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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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ALEXANDRA LUCAS COELHO VENCE GRANDE PRÉMIO MARIA ONDINA BRAGA

Parceria entre a Associação Portuguesa de Escritores e o Município de Braga

O livro ´Cinco Voltas na Bahia e Um Beijo para Caetano Veloso´, de Alexandra Lucas Coelho, editado pela Editorial Caminho, é o vencedor da terceira edição do Grande Prémio de Literatura de Viagens Maria Ondina Braga, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores com o alto patrocínio do Município de Braga.

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O júri, constituído por Guilherme d’Oliveira Martins, Fernando Batista e Isabel Cristina Mateus e coordenado por José Manuel Mendes, distinguiu esta obra, por unanimidade, visto revelar “originalidade literária pela conjugação de viagens diversas, geográficas históricas e interculturais”. Este livro «evidencia ainda uma aproximação cultural e linguística entre o Portugal e o Brasil contemporâneos, ressalvando a complementaridade e as diferenças», refere-se na sua ata de atribuição.

Nesta 3.ª edição da Grande Prémio de Literatura de Viagens Maria Ondina Braga concorreram as obras publicadas no ano de 2019. O valor monetário deste Grande Prémio é, para o autor distinguido, de 12.500,00€.

Recorde-se que o Prémio Literário Maria Ondina Braga, que o Município de Braga instituiu em 2005 com carácter bienal, deu lugar a um “Grande Prémio” no âmbito exclusivo da literatura de viagens e destinado a obras em português e de autores portugueses. Partindo de uma parceria com a Associação Portuguesa de Escritores, esta iniciativa passou a ter carácter anual, ascendendo o valor pecuniário a atribuir para os 12.500 Euros. A sua organização passou, entretanto, a ser assumida pela Associação Portuguesa de Escritores com financiamento do Município de Braga, sendo ambas as entidades promotoras do Prémio.

Em 2018, o vencedor deste prémio foi Afonso Cruz com a obra “Jalan, Jalan: Uma Leitura do Mundo” e, em 2017, Paulo Moura com “Extremo Ocidental – Uma Viagem de Moto Pela Costa Ocidental Portuguesa, de Caminha a Monte Gordo”.

Nascida em 1967 em Lisboa, Alexandra Lucas Coelho estudou teatro no IFICT e comunicação na Universidade Nova de Lisboa. Publicou cinco livros de reportagem-crónica viagem: Oriente Próximo (2007), Caderno Afegão (2009), Viva México (2010), Tahrir (2011), Vai, Brasil (2013) e o romance E a Noite Roda, que foi galardoado com o Grande Prémio de Romance e Novela da APE, 2012. Tem carteira de jornalista desde Janeiro de 1987, tendo vivido em Jerusalém e no Rio de Janeiro.

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JAIME FERRERI APRESENTA NOVO LIVRO “A SAGA DO ALFERES VICENTE”

Terá lugar no próximo dia 17 de Julho, sexta-feira, pelas 21h30, no espaço de lazer das Piscinas Municipais de Ponte da Barca, a apresentação do livro “A Saga do Alferes Vicente” do reconhecido romancista, contista, cronista e poeta Jaime Ferreri.

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"A Saga do Alferes Vicente" é o último romance deste escritor, nascido em Bravães, Ponte da Barca, que se iniciou nas lides literárias em 1986, com a publicação da novela intitulada "Cabrito Montês", muito bem recebida pela critica e pelo público.

Seguiram-se depois os romances "Fizeram de mim soldado", publicado em 1992 e "Os homens também hibernam" em 1995.

Em 2005 publicou um livro de crónicas "Crónicas (des)alinhadas e um livro de poesia "Pecúlio" e em 2018 o livro “A minha filha Inês”

Jaime Ferreri vive em Ponte da Barca e a par de uma dedicada carreira docente na área da informática e matemática, desenvolveu o gosto pela criação literária e pela dramaturgia, tendo ao longo dos anos encenado inúmeras peças de teatro, com particular destaque para as encenações anuais, por altura da Semana Santa, de “A Mui Dolorosa Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo” no mosteiro de Bravães, Ponte da Barca.

Sinopse

A Saga do Alferes Vicente é tão só um romance de abordagem à guerra colonial numa perspetiva política e sociológica onde se enlaça o regime, os “serviçais” dele, Coimbra de 1969, o poder castrense e a violência sobre a juventude da época ainda que rebeldias, voluntarismo, amores e ternuras se entrelacem no adoçar da narrativa. Este Vicente, o irmão, o pai Laurindo e outras personagens, de maior ou menor relevância, são escolhidos do coletivo nacional, muitos grãos de semente na farinha para um só pão, a passarem na peneira crítica mas também humana e poética do autor.

Nota: Dado o contexto atual relativo à pandemia de Covid - 19, serão tomadas todas as medidas de segurança recomendadas pela Direção Geral de Saúde.

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FAMALICÃO ATRIBUI PRÉMIO DE CONTO

Candidaturas abertas ao Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco

Está a decorrer até 30 de junho, o período de candidaturas ao Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, instituído pela Associação Portuguesa de Escritores (APE) e patrocinado pela Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão. O Prémio destina-se a galardoar anualmente uma obra em português, de autor português ou de país africano de expressão portuguesa, publicada em livro em primeira edição no ano de 2019.

De acordo com o regulamento do prémio disponível no site do município em www.famalicao.pt “de cada livro concorrente, devem ser enviados cinco exemplares para a sede da APE”, destinados aos membros do júri e à biblioteca. Não serão admitidos a concurso livros póstumos, nem de índole infanto-juvenil. O valor pecuniário do prémio é de 7.500 euros.

Instituído em 1991, o galardão distinguiu já escritores como Hélia Correia, Mário de Carvalho, Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa, Maria Judite de Carvalho, Miguel Miranda, Luísa Costa Gomes, José Jorge Letria e José Eduardo Agualusa. José Viale Moutinho, António Mega Ferreira, Teolinda Gersão, Urbano Tavares Rodrigues, Manuel Jorge Marmelo, Paulo Kellerman, Gonçalo M. Tavares, Ondjaki, Afonso Cruz, A.M. Pires Cabral e Eduardo Palaio, entre outros.

FAMALICÃO EDITA "A MULHER DE FATAL" CAMIL0 CASTELO BRANCO

Livro da autoria dos “pequenos escritores famalicenses” está disponível no link https://issuu.com/municipiodefamalicao/docs/herois_improvaveis

“A mulher fatal” de Camilo Castelo Branco inspira “Heróis improváveis”

Se não fosse a pandemia da Covid 19, a Casa de Camilo, em S. Miguel de Seide, ter-se-ia enchido hoje de várias dezenas de crianças do concelho, que haveriam de contagiar o ambiente camiliano com a sua alegria, criatividade e fantasia. Tem sido assim, nos últimos anos, com o lançamento e apresentação, no dia 1 de junho, do trabalho final do Atelier de Escrita Criativa e de Ilustração, promovido pelo serviço educativo da Casa de Camilo, com a colaboração do escritor Pedro Chagas Freitas e da ilustradora Gabriela Sotto Mayor.

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Não sendo possível a sessão de apresentação, o município lançou hoje, no seu portal oficial o livro “Heróis Improváveis”, da autoria dos pequenos escritores. A obra está disponível também na plataforma issuu em, https://issuu.com/municipiodefamalicao/docs/herois_improvaveis.

Tendo como mote de inspiração a obra “A mulher de fatal”, de Camilo Castelo Branco, o projeto envolveu 91 alunos e cinco professores das turmas do 4.º ano das seguintes escolas: Centro Escolar Luís de Camões (turma: 4.º BB), EB Barranhas (turma: BA1), EB Lousado (turma: L4B), EB Nuno Simões (turma: NS4) e EB Requião (turma: D).

As crianças sob a orientação do escritor e formador Pedro Chagas Freitas, deram largas à imaginação e criaram uma narrativa inspirados no romancista de Seide. Finda a composição dos textos, as crianças participaram no Atelier de Ilustração, da responsabilidade da ilustradora e formadora Gabriela Sotto Mayor. Aqui, porém, os trabalhos acabaram interrompidos pela pandemia e foi preciso reinventar para se concluir a publicação.

O presidente da Câmara Municipal de Famalicão, Paulo Cunha, mostra-se “satisfeito por se ter finalizado o atelier que, na sua opinião, corporiza uma das dinâmicas do Serviço Educativo do Museu de São Miguel de Seide: a promoção da leitura e da escrita, desenvolvida, neste caso, com o seu público mais jovem”. Neste sentido, o autarca deixou “palavras de vivo agradecimento” a todos os que deram o seu contributo no desenvolvimento deste atelier e na edição do livro tornado público, afirmando “estar perfeitamente consciente do que esta atividade cultural representa para a valorização da memória patrimonial camiliana no nosso concelho, para reavivar a memória de Camilo Castelo Branco e para fortalecer os laços dos mais novos com a literatura”.

Paulo Cunha deixou ainda a garantia antes do encerramento das aulas, serão entregues exemplares do livro nas escolas dos alunos participantes, para que cada um dos pequenos escritores guarde o seu primeiro livro escrito e impresso.

O Atelier de Escrita Criativa e de Ilustração continuará no próximo ano letivo e a obra a trabalhar será Amor de Salvação, a primeira que Camilo Castelo Branco escreveu em São Miguel de Seide.

MUNICÍPIO DE FAMALICÃO APRESENTA “CRIME E CASTIGO EM CAMILO CASTELO BRANCO”

Apresentado 13.º volume da coleção Estudos Camilianos

«Crime e Castigo em Camilo Castelo Branco» é o tema do volume 13 da coleção «Estudos Camilianos» que o Município de Vila Nova de Famalicão acaba de lançar através da Casa de Camilo – Centro de Estudos.

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Com organização de Sérgio Guimarães de Sousa e João Paulo Braga, a publicação foi apresentada nesta segunda-feira, 18 de maio, no âmbito das comemorações do Dia Internacional dos Museus, em conferência realizada on-line.  

“Os estudos aqui reunidos, demonstram a complexidade, a profundidade e a riqueza da problemática do bem e do mal, do crime e do castigo no autor de Anátema”, refere  na nota introdutória o diretor da coleção e da Casa de Camilo, José Manuel de Oliveira.

“Vasta é a galeria de criminosos de degenerados em Camilo, inúmeros são as personagens brutais e desonestas, com tendências criminosas e instintos predadores. E as motivações do crime não se esgotam em questões sentimentais”, lê-se no mesmo texto.

Colaboraram também neste trabalho os estudiosos Henrique Marques Samyn (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Luciana Namorato (Indiana University, Estados Unidos), Maria João Dodman (York University, Toronto, Canadá) e Patrícia Silva Cardoso (Universidade Federal do Paraná, Curitiba, Brasil).

A publicação encontra-se à venda ao público no Centro de Estudos Camilianos, em S. Miguel de Seide, e na Casa do Território, em Vila Nova de Famalicão, podendo ser requerida via digital através da loja on-line da Casa- Museu em www.camilocastelobranco.org

A ERA DOS SUPER-HUMANOS: QUEM SÃO E COMO SE PREPARAM PARA COMANDAR O MUNDO? DE PAULA MARQUES & RICARDO CAYOLLA

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- A opinião de Maria Carolina Barroso sobre a Obra de Paula Marques & Ricardo Cayolla

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A obra é uma compilação de histórias, todas elas verídicas, de Super Humanos, contemporâneos e desconhecidos do grande público e que são a prova viva de que não precisamos de ter nascido num país rico ou ser provenientes de uma família especial para obtermos reconhecimento e podermos mudar o mundo, tal como referem Cayolla e Marques (2018).

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A obra constata que o Mundo, estando em permanente devir, obriga a uma preparação para a mudança e apela à capacidade de adaptação, sabendo, contudo, que não há “fórmulas mágicas”.

Os Super-Humanos são incríveis e inspiradores porque, não obstante as suas imperfeições, a sua irracionalidade e até fragilidades, conseguem singrar na Vida, sendo capaz de produzir mudanças nos outros e aportar valor acrescentado à sociedade, tal como corroboram Cayolla e Marques (2018).

A verdade é que todos nós nascemos Super-Humanos (somos Super-Humanos em potência), mas nem todos somos capazes de tirar proveito disso, uma vez que nem sempre valorizamos as nossas potencialidades.

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Não obstante todas as dificuldades com que se depararam ao longo da sua trajetória de vida, não desistiram de lutar pelos seus objetivos. Aliás, foi esse esforço e perspetiva de auto eficácia que os catapultou para um patamar superior.

A obra relata sete histórias de vida verídicas, de pessoas provenientes de vários sectores profissionais (astronautas, fotógrafos, bailarinas, por exemplo), o que torna a leitura muito mais motivadora.

A primeira história foca-se num menino canadiano de 9 anos, Chris, que sonhava um dia ser astronauta. Como sabia que a NASA apenas aceitava candidaturas de cidadãos dos Estados Unidos, ele pensava que a probabilidade de um dia ser astronauta era nula. Então o rapaz decidiu recorrer a algo bastante importante – FUTURE THINKING – imaginando e visualizando os seus sonhos, como por exemplo, trabalhar na NASA.

A sua forma de pensar atípica impulsionou-o a lutar pelo seu sonho, pensando constantemente no futuro. Tal como referem os autores “pensar no longo prazo permitiu a Chris escolher, a dia a dia, as ações a tomar, mesmo que, às vezes, o tivesse feito de forma inconsciente” (Cayolla e Marques, 2018: 25). Pensar no futuro é, assim, um superpoder humano e nos tempos que correm, a alta velocidade, a maior parte de nós abdica disso. O sonho de Chris era uma impossibilidade absoluta, mas recorrendo ao MOONSHOT THINKING, tornou-se o primeiro astronauta canadiano a descolar para o espaço. Isto revela o quão importante é pensar, imaginar e questionar: tudo isto fará com que sejamos melhores e é isto que nos distingue dos autómatos/ das máquinas.

Foi o pensamento recorrente no futuro que o levou a concretizar esse sonho. Ele sabia que o mais provável seria falhar, mas não obstante isso nunca desistiu. Tal como referem Cayolla e Marques (2018: 23), “a nitidez e a energia das imagens que criamos acerca do futuro são a melhor previsão de como será esse futuro”.

A segunda história foca-se num rapaz de 13 anos, Jack, que decidiu descobrir a cura para o cancro no pâncreas, depois do seu melhor amigo ter morrido com esta doença. Decidiu começar pelos três melhores amigos dos adolescentes: Google, Wikipedia e Youtube. Seguidamente recorreu aos melhores especialistas dos EUA e, a partir daí, conseguiu ter acesso a um laboratório, testando ao limite as suas ideias através de redes. Tal como referem Cayolla e Marques (2018: 39), “o acesso à rede representa para o futuro o que o acesso ao capital representou até agora”, ou seja, não há nada mais importante que utilizarmos a nossa rede, pois mesmo que tenhamos a melhor ideia do mundo ou por mais inteligentes que sejamos, ela dificilmente será implementada sem que seja utilizado o nosso ecossistema de inovação. Para resolver a complexidade do seu desafio, Jack recorreu às mentes mais prodigiosas do mundo. Tudo isto deu origem a um teste quase 100% preciso, idêntico ao da diabetes, e muito mais barato, quando comparado com os restantes testes existentes no mercado, graças ao uso do MATRIX DNA – viveu e pensou em rede.

A terceira história refere-se a um indivíduo, Jr, fotógrafo e graffiteur, que ficou mundialmente conhecido pelas suas exposições de arte na rua, sendo a prova viva que esta tem o poder de transformar cognições e comportamentos. Jr tem a maior galeria de arte do mundo, pois exibe-a de forma gratuita pelas cidades, utilizando a linguagem universal, impactando, desta forma, todo o mundo. Aos 13 anos, Jr fugia da polícia por andar a grafitar as paredes da cidade de Paris, juntamente com os amigos, pois tinha como finalidade deixar a sua marca em todo o lado. Tudo mudou quando encontrou uma máquina fotográfica abandonada na estação e fez com que deixasse as latas de tinta, decidindo dedicar-se à fotografia. Deixou de estar preocupado em querer provar onde esteve e começou a focar-se no outro lado e a história passou a ser “tu estiveste aqui”. Em 2011, criou um grande projeto denominado Inside Out, que impactou públicos que nunca teriam acesso a este tipo de arte, se não fosse este criador. O projeto consistia em retratar os cidadãos, em lugares públicos, imprimindo as fotografias em grande dimensão. De seguida, cada imagem a preto e branco era colocada, através de um “grupo de ação”, em muros, fachadas, telhados, escadarias, criando galerias de arte ao ar livre: “Fotos de seres Humanos. Grandes planos. Uma única pessoa. Sem palavras escritas. A preto e branco. Sem logos. Uma mensagem poderosa” (Cayolla e Marques, 2018: 51). A sua fórmula para este projeto, com escala mundial, foi o HUMAN INFLUENCE, um constructo revelador da nossa capacidade de influenciar e impactar os demais, utilizando histórias emblemáticas. Jr nunca pensou que o projeto chegasse a este patamar, pois a sua única preocupação era criar algo inovador, sem qualquer tipo de expectativa, sem receio de falhar, tal como corroboram Cayolla e Marques (2018: 58): “Na arte, como no mundo, não há respostas únicas. Há sim experiências a realizar e a coragem de tentar fazer coisas que nunca antes tenham sido feitas”.

A quarta história aborda um rapaz, Bruce Poon Tip, empreendedor desde criança, que concebeu uma das melhores agências de sempre, G Adventures, e que tem como objetivo realizar algo diferente: Fazer com que as pessoas desfrutem da viagem ao máximo, vivenciando os hábitos locais – o que contraria as ofertas da maior parte das agências de viagem. O seu superpoder, para obter o reconhecimento público, foi sem dúvida alguma o DESIGN PHYLOSOPHY, que é a capacidade constante de encontrar soluções para os nossos problemas. O seu projeto não tinha só como objetivo viajar de forma diferente, mas sim criar valor acrescentado para o viajante.

A quinta história retrata a trajetória de uma rapariga muito criativa, Ann. Como os pais de Ann não tinham possibilidades para lhe oferecer brinquedos, a menina deu asas à sua criatividade e concebia os seus próprios brinquedos. A sua vida mudou por completo quando teve uma conversa com a sua amiga filipina, Mindanao. Descobriu que ela estava em risco de perder o ano, pois não tinha tempo para estudar, visto que ajudava os pais no trabalho até tarde e, quando chegava a casa, já era de noite sendo que, sem eletricidade, não conseguia estudar.

Ann, para ajudar a sua amiga decidiu recorrer à INTERSECTION – criou o Hollow Flashlight (lanterna que funcionava utilizando a energia libertada pelas mãos humanas) e o eDrink (um carregador com várias funcionalidades). Ganhou vários prémios internacionais e dedicou os seguintes anos de vida ao desenvolvimento das duas invenções. Estas tiveram origem na grande curiosidade e transdisciplinaridade, tal como referem Cayolla e Marques (2018: 91): “consegue falar e compreender a linguagem de várias disciplinas, áreas e ciências. Tem múltiplos interesses. Gosta de ler, aprender e experienciar sobre muitas outras realidades para além da sua

A sexta história descreve a trajetória de uma menina, Mabinty, que tinha sido adotada, após a morte do seu pai, que faleceu na guerra e da sua mãe que morreu à fome. O tio encaminhou-a para a adoção porque, como ela tinha uma doença de despigmentação de pele, nunca casaria, porquanto já não era rentável. No orfanato, as crianças eram organizadas por ordem de preferência. Eram 27 e a Mabinty era a última e a sua melhor amiga a 26ª (tinha o mesmo nome). A partir do momento que viu uma bailarina numa capa de revista, decidiu que queria ser bailarina e, teve a sorte de quando foi adotada, depois de doze vezes recusada, ter uma mãe adotiva que motivou a efetivar esse sonho. Nunca parava de treinar, nem nunca desistiu. Ser negra, estrangeira e com um problema de pele constituíram grandes constrangimentos à sua carreira. Aos 8 anos, apesar de ser a melhor bailarina da escola, não aceitavam que fosse a protagonista do Quebra-nozes devido à sua cor da pele, tendo sentido marcadamente o peso da discriminação. Atualmente Michaela DePrince é uma das estrelas do “Dutch National Ballet” e é uma das mais promissoras bailarinas, do mundo.

Os Super-Humanos fazem acontecer e é isso que os distingue dos demais, tal como referem Cayolla e Marques (2018: 105): “o futuro não pertence àqueles que têm as melhores ideias, mas sim àqueles que as implementem, que experimentem e que as façam acontecer”. A menina, não obstante ter tido uma infância terrível, nunca deixou de lutar pelos seus objetivos e, tal como corroboram Cayolla e Marques (2018: 103) “o segredo para continuarmos a ser o número 1 é treinar sempre como se fossemos o número dois”. Usou a estratégia denominada por TRAINING MENTALY.

A última história ilustra a vivência de Brian, um rapaz com défice hiperatividade e de atenção, que sempre percecionou os negócios como um jogo. O pai achava que ele devia pagar os seus próprios estudos e, quando tinha 18 anos, teve uma brilhante ideia: Viu um monte de bicicletas antigas e decidiu tirar proveito daquilo que o comum das pessoas achava inútil. No dia seguinte, com 700 dólares, comprou o seu primeiro camião e criou a The Rubbish Boys, uma empresa especializada em recolher “tralha inútil”. Criou a maior empresa do mundo de remoção de lixo e está presente nos três países mais desenvolvidos - EUA, Canadá e Austrália. Foi a forma como Brian refletiu (REFLECT) que o levou a este patamar, utilizando a inteligência espiritual, que é dos aspetos mais importantes que temos: a última etapa da inteligência humana.

Em suma, a Obra radica na perspetivação de que o meio de proveniência não pode ser um fator determinante do sucesso, sendo este condicionado pelo esforço, pelo mérito e pelo recurso a estratégias apropriadas/ superpoderes.

Os autores dão a conhecer exemplos de vida verdadeiramente inspiradores, que revelam a importância da perspetiva de autoeficácia e da resiliência na operacionalização dos nossos sonhos.

Num mundo em permanente devir, em que se impõe uma rápida capacidade de adaptação, a Obra é de leitura obrigatória, porquanto evidencia histórias de sucesso, em áreas completamente improváveis.

Trabalho realizado por Maria Carolina Vasconcelos de Aguiar G. Barroso

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BIBLIOTECA DE PONTE DE LIMA CONTA HISTÓRIAS À SEXTA

Sessão online de promoção do livro e da leitura

A Biblioteca Municipal de Ponte de Lima – BMPL - encontra-se temporariamente encerrada ao público no âmbito das medidas preventivas adotadas pelo Município de Ponte de Lima para reduzir os riscos de exposição e contágio do Covid-19.

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Apesar da distância física e a pensar nos seus utilizadores a BMPL vai impulsionar a promoção do livro e da leitura através de sessões online de histórias, de música e de leituras encenadas com um novo projeto intitulado “HISTÓRIAS À SEXTA”, direcionado para crianças e famílias.

Através deste projeto as crianças e famílias têm a oportunidade de conhecer novos livros e histórias, de proporcionar momentos de partilha, alegria e lazer, de treinar competências parentais, de criar oportunidades de aprendizagem em torno dos livros de literatura infantil e de conhecer novas formas de animação de leitura.

Todas as sextas feiras serão publicadas nas redes sociais do Município de Ponte de Lima uma história, uma música ou leituras encenadas dinamizadas pelas técnicas da BMPL.

Contamos com a participação de todas as famílias neste novo projeto através da partilha dos momentos vividos e sentidos, traduzidos num desenho, elaborado em família, alusivo à história ouvida. Este desenho poderá ser fotografado e enviado para a Biblioteca Municipal de Ponte de Lima - biblioteca@cm-pontedelima.pt - que terá muito gosto em divulgá-lo na sua rede social - www.facebook.com/BibliotecaMunicipalPontedeLima

Divirtam-se em casa!

A Biblioteca continua a trabalhar e a pensar em vós!

VI EDIÇÃO DO PRÉMIO LITERÁRIO NORTEAR: APRESENTAÇÃO DE NOVA MODALIDADE DE ENVIO DAS OBRAS AO PRÉMIO

Hoje, dia 23 de abril de 2020, o Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial Galiza – Norte de Portugal, a Consellería de Cultura e Turismo da Xunta de Galicia e a Direção Regional de Cultura do Norte celebram o 5º aniversário do projeto Nortear. São 5 anos de colaboração continuada, promovendo diferentes atividades, tendo em vista o conhecimento mútuo da cultura, da literatura, da criação artística em geral, em ambos os territórios, impulsionando a expansão e o conhecimento do tecido cultural/artístico, bem como estimulando dinâmicas de colaboração entre os agentes culturais deste espaço de cooperação, assumindo-se como um polo cultural, que se pretende de referência a nível europeu, no domínio da cooperação transfronteiriça.

O Prémio Literário Nortear, atividade que desenvolvemos desde o início desta cooperação,  pretende distinguir, todos os anos, obras literárias originais, com os objetivos de estimular o lançamento de novos escritores, incentiva a criatividade literária entre os jovens residentes na Eurorregião Galiza - Norte de Portugal e promover a circulação e distribuição de obras literárias além-fronteiras.

Enquanto dure a situação atual, e no marco das medidas preventivas do Plano de Contingência dos Governos de Espanha e Portugal, as três instituições continuam a promover a cooperação entre Galiza e o Norte de Portugal desenvolvendo os projetos e ações derivadas dos seus objetivos institucionais, na modalidade de teletraballo, nomeadamente o Prémio Literário Nortear, atividade que desenvolvemos desde o início desta cooperação e que pretende distinguir, todos os anos, obras literárias originais.

Assim, e uma vez, que se encontra a decorrer a VI edição deste Prémio, e de forma a que os candidatos possam submeter a sua obra de forma segura, damos a possibilidade de as obras serem enviadas via correio eletrónico, numa pasta .zip (o nome da pasta terá que ser o pseudónimo do candidato) que deverá conter a obra e os anexos solicitados no regulamento.

Para mais informações: www.gnpaect.eu  

#FiqueEmCasa

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CERVEIRA CONVIDA À LEITURA

Biblioteca Municipal agiliza Hora do Conto online

Mantendo alguma atividade adaptada à nova realidade provocada pela Pandemia COVID-19 e, simultaneamente, promovendo a mensagem de #fiqueemcasa, a Biblioteca Municipal de Vila Nova de Cerveira propõe a dinamização da habitual Hora do Conto em Família, no recato dos seus lares com recurso aos meios digitais.

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O método é simples e bem divertido. Em cada sábado, às 11h00, é publicado um conto na página do Facebook da Biblioteca Municipal, através de um link da plataforma Youtube.

O desafio é que pais e filhos possam ler a história sugerida em conjunto e dar asas à imaginação através de um elemento interpretativo – pode ser um desenho, uma performance, ou outra.

No final, são convidados a registar essa dinâmica em fotografia e partilhá-la com tod@s na Página do Facebook da Biblioteca Municipal de Vila Nova de Cerveira.

Este sábado, 28 de março, vamos abordar a obra “O lobo que não gostava de ler” de Orianne Lallemand.

Quem aceita o desafio?!

"RENOVO": NOVOS CONTOS DA MONTANHA DE MIGUEL TORGA

RENOVO

­ A Lucinda ? ­ perguntou o Pedro, coberto de suor, lívido, a acabar de sair de uma modorra de morte.

­ Está boa... ­ respondeu a mãe., com a naturalidade que pôde.

­ E porque não vem cá?

­ Isto pega­se, filho. Ela bem queria; eu é que não consinto... Uma onda de tristeza, que lhe embaciou a imagem da namorada, atravessou os olhos febris do rapaz. Depois, exausto do esforço de vir à tona do poço, desceu as pálpebras e caiu na sonolência em que vivia há dias.

No princípio da epidemia, de ouvido atento, ia vigiando o mundo através do dobrar do sino.

O som a entrar no quarto abafado e ele a inquirir, inquieto:

­ Quem foi? minha mãe?

­ O Belmiro. ­ O pai ou o filho? ­ O pai. Cuidadosa, a Felisberta varria implacavelmente o caminho de todos os espinhos que pudessem magoar as justas esperanças da mocidade. Só rodeado de gente da mesma geração, nascida e feita nas mesmas festas, nos mesmos magustos e nas mesmas ilusões, o sangue jovem pulsa com vontade. E a Felisberta, docemente, ia matando os velhos e as velhas da freguesia, para deixar ao doente, intactas, as fontes da alegria.

­ E hoje?

­ queria ele saber de novo, sôfrego de uma palavra que fosse uma garantia da imunidade dos seus vinte anos.

­ O Pinto. A única, distinção que o sino fazia era entre homens e mulheres. E bastava à Felisberta ter debaixo da língua um nome de sessenta invernos, capaz de justificar as três ou as cinco badaladas, para aquietar aquele atento desassossego.

O mal, porém, alastrou de tal modo que se tornmou impossível tocar a todos os defuntos. Além disso, o sinal fatídico acabara por ser um aviso a cada moribundo. E o prior, rogado e convencido, mandou calar o bronze.

­ De hoje em diante não há mais dobre a finados ­ ordenou ele. ­ Toda a gente que tem doentes em casa reclama., e tem razão. De mais a mais, pelo caminho que isto leva, nem a tocar de manhã à noite se dava vazão...

­ Pronto, acabou­se! ­ respondeu, obediente, o sacristão. ­ Vão empandeirados como animais, mas lá vão...

O padre olhou em silêncio o rosto amarelo do Eusébio, a pensar na força dos sentimentos humanos. Até aquela alma rude sabia que, embora triste, sempre era uma nota de vida e de dignificação o sino a anunciar um trespasse humano. A vibração plangente descia da torre, propagava­se pelas veigas a cabo, e levava a cada caule, a cada folha e a cada fruto um estremecimento melancólico mas pulsátil, que significava ainda força, respiração e, sobretudo, protesto. E quem cavava, lavrava e suava nos lameiros, não sentia no silêncio conivente do sino o vazio do pó e do esquecimento.

­ Morreu um de Feitais... Pela coragem com que puxavam a corda do badalo, pela maneira como repicavam ou dobravam, sabia­se a que terra pertencia o cadáver que baixava à cova. Cada aldeia enterrava singularmente os seus mortos. Os de Leirosa, bonacheirões, pacíficos, pobres, tocavam pouco, devagar, sem vontade e sem brio. Mas já os de Fermentões, espadaúdos, carreiros e jogadores de pau, homens de bigodaça e de mau vinho, davam sinais de outro modo, viril e triunfalmente. E nestas variações o próprio defunto encontrava o seu húmus, ia desta para melhor amortalhado em verdade nativa.

Infelizmente, o tempo feliz dessas expressões fraternas passara. Nas freguesias à volta era o que se sabia. E em Vilalva, depois da caminhada de expiação que o abade ordenara a ver se conjurava o mal, começou também a razia. Ou porque se juntou gente de toda a parte e pegaram a peste uns aos outros, ou porque a noite estava fria e ia tudo descalço e desagasalhado pela serra acima, ou porque o destino assim o quis, o certo é que no dia seguinte a povoação ardia em febre.

O prior, apenas chegou a notícia do flagelo que dizimava as povoações vizinhas, não esteve com meias medidas:

­ Aqui a solução é implorar o auxílio do nosso padroeiro Mártir S. Sebastião, num acto colectivo de desagravo e penitência.

­ Se o remédio é esse... ­ responderam todos. E logo no outro dia à noite, pois não havia tempo a perder, pelos Pousados fora parecia uma ronda de fantasmas.

Ia à frente a bandeira das Santíssimas Almas, pintada a alvaiade e a zarcão, onde se via quase ao natural o Arcanjo S. Miguel a pesar pecados: uma balança de doceira, o fiel a descair para o lado das chamas, e no prato de baixo um meio corpo aflito, a ver­se no inferno. Vinha depois, ajoelhado no seu andor, de cruz às costas, pálido e terrível, vestido de roxo e de severidade, o Senhor dos Passos. Só de olhá­lo, uma pessoa sentia­se perdida. Seguia­se o andor do orago, com o santo nu, atado a um poste e cravado de setas. A síntese perfeita da vulnerabilidade humana, que todos sentiam. Por fim, a fila interminável de poviléu. Velhos e novos, descalços, cobertos de lençóis, as mulheres de coroas de silva à cabeça, e os homens de cordas de carro à cinta e ao pescoço, e a sopesar ferros de arroteio, um, dois, três, quatro, seis até, conforme a força, a fé e o número de filhos.

Era uma caminhada desumana para o outro mundo, branca, fúnebre, fantástica e resignada. Irmanados no mesmo sentimento de perdição, bons e maus gemiam em coro a cantilena que o padre orquestrava, roucos, abatidos e apavorados. Nas mãos inocentes ardiam círios e archotes, onde a esperança, batida pelo vento, tremeluzia inquieta. E em todos, um sincero arrependimento de culpas horríveis que não tinham.

Mas ou do frio, ou do ajuntamento, ou castigo, o resultado de tanta humildade e sacrifício foi a aldeia acordar com os pulmões tomados.

­ Vão chamar o médico! Vão chamar o médico! ­ clamavam agora, uma vez que o santo protector visivelmente os abandonara.

Infelizmente, nem o doutor lhes podia valer. Como frutos maduros abanados por rabanadas de vento, caíam aos magotes na enxerga. E no dia seguinte, ou pouco mais, marchavam para a sepultura, desiludidos do céu e da terra.

A princípio o sino dava sinal e, ao som condoído da sua voz, o prior ia buscar o defunto a casa., e havia um lugar para cada fiel na terra sagrada do cemitério. À medida, porém, que a desgraça alargou, as garantias paroquianas foram perdendo a força. A torre calou­se, o padre já não fazia os levantamentos, e as valas eram no adro, e até numa vinha da residência, benzida à pressa. Sem o alarme dolorido do campanário, a morte perdera a solenidade, a individualidade e a santidade. Juntavam­se no largo pobres e ricos, amigos e inimigos, dez e mais, e o prior, de lenço no nariz, a defenderse da pestilência, conduzia o cortejo à igreja, onde os encomendava na mesma oração rápida e niveladora.

­ Não morreu mais ninguém?! ­ estranhava o Pedro, como um caracol que pusesse cautelosamente os cornos de fora, a sondar o silêncio.

­ Nunca mais ouvi o sino...

­ Não, filho. Não. A aldeia parecia um pinhal devastado por um ciclone. Casas inteiras despovoadas, famílias exterminadas até à raiz, a flor da mocidade ceifada como trigo maduro.

A pobre Felisberta tinha pago o seu tributo com três filhas, dois netos e o marido. Restava­lhe apenas aquele filho, que a cada instante parecia querer abandonar a luta e a cada instante a renovava. E todo o seu instinto de mulher estava ali, suspenso da respiração e dos olhos da última semente.

­ A Lucinda? Porque não vem? ­ era o gemido dele, mal acordava.

­ Ainda é cedo. Esteve à porta de manhã a saber de ti, queria ver­te à fina força, mas disse­lhe que tivesse paciência.

já não restava nenhuma das raparigas casadoiras da aldeia. Como flores crestadas por geada traiçoeira, uma a uma, foram deixando tombar no caule a cabeça gentil. Uma visão de fim do mundo, se a Felisberta não soubesse no mais íntimo do cerne que nada estava perdido desde que a sua própria seiva persistisse.

­ Come, filho. Faz por engolir... A trovoada rondava ainda no ar, mas já distante e sem força. Apesar disso, o sino mantinha­se calado, com medo de acordar a morte.

­ Não me apetece...

­ Ora não te apetece! Vai teimando... Era difícil encontrar outra vez as palavras esquecidas, a razão aparente das cousas, o sentido simples de tudo. A vida parecia começar de novo, hesitante, sem saber o caminho. ­ Estás aqui, estás melhor, vais ver...

­ E de que vale? Antes tivesse ido com o pai, com as minhas irmãs e com os meninos... O peito da Felisberta queria estalar de angústia. Mas já não havia tempo para mais desesperos.

­ Cala­te, filho. O que lá vai, lá vai...

O valor da desilusão sabia­o ela. Agora urgia descobrir o sabor da confiança. ­ Ainda havemos de ter muitas alegrias... Deixa lá! ­ Não diga isso, mãe ... Alegrias! ­ Digo e torno a dizer ... Mastiga, mastiga, filho. ­ E a Lucinda? ­ Não tenhas pressa. Deixa ver se isto varre mais... ­ Mas não tem morrido ninguém! o sino nunca mais tocou!... ­ Olha, toca agora... Repenicava de verdade o velho amigo e eram sinais de baptizado. A aldeia, numa paz de corpo sangrado e combalido, não se esquecera da vida. E ele quebrava a mudez prudente, e abria­se num contentamento apressado, cristalino, que inundava tudo de esperança.

­ De quem será? 

­ Seja lá de quem for! O que se precisa cá é de gente

 Amparado nos braços velhos e amorosos da mãe, o rapaz chegara­se à janela e olhava as leiras em pouso, as casas fechadas e o largo deserto. O tamanho da desgraça entrava pelos olhos dentro.

­ A Lucinda morreu, pois morreu, minha mãe? O sino repicava sempre, alegre, festivo, prometedor.

­ Há mais raparigas no mundo... Não te aflijas.. As terras, lá fora, pediam fé e coragem. Pelo menos a fé e a coragem que a mãe tinha, sem homem, sem filhas, sem netos, cheia de lágrimas, de dívidas, e cansada até à última fibra do coração.

Miguel Torga, in Novos Contos da Montanha

CABECEIRAS DE BASTO VIVE HORA DO CONTO

Hora do Conto sensibiliza para a diferença e para a aceitação

Arrancou ontem, dia 9 de março, na Casa Municipal da Cultura de Cabeceiras de Basto a Hora do Conto, uma iniciativa dinamizada pelo CTCMCB – Centro de Teatro da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto que apresentou às crianças do ensino pré-escolar o conto ‘O Girassol e o Caracol’.

Hora do Conto sensibiliza para a diferença e para

Através de uma simples e bela história de amizade entre um girassol e um caracol que viviam em mundos distintos – mundo amarelo e mundo verde – o Centro de Teatro sensibilizou as crianças para os valores da diferença e da diversidade num mundo que se quer cada vez mais “colorido” e de convivência sã.

Em simultâneo a Hora do Conto pretendeu incutir nos mais novos o hábito e o gosto pela leitura, apelando ao imaginário das crianças.

Através da Hora do Conto, o CTCMCB desenvolveu esta atividade de criação artística, indo ao encontro do programa educativo do Agrupamento de Escolas, trabalhando as questões sobre a aceitação, bem como a sua importância para “um mundo mais colorido”, onde todos têm o seu lugar.

A anteceder o conto, as crianças foram convidadas a exercitar o corpo através da realização de jogos lúdicos que promoveram a descontração e a boa disposição entre todos.

A iniciativa que decorre até à próxima sexta-feira, dia 13 de março, tem como destinatários 269 crianças do ensino pré-escolar do Agrupamento de Escolas de Cabeceiras de Basto.

Hora do Conto sensibiliza para a diferença e para

FOLHETIM "TERRA FRIA" RETRATOU A VIDA DAS GENTES DO BARROSO

Terra Fria – Ferreira de Castro

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Ferreira de Castro era um homem que gostava de conhecer o ser humano em todas as suas vicissitudes, um estudioso das questões sociais, utilizando as suas observações para a realização da maioria dos seus livros.

“Terra Fria” é um dos romances onde ele aplica o fruto das suas longas observações, traçando-nos um retracto da vida do povo do nordeste transmontano, evidenciando o sofrimento, a luta quotidiana e o modo de vida quase medieval que se fazia sentir nos início dos anos 30 do século passado.

E, para mim, é aqui que reside a principal beleza deste romance. Escrito em 1934, Ferreira de Castro pretendeu transmitir a imagem da vida nessa região. Hoje em dia, 80 anos depois, esse cenário desapareceu ou poucos vestígios existem, pelo que é nas páginas de “Terra Fria” que descobrimos esse passado e que faz deste livro uma espécie de romance histórico.

Aldeia de Padornelos, Montalegre. Leonardo luta dia a dia pelo sustento da sua família. Ele a mulher, ainda sem filhos, procura em trabalhos esporádicos e principalmente no contrabando, ganhar algum dinheiro enquanto sonha em se estabelecer por conta própria com uma venda (espécie de mercearia que ainda conheci no Alentejo nos anos 80).

É neste contexto que Ferreira de Castro nos descreve a actividade do contrabando, tão em voga nessa altura. Mas o autor vai mais longe.

Volta a Padornelos um homem que havia estado emigrado nos Estados Unidos e, como era apanágio, fica conhecido pelo “americano”. Depressa dá mostras da sua riqueza que o leva a ser considerado um dos homens mais importantes e influentes da aldeia e é ele que dá origem ao drama que irá assolar a aldeia.

É um romance que nos faz sentir uma constante solidão. Somos assaltados por imagens de uma terra desoladora, fria, onde a pobreza é a única condição conhecida e onde o rico julga ter todo o poder sobre o pobre. A meu ver, Ferreira de Castro para além de evidenciar a pobreza do Portugal profundo, nesse caso em Trás-os-Monte, lança aqui uma crítica feroz ao abuso de poder do regime caracterizado no “americano” e a sua forma de agir.

Fonte: https://nlivros.blogspot.com/

CENAS PREPARADAS NO BARROSO, PARA ILUSTRAÇÃO DO FOLHETIM TERRA FRIA.

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Fonte: ANTT

POETA CLÁUDIO LIMA COMEMORA 50 ANOS DE VIDA LITERÁRIA

Cláudio Lima lança novo livro no mês que comemora 50 anos de vida literária

Dia 29 de fevereiro, pelas 15h00, o Município de Ponte de Lima promove o lançamento de um novo livro do limiano Cláudio Lima.

Esta ação, que terá lugar na Biblioteca Municipal, insere-se nas comemorações de 50 anos de vida literária de Cláudio Lima, estando a apresentação do livro “Contos d’aqui e d’agora” do prezado autor, a cargo de David F. Rodrigues.

Tal como o nome indica trata-se de um livro de contos, publicado pela editora Labirinto.

Neste mesmo dia decorrerá também na Biblioteca Municipal a inauguração da exposição “Cláudio Lima – 50 anos de vida literária” que estará patente neste espaço cultural de 29 de fevereiro a 30 de setembro de 2020.

Marque presença nesta homenagem, venha conhecer a vida e a obra do autor e celebrar este acontecimento.

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POETISA ROSALÍA DE CASTRO NASCEU HÁ 183 ANOS

Rosalía de Castro é justamente considerada a fundadora da moderna literatura galega ou seja, o movimento cultural do rexurdimento que está na origem do nacionalismo galego. A poetisa nasceu em Santiago de Compostela, em 24 de fevereiro de 1837, e faleceu em Padrón, em 15 de julho de 1885.

Escrita em galego e castelhano, a sua poesia inspira-se na lírica popular trovadoresca, tendo publicado em galego “Cantares Gallegos” e “Folhas Novas” e, em castelhano, “En las Orillas del Sar”. A Galiza celebra o Dia das Letras Galegas em 17 de Maio, invocando a edição de “Cantares Gallegos”, a sua primeira obra em galego.

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VAGUEDÁS

II

Bem sei que non hai nada

Novo en baixo do ceo,

Que antes outros pensaron

As cousas que ora eu penso.

 

E bem, ¿para que escribo?

E bem, porque así semos,

Relox que repetimos

Eternamente o mesmo.

 

III

Tal como as nubes

Que impele o vento,

I agora asombran, i agora alegran

Os espazos inmensos do ceo,

Así as ideas

Loucas que eu teño,

As imaxes de múltiples formas,

De estranas feituras, de cores incertos,

Agora asombran,

Agora acraran

O fondo sin fondo do meu pensamento.

PONTE DE LIMA ASSINALA 50 ANOS DE VIDA LITERÁRIA DE CLÁUDIO LIMA

Os 50 anos de Vida Literária de Cláudio Lima merecem especial evocação com uma exposição bibliográfica e documental organizada pelo Municipio de Ponte e Lima, através da Biblioteca Municipal e com o lançamento de uma nova obra do homenageado, com chancela da Editora Labirinto.

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A justa homenagem ao escritor limiano Cláudio Lima vai decorrer no dia 29 de fevereiro de 2020, pelas 15h00, exatamente no mês em que veio a prol a sua primeira obra intitulada “A Foz das Palavras” e que propicia esta comemoração.

O tributo terá lugar na Biblioteca Municipal de Ponte de Lima e dividir-se-á em dois momentos. Primeiro inaugurar-se-á a exposição “Cláudio Lima – 50 anos de vida literária” que estará patente neste espaço cultural de fevereiro a setembro de 2020 e posteriormente seguir-se-á a apresentação do livro “Contos d’aqui e d’agora” do estimado autor, que estará a cargo de David F. Rodrigues. 

Marque presença nesta homenagem e conheça a mais recente produção literária do autor limiano Cláudio Lima.

RICHARD ZIMLER EM DESTAQUE NO PRÓXIMO “UMA CONVERSA, UM LIVRO E ÀS VEZES UM FILME” EM VILA PRAIA DE ÂNCORA

Sessão terá lugar no dia 29 de fevereiro, pelas 15H00, no Cineteatro dos Bombeiros de Vila Praia de Âncora

 “Os dez espelhos de Benjamin Zarco”, de Richard Zimler é o destaque do próximo “Uma Conversa, um Livro e às vezes um Filme”. Esta sessão terá lugar no dia 29 de fevereiro, pelas 15H00, no Cineteatro dos Bombeiros de Vila Praia de Âncora. A conversa será seguida pelo documentário “Noite e Nevoeiro”, de Alain Resnais.

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“Uma Conversa, um Livro e às vezes um Filme” continua a trazer ao concelho nomes sonantes do mundo literário. Richard Zimler, conhecido do grande público e dos Caminhenses, dispensa apresentações. RichardZimler, o escritor nova iorquino que trocou os EUA por Portugal, vive no Porto desde 1990, onde foi professor de jornalismo, primeiro na Escola Superior de Jornalismo e depois na Universidade do Porto. Nos últimos 23 anos, publicou 11 romances, uma coletânea de contos e cinco livros infantis, que depressa entraram nas listas de bestsellers de vários países (Portugal, Brasil, EUA, Inglaterra, Itália, etc).

Vários dos seus livros fazem parte do Plano Nacional de Leitura, com destaque para“Dança Quando Chegares ao Fim”, “Se Eu Fosse” e “O Cão que Comia a Chuva”.Zimler já ganhou diversos prémios: NationalEndowmentoftheArtsFellowship in Fiction (EUA) em 1994; Prémio Herodotus (EUA) para o melhor romance histórico em 1998; prémio literário Alberto Benveniste 2009; prémio Marquês de Ouro, entre outros. Já proferiu mais de 500 conferências sobre a sua escrita e a cultura judaica, em escolas, museus, bibliotecas, livrarias, sinagogas e auditórios públicos em mais do que 15 países, incluindo os EUA, Inglaterra, Austrália, Portugal, França e Brasil. Em 2009, Zimler escreveu o guião para O Espelho Lento, uma curta-metragem baseada num dos seus contos. O filme foi realizado no verão de 2009 pela realizadora sueca-portuguesa SolveigNordlund e venceu o prémio de melhor filme dramático no Festival de Curtas-Metragens de Nova Iorque, em maio de 2010.

Quanto ao livro “Os dez espelhos de Benjamin Zarco” na sinopse lê-se: “Benjamin Zarco e o seu primo Shelly foram os únicos membros da família a escapar ao Holocausto. Cada um à sua maneira, ambos carregam o fardo de ter sobrevivido a todos os outros. Benjamin recusa-se a falar do passado, procurando as respostas na cabala, que estuda com avidez, em busca daquilo a que chama os fios invisíveis que tudo ligam. E Shelly refugia-se numa hipersexualidade, seu único subterfúgio para calar os fantasmas que o atormentam.Construído como um mosaico e dividido em seis peças, Os dez espelhos de Benjamin Zarco entretecem-se entre 1944, com a história de EwaArmbruster, professora de piano cristã que arrisca a vida para esconder Benni em sua casa, e 2018, com o testemunho do filho de Benjamin acerca do manuscrito de Berequias Zarco, herança do pai, talvez a chave para compreender a razão por que Benjamin e Shelly se salvaram e o vínculo único que os une.Um romance profundamente comovente e redentor, com personagens inesquecíveis. Uma ode à solidariedade, ao heroísmo e ao tipo de amor capaz de ultrapassar todas as barreiras, temporais e geográficas”.

A conversa será seguida de “Noite e Nevoeiro”, de Alain Resnais. Sobre o documentário, Edgardo Cozarinskyescreveu: “é o único filme justo sobre o grande horror do século XX: menos o extermínio de um povo do que o programa e administração postos em funcionamento para o executar. Também uma meditação sobre o esquecimento natural e o trabalho da memória”.

Esta iniciativa é organizada pelos Amigos da Rede de Bibliotecas de Caminha e pela Câmara Municipal de Caminha.

É de referir que os Amigos da Rede de Bibliotecas de Caminha (RBC) tornam-se leitores inscritos nas bibliotecas do concelho de Caminha. O estatuto de Amigo da RBC é formalizado através do preenchimento de um formulário, (com os dados biográficos essenciais e contactos) e da oferta de um livro que reverterá para a coleção da Biblioteca Municipal. A participação no grupo de Amigos da RBC é voluntária, exclui qualquer compensação e cessará no momento em que o Amigo assim o desejar. Através da sua ação, os Amigos RBC pretendem contribuir, de modo particular, para o desenvolvimento das competências e serviços das mesmas e, genericamente, para o progresso cultural da comunidade que estas servem.

BIBLIOTECA MUNICIPAL DE ESPOSENDE RECEBE AFONSO REIS CABRAL

Prémio Literário José Saramago 2019

A Biblioteca Municipal Manuel de Boaventura, de Esposende, vai receber, no próximo dia 22 de fevereiro, às 21h00, Afonso Reis Cabral, vencedor do Prémio Literário José Saramago 2019.

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Neste encontro, com entrada livre e gratuita, o escritor abordará o seu percurso literário, dando particular enfâse ao livro "Pão de Açúcar", que lhe valeu a conquista do referido prémio literário e que António Mega Ferreira, enquanto elemento do júri, considerou “que é uma das obras ficcionais portuguesas mais arrebatadoras e poderosas dos últimos anos”. No final da sessão, o autor estará disponível para autógrafos.

O Prémio Literário José Saramago foi criado pela Fundação Círculo de Leitores com o objetivo de homenagear o nobel português. Com um valor pecuniário de 25 mil euros, é um dos mais importantes prémios literários atribuídos no âmbito da lusofonia a autores com obra publicada em português, e com idade não superior a 35 anos, tendo distinguido já Paulo José Miranda, José Luís Peixoto, Adriana Lisboa, Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, João Tordo, Andréa del Fuego, Ondjaki, Bruno Vieira Amaral e Julián Fuks.

Afonso Reis Cabral nasceu em 1990. Em 2014, ganhou o Prémio LeYa com o romance “O Meu Irmão”. Em 2017, foi-lhe atribuído o Prémio Europa David Mourão-Ferreira na categoria de Promessa, e, em 2018, o Prémio Novos, na categoria de Literatura. No final de 2018, publicou o seu segundo romance, “Pão de Açúcar”, que teve forte acolhimento por parte da crítica. Entre abril e maio de 2019, percorreu Portugal a pé, ao longo dos 738,5 quilómetros da Estrada Nacional 2, tendo registado essa viagem no livro “Leva-me Contigo”. Em outubro de 2019, ao vencer o Prémio José Saramago, consagra-se como um dos jovens autores de quem a literatura portuguesa se pode orgulhar.

Também este mês, no dia 16, a Biblioteca Municipal leva a efeito mais uma Sessão Famílias, desta feita Yoga entre Histórias. Assim, em sessões às 15h30 e às 16h30, Sónia Jacinto apresentará “A lagartinha que tinha um sonho”, convidando as crianças e os pais a exercitar a mente e o corpo, através de uma sessão de Yoga. Dirigida a crianças com idades entre os 4 e os 8 anos, esta atividade é de participação gratuita, contudo, carece de marcação prévia obrigatória, a partir de 10 fevereiro, através do e-mail biblioteca.municipal@cm-esposende.pt ou do telefone 253 960 181.

Estas ações inserem-se na estratégia cultural do Município e na programação da Biblioteca Municipal, enquadrando-se igualmente nos eixos dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), que a Câmara Município verteu para o seu programa de ação.

AINDA OS LIVROS

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Não era minha intenção voltar ao tema, porém falar de leituras é quase tão excitante como ler. “À boleia”, entendi obrigatório fazer uma pequena abordagem a um livro que, não sendo muito atual no tempo, jamais perderá atualidade na matéria.

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Antes, aproveito e manifesto o meu apreço por um escritor que, apesar de pouco divulgado, está considerado um dos maiores romancistas do século XX. Trata-se de José Rodrigues Miguéis (1901/1980), que nos legou uma obra diversificada, com cerca de um vintena de livros e uma imensidade de textos publicados pela imprensa em geral. Numa das primitivas feiras do livro em Viana, aconselhado, comprei o seu romance “A Escola do Paraíso”. Li-o num folego. E o prazer foi tanto que em nova passagem pela feira adquiri a maior parte da sua obra.

“A Escola do Paraíso”, que muitos consideram um livro autobiográfico, tendo como personagem central o menino Gabriel, descreve de forma emocionante a vida social da cidade de Lisboa do princípio do século XX, local onde o autor nasceu e viveu grande parte do tempo (proscrito pelo regime, radicou-se nos Estados Unidos a partir de 1935, onde veio a falecer). O passado desperta sempre em nós um sentimento nostálgico, mas se alguém fala dele numa narrativa sentida e direta, eivada de pormenores de vivências, conseguindo fazer-nos figurantes desse tempo, então temos mesmo que ser tocados pela obra. Por mim não resisti a relê-la decorridos alguns anos.

Mas a minha proposta efetiva de leitura vai noutro sentido. Trata-se do livro “Máscaras de Salazar”, de Fernando Dacosta (sucessivamente reeditado). Fernando Dacosta, na década de 1960, na qualidade de jornalista, trabalhou junto da Assembleia Nacional e do Conselho de Ministros, tendo criado com D. Maria, a governanta de Salazar, uma relação empática ao ponto de se tornar seu habitual confidente. Isso e a relação amistosa com figuras gradas do regime e a socialite da capital proporcionaram-lhe todas as condições para que, de modo factual, pudesse fazer o retrato do Salazarismo.

Em meu entender, trata-se da obra que melhor explica e comprova porque suportamos 48 anos um regime que assentava em princípios opostos à realidade do mundo, legando-nos um país tristemente atrasado em todos os domínios, em guerra com as colónias e em confronto com a lógica do tempo, rejeitado pelas nações em geral. Ler “As Máscaras de Salazar” é estar habilitado a poder dizer Salazarismo jamais.

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LIVROS QUE NOS TOCAM

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  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Voltaire, escritor e filósofo (1694/1778), afirmava que “a leitura engrandece a alma”. Nada mais evidente. Quando se lê sabe-se sempre mais, razão para nos tornamos mais confiantes no saber e abraçar melhor a vida. Ler, para quem sente esse prazer, pode dar-nos também estabilidade emocional, particularmente quando nos identificamos com a obra e nos deixamos prender por ela.

Mas a leitura não passa só pelos livros. É consabido que importante é ler, também podendo ser jornais, revistas ou qualquer outra variedade. Nos meios rurais, ao longo de décadas, a leitura disponível para as pessoas era o jornal diário, tantas vezes disputado nas tabernas pelos curiosos das notícias. Apercebia-me de leitores semianalfabetos que se gabavam da sua satisfatória cultura tendo como base a leitura dos periódicos. Faziam uso disso e gostavam de desafiar no conhecimento os jovens que possuíam já a chamada 4ª classe.

Para mim, o gosto pela leitura foi-me em boa parte incutido pelas bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, que prestaram ao país um serviço cultural e formativo incomensurável. Nos fins-de-semana esperava pacientemente pelas carrinhas servidas de autores variados, onde pontificava Cruz Cerqueira, um cidadão culto, simpático e bem preparado para orientar os visitantes no tipo de obras aconselhadas à sua faixa etária.

Julgo que grande parte dos cidadãos, pouco ou muito, leem e tem curiosidade pelo conhecimento, que também pode advir de outras formas, especialmente através dos meios audiovisuais. E nesta leitura que ao longo do tempo vamos fazendo há sempre algo, especialmente livros, que nos marcam e ficam como referência. No meu caso, há escritores dos quais me tornei leitor assíduo. José Saramago, por exemplo é um deles. Li quase tudo o que escreveu e um dos seus livros que mais me marcou até nem foi o universal “Memorial do Convento”, mas sim o “Levantado do Chão”, a sua primeira obra de referência.

Neste romance, Saramago dá vida à luta do povo alentejano contra aqueles que o oprimiam: os latifundiários e as forças da ordem que os protegiam, com a complacência envergonhada da igreja. Uma luta sacrificada, mas obstinada, enquadrada num ambiente de miséria rural. No texto de contracapa do livro escreveu Saramago: “Um escritor é um homem como os outros: sonha. E o meu sonho foi o de poder dizer deste livro, quando terminasse: Isto é o Alentejo”. Nada mais evidente, José.

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