Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

PORTUGUESES DE MALACA DANÇAM FOLCLORE DO MINHO

À semelhança do que se verifica nomeadamente em Goa e na Tailândia, existe em Malaca uma comunidade que resulta do cruzamento de povos e culturas promovido pela expansão marítima dos portugueses nas longínquas paragens da Ásia. São eles os “portugueses de Malaca”, descendentes dos navegadores portugueses e da sua miscigenação com malaios, goeses e chineses.

Orgulhosos das suas origens, os portugueses de Malaca procuram preservar a sua identidade, reproduzindo como podem a língua e as tradições portuguesas. Eles celebram as festas tradicionais portuguesas, preservam a religião, conservam hábitos alimentares. E, sempre que uma oportunidade se lhes apresenta, nomeadamente quando o Navio-Escola Sagres aporta num porto próximo, exibindo ufano as suas velas com a Cruz de Cristo, apressam-se por visitá-lo e rodear os nossos marinheiros com o seu carinho, revelando um patriotismo a todos os títulos surpreendente, sobretudo se tivermos em consideração que a sua esmagadora maioria jamais visitou a pátria dos seus antepassados ao longo de cinco séculos.

Não esperem, pois, os puristas do folclore encontrar aqui uma autenticidade que por vezes não existe sequer nos grupos folclóricos constituídos nas próprias regiões de origem. Registe-se, tão simplesmente, o apego que, gentes de origem portuguesa, tão distantes no espaço e no tempo, conservam pelas nossas raízes culturais, constituindo por si mesmo um exemplo para os que nunca tiveram a desdita de emigrar.

O MINHO NA HERANÇA CULTURAL DOS PORTUGUESES DE MALACA

Malaca fica situada no litoral sul da Península Malaia, entre Kuala Lumpur e Singapura, a milhares de quilómetros de distância de Portugal. Muitos dos seus habitantes descendem dos descobridores portugueses e de suas famílias miscigenadas, nomeadamente com gentes da antiga Índia Portuguesa e do antigo Reino do Sião, atual Tailândia, onde também se estabeleceram. Em 1511, já lá vão mais de quinhentos anos, Afonso de Albuquerque ali aportou conjuntamente com um milhar de homens. Falam o papiá Kristáng que é como quem diz “fala cristã” e que constitui um crioulo português utilizado na Malásia e em Singapura. São conhecidos como os portugueses de Malaca.

Esta comunidade é atualmente constituída por cerca de cinco mil falantes a viver em Malaca e teve a sua origem nos casamentos celebrados entre navegadores portugueses e migrantes goeses, também eles de ascendência indo-portuguesa, com mulheres malaias.

Com o objetivo de dominar o comércio das especiarias provenientes das Filipinas, Timor, Macau e Ilhas Molucas, os portugueses apoderaram-se de Malaca e ali mantiveram o seu domínio durante quase século e meio até cair em mãos holandesas quando estes, rivalizando com a Espanha e aproveitando-se da situação difícil em que Portugal se encontrava após a proclamação da Restauração da Independência, lograram tomar o território que viria mais tarde a passar ao domínio britânico.

Apesar de jamais terem visitado Portugal e serem escassos os contactos com a cultura e as entidades portuguesas desde o fim da soberania portuguesa naquele território ocorrida no século XVII, os portugueses de Malaca procuram por todos os meios preservar a sua herança cultural e identificar-se o mais possível com os símbolos e até as regiões portuguesas como se nelas tivessem nascido de facto. A manutenção desta identidade tem sido fundamental para assegurar um estatuto próprio e conferir uma autoestima a um povo que, afinal, possui um passado que resulta da grande epopeia realizada pelos portugueses que aproximou povos e criou novas identidades.

Um dos aspetos curiosos da maneira de ser dos portugueses de Malaca consiste na forma como executam danças tradicionais portuguesas como o “Vira di Santa Marta”, o “Verdi Gayo” e a “Ti Anika”, algumas das quais introduzidas em meados do século passado por missionários portugueses enviados com o propósito de lhes prestar assistência religiosa. Existe, porém, quem acredite que algumas daquelas dançam foram levadas pelos navegadores portugueses ao tempo das caravelas.

Os trajes que exibem são naturalmente estilizados e constituem cópias aproximadas dos trajes mais genuínos. As danças são executadas a um ritmo porventura alterado. As cores e formas exuberantes dos trajes minhotos encontram-se entre as suas preferidas. Mas, não se questiona aqui o rigor etnográfico dos seus trajes nem a autenticidade do seu reportório mas a sinceridade dos seus sentimentos que os levam a orgulharem-se das suas origens portuguesas e do legado deixado pelos seus ancestrais, apesar de nunca terem experimentado a felicidade de pisar a terra que viu nascer os seus antepassados antes de partirem nas naus para cumprirem um desígnio e uma missão que foi o de estabelecer o predomínio dos portugueses nos mares do Oriente.

É, naturalmente, algo de bastante comovente quando vemos que, apesar da distância temporal e geográfica que os separa de Portugal, continuam a sentir-se espiritualmente ligados a esta Pátria que a consideram como sua, mantêm a identidade que os identifica por todos os meios ao seu alcance e sem usufruir de quaisquer apoios por parte das entidades portuguesas, orgulhando-se da sua herança cultural e conservando-a com a dignidade que lhes é devida como portugueses. E, envergando fatos que de alguma forma procuram sugerir os nossos trajes tradicionais, exibidos com muito garbo e carinho, vemo-los a executar danças com designações tão sugestivas como “Ao nosso Algarve”, “O Vira vamos”, “Fado di Coimbra” e “Kantu sen fazé fabor”. Trata-se, com efeito, de um extraordinário exemplo de portuguesismo que convida à reflexão por parte daqueles que jamais tiveram a necessidade de viver distante da sua Pátria.

Carlos Gomes in http://www.folclore-online.com/ (Adaptado)

Apesar da distância geográfica e dos quinhentos anos decorridos desde a chegada dos portugueses a Malaca, os seus descendentes conservam como podem a sua identidade cultural.