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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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MEMÓRIAS DA EMIGRAÇÃO E DAS COMUNIDADES

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  • Crónica de Daniel Bastos

No âmbito das comemorações do 25.º aniversário da Direcção-Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas (DGACCP), estrutura central do Ministério dos Negócios Estrangeiros aprovada pelo Decreto-Lei  n.º 48/94, de 24 de Fevereiro, que coordena e executa as ações relativas à política de apoio às Comunidades Portuguesas, o governo português lançou no início do ano a iniciativa “Memórias da Emigração e das Comunidades Portuguesas”.

A ação, dinamizada pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - NOVA FCSH, tem como principal objetivo identificar, mapear, registar e patrimonializar os testemunhos de vida, as memórias e objetos de todos aqueles que participaram e participam da diáspora portuguesa, constituindo um espaço de encontro e de reflexão acerca do importante papel das comunidades portuguesas no mundo.

A iniciativa de enorme alcance e relevância, dado que simultaneamente procura dignificar e reconhecer a herança e as potencialidades das comunidades portuguesas, é aberta à participação de todos que se revejam nestes compromissos, e que queiram contribuir com as suas histórias e recordações para uma melhor compreensão da memória e a identidade de Portugal no Mundo.

Uma das iniciativas mais notórias ligadas a este projeto colaborativo decorreu na semana passada, entre os dias 13 e 15, no decurso do 1º Encontro “Memória para todos: História, Património e Comunidades”, no Teatro Aberto, em Lisboa.

Organizado pelo Centro República e o Instituto de História Contemporânea da NOVA FCSH em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa, o 1.º Encontro “Memória para todos: História, Património e Comunidades”, reuniu diferentes agentes, projetos e atividades empenhados na identificação, organização, curadoria, investigação e divulgação da memória e arquivos de e para comunidades.

Entre as várias participações, destacou-se a do Professor Emérito de Sociologia da Universidade de Essex, Paul Thompson, um dos pioneiros da História Oral, que na obra “A Voz do Passado”, sustenta, inclusive ao nível das comunidades migrantes, que “a história oral devolve a história às pessoas, nas suas próprias palavras. E ao dar-lhes um passado, ajuda-as também a caminhar para um futuro construído por elas mesmas”.

CONTRADIZER PARA ESCLARECER

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

A comentar a minha crónica de 31/10/2019, na qual abordava a insuficiente organização da nossa sociedade, um leitor teve a amabilidade de me “censurar” por email. Quando se escreve estamos sempre expostos à divergência, mas é na base do desacordo que fazemos debate e aprofundamos o esclarecimento. Quando criticamos e sugerimos devemos ser bem-intencionados e pedagógicos, nunca abdicando, contudo, de ter opinião.

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Voltando ao leitor, este acha que é uma realidade a nossa pouca organização no trabalho. Porém, ironicamente, foi dizendo que, em matéria de eficácia, os ENVC não devem figurar como o melhor exemplo, já que esta nunca foi uma empresa lucrativa, tendo por essa razão acabado nas mãos de privados, agora sem problemas e a funcionar bem.

É fácil contrariar esta teoria, mas não em artigo curto, que se deseja enxuto porque já ninguém tem paciência para densas e longas leituras. No entanto, deixo pequenas notas para reflexão de todos os que têm visão idêntica. Diz-me este interlocutor que “não basta saber construir bem os navios, já que as empresas têm como principal objetivo o lucro”. Não há verdade mais evidente. Uma empresa que acumula prejuízos, salvaguardando as de objetivo social, não tem futuro. É um conceito que interiorizei para a vida.

Constatando realidades, a crise na construção naval a nível mundial já era patente na década de 1970, portanto há mais de meio século. As razões, em boa medida, assentavam na distorção do mercado internacional, com uma oferta superior à procura, resultante da entrada forte no negócio, a baixo preço, dos países do continente asiático, situação que ainda prevalece. Daí que já se possa considerar um feito para os ENVC ter resistido tão longo tempo, sabendo contornar obstáculos incomensuráveis. Isto conseguindo períodos áureos como, por exemplo, os resultados financeiros de excelência na década 1980/1990.

A construção de um navio exige inteligência, conhecimento, organização, planeamento, esforço e, distintamente, interligação de atividades, para que resulte em obra superiormente qualificada. E isso, pelo menos noutros tempos, aqui fazia-se bem, todavia com custos que o mercado teimava em não suportar, sendo este um desafio de difícil superação. Quando trabalhava costumava dizer que, mesmo em crise, os ENVC poderiam ser a melhor empresa do mundo. Mantenho esta convicção. A história nos dirá se sim ou não.

goncalofagundes@gmail.com

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MAR DE SONHOS – A EMIGRAÇÃO NOS VAPORES TRANSATLÂNTICOS

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  • Crónica de Daniel Bastos

O Centro Português de Fotografia (CPF), instituição pública que assegura a conservação, valorização e proteção legal do património fotográfico nacional, no âmbito das suas dinâmicas dispõe de uma exposição itinerante que retrata a época em que a ligação entre o continente europeu e americano era feito por navio.

A exposição intitulada “Mar de Sonhos – a emigração nos vapores transatlânticos”, assenta em 22 fotografias, datadas do início do século XX, de autoria de Aurélio da Paz dos Reis (1862-1931), um importante e apaixonado fotógrafo amador, que se tornou também o grande pioneiro do cinema português.

As imagens a preto e branco de Aurélio da Paz dos Reis têm o condão de retratar o ciclo transoceânico da emigração portuguesa na transição para o século XX. Um período histórico nacional, em que a permanência de uma prática agrícola tradicional, uma incipiente industrialização e uma profunda assimetria entre o mundo rural e urbano, o interior e o litoral, levaram a que entre 1855 e 1914, mais de um milhão de portugueses, pressionados pela carestia de vida e baixos salários agrícolas, encetassem uma trajetória transoceânica em direção ao Brasil, aos EUA, à Argentina e à Venezuela.

Procedente do mundo rural e eminentemente masculino, este fluxo migratório, particularmente atraído pelo crescimento económico brasileiro, foi incisivo no Entre Douro e Minho, e sobretudo possível à revolução que se deu na navegação através da transição dos veleiros para os barcos a vapor.

O crescimento da emigração de portugueses para o Brasil esteve na origem, em 1852, da fundação da “Companhia de Navegação a Vapor Luso-Brasileira”, que teve ao seu serviço dois vapores, o “Donna Maria Segunda” e o “Dom Pedro Segundo”, ambos com capacidade para mais de 400 passageiros. Às vantagens da maior capacidade de transporte de passageiros, os barcos a vapor da “Companhia de Navegação a Vapor Luso-Brasileira”, e mais tarde da “Mala Real Inglesa”, que passou a garantir as ligações entre Portugal e o Brasil, aliavam ainda maior comodidade, segurança e rapidez, encurtando o tempo desta viagem transoceânica para menos de um mês.

Os barcos a vapor mantiveram-se até ao alvejar da segunda metade do séc. XX, época em que chegaram a Portugal os navios equipados com propulsão a diesel e se iniciou o ciclo da emigração intra-europeia, o grande meio de transporte dos emigrantes lusos. 

LUÍS ESTEVES, PRESIDENTE DA CASA DO CONCELHO DE CASTRO DAIRE, LEVA AS “CASAS REGIONAIS EM LISBOA” AO COLÓQUIO INTERNACIONAL PROMOVIDO PELO INATEL E O CENTRO DE ESTUDOS DE ECONOMIA PÚBLICA E SOCIAL (CEEPS)

Casas Regionais em Lisboa em Colóquio Internacional - 18 e 19 NOV - Teatro da Trindade INATEL

CASAS REGIONAIS EM LISBOA é tema apresentado no X Colóquio Ibérico de Economia Social do CIRIEC, I Colóquio Internacional de Economia Social da Fundação INATEL, subordinado ao tema genérico ‘Sustentabilidade do Território, Património e Turismo Social’, a acontecer, nos dias 18 e 19 de Novembro, no Teatro da Trindade em Lisboa.

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A comunicação está ao encargo de Luís Esteves, nosso conhecido presidente de direção das Casa de Castro Daire em Lisboa, membro do Conselho Nacional da CPCCRD (Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto) e membro da direção da ACCL (Associação das Colectividades de Lisboa) e sua intervenção intitula-se ‘Casas Regionais em LisboaRepositórios rurais em espaços culturais urbanos’.

O colóquio contará com um primeiro dia, para a participação de especialistas nacionais e internacionais nos temas em apreço e com um segundo dia, para a realização de comunicações por parte de docentes e investigadores provenientes de várias instituições de ensino e investigação, alargando o debate e aprofundando o conhecimento sobre as matérias neste contexto. A abertura cabe aos principais representantes das entidades envolvidas e dos representantes da Comissão Europeia e Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social de Portugal e termina com um concerto Worl Music Concept com Lula Pena (Portugal) e Muzsikás (Hungria).

Luís Esteves dedica a sua investigação de doutoramento, ao fenómeno de estruturas associativas, sem fins lucrativos, do século XX, resultante do fluxo migratório das aldeias para as cidades. Estes espaços urbanos são elementos estruturantes, de identidade e memória, arquivos de herança rural, enriquecedores do património histórico e cultural. Aspiração de ‘reaportuguesar’ Portugal num país idealizado, por meio das atividades realizadas em coletivo de ritos e rituais, por via da recolha do folclore e levantamentos etnográficos dos usos e costumes dos antepassados. Estudo de investigação-ação, inserido num modelo etnográfico que revela as práticas do migrante português como ser intermediário do reconhecimento e transmissão do seu próprio património. Principais atores de promoção e divulgação da cultura tradicional e popular portuguesa na capital lisboeta, incluindo a salvaguarda e produção da documentação geral mais significativa.

Através da análise em campo, as Casas Regionais em Lisboa funcionam como locais de sociabilidade, pontos de encontro, que implicam simultaneamente os modos de interação na vida quotidiana e suas formas de agrupamento permanente cujos estatutos e modos de funcionamento são núcleos geradores de iniciativas próprias, aglutinadores de vontades, universo de dirigentes e dirigidos, possuidores de organogramas semelhantes. O que torna possível a afirmação da singularidade de cada uma destas Casas Regionais como repositório de uma tradição que tem na sua fonte um complexo de valores de património ético comum com o qual os associados se identificam e em torno do qual se mobilizam. São estes valores que fazem a diferença, a defesa de interesses e promoção de temáticas de relevo para as regiões, manifestações evidentes da sociedade organizada, ou seja, como expressão da sociedade civil, fator de estabilização e pacificação de caráter intergeracional que assenta em larga medida nos laços dos afetos que radicam na cultura, valores, modos de ser e de estar. 

PARADOS NO TEMPO

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Há anos atrás, um amigo abordou-me para que fizesse um escrito a favor da instalação de uma pista de skate na nossa cidade. Tinha um neto entusiasta por esta prática que acabara de ser detido no espaço citadino por agentes da PSP, criando uma situação incómoda, quiçá caricata, pelos contornos que envolveu. Vim a saber mais tarde que, perante diligências de vários pais, havia promessas da parte de vereadores municipais de que a construção de uma pista em Viana para a prática da modalidade iria acontecer em breve.

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Agora que também tenho gente apaixonada por este hobby (daí uma declaração de interesses da minha parte), perguntei ao meu amigo se o neto ainda era praticante e onde praticava. Resposta rápida: “o rapaz já tem 18 anos, porém a paixão cresceu em harmonia com a idade”. Sorriso nos lábios, entendendo a minha curiosidade, foi adiantando locais onde era possível os miúdos fazerem boas acrobacias. “O meu vai muito para a Galiza, mas por aqui não faltam boas pistas a começar na da Póvoa de Varzim, que prima pela excelência”. Referiu ainda Ponte de Lima e que parques para esta prática era o que por aí mais havia. “Na internet está lá tudo”, rematou. Manifestando pressa, foi-se afastando, mas ao longe ainda foi dizendo: “olha, se estás à espera de que em Viana também haja pista, espera sentado”.

Não foi muito além do que já conhecia. Apercebendo-me da azáfama de jovens casais a preparar passeios para fora da cidade para que os filhos possam fazer boas corridas e dar uns saltos com razoável margem de segurança em parques próprios e longe de olhares reprovadores dos agentes da ordem, já tinha visitado a internet para saber algo sobre a matéria.

Curioso, não resisto a nova consulta. É desta forma que reparo num trabalho sobre o assunto abundante em informação no portal do JN, na página “Local”, de onde extraio e reproduzo este comentário de um praticante da modalidade, de nome Orlando Conde: "menos de um ano depois de ter sido inaugurado, o parque poveiro de skate arrasta gente de todo o Norte do país e até de Espanha. Aos fins-de-semana são às centenas os que enchem este espaço”.

Pois, é por isso que em dias de folga passeamos na nossa cidade e a sentimos deserta. Bonita, sossegada para circularmos à vontade, sem incómodos para os idosos, que também têm direito a dela usufruir, mas tristonha e quase que envergonhada, dando a ideia de acompanhar mal o progresso que o país vai tendo.

Imagem de www.visao.sapo.pt

O FENÓMENO DA EMIGRAÇÃO NA MÚSICA PORTUGUESA

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  • Crónica de Daniel Bastos

A emigração, parte integrante da história e cultura nacional, tem sido ao longo dos anos uma profícua fonte de inspiração para inúmeros cantores, letristas, compositores e artistas, que nos mais diversos estilos musicais têm evocado as agruras da partida e da saudade de quem demanda no estrangeiro melhores condições de vida.

Os mais antigos recordar-se-ão seguramente da voz suave e triste de Adriano Correia de Oliveira que interpretou o “Cantar de Emigração”, com letra de Rosalia de Castro e música de José Niza. Uma das mais emblemáticas trovas do cantor de intervenção, o “Cantar de Emigração” constitui um retrato fidedigno da emigração portuguesa “a salto” para França nos anos 60, um período marcado pela saída maciça de jovens, sobretudo do Norte de Portugal, impelidos pela miséria rural, a ausência de liberdade e a fuga ao cumprimento do serviço militar, antecâmara da incorporação na Guerra Colonial.

Esta experiência marcante de fuga à pobreza de centenas de milhares de portugueses, que na sua maioria encontraram nos setores da construção civil e de obras públicas da região de Paris, cidade que muitos conheceram como expressa António Barreto “antes de ir a Lisboa ou de ver o mar”, seria celebrizada nos anos 80 com o tema “Um Português (Mala de Cartão) ” de Linda de Suza, uma das mais afamadas cantoras lusas, emigrante em França. Ainda em terras gaulesas, os anos 90 assistiram ao sucesso entre a comunidade portuguesa de Graciano Saga, um cantor popular que ficou conhecido com músicas sobre a Diáspora, de que se destaca o tema "Vem devagar emigrante" e "Amiga Emigrante".

A influência do fenómeno da emigração na expressão musical portuguesa não se cinge ao passado mais recente ou às canções de intervenção e música popular. A multiplicidade de projetos musicais onde está retratada na atualidade a temática da emigração vai desde o Fado e a Pop, singularmente representada em 2013 no dueto de Pedro Abrunhosa com o fadista Camané, que no tema “Para os braços da minha mãe” abordam a nova vaga de emigração; até ao Rap, discurso rítmico com rimas e poesias que o rapper brigantino Jorge Rodrigues e a cantora Vanessa Martins usaram em 2016 na música “Filha de emigrantes”, uma composição que retrata a vida hodierna dos emigrantes e a saudade que sentem da família e do país de origem.

TRABALHO COM SUCESSO SÓ DE FORMA ORGANIZADA

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

É consabido que mais importante que trabalhar muito é trabalhar bem. E o bem, neste contexto, significa organizadamente, com método e com sentido. Um trabalho executado de forma exaustiva e em desordem pode ser menos produtivo do que aquele que, menos fatigante, teve a vantagem de ser previamente estudado.

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Quando se afirma que não somos aqui o mesmo povo que somos no estrangeiro, porque mais produtivo fora do que em Portugal, não julgamos bem. Somos na verdade a mesma gente, só que a operar em conjunturas diferentes. Qualquer trabalhador, mesmo que indiferenciado, inserido numa atividade organizada, não tem formas de inverter cadeias e obstar a produção. O contrário acontece a trabalhadores qualificados e briosos a operar em contexto desorganizado, já que dificilmente conseguem impor bom ritmo laboral.

Mais nociva ainda é a desorganização em trabalhos diferenciados mas com interdependência. Nenhuma organização, seja ela empresa, instituição ou estado, atinge valores de boa eficácia sem interligar adequadamente as tarefas a executar. Os ENVC eram exemplo no trabalho bem planificado, porque nunca falhavam no cumprimento dos prazos das encomendas contratualmente acordadas, algo complexo e de difícil observância, já que o circuito de construção de um navio passa por uma rede complexa de serviços, atividades e pessoas com técnicas diferenciadas, mas onde a interação figura como exigência superior.

O oposto vê-se, por exemplo, nos trabalhos de limpeza ou execução de obras levados a cabo pelos serviços municipais na nossa cidade. Na limpeza, de noite ou de dia cortam-se ervas, juntam-se detritos de diversa ordem, por vezes amontoam-se, outras nem isso, e deixa-se ficar para que alguém os venha recolher. Como a recolha só se faz decorridos vários dias, quando a operação se realiza já não há lixo a remover porque este já foi levado pelo vento, com todas as consequências daí inerentes. Na execução de obras acontece a prática da delonga. Quantas vezes observamos uma obra que se inicia, com perturbações de trânsito e incómodos de outra ordem, castigando duramente os cidadãos, que por falta de planeamento consome tempo que nunca deveria consumir. Dá que pensar constatar progressos em muitas práticas e observar situações onde teimamos em regredir. Assim, dificilmente nos juntamos aos primeiros. É pena porque temos condições para ser melhores.

goncalofagundes@gmail.com

A ARTE DO NOSSO QUOTIDIANO

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Anton tchekhov dizia que as obras se dividiam em duas categorias: as que lhe agradavam e as que não gostava. E que sobre arte não conhecia outro critério. Considerado um dos maiores escritores russos, Anton tchekhov (1860/1904), supostamente via a arte de uma forma linear: gostando ou não. É curioso porque se trata de um conceito universalmente perfilhado por boa parte dos cidadãos. Só que Tchekhov saberia apreciar o melhor do ponto de vista estético, percebendo bem onde estava a qualidade, em oposto ao que acontece com muita gente. Considerações à parte, só de forma esforçada entendemos suficientemente a arte que, para além de conhecimentos básicos, passa por observação cuidada e preocupação em entender a sensibilidade do artista expressa na obra. E nem sempre as primeiras observações e gostos resultam bem na escolha.

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No tempo do Estado Novo, Viana promoveria, quando muito, uma dúzia de exposições em cada ano. Hoje, pelo contrário, há galerias em suficiência, públicas e privadas, em variados pontos da cidade, expondo formas artísticas diversas, de diferentes autores, vianenses ou não. Não faltam mostras para saber o que os artistas vão fazendo e o que pretendem mostrar-nos. Com ou sem formação artística superior, mais ou menos exigentes, figurativos ou com contornos abstratizantes, todos apresentam arte e todos gostam de ser visitados. Nunca perdemos nada em ir até eles, mesmo os que não passam de um certo amadorismo, porque jovens iniciados.

Há dias estive na Galeria Noroeste da Fundação da Caixa Agrícola, na Rua de Aveiro. Também ali se expõem temáticas alternadas, até porque o espaço a isso se proporciona. Presentemente, estão patentes trabalhos do Arquiteto Marques Franco, mostra denominada “Tresleituras II”. Alguém me tinha dito, de forma não depreciativa, que se tratava de uma exposição de artesanato. Mas o que ali temos é uma mostra bem interessante. Não de pintura, mas de pequenas esculturas em madeira, tendo como tema figuras e trajes tradicionais do Minho, e alguns, poucos, cabeçudos. Só que é tudo bem diferente do que, habitualmente, neste âmbito, por aí se faz. Ali está bem patente a técnica, a ousadia, a criatividade e o bom gosto. Vê-las é um desafio, tal como as figuras, pela pose, nos interpelam a nós. E já que se falou de artesanato, ninguém desdenharia ter em casa algumas peças da artesã Rosa Ramalho, julgo.

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A HERANÇA PORTUGUESA NO SRI LANKA

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  • Crónica de Daniel Bastos

A presença pioneira dos portugueses na Ásia no séc. XVI e XVII, catalisadora dos primeiros contactos entre a Europa e o Oriente, apresenta ainda nos dias de hoje marcas vivas dessa Era dos Descobrimentos.

É o caso do Sri Lanka, antigo Ceilão, ou a afamada “Taprobana de Camões”, uma nação insular situada ao largo da extremidade sul do subcontinente indiano, que preserva desde a centúria quinhentista, época em que os portugueses foram os primeiros europeus a desembarcar neste território astático, um singular legado luso.

Essa herança histórica remanesce na atualidade, desde logo, nos apelidos de mais de metade da população, estimada em cerca de 22 milhões de habitantes, como Perera, Fernandes, Sousa, Silva ou Fonseca.

Os elementos da cultura da Pátria de Camões no Sri Lanka estendem-se ainda à existência de uma comunidade de ascendência portuguesa, os “burghers”. Um grupo étnico que professa o cristianismo e fala um crioulo de raiz portuguesa, e que se encontra essencialmente concentrado nas cidades de Batticaloa e Trincomalee, na Província Oriental.

Ainda que esta comunidade não corresponda sequer a 1% da população total deste país asiático onde predomina a religião budista, hinduísta e islâmica, as raízes portuguesas encontram-se também presentes nas tradições musicais destes grupos étnicos, como a “Baila”, um estilo de música muito popular no antigo Ceilão.

A notável herança portuguesa na afamada “Taprobana de Camões” tem sido ao longo dos últimos anos metodicamente estudada pelo Professor Auxiliar da Universidade de Lisboa, Hugo Cardoso, investigador responsável do projeto "Documentation of Sri Lanka Portuguese", financiado pela "Endangedered Languages Documentation Programme" da School of Oriental and African Studies da Universidade de Londres. Um trabalho de enorme alcance cultural sobre a presença pioneira dos portugueses na Ásia, que tem como principal objetivo criar um corpus anotado da língua, música e danças portuguesas no antigo Ceilão, que inclui inclusive materiais primários recolhidos em diversos arquivos e bibliotecas.

O PLANETA ESTÁ A EXAURIR-SE

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

O ambiente está na ordem do dia. E bem. O planeta está a atingir a exaustão e as previsões para o futuro próximo são de catástrofe. E não há que iludir, já que a calamidade está à vista de todos e praticamente a todos chega. Não há imunidade para ninguém. Para muitos, o bem-estar ambiental de hoje pode transformar-se amanhã em drama. E se por razões económicas há países mais bem preparados para os cataclismos que vão surgindo, outros há que pouco mais podem fazer do que apelar à solidariedade dos ricos, recurso muito sofrível.

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O problema é demasiado complexo e tudo indica que o mundo se atrasou demasiado na procura de soluções, apesar de quase sempre se ter falado de ambiente. O tratamento de resíduos nas grandes metrópoles, por exemplo, era já abordado com forte preocupação em meados do século XX. Mesmo em Portugal, com o seu peculiar e generalizado atraso, o ambiente passou a fazer parte das agendas governamentais imediatamente a seguir à revolução de 1974. Quando aconteceu o 25 de Abril, Portugal, em boa medida, era um país inquinado, com lixeiras a céu aberto espalhadas por todo o espaço nacional. Hoje, apesar de estarmos a dar passos mais curtos que as necessidades, dado a má prática de décadas anteriores, o país está dotado de mais de meia centena de aterros sanitários, com a maior parte deles apetrechados para tratar satisfatoriamente os resíduos de origem urbana. Mas não foi só nesta frente que progredimos. A opção por energias alternativas ao fóssil tem tido avanços bem reconhecidos, até internacionalmente.

Contudo, entre nós, porque temos que arrumar primeiro a nossa casa para ter força moral para exigir ao mundo que se regenere, ainda temos muito para fazer. Continuamos a tratar muito mal a natureza e a passar a mensagem de “quem vem atrás que feche a porta”, só que atrás de nós vêm pessoas com direito à vida como nós sempre exigimos. Mas se esta é uma realidade evidente, a outra verdade é que profetas de ocasião a falar de ambiente não me convencem. Discursos inflamados para ganhar protagonismo e lugares no Parlamento cheira a falácia. O assunto pode ser pasto para proveitos eleitorais, mas só conseguiremos um planeta melhor com uma forte consciência ambiental, aqui e no mundo inteiro. E tudo isto depende de muito trabalho no terreno e de valorização intelectual e moral das pessoas. Portanto, de forma abrangente, mais trabalho e mais formação.

goncalofagundes@gmail.com

MALA DA PARTILHA - HISTÓRIAS DE VIDA

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  • Crónica de Danel Bastos

No final do passado mês de setembro, a Cáritas Portuguesa, uma instituição oficial da Conferência Episcopal Portuguesa para a promoção e dinamização da ação social da Igreja Católica, que tem como missão o desenvolvimento humano e a defesa do bem comum, apresentou na Câmara Municipal de Santarém, o livro “Mala da Partilha – Histórias de Vida”.

A obra, coordenada por Filipa Abecasis, Responsável Operacional da Unidade Internacional da Cáritas Portuguesa, e prefaciada pelo Cardeal Luis Antonio Tagle, arcebispo de Manila, nas Filipinas, e presidente da Caritas Internationalis, assenta num conjunto expressivo de cartas/testemunho de refugiados, emigrantes e imigrantes, que comparam e cruzam diferentes perspetivas do fenómeno migratório. Designadamente, as trajetórias de quem chega a Portugal à procura de uma vida melhor, com os percursos de quem sai do território nacional à procura de melhores condições de vida.

Segundo Filipa Abecasis, o livro, publicado no âmbito da campanha “Partilhar a Viagem” da Caritas Internationalis, que foi lançada pelo Papa Francisco, em 2017, com o tema “acolher, proteger, promover e integrar” migrantes e refugiados, enquadra uma “panóplia de testemunhos bastante diferentes que mostram a forma como as pessoas se sentem mais ou menos integrados, quais foram os desafios também na sua viagem até chegarem e depois também a história de integração”.

As diferentes histórias de vida reunidas na obra sublinham desde logo, que embora o país continue marcado pela emigração, estimativas da Nações Unidas apontam que o número de portugueses emigrados é de mais de 2,2 milhões, o processo de imigração em Portugal tem vindo a assistir nos últimos anos um crescente aumento. Dados recentes do Relatório de Imigração, Fronteiras e Asilo (RIFA) do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), registam que atualmente vivem em Portugal mais de 480 mil estrangeiros, maioritariamente oriundos do Brasil, Cabo Verde, Roménia, França e Itália.

Neste sentido, as diferentes histórias de vida partilhadas no livro, visam essencialmente a promoção de uma cultura do encontro propugnada pelo atual Papa Francisco, como contraposto à globalização da indiferença que grassa em muitas partes do mundo, e que não respeita a dignidade humana de migrantes e refugiados.

QUERER O PARAÍSO NA TERRA É PURA FICÇÃO (5)

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Decididamente, quase metade da população portuguesa (45,50% de abstencionistas) está apostada em não participar na vida democrática do país. Em relação às eleições legislativas de 2015 houve mais 288.027 cidadãos a não participar na escolha das forças políticas que os irão governar ao longo dos próximos 4 anos. O Presidente da República que, à luz das amostragens que se vão fazendo, tem cotas elevadíssimas de popularidade (mais de 70%) bem disse que “não votar é perder autoridade para contestar”, mas os resultados desse apelo não se evidenciaram. Contas feitas, não votando 4.250.660 cidadãos, o Presidente não convenceu quase 3 milhões dos que o admiram. Beijinhos, abraços e selfies são posturas de circunstância.

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“A alegria da vida”. Óleo sobre madeira de Álvaro Cunhal

 

Os argumentos dos cidadãos que teimam em não votar são quase sempre os mesmos: má governação, pouca seriedade dos políticos, agravamento da situação social, etc., etc. Pessoalmente, penso que a elevada abstenção e consequente não participação na vida cívica da nação (não deixando de reconhecer as deficiências próprias dos partidos políticos) tem mais a ver com questões de ordem cultural. As argumentações invocadas são pouco plausíveis, já que fenómenos idênticos existem no mundo inteiro, havendo, inclusive, em grande parte dos países governações verdadeiramente trágicas. Constatável é que a corrupção, por exemplo, é muito menor nas nações onde a participação cívica é mais elevada, caso da região da Escandinávia, onde os cidadãos são aberta e justamente críticos, mas demonstrando por outro lado uma forte consciência nos seus deveres para com a sua sociedade.

Querer o “paraíso” na terra é pura ficção, e muito menos quando estamos associados ao “diabo”. O Portugal da prosperidade, da boa justiça, impoluto e solidário que tanto reclamamos não cai do céu. Se não o soubermos construir lá não chegaremos. Tudo sai das nossas mãos, nada vem do além, nem da parte de ninguém.

Nestas eleições, não houve maiorias absolutas, mas, provavelmente, o diálogo intenso e o encontro de caminhos é assim mais possível. Sabemos bem o que já deram as maiorias absolutas e como se desgovernou para as obter. Que cada um e todos os que podem ser parte nas soluções para governar este país – que continua com os seus problemas bem presentes –, sem prejuízo das suas conceções de sociedade, saibam encontrar os melhores caminhos da governação.

goncalofagundes@gmail.com

VOTAR É UM DEVER CÍVICO – E CUMPRIR O MANDATO QUE O POVO DELEGOU O QUE É?

Depois de realizadas as eleições para deputados à Assembleia da República, vulgo eleições legislativas, deverão em breve tomar posse os deputados eleitos pelos cidadãos que foram exercer o seu direito de voto, constantemente lembrado como simultaneamente um dever cívico.

Porém, para além daqueles que deverão ser chamados a cumprir funções governativas, alguns dos eleitos não tomarão posse do cargo e, consequentemente não exercerão o mandato que lhes foi atribuído pelos cidadãos. Não o farão por impedimentos de força maior como problemas de saúde plenamente justificáveis mas certamente por não terem alcançado o objectivo que almejavam e que não era certamente a função de deputado.

Praticamente metade dos eleitores já deixou de exercer o seu direito de voto e, apesar de constantemente lhes zurzirem aos ouvidos a sua responsabilidade por não cumprirem o dever cívico, eis que têm nos deputados que recusam cumprir o mandato para o qual foram eleitos o melhor exemplo do que representa a falta de cumprimento do dever cívico. E, quando assim se verifica, perdem os políticos a autoridade moral para exigir aos seus concidadãos o dever de votar. Afinal de contas, que consideração tiveram pelo voto com que os cidadãos os elegeram – qual o destino que deram aos votos que receberam?

A PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA E IDENTIDADE DA EMIGRAÇÃO PORTUGUESA NA TOPONÍMIA

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  • Crónica de Daniel Bastos

O impacto da emigração tem impelido ao longo das últimas décadas vários municípios portugueses a perpetuarem, na toponímia das suas localidades, as marcas deste fenómeno estruturante que se encontra indelevelmente ligado à memória e identidade cultural das comunidades.

Como salienta Gonçalo Poeta Fernandes, no prefácio do livro “Desafios e Constrangimentos do Estudo da Toponímia. Intervenções e contributos”, a toponímia “respira o nosso quotidiano, o que nos envolve, preocupa ou dá felicidade, documenta as vivências das comunidades, suas políticas e intervenções territoriais, quem a sociedade distingue e pretende reter, na memória coletiva”.

É precisamente nesse sentido, que se encontram disseminados por todo o território nacional diversos nomes de ruas, com o claro propósito de enaltecer e preservar as vivências da emigração no seio das povoações.

É o caso, por exemplo, de Rabo de Peixe, uma vila e freguesia do concelho da Ribeira Grande, na ilha açoriana de São Miguel, uma região fortemente marcada pela emigração, onde desde o início da década de 2010 foram aprovados como nomes de novas artérias a “Rua da Diáspora” e a “Rua dos Emigrantes”.

A denominação de arruamentos com referências explícitas ao fenómeno migratório encontra-se igualmente muito presente no Arquipélago da Madeira, um território insular cuja matriz identitária, cultural, social, política e económica não pode ser dissociada da temática da emigração. A presença dos topónimos “Rua Emigrantes”, na freguesia de Caniço, em Santa Cruz, ou “Rua dos Emigrantes”, no município de Porto Moniz, são alguns dos exemplos paradigmáticos desta mundividência que se encontra também expressa nos nomes de muitas ruas de norte a sul de Portugal continental.

A perpetuação da memória e identidade da emigração portuguesa encontra-se inclusivamente nos últimos anos consagrada na toponímia de países que acolhem comunidades lusas. Desde logo em França, a mais numerosa das comunidades portuguesas na Europa, onde estreitados laços de geminação se encontram consagrados vários nomes de localidades de onde são oriundos os emigrantes lusos, como é o caso dos concelhos minhotos de Fafe e de Guimarães, que pontificam respetivamente, numa avenida na cidade de Sens e numa rotunda no burgo de Compiègne.

AS ELEIÇÕES DE 6 DE OUTUBRO DE 2019: VOTAREI ONDE SEMPRE VOTEI (4)

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Entendo que o que mais deve ser valorizado no Ser Humano é a sua coerência de princípios. Contudo, os cidadãos, sem se desviarem de processos de seriedade e de defesa de valores sociais e éticos, não podem remeter-se a posições estáticas, indiferentes à evolução do mundo. Quem sonha com uma sociedade mais justa e humana, não pode estar agarrado a práticas que o tempo provou estarem desadequadas.

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1975. Primeiras eleições livres em Portugal

 

Por mim, sempre atento à mudança, também permaneço fiel às origens. Como sempre disse e escrevi, entendo a democracia como um sistema onde todos são pessoas, com pluralismo ideológico, eleições livres, alternância de poder e onde todos possam fruir da liberdade para exprimir a sua razão. Entendo ainda que, neste quadro, não devem caber forças extremistas que perfilhem o oposto a estas condutas, com a agravante de não aceitarem o respeito das minorias, a convivência entre raças e a defesa da paz, conceitos que estimulam o subdesenvolvimento, a agressividade e a não dignificação dos indivíduos nos seus direitos básicos.

Também é por isso que aplaudo a nossa integração na União Europeia, espaço de liberdade, de união de esforços na persecução de uma economia evoluída, de inquietações com o ambiente, e onde grande parte dos povos do mundo aspiram a viver. Trata-se de uma comunidade longe da perfeição, mas com liberdade suficiente para a irmos melhorando, não se justificando por isso o aparecimento de personalidades e estados que a tentam por em causa, minando-a nos seus principais alicerces, atitudes que devem merecer o nosso maior repúdio.

Sobre as eleições que aí estão, estou convencido de que, sem grandes maçadas, todos os partidos gostariam de proporcionar aos seus concidadãos um país de boa vivência. O que os diferencia, para além de outras razões, são os caminhos para lá chegar: se deve haver mais ou menos estado, mais ou menos liberalismo económico e mais ou menos direitos sociais para as populações. As dúvidas para mim não se colocam. Defendo uma sociedade que, não pondo em causa os princípios elementares da economia como fator de progresso, vê no cidadão o seu agente principal. Por isso, não escondo que, nestas eleições, mais uma vez, votarei onde sempre votei.

goncalofagundes@gmail.com

O PAPEL INESTIMÁVEL DA OBRA CATÓLICA PORTUGUESA DE MIGRAÇÕES NAS COMUNIDADES LUSAS

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  • Crónica de Daniel Bastos

A Obra Católica Portuguesa de Migrações (OCPM), um organismo de âmbito religioso, instituído em 1962, com personalidade jurídica, canónica e civil, sem fins lucrativos, tem desempenhado ao longo de mais de 50 anos de existência um papel inestimável no acompanhamento espiritual e cultural das Comunidades de Língua Portuguesa.

Dependente da Comissão Episcopal da Mobilidade Humana (CEMH), sendo simultaneamente secretariado da mesma Comissão, a OCPM assume como principal desígnio a causa dos migrantes no seio da Igreja Católica Portuguesa. Uma causa cada vez mais premente no contexto sociopolítico internacional, e uma das grandes bandeiras do atual pontificado do chefe da Igreja Católica, que reiteradamente tem feito a defesa dos direitos e dignidade dos migrantes.

No âmbito da sua ação e no cumprimento da sua missão, a Obra Católica Portuguesa de Migrações estende-se às equipas da Pastoral dos Ciganos, dos Marítimos, do Turismo e Peregrinações, das Capelanias de Imigrantes e de outras Organizações Católicas, como é o caso das Missões Portuguesas para Emigrantes.

Criada num período de forte emigração portuguesa, e reconhecendo a emigração como uma constante estrutural da sociedade nacional, a OCPM ao longo de mais de meio século tem dinamizado um trabalho notável de acompanhamento espiritual e cultural das comunidades lusas espalhadas pelo mundo.

Esse trabalho, manifesto entre outros, em celebrações, visitas pastorais, ações de formação ou participação em vários órgãos de informação, alavancou a fundação de Missões Católicas em importantes destinos da emigração portuguesa.

Desde logo, como assinalam Maria Beatriz Rocha-Trindade e Eugénia T. J. Costa Quaresma, autoras do livro “A Igreja face ao fenómeno migratório, 50 anos da OCPM, em destinos como a França, Canadá, Venezuela, África do Sul, Argentina, Brasil, Estados Unidos da América, Alemanha, Luxemburgo, Holanda, Reino Unido, Suíça e Austrália. Países onde vivem e trabalham milhões de compatriotas que continuam a ter nas Missões Portuguesas para Emigrantes um meio de referência no campo da assistência religiosa, cultural e de promoção da identidade nacional. 

AS ELEIÇÕES DE 6 DE OUTUBRO DE 2019. O PARTIDO DOS ESQUECIDOS (3)

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Nos estados democráticos, os processos reivindicativos e a agitação social são direitos inalienáveis dos cidadãos. Se estas prerrogativas estivessem limitadas nas leis, a democracia estaria amputada nos seus valores fundamentais. Infelizmente, talvez por inexperiência ou falta de vontade das partes, nem sempre os diferendos são precedidos de negociações objetivas e pragmáticas, mas nada de acomodamentos, porque estes só resultam em prejuízo das populações. Realismo e apreciação objetiva de contextos são princípios que devem imperar quando os desacordos surgem, porém está provado que as soluções para os problemas, em contexto geral, só acontecem quando estes ganham visibilidade e mobilizam a comunicação social. Na vivência mais geral das populações, por vezes, espera-se anos pela resolução de um problema básico, no entanto logo que as televisões e os jornais lhe dão saliência quem manda e tem o poder acorda.

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Contudo, o direito às justas reivindicações e ao protesto deve ser extensivo a todos. Mas se estivermos atentos às movimentações da nossa sociedade, concluiremos facilmente que tal, em muitos campos, não tem passado de figura de retórica. Se nos questionarmos sobre a incidência dos grandes movimentos reivindicativos, especialmente nos últimos anos, ninguém terá dúvidas de que, de fora, ficaram as forças do trabalho direto. As gentes das grandes superfícies; das fábricas dos têxteis, vestuários e calçado; da metalurgia, construção civil e outras; bem como a gente do mar e dos campos passaram ao lado, ou quase, destes processos. Não fossem, pontualmente, alguns partidos à esquerda e o movimento sindical (este a perder visibilidade e com dificuldades de movimento, também muito por culpa própria) e nem se dava pelos trabalhadores destas atividades económicas, árduas, incapacitantes e boa parte delas fator determinante nas exportações e num menor desequilíbrio das nossas contas externas.

Estamos em campanha eleitoral, porém, veja-se o que são as agendas dos partidos políticos e os assuntos que tratam e debatem. Quem tem estado na penumbra, quem trabalha e quase só tem como objetivo a defesa do seu posto de trabalho – muito pouco protegido –, a tendência é para que oculto continue. Às vezes, a ver os telejornais, pergunto-me se, há muito tempo, não devia ter sido criado o partido dos esquecidos.

goncalofagundes@gmail.com

Foto: Estúdo de Trabalho Braçal de Carolino Ramos

A PROMOÇÃO DA LÍNGUA E CULTURA PORTUGUESA NA ESLOVÉNIA

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  • Crónica de Daniel Bastos

A conjugação de esforços e sinergias na promoção da língua e cultura lusa no estrangeiro tem permitido ao longo dos últimos anos ampliar a projeção do país no concerto mundial, inclusivamente em nações onde os portugueses não são das principais nacionalidades residentes.

Um desses exemplos encontra-se presentemente na Eslovénia, um estado situado na Europa Central, que faz fronteira com a Áustria, a Hungria, a Itália e a Croácia, onde na última década o altruísmo cultural e o amor pátrio de João Pita Costa têm sido fundamentais para a difusão da língua e cultura portuguesa nesta pequena nação de 2 milhões de habitantes.

Natural da Costa da Caparica e matemático de profissão, João Pita Costa que vive na capital eslovena, Liubliana, há mais de uma dezena de anos, é desse 2014 o editor da revista bilingue luso-eslovena “Sardinha”, uma revista cultural online que tem tido desde o seu aparecimento o apoio da Associação de Amizade Luso-Eslovena,

Através da cooperação com o Instituto Camões, e da articulação com estruturas diplomáticas e associativas lusas, a “Revista Sardinha” tem celebrado o dia de Portugal e das Comunidades em Liubliana, sendo que na primeira edição em 2017 juntou mais de 100 luso-falantes num convívio feito por portugueses para todos.

No ano passado, a prossecução cultural da revista luso-eslovena esteve na base da dinamização de um ciclo de cinema português, onde foi exibido o filme “Alentejo, Alentejo”, de Sérgio Tréfaut. Uma relevante iniciativa que decorreu no espaço Ziferblat, em Liubliana, e que foi antecedida de uma interveção, do professor Alcides Murtinheira, sobre o cante alentejano, género musical classificado há cinco anos como Património Cultural Imaterial da Humanidade.

Já no início deste ano, a contínua promoção da língua e cultura portuguesa na Eslovénia, contribuiu para que se tenha ouvido fado, um dos maiores símbolos da cultura nacional, em Liubliana, na sala de espetáculos Poket Teater Studio, estreitando-se ainda mais os laços luso-eslovenos que tem em João Pita Costa um dos seus mais afincados e genuínos ativistas culturais.

AS ELEIÇÕES DE 6 DE OUTUBRO DE 2019: A PROSPERIDADE QUE TARDA! (2)

Boa parte da sociedade portuguesa deixou-se envolver na discussão estéril da criação de um museu dedicado a Salazar. Compreendo o protesto de muitos contra uma pretensão velhaca de uns quantos saudosistas, mas subscrevo por inteiro a posição da historiadora Irene Pimentel, quando esta diz aprovar a criação do dito museu desde que este retrate na plenitude o ditador de Santa Comba, não escamoteando o cortejo de misérias que resultou dos 48 anos da sua governação, onde cabem, entre outros males, o país rural, triste e atrasado que nos legou; o nosso isolamento no contexto mundial; o encarceramento e, tantas vezes, a liquidação de opositores políticos; e a guerra colonial que nos custou milhares de vidas.

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Mas o Estado Novo teve o seu fim em 1974. E se a sociedade portuguesa soube evoluir satisfatoriamente a todos os níveis, também estamos longe de ter feito o que de todo era necessário, especialmente no domínio do crescimento económico, sem o qual não é possível melhorar as condições de vida das pessoas. Não vale a pena reivindicar quando pouco existe para distribuir. Podemos exigir sim uma melhor distribuição da riqueza existente, mas ir além disso é pura utopia. Apregoou-se muito a construção de um Portugal desenvolvido e debitaram-se repetidamente projetos para crescermos e nos aproximarmos da Europa que nos acolheu, mas o sucesso está bem longe do desejado. É um facto que somos parcos em recursos, mas os que dispomos também não foram convenientemente explorados, nem se pensou numa economia partindo da nossa própria realidade, porque há países na Europa a que pertencemos que, tão limitados tanto quanto nós em valores, souberam encontrar o seu caminho próprio e aproximar-se da prosperidade.

Por mais otimismo que nos queiram vender, o que se constata é que estamos a dar passos curtos num trilho onde precisamos de nos deslocar aceleradamente. E, paradoxalmente, teimamos em debater o acessório, esquecendo o essencial. Quem diria que nas agendas de partidos com assento parlamentar até cabe o serviço nacional de saúde para cães e gatos. Não o temos suficientemente para as pessoas, assistindo diariamente à sua degradação, mas alguém o propõe para os animais. E parece que, obedecendo ao politicamente correto, poucos estarão apostados em denunciar propostas que não passam de aberrações. Mas deixemos o assunto para outras crónicas.

goncalofagundes@gmail.com

MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA: A CASA COMUM DA LUSOFONIA

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  • Crónica de Daniel Bastos

O Museu da Língua Portuguesa, inaugurado em 2006 na megametrópole brasileira de São Paulo, a maior cidade lusófona do mundo, assume-se desde a primeira década do séc. XXI, como a casa comum da vasta comunidade formada por todos os povos e nações que compartilham a cultura e a língua de Camões.

Desde a sua origem, o único Museu de Língua Portuguesa do mundo tem como missão e objetivos valorizar a diversidade da língua portuguesa, celebrá-la como elemento fundamental e fundador da cultura, e aproximá-la dos falantes do idioma em todo o mundo.

Um idioma que é atualmente dos mais falados à escala planetária, abrangendo a língua oficial de Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste, e que desde 2010 foi sancionado como a terceira língua oficial da Guiné Equatorial. Como destacam os organizadores da obra “A Língua Portuguesa no Mundo - Passado, Presente e Futuro”, a língua de Camões ocupa hodiernamente um dos lugares cimeiros na lista dos idiomas que ostentam uma dimensão mundial, assim como um incomensurável potencial de expansão.

As singulares características linguístico-culturais e a diversidade dos públicos-alvo do Museu de Língua Portuguesa, que praticamente numa década recebeu cerca de quatro milhões visitantes, sofreram um duro revés no ocaso do ano de 2015, quando um incêndio de grandes proporções atingiu o edifício do espaço museológico situado no complexo da Estação da Luz.

No entanto, a enorme onda de solidariedade que se gerou a nível mundial, e em particular lusófona, tem permitido desde a fatídica data encetar um processo sustentado de reconstrução, que está a procurar contribuir decisivamente para o alargamento do estudo, preservação, valorização e divulgação da cultura e língua portuguesa.

Estimando a reabertura do Museu de Língua Portuguesa no próximo ano, os responsáveis da sua reconstrução, de acordo com recentes declarações públicas, asseguram que o espaço museológico será modernizado com várias novidades tecnológicas e interativas, mantendo simultaneamente a sala de exposições temporárias, e a icónica Praça da Língua e o Auditório.