Família minhota oriunda de Ponte de Lima numa taberna e carvoaria em Lisboa há mais de sessenta anos.
A segunda metade do século XIX caracterizou-se por uma época de grande desenvolvimento económico, traduzido nomeadamente com a introdução de melhoramentos técnicos nas fábricas e no desenvolvimento dos meios de transporte e comunicações. Foi o período da Regeneração iniciado com o ministério de Fontes Pereira de Melo.
Em 1856 era inaugurado o primeiro troço de caminho-de-ferro entre Lisboa e o Carregado e, oito anos depois, a linha do Norte atingia Vila Nova de Gaia. Em 1882 era concluída a linha do Minho até Valença. Dez anos mais tarde, as locomotivas a vapor chegavam às mais diversas regiões do país como a Beira Alta, o Algarve e o nordeste transmontano.
A prosperidade que então se verificou associada a recentes conquistas nos domínios da saúde e da higiene pública levaram a um súbito aumento da população um pouco por todo o país. Contudo, é a partir de 1860 que se acentua de forma assinalável o êxodo dos campos para a cidade. A importação de cereais provenientes dos Estados Unidos provoca o recuo da área cultivada nas grandes explorações alentejanas e diminui o trabalho sazonal nas Beiras. O oídio e a filoxera dizimam a vinha do Alto Douro e provocam a migração maciça dos trabalhadores da região. A quebra das exportações de gado bovino a partir de 1883 agravou as condições de sobrevivência no Minho e Douro Litoral.
O comboio fomentou a mobilidade das populações. Os movimentos migratórios internos e externos intensificaram-se. Em consequência do desenvolvimento industrial, assiste-se a um fluir contínuo de gente proveniente das zonas rurais para os centros urbanos, principalmente a capital, na busca de emprego e de uma melhoria de condições de vida. Lisboa e o Brasil constituíram-se como os principais pontos de destino escolhidos por aqueles que entretanto decidiram abandonar as suas terras de origem. Em Lisboa, a população duplicou em menos de cinquenta anos, passando de 210 mil habitantes em 1860 para quase 450 mil em 1911.
Do Minho vieram os pedreiros, carpinteiros e estucadores de Caminha e Viana do Castelo, os padeiros de Arcos de Valdevez e Ponte da Barca, os marujos, ervanários e tasqueiros de Monção, os taberneiros de Vila Nova de Cerveira, Valença, Paredes de Coura e Ponte de Lima que vieram a tornar-se conceituados comerciantes do ramo hoteleiro. Estes últimos foram antes descarregadores de carvão e lenha em Alcântara e Poço do Bispo, taberneiros e carvoeiros. Eram eles que faziam as "bolas" de carvão e cisco para alimentar os fogareiros. Depois, à medida que os seus vizinhos galegos se foram retirando, tomaram as tabernas e "casas de pasto" e foram-nas transformando nos modernos restaurantes e "snack-bares" que existem por toda a cidade. À excepção de alguns concelhos mais interiores como Terras de Bouro e Cabeceiras de Basto cujos naturais se empregaram preferencialmente na hotelaria e na construção civil, o êxodo das populações fez-se menos sentir no Distrito de Braga em virtude da criação naquela região de numerosas indústrias que possibilitaram a existência de postos de trabalho.
Para os bairros lisboetas de Alfama e Madragoa, este então designado por "Mocambo", vieram os de Ovar, Ílhavo, Murtosa e Pardilhó. Eles dedicaram-se à faina do mar enquanto elas vendiam o peixe ao mesmo tempo que enchiam a cidade com os seus pregões característicos. Tornaram-se conhecidas por "varinas" as peixeiras ovarinas que vieram para Lisboa. Esta gente formou ainda "colónias" em Almada, Trafaria e Costa da Caparica.
A limpeza urbana era feita pelos naturais do concelho de Almeida, trazidos para a capital por um seu conterrâneo que foi encarregado dos respectivos serviços camarários. Em virtude deste facto, foram os cantoneiros da capital durante muito tempo alcunhados por "almeidas". Para as vacarias que então existiam em Lisboa e nos seus arredores vieram os de Arganil, os quais depois se fizeram leiteiros e são actualmente muitos dos pasteleiros que existem na cidade. Eram eles que vendiam o leite transportando-o em bilhas de zinco enquanto os seus vizinhos padeiros do concelho de Tábua deixavam o pão às suas clientes, em sacas de pano que ficavam penduradas nas maçanetas das portas.
A construção civil ocupou as gentes de Alvaiázere, Ourém e, sobretudo de Tomar, devendo-se a estes últimos a construção das chamadas "avenidas novas". Não é alheio a este facto a localização da Casa do Concelho de Tomar. Durante muito tempo foram os naturais de Tomar alcunhados por "patos-bravos".
De um modo geral, os transmontanos empregaram-se na construção civil ou então ingressaram nas forças de segurança. No comércio de carnes encontramos bastantes naturais da região do Barroso. Invariavelmente, fizeram os seus estudos em seminários todos os transmontanos que em Lisboa têm conseguido posições de relevo.
Os algarvios fixaram-se principalmente na margem sul do rio Tejo, empregando-se na indústria corticeira e conserveira ou então no tráfego fluvial e nos trabalhos portuários. Os alentejanos por seu turno, um tanto "pau-para-toda-a-obra", dispersaram-se pelos mais variados ofícios, distribuindo-se preferencialmente pelas zonas da periferia, com especial incidência nos concelhos do Distrito de Setúbal.
De uma maneira geral, todas estas comunidades têm contribuído para o crescimento de Lisboa, fazendo da capital um autêntico mosaico formado por gentes de diversas proveniências mas que se encontram unidas pelos laços que fazem de todos nós um único povo".
- GOMES, Carlos. Regionalismo em Portugal. Casa do Concelho de Ponte de Lima. Lisboa. 1996
Foto: Coleção particular de Carlos Gomes. Reprodução mediante autorização.
No último sábado, dia 6 de julho, realizou-se a terceira e última sessão do seminário “Efeitos do Movimento Migratório das Gentes Rurais do Séc. XX e Retorno às Origens no Séc. XXI”, promovido pela Casa do Concelho de Tomar de Lisboa. O assunto em destaque foi a “Imigração”, procurando discutir o que leva Portugal a ser tão procurado por diversos cidadãos do mundo como destino para viver, estudar e investir. Foram discutidos também os principais desafios enfrentados por esses imigrantes, do ponto de vista da integração, bem como as oportunidades e os planos de ação existentes.
A mesa de honra contou com a presença do diretor do Jornal “Cidade de Tomar”, António Madureira; da presidente da Junta de Freguesia de Arroios, Madalena Natividade; de Carlos Galinha, presidente da Direção da Casa do Concelho de Tomar de Lisboa; de César Afonso, presidente da Mesa da Assembleia Geral da Casa do Concelho de Vinhais; e do jornalista luso-brasileiro Ígor Lopes, CEO da Agência Incomparáveis e colaborador da RDP Internacional, que também moderou o debate final. Por vídeo, participou Rosário Farmhouse, presidente da Assembleia Municipal de Lisboa.
Na plateia, diversas personalidades e nomes interessados no tema das migrações, como o Embaixador José Arsénio; José Amaral Lopes, presidente da Junta de Freguesia de Alvalade; João Bernardino, presidente da Confederação Portuguesa das Coletividades Cultura e Recreio e Desporto – CPCCRD; Ana Correia, presidente da Câmara de Comércio da Região das Beiras; João Costa, membro do executivo da Junta de Freguesia de Arroios; Rui Gonçalves, presidente da Direção da Casa do Concelho de Vinhais, além de associados, amigos e elementos da Direção da Casa de Tomar de Lisboa.
Na opinião de Madalena Natividade, presidente da Junta de Freguesia de Arroios, o certame foi “um momento de reflexão e partilha que reforçou o nosso compromisso com a fomentação de uma comunidade cada vez mais inclusiva e solidária”.
Segundo Carlos Galinha, presidente da entidade que recebeu esta iniciativa, o seminário ficou marcado por ser uma excelente oportunidade de “apresentação dos temas por partes dos palestrantes convidados e da interatividade do público, mostrando que o tema das migrações está intrinsecamente ligado à cultura portuguesa”.
“O Povo Português foi sempre um Povo que recebe bem e em todos os locais onde os Portugueses estão presentes conseguiram relacionar-se com outras povos, daí que o Público se interessasse por estes temas”, frisou Carlos Galinha, que sublinhou o empenho do Grupo de Trabalho deste seminário, composto pelo Embaixador José Arsénio, José Amaral Lopes, António Madureira, Pinho Neno, Ernesto Jana, Jaime Ferreira de Carvalho, César Afonso e o próprio Carlos Galinha.
Para Ígor Lopes, “eventos como este auxiliam na promoção de ações e políticas públicas de integração da comunidade estrangeira residente em Portugal, uma vez que é possível discutir oportunidades, mas também abordar os desafios europeus nesta matéria”.
Recorde-se que o seminário “Efeitos do Movimento Migratório das Gentes Rurais do Séc. XX e Retorno às Origens no Séc. XXI” decorreu em três sessões: 18 de maio, voltado para quem deixou as terras tomarenses rumo a Lisboa; 15 de junho, dedicado aos emigrantes, em que, em meio aos presentes, estava José Albano, diretor executivo do Programa Regressar do governo português; e 6 de julho, com foco no tema da imigração.
Fontes consultadas pela nossa reportagem disseram apoiar a realização do evento por parte da Casa do Concelho de Tomar de Lisboa, já que o tema das migrações continua na agenda política e social de Portugal-
Quem tinha a regressar às origens já regressou se ainda foi a tempo. Salvo poucas excepções, os filhos e netos daqueles já não nasceram na terra dos seus ancestrais, até porque já ninguém nasce em casa e as maternidades ficam longe das aldeias que foi de onde saíram os mais velhos sobretudo para Lisboa, principalmente dos concelhos mais empobrecidos e com dificuldade de fixação da população. Os mais novos estudam e seguem novas profissões na sua maioria. O “retorno” à terra dos seus pais dá-se ocasionalmente em período de férias. Muitos jovens qualificados emigram para outros países e, como sempre acontece, já não regressam definitivamente. E isto vai brevemente criar um grave problema demográfico. Julgo que a construção civil de que Tomar se destacou em Lisboa não terá muitos jovens para recrutar na Aldeia da Serra… agora vêm do Bangladesh! E as casas regionais, a meu ver, terão de se adaptar às novas realidades: as gerações mais recentes que, apesar de tudo, não esquecem as suas raízes. Serão eles os futuros sócios efectivos das casas regionais se estas quiserem sobreviver.
Dr Carlos Galinha, Presidente da Casa do Concelho de Tomar
Crónica de Ígor Lopes
Em Lisboa, Casa do Concelho de Tomar organiza Seminário sobre Migração Rural e suas implicações
A Casa do Concelho de Tomar (CCT), em Lisboa, vai organizar de maio a julho três encontros sobre a Migração Rural visando “promover um debate profundo e enriquecedor sobre os efeitos do movimento migratório das gentes rurais do século XX e o retorno às origens no século XXI”.
O seminário, intitulado "Efeitos do Movimento Migratório das Gentes Rurais do Século XX e Retorno às Origens no Século XXI", será composto por três sessões distintas, cada uma focando-se num aspeto particular.
A decorrer na sede da Casa do Concelho de Tomar, na capital portuguesa, nos meses de maio, junho e julho próximos, o evento pretende lançar luz sobre um tema de extrema relevância na realidade nacional, de modo a contribuir para uma compreensão mais profunda das dinâmicas migratórias e suas implicações no desenvolvimento pluridimensional da população daquela região portuguesa e não só.
A primeira sessão, marcada para 18 de maio de 2024, abordará o papel de “Lisboa como porto de abrigo da comunidade Tomarense". Em seguida, a 15 de junho de 2024, o debate centrar-se-á na "Emigração como fator de progresso". Por fim, a última sessão, agendada para 6 de julho de 2024, analisará a "Imigração no Século XXI".
Partindo do pressuposto que as migrações são motivadas por uma multiplicidade de fatores, incluindo razões económicas, sociais, culturais e ambientais, o seminário pretende compreender as causas, consequências e perspetivas desses movimentos populacionais.
Segundo nota da Casa do Concelho de Tomar, este será um momento de “pertinente reflexão” e “importante debate de ideias”, com a participação de especialistas e convidados palestrantes que apresentarão as suas dissertações sobre o tema.
“Será um momento de excelência para os convidados palestrantes poderem apresentar uma dissertação sobre os motivos, causas e impactos que levaram as suas gentes a decidir ir à procura de novos rumos, sendo que a dissertação preparada terá como fio condutor os temas do seminário, ´Efeitos do Movimento Migratório das Gentes Rurais do Séc. XX e Retorno às Origens no Séc. XXI` em geral e de cada sessão em particular”, lê-se nessa mesma nota.
O objetivo é, a partir de uma visão assente em Portugal, “ajudar a perceber o efeito migratório que está a ocorrer no século XXI, a nível global”.
“Pretende-se com este debate de ideias, ajudar a perceber o efeito migratório que está a ocorrer no Sec. XXI, sendo o nosso País escolhido como porto de abrigo para receber uma vasta comunidade de povos que procuram melhores oportunidades de vida para si e para as suas famílias”, esclareceu o presidente da entidade, Carlos Galinha.
Decorreu ontem, dia 25 de março, em Vieira do Minho, o III Encontro Comunidade de prática dos Coordenadores dos Núcleos de Inserção.
Este encontro de trabalho teve como propósito principal refletir sobre o fenómeno da migração em cada um dos catorze concelhos do distrito de Braga, bem como a partilha de informação e a reflexão sobre a intervenção social que é realizada em cada território.
A implementação de uma estratégia concertada entre os catorze municípios sobre procedimentos adotar quanto aos cidadãos migrantes foi outro dos temas em destaque.
A sessão de abertura do encontro foi realizada pelo presidente da Câmara Municipal de Vieira do Minho, António Cardoso, que refletiu sobre as trajetórias e impactos da desta temática, sugerindo dinâmicas e projetos face aos novos desafios da intervenção social.
Participaram no III Encontro Comunidade de prática dos Coordenadores dos Núcleos de Inserção o Instituto Segurança Social de Braga e os Municípios de Cabeceiras de Basto, Barcelos, Braga, Esposende, Fafe, Guimarães, Póvoa de Lanhoso, Terras de Bouro, Vieira do Minho, Vila Nova de Famalicão, Vila Verde e Celorico de Basto.
No decurso das últimas décadas o estudo sobre o fenómeno migratório tem sido profusamente enriquecido com um conjunto diversificado de atividades e trabalhos que têm dado um importante contributo para o conhecimento da emigração portuguesa.
Autora de uma vasta bibliografia sobre matérias relacionadas com as migrações, onde se destacam, entre outros, os livros Sociologia das Migrações (1995), Migrações - Permanência e Diversidade (2009), A Serra e a Cidade - O Triângulo Dourado do Regionalismo (2009) ou Das Migrações às Interculturalidades (2014). E colaboradora habitual de revistas científicas internacionais neste domínio, Maria Beatriz Rocha-Trindade, nascida em Faro, e Doutorada pela Universidade de Paris V (Sorbonne) e Agregada pela Universidade Nova de Lisboa (FCSH), é uma das cientistas sociais que mais tem contribuído para o conhecimento da emigração portuguesa.
Professora Catedrática Aposentada na Universidade Aberta, foi responsável pela fundação nos inícios dos anos 90, nesta instituição de ensino superior público, do Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais (CEMRI). Um centro pioneiro na área das Migrações e Relações Interculturais, que conta atualmente com mais de meia centena de investigadores, e que tem dinamizado ao longo dos últimos anos uma intensa pesquisa interdisciplinar e formação avançada na área das migrações e das relações interculturais em contexto nacional e internacional.
O pioneirismo da insigne académica e investigadora está igualmente expresso na introdução em Portugal do ensino da sociologia das migrações, primeiro na Universidade Católica, no curso de Teologia, em 1994, e dois anos depois, na Universidade Aberta, a nível de licenciatura e de mestrado. Membro de diversas organizações científicas portuguesas e estrangeiras, designadamente da Comissão Científica da Cátedra UNESCO sobre Migrações, da Universidade de Santiago de Compostela, do Museu das Migrações e das Comunidades, criado em 2001 por deliberação do Município de Fafe, e da Comissão Científica do Centro de Estudos de História do Atlântico/CEHA, a Professora Maria Beatriz Rocha-Trindade, coordena presentemente a Comissão de Migrações da Sociedade de Geografia de Lisboa.
O percurso de vida singular e o trabalho académico laborioso da Professora Catedrática Maria Beatriz Rocha-Trindade, Titular da Ordem Nacional do Mérito, de França, com o grau de Cavaleiro, da Medalha de Mérito do Município de Fafe, da Medalha de Ouro do Município do Fundão e da Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública, de Portugal, estão sublimemente sintetizados nas palavras do geógrafo Jorge Malheiros: “a investigação em migrações em Portugal não seria a mesma coisa sem a Professora Maria Beatriz Rocha-Trindade”.
Genuína fonte de inspiração, e com uma capacidade inesgotável de investigação assente num modelo de partilha de conhecimento e de trabalho em rede, a Professora Maria Beatriz Rocha-Trindade presenteou-nos, no início deste ano, com um novo e relevante livro, intitulado Em Torno da Mobilidade – Provérbios, expressões e frases consagradas.
A sua obra mais recente, uma publicação bilingue (português e inglês), profusamente ilustrada, com chancela das edições Almaletra, desponta no âmbito de palestras apresentadas nos dezassete colóquios internacionais que tiveram lugar em Tavira sobre o tema dos Provérbios. Sendo constituída por oito capítulos: “Potencialidades simbólicas da imagem no quadro do percurso migratório”; “Nós e os outros. Preconceitos e estereótipos”; “Árvore das patacas – Origem da expressão”; “Migrações portuguesas – a utilização da simbologia tradicional na captação de poupanças”; “Os provérbios na atividade comercial”, “Sonhos de pedra e cal, espaços e tempos” e “Homenagear quem parte”.
Como confluem Domingo Gonzalez Lopo, Professor da Universidade de Santigo de Compostela, e Rui Soares, Presidente da Associação Internacional de Paremiologia, prefaciadores do livro, Em Torno da Mobilidade reforça o conhecimento sobre as perspetivas que caracterizam um dos mais importantes fenómenos sociais, presente ao longo de toda a História de Portugal – as migrações.
De facto, com o livro Em Torno da Mobilidade – Provérbios, expressões idiomáticas e frases consagradas, descobrimos, aprendemos, ficamos a conhecer porque utilizamos certas palavras, expressões, na linguagem corrente, mas também símbolos e uma cultura que é necessário preservar e divulgar. Expressões como “Árvore das Patacas”, que nos remete para a árvore de origem asiática que foi trazida para o ocidente, e que designa tanto na vertente popular como vertente literária o enriquecimento rápido e sem esforço.
Conta-se que o imperador D. Pedro I, por brincadeira, escondia moedas (patacas) nas flores desta árvore de origem asiática no Brasil. Com o tempo as flores fechavam-se, mantendo a moeda dentro do fruto, depois o soberano pegava num desses frutos, abria-o diante de todos, dizendo que no Brasil o dinheiro nascia até em árvores. A utilização desta expressão no contexto migratório de Portugal para o Brasil, identifica simbolicamente a riqueza almejada.
Ou símbolos expressivos como “as malas”, que ilustram a capa do livro, e que como refere a autora ao longo dos vários ciclos migratórios “mudaram de configuração e, embora diferentes, continuam a assegurar a ligação simbólica que sempre tiveram com a mobilidade. É o caso paradigmático da “mala de cartão”, símbolo da emigração “a salto” dos anos 60, celebremente cantada por Linda de Suza.
Neste sentido, o livro Em Torno da Mobilidade é um novo e relevante contributo para o conhecimento da emigração lusa, destinando-se a educadores, professores, entidades públicas e privadas, em suma, ao público em geral que valoriza e reconhece o papel preponderante da Diáspora na projeção de Portugal no mundo.
Tal como o nome indica, as “fafeiras” eram moças do concelho de Fafe que migravam sazonalmente para a Gafanha da Nazaré, a fim de trabalharem na seca do bacalhau. A sua presença naquela freguesia do concelho de Ílhavo deixou marcas indeléveis na cultura local, mormente no seu folclore. A esse respeito e acerca das suas lides e modos de vida, transcrevemos a crónica de Gaspar Albino que é divulgada pelo Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré.
FAFEIRAS – POR GASPAR ALBINO
Era às segundas-feiras. Logo pela manhã, dirigia-me aos correios de Aveiro em busca do sempre desejado telegrama com notícias de bordo do navio, nos mares da Terra Nova.
E era com sofreguidão que regressava ao Largo do Rossio, ao escritório da empresa, para abrir o cofre em busca da cifra que me permitia descodificar o seu conteúdo. Quase todo ele incompreensível para quem não tivesse a chave.
Ficava-se a saber do tempo que tinha feito, dos pesqueiros que o barco tinha frequentado, da saúde e da doença da tripulação, das avarias e, finalmente, a quantidade de bacalhau capturado na semana com aproximada definição dos tamanhos do peixe embarcado no porão.
Os momentos que se seguiam eram comandados pela informação que chegara: alegria pela fartura; tristeza, pela míngua. Às vezes, euforia pelas somas de bons parciais; outras, a tristeza e a dúvida que as brisas (ventos fortes, em linguagem marinheira) alimentavam de maus augúrios quanto ao resultado final da safra.
Tudo isto, entretanto, era guardado com um certo secretismo, conferindo ao ritual das segundas-feiras uma atmosfera singular que, hoje, decorridos que são tantos anos, ainda recordo com emoção.
A nova safra da pesca iniciava-se sempre ainda com o bacalhau da campanha anterior em mãos.
E era certo e sabido que ninguém me largava, ao sábado, quando me deslocava à seca na Gafanha para fazer o pagamento ao pessoal.
Começava pela ti Maria Rita (como a recordo no seu corpanzil de mulherona nos seus quarenta e tais anos que não passavam pela cara de menina que, no fundo, sempre foi) com o seu "então, que tal vamos de escama?"
E, depois, era o senhor Manuel Vareta, o carpinteiro, que, mal me pressentia, lá saltava do sobrado até ao pequeno escritório, onde eu me ia desfazendo dos envelopes das semanadas das mulheres. Os nossos olhares já continham, também eles, um código. As mais das vezes, nem trocávamos palavra sobre a pesca, mas o sorriso, ou o encolher de ombros com que ele ficava para o fim do pagamento ao pessoal, era a garantia da mensagem transmitida e bem compreendida.
Legenda da foto: Perspectiva aérea das secas da Cale da Vila com os seus estendais de peixe. Em primeiro plano a "Seca do Milena", hoje à espera de ser convertida em pólo do Museu Marítimo de Ílhavo.
O Zé Catarino, o ajudante de carpinteiro, nesta questão das capturas, vinha sempre também ajudar à missa e conforme a reacção do chefe, assim era o bulir da enchó que nunca largava.
A Fátima, a filha do guarda, o Ti Augusto, era mais afoita nos seus assumidos dezoito anos que o título de segunda encarregada não conseguia disfarçar.
E lá escorregava eu com a informação que mais tranquilizasse as fafeiras que, respondendo ao seu número na folha de férias, lá se chegavam ao postigo para receberem o soldo que guardavam, de pronto, no seio, por botão entreaberto da blusa.
É que da forma como estivesse a correr a viagem muito dependia o regresso às suas terras, lá para o Minho, para Fafe e seus arredores, onde as famílias as aguardavam para as vindimas e os namorados para aprazar casamento.
Ainda sou do tempo em que o sol mandava no trabalho das secas.
Desarreigadas da sua terra, das suas famílias, as fafeiras constituíam o grosso do pessoal que nelas trabalhava.
Na seca de Lavadores, na Barra, até dispunham dum dormitório. Mas a maior parte das moças que trabalhava nas secas da Cale da Vila vivia em grupos, em acomodações disseminadas pelo povoado, paredes meias com as famílias locais e com estas muito intimamente ligadas.
A forma como se instalavam e viviam na Gafanha, longe da sua terra, fazia com que se estabelecesse uma relação muito forte com a encarregada da sua seca.
É que, pelas décadas de 50 e de 60, também neste sector, havia uma grande fidelidade à empresa de pesca em que cada grupo trabalhava. Um grupo de jovens mulheres, quase todas solteiras e casadoiras, que se comportava de forma coesa, como se de uma irmandade se tratasse, e aceitando, de forma natural, a liderança de uma colega mais experimentada nestas andanças do trabalho nas secas.
Era com esta chefe pacificamente aceite que a encarregada tudo tratava.
Eu conto.
Mal se adivinhava o final da viagem, com o carregamento de peixe a propiciar o regresso do barco, a encarregada do secadouro, trabalhadora permanente, começava a preparar tudo para a nova safra. E lá telefonava para a chefe do grupo, lá para a sua aldeia fafense, para que o grupo se prevenisse. Os carpinteiros já andavam às voltas com as "lambretas" e os carros de mão que tinham de estar reconstruídos, afinados e lubrificados. Mas para cortar a relva, reparar as mesas de secagem, lavar e pintar com cal e metabissulfito de sódio os armazéns de peixe verde, de peixe em mãos, e de peixe seco, já era necessária a primeira leva de mulheres.
E logo que chegavam se ficava a saber quem tinha casado e, por isso, permanecia na sua terra. As neófitas já tinham metido a sua "cunha" para preencher as vagas no grupo.
Era vê-las com os seus ademanes minhotos, com o seu tagarelar exuberante, com o seu praguedo nortenho tão natural.
Sentia-se que a nova safreira vivia a sua deslocação para a Gafanha como se fosse para uma festa.
Festa que, pelo que lhes tinha sido contado pelas mais batidas, sabiam ser de não horários, de muito suor, de muito esforço, mas também de agradáveis sestas quando o tempo o permitia, tudo à mistura com os seus descantes minhotos que ritmavam tanto o trabalho como o descanso.
No dia da chegada do barco, tudo aparecia vestido como se fosse para romaria.
E as fafeiras misturavam-se com as famílias da tripulação, quase deixando transparecer a mesma ânsia de quem aguarda por longos meses o reencontro de entes queridos.
O "spring" era lançado para terra e o ti Vareta mais o Zé Catarino já sabiam que fazer. Nó hábil e rápido no moitão e o barco, lentamente, aproximava-se do trapicho.
Ao longo do cais, que o guarda-fiscal não deixava que se aproximassem, as fafeiras não perdiam pitada. Especialmente as "caloiras".
A encarregada, a Ti Maria Rita, essa já não era, ao fim de tantos anos de experiência, para essas andanças. Aguardava no seu tugúrio, a que pomposamente chamava de escritório, que o contra-mestre lá fosse combinar o início da descarga.
Quantas mulheres para o porão, quantas para o convés e ao trapicho, quantas aos carros, quantas para as pilhas, quem ficava à balança, enfim: o princípio do rodopio comandado pelo bacalhau, rei e senhor.
Não era trabalho fácil este, o da descarga.
Mas a verdade é que estas mulheres do coração do Minho revelavam um espírito de corpo, de inter-ajuda, verdadeiramente excepcional.
Um dia, logo nos princípios de responsável, verificou-se que o ritmo de descarga tinha abrandado.
E o contra-mestre, velho amigo, aconselhou-me que fosse ao porão, pois era lá que estava a causa.
Lá desci de gatas, que a altura até ao convés era pouca, e lá andavam elas a atirar o peixe para a dala estendida.
Vi que não dava para mais. Mas mesmo assim lá gritei: "Amiguinhas! Só vamos sair daqui quando estiverem pesados "tantos" quintais!"
E lá do escuro, bem do extremo do porão, uma voz que nunca identifiquei saiu-se com esta que nunca mais esqueci:
"Ai o estupor do homem! Se nos chama a nós de amigas, que há-de chamar à mulher?".
Para não me verem rir, corri a subir para o convés, deixando-as no seu ritmo marcado pelas suas cantigas.
Não sei como, mas a verdade é que à hora prevista, da balança vieram-me dizer que os quintais previstos para o dia de descarga tinham sido ultrapassados.
Ainda havia peixe no porão e já se começava a lavar nas pias.
Os tempos eram de dinheiro magro e havia que começar a secar, para se começar a realizar fundos.
E apesar de o trabalho, por vezes, se iniciar às seis da manhã, a verdade é que, se o tempo o justificava, se fazia serão, a lavar nos tanques, a separar e a enfardar, por noite dentro.
O espírito da "fafeira" era esse mesmo.
O que interessava era juntar o melhor pé-de-meia possível no decurso da safra para o enxoval que todas sonhavam rico de promessas de casório futuro.
Safra que não rendesse mais um cordão de ouro não era safra nem era nada.
As horas extra eram sempre desejadas e o castigo do corpo – diziam elas – afastava vícios.
Para moças que sempre tinham vivido o campo, era de espantar como, num ápice, se adaptavam ao novo meio, às novas gentes, às novas práticas do seu trabalho.
As expressões mais cerradas do seu novo oficio eram aprendidas e usadas como de nascença.
O "tratamento" do bacalhau "seleco", que aparecia sempre que os cascos de madeira dos barcos deixavam entrar água no porão e o seu esgoto se não fazia convenientemente, para elas era canja. O lavar e salgar de novo afastava os fumos de cheiros doentios e o bacalhau ressuscitava nas mesas, como se nada se tivesse passado.
Fazer a cosmética ao "rouge" e ao "empoado" para elas era brinquedo. Pincel na mão, peixe na mesa, caldo de metabissulfito e lá se ia o vermelho ao fim de algumas horas de sol.
Escova bem esfregada na carne do bacalhau e lá desaparecia o acastanhado do pó que atirava para sortido de segunda o peixe mais especial, o grado.
Fadas de milagres, estas fafeiras.
Sentia-se que o bacalhau era a sua razão de ser e que a seca era a sua casa. O convívio que se estabelecia no trabalho era encarado como sucedâneo da família que se tinha deixado lá para o norte.
Durante todo o santo dia cantavam. Normalmente, era quando se lavava peixe que as cantigas brilhavam mais.
À solista, que sempre havia, respondia o coro. Canções de trabalho do Minho, próprias do amanho dos campos, mas que a inventiva adaptava às tarefas da seca.
E à merenda, quando se sabia que o peixe só seria recolhido lá mais para tarde, às cantigas juntava-se o bailarico dumas com outras.
Era certo e sabido. Ao fim de pouco tempo, as que não tinham deixado namoro na terra arranjavam derriço gafanhão.
E era vê-los, aos moços, ao portão, à hora do despegar, à espera da fafeira apetecida, namorada de outras falas, de outros lados.
Quando se desenhava o fim da safra, todo o mundo começava a sonhar com a festa: era o jantar da seca, para algumas com a presença do namorado e o bailarico que entrava pela noite dentro.
E depois era a despedida até que houvesse notícia de novo carregamento a chegar ao cais.
Mas quantas daquelas moças não ficaram por cá, enriquecendo, com os seus costumes, a sua cozinha, os seus cantares, as suas danças, os hábitos das nossas Gafanhas?
A conclusões bem seguras nesta matéria já terá chegado, de há muito, o Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré no seu cuidadoso levantamento das riquezas culturais da sua terra.
E por certo que só esta interpenetração de danças e cantares do Minho – mais precisamente da região de Fafe – daria para um trabalho de grande fôlego etnográfico.
A primeira edição das Jornadas Sociais é uma iniciativa levada a efeito pela Câmara Municipal, com o objetivo de provocar reflexão que conduza à consciencialização dos vários atores sociais para o Desenvolvimento Social e para a sua importância junto do Poder Local e da comunidade. “Migrações: quo Vadis?” foi o tema do dia 17 de maio.
A sessão foi marcada pela presença, na abertura dos trabalhos, do Presidente da Câmara Municipal, Frederico Castro, mas também a Vice-Presidente e Vereadora da Ação Social, Fátima Moreira esteve presente, participando ativamente na discussão que se gerou em torno do tema em debate.
A Professora Doutora Clara Costa Oliveira, da Universidade do Minho, partilhou com os participantes toda a sua vasta experiência e conhecimento nesta área, quer como docente da Universidade do Minho, quer, ainda, como mentora do Alto Comissariado para as Migrações.
Após esta intervenção, o Grupo de Reflexão convidado debateu os “Fluxos Migratórios em contexto local: inquietações e repostas”. Este grupo era composto por representantes de várias entidades, designadamente, do Instituto da Segurança Social, Rosa Oliveira; do Agrupamento de Escolas da Póvoa de Lanhoso, Paula Dias e da EPAVE, Clara Costa e do NLI, da área da Saúde, Marta Coelho, bem como a coordenadora deste Núcleo, Eliana Oliveira.
Sendo certo que a comunidade imigrante é cada vez mais significativa por todo o país, este número está, também, em crescendo, no concelho da Póvoa de Lanhoso. As problemáticas que surgem em torno dos fluxos migratórios não são recentes, mas, nas considerações de Fátima Moreira, “são situações que começam a influenciar cada vez mais as nossas dinâmicas, a ter influência nas várias ações da intervenção política, na educação, na habitação, no emprego e, até, no modo como abordamos a temática dos direitos humanos. Estas variáveis são uma problemática para a qual devemos estar preparados para dar resposta, transformando-a numa oportunidade para nós e, também, numa oportunidade para os nossos territórios.”
Assinatura de protocolo entre o Município de Barcelos e o Alto Comissariado para as Migrações – CLAIM | Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes
A Câmara Municipal de Barcelos vai proceder à assinatura do protocolo a celebrar com o Alto Comissariado para as Migrações, I.P., tendo em vista a criação do CLAIM - Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes.
A sessão terá lugar no Sala de Reuniões dos Paços do Concelho, no dia 11 de janeiro de 2023, seguindo-se a inauguração do posto de atendimento, no Balcão Único do Município de Barcelos.
Na cerimónia vão estar, entre outros, o Presidente da Câmara Municipal de Barcelos, Mário Constantino Lopes, e a Secretária de Estado da Igualdade e Migrações, Isabel Maria Duarte de Almeida Rodrigues.
Cancelamento da Assinatura de protocolo entre o Município de Barcelos e o Alto Comissariado para as Migrações – CLAIM | Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes
Devido a impedimento da Secretária de Estado da Igualdade e Migrações, informa-se que a cerimónia de inauguração do CLAIM - Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes prevista para amanhã, dia 14 de dezembro, fica adiada para data a agendar oportunamente.
Assinatura de protocolo entre o Município de Barcelos e o Alto Comissariado para as Migrações – CLAIM | Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes
A Câmara Municipal de Barcelos vai celebrar um protocolo com o Alto Comissariado para as Migrações, I.P., tendo em vista a criação do CLAIM - Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes.
A sessão terá lugar no Salão Nobre dos Paços do Concelho, no próximo dia 14 de dezembro, seguindo-se a inauguração do posto de atendimento, no Balcão Único do Município de Barcelos.
Na cerimónia vão estar, entre outros, o Presidente da Câmara Municipal de Barcelos, Mário Constantino Lopes, e a Secretária de Estado da Igualdade e Migrações, Isabel Maria Duarte de Almeida Rodrigues.
Fafe será palco da 32ª conferência anual da AEMI - Associação das Instituições Europeias de Migração
Durante 4 dias reúnem-se em Fafe especialistas e investigadores de toda a Europa. Município apresentará o seu programa de acolhimento de refugiados da Ucrânia
De 28 de setembro a 1 de outubro, Fafe acolhe a 32ª conferência anual da AEMI - Associação das Instituições Europeias de Migração, uma rede de quarenta organizações europeias que trabalham no campo da História das Migrações e da qual o Museu das Migrações e das Comunidades – sediado em Fafe e pioneiro em Portugal - é membro integrante.
A conferência, subordinada à temática “Refúgio e Acolhimento - Caminhos para a Inserção”, terá lugar no Auditório Municipal e contará com a presença de dezenas de investigadores e especialistas na matéria provenientes de países como Espanha, Eslovénia, Bélgica, Dinamarca, Alemanha, Luxemburgo, Polónia, Itália, Finlândia ou Portugal.
O programa começa no dia 28 de setembro com uma receção aos participantes nos Paços do Concelho, sendo que os trabalhos efetivos decorrerão nos dias 29 e 30. O último dia será dedicado à Assembleia da AEMI da parte da manhã, contemplando da parte da tarde um programa cultural que inclui visitas a pontos de interesse e uma experiência gastronómica destinada aos participantes.
Fafe apresenta programa de acolhimento de refugiados ucranianos O Município de Fafe apresentará, no decorrer da iniciativa, o programa de acolhimento criado para refugiados ucranianos que foram recebidos no concelho poucas semanas após o início do conflito. Fafe acolhe várias famílias e cidadãos ucranianos que já se encontram perfeitamente integrados, tendo providenciado, entre outros mecanismos de suporte, cursos de português, colocação das crianças nas escolas locais e apoio à entrada dos jovens no ensino superior, entre muitas outras ações de apoio social e saúde implementadas em articulação com os programas nacionais.
Na cerimónia de abertura, a Vereadora da Cultura e Relações Internacionais, Paula Nogueira, fará um enquadramento da forte ligação de Fafe à diáspora, destacando aspetos relacionados com a projeção do Museu das Migrações, o trabalho que está em curso em torno da história e memória coletiva, e a campanha recentemente lançada «FAFE e os fafenses pelo Mundo», através da qual se pretende mapear a diáspora fafense, nomeadamente através de um census destinado aos milhares de fafenses espalhados pelo mundo.
No âmbito do Fórum Internacional de Revisão da Migração, que se realiza em Nova Iorque
No âmbito do Fórum Internacional de Revisão da Migração, um evento promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova Iorque, os líderes locais, entre os quais Ricardo Rio, lançaram um apelo à acção local para migrantes e refugiados e um maior envolvimento dos autarcas nas decisões dos governos nacionais.
O presidente da Câmara Municipal de Braga é um dos participantes deste evento que reúne, entre os dias 16 e 20 de Maio, autarcas de 18 cidades de todo o mundo e representantes dos estados-membro da ONU. Ricardo Rio, que participou no primeiro dia a convite da UCLG- Cidades e Governos Locais Unidos, eseve em diversos painéis para partilhar a experiência de Braga e apontar diversos caminhos para o futuro da emigração, tendo integrado a delegação portuguesa a este fórum, liderada pela ministra adjunta e dos assuntos parlamentares, Ana Catarina Mendes.
“Cada vez mais migrantes e pessoas deslocadas procuram as Cidades em busca de oportunidades e segurança, sendo as mesmas responsáveis por dar resposta às necessidades mais prementes destes cidadãos, como o são a habitação, educação, saúde ou emprego. Deste modo, é fundamental que as Cidades tenham um papel cada vez mais importante na definição das políticas de migração e refugiados e no desenvolvimento de programas conjuntos. É igualmente essencial que sejam dotadas dos meios financeiros que garantam a melhoria das suas capacidades de integração”, afirmou Ricardo Rio, sublinhando que essa parceria e financiamento com os poderes locais é o ´único caminho a seguir para garantir o sucesso da prosperidade global e o desenvolvimento sustentável´.
Ricardo Rio participou em dois painéis, onde interveio sobre estas temáticas, tendo participado ainda num encontro com Secretária-Geral Adjunta das Nações Unidas, Amina J. Mohammed. Neste encontro, o autarca teve a oportunidade de abordar a experiência de Braga na recepção de migrantes e apelou ainda a que as instâncias internacionais integrem no seu processo de decisão os autarcas, como responsáveis políticos mais próximos das pessoas e que resolvem os problemas no terreno.
Num painel dedicado ao Lampedusa Charter, que está a ser desenvolvido pela UCLG, Ricardo Rio interveio como um dos porta vozes da iniciativa da Unicef “Talent on the Move”, apelando para que as cidades encarem a migração como uma oportunidade para as cidades evoluírem e receberem recursos que de outra forma não os teriam.
Neste Fórum foi apresentado um documento que contém 70 medidas para enfrentar a questão das migrações a nível global. No caso de Braga, a medida que faz parte do documento diz respeito à aceitação por parte da Cidade de um compromisso, promovido pela Unicef, de receber crianças e jovens deslocadas pelo conflito na Ucrânia e defender os seus direitos, garantido protecção e todas as condições no acesso a cuidados de saúde, ao sistema educativo, à habitação e ao mercado de trabalho.
Todas as 70 medidas presentes no documento salientam a necessidade da cooperação multinível para que o impacto da migração possa ser aproveitado da forma mais positiva possível pelos territórios. Ao mesmo tempo, oferecem um caminho concreto e contínuo para que outros governos locais e redes municipais se juntem a este desígnio e acompanhem o compromisso assumido no Pacto Global de Migração – contribuindo também para se alcançarem os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Desta forma, os autarcas mostram que as autoridades locais estão a liderar o processo de resposta a esta crise com a implementação, nos seus territórios, de acções ambiciosas, centradas nas pessoas e inclusivas.
Até ao momento, o documento reuniu o apoio de 47 Autarcas e redes municipais, onde os líderes locais mostram com estas medidas a sua capacidade em fazer cumprir e até superar os compromissos globais assumidos.
O Fórum Internacional de Revisão da Migração efectua, pela primeira vez, uma avaliação às 23 medidas inseridas no Pacto Global de Migração Segura, Ordenada e Regular, adoptado em Dezembro de 2018, em Marrocos, com o objectivo de fortalecer a cooperação internacional nesta matéria através de um conjunto de princípios orientadores e um quadro político multilateral.
O inverno demográfico e o fluxo migratório em Portugal
O retrato do país, em termos de fecundidade, natalidade, envelhecimento e fluxo migratório, é expressivo e inquietante: Portugal é atualmente um dos países mais envelhecidos do Mundo.
Os relatórios publicados pelas Nações Unidas sobre o envelhecimento da população mundial apontam mesmo que em 2050, Portugal será a nação mais envelhecida da terra, estimando que cerca de 40% da população portuguesa terá mais de 60 anos. Não deixando de ser reflexo do aumento da esperança média de vida, resultado dos grandes progressos no campo da saúde e na melhoria da qualidade de vida, o acentuado envelhecimento da sociedade portuguesa acarreta a prazo graves consequências ao nível da sustentabilidade dos sistemas de proteção social, como as pensões e os sistemas de saúde.
A divulgação no início deste mês da 5.ª edição do Retrato Territorial de Portugal, onde o Instituto Nacional de Estatística (INE) analisa as dinâmicas territoriais centradas nos domínios Qualificação territorial, Qualidade de vida e coesão e Crescimento e competitividade, acentua o inverno demográfico que se instalou no país. Segundo os dados do INE, o índice de envelhecimento aumentou, entre 2011 e 2016, em 95% dos municípios portugueses e apenas 15 dos 308 concelhos do país registaram um decréscimo.
A análise do INE, que revela que o país está cada vez mais inclinado para o litoral, mostra que o envelhecimento demográfico é sobretudo acentuado nos concelhos das sub-regiões do Interior Norte (Alto Tâmega, Terras de Trás-os-Montes e Douro) e Centro (Beiras e Serra da Estrela, Beira Baixa e Médio Tejo), territórios onde se registam aumentos em mais de 100 idosos por 100 jovens.
A necessidade de uma resposta global para a premência desestruturante da realidade demográfica, adensada por um saldo migratório negativo que continua a assistir à saída por via da emigração de milhares de trabalhadores portugueses em idade ativa, tem que entrar definitivamente na agenda, visão, estratégia e soluções dos agentes políticos, sociais e económicos para o país. Caso contrário, Portugal continuará um país constantemente adiado e as gerações vindouras terão o seu futuro coletivo irremediavelmente comprometido na pátria que viu nascer as suas famílias.
A Associação Memória das Migrações, presidida pelo conhecido emigrante fafense Parcídio Peixoto, levou a efeito no Consulado Geral de Portugal em Paris (França), na tarde do passado dia 1 de Junho, uma conferência intitulada “Memória das Migrações”.
O evento juntou na Sala Eça de Queirós largas dezenas de emigrantes portugueses (e fafenses), dirigentes associativos e responsáveis políticos das comunidades portuguesas.
Depois das boas vindas do Cônsul Geral de Portugal, António A. Moniz, que aludiu aos protocolos do Consulado relacionados com as migrações, Parcídio Peixoto apresentou a Associação que dirige e as mudanças que decidiram introduzir no seu funcionamento.
“A experiência migratória não é uma realidade própria da nossa era, foi desde o início da história da humanidade algo que se praticou, que se viveu. Memórias são experiências, são factos vividos, conservados, guardados, preservados em mente e outros suportes materiais, para mais tarde lembrar, relembrar, contar, comunicar, principalmente transmitir. Conservar e transmitir memórias, ou seja, factos passados, é contributo importante de todos nós para que se possa compreender e escrever a história de um povo, de um país, da humanidade: a nossa História” - sublinhou Parcídio Peixoto.
A Conferência começou com a intervenção de Felícia Glória da Assunção Pailleux, 91 anos, presidente da Associação Liga dos Antigos Combatentes de Lillers, que falou da sua experiência de filha de um soldado do Corpo Expedicionário Português que combateu no norte de França durante a I Guerra Mundial, João Manuel Assunção.
A socióloga Maria Beatriz Rocha-Trindade, a maior autoridade nacional na temática das migrações, abordou longamente os seus vastos conhecimentos sobre a história da emigração dos portugueses pelo mundo e concretamente sobre os Museus da Emigração que existem em Portugal (entre os quais o de Fafe) e no estrangeiro.
Gérald Bloncourt, o fotojornalista franco-haitiano que melhor retratou a saga dos emigrantes portugueses para França nos anos de 1960 e 1970, não pode estar presente, devido a um delicado problema de saúde de última hora.
Coube ainda ao Director do Museu das Migrações e das Comunidades, sediado em Fafe, Artur Ferreira Coimbra, representar esta instituição e o município em Paris. Aquele responsável historiou o surgimento do Museu, em 2001, abordou as suas actividades, falou das suas propostas para a melhoria da instituição e expressou confiança para o futuro de um espaço de memória que Fafe e o país necessitam.
O deputado socialista Paulo Pisco explicou aos presentes o alcance da proposta que apresentou recentemente na Assembleia da República visando a criação de um Museu Nacional da Emigração, em Portugal, o qual se tem revelado controverso.
Relembra-se que a Associação Memória das Migrações foi criada para ajudar o Museu das Migrações na recolha de documentos e testemunhos dos portugueses que sairam de Portugal nos anos de 1960-70 e ainda continuam a deixar Portugal. Em Maio de 2013 foram assinados protocolos com o Consulado Geral de Portugal em Paris, o Museu das Migrações e das Comunidades e a Associação Memória das Migrações, no sentido da recolha de documentos, objectos e histórias de viuda ligados às migrações dos portugueses para França.
Como referiu Parcídio Peixoto, felicitando Fafe pela criação do Museu: “quando se fala na História da Emigração, fala-se de Fafe. Fafe fez o que o Governo ainda não foi capaz de realizar! Fafe está investido a honrar o seu nome, os seus Emigrantes e a sua História. O Museu é o local certo para que hoje, amanhã e depois se possa compreender os movimentos da Emigração, não só dos anos de 1960 mas no seu todo. O Museu é uma Instituição da Câmara, é a ela que cabe decidir do que pretende para o seu futuro”.
- Afirma Marta Bronzin, Chefe de Missão em Portugal da OIM - Organização Internacional das Migrações, em artigo de opinião gentilmente cedido ao BLOGUE DO MINHO.
Este artigo enquadra-se na temática de Setembro do Ano Europeu para o Desenvolvimento (AED), Migrações e Demografia. O AED é uma iniciativa que vai decorrer durante o ano de 2015 em todos os países da União Europeia, com o mote “O nosso mundo, a nossa dignidade, o nosso futuro”.
Assistimos nestes dias a manifestações que juntam espontaneamente dezenas de milhares de pessoas na Europa em apoio ao acolhimento de refugiados, numa demonstração que é ao mesmo tempo de solidariedade para com estas pessoas e de frustação pela incapacidade dos seus Governos darem uma resposta à altura das circunstâncias.
A crise migratória no Mediterrâneo não é uma situação isolada. Acresce que o número de migrantes atingiu máximos históricos – uma em cada sete pessoas no mundo é um migrante hoje em dia. 60 milhões de pessoas estão a ser deslocadas e procuram refugio em várias partes do mundo devido a múltiplas crises humanitárias, a instabilidade política e situações de perseguição. Estes factores obrigam-nas a sairem das suas casas em busca de segurança e melhores condições de vida, gerando forte pressão migratória sobre os países de trânsito e de acolhimento. O desespero e a falta de canais legais alimentam a migração irregular, agravando os riscos ao longo das rotas migratórias e favorecendo o mercado dos traficantes.
Também confrontada com esta realidade, a União Europeia não tem conseguido encontrar um consenso político para receber e gerir os fluxos de pessoas que chegam às suas portas. Estas são consideradas como um peso ou até como uma ameaça. Há muito tempo que se assiste a uma instrumentalização política do tema das migrações. Ao mesmo tempo opta-se por soluções securitárias e de contenção que dificilmente serão eficazes e sustentáveis.
A Europa enfrenta também outra realidade com a qual tem que lidar. Está a envelhecer, e a população em idade activa está destinada a perder 7.5 milhões pessoas até 2020, de acordo com os dados da OCDE, com um consequente desencontro entre necessidades laborais e competências e qualificações disponíveis. Estas projeções pioram se excluirmos os migrantes deste cenário.
Então o que está a faltar ou a falhar neste momento? Falta olhar para além da dimensão humanitária e das respostas de curto prazo. Falta reconhecer que a mobilidade humana nas suas várias formas e causas sempre existiu e continuará a existir. Falta uma visão objectiva e uma reflexão honesta sobre as nossas necessidades e o contributo que as migrações, se bem geridas, podem dar às sociedades e às economias dos países de acolhimento.
Apesar dos imigrantes não poderem por si só resolver os problemas demográficos e as assimetrias do mercado de trabalho, deverão fazer parte da solução. Em determinados países da Europa, inteiros sectores da económica como a saúde, as tecnologias, o trabalho doméstico, dependem de mão de obra estrangeira mais ou menos qualificada para o seu funcionamento. Quem procura os nossos países pode dar um contributo importante para a economia e o sistema de protecção social. Mas isso não acontecerá se não houver políticas transparentes e realistas que conduzam à criação de canais legais e seguros de migração, ao respeito dos direitos humanos básicos dos migrantes, num espírito de responsabilidade partilhada entre países de origem, trânsito e destino.
Na nova Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, adoptada pelas Nações Unidas no fim deste setembro, as migrações finalmente ocupam o lugar que merecem enquanto fator incontornável para um desenvolvimento global inclusivo. Fica só reconhecer que as migrações são relevantes para a prosperidade e o crescimento de todos os países, tanto do Sul como do Norte do mundo.
Marta Bronzin
Chefe de missão em Portugal da OIM - Organização Internacional das Migrações
A fotografia, de autor não identificado, remonta aos começos do século XX e mostra o aguadeiro galego abastecendo-se de água no chafariz do Larga da Achada, na freguesia de São Cristóvão e São Lourenço, em Lisboa.
A comunidade galega teve uma presença marcante na vida social no nosso país, exercendo numerosas profissões e caraterizando-se pelo seu espírito laborioso.
Para além das afinidades culturais e históricas, minhotos e galegos partilharam desde sempre as agruras de uma vida difícil longe da sua terra natal.