 200 idosos, especialmente direcionado para a comunidade portuguesa.

Este projeto, há muito ambicionado pelos emigrantes lusos na maior cidade canadiana, está a ser dinamizado pela Magellen Community Charities (Instituição de Caridade Comunitária Magalhães). Uma organização sem fins lucrativos, em homenagem ao navegador português, que através da colaboração do poder politico e da solidariedade da comunidade luso-canadiana, pretende construir um lar culturalmente específico que terá que cumprir as seguintes condições: profissionais de saúde que falem português; atividades cultural e espiritualmente desenvolvidas em ambiente cultural sensível; promoção de programas sociais e recreativos em português e alimentação que deve incluir pratos tradicionais.

Numa época de galopante envelhecimento da população, e em que os efeitos da pandemia de COVID-19 têm acarretado graves consequências socioeconómicas, a construção de uma “casa” para os mais velhos da comunidade luso-canadiana, demonstra que o espírito de solidariedade e entreajuda ainda é uma das principais marcas da diáspora, em particular, da comunidade portuguesa em Toronto.

MUSEU DA FAMÍLIA TEIXEIRA: UM TRIBUTO AO LEGADO MIGRATÓRIO LUSO-VENEZUELANO

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  • Crónica de Daniel Bastos

O arquipélago da Madeira, cais singular de chegadas e partidas no oceano Atlântico, tem sido, ao longo da história portuguesa, um dos territórios nacionais mais fortemente marcado pelo fenómeno da emigração.

Um dos principais destinos da emigração madeirense na segunda metade do séc. XX, foi indubitavelmente a Venezuela, país da América do Sul, onde se estima que vivam atualmente cerca de 400 mil emigrantes portugueses, conquanto os lusodescendentes possam ser 1,3 milhões, essencialmente radicados na capital, Caracas, e sobretudo ligados aos sectores da hotelaria, construção civil e alimentação.

O relevante legado histórico da emigração lusa para a pátria de Simón Bolívar, maioritariamente oriunda da Madeira, está desde o início da segunda década do séc. XXI plasmado na missão e visão do Museu da Família Teixeira, situado na Fajã da Murta, freguesia do Faial, no concelho de Santana.

Um espaço museológico concebido pelo empresário Anaclet Teixeira de Freitas, e que tem como principal desígnio homenagear e perpetuar a memória dos seus progenitores, Albino Teixeira e Conceição Caires, naturais de Fajã da Murta, e que nos anos 50, tal como milhares de conterrâneos, encetaram uma trajetória migratória familiar para a Venezuela à procura de melhores condições de vida.

Nos anos 60, com apenas sete anos de idade, Anaclet Teixeira, foi ao encontro dos pais em Caracas onde viria no alvorecer da década de 80 a especializar-se em gastronomia judaica-ortodoxa. Área alimentar, que aliada a uma incansável capacidade de trabalho, ao culto do mérito e a uma constante dedicação à família, permitiram-lhe construir um verdeiro império comercial, atualmente refletido nas conhecidas cadeias de lojas “Rey David” na capital venezuelana.

Detentor de vários investimentos na América Latina, assim como na sua terra natal, onde tem investido em hotéis e imobiliário, contexto que confluiu para que no passado dia 1 de julho, Dia da Região Autónoma da Madeira e das Comunidades Madeirenses, tenha sido agraciado pelo Governo Regional com a insígnia autonómica de bons serviços, Anaclet Teixeira erigiu em Fajã da Murta um espaço museológico que alberga as memórias, objetos, cartas e fotografias da família.

Um núcleo museológico, aberto ao público e com entrada gratuita, aformoseado por um jardim com vinte palmeiras trazidas do Egipto, uma capela, um coreto e uma adega, que ao preservar a história de vida da Família Teixeira, dinamiza e perpetua a memória histórica do fenómeno da emigração no Arquipélago da Madeira, em particular do legado migratório luso-venezuelano.

Como destaca a socióloga das migrações, Maria Beatriz Rocha-Trindade, no artigo Museus de Migrações – Porquê e para quem?, o Museu da Família Teixeira “constitui um espaço museológico revelador de muitos factos que se encontram intimamente ligados à vida pessoal de um migrante, que partiu para a Venezuela pelo chamamento do seu pai e que a partir daí construiu habilmente e de forma particularmente inteligente o sucesso obtido”.

O exemplo de vida Anaclet Teixeira, empreendedor de sucesso que apesar de várias vicissitudes da vida nunca olvida as suas raízes e família, como espelha a construção do museu dedicado a homenagear e perpetuar a memória dos seus pais, inspira-nos a máxima do ensaísta francês Joseph Joubert: “A memória é o espelho onde observamos os ausentes”.

SUPERSTIÇÕES

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  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Um médico meu amigo, há muito desaparecido, ainda no tempo em que os meios complementares de diagnóstico eram escassos e a medicina se exercia de mãos dadas com o estudo e a experiência, costumava dizer-me que o maior drama do médico era quando não acertava à primeira no mal do doente, porque a doença era complicada ou porque este não sabia explicar-se em relação aos sintomas que o apoquentavam.  “É que o doente, particularmente o mal-esclarecido, quando deixa de ter confiança em nós, nem sempre sabe procurar alternativa no contexto da medicina, e boa parte das vezes ele sente a tentação de procurar a solução no domínio do esotérico. Caminhar em direção à bruxa, entrar na charlatanice, acreditar em maus-olhados e tantas outras coisas bizarras, é algo que está na mente de imensa gente”, dizia-me ele. Daí que considerasse um feito diagnosticar bem a doença e tratar rapidamente quem o procurava. “Não é uma vitória minha, mas da medicina. Quanto mais fizermos para tirar as pessoas das mãos de charlatões, mais vidas salvamos e mais valorizamos o Ser Humano”, rematava.

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Crenças e superstições. O retrato de quem goza com o tema. (In portal do folclore português)

Eu sabia que assim era, porque a superstição, hoje menos disseminada, dada a evolução das sociedades, em tempos, especialmente nos meios rurais, acontecia com regularidade assustadora, sendo até assumida como algo natural. Reconhecer a determinadas pessoas poderes sobrenaturais e procurá-las para tratar de males que são mais aparentes do que reais, é entrar no domínio do absurdo. Lembro-me que há 50 anos as crianças choravam muito. Acontecia, fundamentalmente, por má qualidade de vida e falta de acompanhamento médico; no entanto, da parte de quem as criava, havia sempre a tendência para dizer que elas tinham o diabo no corpo e que o melhor era fazer-lhes um defumo. Ainda haverá quem o faça, mas, se tal chega ao domínio público, quem o faz arrisca-se à chacota e à recriminação. O mesmo acontecia com as ditas invejas e infidelidades. Para afastar invejosos ou gente que punha em causa casamento alheio, nada como recorrer à bruxa, porque ela dispunha de boas armas para anular estes males. Acontece que, nestes como noutros casos, os comportamentos menos próprios se deviam e devem, fundamentalmente, a formação insuficiente. Quanto menos bem formadas as pessoas forem, mais tendência têm para reprováveis comportamentos. E a incultura não tem de todo a ver com formação académica. Pode-se ser culto com escolaridade básica. Mas o melhor é não dar mais profundidade ao assunto, para não ocupar todas as páginas do jornal. As histórias e as práticas são tantas que, descrevê-las, só em partes, para não cansar os leitores.

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Acertar na mouche

Pelo caricato que envolve, fico-me apenas por mais uma abordagem acontecida comigo quando jovem. Naquele tempo, muito se falava de Procissão de Defuntos, não faltando gente a dizer que todos os dias à meia noite vinha para o caminho assistir à sua passagem, reconhecendo boa parte dos que integravam o cortejo. Sempre que alguém morria, também alguém afirmava que já estava à espera qua tal acontecesse. Pois, digo eu, todos esperamos a morte. Engraçado, ou anedótico, é que nunca vi alguém contrariar quem o afirmava. Antes pelo contrário, o que as pessoas temiam era serem vistas por essa gente de poderes sobrenaturais naquele grupo viandante. Quantas vezes em trabalhos agrícolas noturnos, particularmente desfolhadas do milho lá pela meia noite, alguém já de idade avançada, sentindo um ruído na noite escura, afirmava: “lá vai ela, hoje vai uma multidão, e vai lá gente importante e rica”. Caso raro porque os ricos naquele tempo eram bem poucos, atrevo-me a afirmar. Quase toda a gente andava descalça ou de galochas e quase toda a gente vivia humildemente do campo ou do mar. Pois, mas eu também me vi envolvido num encontro com a Procissão dos Defuntos.

O Castelo do Neiva só passou a ter energia elétrica na década de 1960 e, até aí, à noite tudo era fantasmagórico. As tabernas, que nunca fechavam muito tarde, iluminavam-se com o ainda hoje conhecido Petromax, alimentados a petróleo, coisa rara e de gente com algumas posses. Ora, no tempo que antecedeu a luz elétrica caminhar na rua à noite despertava todos os medos. No inverno, ainda dia, todos se recolhiam às suas casas, para curtir noites longas. No verão, contudo, havia as desfolhadas, particularmente em casa dos lavradores abastados, que juntavam um número substancial de pessoas. E nas desfolhadas apareciam os mascarados com voz disfarçada para não serem reconhecidos. Mas isso era por pouco tempo, porque rapidamente a máscara desaparecia do rosto e todos entravam no trabalho para ter direito a alguns comes e bebes, e à procura da espiga vermelha, para reinar com as moças. No fim é que era o pior porque cerca da meia-noite, ou já de madrugada, todos tinham que voltar ao lugar de partida enfrentando o tenebroso escuro noturno.

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O velho petromax, o melhor recurso do seu tempo

Ora foi numa dessas noites em que nada se descortinava, ao ponto de se perder o norte e só por intuição chegar a casa, que o medo também me gelou o corpo. De tanto ouvir falar de Procissão dos Defuntos, pela ainda tenra idade e fraca noção das realidades, também ela me perturbava. Já no portão de entrada da casa aconteceu o que menos esperava: ao longe começo a ouvir um ruído estranho, que se ia ampliando lentamente até atingir um nível bem elevado. De repente, este começa a diminuir e vai desaparecendo, sem que eu conseguisse descortinar fosse o que fosse.

A noite foi de insónias e no dia seguinte, depois da missa dominical, no local de encontro de amigos, o assunto tinha que dar debate. Palpites não faltaram, com a esmagadora maioria convencida de que se tratava de algo de anormal, alguns indecisos, mas outros convictos. Estava-se nisto, quando alguém passa e diz: “Campinho (apelido de família) ontem à noite não ganhaste para o susto, nem deves ter pregado olho”. Vendo-me intrigado, remata, “era eu rapaz; a bicicleta, que já sabe bem o caminho para minha casa, não necessita de luz e, naquele escuro medonho, eu e ela circulamos sem sermos vistos. Aqui temos a Procissão dos Defuntos no seu melhor. Mais comentários só consomem tempo.

POBREZA, PANDEMIA E SOLIDARIEDADE NA COMUNIDADE PORTUGUESA EM FRANÇA

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  • Crónica de Daniel Bastos

O impacto da pandemia que assola o mundo tem agravado e desvendado várias situações de emigrantes portugueses envoltos nas dificuldades do isolamento, das malhas da pobreza, do flagelo do desemprego e da precariedade.

Nos últimos tempos, têm sido conhecidos, por exemplo, no seio da comunidade portuguesa em França, a mais numerosa das comunidades lusas na Europa, rondando um milhão de pessoas, vários casos de emigrantes que viram a pandemia reduzir os seus salários ou ficarem mesmo sem trabalho, não conseguindo por via disso pagar a renda da casa e consequentemente soçobrar perante o espectro da pobreza.

Ainda no final do mês de junho, o Presidente do Conselho Fiscal da Misericórdia de Paris, Manuel Antunes da Cunha, revelou no decurso das XI Jornadas Sociais da Santa Casa da Misericórdia de Paris, que seis portugueses, entre os 38 e 82 anos, encontram-se entre as 535 pessoas que morreram nas ruas de França em 2020. Segundo o dirigente da instituição de assistência social lusa em Paris, região onde pereceram cinco mendigos portugueses no ano passado, muitas das vezes olvidamos os compatriotas “cujos percursos de vida não foram os desejáveis para eles e, portanto, em situações de pandemia, aqueles que estão no limiar da pobreza ou têm uma vida remediada rapidamente se encontram em situações de precariedade”. No entendimento do mesmo, a “pandemia põe à vista as dificuldades de uma população que está na fronteira do limiar da pobreza. Há um conjunto de pessoas da nova migração para França que vieram em condições difíceis e não têm retaguarda familiar”.

Este cenário de intrincadas dificuldades decorrentes do cenário pandémico tem sido essencialmente mitigado no seio da comunidade portuguesa em França através de um enorme espírito entreajuda e solidariedade, que tem inclusivamente contribuído decisivamente para a prossecução da missão da instituição de assistência social lusa em Paris. Ainda no ocaso do mês de junho, o coletivo “Todos Juntos”, voltou a mobilizar-se para ajudar a Santa Casa da Misericórdia de Paris numa campanha de recolha de géneros alimentícios, produtos de higiene e outros bens essenciais destinados a apoiar famílias portuguesas carenciadas

Este espírito de entreajuda e solidariedade tem sido igualmente profusamente dinamizado ao longo dos últimos anos pela ação benemérita do empresário luso-francês João Pina, instituidor da Fundação “Nova Era Jean Pina”, e que tem sido responsável pela promoção de projetos de cariz sociocultural em prol das pessoas mais desfavorecidas ou vulneráveis, como idosos, crianças institucionalizadas e desempregados. Ainda recentemente, a Fundação Nova Era, assinou um contrato de aluguer de um apartamento que albergou um lusodescendente, residente em França, que se encontrava há vários meses a residir num espaço sem as condições mínimas de habitabilidade.

Estes exemplos inspiradores de entreajuda e solidariedade, e muitos outros que estão a ser dinamizados no seio da comunidade portuguesa em França, assim como um pouco toda a diáspora lusa, têm sido fundamentais para mitigar os efeitos adversos da pandemia, e dão sentido à citação do afamado advogado Clarence Darrow: “O homem que luta por outro é melhor do que aquele que luta por si próprio”.