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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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NATALE SOLIS INVICTI OU O SOLSTÍCIO DO INVERNO

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Todo o mundo cristão celebra por esta altura o nascimento de Jesus, não obstante desconhecerem-se quaisquer referências históricas ou bíblicas que mencionem a data em que tal acontecimento se verificou. Por conseguinte, o Natal é festejado a 25 de Dezembro ou a 7 de Janeiro de acordo com as tradições católica ou ortodoxa, em virtude da adoção dos calendários juliano ou gregoriano. Ora, é nesta ocasião que ocorre o solstício do inverno ou nascimento do sol, precisamente a altura em que os raios solares deixam de decrescer e passam de a aumentar, fazendo de novo crescer os dias em relação às noites.

Desde a mais remota antiguidade que o ser humano adorou o sol, deificando-o e atribuindo-lhe a primazia sobre as demais divindades. Tal sucedeu na Caldeia, na Palestina e no Egipto, aqui adorado sob o nome de Ra. Na antiga Pérsia e na Índia, o deus Sol era designado por Mitra tendo o seu culto dado origem ao mitraísmo que viria mais tarde a rivalizar com o cristianismo a sua influência no Império romano, acabando por vir a sucumbir com a sua queda e mais tarde acabando por desaparecer por completo com o avanço do islamismo na Pérsia. Antes, porém, o mitraísmo fora assimilado pelos gregos e espalhou-se por todo o Império romano. O deus Mitra era geralmente representado por um jovem com um boné frígio, túnica e manto sobre o ombro esquerdo. Esta religião era superiormente dirigida por um sumo pontífice a os seus sacerdotes ostentavam sobre a cabeça uma mitra. Curiosamente, trata-se do chapéu com que os bispos se apresentam quando envergam as vestes pontificais, tendo a sua origem na Pérsia e no Egipto, correspondendo ao turbante e por conseguinte aludindo à adoração de Mitra.

Não admira, pois, que ao culto solar tenha sido sobreposta a adoração ao menino Jesus, sendo-lhe atribuída a data do seu nascimento precisamente numa altura em que os romanos celebravam o natale solis invicti consagrado ao deus Sol, à semelhança do que se verifica com inúmeras festividades pagãs que foram de algum modo adaptadas e "convertidas" à crença cristã. Na mesma ocasião realizavam os romanos as saturnais ou saturnálias que, como o próprio nome indica, eram festividades consagradas a Saturno, trocavam de presentes e organizavam um banquete público, aspetos que de alguma forma podemos relacionar com as tradicionais "festas dos rapazes" em várias localidades de Trás-os-Montes. Aliás, o culto a Saturno chegou a ser muito difundido na Península Ibérica, tendo diversos escritores da antiguidade referindo-se à existência de santuários entre os quais se supõe ter havido um na Ínsua do rio Minho, um local onde atualmente as gentes locais vão em peregrinação ao Senhor Jesus dos Mareantes, fazendo festa rija em Agosto. Saturno era o deus protetor dos semeadores e das sementes, pelo que os romanos acreditavam que durante as saturnais regressava a abundância, assegurando a fertilidade durante essa época do ano.

Ainda em relação ao mitraísmo, também este possuía extraordinárias semelhanças com o cristianismo, entre as quais a crença no céu e no inferno, na ressurreição, nos pastores que tal como os reis magos ofereciam presentes, no dilúvio, na santificação do domingo, na prática da confissão e da comunhão e, finalmente, a própria celebração do 25 de Dezembro!

A celebração do nascimento de Jesus constitui atualmente uma festa que é vivida com grande intensidade pelo povo português e que, apesar da sua significação profundamente religiosa, também não escapa às regras de funcionamento de uma sociedade mercantilizada, virada cada vez mais para os interesses materiais em detrimento dos valores espirituais. Não obstante, as festividades da quadra natalícia encontram-se profundamente enraizadas no nosso folclore revelando-se através das mais diversas manifestações de cariz popular, na gastronomia, na música, nas lendas e de um modo geral em todos os aspetos que envolvem tais celebrações. Não obstante, temos principalmente nos últimos tempos vindo a constatar que tradições oriundas de outros países têm vindo a substituir alguns costumes genuínos do nosso povo, como sucede com a reverência ao "Pai Natal", agora destituído para dar lugar a S. Nicolau, quando outrora as festividades decorriam exclusivamente em torno do "menino Jesus". Da mesma forma que o tradicional presépio cedeu o lugar ao nórdico pinheiro de Natal enfeitado com flocos de neve, mesmo em locais onde jamais nevou...

MINHO: O CULTO DOS MORTOS E A ACÇÃO CRIADORA DOS DEUSES

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Dólmen da Barrosa em Vila Praia de Âncora

Desde sempre o Homem acreditou na possibilidade dos mortos intercederem na ação criadora dos deuses e no próprio ciclo da natureza, contribuindo inclusivamente para o renascimento dos vegetais e das culturas que os demónios e maus espíritos do inverno fizeram desaparecer.

Esta crença está na origem de uma infinidade de práticas relacionadas com o culto dos mortos que regra geral se iniciam em Novembro e prolongam-se até à Serração-da-Velha, atravessando as cerimónias solsticiais ou "saturnais" e os festejos carnavalescos.

Naturalmente, os ritos variam consoante as celebrações em causa mas conservam entre si uma finalidade comum que é o de assegurar que o ciclo da vida e da morte não se interrompa, possibilitando, por conseguinte, que ao inverno suceda impreterivelmente a primavera.

De acordo com as investigações feitas no domínio da arqueologia e da antropologia, acredita-se que as práticas do culto dos mortos tiveram o seu começo na fase de transição da pedra lascada para a pedra polida, sendo disso testemunho os inúmeros monumentos funerários como os dólmens ou antas, inscrições votivas e outros achados. Não admira, pois, que sejam precisamente os monumentos funerários desde sempre os mais visitados pelo seu interesse artístico e patrimonial, marcando cada época histórica e constituindo roteiros culturais.

Pão por Deus! - pedem as crianças na região saloia, percorrendo as casas em alegre peditório. A ladaínha varia contudo de uma região para outra. Por exemplo, para os lados de Braga é costume dizer-se do seguinte modo: "Bolinhos, bolinhós, / Para mim e para vós / E para quem está debaixo da cruz / Truz truz".

Por esta ocasião, as pessoas cumprem o ritual da visita aos cemitérios e cuidam das sepulturas dos seus entes queridos. Mas, também em casa é costume em muitas localidades, após a ceia, deixar até ao dia seguinte a mesa composta de iguarias para que os defuntos possam banquetear-se.

Nalgumas localidades, na noite de Todos-os-Santos, coloca-se uma mesa com castanhas para os familiares falecidos, as quais ninguém tocará porque ficam “babadas dos defuntos”. Da mesma forma que o azeite que alumia os defuntos jamais alumiará os vivos. Entre alguns povos do leste europeu conserva-se ainda a tradição de organizar o festim no próprio cemitério a fim de que todos em conjunto – mortos e vivos – possam confraternizar!

A partir desta época do ano, as noites das aldeias são povoadas por criaturas extraordinárias que surgem nas encruzilhadas e amedrontam os notívagos. Uivam os lobos nas serranias enquanto as bruxas – quais sacerdotisas do paganismo – reúnem-se sob as pontes em locais ermos.

Aconselha a prudência que ao gado se prendam pequenas saquinhas de amuletos que o resguardem do “mau olhado”. O serão é passado junto à lareira, no afago do lume, escutando aos mais antigos estória que nos embalam num mundo de fantasia povoado por seres sobrenaturais. E, quando finalmente chegada é a hora de dormir, manda o costume fazer o sinal-da-cruz para que o demónio não nos apoquente e a manhã do dia seguinte nasça radiosa a anunciar uma vida nova.

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Dólmen da Barrosa em Vila Praia de Âncora

AS BRUXAS SÃO AS SACERDOTISAS DO PAGANISMO

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Quais sacerdotisas dos ritos próprios do culto pagão, as chamadas bruxas desde sempre povoam o nosso imaginário, associado ao mal e representando figuras demoníacas que ao longo dos séculos foram inculcadas nas nossas mentes pela religião Cristã que entre nós viria a impor-se ao paganismo. Tal como a figura de Pã, deus dos bosques, dos campos, dos rebanhos e dos pastores veio ao longo da Idade Média a ficar associada à do Diabo transfigurado na dama pé-de-cabra.

Proveniente do latim paganus que significa literalmente camponês ou rústico, o paganismo constitui uma forma de expressão religiosa em íntima comunhão com os fenómenos da natureza e profundamente ligado às necessidades espirituais do indivíduo inserido no mundo rural. Prova evidente dessa realidade constitui as tradições que respeitam aos ritos do inverno e ao culto dos mortos, desde os peditórios de “Pão Por Deus” até à “Serração da Velha”, passando pela celebração do solstício de Inverno e o Entrudos, celebrações quase todas convertidas em celebrações cristãs como o Natal, como se de festividades pagãs não se tratassem a sua origem. O mesmo sucede com outras festividades como o Solstício de Verão, com os seus ritos associados ao fogo e transformados em festividades são-joaninas.

Existem entre nós vestígios de antigos santuários pagãos como a do deus Endovélico na região do Alandroal, registando a própria toponímia a sua ancestral influência como sucede com a serra do Larouco, proveniente do deus Laraucus.

Porém, no ano 312 deu-se a alegada conversão do Imperador Constantino ao Cristianismo e, a partir do ano 392, passou o paganismo a ser proibido no Império Romano e consequentemente reprimido e perseguido, sendo essas medidas agravadas com a pena de morte a partir de 435 para quem praticasse ritos envolvendo o sacrifício de animais. Não obstante, o paganismo continuou a praticar-se, de forma mais ou menos discreta, sobretudo entre as gentes que viviam no campo. E a conversão à nova religião trazida pelos invasores romanos não foi tarefa fácil, deparando-se com maiores dificuldades entre os povos de regiões com maior apego às mais ancestrais tradições como se verificou no Minho e em Trás-os-Montes.

Os antigos templos e santuários pagãos foram destruídos para em seu lugar serem erguidas igrejas, o mesmo sucedendo com as encruzilhadas dos caminhos rurais e outros locais de culto nas aldeias que deram lugar a cruzeiros e a pequenos nichos contendo retábulos com as “alminhas” do Purgatório que passaram espiritualmente a aterrorizar as mentes dos humildes camponeses, até então habituados a uma relação mais sadia com a natureza que os rodeavam. Os sacerdotes pagãos conferiram uma nova roupagem às festas pagãs, procurando por esse meio conferir-lhes um novo sentido.

Mas, ainda assim, a religiosidade pagã sobrevive ao lado da nova fé, traduzida na manutenção de velhas tradições como as máscaras transmontanas e as festas dos caretos, o entrudo e as fogueiras de S. João. E, mesmo no Minho onde aparentemente existe forte religiosidade cristã, o que se verifica realmente é uma verdadeira manifestação de exuberância que caracteriza o minhoto, mais não constituindo a festa cristã do que um pretexto para exteriorizar a sua alegria como uma forma de profunda comunhão com a vida e o meio que o rodeia, iluminada por magníficas girândolas de fogo-de-vistas que revelam o seu apego embora inconsciente a antigas práticas religiosas.

Devemos a tais práticas religiosas pagãs os nossos mais profundos conhecimentos de medicina popular no uso das mais variadas espécies botânicas, o saber da meteorologia baseado na observação constante dos fenómenos naturais e da própria astronomia transmitido de geração em geração através de axiomas, a riqueza da nossa gastronomia e um infinito universo de conhecimentos que fazem parte do rico património do nosso folclore.

Com o decorrer do tempo, as perseguições acentuaram-se, tornando-se mais implacáveis durante a Idade Média e sobretudo no período da Inquisição. As sacerdotisas do paganismo eram perseguidas sob a acusação de bruxaria, sempre associada a práticas identificadas com ritos satânicos e talentos que lhes permitiam voar sentadas em rudimentares vassouras…

Nos tempos que correm, tais feitos mais não passam de fantasias literárias e até antigos rituais ligados ao culto dos mortos foram pela sociedade de consumo transformados em motivos de diversão, tal como no passado foram associados ao mal. Mas, o certo é que as bruxas jamais deixaram de existir e o paganismo parece estar de volta!

RITOS PAGÃOS DO CULTO DOS MORTOS TÊM ORIGENS PORTUGUESAS E EUROPEIAS E FORAM LEVADOS PARA OS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA PELOS COLONIZADORES EUROPEUS

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A celebração, nos Estados Unidos da América, do Haloween ou "noite das bruxas", não constitui mais do que a tradição do culto dos mortos que os colonos europeus levaram para o continente americano, entretanto regressada à Europa com uma roupagem comercial mais ao gosto da sociedade de consumo. O culto dos mortos constitui entre nós uma das mais ricas tradições que nos remetem para ancestrais cultos pagãos.

Desde sempre o Homem acreditou na possibilidade dos mortos intercederem na ação criadora dos deuses e no próprio ciclo da natureza, contribuindo inclusivamente para o renascimento dos vegetais e das culturas que os demónios e maus espíritos do inverno fizeram desaparecer. Esta crença está na origem de uma infinidade de práticas relacionadas com o culto dos mortos que regra geral se iniciam em Novembro e prolongam-se até à Serração-da-Velha, atravessando as cerimónias solsticiais ou "saturnais" e os festejos carnavalescos.

Naturalmente, os ritos variam consoante as celebrações em causa mas conservam entre si uma finalidade comum que é o de assegurar que o ciclo da vida e da morte não se interrompa, possibilitando por conseguinte que ao inverno suceda impreterivelmente a primavera. De acordo com as investigações feitas no domínio da arqueologia e da antropologia, acredita-se que as práticas do culto dos mortos tiveram o seu começo na fase de transição da pedra lascada para a pedra polida, sendo disso testemunho os inúmeros monumentos funerários como os dolmens ou antas, inscrições votivas e outros achados. O folclore trouxe até nós inúmeros vestígios desse modo de pensar e dos cultos praticados pelos nossos ancestrais, devendo por esse modo constituir uma importante fonte de estudo.

Pão por Deus! - pedem as crianças na região saloia, percorrendo as casas em alegre peditório. A ladainha varia contudo de uma região para outra. Por exemplo, para os lados de Braga é costume dizer-se do seguinte modo: "Bolinhos, bolinhós, / Para mim e para vós / E para quem está debaixo da cruz / Truz truz". Na região de Ourém, o rapazio vai pelos casais e suplica: "Ti Maria: dai-me um bolinho em louvor de todos os santinhos!". E, se a dona da casa é pessoa dada à brincadeira, ao assomar à soleira da porta responde prontamente: "Dou sim... com uma tranca no focinho!"

Por esta ocasião, as pessoas cumprem o ritual da visita aos cemitérios e cuidam das sepulturas dos seus entes queridos. Mas, também em casa é costume em muitas localidades, após a ceia, deixar até ao dia seguinte a mesa composta de iguarias para que os defuntos possam banquetear-se. Em Barqueiros, no concelho de Mesão Frio, na noite de Todos-os-Santos coloca-se uma mesa com castanhas para os familiares falecidos, as quais ninguém tocará porque ficam "babadas dos defuntos". Da mesma forma que o azeite que alumia os defuntos jamais alumiará os vivos. Entre alguns povos do leste europeu conserva-se ainda a tradição de organizar o festim no próprio cemitério a fim de que todos em conjunto - mortos e vivos - possam confraternizar!

A partir desta época do ano, as noites das aldeias são povoadas por criaturas extraordinárias que surgem nas encruzilhadas e amedrontam os notívagos. Uivam os lobos nas penedias enquanto as bruxas se reúnem debaixo das pontes. A prudência aconselha que ao gado se prendam pequenas saquinhas de amuletos que o resguardem do "mau-olhado". O serão é passado à lareira ouvindo histórias que nos embalam num mundo de sonhos e fantasia que nos alimenta a imaginação. E, quando finalmente é chegada a hora de dormir, faz-se o sinal-da-cruz para que o demónio não nos apoquente e a manhã do dia seguinte volte a sorrir radiante a anunciar uma vida nova.

PONTE DE LIMA: O MÍTICO LETHES E AS LEGIÕES ROMANAS DE DÉCIMO JÚNIO BRUTO – FOI AQUI QUE OS ROMANOS ATRAVESSARAM O RIO LIMA RAZÃO PELA QUAL CONSTRUÍRAM A PONTE QUE DÁ O NOME À VILA

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Segundo a mitologia grega, o rio Lethes era um dos quatro rios que banhava o Hades. A passagem da vida para a morte constituía a travessia feita do rio Lethes – o rio do esquecimento – através de uma barca conduzida por Caronte. Foi aliás, com base neste mito que Gil Vicente escreveu os seus autos, mormente o Auto da Barca do Inferno.

Como é sabido, os romanos assimilaram a cultura dos gregos, limitando-se a atribuir denominações latinas às suas divindades.

Quando no ano 163 Antes de Cristo, as legiões romanas comandadas por Decimus Julius Brutus chegaram à margem esquerda do rio Lima, elas temeram atravessar o rio Lima por acreditarem tratar-se do rio do esquecimento e, ao fazerem-no, esquecerem-se para sempre da sua pátria e de si mesmos. A superstição foi desfeita quando o tribuno romano atravessou o rio e, da outra margem, chamou todos os seus soldados pelo seu próprio nome.

Pese embora os contemporâneos já não acreditarem na visão mítica do Hades, o rio Lima continua a enfeitiçar quem se abeira das suas margens, tal é o encanto que as mesmas causam a quem visita terras limianas.

SÃO JOÃO DE BRAGA E A COCA DE MONÇÃO: O QUE É A SERPE?

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O dragonete ou guivra é um tipo de fera mítica com aspecto de dragão ou mesmo um pequeno dragão, representado como um réptil alado de duas patas, frequentemente acompanhado de uma cauda pontiaguda a qual pode abrigar um ferrão venenoso em forma de lança.

O dragonete, nas suas mais variadas formas, é bastante representado na heráldica medieval como um dragão de boca aberta. Aparece frequentemente como mascote de escolas e equipas desportivas (principalmente nos Estados Unidos, Reino Unido e Canadá).

É também uma criatura popular na literatura europeia, em videojogos e na fantasia moderna. Ao contrário dos dragões de quatro patas, na heráldica e no folclore, o dragonete raramente cuspia fogo.

O desenho do dragonete é considerado, por alguns historiadores, ter sido derivado da figura do dragão usado pelas legiões de Trajano na Dácia. Pode também ser a origem do dragão vermelho do País de Gales e do dragão dourado do Reino de Wessex, usado na Batalha de Burford em 752 d.C.

A utilização de dragões para representar o País de Gales remonta a séculos; como visto na "Historia Regum Britanniae" de Godofredo de Monmouth, ao retratar a profecia de Merlin, em que o dragão vermelho do País de Gales derrota o dragão anglo-saxão branco e em que são vistos com duas patas em vez das quatro patas que o dragão galês atual possui. Desde o século IV, os reis e príncipes galeses carregam consigo a representação de um dragão, onde cada governante muda a aparência de um dragonete para um dragão de quatro patas.

O conceito de cobras aladas é comum em culturas ao redor do Mediterrâneo, com um exemplo notável a ser a deusa egípcia Uto. As criaturas mais antigas chamadas de "dragões alados" são os corcéis da carruagem de Hélio, que ajudam Medeia.

Fonte: Wikipédia

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Representação medieval de um dragão na História de São Jorge e o dragão, de Paolo Uccello. Este dragão em especial, representado de variadas formas ao longo da história e da arte é chamado por vezes como "Serpe" ou "Coca" em certos locais no Brasil e Portugal 

SÁO JOÃO DE BRAGA OU A COCA DE MONÇÃO: O QUE É A SERPE?

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O dragonete é um tipo de fera mítica com aspecto de dragão ou mesmo um pequeno dragão, representado como um réptil alado de duas patas[, frequentemente acompanhado de uma cauda pontiaguda a qual pode abrigar um ferrão venenoso em forma de lança.

O dragonete, nas suas mais variadas formas, é bastante representado na heráldica medieval como um dragão de boca aberta. Aparece frequentemente como mascote de escolas e equipas desportivas (principalmente nos Estados Unidos, Reino Unido e Canadá).

É também uma criatura popular na literatura europeia, em videojogos e na fantasia moderna. Ao contrário dos dragões de quatro patas, na heráldica e no folclore, o dragonete raramente cuspia fogo.

O desenho do dragonete é considerado, por alguns historiadores, ter sido derivado da figura do dragão usado pelas legiões de Trajano na Dácia. Pode também ser a origem do dragão vermelho do País de Gales e do dragão dourado do Reino de Wessex, usado na Batalha de Burford em 752 d.C.

A utilização de dragões para representar o País de Gales remonta a séculos; como visto na "Historia Regum Britanniae" de Godofredo de Monmouth, ao retratar a profecia de Merlin, em que o dragão vermelho do País de Gales derrota o dragão anglo-saxão branco e em que são vistos com duas patas em vez das quatro patas que o dragão galês atual possui. Desde o século IV, os reis e príncipes galeses carregam consigo a representação de um dragão, onde cada governante muda a aparência de um dragonete para um dragão de quatro patas.

O conceito de cobras aladas é comum em culturas ao redor do Mediterrâneo, com um exemplo notável a ser a deusa egípcia Uto. As criaturas mais antigas chamadas de "dragões alados" são os corcéis da carruagem de Hélio, que ajudam Medeia.

Fonte: Wikipédia

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Representação medieval de um dragão na História de São Jorge e o dragão, de Paolo Uccello. Este dragão em especial, representado de variadas formas ao longo da história e da arte é chamado por vezes como "Serpe" ou "Coca" em certos locais no Brasil e Portugal.

 

BRAGA: FESTAS DE SÃO JOÃO CELEBRAM O SOLSTÍCIO DE VERÃO

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Pelo São João celebra-se o solstício do Verão. Salta-se a fogueira pelo São João. Brinca-se com alcachofras e martelinhos, tréculas e zaquelitraques, canta-se e dança-se em roda. Pela calada da noite, invadem-se os quinteiros, assaltam-se as eiras e roubam-se vasos com plantas, carroças e carros de bois para seguidamente os levar para o centro da povoação. São as festas são-joaninas, assim designadas em virtude da Igreja Católica ter atribuído a esta data o nascimento de S. João Baptista, uma reminiscência de antiquíssimos rituais pagãos relacionados com o Solstício de Verão e ainda com a adoração do fogo. De resto, o fogo adquiriu desde sempre um carácter sagrado ao ponto de ter sido deificado.

No Porto e em Braga, as suas gentes vivem as festas são-joaninas com particular intensidade. O Barredo e a Ribeira no Porto enchem-se de povo e a alegria e animação dura até de madrugada. Em Lisboa, as festas solsticiais abrangem todo o mês de Junho, associando S.Pedro e S.António aos festejos de S.João. O nascimento de S. António em Lisboa deve ter contribuído para que os festejos lhe tenham sido dedicados, popularizado ao ponto de muitas pessoas pensarem erradamente ser ele o patrono desta cidade.

Desde tempos remotos, o homem celebrava a chegada do Verão acendendo enormes fogueiras, cantando e dançando em seu redor. É a chegada do lume novo, um rito cuja sacralidade original se foi perdendo e que chegou até nós, transmitido de geração em geração, assegurada pela própria tradição.

Entre os gregos e os romanos, competia às Vestais - sacerdotisas dos templos dedicados a Vesta - a tarefa de preservar aceso o fogo sagrado. Entre nós, persiste o costume de acender o lenho na noite de Natal ou na passagem do ano e o círio pela Páscoa. Manda a tradição católica que, à beira da pia batismal, os padrinhos transportam a vela acesa quando o batizado não o pode fazer se ainda for demasiado jovem. Mas, fá-lo-á quando chegar a altura de confirmar o seu batismo cristão. É que o fogo é a luz que nos ilumina e mostra a Verdade e a Vida. É ainda o fogo que nos aquece e afaga a nossa rude existência, elemento purificador que constitui um dos quatro elementos - os outros são a Terra, o Ar e a Água.

Mas o fogo é também festa. Desde a sua descoberta, aprendeu o Homem aprendeu a produzi-lo e manipular ao ponto de conseguir iluminar os céus e a terra com uma verdadeira constelação de alegria, salpicando-o de lágrimas e girândolas de cores e formas variadas, compondo na abóboda celestial um autêntico hino ao Criador. Afinal de contas, foi Ele quem pela primeira vez nos enviou o fogo sob a forma de um raio ou cuspiu das entranhas de um vulcão - eis o gesto primordial da criação que é ritualizado pelo homem desde os tempos em que Adão e Eva foram expulsos do paraíso por um anjo que empunhava uma espada de fogo.

É tempo de proceder à ceifa do trigo, do centeio e da cevada, de sachar o milho, sulfatar a vinha e crestar o mel das colmeias. Mas também é altura de festejar o S. João e saltar a fogueira. Desde o solstício de Verão até ao equinócio do Outono, é tempo de festa, de estúrdia e de arraial. E, a fazer jus à fama da pirotecnia, não há verdadeiramente festa sem o luminoso colorido do fogo-de-artifício e o estardalhaço dos foguetes. O folclore do nosso povo conserva raízes que nos transportam à origem da própria civilização humana.

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CHEGOU A PRIMAVERA!

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A Primavera, de Botticelli

O Equinócio da Primavera ocorreu hoje, dia 20 de março. Este instante marca o início da Primavera no Hemisfério Norte.

A partir daqui até ao início do outono, o comprimento do dia passa a ser maior do que a duração da noite, devido ao Sol percorrer um arco mais longo e mais alto no céu todos os dias, atingindo uma altura máxima no início do Solstício de Verão. É exatamente o oposto no Hemisfério Sul, onde o dia 20 de março marca o início do Equinócio de Outono.

O Equinócio da Primavera encontra-se intimamente associado a tradições dos povos como a celebração da Páscoa, a Serração da Velha, o Ramadão, a Queima do Judas e muitas outras com origem nas mais diversas culturas, quase sempre originárias de ancestrais rituais pagãos.

Na Páscoa, o Cristianismo celebra a morte e ressurreição de Jesus Cristo, o que faz desta festividade porventura a mais importante e de maior significado para os cristãos. Com efeito, é a crença na ressurreição de Jesus Cristo que distingue a fé cristã em relação a outras confissões religiosas. Foi apenas no século II que a Igreja Católica fixou a Páscoa no domingo, sem a menor referência à celebração judaica. Sucede que Jesus Cristo, segundo o calendário hebraico, terá morrido em 14 de Nissan, precisamente o início do Pessach ou seja, o mês religioso judaico que marca o início da Primavera.

Com efeito, de acordo com a tradição judaica, a Páscoa provém de Pessach que significa passagem e evoca a fuga dos judeus do Egipto em busca da Terra Prometida. Na realidade, tal significação remonta a raízes ainda mais ancestrais, concretamente às celebrações pagãs que ritualizavam a passagem do Inverno para a Primavera ou seja, as festas equinociais associadas à fertilidade e ao renascimento dos vegetais.

Tais celebrações eram antecedidas pela Serração da Velha, o Entrudo e as saturnais que originaram as festividades de Natal. Mas, as novas religiões monoteístas alicerçaram-se sobre as ruínas das crenças antigas e, por cima dos antigos santuários pagãos ergueram-se as novas catedrais românicas e góticas. Da mesma forma que, sobre as ruínas dos velhos castros foram construídos os castelos medievais. E, assim, também as celebrações pagãs se revestiram de novas formas mais de acordo com novas conceções religiosas e se cristianizaram, adquirindo uma nova simbologia e significação.

Subsistem, no entanto, antigas usanças que denunciam as origens pagãs da festividade pascal associadas a costumes importados da cultura anglo-saxónica que, em contacto com as tradições judaico-cristãs originam um sincretismo que conferem à celebração pascal uma conceção religiosa bastante heterodoxa. É o que se verifica, nomeadamente, com toda a simbologia associada ao coelho e aos ovos da Páscoa, sejam eles apresentados sob a forma de chocolate, introduzidos nos folares ou escondidos no jardim, rituais estes ligados à veneração praticada pelos nórdicos a Ostera, considerada a deusa da fertilidade e do renascimento, por assim dizer a “deusa da aurora”.

Em todos os casos, tais celebrações indiciam o culto solar, desde o Solstício de Inverno – Natale Solis Invicti – até à festividade do Equinócio da Primavera que assinala o nascimento do novo ano solar!

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Foto: Observatório Astronómico de Lisboa

LUPERCÁLIA – AS ORIGENS PAGÃS DO DIA DOS NAMORADOS

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Lupercalia era uma festa pastoral da Roma Antiga celebrada anualmente no dia 15 de fevereiro para purificar a cidade, promovendo a saúde e a fertilidade. Lupercalia também era conhecida como dies Februatus, em homenagem aos instrumentos de purificação chamados februa, a base para o mês chamado Februarius - Fevereiro.

O festival era originalmente conhecido como Februa ("Purificações" ou "Purificações") após o februum que foi usado no dia. Também era conhecido como Februatus e deu seu nome de várias maneiras, como epíteto de Februalis, Februlis ou Februata em seu papel como divindade padroeira daquele mês; a uma suposta divindade purificadora chamada Februus; e até fevereiro (mensis Februarius), o mês em que ocorreu o festival. Ovídio conecta februare a uma palavra etrusca para "purgar". Algumas fontes conecte a palavra latina para febre (febris) com a mesma ideia de purificação ou purgação, devido ao "suor" comumente associado às febres.

Os ritos se restringiam à caverna de Lupercal, ao Monte Palatino e ao Fórum, todos locais centrais no mito de fundação de Roma. Perto da caverna ficava um santuário de Rumina, deusa da amamentação; e a figueira selvagem (Ficus Ruminalis) para a qual Rômulo e Remo foram trazidos pela intervenção divina do deus-rio Tiberino ; algumas fontes romanas chama figueira selvagem caprificus, literalmente "figo-cabra". Assim como a figo cultivada, seu fruto é pendular, e a árvore exala uma seiva leitosa se cortada, o que a torna uma boa candidata ao culto da amamentação.

O festival Februa era de origem antiga e possivelmente sabina. Depois que fevereiro foi adicionado ao calendário romano, Februa ocorreu em seu décimo quinto dia. De seus vários rituais, o mais importante passou a ser o da Lupercalia. Os próprios romanos atribuíram a instigação da Lupercalia a Evander , um herói cultural da Arcádia que foi creditado por trazer o panteão olímpico, as leis gregas e o alfabeto para a Itália, onde fundou a cidade de Pallantium no futuro local de Roma, 60 anos antes da Guerra de Tróia.

A Lupercalia era celebrada em partes da Itália e da Gália; Luperci são atestados por inscrições em Velitrae, Praeneste, Nemausus (Nimes, atualmente), e em outros lugares. O antigo culto dos Hirpi Sorani ("lobos de Soranus", de Sabine hirpus "lobo"), que praticava no Monte Soracte , 45 km ao norte de Roma, tinha elementos em comum com a Lupercalia romana.

O nome Lupercalia era considerado na antiguidade para evidenciar alguma conexão com o festival grego antigo da Lykaia arcadiana, um festival do lobo (em grego: λύκος, lýkos; em latim: lupus), e a adoração de Lycaen Pan, considerado um equivalente grego de Fauno, conforme instituído por Evandro. Justino descreve uma imagem de culto do "deus licau, a quem os gregos chamam de Pã e os romanos de Lupercus", nu, exceto por um cinto de pele de cabra. A estátua ficava no Lupercal, a caverna onde a tradição afirma que Rômulo e Remo foram amamentados pela loba (Lupa). A caverna ficava no sopé do Monte Palatino, onde Rômulo teria fundado Roma. O nome do festival provavelmente deriva de lúpus, "lobo", embora a etimologia e seu significado sejam obscuros. Apesar da afirmação de Justin, nenhuma divindade chamada "Lupercus" foi identificada.

As descrições do festival Lupercalia de 44 a.C atestam sua continuidade; Júlio César usou-o como pano de fundo para sua recusa pública de uma coroa de ouro oferecida a ele por Marco Antônio. A caverna Lupercal foi restaurada ou reconstruída por Augusto , e especula-se que seja idêntica a uma caverna descoberta em 2007, 15 metros abaixo dos restos da residência de Augusto; de acordo com o consenso acadêmico, a gruta é um ninfeu , não o Lupercal. O festival Lupercalia é marcado em um calendário de 354 ao lado de festivais tradicionais e cristãos.

Fonte: Wikipédia

PONTE DE LIMA: O RIO LIMA E A VISÃO MÍTICA DO HADES – CRÓNICA DE CARLOS GOMES

PONTE DE LIMA RECONSTRÓI AÇUDE DO RIO LIMA - BLOGUE DO MINHO

Quando no ano 163 Antes de Cristo, as legiões romanas comandadas por Decimus Julius Brutus chegaram à margem esquerda do rio Lima, elas temeram atravessá-lo por acreditarem tratar-se do mítico rio do esquecimento e, ao transporem-no, esquecerem-se para sempre da sua pátria e de si mesmos. Tal superstição foi desfeita quando o tribuno romano atravessou o rio e, da outra margem, chamou todos os seus soldados pelo seu próprio nome.

O sítio escolhido pelas legiões romanas para atravessar o rio Lima foi naturalmente aquele que entretanto entenderam por mais adequado para construírem a ponte que liga as duas margens, um troço da qual veio a ser reconstruído ao tempo do rei D. Pedro I em virtude de ter sido derrubado pelas fortes correntes.

Foi também o local onde mais tarde veio a nascer a vila de Ponte de Lima – no sítio exacto onde a ponte que servia a estrada militar via XIX que constava do Itinerário de Antonino e que ligava Bracara Augusta (Braga a Astúrica Augusta (Astorga), passando por Lugo e Tui, se cruza com o rio como duas importantes vias de comunicação à época! – e em relação ao qual os romanos baptizaram por Lethes, numa clara alusão ao mítico Lethes, um dos cinco rios que na mitologia grega banhava o Hades, representando a passagem da vida para a morte através de uma barca conduzida por Caronte.

A travessia era paga e, a comprová-lo, as moedas encontradas em muitas sepulturas romanas, colocadas na boca do defunto para garantir o seu pagamento.

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Interpretação do século XIX da travessia do rio Lethes por Caronte, por Alexander Litovchenko.

Segundo a mitologia grega, o rio Lethes era um dos cinco rios que banhava o Hades. A passagem da vida para a morte constituía a travessia feita do rio Lethes – o rio do esquecimento – através de uma barca conduzida por Caronte. Foi aliás, baseado nesta crença que Gil Vicente escreveu os seus autos, mormente o Auto da Barca do Inferno.

Também Dante, na Divina Comédia, na segunda parte da obra dedicada ao Purgatório, descreve o Lethes como um rio de cujas águas os pecadores tinham de beber para apagarem da memória os seus pecados cometidos e, desse modo, entrarem no Paraíso.

Porém, uma das mais conhecidas descrições do Hades e, consequentemente do rio Lethes constitui a versão apresentada pelo poeta épico Homero na Ilíada e na Odisseia.

Como é sabido, os romanos assimilaram a cultura dos gregos, atribuindo novas denominações às suas divindades. Na Grécia antiga, Lethes significava literalmente “esquecimento”, constituindo um dos cinco rios que banhavam o Hades. Os demais eram o Aqueronte (rio da dor), Cocito (lamento), Flegetonte (fogo) e Estige (invulnerabilidade), os quais faziam a fronteira entre os mundos superiores e inferiores. Lete é também uma das náiades, filha da deusa Eris, senhora da discórdia, irmã de Algea, Limos, Horcos e Ponos.

A origem etimológica da palavra Inferno provém do latim infernum ou inferus e que significa literalmente “profundezas”, “lugares baixos”, aludindo a um local de sepultura. O equivalente ao termo hebraico sheol, não existindo nela qualquer indicação de local de fogo e tormento a que os maus estavam condenados. Aliás, tal ideia só veio a ser concebida por associação com a Geena – o vale de Hinom, fora das muralhas de Jerusalém – que era usado como lixeira e onde também eram lançados os cadáveres de pessoas consideradas indignas, sendo utilizado o enxofre para manter o fogo aceso e queimar o lixo. De resto, o termo Geena ocorre doze vezes nas Escrituras Sagradas, tendo Jesus usado o vale de Hinom para representar a destruição eterna.

Em Lucas (12:5), o evangelista refere-se à Geena com as seguintes palavras: “Mas, eu vos indicarei quem é para temer: Temei aquele que, depois de matar, tem autoridade para lançar na Geena. Sim, eu vos digo temei a Este”. E assim surgiu o Inferno como um local de padecimento!

Para trás ficou – qual rio do Esquecimento! – a crença no mítico rio Lethes que, séculos após a chegada das legiões romanas, passou a ser local de atravessamento de milhares de peregrinos, através da ponte que os romanos ali ergueram, com destino a Compostela para ali venerarem o apóstolo São Tiago Maior que, depois de ter andado pelo Minho – Braga, Guimarães e Rates – a tentar converter os pagãos, veio mais tarde segundo a tradição cristã a ser sepultado no local onde entretanto foi erguida a monumental catedral na Galiza.

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António Feijó

Também designado de Belion e pelo historiador e geógrafo grego Estrabão identificado como o mítico Lethes, o rio Lima continua a ser cantado pelos poetas, tendo em António Feijó porventura um dos seus maiores bardos:

Nasci á beira do Rio Lima,

Rio saudoso, todo crystal;

D'ahi a angustia que me victima,

D'ahi deriva todo o meu mal.

 

É que nas terras que tenho visto,

por toda a parte por onde andei,

Nunca achei nada mais imprevisto,

Terra mais linda nunca encontrei.

 

São águas claras sempre cantando,

Verdes colinas, alvôr d'areia,

Brancas ermidas, fontes chorando

Na tremulina da lua - cheia...

JORNAL INGLÊS “THE TELEGRAPH” DESTACA O MINHO NA SUA EDIÇÃO DO ...

JANEIRO EVOCA O DEUS JANO

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Festejos de 1 de janeiro evocam Jano, divindade pagã que representava os portões e os começos

Corria o ano 46 antes da Era Cristã quando o ditador romano Júlio César decretou o dia 1 de janeiro como o dia de Ano Novo, consagrando os romanos o mês de janeiro a Jano, deus dos portões e dos começos, daí derivando a designação do mês de janeiro que perdura até aos nossos dias.

Jano é representado com duas faces, uma das quais olhando o passado e a outra voltada para o futuro.

A celebração deste dia ocorre geralmente entre todos os povos que possuem um calendário anual, podendo no entanto o mesmo ser celebrado em ocasiões diversas em consequência das diferenças existentes entre os calendários nas várias culturas.

ODIN OU AS ORIGENS NÓRDICAS DO PAI NATAL

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A gravura é uma representação de Odin, divindade da mitologia nórdica da qual se originou a figura do “Pai Natal”.

Odin, rei do Asgard na mitologia nórdica, é para os povos escandinavos o mesmo que Zeus e Júpiter foram respectivamente para os gregos e os romanos. Quando não habita o seu palácio dourado, o Gladsheim, Odin, ou Woden encontra-se no Valhala que é o "salão dos mortos", entre os heróis e onde pontificam as formosas valquírias a quem compete manter permanentemente cheios os vasos de bebida que são feitos de chifre. É ainda às valquírias que compete eleger os heróis e decidir a sua sorte no campo de batalha, quem haverá de morrer e, finalmente, conduzir os bravos ao Valhala. "Val" significa morto.

Por seu turno, Odin possui como companheiros inseparáveis dois corvos - Hugin e Munin - que representam respectivamente o Pensamento e a Memória, os quais voam diariamente através do mundo para lhe levarem as notícias acerca dos actos cometidos pelos humanos. Uma vez convenientemente informado pelos seus corvos, Odin parte num trenó puxado por renas levando consigo presentes com que irá recompensar as boas acções praticadas ao longo do ano. Eis o mito que verdadeiramente se encontra na origem da fabulosa crença do "Pai Natal", séculos mais tarde adaptado pela Igreja Católica a uma versão mais cristianizada, com a substituição de Odin por um corpulento bispo que também distribuía presentes - São Nicolau. Em qualquer dos casos, trata-se de um enxerto efectuado na nossa cultura cujas tradições, durante séculos, apenas conheceram a veneração ao "menino Jesus".

São Nicolau nasceu por volta do ano 260 na cidade portuária de Patara, atual Turquia e falava grego. Atualmente é celebrado como Santo padroeiro de Rússia, Grécia e Noruega, patrono das cidades de Moscovo e Amesterdão.

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Nicolau de Bari procurou cristianizar uma tradição pagã de origem nórdica, a qual não possui quaisquer raízes bíblicas.

NATALE SOLIS INVICTI OU O SOLSTÍCIO DO INVERNO

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Hoje ocorreu o Solstício de Inverno

Todo o mundo cristão celebra por esta altura o nascimento de Jesus, não obstante desconhecerem-se quaisquer referências históricas ou bíblicas que mencionem a data em que tal acontecimento se verificou. Por conseguinte, o Natal é festejado a 25 de Dezembro ou a 7 de Janeiro de acordo com as tradições católica ou ortodoxa, em virtude da adoção dos calendários juliano ou gregoriano. Ora, é nesta ocasião que ocorre o solstício do inverno ou nascimento do sol, precisamente a altura em que os raios solares deixam de decrescer e passam de a aumentar, fazendo de novo crescer os dias em relação às noites.

Desde a mais remota antiguidade que o ser humano adorou o sol, deificando-o e atribuindo-lhe a primazia sobre as demais divindades. Tal sucedeu na Caldeia, na Palestina e no Egipto, aqui adorado sob o nome de Ra. Na antiga Pérsia e na Índia, o deus Sol era designado por Mitra tendo o seu culto dado origem ao mitraísmo que viria mais tarde a rivalizar com o cristianismo a sua influência no Império romano, acabando por vir a sucumbir com a sua queda e mais tarde acabando por desaparecer por completo com o avanço do islamismo na Pérsia. Antes, porém, o mitraísmo fora assimilado pelos gregos e espalhou-se por todo o Império romano. O deus Mitra era geralmente representado por um jovem com um boné frígio, túnica e manto sobre o ombro esquerdo. Esta religião era superiormente dirigida por um sumo pontífice a os seus sacerdotes ostentavam sobre a cabeça uma mitra. Curiosamente, trata-se do chapéu com que os bispos se apresentam quando envergam as vestes pontificais, tendo a sua origem na Pérsia e no Egipto, correspondendo ao turbante e por conseguinte aludindo à adoração de Mitra.

Não admira, pois, que ao culto solar tenha sido sobreposta a adoração ao menino Jesus, sendo-lhe atribuída a data do seu nascimento precisamente numa altura em que os romanos celebravam o natale solis invicti consagrado ao deus Sol, à semelhança do que se verifica com inúmeras festividades pagãs que foram de algum modo adaptadas e "convertidas" à crença cristã. Na mesma ocasião realizavam os romanos as saturnais ou saturnálias que, como o próprio nome indica, eram festividades consagradas a Saturno, trocavam de presentes e organizavam um banquete público, aspetos que de alguma forma podemos relacionar com as tradicionais "festas dos rapazes" em várias localidades de Trás-os-Montes. Aliás, o culto a Saturno chegou a ser muito difundido na Península Ibérica, tendo diversos escritores da antiguidade referindo-se à existência de santuários entre os quais se supõe ter havido um na Ínsua do rio Minho, um local onde atualmente as gentes locais vão em peregrinação ao Senhor Jesus dos Mareantes, fazendo festa rija em Agosto. Saturno era o deus protetor dos semeadores e das sementes, pelo que os romanos acreditavam que durante as saturnais regressava a abundância, assegurando a fertilidade durante essa época do ano.

Ainda em relação ao mitraísmo, também este possuía extraordinárias semelhanças com o cristianismo, entre as quais a crença no céu e no inferno, na ressurreição, nos pastores que tal como os reis magos ofereciam presentes, no dilúvio, na santificação do domingo, na prática da confissão e da comunhão e, finalmente, a própria celebração do 25 de Dezembro!

A celebração do nascimento de Jesus constitui atualmente uma festa que é vivida com grande intensidade pelo povo português e que, apesar da sua significação profundamente religiosa, também não escapa às regras de funcionamento de uma sociedade mercantilizada, virada cada vez mais para os interesses materiais em detrimento dos valores espirituais. Não obstante, as festividades da quadra natalícia encontram-se profundamente enraizadas no nosso folclore revelando-se através das mais diversas manifestações de cariz popular, na gastronomia, na música, nas lendas e de um modo geral em todos os aspetos que envolvem tais celebrações. Não obstante, temos principalmente nos últimos tempos vindo a constatar que tradições oriundas de outros países têm vindo a substituir alguns costumes genuínos do nosso povo, como sucede com a reverência ao "Pai Natal", agora destituído para dar lugar a S. Nicolau, quando outrora as festividades decorriam exclusivamente em torno do "menino Jesus". Da mesma forma que o tradicional presépio cedeu o lugar ao nórdico pinheiro de Natal enfeitado com flocos de neve, mesmo em locais onde jamais nevou...

ORIGENS E SIGNIFICADO DA COROA DO ADVENTO

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A Coroa do Advento constitui um dos símbolos da época do Natal a anunciar o nascimento do Messias. Nos domingos do Advento, considerado o primeiro tempo do Ano Litúrgico correspondendo às quatro semanas que antecedem o Natal, as quais surgem representadas nas quatro velas. A família reúne-se à sua volta para rezar e celebrar. Seguindo a sua liturgia, é acesa a vela que corresponde à respectiva semana, entoando cânticos e fazendo leitura de passagens da Bíblia alusivas ao Advento.

As origens desta tradição remontam a antigos ritos colares praticados pelos povos europeus através dos quais celebravam o nascimento do Sol ou seja, o solstício de Dezembro, os quais vieram mais tarde a dar origem às saturnais romanas.

A sua forma circular representava precisamente a divindade solar que ocupava um lugar central em todos os ritos pagãos e está presente nas danças de roda que os povos sempre executaram desde as suas origens mais remotas.

Durante o inverno, os povos faziam fogueiras que, simbolizando a luz e o calor em cujo regresso se depositavam as esperanças, aparecem simbolizadas nas velas que fazem parte dos rituais da nossa fé.

Com efeito, através do rito, os povos antigos celebravam a acção criadora dos Deuses, assegurando dessa forma a ininterrupção do ciclo da vida e da morte num perpétuo renascimento e conferindo ao ritual um cunho de magia.

Porém, a religiosidade pagã ou seja, do camponês, cedeu o lugar ao Cristianismo e a novas formas de espiritualidade. E, desse modo, também a Coroa do Advento adquiriu uma nova simbologia e um novo significado.

Para o cristão, a infinidade do círculo representado na forma circular da Coroa do Advento representa o amor de Deus e a sua eternidade, bem assim como a aliança entre Deus e o Homem.

Os seus ramos verdes simbolizam a Esperança e a Vida na crença da Vida Eterna e da Ressurreição que constitui precisamente aquilo que distingue o verdadeiro cristão.

CRENÇAS E SUPERSTIÇÕES DO INVERNO

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Crenças e superstições em Novembro

Desde sempre o Homem acreditou na possibilidade dos mortos intercederem na acção criadora dos deuses e no próprio ciclo da natureza, contribuindo inclusivamente para o renascimento dos vegetais e das culturas que os demónios e maus espíritos do inverno fizeram desaparecer. Esta crença está na origem de uma infinidade de práticas relacionadas com o culto dos mortos que regra geral se iniciam em Novembro e prolongam-se até à Serração-da-Velha, atravessando as cerimónias solsticiais ou “saturnais” e os festejos carnavalescos.

Naturalmente, os ritos variam consoante as celebrações em causa mas conservam entre si uma finalidade comum que é o de assegurar que o ciclo da vida e da morte não se interrompa, possibilitando por conseguinte que ao inverno suceda impreterivelmente a primavera. De acordo com as investigações feitas no domínio da arqueologia e da antropologia, acredita-se que as práticas do culto dos mortos tiveram o seu começo na fase de transição da pedra lascada para a pedra polida, sendo disso testemunho os inúmeros monumentos funerários como os dolméns ou antas, inscrições votivas e outros achados. O folclore trouxe até nós inúmeros vestígios desse modo de pensar e dos cultos praticados pelos nossos ancestrais, devendo por esse modo constituir uma importante fonte de estudo.

VILA PRAIA DE ÂNCORA E O DÓLMEN DA BARROSA – O CULTO DOS MORTOS E A ACÇÃO CRIADORA DOS DEUSES

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Desde sempre o Homem acreditou na possibilidade dos mortos intercederem na acção criadora dos deuses e no próprio ciclo da natureza, contribuindo inclusivamente para o renascimento dos vegetais e das culturas que os demónios e maus espíritos do inverno fizeram desaparecer.

Esta crença está na origem de uma infinidade de práticas relacionadas com o culto dos mortos que regra geral se iniciam em Novembro e prolongam-se até à Serração-da-Velha, atravessando as cerimónias solsticiais ou "saturnais" e os festejos carnavalescos.

Naturalmente, os ritos variam consoante as celebrações em causa mas conservam entre si uma finalidade comum que é o de assegurar que o ciclo da vida e da morte não se interrompa, possibilitando por conseguinte que ao inverno suceda impreterivelmente a primavera.

De acordo com as investigações feitas no domínio da arqueologia e da antropologia, acredita-se que as práticas do culto dos mortos tiveram o seu começo na fase de transição da pedra lascada para a pedra polida, sendo disso testemunho os inúmeros monumentos funerários como os dolméns ou antas, inscrições votivas e outros achados. Não admira, pois, que sejam precisamente os monumentos funerários desde sempre os mais visitados pelo seu interesse artístico e patrimonial, marcando cada época histórica e constituindo roteiros culturais.

Pão por Deus ! - pedem as crianças na região saloia, percorrendo as casas em alegre peditório. A ladaínha varia contudo de uma região para outra. Por exemplo, para os lados de Braga é costume dizer-se do seguinte modo: "Bolinhos, bolinhós, / Para mim e para vós / E para quem está debaixo da cruz / Truz truz".

Por esta ocasião, as pessoas cumprem o ritual da visita aos cemitérios e cuidam das sepulturas dos seus entes queridos. Mas, também em casa é costume em muitas localidades, após a ceia, deixar até ao dia seguinte a mesa composta de iguarias para que os defuntos possam banquetear-se.

Nalgumas localidades, na noite de Todos-os-Santos, coloca-se uma mesa com castanhas para os familiares falecidos, as quais ninguém tocará porque ficam “babadas dos defuntos”. Da mesma forma que o azeite que alumia os defuntos jamais alumiará os vivos. Entre alguns povos do leste europeu conserva-se ainda a tradição de organizar o festim no próprio cemitério a fim de que todos em conjunto – mortos e vivos – possam confraternizar !

A partir desta época do ano, as noites das aldeias são povoadas por criaturas extraordinárias que surgem nas encruzilhadas e amedrontam os notívagos. Uívam os lobos nas serranias enquanto as bruxas – quais sacerdotisas do paganismo – reunem-se sob as pontes em locais ermos.

Aconselha a prudência que ao gado se prendam pequenas saquinhas de amuletos que o resguardem do “mau olhado”. O serão é passado junto à lareira, no afago do lume, escutando aos mais antigos estória que nos embalam num mundo de fantasia povoado por seres sobrenaturais. E, quando finalmente chegada é a hora de dormir, manda o costume fazer o sinal-da-cruz para que o demónio não nos apoquente e a manhã do dia seguinte nasça radiosa a anunciar uma vida nova.

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ESTÃO DE VOLTA OS MAGUSTOS: NO DIA DE SÃO MARTINHO VAI À ADEGA E PROVA O VINHO… VERDE!

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Escultura do ceramista José Franco representando o deus Baco.

Fazendo juz ao rifão "pelo S. Martinho, vai à adega e prova o vinho", cumpre-se invariavelmente em Novembro o ritual dionisíaco do S. Martinho. É chegada a altura de inspeccionar os vinhos das últimas colheitas verificando se fermentaram como deviam. Mas é também tempo de magusto com castanhas assadas ou cozidas devidamente regadas com vinho novo, a água-pé e geropiga. Após as avés-marias, a taberna da aldeia adquire uma animação orgíaca muito peculiar que lhe é conferida pelo elevado número de fiéis que ali acorre enquanto o taberneiro, qual sacerdote dionisíaco que altivo se perfila por detrás da ara do balcão como se de um altar se tratasse, serve uma após outra sucessivas rodadas de verdasco numa inebriante comunhão eucarística. A taberna é nos nossos dias como que um templo dedicado a Baco onde o culto é praticado livremente pelos seus iniciados, embora expurgado dos excessos com que tais festins ocorriam ao tempo da Roma antiga. 

Como não podia deixar de acontecer, S. Martinho é bastante celebrado no nosso país, particularmente em localidades onde a tradição vinícola mais se faz sentir, algumas das quais lhe consagram inclusivamente feriado municipal. Alijó, Penafiel, Pombal, Torres Vedras e Golegã são disso alguns exemplos. É ainda à famosa lenda segundo a qual, S. Martinho de Tours vendo em pleno Inverno um pobre completamente despido tiritando de frio o agasalhou com metade da sua capa que cortou com a própria espada, que se atribui a origem do chamado "Verão de São Martinho" que geralmente ocorre nesta altura do ano. 

MINHO FESTEJA A SÃO MARTINHO – AI VERDINHO, MEU VERDINHO!

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Escultura do ceramista José Franco representando o deus Baco.

Fazendo juz ao rifão "pelo S. Martinho, vai à adega e prova o vinho", cumpre-se invariavelmente em Novembro o ritual dionisíaco do S. Martinho. É chegada a altura de inspeccionar os vinhos das últimas colheitas verificando se fermentaram como deviam. Mas é também tempo de magusto com castanhas assadas ou cozidas devidamente regadas com vinho novo, a água-pé e geropiga. Após as avés-marias, a taberna da aldeia adquire uma animação orgíaca muito peculiar que lhe é conferida pelo elevado número de fiéis que ali acorre enquanto o taberneiro, qual sacerdote dionisíaco que altivo se perfila por detrás da ara do balcão como se de um altar se tratasse, serve uma após outra sucessivas rodadas de verdasco numa inebriante comunhão eucarística. A taberna é nos nossos dias como que um templo dedicado a Baco onde o culto é praticado livremente pelos seus iniciados, embora expurgado dos excessos com que tais festins ocorriam ao tempo da Roma antiga. 

Como não podia deixar de acontecer, S. Martinho é bastante celebrado no nosso país, particularmente em localidades onde a tradição vinícola mais se faz sentir, algumas das quais lhe consagram inclusivamente feriado municipal. Alijó, Penafiel, Pombal, Torres Vedras e Golegã são disso alguns exemplos. É ainda à famosa lenda segundo a qual, S. Martinho de Tours vendo em pleno Inverno um pobre completamente despido tiritando de frio o agasalhou com metade da sua capa que cortou com a própria espada, que se atribui a origem do chamado "Verão de São Martinho" que geralmente ocorre nesta altura do ano. 

Uma vez provados os vinhos e realizados os tradicionais magustos, é também tempo colher a azeitona e levá-la ao lagar, de iniciar a sementeira do trigo e do centeio, plantar cerejeiras e amendoeiras, damasqueiros e videiras, semear os agriões e colocar estacas nas plantas que possam ser afectadas com os ventos fortes de inverno. Em breve chegará o Dezembro e com ele as festas solsticiais e do nascimento de Cristo, as filhozes e as rabanadas, a missa do galo e as zambumbas.

AS BRUXAS SÃO AS SACERDOTISAS DO PAGANISMO – AMANHÃ É SEXTA-FEIRA 13

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Quais sacerdotisas dos ritos próprios do culto pagão, as chamadas bruxas desde sempre povoam o nosso imaginário, associado ao mal e representando figuras demoníacas que ao longo dos séculos foram inculcadas nas nossas mentes pela religião Cristã que entre nós viria a impor-se ao paganismo. Tal como a figura de Pã, deus dos bosques, dos campos, dos rebanhos e dos pastores veio ao longo da Idade Média a ficar associada à do Diabo transfigurado na dama pé-de-cabra.

Proveniente do latim paganus que significa literalmente camponês ou rústico, o paganismo constitui uma forma de expressão religiosa em íntima comunhão com os fenómenos da natureza e profundamente ligado às necessidades espirituais do indivíduo inserido no mundo rural. Prova evidente dessa realidade constitui as tradições que respeitam aos ritos do inverno e ao culto dos mortos, desde os peditórios de “Pão Por Deus” até à “Serração da Velha”, passando pela celebração do solstício de Inverno e o Entrudos, celebrações quase todas convertidas em celebrações cristãs como o Natal, como se de festividades pagãs não se tratassem a sua origem. O mesmo sucede com outras festividades como o Solstício de Verão, com os seus ritos associados ao fogo e transformados em festividades são-joaninas.

Existem entre nós vestígios de antigos santuários pagãos como a do deus Endovélico na região do Alandroal, registando a própria toponímia a sua ancestral influência como sucede com a serra do Larouco, proveniente do deus Laraucus.

Porém, no ano 312 deu-se a alegada conversão do Imperador Constantino ao Cristianismo e, a partir do ano 392, passou o paganismo a ser proibido no Império Romano e consequentemente reprimido e perseguido, sendo essas medidas agravadas com a pena de morte a partir de 435 para quem praticasse ritos envolvendo o sacrifício de animais. Não obstante, o paganismo continuou a praticar-se, de forma mais ou menos discreta, sobretudo entre as gentes que viviam no campo. E a conversão à nova religião trazida pelos invasores romanos não foi tarefa fácil, deparando-se com maiores dificuldades entre os povos de regiões com maior apego às mais ancestrais tradições como se verificou no Minho e em Trás-os-Montes.

Os antigos templos e santuários pagãos foram destruídos para em seu lugar serem erguidas igrejas, o mesmo sucedendo com as encruzilhadas dos caminhos rurais e outros locais de culto nas aldeias que deram lugar a cruzeiros e a pequenos nichos contendo retábulos com as “alminhas” do Purgatório que passaram espiritualmente a aterrorizar as mentes dos humildes camponeses, até então habituados a uma relação mais sadia com a natureza que os rodeavam. Os sacerdotes pagãos conferiram uma nova roupagem às festas pagãs, procurando por esse meio conferir-lhes um novo sentido.

Mas, ainda assim, a religiosidade pagã sobrevive ao lado da nova fé, traduzida na manutenção de velhas tradições como as máscaras transmontanas e as festas dos caretos, o entrudo e as fogueiras de S. João. E, mesmo no Minho onde aparentemente existe forte religiosidade cristã, o que se verifica realmente é uma verdadeira manifestação de exuberância que caracteriza o minhoto, mais não constituindo a festa cristã do que um pretexto para exteriorizar a sua alegria como uma forma de profunda comunhão com a vida e o meio que o rodeia, iluminada por magníficas girândolas de fogo-de-vistas que revelam o seu apego embora inconsciente a antigas práticas religiosas.

Devemos a tais práticas religiosas pagãs os nossos mais profundos conhecimentos de medicina popular no uso das mais variadas espécies botânicas, o saber da meteorologia baseado na observação constante dos fenómenos naturais e da própria astronomia transmitido de geração em geração através de axiomas, a riqueza da nossa gastronomia e um infinito universo de conhecimentos que fazem parte do rico património do nosso folclore.

Com o decorrer do tempo, as perseguições acentuaram-se, tornando-se mais implacáveis durante a Idade Média e sobretudo no período da Inquisição. As sacerdotisas do paganismo eram perseguidas sob a acusação de bruxaria, sempre associada a práticas identificadas com ritos satânicos e talentos que lhes permitiam voar sentadas em rudimentares vassouras…

Nos tempos que correm, tais feitos mais não passam de fantasias literárias e até antigos rituais ligados ao culto dos mortos foram pela sociedade de consumo transformados em motivos de diversão, tal como no passado foram associados ao mal. Mas, o certo é que as bruxas jamais deixaram de existir e o paganismo parece estar de volta!