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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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AS ORIXES PAGÁS DA NOITE DE SAN XOÁN: UNHA TRADICIÓN ARRAIGADA EN GALÍCIA

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Festa de San Xoán, obra de Jules Breton | Fonte: Wikipedia

A celebración do solsticio de verán en Galicia mantén viva a antiga veneración celta polo triunfo da luz sobre a escuridade.

Por Elena G.Fdz | Santiago de Compostela | 23/06/2024 | Actualizada ás 21:20

Cada 23 de xuño, Galicia vístese de misterio e maxia para celebrar a noite de San Xoán, unha festividade que, aínda que asociada ao cristianismo, ten as súas raíces en antigas crenzas pagás. Esta celebración está impregnada de rituais ancestrais que se remontan a tempos inmemoriais.

UN LEGADO PAGÁN

A noite de San Xoán marca o solsticio de verán, o momento no que o sol alcanza o seu punto máis alto no ceo e o día é máis longo que a noite. Para as antigas culturas celtas que poboaron estas terras, este era un momento de gran importancia, xa que simbolizaba o triunfo da luz sobre a escuridade. Críase que nesta noite máxica, o poder da natureza alcanzaba o seu máximo esplendor e que os espíritos da terra estaban especialmente activos.

OS RITUAIS DE SAN XOÁN

Aínda que a Igrexa católica tentou cristianizar a festividade ao asociala co nacemento de San Xoán Bautista, moitos dos rituais e crenzas pagás perduraron ata os nosos días. Un dos máis populares é o de acender as fogueiras, unha práctica que se remonta á antigüidade e que ten como obxectivo purificar e renovar a enerxía do lugar. En moitas localidades galegas, as fogueiras acéndense nas praias, onde a xente se reúne para saltar sobre o lume e purificarse simbólicamente.

Outro moi coñecido é o das herbas de San Xoán, que consiste en recoller plantas medicinais ao amencer para protexerse de enfermidades e males. Estas herbas, que varían segundo a rexión e os costumes locais, adoitan incluír especies como a ruda, a flor de San Xoán, o loureiro, a verbena, o romeu, a xarxa e o tomiño. Crese que ao lavarse a cara cunha infusión destas herbas pódese eliminar calquera negatividade acumulada e prepararse para recibir as bendicións do novo ciclo solar. Tamén hai persoas que continúan co ritual de bañarse no mar, que se realiza coa esperanza de obter protección e boa sorte para o resto do ano. Dise que a auga de mar na noite de San Xoán ten propiedades curativas e que bañarse nela pode purificar o corpo e o espírito.

Begoña cóntanos unha curiosa tradición que realizaban no seu pobo, San Orente: "Na víspera de San Xoán, pola noite, os mozos da aldea 'roubaban' os carros, portais e ata macetas levábanos ó atrio da igrexa para que ó día seguinte os donos tivesen que ir a buscalos. Era unha noite de travesuras permitidas", explica.

A NOITE DE SAN XOÁN NA ACTUALIDADE

Hoxe en día, a noite de San Xoán segue sendo unha das festividades máis populares e esperadas en Galicia. Miles de persoas acoden ás praias e prazas para gozar das fogueiras, os concertos e a compañía de amigos e familiares. Najwa cóntanos cómo a vai festexar, “irei ó camping ca miña familia, dende que vamos mantemos a tradición que xa tiñamos cando quedabamos na casa de comer sardiñas, pero agora tamén recollemos as herbas de San Xoán o día anterior para lavar a cara pola mañá, e saltamos fogueiras pequeniñas”. Aínda que a maioría da xente xa non cre nos antigos mitos e lendas, a maxia e o misterio desta noite especial seguen atraendo a multitudes de todas partes.

Fonte: Galicia Confidencial

BRAGA ROMANA EVOCA DEUSA NÁBIA

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Nábia, Deusa suprema das águas férteis, deu o ar da sua graça na abertura da XX edição da Braga Romana – Reviver Bracara Augusta, que decorreu esta quarta-feira, na Praça Municipal na presença de várias centenas de crianças. Os aguaceiros sentidos não atrapalharam o momento e Nábia foi homenageada com pétalas de flores de aromas coloridos.

Soberana das terras da Galécia, a deusa tutela com imponência um dos seus povos mais amados, os Brácaros. Com a incursão romana aos seus domínios, Nábia prontamente revela a sua grandiosidade, de tal forma que o rei dos Deuses do Olimpo, apaixona-se por ela.

Num espetáculo vibrante onde a poderosa Deusa é exaltada pelo seu povo mais promissor, as crianças, lançaram as pétalas de flores e ervas de cheiro, perfumando as ruas e praças invocando os bons augúrios e a “fortuna” para um futuro próspero e auspicioso.

Venha daí mais uma edição da Braga Romana.

O programa completo pode ser consultado em https://shre.ink/8TSV

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No princípio era o Caos… entretanto, na ânsia de encontrar uma explicação para os fenómenos da natureza que o rodeiam, o Homem concebeu inúmeras divindades que além de representar os atributos de tais fenómenos passaram ainda a revelar emoções e sentimentos próprios dos humanos uma vez que eram construídos à sua imagem e semelhança.

Entre tais divindades, Nábia foi uma das divindades mais veneradas na faixa ocidental da Península Ibérica ou seja, a área que actualmente corresponde a Portugal e à Galiza, durante o período que antecedeu à ocupação romana. Na mitologia céltica, Nábia, era a deusa dos rios e da água, tendo em sua honra o seu nome sido atribuído a diversos rios como o Navia, na Galiza e o Neiva e o Nabão em Portugal. Inscrições epigráficas como as da Fonte do Ídolo, em Braga e a de Marecos, em Penafiel, atestam-nos a antiga devoção dos nossos ancestrais à deusa Nábia.

Quando ocuparam a Península Ibérica à qual deram o nome de Hispânia, os romanos que à época não se haviam convertido ainda ao Cristianismo, adoptaram as divindades indígenas e ampliaram o seu panteão, apenas convertendo o nome de Nábia para Nabanus, tal como antes haviam feito com os deuses da antiga Grécia.

Qual reminiscência do período visigótico, a crença pagã em Nábia – ou Nabanus – viria a dar origem na famosa lenda de Santa Iria – ou Santa Irene – cujo corpo, após o seu martírio, ficou depositado nas areias do rio Tejo junto às quais se ergueram vários locais de culto, tendo inclusive dado origem a alguns topónimos como a Póvoa de Santa Iria e, com a introdução do Cristianismo, a atribuição do seu nome à antiga Scallabis, a actual cidade de Santarém.

Bem vistas as coisas, são em grande parte do rio Nabão e das suas nascentes as águas que o rio Tejo leva ao Oceano Atlântico, junto a Lisboa, depois daquele as entregar ao rio Zêzere. E, é nas águas cristalinas do rio Nabão que habita a deusa Nábia e nas suas margens que Santa Iria encontrou o eterno repouso

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BRAGA HOMENAGEIA A DEUSA NÁBIA

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Nesta XX edição, a Braga Romana - Reviver Bracara Augusta presta homenagem à Deusa Nábia, divindade indígena do nosso território, possivelmente ligada ao culto das águas.

A cerimónia de abertura invocará este culto que é atestado em Braga pela presença de uma ara votiva encontrada na Fonte do Ídolo.

NABIA, BRACARAE FORTUNA – NÁBIA, A FORTUNA DE BRACARA

22 de maio | 10h30 | Cerimónia de Abertura na Praça Municipa…

A FONTE DO ÍDOLO, EM BRAGA, E O CULTO À DEUSA NÁBIA, A DIVINDADE PAGÃ DO RIO NEIVA

Durante o período que antecedeu à ocupação romana, a deusa Nábia era venerada pelos povos autóctones da Hispânia, designação dada pelos romanos à província que actualmente corresponde nomeadamente a Portugal e Espanha. Entre os vestígios desse culto salienta-se a Fonte do Ídolo, em Braga, com as suas inscrições epigráficas, além do nome atribuído a diversos rios como o Navia, na Galiza e o Neiva e o Nabão em Portugal.

Com a cristianização, o culto pagão a Nábia veio a ser substituído pela devoção a Santa Iria ou Santa Irene. Conta a lenda que Iria – ou Irene – nascera em Nabância, uma villae romana próxima de Sellium, a atual cidade de Tomar. Oriunda de uma família abastada, Iria veio a receber educação esmerada num mosteiro de monjas beneditinas, o qual era governado pelo seu tio, o Abade Sélio.

Dotada de beleza e inteligência, a jovem Iria atraía as atenções sobretudo dos fidalgos que disputavam entre si as suas atenções. Contava-se entre eles o jovem Britaldo que por ela alimentou uma enorme paixão. Contudo, Iria entregava-se a Deus e recusava as suas investidas amorosas.

Roído de ciúmes pela paixão de Britaldo, o monge Remígio que era o diretor espiritual de Iria, deu a beber a Iria uma mistela que lhe provocou no corpo a aparência de gravidez, provocando desse modo a sua expulsão do convento, levando-a a procurar refúgio junto do rio Nabão. Britaldo, a que entretanto chegara os rumores do ocorrido, movido por despeito, ordenou a um servo o seu assassínio.

Atirado ao rio Nabão cujas águas correm para o rio Zêzere, o corpo da mártir Iria ficou depositado nas areias do rio Tejo, aí permanecendo incorruptível para a eternidade, tendo o seu culto sido muito popular sobretudo no período do domínio visigótico.

Do nome de Irene – Santa Iria – tomou a antiga Scallabis romana o nome passando a denominar-se de Sancta Irene, daí derivando a atual designação de Santarém. Da mesma maneira que, para além de assinalar um acidente orográfico, a designação toponímica Cova da Iria deverá ter a sua origem no referido culto a Santa Iria, porventura já sob o rito moçárabe ou seja, cristão sob o domínio muçulmano embora adoptando aspectos da cultura árabe.

A lenda de Santa Iria e o relacionamento com o local onde nascera ou seja, a villaeromana de Nabância, remete-nos ainda para o culto de Nábia, a deusa dos rios e da água, uma das divindades mais veneradas na antiguidade na faixa ocidental da Península Ibérica ou seja, a área que actualmente corresponde a Portugal e à Galiza.

Quando ocuparam a Península Ibérica à qual deram o nome de Hispânia, os romanos que à época não se haviam convertido ainda ao Cristianismo, adotaram as divindades indígenas e ampliaram o seu panteão, apenas convertendo o nome de Nábia para Nabanus, tal como antes haviam feito com os deuses da antiga Grécia.

Qual reminiscência de antigas crenças, o culto pagão à deusa Nábia – ou Nabanus – veio a dar origem à famosa lenda de Santa Iria – ou Santa Irene – cuja festa é bastante celebrada em muitas localidades portuguesas como sucede em Tomar e Ourém.

DIA DA MÃE: DAS ORIGENS PAGÃS AO CULTO CRISTÃO

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Perde-se nos confins dos tempos a tradição de festejar o Dia da Mãe, tal como actualmente o designamos.

Tais celebrações têm a sua origem em ancestrais ritos pagãos destinados a celebrar a fertilidade, associados ao advento da Primavera e, consequentemente, à perpectuação do ininterrupto ciclo de renascimento da vida após a morte. Através do rito, o Homem celebra a acção criadora dos deuses e assegura a sua continuidade como se de um acto de magia se tratasse.

Acredita-se que já na Grécia antiga, a chegada da Primavera era festejada em honra de Rhea, a Mãe dos Deuses. Segundo a Enciclopédia Britânica, “A adoração formal da mãe, com cerimônias para Cibele ou Rhea, a Grande Mãe dos Deuses, era realizada nos idos de março, em toda a Ásia Menor.”.

Ao longo dos séculos, tais celebrações foram-se transformando à medida em que surgiam novas crenças e, sobretudo, novas religiões se edificaram sobre os escombros das antigas. E, quase sempre, entrecruzando-se com sucessos históricos associados às nações onde tais celebrações eram praticadas.

Em Portugal, o Dia da Mãe foi até muito recentemente celebrado no dia 8 de Dezembro, Dia da Imaculada Conceição, coroada rainha de Portugal e festejada como sua padroeira, a quem devemos a bênção da Restauração da Independência de Portugal face ao jugo espanhol.

Actualmente o Dia da Mãe é comemorado no primeiro domingo de Maio – seguindo a tradição da celebração de Santa Maria por parte da Igreja Católica – a que não é alheia a forma como em 13 de Maio se apresentou aos portugueses na Cova da Iria sob a invocação de Nossa Senhora do Rosário de Fátima.

BRAGA FESTEJA O SÃO JOÃO – A FESTA DO SOLSTÍCIO DE VERÃO!

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Aproxima-se o solstício do Verão. Salta-se a fogueira pelo S. João, brinca-se com alcachofras e martelinhos, tréculas e zaquelitraques, canta-se e dança-se. Pela calada da noite, invadem-se os quinteiros, assaltam-se as eiras e roubam-se vasos com plantas, carroças e carros de bois para seguidamente os levar para o centro da povoação. São as festas sãojoaninas, assim designadas em virtude da Igreja Católica ter atribuído a esta data o nascimento de S. João Baptista, uma reminiscência de antiquíssimos rituais pagãos relacionados com o Solstício de Verão e ainda com a adoração do fogo. De resto, o fogo adquiriu desde sempre um carácter sagrado ao ponto de ter sido deificado.

Em Braga, as suas gentes vivem as festas sãojoaninas com particular intensidade. O Barredo e a Ribeira no Porto enchem-se de povo e a alegria e animação dura até tantas da madrugada. Em Lisboa, as festas solsticiais abrangem todo o mês de Junho, associando S. Pedro e S. António aos festejos de S.João. O nascimento de S. António em Lisboa deve ter contribuído para que os festejos lhe tenham sido dedicados, popularizado ao ponto de muitas pessoas pensarem erradamente ser ele o patrono desta cidade.

Desde tempos remotos, o homem celebrava a chegada do Verão acendendo enormes fogueiras, cantando e dançando em seu redor. É a chegada do lume novo, um rito cuja sacralidade original se foi perdendo e que chegou até nós, transmitido de geração em geração, assegurada pela própria tradição.

Entre os gregos e os romanos, competia às Vestais - sacerdotisas dos templos dedicados a Vesta - a tarefa de preservar aceso o fogo sagrado. Entre nós, persiste o costume de acender o lenho na noite de Natal ou na passagem do ano e o círio pela Páscoa. Manda a tradição católica que, à beira da pia batismal, os padrinhos transportam a vela acesa quando o batizado não o pode fazer se ainda for demasiado jovem. Mas, falo-a quando chegar a altura de confirmar o seu batismo cristão. É que o fogo é a luz que nos ilumina e mostra a Verdade e a Vida. É ainda o fogo que nos aquece e afaga a nossa rude existência, elemento purificador que constitui um dos quatro elementos - os outros são a Terra, o Ar e a Água.

Mas o fogo é também festa. Desde a sua descoberta, aprendeu o Homem aprendeu a produzi-lo e manipular ao ponto de conseguir iluminar os céus e a terra com uma verdadeira constelação de alegria, salpicando-o de lágrimas e girândolas de cores e formas variadas, compondo na abóboda celestial um autêntico hino ao Criador. Afinal de contas, foi Ele quem pela primeira vez nos enviou o fogo sob a forma de um raio ou cuspiu das entranhas de um vulcão - eis o gesto primordial da criação que é ritualizado pelo homem desde os tempos em que Adão e Eva foram expulsos do paraíso por um anjo que empunhava uma espada de fogo.

É tempo de proceder à ceifa do trigo, do centeio e da cevada, de sachar o milho, sulfatar a vinha e crestar o mel das colmeias. Mas também é altura de festejar o S. João e saltar a fogueira. Desde o solstício de Verão até ao equinócio do Outono, é tempo de festa, de estúrdia e de arraial. E, a fazer jus à fama da pirotecnia, não há verdadeiramente festa sem o luminoso colorido do fogo-de-artifício e o estardalhaço dos foguetes. O folclore do nosso povo conserva raízes que nos transportam à origem da própria civilização humana.

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O RIO LIMA – LETHES NA MITOLOGIA CLÁSSICA – E A VISÃO MÍTICA DO HADES

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A propósito do Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente

Quando no ano 163 Antes de Cristo, as legiões romanas comandadas por Decimus Julius Brutus chegaram à margem esquerda do rio Lima, elas temeram atravessá-lo por acreditarem tratar-se do mítico rio do esquecimento e, ao transporem-no, esquecerem-se para sempre da sua pátria e de si mesmos. Tal superstição foi desfeita quando o tribuno romano atravessou o rio e, da outra margem, chamou todos os seus soldados pelo seu próprio nome.

O sítio escolhido pelas legiões romanas para atravessar o rio Lima foi naturalmente aquele que entretanto entenderam por mais adequado para construírem a ponte que liga as duas margens, um troço da qual veio a ser reconstruído ao tempo do rei D. Pedro I em virtude de ter sido derrubado pelas fortes correntes.

Foi também o local onde mais tarde veio a nascer a vila de Ponte de Lima – no sítio exacto onde a ponte que servia a estrada militar via XIX que constava do Itinerário de Antonino e que ligava Bracara Augusta (Braga a Astúrica Augusta (Astorga), passando por Lugo e Tui, se cruza com o rio como duas importantes vias de comunicação à época! – e em relação ao qual os romanos baptizaram por Lethes, numa clara alusão ao mítico Lethes, um dos cinco rios que na mitologia grega banhava o Hades, representando a passagem da vida para a morte através de uma barca conduzida por Caronte.

A travessia era paga e, a comprová-lo, as moedas encontradas em muitas sepulturas romanas, colocadas na boca do defunto para garantir o seu pagamento.

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Interpretação do século XIX da travessia do rio Lethes por Caronte, por Alexander Litovchenko.

Segundo a mitologia grega, o rio Lethes era um dos cinco rios que banhava o Hades. A passagem da vida para a morte constituía a travessia feita do rio Lethes – o rio do esquecimento – através de uma barca conduzida por Caronte. Foi aliás, baseado nesta crença que Gil Vicente escreveu os seus autos, mormente o Auto da Barca do Inferno.

Também Dante, na Divina Comédia, na segunda parte da obra dedicada ao Purgatório, descreve o Lethes como um rio de cujas águas os pecadores tinham de beber para apagarem da memória os seus pecados cometidos e, desse modo, entrarem no Paraíso.

Porém, uma das mais conhecidas descrições do Hades e, consequentemente do rio Lethes constitui a versão apresentada pelo poeta épico Homero na Ilíada e na Odisseia.

Como é sabido, os romanos assimilaram a cultura dos gregos, atribuindo novas denominações às suas divindades. Na Grécia antiga, Lethes significava literalmente “esquecimento”, constituindo um dos cinco rios que banhavam o Hades. Os demais eram o Aqueronte (rio da dor), Cocito (lamento), Flegetonte (fogo) e Estige (invulnerabilidade), os quais faziam a fronteira entre os mundos superiores e inferiores. Lete é também uma das náiades, filha da deusa Eris, senhora da discórdia, irmã de Algea, Limos, Horcos e Ponos.

A origem etimológica da palavra Inferno provém do latim infernum ou inferus e que significa literalmente “profundezas”, “lugares baixos”, aludindo a um local de sepultura. O equivalente ao termo hebraico sheol, não existindo nela qualquer indicação de local de fogo e tormento a que os maus estavam condenados. Aliás, tal ideia só veio a ser concebida por associação com a Geena – o vale de Hinom, fora das muralhas de Jerusalém – que era usado como lixeira e onde também eram lançados os cadáveres de pessoas consideradas indignas, sendo utilizado o enxofre para manter o fogo aceso e queimar o lixo. De resto, o termo Geena ocorre doze vezes nas Escrituras Sagradas, tendo Jesus usado o vale de Hinom para representar a destruição eterna.

Em Lucas (12:5), o evangelista refere-se à Geena com as seguintes palavras: “Mas, eu vos indicarei quem é para temer: Temei aquele que, depois de matar, tem autoridade para lançar na Geena. Sim, eu vos digo temei a Este”. E assim surgiu o Inferno como um local de padecimento!

Para trás ficou – qual rio do Esquecimento! – a crença no mítico rio Lethes que, séculos após a chegada das legiões romanas, passou a ser local de atravessamento de milhares de peregrinos, através da ponte que os romanos ali ergueram, com destino a Compostela para ali venerarem o apóstolo São Tiago Maior que, depois de ter andado pelo Minho – Braga, Guimarães e Rates – a tentar converter os pagãos, veio mais tarde segundo a tradição cristã a ser sepultado no local onde entretanto foi erguida a monumental catedral na Galiza.

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António Feijó

Também designado de Belion e pelo historiador e geógrafo grego Estrabão identificado como o mítico Lethes, o rio Lima continua a ser cantado pelos poetas, tendo em António Feijó porventura um dos seus maiores bardos:

 

Nasci á beira do Rio Lima,

Rio saudoso, todo crystal;

D'ahi a angustia que me victima,

D'ahi deriva todo o meu mal.

 

É que nas terras que tenho visto,

por toda a parte por onde andei,

Nunca achei nada mais imprevisto,

Terra mais linda nunca encontrei.

 

São águas claras sempre cantando,

Verdes colinas, alvôr d'areia,

Brancas ermidas, fontes chorando

Na tremulina da lua - cheia...

JORNAL INGLÊS “THE TELEGRAPH” DESTACA O MINHO NA SUA EDIÇÃO DO ...

OS RITOS PASCAIS NA GASTRONOMIA PORTUGUESA

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O cabrito assado no forno constitui uma das especialidades da nossa cozinha tradicional que marca invariavelmente presença nas mesas dos portugueses por ocasião do domingo de Páscoa. A origem de tal costume perde-se nos tempos e possui as suas raízes em ancestrais hábitos pagãos, trazidos até nós através das influências judaicas e muçulmana.

Ultrapassado o período de abstinência alimentar e penitência da quaresma, eis que se celebra a chegada da Primavera e, com ela, o renascimento da vida e da natureza. Para os cristãos, a Ressurreição de Jesus Cristo, na senda do Pessach, a Páscoa judaica, instituída na noite em que ocorreu o Êxodo do Egito e celebrada na Lua Cheia, no final do dia 14 do mês de Abibe; aproximadamente no ano de 1445 a.C.

Segundo o relato bíblico (Êxodo 12.12.13), Yahweh terá transmitido a Moisés: “E eu passarei pela terra do Egito esta noite e ferirei todo primogênito na terra do Egito, desde os homens até os animais; e sobre todos os deuses do Egito farei juízos. Eu sou Yahweh. E aquele sangue vos será por sinal nas casas em que estiverdes: vendo eu sangue, passarei por cima de vós, e não haverá entre vós praga de mortandade, quando eu ferir a terra do Egito”. A partir de então, passaram os judeus a celebrar a Festa do Cordeiro Pascal em memória do ocorrido. Não obstante, a tradição possuía origens bem mais remotas, sendo praticada ao tempo em que a maioria dos judeus eram pastores nómadas do deserto e celebravam a chegada da Primavera com o sacrifício de um animal.

Desde tempos imemoriais, a noção de sacrifício encontra-se associada à de dádiva a um ou vários deuses, podendo esta assumir as formas mais variadas. O cumprimento de uma promessa a um santo da devoção vem dentro da mesma linha de adoração com que os povos ancestrais sacrificavam um animal a fim de obter os favores divinos. Entre tais graças que se desejam obter encontram-se naturalmente a cura de certos males do foro físico ou psíquico e a expiação das culpas ou pecados, no entendimento de que o elemento físico e o espiritual não se encontram dissociados e constituem uma única dimensão. Por conseguinte, o sacrifício do animal, para judeus e cristãos representado no cordeiro pascal, mais não representa do que um ritual de expiação e de renascimento a que não é alheia o reinício do ciclo da natureza.

Cumprindo as profecias bíblicas, Jesus terá celebrado juntamente com seus discípulos a Última Ceia no dia 14 de Nisã, precisamente o dia em que os judeus imolavam o cordeiro pascal. E, desse modo, qual “cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo”, se ofereceu para ser crucificado e, pelo seu sacrifício, redimir os pecados dos homens.

Também os muçulmanos sacrificam os animais naquela que é considerada uma das mais importantes festas do islão – o Eid al-Adha ou Festa do Sacrifício. Esta celebração marca o fim do Ramadão e pretende evocar a disposição do profeta Abraão em sacrificar o seu filho Ismail em obediência a Deus, tendo Allah providenciado um cordeiro em sua substituição.

Em Portugal e, de uma maneira geral em todo o ocidente cristão, a Páscoa celebra-se no primeiro domingo de lua cheia imediatamente após ao equinócio da Primavera, variando portanto entre os dias 22 de março e 25 de abril, tendo a data sido fixada aquando do Primeiro Concílio de Nicéia ocorrido no ano 325 da Era Cristã. Também entre nós, por ocasião da Páscoa, é costume no domingo – dies Dominicus que significa dia do Senhor – sacrificarmos o cabrito ou o borrego no altar da deusa Abundantia que, com sua cornucópia, espalha os alimentos que a terra fértil generosamente providencia. Trata-se de um costume ao qual não é certamente alheia também as influências judaicas e muçulmana que marcam simultaneamente a nossa identidade cultural.

O pão-de-ló e os tradicionais folares, os ovos e as amêndoas assemelhando-se a pequenos ovinhos constituem apenas algumas das iguarias consumidas durante o período pascal ligados a ritos de fertilidade associados ao início da Primavera.

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O MINHO TRAZ “MACAU NO CORAÇÃO” – FOTOS DE ANA MANHAO SOU

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O Grupo “Macau no Coração” participa nas festividades do Ano Novo Chinês, trajando à vianesa com os vermelhinhos da Areosa – cor que segundo a tradição chinesa representa a felicidade. Com efeito, O vermelho – símbolo da felicidade, da fortuna e da alegria na cultura chinesa – constituiu a cor predominante, quer nos trajes tradicionais chineses como ainda nos trajes à vianesa que os minhotos.

O Ano Novo Chinês, também conhecido como Festival da Primavera, é a festa mais importante da cultura chinesa. Celebra-se anualmente segundo o calendário lunar, geralmente entre janeiro e fevereiro. As comemorações são marcadas por uma série de tradições e rituais milenares, duram cerca de duas semanas e ocorrem um pouco por todo o mundo.

O primeiro dia do calendário chinês recaiu este ano a 10 de Fevereiro, sendo o Dragão de Ouro o animal do zodíaco cuja energia vai prevalecer ao longo deste ano.

O calendário chinês rege-se pelos ciclos lunares em conjugação com a posição do sol, iniciando-se na noite de lua nova mais próxima do dia em que o sol passa pelo décimo grau de Aquário. As representações dos doze animais do horóscopo a que correspondem os anos no calendário chinês possuem a sua origem na lenda segundo a qual, os doze animais se apresentaram a Buda, correspondendo ao seu chamamento.

Fotos: Ana Manhao Sou

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NABIA: A DEUSA PAGÃ DO RIO NEIVA NO MINHO, NAVIA NA GALIZA E NABÃO NO RIBATEJO – E A LENDA DE SANTA IRIA OU SANTA IRENE

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No princípio era o Caos… entretanto, na ânsia de encontrar uma explicação para os fenómenos da natureza que o rodeiam, o Homem concebeu inúmeras divindades que além de representar os atributos de tais fenómenos passaram ainda a revelar emoções e sentimentos próprios dos humanos uma vez que eram construídos à sua imagem e semelhança.

Entre tais divindades, Nábia foi uma das divindades mais veneradas na faixa ocidental da Península Ibérica ou seja, a área que actualmente corresponde a Portugal e à Galiza, durante o período que antecedeu à ocupação romana. Na mitologia céltica, Nábia, era a deusa dos rios e da água, tendo em sua honra o seu nome sido atribuído a diversos rios como o Navia, na Galiza e o Neiva e o Nabão em Portugal. Inscrições epigráficas como as da Fonte do Ídolo, em Braga e a de Marecos, em Penafiel, atestam-nos a antiga devoção dos nossos ancestrais à deusa Nábia.

Quando ocuparam a Península Ibérica à qual deram o nome de Hispânia, os romanos que à época não se haviam convertido ainda ao Cristianismo, adoptaram as divindades indígenas e ampliaram o seu panteão, apenas convertendo o nome de Nábia para Nabanus, tal como antes haviam feito com os deuses da antiga Grécia.

Qual reminiscência do período visigótico, a crença pagã em Nábia – ou Nabanus – viria a dar origem na famosa lenda de Santa Iria – ou Santa Irene – cujo corpo, após o seu martírio, ficou depositado nas areias do rio Tejo junto às quais se ergueram vários locais de culto, tendo inclusive dado origem a alguns topónimos como a Póvoa de Santa Iria e, com a introdução do Cristianismo, a atribuição do seu nome à antiga Scallabis, a actual cidade de Santarém.

Bem vistas as coisas, são em grande parte do rio Nabão e das suas nascentes as águas que o rio Tejo leva ao Oceano Atlântico, junto a Lisboa, depois daquele as entregar ao rio Zêzere. E, é nas águas cristalinas do rio Nabão que habita a deusa Nábia e nas suas margens que Santa Iria encontrou o eterno repouso.

RITOS DO ENTRUDO EXORCIZAM DEMÓNIOS DO INVERNO – CARNAVAL JÁ VEM A CAMINHO!

Entrudo e carnaval – dos ancestrais ritos pagãos à observação do período quaresmal

O termo Carnaval provém do latim "carpem levare" que significa "adeus carne" ou "retirar a carne" ou ainda estar associado a curru navalis que consistia num carro de rodas marítimo que saía para o mar e significava o retorno à pesca com a chegada da Primavera. Trata-se com efeito de um período de licenciosidade em que, por oposição à Quaresma se come carne, constituindo por assim dizer uma época festiva que se destina simultaneamente a ritualizar a despedida do ano velho e, por conseguinte, o entrudus ou entrada da Primavera e no período quaresmal que a antecede.

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Com a chegada do Inverno e a consequente morte dos vegetais e da própria natureza, o homem recorre preferencialmente ao consumo da carne como forma de assegurar meios de sobrevivência. Desde sempre, o porco representou um elemento essencial na economia familiar nos meios rurais uma vez que a sua carne pode ser conservada na salgadeira durante muito tempo, o que permite suprir a escassez de outro género de alimentos como os vegetais que geralmente desaparecem durante o Inverno. E é durante este período que ocorrem um pouco por todo o lado as tradicionais matanças do porco num ritual com um certo carácter festivo. E, continua a ser o porco o animal que entra preferencialmente na simbologia do Carnaval, não raras as vezes associando-se o respetivo focinho às máscaras carnavalescas.

Desde os tempos mais remotos, os povos sempre ritualizam a entrada do ano ou seja, a chegada da Primavera e o renascimento da natureza, acreditando que dessa forma esta lhes seria favorável. Com efeito, para o homem primitivo a celebração do ritual correspondia a uma forma de participação na ação criadora dos deuses, assegurando-se desse modo que o ciclo da natureza não seria interrompido, o que confere ao rito um carácter de magia imprescindível à reprodução do gesto primordial ou seja, o da própria criação do mundo e das coisas. O rito é, por assim dizer a celebração do mito da criação, assumindo sempre a sacralidade imanente ao ato da criação divina. Assim se verifica com as práticas relacionadas com o culto dos mortos que ocorre invariavelmente com a chegada do Inverno e também com as celebrações do nascimento do sol que se verifica no solstício de Dezembro, altura em que os dias cessam de diminuir e voltam a crescer, ocasião essa que dava lugar às saturnais entre os romanos e com a influência do cristianismo veio a originar a celebração do Natal de Jesus Cristo, embora não existam quaisquer documentos que indiquem ter sido essa a sua data de nascimento. Ora, é diretamente das saturnais romanas que provêm diretamente os festejos de Carnaval os quais eram consagrados à divindade egípcia Ísis, embora estes a tenham adquirido dos gregos que as realizavam em honra de Dionísios, um deus do vinho e dos prazeres da carne. Em Veneza onde as máscaras brancas ainda pontificam, o Carnaval terminava com o enterro de Baco, curiosamente, a divindade que na mitologia latina corresponde à de Dionísios na Grécia antiga.

O uso de máscaras que ocorre durante os festejos de Carnaval tem na sua origem um carácter religioso relacionado ainda com o culto dos mortos, pretendendo-se com a sua antropomorfização invocar os seus espíritos e a sua intercessão no ciclo ininterrupto de vida e morte da própria natureza e dos vegetais, razão pela qual muitos mascarados se vestem de branco, afivelam máscaras que representam esqueletos ou simplesmente a própria morte. Acendiam-se fogueiras e queimavam-se bonecos, costume aliás que de igual modo deve estar na origem da serração da velha, a qual também nos aparece sob a forma de pulhas e ainda na versão mais cristianizada da queima do Judas. É neste contexto ainda que se inserem as tradicionais máscaras transmontanas e as festas dos rapazes que ali têm lugar.

Com o decorrer dos tempos, estas festividades também adquiriram um carácter de crítica social, visando com ele corrigir os desvios verificados no ano velho de modo ao renascimento da natureza também se operar no indivíduo e no seio da própria sociedade, o que explica as pulhas e os "testamentos" que são lidos na serração da velha e na queima do judas, bem assim como as máscaras que procuram representar alguém sem ser a própria morte. Aliás, na tragédia grega a máscara que era usada significava precisamente a "pessoa" que se representava.

Resultante da combinação entre a cultura europeia predominantemente portuguesa e as culturas africanas e indígenas, o Carnaval adquiriu no Brasil alguns aspetos diferenciados a que não são alheias as condições climáticas e as diferentes influências que se verificam nas diversas regiões como sucede com o Carnaval da Baía em relação ao de São Paulo e do Rio de Janeiro. Por conseguinte, a transplantação do Carnaval brasileiro para Portugal afigura-se a todos os títulos desajustada como ridícula, apenas justificável por motivos comerciais. Aliás, da mesma forma que sucede em relação ao haloween, costume que se insere no culto dos mortos e foi levado para o continente americano pelos colonos europeus e que agora regressa sob a forma de mercadoria.

Perdida que foi a sacralidade primitiva, os festejos chegam até nós pela tradição, despojados de espiritualidade, apenas envoltos em fantasia e divertimento, mas contendo ainda em si os elementos que o determinaram. Com efeito, o Carnaval ou "festa da carne" antecede a Quaresma, para os muçulmanos o Ramadão, período de abstinência que se destina à purificação do corpo e da alma e que visa preparar-nos para o renascimento da vida e da natureza, o ano que começa com a chegada da Primavera.

E é então que tem lugar a Serração da Velha e o rapazio percorre os caminhos das aldeias com zambumbas e zaquelitraques, tréculas, sarroncas e tudo quanto produza barulho e que se destina a afugentar os demónios do Inverno. Práticas, aliás, que também ocorrem consoante os casos no Carnaval e na passagem de ano, na noite de Natal ou durante os Reis. Para trás ficou a longa noite do Inverno repleta de visões e fantasmas aterrorizantes com abóboras iluminadas nas encruzilhadas dos caminhos e reuniões de bruxas sob as pontes e nos cabeços dos montes, os peditórios de "pão por Deus" e as visitas aos cemitérios, a queima do madeiro e o cantar das almas.

É então chegada a Primavera e com ela as festas equinociais. É tempo de renascimento da vida e da própria natureza, celebrado entre os cristãos como a ressurreição de Cristo e representada através do ovo da Páscoa, símbolo da fertilidade e do nascimento da vida nova. Entre muitos povos europeus mantém-se o costume de enterrar ovos nos campos que servem de divertimento ao rapazio que se entretém à procura enquanto a nossa gastronomia conserva a tradição do folar. Ao toque das sinetas e ribombar dos foguetes, os mordomos aperaltados nas suas opas vermelhas levam a cruz florida a beijar de casa em casa enquanto os caminhos se enchem de alecrim, funcho e rosmaninho - é o compasso pascal, a forma como a festa é vivida nas aldeias de Entre-o-Douro-e-Minho e também em Trás-os-Montes.

Em breve virá o Maio e, com ele, as maias feitas de giestas floridas, a celebração do Corpus Christi, das festas do Espírito Santo em Tomar e nos Açores, as fogaceiras em terras da Feira e as festas e romarias que animam as pequenas comunidades rurais, as peregrinações aos pequenos santuários e ermidas que salpicam montes e vales e que servem de pretexto para mais uma festa. As gentes do mar adornam os seus barcos e vão em colorida procissão dar graças pelo pão que o mar lhes dá e invocar a protecção que lhes vale na aflição.

A seu tempo chegarão as colheitas e as malhadas, as vindimas e as adiafas, o S. Miguel e as desfolhadas que nalgumas regiões também se dizem descamisadas. E, de novo, reiniciar-se-á o ciclo da vida e da morte que assim permanece desde a criação do mundo, como um carrossel num movimento incessante.

Na religião primitiva, o Homem unia a morte à vida como uma constante de perpétuo renascimento. Tal como na natureza ao Inverno sucede a Primavera e com ela o renascimento da vida e dos vegetais, a vida renasce da morte da mesma forma que esta resulta da própria vida. Esta forma de pensamento reside, aliás, encontrar na filosofia platónica e em culturas mais recentes, ainda que sob as formas mais diversas. A tradição trouxe até nós tais práticas que passaram a fazer parte do nosso folclore.

Pese embora as transformações culturais e as modificações que entretanto se operaram na mentalidade dos povos, as mudanças sociais e de modos de vida cada vez mais divorciada da própria natureza, cumpre-nos manter tais costumes como forma de preservar a nossa identidade e, o que nos parece essencial, a nossa própria dimensão humana. Graças à tradição conseguiremos transmitir aos vindouros o conhecimento humano que os nossos ancestrais nos legaram!

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O Xé-xé era a figura mais típica do carnaval de antigamente

JANEIRO EVOCA O DEUS JANO

Festejos de 1 de janeiro evocam Jano, divindade pagã que representava os portões e os começos

Corria o ano 46 antes da Era Cristã quando o ditador romano Júlio César decretou o dia 1 de janeiro como o dia de Ano Novo, consagrando os romanos o mês de janeiro a Jano, deus dos portões e dos começos, daí derivando a designação do mês de janeiro que perdura até aos nossos dias.

Jano é representado com duas faces, uma das quais olhando o passado e a outra voltada para o futuro.

A celebração deste dia ocorre geralmente entre todos os povos que possuem um calendário anual, podendo no entanto o mesmo ser celebrado em ocasiões diversas em consequência das diferenças existentes entre os calendários nas várias culturas.

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NATALE SOLIS INVICTI OU O SOLSTÍCIO DO INVERNO – AS SATURNAIS ROMANAS E O NATAL CRISTÃO

Todo o mundo cristão celebra por esta altura o nascimento de Jesus, não obstante desconhecerem-se quaisquer referências históricas ou bíblicas que mencionem a data em que tal acontecimento se verificou. Por conseguinte, o Natal é festejado a 25 de Dezembro ou a 7 de Janeiro de acordo com as tradições católica ou ortodoxa, em virtude da adopção dos calendários juliano ou gregoriano. Ora, é nesta ocasião que ocorre o solstício do inverno ou nascimento do sol, precisamente a altura em que os raios solares deixam de decrescer e passam de a aumentar, fazendo de novo crescer os dias em relação às noites.

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Desde a mais remota antiguidade que o ser humano adorou o sol, deusificando-o e atribuindo-lhe a primazia sobre as demais divindades. Tal sucedeu na Caldeia, na Palestina e no Egipto, aqui adorado sob o nome de Ra. Na antiga Pérsia e na Índia, o deus Sol era designado por Mitra tendo o seu culto dado origem ao mitraísmo que viria mais tarde a rivalizar com o cristianismo a sua influência no Império romano, acabando por vir a sucumbir com a sua queda e mais tarde acabando por desaparecer por completo com o avanço do islamismo na Pérsia. Antes, porém, o mitraísmo fora assimilado pelos gregos e espalhou-se por todo o Império romano. O deus Mitra era geralmente representado por um jovem com um boné frígio, túnica e manto sobre o ombro esquerdo. Esta religião era superiormente dirigida por um sumo pontífice a os seus sacerdotes ostentavam sobre a cabeça uma mitra. Curiosamente, trata-se do chapéu com que os bispos se apresentam quando envergam as vestes pontificais, tendo a sua origem na Pérsia e no Egipto, correspondendo ao turbante e por conseguinte aludindo à adoração de Mitra.

Não admira, pois, que ao culto solar tenha sido sobreposta a adoração ao menino Jesus, sendo-lhe atribuída a data do seu nascimento precisamente numa altura em que os romanos celebravam o natale solis invicti consagrado ao deus Sol, à semelhança do que se verifica com inúmeras festividades pagãs que foram de algum modo adaptadas e "convertidas" à crença cristã. Na mesma ocasião realizavam os romanos as saturnais ou saturnálias que, como o próprio nome indica, eram festividades consagradas a Saturno, trocavam de presentes e organizavam um banquete público, aspectos que de alguma forma podemos relacionar com as tradicionais “festas dos rapazes” em várias localidades de Trás-os-Montes. Aliás, o culto a Saturno chegou a ser muito difundido na Península Ibérica, tendo diversos escritores da antiguidade referido-se à existência de santuários entre os quais se supõe ter havido um na Ínsua do rio Minho, um local onde actualmente as gentes locais vão em peregrinação ao Senhor Jesus dos Mareantes, fazendo festa rija em Agosto. Saturno era o deus protector dos semeadores e das sementes, pelo que os romanos acreditavam que durante as saturnais regressava a abundância, assegurando a fertilidade durante essa época do ano.

Ainda em relação ao mitraísmo, também este possuía extraordinárias semelhanças com o cristianismo, entre as quais a crença no céu e no inferno, na ressurreição, nos pastores que tal como os reis magos ofereciam presentes, no dilúvio, na santificação do domingo, na prática da confissão e da comunhão e, finalmente, a própria celebração do 25 de Dezembro!

A celebração do nascimento de Jesus constitui actualmente uma festa que é vivida com grande grande intensidade pelo povo português e que, apesar da sua significação profundamente religiosa, também não escapa às regras de funcionamento de uma sociedade mercantilizada, virada cada vez mais para os interesses materiais em detrimento dos valores espirituais. Não obstante, as festividades da quadra natalícia encontram-se profundamente enraizadas no nosso folclore revelando-se através das mais diversas manifestações de cariz popular, na gastronomia, na música, nas lendas e de um modo geral em todos os aspectos que envolvem tais celebrações. Não obstante, temos principalmente nos últimos tempos vindo a constatar que tradições oriundas de outros países têm vindo a substituir alguns costumes genuínos do nosso povo, como sucede com a reverência ao "Pai Natal", agora destituído para dar lugar a S. Nicolau, quando outrora as festividades decorriam exclusivamente em torno do "menino Jesus". Da mesma forma que o tradicional presépio cedeu o lugar ao nórdico pinheiro de Natal enfeitado com flocos de neve, mesmo em locais onde jamais nevou...

AS ORIGENS NÓRDICAS DO PAI NATAL – SÃO NICOLAU OU A VERSÃO CRISTIANIZADA DE ODIN

Odin, rei do Asgard na mitologia nórdica, é para os povos escandinavos o mesmo que Zeus e Júpiter foram respetivamente para os gregos e os romanos. Quando não habita o seu palácio dourado – o Gladsheim – Odin ou Woden encontra-se no Valhala que é o “salão dos mortos”, entre os heróis e onde pontificam as formosas valquírias a quem compete manter permanentemente cheios os vasos de bebida que são feitos de chifre. É ainda às valquírias que compete eleger os heróis e decidir a sua sorte no campo de batalha, quem haverá de morrer e, finalmente, conduzir os bravos ao Valhala. “Val” significa morto.

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A gravura é uma representação de Odin, divindade da mitologia nórdica da qual se originou a figura do “Pai Natal”.

Por seu turno, Odin possui como companheiros inseparáveis dois corvos - Hugin e Munin - que representam respetivamente o Pensamento e a Memória, os quais voam diariamente através do mundo para lhe levarem as notícias acerca dos atos cometidos pelos humanos. Uma vez convenientemente informado pelos seus corvos, Odin parte num trenó puxado por renas levando consigo presentes com que irá recompensar as boas ações praticadas ao longo do ano. Eis o mito que verdadeiramente se encontra na origem da fabulosa crença do “Pai Natal”, séculos mais tarde adaptado pelo Cristianismo, com a substituição de Odin por um corpulento bispo que também distribuía presentes - São Nicolau de Bari, Bispo de Mira. Em qualquer dos casos, trata-se de um enxerto efetuado na nossa cultura cujas tradições, durante séculos, apenas conheceram a veneração ao "menino Jesus".

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Nicolau de Bari procurou cristianizar uma tradição pagã de origem nórdica, a qual não possui quaisquer raízes bíblicas.

São Nicolau nasceu por volta do ano 260 na cidade portuária de Patara, atual Turquia e falava grego. Atualmente é celebrado como Santo padroeiro de Rússia, Grécia e Noruega, patrono das cidades de Moscovo e Amesterdão.

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AS ORIGENS PAGÃS DO BOLO-REI

À semelhança do que sucede com a generalidade dos costumes actuais, perde-se no tempo a verdadeira origem do bolo-rei, da mesma forma que também este apresenta formas e designações variadas consoante as culturas. Assim, em Inglaterra mantém-se a tradição de comer e efectuar corridas com panquecas por ocasião da Terça-feira Gorda. Tratam-se, na realidade, de festividades de origem pagã que se encontram ligadas a rituais de fertilidade que outrora se realizavam por ocasião do Entrudo e visavam preparar a chegada da Primavera e, como ela, o renascimento dos vegetais.

Bolo-Rei

A própria designação de Terça-feira Gorda remete-nos para o antigo costume de fazer desfilar pela cidade um boi gordo antes de sacrificá-lo, prática cujas reminiscências ainda se preservam nomeadamente através das largadas de touros e na corrida da Vaca das Cordas. Da mesma forma que nos festejos carnavalescos se preserva a figura do respectivo Rei que cabia outrora àquele que no bolo encontrasse a fava ou o feijão dourado, sendo como tal tratado durante o ano inteiro.

Por seu turno, os romanos introduziram tal prática por ocasião das saturnais que eram as festividades que se realizavam em 25 de Dezembro, em celebração do solstício de Inverno, também eles elegendo um rei da festa escolhido á sorte pelo método da fava. À semelhança do que se verifica com a Coroa do Advento, a sua forma circular remete para antigos ritos solares perfeitamente enquadrados nas festividades solsticiais e nas saturnais romanas.

Com vista à conversão dos povos do Império Romano que preservavam em geral as suas crenças pagãs, o Cristianismo passou a identificar o “bolo-rei” com a celebração da Epifania e, consequentemente, aos Reis Magos. E, assim, aos seus enfeites e condimentos passaram a associar-se as prendas simbólicas oferecidas ao Messias ou seja, a côdea, as frutas secas e cristalizadas e o aroma significam respectivamente o ouro, a mirra e o incenso. Apesar disso e atendendo a que eram três os reis magos, esta iguaria não passou a ser identificada como “bolo dos reis”, conservando apenas a sua designação como “bolo-rei” ou seja, contrariando a sua própria conversão.

Durante a Idade Média, este costume enraizou-se na Europa devido à influência da Igreja a tal ponto que passou a ser celebrado na própria corte dos reis de França e a ser conhecido como Gâteau des Rois. Porém, com a revolução francesa, o mesmo veio a ser proibido em virtude da sua alusão á figura real, o mesmo tendo sucedido entre nós, imediatamente após a instauração da República, tendo alguns republicanos passado a designá-lo por “bolo-presidente” e até “bolo Arriaga”, em homenagem ao então Presidente da República.

Quanto aos seus condimentos e método de confecção, é usual associar-se à tradição da pastelaria francesa a sul do Loire, o que parece corroborar com a informação de que foi a Confeitaria Nacional a primeira casa que em Portugal produziu e vendeu o bolo-rei a partir de uma receita trazida de França, por volta de 1870. Resta-nos saber, até que ponto, também esta não terá buscado inspiração no tradicional bolo inglês.

Com a aproximação da Páscoa associada à chegada da Primavera e, com ela, o renascimento da Vida, o tradicional folar não trará favas escondidas no seu interior mas ovos que simbolizarão a fertilidade, de novo a evocar ritos ancestrais a um tempo anterior à nossa conversão ao Cristianismo. 

- GOMES, Carlos. http://www.folclore-online.com/index.html

Foto: http://www.panike.pt/outros_produtos/

ESPOSENDE VAI CUMPRIR A TRADIÇÃO DO “BANHO SANTO” NA ROMARIA DE SÃO BARTOLOMEU DO MAR NO PRÓXIMO DIA 24 DE AGOSTO

Tradição única no Minho e em Portugal

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É de origem remota a tradição do Banho Santo que se celebra na Romaria de São Bartolomeu do Mar, no concelho de Esposende, que a cada ano atrai maior número de visitantes àquela localidade minhota plena de tradições.

A romaria de São Bartolomeu do Mar aparece documentada desde o século XVI, muito embora evidencie marcas de ancestralidade, devendo muito provavelmente ter tido a sua origem nalgum culto a uma divindade numa época anterior à cristianização dos povos peninsulares. De resto, a associação do cão à representação do diabo remete-nos para a figura do cão tricéfalo guardião do Hades que nos é descrita pela mitologia clássica.

Com efeito, tudo leva a crer que estas práticas têm a sua origem mais remota nos ancestrais cultos pagãos em louvor das ninfas e outras divindades pré-romanas das águas ou ainda em rituais dedicados à deusa grega Ártemis – Diana na mitologia romana – cujos templos situavam-se geralmente junto a cursos de água. Ou ainda a Alfeu – deus do rio e filho de Oceano na mitologia grega – e a Posídon – Neputno, deus do mar na mitologia romana.

A tradição do Banho Santo ligado a rituais de purificação que têm na água a sua função primordial, é porventura aquela que confere maior significado a estas festividades e muito provavelmente a que se encontra nas suas origens mais remotas. De resto, a água está associada aos ritos do baptismo e às peregrinações a Santiago de Compostela. Mantido ao longo dos tempos pela devoção popular, tais práticas foram sujeitas a perseguições desde o século IV à época do imperador Diocleciano até à Idade Média. Acabariam, porém, por serem aceites pelo Cristianismo.

À semelhança de outras festas cíclicas, os rituais do Banho Santo tendo por objecto a purificação e preservação da saúde de pessoas ou animais levados pelos pastores, predominam em regra no meio rural, junto ao mar, a rios ou outros cursos de água. Para além da tradição em São Bartolomeu do Mar, no concelho de Esposende, temos ainda entre nós o “Banho da Degola” em louvor de São João da Degola que se realiza em Vila Real de Santo António, em Lagos, na serra de Monchique e os banhos de ano novo em Carcavelos e noutras localidades.

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Com o decorrer do tempo, é possível que tenham ocorrido influências de várias culturas relacionadas com a presença de comunidades religiosas distintas, originando mesmo um certo sincretismo. É o que se verifica nomeadamente com o ritual de exorcização com recurso à galinha preta que muito provavelmente terá sido originado de uma influência mais tardia, muito provavelmente de raiz judaica.

Quando em 1496, o rei D. Manuel ordenou a conversão dos judeus ao Cristianismo sob pena de expulsão, existia em Barcelos uma comunidade judaica, à semelhança aliás do que sucedia noutras localidades minhotas como Braga, Viana do Castelo e Ponte de Lima. Refira-se que, à altura, o território que atualmente faz parte do concelho de Esposende era parte do termo de Barcelos, apenas tendo sido elevado à categoria de município com a atribuição do foral pelo rei D. Sebastião em 19 de agosto de 1572. Terão então os judeus conversos ou seja, os cristãos-novos que habitavam a região, adaptado a sua prática religiosa às que eram geralmente mantidas pela Igreja Católica a fim de serem tolerados no seio das comunidades locais, atitude aliás comum à generalidade dos judeus que permaneceram no país.

O Yom Kippur constitui uma das festividades mais importantes e solenes do judaísmo, destinada ao arrependimento e ao pedido de perdão, correspondendo ao Ano Novo no calendário hebraico (Rosh Hashana) e coincidindo geralmente com os meses de setembro ou outubro do calendário cristão. Nos dias que antecedem o Yom Kippur, praticam os judeus um ritual de expiação dos pecados (Kaparot) que culmina na matança de milhares de galos e galinhas, preferencialmente de cor branca como símbolo de purificação. O ritual propriamente dito consiste em elevar o animal sobre as suas próprias cabeças, dando com eles três voltas enquanto murmuram :“Esta é minha mudança, este é meu substituto, esta é minha expiação”, sendo de seguida degolado com recurso a faca de lâmina rigorosamente afiada, cumprindo-se desta forma o sacrifício.

Com efeito, para além das semelhanças existentes, a altura do ano em que os judeus praticam o Kaparot é praticamente coincidente com a realização da romaria de São Bartolomeu do Mar, da mesma forma que se constata terem os primeiros registos desta festividade surgido pouco tempo decorrido após o início da conversão forçada dos judeus ordenada pelo rei D. Manuel I, fatos que nos levam a acreditar na possível relação entre ambas as tradições.

Os romeiros levam os filhos transportando consigo ao colo uma galinha preta, dando três voltas em redor da capela antes de nela entrarem procederem á oferenda sacrificial, após o que colocam na cabeça a imagem de São Bartolomeu. Uma vez cumprido o ritual, encaminham-se para a praia onde terá lugar o “banho santo” das crianças nas águas gélidas e purificadoras do mar – aonde o diabo regressará ao anoitecer – que, com a ajuda do sargaceiro, é imersa por diversas vezes, contadas as ondas sempre em número ímpar.

Todos os anos, por ocasião da festa litúrgica a São Bartolomeu que se celebra a 24 de agosto, vão as gentes Esposende em romaria à igreja do santo padroeiro da freguesia de Mar – São Bartolomeu do Mar – para invocar a sua proteção contra o medo e outros males atribuídos ao diabo como a epilepsia e a gaguez. Reza a lenda que, nesse dia, São Bartolomeu solta o diabo que durante o resto do ano traz preso, simbolizado num cão que mantém com uma trela.

Fotos: Alfredo Cunha / Arquivo Municipal de Lisboa

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Banho Santo (1995). Foto de Cristina Garcia Rodero

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Banho Santo (1953). Foto de Artur Pastor

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A tradição do Banho Santo foi notícia no Diário de Notícias em 28 de Agosto de 1982.

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A tradição do Banho Santo foi notícia no Jornal de Notícias em 23 de Agosto de 1992.

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Banho Santo (1953). Foto de Artur Pastor

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Banho Santo (1976). Foto de Josef Kouldelka

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Centenas de pessoas deslocam-se em peregrinação a S. Bartolomeu do Mar (Esposende), na crença de curar os diversos males através do banho santo.

Texto: Silva, Paula / Fotografia: Leal António

Fonte: O Diário. 26 de Agosto de 1989

ESPOSENDE: TODOS OS CAMINHOS VÃO DAR À ROMARIA DE SÃO BARTOLOMEU DO MAR QUE SE REALIZA DE 15 A 24 DE AGOSTO!

Tradicional Banho Santo realiza-se no dia 24 de Agosto durante a manhã

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É de origem remota a tradição do Banho Santo que se celebra na Romaria de São Bartolomeu do Mar, no concelho de Esposende, que a cada ano atrai maior número de visitantes àquela localidade minhota plena de tradições.

A romaria de São Bartolomeu do Mar aparece documentada desde o século XVI, muito embora evidencie marcas de ancestralidade, devendo muito provavelmente ter tido a sua origem nalgum culto a uma divindade numa época anterior à cristianização dos povos peninsulares. De resto, a associação do cão à representação do diabo remete-nos para a figura do cão tricéfalo guardião do Hades que nos é descrita pela mitologia clássica.

Com efeito, tudo leva a crer que estas práticas têm a sua origem mais remota nos ancestrais cultos pagãos em louvor das ninfas e outras divindades pré-romanas das águas ou ainda em rituais dedicados à deusa grega Ártemis – Diana na mitologia romana – cujos templos situavam-se geralmente junto a cursos de água. Ou ainda a Alfeu – deus do rio e filho de Oceano na mitologia grega – e a Posídon – Neputno, deus do mar na mitologia romana.

A tradição do Banho Santo ligado a rituais de purificação que têm na água a sua função primordial, é porventura aquela que confere maior significado a estas festividades e muito provavelmente a que se encontra nas suas origens mais remotas. De resto, a água está associada aos ritos do baptismo e às peregrinações a Santiago de Compostela. Mantido ao longo dos tempos pela devoção popular, tais práticas foram sujeitas a perseguições desde o século IV à época do imperador Diocleciano até à Idade Média. Acabariam, porém, por serem aceites pelo Cristianismo.

À semelhança de outras festas cíclicas, os rituais do Banho Santo tendo por objecto a purificação e preservação da saúde de pessoas ou animais levados pelos pastores, predominam em regra no meio rural, junto ao mar, a rios ou outros cursos de água. Para além da tradição em São Bartolomeu do Mar, no concelho de Esposende, temos ainda entre nós o “Banho da Degola” em louvor de São João da Degola que se realiza em Vila Real de Santo António, em Lagos, na serra de Monchique e os banhos de ano novo em Carcavelos e noutras localidades.

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Com o decorrer do tempo, é possível que tenham ocorrido influências de várias culturas relacionadas com a presença de comunidades religiosas distintas, originando mesmo um certo sincretismo. É o que se verifica nomeadamente com o ritual de exorcização com recurso à galinha preta que muito provavelmente terá sido originado de uma influência mais tardia, muito provavelmente de raiz judaica.

Quando em 1496, o rei D. Manuel ordenou a conversão dos judeus ao Cristianismo sob pena de expulsão, existia em Barcelos uma comunidade judaica, à semelhança aliás do que sucedia noutras localidades minhotas como Braga, Viana do Castelo e Ponte de Lima. Refira-se que, à altura, o território que atualmente faz parte do concelho de Esposende era parte do termo de Barcelos, apenas tendo sido elevado à categoria de município com a atribuição do foral pelo rei D. Sebastião em 19 de agosto de 1572. Terão então os judeus conversos ou seja, os cristãos-novos que habitavam a região, adaptado a sua prática religiosa às que eram geralmente mantidas pela Igreja Católica a fim de serem tolerados no seio das comunidades locais, atitude aliás comum à generalidade dos judeus que permaneceram no país.

O Yom Kippur constitui uma das festividades mais importantes e solenes do judaísmo, destinada ao arrependimento e ao pedido de perdão, correspondendo ao Ano Novo no calendário hebraico (Rosh Hashana) e coincidindo geralmente com os meses de setembro ou outubro do calendário cristão. Nos dias que antecedem o Yom Kippur, praticam os judeus um ritual de expiação dos pecados (Kaparot) que culmina na matança de milhares de galos e galinhas, preferencialmente de cor branca como símbolo de purificação. O ritual propriamente dito consiste em elevar o animal sobre as suas próprias cabeças, dando com eles três voltas enquanto murmuram :“Esta é minha mudança, este é meu substituto, esta é minha expiação”, sendo de seguida degolado com recurso a faca de lâmina rigorosamente afiada, cumprindo-se desta forma o sacrifício.

Com efeito, para além das semelhanças existentes, a altura do ano em que os judeus praticam o Kaparot é praticamente coincidente com a realização da romaria de São Bartolomeu do Mar, da mesma forma que se constata terem os primeiros registos desta festividade surgido pouco tempo decorrido após o início da conversão forçada dos judeus ordenada pelo rei D. Manuel I, fatos que nos levam a acreditar na possível relação entre ambas as tradições.

Os romeiros levam os filhos transportando consigo ao colo uma galinha preta, dando três voltas em redor da capela antes de nela entrarem procederem á oferenda sacrificial, após o que colocam na cabeça a imagem de São Bartolomeu. Uma vez cumprido o ritual, encaminham-se para a praia onde terá lugar o “banho santo” das crianças nas águas gélidas e purificadoras do mar – aonde o diabo regressará ao anoitecer – que, com a ajuda do sargaceiro, é imersa por diversas vezes, contadas as ondas sempre em número ímpar.

Todos os anos, por ocasião da festa litúrgica a São Bartolomeu que se celebra a 24 de agosto, vão as gentes Esposende em romaria à igreja do santo padroeiro da freguesia de Mar – São Bartolomeu do Mar – para invocar a sua proteção contra o medo e outros males atribuídos ao diabo como a epilepsia e a gaguez. Reza a lenda que, nesse dia, São Bartolomeu solta o diabo que durante o resto do ano traz preso, simbolizado num cão que mantém com uma trela.

Fotos: Alfredo Cunha / Arquivo Municipal de Lisboa

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ESPOSENDE: TODOS OS CAMINHOS VÃO DAR À ROMARIA DE SÃO BARTOLOMEU DO MAR!

É de origem remota a tradição do Banho Santo que se celebra na Romaria de São Bartolomeu do Mar, no concelho de Esposende, que a cada ano atrai maior número de visitantes àquela localidade minhota plena de tradições.

A romaria de São Bartolomeu do Mar aparece documentada desde o século XVI, muito embora evidencie marcas de ancestralidade, devendo muito provavelmente ter tido a sua origem nalgum culto a uma divindade numa época anterior à cristianização dos povos peninsulares. De resto, a associação do cão à representação do diabo remete-nos para a figura do cão tricéfalo guardião do Hades que nos é descrita pela mitologia clássica.

Com efeito, tudo leva a crer que estas práticas têm a sua origem mais remota nos ancestrais cultos pagãos em louvor das ninfas e outras divindades pré-romanas das águas ou ainda em rituais dedicados à deusa grega Ártemis – Diana na mitologia romana – cujos templos situavam-se geralmente junto a cursos de água. Ou ainda a Alfeu – deus do rio e filho de Oceano na mitologia grega – e a Posídon – Neputno, deus do mar na mitologia romana.

A tradição do Banho Santo ligado a rituais de purificação que têm na água a sua função primordial, é porventura aquela que confere maior significado a estas festividades e muito provavelmente a que se encontra nas suas origens mais remotas. De resto, a água está associada aos ritos do baptismo e às peregrinações a Santiago de Compostela. Mantido ao longo dos tempos pela devoção popular, tais práticas foram sujeitas a perseguições desde o século IV à época do imperador Diocleciano até à Idade Média. Acabariam, porém, por serem aceites pelo Cristianismo.

À semelhança de outras festas cíclicas, os rituais do Banho Santo tendo por objecto a purificação e preservação da saúde de pessoas ou animais levados pelos pastores, predominam em regra no meio rural, junto ao mar, a rios ou outros cursos de água. Para além da tradição em São Bartolomeu do Mar, no concelho de Esposende, temos ainda entre nós o “Banho da Degola” em louvor de São João da Degola que se realiza em Vila Real de Santo António, em Lagos, na serra de Monchique e os banhos de ano novo em Carcavelos e noutras localidades.

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Com o decorrer do tempo, é possível que tenham ocorrido influências de várias culturas relacionadas com a presença de comunidades religiosas distintas, originando mesmo um certo sincretismo. É o que se verifica nomeadamente com o ritual de exorcização com recurso à galinha preta que muito provavelmente terá sido originado de uma influência mais tardia, muito provavelmente de raiz judaica.

Quando em 1496, o rei D. Manuel ordenou a conversão dos judeus ao Cristianismo sob pena de expulsão, existia em Barcelos uma comunidade judaica, à semelhança aliás do que sucedia noutras localidades minhotas como Braga, Viana do Castelo e Ponte de Lima. Refira-se que, à altura, o território que atualmente faz parte do concelho de Esposende era parte do termo de Barcelos, apenas tendo sido elevado à categoria de município com a atribuição do foral pelo rei D. Sebastião em 19 de agosto de 1572. Terão então os judeus conversos ou seja, os cristãos-novos que habitavam a região, adaptado a sua prática religiosa às que eram geralmente mantidas pela Igreja Católica a fim de serem tolerados no seio das comunidades locais, atitude aliás comum à generalidade dos judeus que permaneceram no país.

O Yom Kippur constitui uma das festividades mais importantes e solenes do judaísmo, destinada ao arrependimento e ao pedido de perdão, correspondendo ao Ano Novo no calendário hebraico (Rosh Hashana) e coincidindo geralmente com os meses de setembro ou outubro do calendário cristão. Nos dias que antecedem o Yom Kippur, praticam os judeus um ritual de expiação dos pecados (Kaparot) que culmina na matança de milhares de galos e galinhas, preferencialmente de cor branca como símbolo de purificação. O ritual propriamente dito consiste em elevar o animal sobre as suas próprias cabeças, dando com eles três voltas enquanto murmuram :“Esta é minha mudança, este é meu substituto, esta é minha expiação”, sendo de seguida degolado com recurso a faca de lâmina rigorosamente afiada, cumprindo-se desta forma o sacrifício.

Com efeito, para além das semelhanças existentes, a altura do ano em que os judeus praticam o Kaparot é praticamente coincidente com a realização da romaria de São Bartolomeu do Mar, da mesma forma que se constata terem os primeiros registos desta festividade surgido pouco tempo decorrido após o início da conversão forçada dos judeus ordenada pelo rei D. Manuel I, fatos que nos levam a acreditar na possível relação entre ambas as tradições.

Os romeiros levam os filhos transportando consigo ao colo uma galinha preta, dando três voltas em redor da capela antes de nela entrarem procederem á oferenda sacrificial, após o que colocam na cabeça a imagem de São Bartolomeu. Uma vez cumprido o ritual, encaminham-se para a praia onde terá lugar o “banho santo” das crianças nas águas gélidas e purificadoras do mar – aonde o diabo regressará ao anoitecer – que, com a ajuda do sargaceiro, é imersa por diversas vezes, contadas as ondas sempre em número ímpar.

Todos os anos, por ocasião da festa litúrgica a São Bartolomeu que se celebra a 24 de agosto, vão as gentes Esposende em romaria à igreja do santo padroeiro da freguesia de Mar – São Bartolomeu do Mar – para invocar a sua proteção contra o medo e outros males atribuídos ao diabo como a epilepsia e a gaguez. Reza a lenda que, nesse dia, São Bartolomeu solta o diabo que durante o resto do ano traz preso, simbolizado num cão que mantém com uma trela.

Fotos: Alfredo Cunha / Arquivo Municipal de Lisboa

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O RIO LIMA – LETHES NA MITOLOGIA CLÁSSICA – E A VISÃO MÍTICA DO HADES

  • Crónica de Carlos Gomes

Quando no ano 163 Antes de Cristo, as legiões romanas comandadas por Decimus Julius Brutus chegaram à margem esquerda do rio Lima, elas temeram atravessá-lo por acreditarem tratar-se do mítico rio do esquecimento e, ao transporem-no, esquecerem-se para sempre da sua pátria e de si mesmos. Tal superstição foi desfeita quando o tribuno romano atravessou o rio e, da outra margem, chamou todos os seus soldados pelo seu próprio nome.

PONTE DE LIMA RECONSTRÓI AÇUDE DO RIO LIMA - BLOGUE DO MINHO

O sítio escolhido pelas legiões romanas para atravessar o rio Lima foi naturalmente aquele que entretanto entenderam por mais adequado para construírem a ponte que liga as duas margens, um troço da qual veio a ser reconstruído ao tempo do rei D. Pedro I em virtude de ter sido derrubado pelas fortes correntes.

Foi também o local onde mais tarde veio a nascer a vila de Ponte de Lima – no sítio exacto onde a ponte que servia a estrada militar via XIX que constava do Itinerário de Antonino e que ligava Bracara Augusta (Braga a Astúrica Augusta (Astorga), passando por Lugo e Tui, se cruza com o rio como duas importantes vias de comunicação à época! – e em relação ao qual os romanos baptizaram por Lethes, numa clara alusão ao mítico Lethes, um dos cinco rios que na mitologia grega banhava o Hades, representando a passagem da vida para a morte através de uma barca conduzida por Caronte.

A travessia era paga e, a comprová-lo, as moedas encontradas em muitas sepulturas romanas, colocadas na boca do defunto para garantir o seu pagamento.

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Interpretação do século XIX da travessia do rio Lethes por Caronte, por Alexander Litovchenko.

Segundo a mitologia grega, o rio Lethes era um dos cinco rios que banhava o Hades. A passagem da vida para a morte constituía a travessia feita do rio Lethes – o rio do esquecimento – através de uma barca conduzida por Caronte. Foi aliás, baseado nesta crença que Gil Vicente escreveu os seus autos, mormente o Auto da Barca do Inferno.

Também Dante, na Divina Comédia, na segunda parte da obra dedicada ao Purgatório, descreve o Lethes como um rio de cujas águas os pecadores tinham de beber para apagarem da memória os seus pecados cometidos e, desse modo, entrarem no Paraíso.

Porém, uma das mais conhecidas descrições do Hades e, consequentemente do rio Lethes constitui a versão apresentada pelo poeta épico Homero na Ilíada e na Odisseia.

Como é sabido, os romanos assimilaram a cultura dos gregos, atribuindo novas denominações às suas divindades. Na Grécia antiga, Lethes significava literalmente “esquecimento”, constituindo um dos cinco rios que banhavam o Hades. Os demais eram o Aqueronte (rio da dor), Cocito (lamento), Flegetonte (fogo) e Estige (invulnerabilidade), os quais faziam a fronteira entre os mundos superiores e inferiores. Lete é também uma das náiades, filha da deusa Eris, senhora da discórdia, irmã de Algea, Limos, Horcos e Ponos.

A origem etimológica da palavra Inferno provém do latim infernum ou inferus e que significa literalmente “profundezas”, “lugares baixos”, aludindo a um local de sepultura. O equivalente ao termo hebraico sheol, não existindo nela qualquer indicação de local de fogo e tormento a que os maus estavam condenados. Aliás, tal ideia só veio a ser concebida por associação com a Geena – o vale de Hinom, fora das muralhas de Jerusalém – que era usado como lixeira e onde também eram lançados os cadáveres de pessoas consideradas indignas, sendo utilizado o enxofre para manter o fogo aceso e queimar o lixo. De resto, o termo Geena ocorre doze vezes nas Escrituras Sagradas, tendo Jesus usado o vale de Hinom para representar a destruição eterna.

Em Lucas (12:5), o evangelista refere-se à Geena com as seguintes palavras: “Mas, eu vos indicarei quem é para temer: Temei aquele que, depois de matar, tem autoridade para lançar na Geena. Sim, eu vos digo temei a Este”. E assim surgiu o Inferno como um local de padecimento!

Para trás ficou – qual rio do Esquecimento! – a crença no mítico rio Lethes que, séculos após a chegada das legiões romanas, passou a ser local de atravessamento de milhares de peregrinos, através da ponte que os romanos ali ergueram, com destino a Compostela para ali venerarem o apóstolo São Tiago Maior que, depois de ter andado pelo Minho – Braga, Guimarães e Rates – a tentar converter os pagãos, veio mais tarde segundo a tradição cristã a ser sepultado no local onde entretanto foi erguida a monumental catedral na Galiza.

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António Feijó

Também designado de Belion e pelo historiador e geógrafo grego Estrabão identificado como o mítico Lethes, o rio Lima continua a ser cantado pelos poetas, tendo em António Feijó porventura um dos seus maiores bardos:

 

Nasci á beira do Rio Lima,

Rio saudoso, todo crystal;

D'ahi a angustia que me victima,

D'ahi deriva todo o meu mal.

 

É que nas terras que tenho visto,

por toda a parte por onde andei,

Nunca achei nada mais imprevisto,

Terra mais linda nunca encontrei.

 

São águas claras sempre cantando,

Verdes colinas, alvôr d'areia,

Brancas ermidas, fontes chorando

Na tremulina da lua - cheia...

JORNAL INGLÊS “THE TELEGRAPH” DESTACA O MINHO NA SUA EDIÇÃO DO ...

ESPOSENDE: TRADIÇÃO DO “BANHO SANTO” EM SÃO BARTOLOMEU DO MAR MERECE SER CLASSIFICADA COMO PATRIMÓNIO CULTURAL IMATERIAL

É de origem remota a tradição do Banho Santo que se celebra na Romaria de São Bartolomeu do Mar, no concelho de Esposende, que a cada ano atrai maior número de visitantes àquela localidade minhota plena de tradições.

A romaria de São Bartolomeu do Mar aparece documentada desde o século XVI, muito embora evidencie marcas de ancestralidade, devendo muito provavelmente ter tido a sua origem nalgum culto a uma divindade numa época anterior à cristianização dos povos peninsulares. De resto, a associação do cão à representação do diabo remete-nos para a figura do cão tricéfalo guardião do Hades que nos é descrita pela mitologia clássica.

Com efeito, tudo leva a crer que estas práticas têm a sua origem mais remota nos ancestrais cultos pagãos em louvor das ninfas e outras divindades pré-romanas das águas ou ainda em rituais dedicados à deusa grega Ártemis – Diana na mitologia romana – cujos templos situavam-se geralmente junto a cursos de água. Ou ainda a Alfeu – deus do rio e filho de Oceano na mitologia grega – e a Posídon – Neputno, deus do mar na mitologia romana.

A tradição do Banho Santo ligado a rituais de purificação que têm na água a sua função primordial, é porventura aquela que confere maior significado a estas festividades e muito provavelmente a que se encontra nas suas origens mais remotas. De resto, a água está associada aos ritos do baptismo e às peregrinações a Santiago de Compostela. Mantido ao longo dos tempos pela devoção popular, tais práticas foram sujeitas a perseguições desde o século IV à época do imperador Diocleciano até à Idade Média. Acabariam, porém, por serem aceites pelo Cristianismo.

À semelhança de outras festas cíclicas, os rituais do Banho Santo tendo por objecto a purificação e preservação da saúde de pessoas ou animais levados pelos pastores, predominam em regra no meio rural, junto ao mar, a rios ou outros cursos de água. Para além da tradição em São Bartolomeu do Mar, no concelho de Esposende, temos ainda entre nós o “Banho da Degola” em louvor de São João da Degola que se realiza em Vila Real de Santo António, em Lagos, na serra de Monchique e os banhos de ano novo em Carcavelos e noutras localidades.

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Com o decorrer do tempo, é possível que tenham ocorrido influências de várias culturas relacionadas com a presença de comunidades religiosas distintas, originando mesmo um certo sincretismo. É o que se verifica nomeadamente com o ritual de exorcização com recurso à galinha preta que muito provavelmente terá sido originado de uma influência mais tardia, muito provavelmente de raiz judaica.

Quando em 1496, o rei D. Manuel ordenou a conversão dos judeus ao Cristianismo sob pena de expulsão, existia em Barcelos uma comunidade judaica, à semelhança aliás do que sucedia noutras localidades minhotas como Braga, Viana do Castelo e Ponte de Lima. Refira-se que, à altura, o território que atualmente faz parte do concelho de Esposende era parte do termo de Barcelos, apenas tendo sido elevado à categoria de município com a atribuição do foral pelo rei D. Sebastião em 19 de agosto de 1572. Terão então os judeus conversos ou seja, os cristãos-novos que habitavam a região, adaptado a sua prática religiosa às que eram geralmente mantidas pela Igreja Católica a fim de serem tolerados no seio das comunidades locais, atitude aliás comum à generalidade dos judeus que permaneceram no país.

O Yom Kippur constitui uma das festividades mais importantes e solenes do judaísmo, destinada ao arrependimento e ao pedido de perdão, correspondendo ao Ano Novo no calendário hebraico (Rosh Hashana) e coincidindo geralmente com os meses de setembro ou outubro do calendário cristão. Nos dias que antecedem o Yom Kippur, praticam os judeus um ritual de expiação dos pecados (Kaparot) que culmina na matança de milhares de galos e galinhas, preferencialmente de cor branca como símbolo de purificação. O ritual propriamente dito consiste em elevar o animal sobre as suas próprias cabeças, dando com eles três voltas enquanto murmuram :“Esta é minha mudança, este é meu substituto, esta é minha expiação”, sendo de seguida degolado com recurso a faca de lâmina rigorosamente afiada, cumprindo-se desta forma o sacrifício.

Com efeito, para além das semelhanças existentes, a altura do ano em que os judeus praticam o Kaparot é praticamente coincidente com a realização da romaria de São Bartolomeu do Mar, da mesma forma que se constata terem os primeiros registos desta festividade surgido pouco tempo decorrido após o início da conversão forçada dos judeus ordenada pelo rei D. Manuel I, fatos que nos levam a acreditar na possível relação entre ambas as tradições.

Os romeiros levam os filhos transportando consigo ao colo uma galinha preta, dando três voltas em redor da capela antes de nela entrarem procederem á oferenda sacrificial, após o que colocam na cabeça a imagem de São Bartolomeu. Uma vez cumprido o ritual, encaminham-se para a praia onde terá lugar o “banho santo” das crianças nas águas gélidas e purificadoras do mar – aonde o diabo regressará ao anoitecer – que, com a ajuda do sargaceiro, é imersa por diversas vezes, contadas as ondas sempre em número ímpar.

Todos os anos, por ocasião da festa litúrgica a São Bartolomeu que se celebra a 24 de agosto, vão as gentes Esposende em romaria à igreja do santo padroeiro da freguesia de Mar – São Bartolomeu do Mar – para invocar a sua proteção contra o medo e outros males atribuídos ao diabo como a epilepsia e a gaguez. Reza a lenda que, nesse dia, São Bartolomeu solta o diabo que durante o resto do ano traz preso, simbolizado num cão que mantém com uma trela.

Fotos: Alfredo Cunha / Arquivo Municipal de Lisboa

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MINHO: FESTAS DE SÃO JOÃO CELEBRAM O SOLSTÍCIO DE VERÃO

Hoje ocorre o solstício do Verão. Salta-se a fogueira pelo S.João, brinca-se com alcachofras e martelinhos, tréculas e zaquelitraques, canta-se e dança-se. Pela calada da noite, invadem-se os quinteiros, assaltam-se as eiras e roubam-se vasos com plantas, carroças e carros de bois para seguidamente os levar para o centro da povoação. São as festas são-joaninas, assim designadas em virtude da Igreja Católica ter atribuído a esta data o nascimento de S. João Baptista, uma reminiscência de antiquíssimos rituais pagãos relacionados com o Solstício de Verão e ainda com a adoração do fogo. De resto, o fogo adquiriu desde sempre um carácter sagrado ao ponto de ter sido deificado.

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No Porto e em Braga, as suas gentes vivem as festas são-joaninas com particular intensidade. O Barredo e a Ribeira no Porto enchem-se de povo e a alegria e animação dura até de madrugada. Em Lisboa, as festas solsticiais abrangem todo o mês de Junho, associando S.Pedro e S.António aos festejos de S.João. O nascimento de S. António em Lisboa deve ter contribuído para que os festejos lhe tenham sido dedicados, popularizado ao ponto de muitas pessoas pensarem erradamente ser ele o patrono desta cidade.

Desde tempos remotos, o homem celebrava a chegada do Verão acendendo enormes fogueiras, cantando e dançando em seu redor. É a chegada do lume novo, um rito cuja sacralidade original se foi perdendo e que chegou até nós, transmitido de geração em geração, assegurada pela própria tradição.

Entre os gregos e os romanos, competia às Vestais - sacerdotisas dos templos dedicados a Vesta - a tarefa de preservar aceso o fogo sagrado. Entre nós, persiste o costume de acender o lenho na noite de Natal ou na passagem do ano e o círio pela Páscoa. Manda a tradição católica que, à beira da pia batismal, os padrinhos transportam a vela acesa quando o batizado não o pode fazer se ainda for demasiado jovem. Mas, fá-lo-á quando chegar a altura de confirmar o seu batismo cristão. É que o fogo é a luz que nos ilumina e mostra a Verdade e a Vida. É ainda o fogo que nos aquece e afaga a nossa rude existência, elemento purificador que constitui um dos quatro elementos - os outros são a Terra, o Ar e a Água.

Mas o fogo é também festa. Desde a sua descoberta, aprendeu o Homem aprendeu a produzi-lo e manipular ao ponto de conseguir iluminar os céus e a terra com uma verdadeira constelação de alegria, salpicando-o de lágrimas e girândolas de cores e formas variadas, compondo na abóboda celestial um autêntico hino ao Criador. Afinal de contas, foi Ele quem pela primeira vez nos enviou o fogo sob a forma de um raio ou cuspiu das entranhas de um vulcão - eis o gesto primordial da criação que é ritualizado pelo homem desde os tempos em que Adão e Eva foram expulsos do paraíso por um anjo que empunhava uma espada de fogo.

É tempo de proceder à ceifa do trigo, do centeio e da cevada, de sachar o milho, sulfatar a vinha e crestar o mel das colmeias. Mas também é altura de festejar o S. João e saltar a fogueira. Desde o solstício de Verão até ao equinócio do Outono, é tempo de festa, de estúrdia e de arraial. E, a fazer jus à fama da pirotecnia, não há verdadeiramente festa sem o luminoso colorido do fogo-de-artifício e o estardalhaço dos foguetes. O folclore do nosso povo conserva raízes que nos transportam à origem da própria civilização humana.