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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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AS MEMÓRIAS DA EMIGRAÇÃO MADEIRENSE NO ESPÓLIO FOTOGRÁFICO DE JOSÉ DE SOUSA MONTEIRO

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  • Crónica de Daniel Bastos

No início do mês passado, a fotojornalista Lucília Monteiro, conhecida fotojornalista da revista Visão e do semanário Expresso, lançou no Museu de Fotografia da Madeira – Atelier Vicente's, o livro Imagem Foto – Corpo e Lugar.

Concebido a partir do arquivo fotográfico de José de Sousa Monteiro (1931-2001), pai da autora, cujo espólio constituído por milhares de negativos captados entre as décadas de 1950-90 constitui um valioso acervo ilustrado da história madeirense, em particular, do concelho de Santa Cruz, onde o fotógrafo nasceu e fundou no ocaso dos anos 50 o estúdio “ Imagem Foto”, o livro Imagem Foto – Corpo e Lugar revivesce a memória histórica da emigração no arquipélago.

Na esteira da sinopse da obra "o trabalho de José de Sousa Monteiro é extenso, mas a seleção aqui apresentada cingir-se-á às fotografias de estúdio, nas quais o corpo ganha relevância para além da classe social que tanto definia os papéis na comunidade”. Nas inúmeras fotografias de estúdio captadas entre as décadas de 1950-90 por José de Sousa Monteiro, destacam-se os retratos de passaporte, assim como os retratos de muitos naturais do concelho de Santa Cruz, vestidos com as suas melhores roupas domingueiras, destinados aos familiares emigrados em terras distantes.

Terras distantes como o Brasil, Curaçau, África do Sul, Venezuela, França ou o Reino Unido, locais de destino dos emigrantes madeirenses, em geral, e santa-cruzenses, em particular, no séc. XX. Como destaca, a investigadora Sílvia Raquel Mendonça Ferreira no trabalho Raízes e Destinos: Estudo Sociocultural e Linguístico da Emigração Madeirense para a França e Reino Unido a partir da década de 1960 (no âmbito do Projeto Nona Ilha), o “recurso à emigração em busca de uma vida melhor é um conceito inerente ao ADN dos ilhéus do Arquipélago da Madeira, localizado num ponto geográfico de suma importância no panorama mundial da navegação marítima e tendo sido fustigado, ao longo dos tempos, por episódios de pilhagens, epidemias e pragas agrícolas”.

Numa época em que cada vez mais os cientistas sociais se debruçam sobre o fenómeno da emigração portuguesa, em boa hora decidiu a fotojornalista Lucília Monteiro trazer à estampa o livro Imagem Foto – Corpo e Lugar, assim como em conjunto com os seus irmãos, doar ao Museu de Fotografia da Madeira - Atelier Vicente's um relevante arquivo fotográfico que enriquece e perpetua a história, memória e identidade nacional, regional e local.

FOLCLORE NÃO É CLUBITE

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  • Crónica de Carlos Gomes

Remonta ao tempo do Estado Novo a invenção de uma espécie de clubite no que ao folclore do Minho diz respeito.

Pese embora a diferença no trajar entre localidades dentro da mesma região, as quais vão ao ponto de se destacarem dentro do mesmo concelho, parece contudo existir uma certa distinção forçada entre o folclore dos distritos de Braga e Viana do Castelo como quem quer vestir uma camisola diferente.

É sabido que a maneira de trajar varia consoante as necessidades de agasalhamento e a arte que é aplicada à sua confeção, as condições climáticas e a utilidade do vestuário, a obtenção de matéria-prima e até a influência dos romeiros e feirantes.

Porém, existem aspetos que são comuns e isso tem nomeadamente a ver com o emergir da indústria que veio introduzir alterações nos hábitos. É o que sucedeu com a indústria de chapelaria em Braga – até à sua deslocalização para São João da Madeira – responsável pela introdução do chamado chapéu braguês nos costumes locais em detrimento do tradicional barrete caseiro que veio paulatinamente a cair em desuso.

O chapéu conferia também um estatuto social que acompanhava o fato constituído por calças, colete e casaco, distinguindo quem o usava do humilde camponês de menor condição, calçando os velhos tamancos, agarrado às rudes lides da lavoura.

Tal como sucedia com outros artefactos – instrumentos musicais, alfaias agrícolas, vasilhames e até mobilias – também o vestuário era adquirido nas feiras quando não era confeccionado nos velhos teares caseiros. E, era sobretudo de Braga onde a industria já adquiria algum significado que provinha a maior parte desses produtos, razão pela qual surge-lhes muitas vezes associado o termo braguês. Chapéu braguês e viola braguesa são disso exemplo e, salvo melhor opinião, não se conhece à época produção semelhante em Viana do Castelo.

Em dia de feira, o lavrador adquiria o seu fato completo. E era vê-lo na feira de gado a negociar, como documentam as fotografias da época, aparentando já um aspecto burguês muito cobiçado pelo lavrador abastado. Dava-lhe um aspecto mais citadino, apesar de comprado na tenda em lugar de ser encomendado nas alfaiatarias parisienses…

Mas muitos ranchos e grupos folclóricos não atendem à evolução dos costumes e mentalidades, preferindo copiar fantasias que nada têm a ver com a tradição. Referindo-nos ao traje domingueiro masculino, o fato perdeu o casaco. O colete deixou de ter “casas” para abotoar para passar a exibir extensas fileiras de botões nas duas abas ao gosto circense. As camisas são agora de toda a forma e feitio, bordadas até ao cotovelo. As calças passaram a usar braguilha e o ranhoso lenço tabaqueiro foi pendurado ao pescoço. O chapéu braguês foi substituído por uma espécie de “marmita”. E, apesar de não ser roupa usada nos trabalhos de lavoura, é por vezes usado como tal, exibindo os seus componentes ferramentas agrícolas e até executando tarefas como desfolhar o milho.

E, tamanha obcessão em distinguir artificialmente o folclore das regiões de Braga e Viana do Castelo – como se tratasse de rivalidade clubística! – apenas empobreceu de sobremaneira esta última na forma de representar as nossas tradições.

- Copiar sem critérios o que está errado não é pesquisar: é vender gato por lebre!

OS "BRASILEIROS DE TORNA-VIAGEM"

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  • Crónica de Daniel Bastos

Na senda das vagas contemporâneas de emigrantes portugueses para vários países do mundo, evidencia-se o ciclo transoceânico que se prolongou de meados do século XIX até ao primeiro quartel do século XX, e que teve como principal destino o Brasil.

Pressionados pela carestia de vida e baixos salários agrícolas, mais de um milhão de portugueses entre 1855 e 1914 atravessaram o oceano Atlântico, essencialmente seduzidos pelo crescimento económico da antiga colónia portuguesa. Procedente do mundo rural e eminentemente masculino, o fluxo migratório foi particularmente incisivo no Minho, um dos principais torrões de origem da emigração portuguesa para o Brasil.

Enobrecidos pelo trabalho, maioritariamente centrado na atividade comercial, e após uma vintena de anos geradores de um processo de interação social que os colocou em contacto com novas realidades, hábitos, costumes e posses, o regresso de “brasileiros de torna-viagem” a Portugal, trouxe consigo um espírito burguês empreendedor e filantrópico marcado pela fortuna, pelo gosto de viajar, e pelo fascínio cosmopolita da cultura e língua francesa.

Ainda que sintomática das debilidades estruturais do país, a emigração portuguesa para o Brasil entre o séc. XIX e XX, facultou através do retorno dos “brasileiros de torna-viagem”, os meios e recursos necessários para a transformação contemporânea do território nacional, com particular incidência no Noroeste de Portugal.

Como sustenta Miguel Monteiro, “alma mater” do Museu das Migrações e das Comunidades, sediado em Fafe, concelho minhoto conhecido como a capital da arquitetura dos “brasileiros”, recuando à segunda metade do séc. XIX, encontramos nos “brasileiros” aqueles que alcançando fortuna no Brasil, “construíram residências, compraram quintas, criaram as primeiras indústrias, contribuíram para a construção de obras filantrópicas e participaram na vida pública e municipal, dinamizando a vida económica, social e cultural”.

Numa época, em que a nova geração de emigrantes que deixa Portugal não tem como principal propósito o regresso vindouro, mas antes a procura de melhor qualidade de vida e emprego na sua área, a feição benemérita e empreendedora dos “brasileiros de torna-viagem”, que permitiu mitigar os parcos recursos financeiros do país no aclarar do séc. XX, é um exemplo inspirador que não pode deixar de ser recordado.

Ainda nas recentes celebrações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, que este ano tiveram no território nacional a cidade de Braga como palco oficial, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, recordou o seu avô António, um dos muitos milhares que saiu da região minhota para arriscar uma vida melhor no Brasil.

JOSÉ VIEIRA: O CINEASTA DA EMIGRAÇÃO PORTUGUESA

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  • Crónica de Daniel Bastos

No ocaso do passado mês de abril, o “6.doc”, iniciativa do Doclisboa e do Cinema Ideal que procura conceber a realidade através de novas formas cinematográficas de perceção, reflexão e ação, colocando o cinema em diálogo com a sua história, de modo a questionar o seu momento atual, incluiu na sua programação o filme “Nós Viemos” do realizador José Vieira, reconhecido cineasta da emigração portuguesa.

Natural de Oliveira de Frades, uma vila da Beira Alta situada no distrito de Viseu, José Vieira partiu para França em 1965, com sete anos de idade. A sua experiência pessoal como emigrante e as muitas histórias compartilhadas com outros emigrantes em terras gaulesas, inspiraram assertivamente o percurso profissional do realizador que vive e trabalha entre Portugal e França.

Licenciado em Sociologia, José Vieira fez do documentário “uma forma de militância”, porquanto se apercebeu de que a maioria das pessoas “não conheciam a história da emigração portuguesa”, como afirmou em 2016 no decurso de uma entrevista à agência Lusa.

Desde a década de 1980, o cineasta lusodescendente realizou uma trintena de documentários, nomeadamente para a France 2, France 3, La Cinquième e Arte, onde tem abordado sobretudo a problemática da emigração portuguesa para França. Em particular a viagem “a salto”, ou seja, o trajeto clandestino para deixar Portugal rumo a França nos anos 60 e 70, e as condições de vida miseráveis de muitos compatriotas que nessa época habitaram nos "bidonvilles (bairros de lata) em Paris.

No rol das suas películas dedicadas à emigração portuguesa destacam-se, por exemplo, “A fotografia rasgada” (2002), onde José Vieira retrata o código da fotografia rasgada do “passador”, que guardava metade da fotografia de quem emigrava e a outra levava-a o emigrante que, uma vez chegado ao destino, a remetia à família, em sinal de que chegara bem e que poderia ser concluído o pagamento pela sua “passagem”.

Os documentários “O país aonde nunca se regressa” (2005), “Le bateau en carton” (2010) e “A ilha dos ausentes” (2016), que de certo modo descrevem a sua própria experiência de emigrante, são igualmente parte integrante do valioso trabalho cinematográfico de José Vieira sobre os protagonistas anónimos da história portuguesa que lutaram além-fronteiras por uma vida melhor.

No seu mais recente filme “Nós Viemos” (2021), José Vieira traça um retrato sobre os emigrantes do passado e do presente, com o intuito segundo o mesmo de “perceber o que há em comum entre estas pessoas”. Prosseguindo o espírito de Miguel de Cervantes, que asseverava em “Dom Quixote de la Mancha” que a “história é émula do tempo, repositório dos factos, testemunha do passado, exemplo do presente, advertência do futuro", José Vieira escora que vê “o que se está a passar e não consigo esquecer. Se enterrasse a cabeça, talvez. Por isso é que fiz este filme”.

O ESTADO DO FOLCLORE

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  • Crónica de Hélder Cardoso *

É nas raízes da história de um povo que se encontra a chave do futuro pois um país sem história é como uma casa sem alicerce.

Agora que se retomou - ou se tenta retomar - a normalidade, também o movimento folclórico tenta voltar ao ponto em que se encontrava e é notável o sucesso dos muitos festivais já realizados. No entanto, após uma paragem forçada, há agora uma realidade que é mais desafiante e menos risonha para o movimento. O afastamento e saída de pessoas, aliado à dificuldade em angariar novos componentes, é uma realidade transversal para a grande maioria dos grupos. Alguns há que, pela falta de gente, não retomaram sequer atividade e não têm planos nem datas para o fazer.

Não há uma fórmula mágica capaz de solucionar o problema. Mas haverá certamente atitudes que possam ser adaptadas de forma a se tentar minimizar este problema. Muitos grupos folclóricos vivem essencialmente das apresentações e representações em palco, muitas vezes por esse Portugal fora e até além fronteiras. Apenas amiúde, se vê uma pequena parte dos grupos que complementa esta parte com uma boa dinâmica cultural local, direcionada à população, não esquecendo nem descurando a essência da sua existência: manter viva a tradição no seio da comunidade.

Este deveria ser o ponto no qual o movimento folclórico deveria refletir. De nada servirá que um grupo e seus dirigentes orgulhosamente exibam as suas tradições quando, no seio da comunidade, as crianças e jovens - que são a garantia de que a tradição se manterá - pouco ou nada conheçam das vivências dos seus antepassados. De nada servirá levar a palco as atividades de outrora se no seio da comunidade não existirem atividades que envolvam a população.

Mais do que esperar que o movimento cresça por ele mesmo é obrigação de cada folclorista contribuir para esse crescimento.

  • Folclorista

O PAPEL DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS

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  • Crónica de Daniel Bastos

As últimas décadas têm sido marcadas, no seio das comunidades portuguesas, pela consolidação e surgimento de um conjunto variado de meios de comunicação social.

Nos formatos de jornal, revista, rádio, televisão ou mais recentemente portal de informação, o aparecimento ou reafirmação destes projetos de comunicação social são simultaneamente um sinal evidente do dinamismo das comunidades portuguesas, assim como do papel estruturante que os órgãos de informação desempenham na sociedade contemporânea ao nível dos modos de vida, dos valores, das opiniões e da visão do mundo que partilhamos.

Não deixa igualmente, no caso da imprensa de língua portuguesa no mundo, de ser um evidente reflexo dos elevados números da emigração lusa, que fruto da falta de oportunidades de emprego leva a que ciclicamente milhares encontrem fora de Portugal a oportunidade que o país não lhes proporcionou.

É neste cenário de geografia global que os órgãos de comunicação social das comunidades portuguesas num mundo em crescente mobilidade desempenham um papel insubstituível e incontornável na promoção da língua, da cultura e da economia nacional no estrangeiro, assim como do pulsar da vida das sociedades em que está inserida.

Com incontáveis dificuldades, várias vezes sem o devido reconhecimento do poder político das pátrias de origem ou de acolhimento, e na maior parte dos casos sobrevivendo graças ao espírito de carolice dos seus diretores, colaboradores, leitores e empresários mecenas, com mais ou menos dificuldades expostas pelas crises económicas, a tudo isto os meios de comunicação social produzidos pelos emigrantes portugueses e seus descendentes vão resistindo e renovando-se dando um exemplo, genuíno de altruísmo e serviço em prol de uma informação de proximidade que constrói pontes entre povos, dilui a saudade e a distância, fortalece a identidade cultural e projeta Portugal no Mundo.

Como assinala a antropóloga Sónia Ferreira no trabalho A emigração portuguesa e os seus meios de comunicação social, os “média produzidos pela diáspora são instituições sociais onde podemos ler amplamente como estas identidades se constroem e consolidam mas igualmente como vivem e se expressam”.

Na esteira das palavras da mesma, inclusivamente muitos meios de comunicação social das comunidades portuguesasorganizam como extensão da sua produção de conteúdos, atividades como festas, encontros, concertos, viagens e diversos outros tipos de atividades lúdicas que associam a praxis ou performance do nacional, ou seja, da cultura dita portuguesa a exercícios fora do estúdio de exaltação da sua componente expressiva. A decoração das salas, dos palcos, dos recintos, os trajes e atitudes dos apresentadores e animadores destes eventos incorporam igualmente este cenário. E, não raras vezes, são “mecenas de eventos que tanto celebram datas festivas do calendário português, como o 10 de Junho – Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas – como outras onde anual e sazonalmente se promovem eventos lúdicos de grandes dimensões”.

VILA POUCA DE AGUIAR PROPÕE DESENVOLVIMENTO DO PLANO MUNICIPAL PARA A IGUALDADE

Autarquia de Vila Pouca de Aguiar participa na 2ª Sessão de Trabalho Online, com vista à apresentação dos resultados do diagnóstico e do ponto de situação da elaboração do Plano Municipal para a Igualdade

No contexto do desenvolvimento do Plano Municipal para a Igualdade, da Câmara Municipal de Vila Pouca de Aguiar, a autarquia participou na 2ª sessão de trabalho online, com vista à apresentação por parte de cada município dos resultados do diagnóstico e do ponto de situação da elaboração do Plano Municipal para a Igualdade.

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Drª Ana Rita Dias, Conselheira Municipal de Vila Pouca de Aguiar para a Igualdade

A autarquia propôs como um dos objetivos prioritários o desenvolvimento de um Plano Municipal para a Igualdade de Género, o que pressupôs a realização de um diagnóstico que ajudasse a percecionar o “estado da arte”, numa dimensão interna e externa.

Apesar de a variável sexo ser regularmente incluída nas estatísticas do município e na maioria das vezes as informações estarem desagregadas, a verdade é que nem sempre é fácil aferir algumas das questões centrais na análise da igualdade, como a possível existência de desigualdades na progressão na carreira ou as disparidades nos usos do tempo, nas esferas pública e privada. Portanto, foi necessário investigar para encontrar mais e melhores soluções que permitissem esbater a desigualdade, as suas causas e os seus efeitos. Só assim foi possível encontrar soluções aferidas à realidade local, desenhando e aplicando medidas adequadas para garantir, por um lado, que no município não ocorram situações de discriminação, em razão da orientação sexual, identidade e características sexuais e, por outro lado, que seja incorporada a perspetiva de género, na definição e concretização das políticas públicas locais.

“Verifica-se que, com alguma frequência, circula a ideia de que já existe igualdade entre mulheres e homens ou, em todo o caso, que as desigualdades mais evidentes se resolverão com um mero esforço individual. Assim sendo, qualquer política específica seria extemporânea. No entanto, o conteúdo, as conclusões e as recomendações do relatório de diagnóstico proporcionaram uma visão mais fidedigna dos factos e mostrarão que existem características estruturais da desigualdade, ainda persistentes, que não se transformarão se não forem adotadas medidas concretas”, terminou a Conselheira Municipal para a Igualdade do município de Vila Pouca de Aguiar, Ana Rita Dias.

Esta iniciativa é financiada pelo Programa Operacional Inclusão Social e Emprego (PO ISE), pela Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG), pelo Portugal 2020 (PT2020) e União Europeia/Fundo Social Europeu (EU/FSE).

DANIEL BASTOS DESTACOU IMPORTÂNCIA DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS NO INstantes

No passado sábado, o historiador Daniel Bastos, que ao longo dos últimos anos tem publicado vários livros no domínio da História e Emigração, cujas sessões de apresentação o têm colocado em contacto estreito com a diáspora portuguesa, apresentou o seu novo livro “Crónicas – Comunidades, Emigração e Lusofonia” no INstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes.

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O historiador Daniel Bastos (esq.), acompanhado do fotógrafo Pereira Lopes, fundador e diretor do INstantes, no decurso da apresentação do livro “Crónicas – Comunidades, Emigração e Lusofonia”

No decurso da 9edição de um dos eventos culturais de referência no panorama nacional, que ano após ano se tem enriquecido com diversas propostas dentro do mundo da fotografia artística, conceptual e de autor, o escritor além da apresentação do seu mais recente livro que reúne os textos que tem escrito nos últimos anos em diversos meios de comunicação dirigidos para as comunidades lusas, proferiu uma palestra onde abordou a história da emigração portuguesa.

Ao longo da sua comunicação, o investigador destacou o papel e importância das comunidades portuguesas, genuínas embaixadas de Portugal no mundo, e recordou a figura do saudoso fotógrafo franco-haitiano Gérald Bloncourt, que imortalizou a epopeia da emigração lusa para França nos anos 60, e com quem o autor realizou os livros “O olhar de compromisso com os filhos dos Grandes Descobridores” e “Dias de Liberdade em Portugal”.

Historiador, escritor e professor, Daniel Bastos é atualmente consultor do Museu das Migrações e das Comunidades, sediado em Fafe, e da rede museológica virtual das comunidades portuguesas, instituída pela Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, que pretende criar uma plataforma entre diversos núcleos museológicos, arquivos e coleções respeitantes à história e à memória, à vida e às perspetivas de futuro dos portugueses que vivem e trabalham fora do seu país.

SOFRIMENTO E EMPOWERMENT EM PESSOAS COM FIBROMIALGIA

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  • Crónica de Professora Doutora Paula Encarnação *

As doenças crónicas e nomeadamente a Fibromialgia leva a pessoa a ter experiências onde o sofrimento está presente. Alguns vivem o seu dia-a-dia dependentes de medicamentos e, em função disso, também convivem com os seus efeitos colaterais, fruto do principal sintoma a “dor”. Este sintoma, por sua vez, associa-se a outros tais como a fadiga, os distúrbios do sono, a rigidez matinal, o formigueiro nos dedos das mãos e pés, a sensação de frio e calor súbitos, assim como distúrbios cognitivos (falta de memória, dificuldade de concentração, entre outros).

Sabemos que os sintomas da fibromialgia podem mesmo desaparecer ou diminuir temporariamente em determinadas fases da vida, para reaparecerem mais tarde. Essas alterações podem estar relacionadas com mudanças do tempo, questões hormonais, stress, depressão, ansiedade ou com o aumento da atividade e esforço superiores ao habitual.

Em alguns países da Europa, os índices de Fibromialgia chegam até 10,5% na população adulta e em Portugal, outros estudos referem que há uma prevalência de cerca de 3,6%, podendo haver casos não diagnosticados.

Sem a intervenção especializada dos profissionais de saúde as pessoas com fibromialgia têm dificuldade em compreender os stressores a que se encontram sujeitos e a reconhece-los como uma possibilidade de aprendizagem face aos problemas que ocorrem nas suas vidas, podendo entrar num processo de desintegração de si próprios, isto é, entregarem-se ao sofrimento por tempo indeterminado.

Com a pandemia por covid-19, toda esta situação se agravou. O medo instalado, os sentimentos de desespero, o afastamento das famílias, o isolamento social, levou muitos dos que se encontravam numa fase estável da doença a entrar em desequilíbrio e cair nas malhas da depressão.

Está estudado que emoções, sentimentos e comportamentos negativos, quando perpetuados, levam a desequilíbrios na saúde das pessoas com consequências imprevisíveis. Poder ter o controle da sua vida e perceber que embora não tenha escolhido ficar ansiosa, triste, doente, a pessoa tem em si o poder (empowerment) de escolher como irá lidar com aquilo que a afeta, tentando evitar, diminuir e ou suavizar as possíveis consequências que daí podem advir.

A consciencialização do momento em que se está a viver, ou seja, o presente, é aquele que irá condicionar o caminho futuro pelas escolhas que a pessoa fizer. Para melhorar o seu bem-estar e a sua qualidade de vida, a pessoa com Fibromialgia pode desenvolver a prática de atividades desde o exercício físico, ao convívio social no sentido de se adaptar melhor à sua nova condição de saúde. Antes de conseguir dar esse “passo” deve-se começar a preparar.  O que quero dizer com isto? A pessoa deve tomar consciência de que a situação em que se encontra tem de mudar. Não vale a pena apresentar apenas um conjunto de intenções “eu acho que sim…eu sei que tenho de mudar….!” Eu tenho de…não...eu quero! Porque o pensamento gera a palavra, a palavra transforma-se em atitude e a atitude cria o hábito. E os hábitos nós não mudamos, apenas construímos novos hábitos, a partir do momento em que realmente passamos à ação. Criar um compromisso consigo próprio. Essa é a chave do sucesso!

O sucesso é treinado! Hoje, amanhã e depois…hoje, amanhã e depois…treinar, treinar e (re)treinar. Quanto mais treino, mais sucesso! Maior a capacidade para se mudar. Se conseguirmos chegar a mudar e adquirir novos hábitos, iremos seguramente viver melhor e as nossas ações terão o efeito desejado, ou seja, diminuir o nosso sofrimento e fazer-nos subir um degrau na nossa qualidade de vida.

No dia 10 de março, pelas 21h, no Hotel Bagoeira, em Barcelos, assinalando o Dia Mundial da Fibromialgia, algumas entidades uniram esforços numa Conferência dedicada ao tema “Fibromialgia: os desafios de uma doença invisível”.

* Escola Superior Enfermagem, Universidade do Minho. Investigadora UICISA-E, Coimbra

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SER CRIANÇA E (CON)VIVER COM A FIBROMIALGIA

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  • Crónica de Professora Doutora Cristina Martins *

A Fibromialgia, embora seja mais comum na idade adulta, também pode afetar cerca de 2 a 6% de crianças em idade escolar, especialmente adolescentes entre os 11 e os 15 anos. Designada de Síndrome de Fibromialgia Juvenil, é seis vezes mais comum em raparigas do que em rapazes e manifesta-se por dor musculoesquelética generalizada e difusa (presente há pelo menos três meses), fadiga, dificuldade em dormir/sono não reparador, além de outros sintomas que podem variar de criança para criança, incluindo cefaleias, alterações de humor e de comportamento, falta de atenção, depressão, ansiedade, entre outros.

Dada a dificuldade natural das crianças em identificar onde dói e a intensidade da dor, a possibilidade de ser descrita de diferentes formas (ex.: rigidez, tensão, sensibilidade, ardor ou dorido) e de a restante sintomatologia de que se queixam ser vaga, subjetiva e comum a um grande número de doenças, sem que seja, por outro lado, possível confirmar qualquer processo inflamatório associado aquando do exame físico realizada pelo profissional de saúde, a maioria das crianças tardam a ver o seu diagnóstico confirmado e são sujeitas a uma longa série de exames e procedimentos médicos para exclusão de outras possíveis causas para os sintomas que apresentam.

Esta síndrome, além de difícil e tardio diagnóstico, impacta muito significativamente a vida das crianças e adolescentes que dela padecem, com moderada a severas restrições no seu funcionamento quotidiano, diminuição da atividade física, elevados níveis de absentismo escolar e de procura de serviços de saúde, isolamento social e dificuldades no relacionamento com os pares, por não conseguirem acompanhar as brincadeiras e atividades dos amigos e sentirem-se inferiores devido à sua condição de saúde. Experienciam pior qualidade de vida e mais sintomas de depressão e ansiedade, quando comparados com outras crianças da sua idade ou com outras doenças crónicas.

A aceitação do diagnóstico de Fibromialgia é também particularmente difícil para os adolescentes que, por si só, se encontram numa idade de vulnerabilidade desenvolvimental, e é também é difícil compreender o alcance do impacto multifacetado da própria condição clínica. Terão de aprender a fazer ajustes graduais nas suas vidas diárias e objetivos, alterar expectativas, ser perseverantes e encontrar motivação para continuarem a viver uma vida significativa e produtiva apesar da dor, sem deixar que a doença os defina. Não raras vezes, deparam-se com estigma social, sendo criticados por amigos, que não compreendem a doença; e não recebem um adequado suporte dos profissionais de saúde, que manifestam atitudes de desdém face aos seus sintomas e questionam as motivações para a procura de tratamento.

A gestão desta Síndrome deve estar centrada sobre questões de educação e de mudança comportamental e cognitiva (terapia cognitivo-comportamental com forte ênfase no exercício físico), e com menor relevo para o tratamento farmacológico com relaxantes musculares, analgésicos ou outros. As terapêuticas não farmacológicas devem ser sempre a primeira opção de tratamento. Qualquer criança em tratamento farmacológico deve ser cuidadosamente avaliada, porque a segurança e a eficácia dos fármacos não estão tão bem estudadas em crianças como em adultos, e a terapêutica deve ser descontinuada, a menos que haja evidência de benefício definitivo.

O exercício físico é uma parte importante do tratamento na Fibromialgia, ajudando na diminuição da tensão muscular e no alívio da dor. Existem evidências clínicas com diferentes tipos de exercícios físicos, desde exercícios aeróbicos progressivos, exercícios resistidos, hidroterapia (natação, hidroginástica) e práticas desportivas diversas. Caberá a cada criança a escolha do exercício ou atividade física que lhe proporciona mais prazer e benefícios pessoais.

Do mesmo modo, a yoga, a meditação, os exercícios respiratórios, as massagens terapêuticas ou outras práticas, que promovam o relaxamento físico e o bem-estar mental, podem ser recomendadas e úteis. A inclusão da família, o treino de estratégias do dia-a-dia e o tratamento de comorbidades mentais são também importantes.

* Escola Superior de Enfermagem da Universidade do Minho. Investigadora UICISA-E, Coimbra

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BATISTA SEQUEIRA VIEIRA: A CONQUISTA DO SONHO AMERICANO NA CALIFÓRNIA

  • Crónica de Daniel Bastos

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos arquipélagos da Madeira e dos Açores, destaca-se hoje pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.

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Comendador Baptista Sequeira Vieira

No seio da numerosa comunidade lusa nos EUA, segundo dados dos últimos censos americanos residem no território mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, destacam-se vários percursos de vida de compatriotas que alcançaram o sonho americano ("the American dream”).

Entre as várias trajetórias de portugueses que começaram do nada na América e ascenderam na escala social graças a capacidades extraordinárias de trabalho, mérito e resiliência, destaca-se o percurso inspirador e de sucesso do comendador Batista Sequeira Vieira, uma das figuras mais proeminentes da comunidade luso-americana.

Natural dos Rosais, freguesia do Município de Velas, na Ilha de São Jorge, arquipélago dos Açores, Batista Sequeira Vieira emigrou em 1954, perto de completar 16 anos de idade, para San José, terceira cidade mais populosa do estado americano da Califórnia, na companhia do irmão mais velho, motivado pelas histórias de abundância e riqueza contadas pelo avô durante a sua meninice.

O fascínio pela América transmitido pelo avô, que chegou a ter uma pequena rede de sapatarias em Newman, na Califórnia, na região do Vale de San Joaquim, impulsionou o jovem emigrante açoriano a abalar do seio de uma família relativamente abastada de São Jorge em demanda do sonho americano.

A coragem e o "antes quebrar que torcer", manifestas no facto de ter começadoo seu percurso de autêntico self-made man em duras condições de vida e de trabalho numa leitaria, forjaram um homem que teve o vislumbre de nos anos 60, já depois do enlace com a sua companheira de vida, Dolores Machado, se ter lançado na construção civil, primeiro na pintura, a “Vieira Painting Company” e depois na construção e imobiliário alavancado pelo crescimento de Silicon Valley.

Empresário e empreendedor com uma trajetória marcada pelo mérito e pela inovação, premissas que estão desde o início na base do conglomerado de empresas que criou na Califórnia, o sucesso que o emigrante jorgense alcançou ao longo do último meio século no mundo dos negócios, têm sido acompanhados de um apoio constante à comunidade luso-americana.

Na década de 1970, comprou, em parceria, a primeira estação de rádio paraservir a comunidade portuguesa, e posteriormente adquiriu outra estação, com o propósito de servir a comunidade luso-americana do Vale de San Joaquim, realizando o sonho de introduzir na sua programação a língua portuguesa.Contemporaneamente, foi Presidente da Sociedade do Espírito Santo, da Luso-American Fraternal Federation, e desempenhou funções relevantes em várias instituições luso-americanas que sempre contaram com o seu generoso apoio, como é o caso, por exemplo, da Igreja Portuguesa de San José.

O seu profundo sentido de responsabilidade e de dever cívico foram distinguidos em 1985 pelo então presidente norte-americano, Ronald Reagan, assim como em 1989, pelo antigo Presidente da República, Mário Soares, que o agraciou com o grau de comendador da Ordem do Mérito. Na base da justíssima distinção da pátria de origem, estiveram os serviços meritórios, a ligação umbilical e a generosidade que ao longo dos anos tem devotado a várias instituições da sua terra natal, como por exemplo, a Casa de Repouso João Inácio de Sousa, que recebeu do empresário e filantropo luso-americano uma grande doação tanto a nível monetário como de equipamentos.

Com o seu nome associado a ruas e edifícios na Ilha de São Jorge, mais propriamente no povoado que o viu nascer, Rosais, onde no ano passado lhe foi prestada uma homenagem pública e descerrado um busto, o comendador Batista Sequeira Vieira, que foi distinguido em 2014 pela Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores com a atribuição da Insígnia Autonómica, inspira-nos a máxima do escritor e ensaísta francês Albert Camus: “A grandeza do homem consiste na sua decisão de ser mais forte que a condição humana”.

COMUNIDADE PORTUGUESA NO CANADÁ: MEMÓRIA E CELEBRAÇÃO DAS SUAS RAÍZES

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

Uma das mais relevantes comunidades lusas na América do Norte, que se destaca pela dinâmica da sua atividade associativa, económica e sociopolítica, as raízes da comunidade portuguesa no Canadá remontam ao início da década de 1950.

Embora a presença regular de portugueses neste território da América do Norte fosse uma realidade desde o alvorecer do séc. XVI, foi somente nos primórdios dos anos 50 que se consubstanciaram as relações diplomáticas entre as duas nações. Como relembra Lisa Rice Madan, Embaixadora do Canadá em Portugal, num artigo de opinião publicado no princípio deste ano no jornal Público, intitulado Canadá-Portugal: 70 anos de relações diplomáticas e muita mais de amizade, em 8 de dezembro de 1951, o Rei George VII, “na qualidade de chefe de Estado do Canadá, escreveu ao Presidente da República de Portugal anunciando a decisão de acreditar para Portugal, o nosso fiel e bem-amado William Ferdinand Alphonse Turgeon, como enviado extraordinário e ministro plenipotenciário do Canadá em Portugal. Um mês mais tarde, o Canadá concedeu o agrément à nomeação do dr. Luís Esteves Fernandez, embaixador e Portugal nos Estados Unidos, para ministro de Portugal para o Canadá. As legações, como então eram chamadas, foram abertas oficialmente a 18 de Janeiro de 1952”.

Ainda nesse ano, em 12 de abril, Gonçalo Caldeira Coelho tomaria posse como Encarregado de Negócios e assumiu a gerência da legação, ou seja da embaixada. Dois anos depois, Portugal e o Canadá, procurando estreitar as relações económicas, assinaram um Acordo Comercial que revogou e substituiu o Acordo com o mesmo objeto que vigorava entre os dois países desde 1 de outubro de 1928.

É no contexto das relações estabelecidas entre os dois países, que em 1953, ao abrigo de um Acordo Luso-Canadiano, que visava suprir a necessidade de trabalhadores para o sector agrícola e para a construção de caminhos-de-ferro, que transportados pelo Saturnia, desembarcaram a 13 de maio em Halifax, província de Nova Escócia, os primeiros emigrantes portugueses.

Se entre 1953 e 1973, terão entrado no Canadá mais de 90.000 portugueses, na sua maioria originários dos Açores, estima-se que atualmente vivam no segundo maior país do mundo em área total, mais de meio milhão de luso-canadianos, sobretudo concentrados em Ontário, Quebeque e Colúmbia Britânica, representando cerca de 2% do total da população canadiana que constitui um hino ao multiculturalismo. 

É a partir deste legado histórico que a Galeria dos Pioneiros Portugueses, impulsionada no presente pelo comendador Manuel DaCosta, um dos mais ativos beneméritos na preservação da cultura portuguesa, na linha da máxima lapidar de Marcus Garvey: “um povo sem o conhecimento da sua história, origem e cultura é como uma árvore sem raízes”-, perpétua em Toronto a memória dos primeiros emigrantes portugueses no Canadá.

Foi a partir deste legado histórico, que um pouco por todas as comunidades portuguesas disseminadas pelo imenso território canadiano, foi celebrado em 2003, com profundo simbolismo e sentimento de pertença, exposto em inúmeras atividades e eventos, o 50.º aniversário da emigração portuguesa para o Canadá.

Será seguramente a partir deste legado histórico, que sensivelmente dentro de um ano, num contexto pós-pandémico, e não obstante assinalarem-se hodiernamente 70 anos de relações diplomáticas luso-canadianas, que será celebrado com reiterado simbolismo e sentimento de pertença, manifesto em vindouras atividades e eventos, o septuagésimo aniversário da chegada da primeira vaga de emigrantes portugueses ao Canadá

Um aniversário que fortalecerá, concomitantemente, os laços dos emigrantes luso-canadianos à língua e cultura materna, mas também à pátria de acolhimento, até porque como reiteradamente tem destacado Justin Trudeau, primeiro-ministro do Canadá, as sucessivas vagas de emigrantes portugueses têm contribuído desde a década de 1950 para “a construção do Canadá moderno”. Nas palavras do mesmo, em 2018, durante a visita oficial do primeiro-ministro António Costa ao Canadá: “A cultura portuguesa está presente nas nossas vilas e cidades de diversas formas, com valores tradicionais de família, trabalho árduo e paixão pelo futebol. Os luso-canadianos são a chave da explicação do Canadá de hoje”.

JOHN DOS PASSOS: UM ESCRITOR AMERICANO ORGULHOSO DAS SUAS RAÍZES MADEIRENSES

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

Um dos mais importantes escritores modernistas norte-americanos, John Dos Passos (1896-1970), nunca escondeu ao longo da sua renomada carreira literária o carinho e orgulho pelas suas raízes familiares madeirenses.

As origens lusas do autor de Manhattan Transfer e U.S.A. Trilogy, livros marcantes da América da primeira metade do século XX, descendem de Manuel Joaquim dos Passos, avô paterno do afamado escritor, natural da vila madeirense de Ponta do Sol, onde nasceu em 1816.

Manuel Joaquim dos Passos emigrou aos 14 anos de idade para os Estados Unidos da América (EUA), tendo-se radicado em Filadélfia, cidade da Pensilvânia, onde contraiu matrimónio com a americana Ann Cattel. Dessa união nasceram vários filhos, entre eles, um prestigiado advogado, John Randolph dos Passos (1844-1917), pai do escritor americano de origem portuguesa que em 1936, no auge da fama, chegou a ser capa da revista Time.

Amigo de Ernest Hemingway e de outros grandes nomes da literatura mundial, Jonh Dos Passos, que acompanhou as tropas americanas durante a Primeira Guerra Mundial como condutor de ambulâncias, e trabalhou como correspondente durante a Segunda Guerra Mundial, visitou a ilha da Madeira em três ocasiões.

A primeira, ainda em criança, no ano de 1905, acompanhado pelo seu pai, como o mesmo refere na introdução do seu livro The Portugal Story: “Embora eu fosse educado sem qualquer conhecimento da língua portuguesa, a minha família não perdera por completo o contacto com os parentes do meu avô, na Madeira. O meu pai, embora falasse apenas um pouco de francês, além do inglês, nunca se esqueceu de que era meio português. Tinha oito anos quando ele me levou ao Funchal. Lembro-me das visitas de um primo idoso que me dava, no jardim do velho Reid's Hotel, uma lição diária de latim”.

A segunda visita de John dos Passos à Madeira ocorreu em 1921, onde em trânsito a caminho de Lisboa, passeou pelo Funchal relembrando as raízes humildes do seu avó paterno que fora sapateiro no torrão natal. Mais tarde, em 1960, voltou a visitar a pérola do Atlântico, desta feita, acompanhado pela mulher, Elizabeth Hamlin Dos Passos, e a filha Lucy dos Passos Coggin, onde foram recebidos pelos familiares e autoridades locais.

No então discurso que realizou em agradecimento à homenagem que recebeu na Ponta do Sol, no decurso dessa terceira e última visita à região arquipelágica, John dos Passos exporia: “Desculpem eu não falar a língua dos meus avós. Como sabem o meu avô deixou a Ponta do Sol há muito mais de cem anos. É deveras enternecedor para mim ser recebido com tão grandeza gentileza e consideração. [...]. Mais tarde o meu pai tornou-se cada vez mais interessado a respeito da Madeira e das suas raízes portuguesas. Quando eu tinha oito anos trouxe-me, por algumas semanas ao Funchal. Assim quando aqui cheguei há dias reconheci os rochedos cor púrpura, o mar azul, os mergulhadores e as pequenas lagartixas que correm através dos jardins do Reid’s Hotel. Recordo amável hospitalidade de amigos e parentes da Madeira.”

A ligação estreita de John Dos Passos com a terra do avô paterno é desde o alvorecer do séc. XXI, preservada e dinamizada pelo Centro Cultural John dos Passos, fundado em homenagem ao escritor americano com raízes lusas e localizado no centro da vila da Ponta do Sol.

Atualmente, a instituição que acolhe exposições temporárias, seminários e conferências, com destaque particular para o simpósio anual dedicado a John dos Passos, possui uma sala de exposição permanente dedicada ao escritor, dois espaços museológicos, uma biblioteca, que apresenta a extensa obra do autor, e um auditório onde se desenvolvem as mais variadas atividades culturais como a música, a dança e o teatro.

A ligação do escritor norte-americano à terra de origem dos seus antepassados está ainda simbolicamente inscrita desde 2016 no nome de um dos aviões da TAP, companhia área portuguesa que atravessa o Atlântico para os EUA. Época em que Secretaria Regional de Turismo e Cultura da Madeira assumiu a responsabilidade do Prémio John Dos Passos, instituído com a finalidade de
homenagear o escritor homónimo e difundir a sua obra, rememorar as suas ancestrais ligações à Região e, simultaneamente incentivar a produção literária e a investigação histórico-literária.

MOVES – MIGRAÇÃO E MODERNIDADE: DESAFIOS HISTÓRICOS E CULTURAIS

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

No decurso dos últimos anos o acervo bibliográfico dedicado às migrações em Portugal tem sido profusamente enriquecido com o lançamento de um conjunto diversificado de documentos que ampliam o estudo e conhecimento sobre este fenómeno.

Neste conjunto de trabalhos, onde se cruzam os olhares interdisciplinares das ciências sociais, encontram-se livros, capítulos de livros, artigos em revistas científicas, artigos em atas de congressos, conferências e outros tipos de encontros científicos, relatórios, assim como dissertações de licenciatura, mestrado e doutoramento. 

No âmbito dos cursos de 3.º ciclo (doutoramento) que se têm debruçado sobre esta importante temática, destaca-se desde 2019 o Programa Doutoral MOVES - Migração e Modernidade: Desafios Históricos e Culturais. Um projeto conjunto da Universidade do Porto e de mais quatro universidades europeias (Universidade Carolina de Praga, Universidade Paul Valéry de Montpellier, Universidade Livre de Berlim e Universidade de Kent).

Dotado pela Comissão Europeia com um financiamento de 3,9 milhões de euros, o programa MOVES propõe-se a promover uma análise histórica dos movimentos populacionais do passado para contextualizar a atual crise de migração, através da realização de estudos comparativos. O objetivo principal é envolver especialistas das Humanidades e das Ciências Sociais  na definição e disseminação de soluções inovadoras que apoiem a resposta dada pelos países nas questões prementes relacionadas com a gestão da migração.

Uma das particularidades do projeto é que para além das cinco universidades envolvidas, o MOVES conta com 18 parceiros não-académicos, incluindo organizações não-governamentais, associações de solidariedade e indústrias criativas. Como é o caso, do Museu das Migrações e das Comunidades, sediado em Fafe, um espaço museológico percursor no seu género em Portugal, que assenta a sua missão no estudo, preservação e comunicação das expressões materiais e simbólicas da emigração portuguesa.

Na esteira, do acordo firmado entre o Museu das Migrações e das Comunidades, e o programa MOVES, a cidade minhota foi palco no início deste mês da apresentação de dois trabalhos académicos sob a coordenação de Rui Carvalho Homem (do Departamento de Estudos Anglo-Americanos da FLUP), e que estiveram a cargo da doutoranda Naiara Rodriguez-Pena (Universidade de Kent e Universidade Paul Valéry de Montpellier), que investiga “A influência de ideias e memórias do passado nas aspirações migratórias”. E da doutoranda Viktoryia Vaitovich (Universidade Paul Valéry de Montpellier / Universidade do Porto) que aborda as distintas vagas da emigração portuguesa, perspetivadas a partir da "teoria do sistema-mundo" de Immanuel Wallerstein, sob o título “De emigrantes para imigrantes: mudança na emigração em Portugal como consequência das relações centro-periferia”.

Num mundo cada vez mais globalizado, em que as novas realidades geopolíticas, tecnológicas e humanitárias colocam vários desafios às sociedades e consequentemente às instituições, este exemplo de estreita cooperação do estudo académico com a sociedade civil, mostra como é possível colocar o conhecimento ao serviço das populações. E desenvolver, em conjunto, competências específicas na área do conhecimento sobre as migrações a quem pretende seguir uma carreira académica, ao nível do ensino ou da investigação.

PATRIMÔNIO IMATERIAL PORTUGUÊS NO BRASIL: OS RANCHOS FOLCLÓRICOS

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  • Crónica de Carina Teixeira

Nascido da miscigenação, o Brasil é um encontro de identificações culturais, mistura de histórias e tradições. Inseridas no dia a dia da população, no país que uma vez foi colônia foi formada e desenvolvida uma cultura nacional com fortes influências europeias, as quais suas raízes são vistas até hoje, da literatura à língua, das músicas à arte, da dança à tradição.

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Com o grande período de imigrações na década de 30, influenciadas pelo Estado, no Brasil vimos o desenvolvimento e a forma como foram inseridos diferentes povos, sendo um deles os portugueses. Seja na fala, na língua, nos sobrenomes, nas ações, o Brasil é o país que concentra o terceiro maior número de imigrantes portugueses no mundo, ficando atrás apenas dos EUA e Canadá, os quais aqui ficaram e consolidaram suas formas de trabalho, família e trouxeram com eles suas tradições.

Popularmente conhecidas, as tradições portuguesas são ainda hoje perpetuadas e mantidas pelos seus descendentes em diversos âmbitos do dia a dia, seja na gastronomia ou até mesmo em manifestações culturais. Assim, foi-se necessário encontrar diferentes formas de expressar e manter viva essas manifestações, sendo trago uma das artes que mais representam Portugal, os ranchos folclóricos.

Chamados antigamente de agrupamentos folclóricos, tiveram origem nos pequenos vilarejos portugueses, representavam o dia a dia e a cultura de um povo que vivia da terra e do que ela proporcionava, e que tinham a música, dança e alegria como formas de distração das dificuldades da vida.

Deste modo, foram fundados em 1954, na Casa do Minho do Rio de Janeiro, o Rancho Folclórico Maria da Fonte, e em 1961, no Centro Português de Santos, São Paulo, o Rancho Folclórico Verde Gaio, os primeiros ranchos luso-brasileiros.

Avançando pela história, tivemos consolidadores dessa tradição nas terras de Vera Cruz, ranchos como o Grupo Folclórico Almeida Garrett (1962,RJ), Grupo Folclórico Carvalho Araújo (1964, SP), Grupo Folclórico Lusitano (1967, SP) e Grupo Folclórico Casa de Portugal (1973, SP), serviram como grandes percursores.

Após eles foram abertas as portas para a fundação de diversos ranchos folclóricos, os quais, até hoje, perpetuam a cultura minhota, com suas bacalhoadas, danças e cantares, viras, chulas e bailaricos, adquirindo rapidamente a simpatia do público, os aplausos e sorrisos.

É necessária a história oral e o conhecimento passado de geração em geração para denotar especificamente sobre esses grupos, pois a bibliografia é escassa, existindo diversos ranchos fundados que não existem mais ou desapareceram sem deixar registros.

Através de registros particulares de cada família, participativas desses ranchos, é que se compõem a história luso-brasileira folclórica, como por exemplo, em São Paulo, a família Rodrigues. Retratado pela familia, atualmente se encontram na terceira geração luso-brasileira folclórica, tendo como iniciador o patriarca Ernesto Pinto Rodrigues, um dos percursores do extinto Grupo Folclórico Verde Gaio de Santos, do Lusitano e do Carvalho Araújo. Hoje, sua filha, Catia e suas netas Ana Giullia e Ana Carolina, atuam mantendo as tradições minhotas, seus dançares e cantares, transmitindo em gerações a cultura de seus antepassados e demonstrando a importância dessas manifestações em suas histórias.

Como visto, as tradições culturais desempenham um papel muito importante e histórico em nossas vidas, marcam gerações e perpetuam a cultura de suas raízes. E é pela formação dos ranchos folclóricos minhotos no Brasil que seus antepassados ainda se mantêm vivos.

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MARIA BEATRIZ ROCHA: UMA VIDA DE TRABALHO ACADÉMICO SOBRE MIGRAÇÕES

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

No decurso das últimas décadas o estudo sobre o fenómeno migratório tem sido profusamente enriquecido com um conjunto diversificado de atividades e trabalhos que têm dado um importante contributo para o conhecimento da emigração portuguesa.

Neste conjunto diversificado de atividades e trabalhos, onde se cruzam os olhares interdisciplinares das ciências sociais, encontram-se, entre outros, livros, artigos em revistas científicas, congressos, conferências, relatórios, dissertações de licenciatura, mestrado e doutoramento. 

Autora de uma vasta bibliografia sobre matérias relacionadas com as migrações, onde se destacam, entre outros, os livros Sociologia das Migrações (1995), Migrações - Permanência e Diversidade (2009), A Serra e a Cidade - O Triângulo Dourado do Regionalismo (2009) ou Das Migrações às Interculturalidades (2014). E colaboradora habitual de revistas científicas internacionais neste domínio, Maria Beatriz Rocha-Trindade, nascida em Faro, e Doutorada pela Universidade de Paris V (Sorbonne) e Agregada pela Universidade Nova de Lisboa (FCSH), é uma das cientistas sociais que mais tem contribuído para o conhecimento da emigração portuguesa.

Professora Catedrática Aposentada na Universidade Aberta, foi responsável pela fundação nos inícios dos anos 90, nesta instituição de ensino superior público, do Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais (CEMRI). Um centro pioneiro na área das Migrações e Relações Interculturais, que conta atualmente com mais de meia centena de investigadores, e que tem dinamizado ao longo dos últimos anos uma intensa pesquisa interdisciplinar e formação avançada na área das migrações e das relações interculturais em contexto nacional e internacional.

O pioneirismo da insigne académica e investigadora está igualmente expresso na introdução em Portugal do ensino da sociologia das migrações, primeiro na Universidade Católica, no curso de Teologia, em 1994, e dois anos depois, na Universidade Aberta, a nível de licenciatura e de mestrado.

Membro de diversas organizações científicas portuguesas e estrangeiras, designadamente da Comissão Científica da Cátedra UNESCO sobre Migrações, da Universidade de Santiago de Compostela, do Museu das Migrações e das Comunidades, criado em 2001 por deliberação do Município de Fafe, e da Comissão Científica do Centro de Estudos de História do Atlântico/CEHA, a Professora Maria Beatriz Rocha-Trindade, coordena presentemente a Comissão de Migrações da Sociedade de Geografia de Lisboa.

Constituída por membros oriundos de vários quadrantes da sociedade que têm estudado e refletido sobre o fenómeno migratório, emigração/imigração, a Comissão de Migrações da Sociedade de Geografia de Lisboa, uma das mais relevantes instituições culturais do país, tem sido responsável pela dinamização de relevantes iniciativas no campo do fenómeno migratório. Como por exemplo, em 2019, quando realizou o colóquio “CPLP - que presente e que futuro?”, ou no ano anterior, o “Fórum Luso-Estudos/ Edição 2018”, o seminário “Enologia, Mobilidade e Turismo” e a conferência “Jornalismo para a Paz em contexto de mobilidade”.

O percurso de vida singular e o trabalho académico laborioso da Professora Catedrática Maria Beatriz Rocha-Trindade, Titular da Ordre National du Mérite, de França, com o grau de Chevalier, da Medalha de Mérito do Município de Fafe e da Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública, de Portugal, foram recentemente expressos no XXVI Congresso Internacional de Antropologia Ibero-Americana, considerado um dos mais relevantes do espaço Ibero-Americano, este ano realizado no Fundão e subordinado ao tema “Territórios, Migrações e Fronteiras”.

No âmbito do Congresso, decorreu uma sessão de homenagem à Professora Doutora Maria Beatriz Rocha-Trindade, com a atribuição da Medalha de Ouro do Município do Fundão, destacando os seus responsáveis que a “insigne investigadora de referência internacional na área das migrações, tem desenvolvido, ao longo da sua carreira, um precioso e incontornável contributo para o conhecimento das migrações nos âmbitos disciplinares da Sociologia, da História, da Geografia e da Antropologia”.

MAGELLAN COMMUNITY CENTRE: UM PROJETO EMBLEMÁTICO DA COMUNIDADE PORTUGUESA EM TORONTO

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

Dentro dos desafios e problemáticas que as sociedades enfrentam na atualidade, o envelhecimento populacional assume uma cada vez maior premência, dadas as suas implicações coletivas e multidimensionais, como é o caso, do mercado laboral, da proteção social, das estruturas familiares ou dos laços intergeracionais.

Como apontam as Nações Unidas, o número de idosos, com 60 anos ou mais, deve duplicar até 2050 e mais do que triplicar até 2100, passando de 962 milhões em 2017 para 2,1 mil milhões em 2050 e 3,1 mil milhões em 2100. Se o envelhecimento populacional é um fenómeno mundial, na Europa assume maiores proporções, até porque, hoje em dia, o velho continente tem a maior percentagem da população com 60 anos ou mais (25%).

No quadro do inverno demográfico mundial e europeu, a sociedade portuguesa é uma das mais afetadas, apontando mesmo o Instituto Nacional de Estatística (INE) que quase metade da população portuguesa terá mais de 65 anos dentro de meio século. Este cenário de envelhecimento da população que reside no território nacional, também é visível no seio das comunidades lusas, em particular, nos países com maior e mais antiga tradição de emigração portuguesa.

Segundo o estudo sociológico, A emigração portuguesa no século XXI, a percentagem dos idosos entre os emigrantes lusos aumentou, por exemplo, no Canadá 11 pontos percentuais, passando de 17% para 28%, entre 2001 e 2011, e nos EUA aumentou sete pontos percentuais, de 16% para 23%. Crescimento elevado da percentagem dos idosos é ainda observável entre os emigrantes portugueses em França, destino europeu mais antigo. Essa percentagem duplicou, passando de 8% para 16% entre 2002 e 2011”.

É neste contexto de populações nacionais emigradas mais envelhecidas, que ganha especial relevância a iniciativa que está a ser dinamizada nos últimos anos na comunidade portuguesa em Toronto, onde vive a maioria dos mais de 500 mil compatriotas e lusodescendentes presentes no Canadá. Designadamente, o projeto de construção a breve prazo de um centro, o Magellan Community Centre, orçado em vários milhões de dólares, capaz de acolher mais de 200 idosos, especialmente direcionado para a comunidade lusa.

Este projeto, há muito ambicionado pelos emigrantes lusos na maior cidade canadiana, está a ser dinamizado pela Magellen Community Charities (Instituição de Caridade Comunitária Magalhães). Uma organização sem fins lucrativos, em homenagem ao navegador português, que através da colaboração do poder politico e da solidariedade da comunidade luso-canadiana, pretende construir um lar culturalmente específico que terá que cumprir as seguintes condições: profissionais de saúde que falem português; atividades cultural e espiritualmente desenvolvidas em ambiente cultural sensível; promoção de programas sociais e recreativos em português e alimentação que deve incluir pratos tradicionais.

Numa época de galopante envelhecimento da população, e em que os efeitos da pandemia têm acarretado graves consequências socioeconómicas, a construção de uma “casa” para os mais velhos da comunidade luso-canadiana, demonstra desde logo que o espírito de solidariedade e entreajuda ainda é uma das principais marcas da diáspora, em particular, da comunidade portuguesa em Toronto.

Estando, nesta fase, em processo de angariação de fundos, desdobrando-se os seus vários diretores em contactos e apelos para que a comunidade luso-canadiana, cada um dentro das suas possibilidades, possa contribuir para que o projeto se torne a breve trecho uma realidade. Como realçou, aquando da apresentação pública do mesmo, o empresário benemérito e diretor da Magellan Community Charities, Manuel DaCosta, é “importante estarmos todos envolvidos, se não vamos perder uma oportunidade que não termos num futuro próximo. Estamos empenhados para que tenha sucesso e para que toda a comunidade se envolva. Não é só para nós (direção), mas para toda a comunidade”.

Na linha de pensamento do Comendador Manuel DaCosta, este emblemático projeto da comunidade e para a comunidade portuguesa em Toronto, e quiçá um modelo de inspiração e de boas práticas para outras áreas geográficas da diáspora lusa, reaviva-nos a afirmação notável de Fernando Pessoa, um dos mais importantes poetas da língua portuguesa “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”.

COMENDADOR CARLOS DE LEMOS: UM PALADINO DA COMUNIDADE LUSO-AUSTRALIANA

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

Uma das marcas mais características das comunidades portuguesas é a sua dimensão empreendedora e benemérita, como corroboram os percursos de diversos compatriotas que dinamizam atividades de relevo a nível económico, político, cultural e social.

Nos vários exemplos de patrícios que compõem e engrandecem a diáspora lusa, cada vez mais reconhecidos como uma mais-valia na promoção do país, destaca-se a trajetória do Comendador Carlos de Lemos, antigo Cônsul Honorário de Portugal em Melbourne, na Austrália, e um dos mais devotados paladinos da cultura e história portuguesa no continente-ilha.

Natural de Melgaço, vila raiana no distrito de Viana do Castelo, onde nasceu em 1926, Carlos Pereira de Lemos iniciou a sua vida profissional como topógrafo em Portugal, trabalhando depois em Moçambique, África do Sul, Timor e na Austrália. No périplo que encetou pelo mundo, o alto-minhoto que começou a trabalhar com apenas 12 anos de idade numa loja em Melgaço, e já adolescente num café em Monção, conheceu personalidades marcantes como Nelson Mandela, Samora Machel, Rui Cinatti ou José Ramos-Horta.

Detentor de uma formação eclética, Carlos de Lemos foi estudante na África do Sul – Rhodes University e University of South Africa, onde se licenciou em Ciências Políticas e Sociologia. E pós-graduou-se em Pedagogia na Universidade de Melbourne, tendo sido professor de Sociologia e Ciências Políticas no Royal Melbourne Institute of Technology, e de línguas na Universidade de Monash, assim como representante do Banco Borges em Melbourne.

A chegada ao território australiano na década de 80, onde viria a estabelecer-se, marcou o princípio de uma profunda ligação à comunidade luso-australiana, atualmente constituída por cerca de 50 mil portugueses, essencialmente disseminados por metrópoles como Perth, Melbourne ou Sydney.

Paralelamente à sua atividade profissional, Carlos de Lemos tornou-se um importante dirigente associativo luso-australiano, através da criação de uma escola de português e de um programa de rádio. Em 1988, foi nomeado Cônsul Honorário de Portugal em Melbourne, incumbência que exerceu durante três décadas com intenso trabalho, num verdadeiro espirito de missão em prol da comunidade luso-australiana.

Nesse âmbito, foi o grande impulsionador do Festival Português de Warrnambool, uma cidade na costa sudoeste de Vitória, onde pelo seu incansável labor foi inaugurado em 2001 um padrão de homenagem aos navegadores portugueses, tendo inclusive sido dado a uma das ruas de Warrnambool o seu nome, “De Lemos Court”. Ainda, no alvorecer deste mês, o dinâmico nonagenário luso-australiano proferiu no Museu Marítimo de Warrnambool uma palestra onde abordou a tese da descoberta portuguesa da Austrália, que escora que terá sido o navegador Cristóvão Mendonça, por volta de 1522, o primeiro português a avistar as costas australianas, quando navegava na zona por ordem de D. Manuel I, dois séculos e meio antes do capitão inglês James Cook.

O notável percurso de vida de Carlos de Lemos, patenteado no seu livro História de Uma Vida, publicado em 2016 e prefaciado pela antiga secretária de Estado da Emigração, Manuela Aguiar, foi distinguido em 2002 com a Ordem de Mérito, no grau de Comendador, pelo então Presidente da República Jorge Sampaio. Mais recentemente Carlos de Lemosfoi condecorado pelo Estado de Timor-Leste e pelo governo australiano com a Ordem da Austrália, assim como pelo Município de Melgaço com a atribuição da medalha de Cidadão de Mérito.

Uma das figuras mais conhecidas da comunidade luso-australiana, o exemplo de vida do Comendador Carlos de Lemos,devotado paladino da cultura e história portuguesa no continente-ilha, relembra-nos a interpelação de Nelson Mandela: “Será que alguém pensa genuinamente que se não conseguiu algo foi por não ter tido o talento, a força, a resistência e a determinação nesse sentido?”.

JOSÉ SOARES: EMPRESÁRIO E BENEMÉRITO DA COMUNIDADE LUSO-AMERICANA DE NEW BEDFORD

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos Arquipélagos dos Açores e da Madeira, destaca-se hoje pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.

Atualmente, segundo dados dos últimos censos americanos, residem nos EUA mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, principalmente concentrados na Califórnia, Massachusetts, Rhode Island e Nova Jérsia. A grande maioria da população luso-americana trabalha por conta de outrem, na indústria, mas são já muitos os que trabalham nos serviços ou se destacam na área científica, no ensino, nas artes, nas profissões liberais e nas atividades políticas.

No seio da numerosa comunidade lusa nos EUA, onde proliferam centenas de associações recreativas e culturais, clubes desportivos e sociais, fundações para a educação, bibliotecas, grupos de teatro, bandas filarmónicas, ranchos folclóricos, casas regionais e sociedades de beneficência e religiosas, destacam-se percursos de vida de vários compatriotas que alcançaram o sonho americano ("the American dream”).

Entre as várias trajetórias de portugueses que começaram do nada na América e ascenderam na escala social graças ao trabalho, ao mérito e ao empenho, destaca-se o percurso inspirador e de sucesso de José Soares, um dos mais destacados empresários e beneméritos da comunidade luso-americana de New Bedford.

Natural de Ribeiras, freguesia da ilha do Pico, arquipélago dos Açores, José Soares emigrou ainda adolescente para a América no alvorecer dos anos 70, acompanhado os pais na demanda de melhores condições de vida para uma família humilde, que tinha já assistido na década de 1960 à partida do filho mais velho para o Canadá.

A chegada à América marcou o início de um percurso de vida de um verdadeiro self-made man”, que sem saber falar inglês e com apenas a 4.ª classe portuguesa, conseguiu completar o liceu e obter um curso técnico de eletricidade, ao mesmo tempo que auxiliava o pai nas horas vagas a pintar e a fazer manutenção de casas de madeira.

 O trabalho, o esforço e a resiliência, valores coligidos no seio familiar, impeliriam José Soares a fundar em 1979 a Bay State Drywall Company Inc., uma empresa de construção de referência no estado de Massachusetts, região da Nova Inglaterra. Atualmente com cerca de uma centena de funcionários, muitos deles portugueses, a Bay State tem ao longo das últimas décadas acumulado um importante portefólio de obras, mormente de centros comerciais, condomínios, supermercados e hotéis.

Radicado há mais de cinquenta anos nos Estados Unidos da América, o sucesso que o emigrante picoense alcançou ao longo dos últimos anos no mundo dos negócios, tem sido acompanhado igualmente de um apoio constante à comunidade luso-americana de New Bedford, onde é reconhecida a sua generosidade por ter pago, por exemplo, livros e material para vários alunos estudarem a língua de Camões.

Um dos mais destacados empresários e beneméritos da comunidade luso-americana, o exemplo de vida de José Soares, cujo apego às suas raízes açorianas contribuiu para ser em 1997 um dos fundadores da Azorean Maritime Heritage Society (AMHS) em New Bedford, inspira-nos a máxima do prolífico escritor francês Honoré de Balzac: “ Seja no que for, só se recebe na medida do que se dá”.

AS VIVÊNCIAS DA EMIGRAÇÃO PORTUGUESA NOS PALCOS DO TEATRO

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

Realidade incontornável na sociedade portuguesa, o fenómeno da emigração tem merecido cada vez mais a atenção de diversos campos de produção artística, como é o caso do Teatro, umas das principais manifestações artísticas, e um fenómeno cultural de enorme alcance na formação e desenvolvimento da cidadania.

Em Portugal, ao longo da última década, é notório o interesse que várias companhias teatrais têm dedicado a este elemento estruturante da identidade coletiva nacional, como comprovam as inúmeras peças que têm sido levadas à cena inspiradas nas vivências da emigração.

Os exemplos são variados e perpassam o território nacional, na esteira da transversalidade do fenómeno migratório na sociedade portuguesa. No ocaso de 2011, por exemplo, o Teatro Municipal da Guarda (TMG), encetou um espetáculo sobre a odisseia da emigração lusa dos anos 60 para França, justificando então o seu diretor artístico a aposta no mesmo, pela atualidade da temática e a ligação muito forte da mesma com a região.

Em 2014, ano em que a emigração portuguesa se manteve num patamar elevado, o Teatro Experimental do Porto, levou a cena no Auditório Municipal de Gaia a peça “Nós somos os Rolling Stones”, que se assumiu como um manifesto geracional sobre a emigração de jovens lusos. Este novo paradigma da emigração portuguesa foi retratado no ciclo Migrações, que decorreu em 2018 no Teatro Maria Matos, em Lisboa, onde foi abordada a experiência de emigrantes portugueses em Great Yarmouth, uma pequena vila na costa leste de Inglaterra, através do espetáculo “Provisional figures Great Yarmouth”, que tinha sido já apresentado no Reino Unido e no Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, no Porto.

Presentemente, ainda no decurso do mês de fevereiro, duas companhias teatrais trouxeram à cena espetáculos dedicados ao fenómeno da emigração portuguesa. Nomeadamente, a academia de teatro bracarense Tin.Bra, que estreou na capital do Minho o espetáculo “Odisseia da Emigração: IR”, a primeira peça de uma trilogia sobre a emigração portuguesa dos anos 60. Inspirada nas experiências e vivências da emigração portuguesa, a partir da década de 1960, a peça usa o teatro e a música como instrumento artístico para retratar a realidade deste fenómeno cultural de enorme impacto na região minhota.

Na mesma esteira, o Teatro Manga, uma companhia fixada em Lisboa e dedicada às artes performativas que trabalha no cruzamento entre teatro, dança e performance, estreou no Espaço Escola de Mulheres (Clube Estefânia), estreou a peça “Emigrantes”. Inspirada em “The Arrival”, obra gráfica de Shaun Tan, o espetáculo Emigrantes conta a história da experiência global que é a migração e leva-nos a pensar sobre os processos de adaptação e integração das comunidades migrantes.

A importância crescente que várias companhias teatrais têm dado à temática da emigração lusa, aviva simultaneamente o impacto do fenómeno no território nacional, e a frase imbuída de atualidade de Almeida Garrett, refundador do teatro português: “O Teatro é um grande meio de civilização”.