Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

CERVEIRA CONVIDA À LEITURA

Biblioteca Municipal agiliza Hora do Conto online

Mantendo alguma atividade adaptada à nova realidade provocada pela Pandemia COVID-19 e, simultaneamente, promovendo a mensagem de #fiqueemcasa, a Biblioteca Municipal de Vila Nova de Cerveira propõe a dinamização da habitual Hora do Conto em Família, no recato dos seus lares com recurso aos meios digitais.

o lobo.jpg

O método é simples e bem divertido. Em cada sábado, às 11h00, é publicado um conto na página do Facebook da Biblioteca Municipal, através de um link da plataforma Youtube.

O desafio é que pais e filhos possam ler a história sugerida em conjunto e dar asas à imaginação através de um elemento interpretativo – pode ser um desenho, uma performance, ou outra.

No final, são convidados a registar essa dinâmica em fotografia e partilhá-la com tod@s na Página do Facebook da Biblioteca Municipal de Vila Nova de Cerveira.

Este sábado, 28 de março, vamos abordar a obra “O lobo que não gostava de ler” de Orianne Lallemand.

Quem aceita o desafio?!

"RENOVO": NOVOS CONTOS DA MONTANHA DE MIGUEL TORGA

RENOVO

­ A Lucinda ? ­ perguntou o Pedro, coberto de suor, lívido, a acabar de sair de uma modorra de morte.

­ Está boa... ­ respondeu a mãe., com a naturalidade que pôde.

­ E porque não vem cá?

­ Isto pega­se, filho. Ela bem queria; eu é que não consinto... Uma onda de tristeza, que lhe embaciou a imagem da namorada, atravessou os olhos febris do rapaz. Depois, exausto do esforço de vir à tona do poço, desceu as pálpebras e caiu na sonolência em que vivia há dias.

No princípio da epidemia, de ouvido atento, ia vigiando o mundo através do dobrar do sino.

O som a entrar no quarto abafado e ele a inquirir, inquieto:

­ Quem foi? minha mãe?

­ O Belmiro. ­ O pai ou o filho? ­ O pai. Cuidadosa, a Felisberta varria implacavelmente o caminho de todos os espinhos que pudessem magoar as justas esperanças da mocidade. Só rodeado de gente da mesma geração, nascida e feita nas mesmas festas, nos mesmos magustos e nas mesmas ilusões, o sangue jovem pulsa com vontade. E a Felisberta, docemente, ia matando os velhos e as velhas da freguesia, para deixar ao doente, intactas, as fontes da alegria.

­ E hoje?

­ queria ele saber de novo, sôfrego de uma palavra que fosse uma garantia da imunidade dos seus vinte anos.

­ O Pinto. A única, distinção que o sino fazia era entre homens e mulheres. E bastava à Felisberta ter debaixo da língua um nome de sessenta invernos, capaz de justificar as três ou as cinco badaladas, para aquietar aquele atento desassossego.

O mal, porém, alastrou de tal modo que se tornmou impossível tocar a todos os defuntos. Além disso, o sinal fatídico acabara por ser um aviso a cada moribundo. E o prior, rogado e convencido, mandou calar o bronze.

­ De hoje em diante não há mais dobre a finados ­ ordenou ele. ­ Toda a gente que tem doentes em casa reclama., e tem razão. De mais a mais, pelo caminho que isto leva, nem a tocar de manhã à noite se dava vazão...

­ Pronto, acabou­se! ­ respondeu, obediente, o sacristão. ­ Vão empandeirados como animais, mas lá vão...

O padre olhou em silêncio o rosto amarelo do Eusébio, a pensar na força dos sentimentos humanos. Até aquela alma rude sabia que, embora triste, sempre era uma nota de vida e de dignificação o sino a anunciar um trespasse humano. A vibração plangente descia da torre, propagava­se pelas veigas a cabo, e levava a cada caule, a cada folha e a cada fruto um estremecimento melancólico mas pulsátil, que significava ainda força, respiração e, sobretudo, protesto. E quem cavava, lavrava e suava nos lameiros, não sentia no silêncio conivente do sino o vazio do pó e do esquecimento.

­ Morreu um de Feitais... Pela coragem com que puxavam a corda do badalo, pela maneira como repicavam ou dobravam, sabia­se a que terra pertencia o cadáver que baixava à cova. Cada aldeia enterrava singularmente os seus mortos. Os de Leirosa, bonacheirões, pacíficos, pobres, tocavam pouco, devagar, sem vontade e sem brio. Mas já os de Fermentões, espadaúdos, carreiros e jogadores de pau, homens de bigodaça e de mau vinho, davam sinais de outro modo, viril e triunfalmente. E nestas variações o próprio defunto encontrava o seu húmus, ia desta para melhor amortalhado em verdade nativa.

Infelizmente, o tempo feliz dessas expressões fraternas passara. Nas freguesias à volta era o que se sabia. E em Vilalva, depois da caminhada de expiação que o abade ordenara a ver se conjurava o mal, começou também a razia. Ou porque se juntou gente de toda a parte e pegaram a peste uns aos outros, ou porque a noite estava fria e ia tudo descalço e desagasalhado pela serra acima, ou porque o destino assim o quis, o certo é que no dia seguinte a povoação ardia em febre.

O prior, apenas chegou a notícia do flagelo que dizimava as povoações vizinhas, não esteve com meias medidas:

­ Aqui a solução é implorar o auxílio do nosso padroeiro Mártir S. Sebastião, num acto colectivo de desagravo e penitência.

­ Se o remédio é esse... ­ responderam todos. E logo no outro dia à noite, pois não havia tempo a perder, pelos Pousados fora parecia uma ronda de fantasmas.

Ia à frente a bandeira das Santíssimas Almas, pintada a alvaiade e a zarcão, onde se via quase ao natural o Arcanjo S. Miguel a pesar pecados: uma balança de doceira, o fiel a descair para o lado das chamas, e no prato de baixo um meio corpo aflito, a ver­se no inferno. Vinha depois, ajoelhado no seu andor, de cruz às costas, pálido e terrível, vestido de roxo e de severidade, o Senhor dos Passos. Só de olhá­lo, uma pessoa sentia­se perdida. Seguia­se o andor do orago, com o santo nu, atado a um poste e cravado de setas. A síntese perfeita da vulnerabilidade humana, que todos sentiam. Por fim, a fila interminável de poviléu. Velhos e novos, descalços, cobertos de lençóis, as mulheres de coroas de silva à cabeça, e os homens de cordas de carro à cinta e ao pescoço, e a sopesar ferros de arroteio, um, dois, três, quatro, seis até, conforme a força, a fé e o número de filhos.

Era uma caminhada desumana para o outro mundo, branca, fúnebre, fantástica e resignada. Irmanados no mesmo sentimento de perdição, bons e maus gemiam em coro a cantilena que o padre orquestrava, roucos, abatidos e apavorados. Nas mãos inocentes ardiam círios e archotes, onde a esperança, batida pelo vento, tremeluzia inquieta. E em todos, um sincero arrependimento de culpas horríveis que não tinham.

Mas ou do frio, ou do ajuntamento, ou castigo, o resultado de tanta humildade e sacrifício foi a aldeia acordar com os pulmões tomados.

­ Vão chamar o médico! Vão chamar o médico! ­ clamavam agora, uma vez que o santo protector visivelmente os abandonara.

Infelizmente, nem o doutor lhes podia valer. Como frutos maduros abanados por rabanadas de vento, caíam aos magotes na enxerga. E no dia seguinte, ou pouco mais, marchavam para a sepultura, desiludidos do céu e da terra.

A princípio o sino dava sinal e, ao som condoído da sua voz, o prior ia buscar o defunto a casa., e havia um lugar para cada fiel na terra sagrada do cemitério. À medida, porém, que a desgraça alargou, as garantias paroquianas foram perdendo a força. A torre calou­se, o padre já não fazia os levantamentos, e as valas eram no adro, e até numa vinha da residência, benzida à pressa. Sem o alarme dolorido do campanário, a morte perdera a solenidade, a individualidade e a santidade. Juntavam­se no largo pobres e ricos, amigos e inimigos, dez e mais, e o prior, de lenço no nariz, a defenderse da pestilência, conduzia o cortejo à igreja, onde os encomendava na mesma oração rápida e niveladora.

­ Não morreu mais ninguém?! ­ estranhava o Pedro, como um caracol que pusesse cautelosamente os cornos de fora, a sondar o silêncio.

­ Nunca mais ouvi o sino...

­ Não, filho. Não. A aldeia parecia um pinhal devastado por um ciclone. Casas inteiras despovoadas, famílias exterminadas até à raiz, a flor da mocidade ceifada como trigo maduro.

A pobre Felisberta tinha pago o seu tributo com três filhas, dois netos e o marido. Restava­lhe apenas aquele filho, que a cada instante parecia querer abandonar a luta e a cada instante a renovava. E todo o seu instinto de mulher estava ali, suspenso da respiração e dos olhos da última semente.

­ A Lucinda? Porque não vem? ­ era o gemido dele, mal acordava.

­ Ainda é cedo. Esteve à porta de manhã a saber de ti, queria ver­te à fina força, mas disse­lhe que tivesse paciência.

já não restava nenhuma das raparigas casadoiras da aldeia. Como flores crestadas por geada traiçoeira, uma a uma, foram deixando tombar no caule a cabeça gentil. Uma visão de fim do mundo, se a Felisberta não soubesse no mais íntimo do cerne que nada estava perdido desde que a sua própria seiva persistisse.

­ Come, filho. Faz por engolir... A trovoada rondava ainda no ar, mas já distante e sem força. Apesar disso, o sino mantinha­se calado, com medo de acordar a morte.

­ Não me apetece...

­ Ora não te apetece! Vai teimando... Era difícil encontrar outra vez as palavras esquecidas, a razão aparente das cousas, o sentido simples de tudo. A vida parecia começar de novo, hesitante, sem saber o caminho. ­ Estás aqui, estás melhor, vais ver...

­ E de que vale? Antes tivesse ido com o pai, com as minhas irmãs e com os meninos... O peito da Felisberta queria estalar de angústia. Mas já não havia tempo para mais desesperos.

­ Cala­te, filho. O que lá vai, lá vai...

O valor da desilusão sabia­o ela. Agora urgia descobrir o sabor da confiança. ­ Ainda havemos de ter muitas alegrias... Deixa lá! ­ Não diga isso, mãe ... Alegrias! ­ Digo e torno a dizer ... Mastiga, mastiga, filho. ­ E a Lucinda? ­ Não tenhas pressa. Deixa ver se isto varre mais... ­ Mas não tem morrido ninguém! o sino nunca mais tocou!... ­ Olha, toca agora... Repenicava de verdade o velho amigo e eram sinais de baptizado. A aldeia, numa paz de corpo sangrado e combalido, não se esquecera da vida. E ele quebrava a mudez prudente, e abria­se num contentamento apressado, cristalino, que inundava tudo de esperança.

­ De quem será? 

­ Seja lá de quem for! O que se precisa cá é de gente

 Amparado nos braços velhos e amorosos da mãe, o rapaz chegara­se à janela e olhava as leiras em pouso, as casas fechadas e o largo deserto. O tamanho da desgraça entrava pelos olhos dentro.

­ A Lucinda morreu, pois morreu, minha mãe? O sino repicava sempre, alegre, festivo, prometedor.

­ Há mais raparigas no mundo... Não te aflijas.. As terras, lá fora, pediam fé e coragem. Pelo menos a fé e a coragem que a mãe tinha, sem homem, sem filhas, sem netos, cheia de lágrimas, de dívidas, e cansada até à última fibra do coração.

Miguel Torga, in Novos Contos da Montanha

CABECEIRAS DE BASTO VIVE HORA DO CONTO

Hora do Conto sensibiliza para a diferença e para a aceitação

Arrancou ontem, dia 9 de março, na Casa Municipal da Cultura de Cabeceiras de Basto a Hora do Conto, uma iniciativa dinamizada pelo CTCMCB – Centro de Teatro da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto que apresentou às crianças do ensino pré-escolar o conto ‘O Girassol e o Caracol’.

Hora do Conto sensibiliza para a diferença e para

Através de uma simples e bela história de amizade entre um girassol e um caracol que viviam em mundos distintos – mundo amarelo e mundo verde – o Centro de Teatro sensibilizou as crianças para os valores da diferença e da diversidade num mundo que se quer cada vez mais “colorido” e de convivência sã.

Em simultâneo a Hora do Conto pretendeu incutir nos mais novos o hábito e o gosto pela leitura, apelando ao imaginário das crianças.

Através da Hora do Conto, o CTCMCB desenvolveu esta atividade de criação artística, indo ao encontro do programa educativo do Agrupamento de Escolas, trabalhando as questões sobre a aceitação, bem como a sua importância para “um mundo mais colorido”, onde todos têm o seu lugar.

A anteceder o conto, as crianças foram convidadas a exercitar o corpo através da realização de jogos lúdicos que promoveram a descontração e a boa disposição entre todos.

A iniciativa que decorre até à próxima sexta-feira, dia 13 de março, tem como destinatários 269 crianças do ensino pré-escolar do Agrupamento de Escolas de Cabeceiras de Basto.

Hora do Conto sensibiliza para a diferença e para

FOLHETIM "TERRA FRIA" RETRATOU A VIDA DAS GENTES DO BARROSO

Terra Fria – Ferreira de Castro

TerraFria.jpg

Ferreira de Castro era um homem que gostava de conhecer o ser humano em todas as suas vicissitudes, um estudioso das questões sociais, utilizando as suas observações para a realização da maioria dos seus livros.

“Terra Fria” é um dos romances onde ele aplica o fruto das suas longas observações, traçando-nos um retracto da vida do povo do nordeste transmontano, evidenciando o sofrimento, a luta quotidiana e o modo de vida quase medieval que se fazia sentir nos início dos anos 30 do século passado.

E, para mim, é aqui que reside a principal beleza deste romance. Escrito em 1934, Ferreira de Castro pretendeu transmitir a imagem da vida nessa região. Hoje em dia, 80 anos depois, esse cenário desapareceu ou poucos vestígios existem, pelo que é nas páginas de “Terra Fria” que descobrimos esse passado e que faz deste livro uma espécie de romance histórico.

Aldeia de Padornelos, Montalegre. Leonardo luta dia a dia pelo sustento da sua família. Ele a mulher, ainda sem filhos, procura em trabalhos esporádicos e principalmente no contrabando, ganhar algum dinheiro enquanto sonha em se estabelecer por conta própria com uma venda (espécie de mercearia que ainda conheci no Alentejo nos anos 80).

É neste contexto que Ferreira de Castro nos descreve a actividade do contrabando, tão em voga nessa altura. Mas o autor vai mais longe.

Volta a Padornelos um homem que havia estado emigrado nos Estados Unidos e, como era apanágio, fica conhecido pelo “americano”. Depressa dá mostras da sua riqueza que o leva a ser considerado um dos homens mais importantes e influentes da aldeia e é ele que dá origem ao drama que irá assolar a aldeia.

É um romance que nos faz sentir uma constante solidão. Somos assaltados por imagens de uma terra desoladora, fria, onde a pobreza é a única condição conhecida e onde o rico julga ter todo o poder sobre o pobre. A meu ver, Ferreira de Castro para além de evidenciar a pobreza do Portugal profundo, nesse caso em Trás-os-Monte, lança aqui uma crítica feroz ao abuso de poder do regime caracterizado no “americano” e a sua forma de agir.

Fonte: https://nlivros.blogspot.com/

CENAS PREPARADAS NO BARROSO, PARA ILUSTRAÇÃO DO FOLHETIM TERRA FRIA.

SEC-AG-0395K.jpg

SEC-AG-0396K.jpg

SEC-AG-0397K.jpg

SEC-AG-0398K.jpg

SEC-AG-0399K.jpg

SEC-AG-0400K.jpg

SEC-AG-0402K.jpg

SEC-AG-0403K.jpg

SEC-AG-0404K.jpg

SEC-AG-0405K.jpg

SEC-AG-0406K.jpg

SEC-AG-0408K.jpg

SEC-AG-0409K.jpg

SEC-AG-0410K.jpg

SEC-AG-0411K.jpg

SEC-AG-0412K.jpg

SEC-AG-0413K.jpg

SEC-AG-0414K.jpg

SEC-AG-0416K.jpg

SEC-AG-0418K.jpg

SEC-AG-0419K.jpg

SEC-AG-0420K.jpg

SEC-AG-0422K.jpg

SEC-AG-0424K.jpg

SEC-AG-0425K.jpg

SEC-AG-0426K.jpg

SEC-AG-0427K.jpg

SEC-AG-0428K.jpg

SEC-AG-0429K.jpg

SEC-AG-0430K.jpg

Fonte: ANTT

POETA CLÁUDIO LIMA COMEMORA 50 ANOS DE VIDA LITERÁRIA

Cláudio Lima lança novo livro no mês que comemora 50 anos de vida literária

Dia 29 de fevereiro, pelas 15h00, o Município de Ponte de Lima promove o lançamento de um novo livro do limiano Cláudio Lima.

Esta ação, que terá lugar na Biblioteca Municipal, insere-se nas comemorações de 50 anos de vida literária de Cláudio Lima, estando a apresentação do livro “Contos d’aqui e d’agora” do prezado autor, a cargo de David F. Rodrigues.

Tal como o nome indica trata-se de um livro de contos, publicado pela editora Labirinto.

Neste mesmo dia decorrerá também na Biblioteca Municipal a inauguração da exposição “Cláudio Lima – 50 anos de vida literária” que estará patente neste espaço cultural de 29 de fevereiro a 30 de setembro de 2020.

Marque presença nesta homenagem, venha conhecer a vida e a obra do autor e celebrar este acontecimento.

Livro_Claudio_Lima.jpg

POETISA ROSALÍA DE CASTRO NASCEU HÁ 183 ANOS

Rosalía de Castro é justamente considerada a fundadora da moderna literatura galega ou seja, o movimento cultural do rexurdimento que está na origem do nacionalismo galego. A poetisa nasceu em Santiago de Compostela, em 24 de fevereiro de 1837, e faleceu em Padrón, em 15 de julho de 1885.

Escrita em galego e castelhano, a sua poesia inspira-se na lírica popular trovadoresca, tendo publicado em galego “Cantares Gallegos” e “Folhas Novas” e, em castelhano, “En las Orillas del Sar”. A Galiza celebra o Dia das Letras Galegas em 17 de Maio, invocando a edição de “Cantares Gallegos”, a sua primeira obra em galego.

87291220_2841871962572296_704239650016854016_n.jpg

VAGUEDÁS

II

Bem sei que non hai nada

Novo en baixo do ceo,

Que antes outros pensaron

As cousas que ora eu penso.

 

E bem, ¿para que escribo?

E bem, porque así semos,

Relox que repetimos

Eternamente o mesmo.

 

III

Tal como as nubes

Que impele o vento,

I agora asombran, i agora alegran

Os espazos inmensos do ceo,

Así as ideas

Loucas que eu teño,

As imaxes de múltiples formas,

De estranas feituras, de cores incertos,

Agora asombran,

Agora acraran

O fondo sin fondo do meu pensamento.

PONTE DE LIMA ASSINALA 50 ANOS DE VIDA LITERÁRIA DE CLÁUDIO LIMA

Os 50 anos de Vida Literária de Cláudio Lima merecem especial evocação com uma exposição bibliográfica e documental organizada pelo Municipio de Ponte e Lima, através da Biblioteca Municipal e com o lançamento de uma nova obra do homenageado, com chancela da Editora Labirinto.

EXP_CaludioLima_50anos.jpg

A justa homenagem ao escritor limiano Cláudio Lima vai decorrer no dia 29 de fevereiro de 2020, pelas 15h00, exatamente no mês em que veio a prol a sua primeira obra intitulada “A Foz das Palavras” e que propicia esta comemoração.

O tributo terá lugar na Biblioteca Municipal de Ponte de Lima e dividir-se-á em dois momentos. Primeiro inaugurar-se-á a exposição “Cláudio Lima – 50 anos de vida literária” que estará patente neste espaço cultural de fevereiro a setembro de 2020 e posteriormente seguir-se-á a apresentação do livro “Contos d’aqui e d’agora” do estimado autor, que estará a cargo de David F. Rodrigues. 

Marque presença nesta homenagem e conheça a mais recente produção literária do autor limiano Cláudio Lima.

RICHARD ZIMLER EM DESTAQUE NO PRÓXIMO “UMA CONVERSA, UM LIVRO E ÀS VEZES UM FILME” EM VILA PRAIA DE ÂNCORA

Sessão terá lugar no dia 29 de fevereiro, pelas 15H00, no Cineteatro dos Bombeiros de Vila Praia de Âncora

 “Os dez espelhos de Benjamin Zarco”, de Richard Zimler é o destaque do próximo “Uma Conversa, um Livro e às vezes um Filme”. Esta sessão terá lugar no dia 29 de fevereiro, pelas 15H00, no Cineteatro dos Bombeiros de Vila Praia de Âncora. A conversa será seguida pelo documentário “Noite e Nevoeiro”, de Alain Resnais.

photo by Lara Jacinto -.jpg

“Uma Conversa, um Livro e às vezes um Filme” continua a trazer ao concelho nomes sonantes do mundo literário. Richard Zimler, conhecido do grande público e dos Caminhenses, dispensa apresentações. RichardZimler, o escritor nova iorquino que trocou os EUA por Portugal, vive no Porto desde 1990, onde foi professor de jornalismo, primeiro na Escola Superior de Jornalismo e depois na Universidade do Porto. Nos últimos 23 anos, publicou 11 romances, uma coletânea de contos e cinco livros infantis, que depressa entraram nas listas de bestsellers de vários países (Portugal, Brasil, EUA, Inglaterra, Itália, etc).

Vários dos seus livros fazem parte do Plano Nacional de Leitura, com destaque para“Dança Quando Chegares ao Fim”, “Se Eu Fosse” e “O Cão que Comia a Chuva”.Zimler já ganhou diversos prémios: NationalEndowmentoftheArtsFellowship in Fiction (EUA) em 1994; Prémio Herodotus (EUA) para o melhor romance histórico em 1998; prémio literário Alberto Benveniste 2009; prémio Marquês de Ouro, entre outros. Já proferiu mais de 500 conferências sobre a sua escrita e a cultura judaica, em escolas, museus, bibliotecas, livrarias, sinagogas e auditórios públicos em mais do que 15 países, incluindo os EUA, Inglaterra, Austrália, Portugal, França e Brasil. Em 2009, Zimler escreveu o guião para O Espelho Lento, uma curta-metragem baseada num dos seus contos. O filme foi realizado no verão de 2009 pela realizadora sueca-portuguesa SolveigNordlund e venceu o prémio de melhor filme dramático no Festival de Curtas-Metragens de Nova Iorque, em maio de 2010.

Quanto ao livro “Os dez espelhos de Benjamin Zarco” na sinopse lê-se: “Benjamin Zarco e o seu primo Shelly foram os únicos membros da família a escapar ao Holocausto. Cada um à sua maneira, ambos carregam o fardo de ter sobrevivido a todos os outros. Benjamin recusa-se a falar do passado, procurando as respostas na cabala, que estuda com avidez, em busca daquilo a que chama os fios invisíveis que tudo ligam. E Shelly refugia-se numa hipersexualidade, seu único subterfúgio para calar os fantasmas que o atormentam.Construído como um mosaico e dividido em seis peças, Os dez espelhos de Benjamin Zarco entretecem-se entre 1944, com a história de EwaArmbruster, professora de piano cristã que arrisca a vida para esconder Benni em sua casa, e 2018, com o testemunho do filho de Benjamin acerca do manuscrito de Berequias Zarco, herança do pai, talvez a chave para compreender a razão por que Benjamin e Shelly se salvaram e o vínculo único que os une.Um romance profundamente comovente e redentor, com personagens inesquecíveis. Uma ode à solidariedade, ao heroísmo e ao tipo de amor capaz de ultrapassar todas as barreiras, temporais e geográficas”.

A conversa será seguida de “Noite e Nevoeiro”, de Alain Resnais. Sobre o documentário, Edgardo Cozarinskyescreveu: “é o único filme justo sobre o grande horror do século XX: menos o extermínio de um povo do que o programa e administração postos em funcionamento para o executar. Também uma meditação sobre o esquecimento natural e o trabalho da memória”.

Esta iniciativa é organizada pelos Amigos da Rede de Bibliotecas de Caminha e pela Câmara Municipal de Caminha.

É de referir que os Amigos da Rede de Bibliotecas de Caminha (RBC) tornam-se leitores inscritos nas bibliotecas do concelho de Caminha. O estatuto de Amigo da RBC é formalizado através do preenchimento de um formulário, (com os dados biográficos essenciais e contactos) e da oferta de um livro que reverterá para a coleção da Biblioteca Municipal. A participação no grupo de Amigos da RBC é voluntária, exclui qualquer compensação e cessará no momento em que o Amigo assim o desejar. Através da sua ação, os Amigos RBC pretendem contribuir, de modo particular, para o desenvolvimento das competências e serviços das mesmas e, genericamente, para o progresso cultural da comunidade que estas servem.

BIBLIOTECA MUNICIPAL DE ESPOSENDE RECEBE AFONSO REIS CABRAL

Prémio Literário José Saramago 2019

A Biblioteca Municipal Manuel de Boaventura, de Esposende, vai receber, no próximo dia 22 de fevereiro, às 21h00, Afonso Reis Cabral, vencedor do Prémio Literário José Saramago 2019.

Afonso Reis Cabral.jpg

Neste encontro, com entrada livre e gratuita, o escritor abordará o seu percurso literário, dando particular enfâse ao livro "Pão de Açúcar", que lhe valeu a conquista do referido prémio literário e que António Mega Ferreira, enquanto elemento do júri, considerou “que é uma das obras ficcionais portuguesas mais arrebatadoras e poderosas dos últimos anos”. No final da sessão, o autor estará disponível para autógrafos.

O Prémio Literário José Saramago foi criado pela Fundação Círculo de Leitores com o objetivo de homenagear o nobel português. Com um valor pecuniário de 25 mil euros, é um dos mais importantes prémios literários atribuídos no âmbito da lusofonia a autores com obra publicada em português, e com idade não superior a 35 anos, tendo distinguido já Paulo José Miranda, José Luís Peixoto, Adriana Lisboa, Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, João Tordo, Andréa del Fuego, Ondjaki, Bruno Vieira Amaral e Julián Fuks.

Afonso Reis Cabral nasceu em 1990. Em 2014, ganhou o Prémio LeYa com o romance “O Meu Irmão”. Em 2017, foi-lhe atribuído o Prémio Europa David Mourão-Ferreira na categoria de Promessa, e, em 2018, o Prémio Novos, na categoria de Literatura. No final de 2018, publicou o seu segundo romance, “Pão de Açúcar”, que teve forte acolhimento por parte da crítica. Entre abril e maio de 2019, percorreu Portugal a pé, ao longo dos 738,5 quilómetros da Estrada Nacional 2, tendo registado essa viagem no livro “Leva-me Contigo”. Em outubro de 2019, ao vencer o Prémio José Saramago, consagra-se como um dos jovens autores de quem a literatura portuguesa se pode orgulhar.

Também este mês, no dia 16, a Biblioteca Municipal leva a efeito mais uma Sessão Famílias, desta feita Yoga entre Histórias. Assim, em sessões às 15h30 e às 16h30, Sónia Jacinto apresentará “A lagartinha que tinha um sonho”, convidando as crianças e os pais a exercitar a mente e o corpo, através de uma sessão de Yoga. Dirigida a crianças com idades entre os 4 e os 8 anos, esta atividade é de participação gratuita, contudo, carece de marcação prévia obrigatória, a partir de 10 fevereiro, através do e-mail biblioteca.municipal@cm-esposende.pt ou do telefone 253 960 181.

Estas ações inserem-se na estratégia cultural do Município e na programação da Biblioteca Municipal, enquadrando-se igualmente nos eixos dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), que a Câmara Município verteu para o seu programa de ação.

AINDA OS LIVROS

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Não era minha intenção voltar ao tema, porém falar de leituras é quase tão excitante como ler. “À boleia”, entendi obrigatório fazer uma pequena abordagem a um livro que, não sendo muito atual no tempo, jamais perderá atualidade na matéria.

Imagem_1gfmm (1).JPG

Antes, aproveito e manifesto o meu apreço por um escritor que, apesar de pouco divulgado, está considerado um dos maiores romancistas do século XX. Trata-se de José Rodrigues Miguéis (1901/1980), que nos legou uma obra diversificada, com cerca de um vintena de livros e uma imensidade de textos publicados pela imprensa em geral. Numa das primitivas feiras do livro em Viana, aconselhado, comprei o seu romance “A Escola do Paraíso”. Li-o num folego. E o prazer foi tanto que em nova passagem pela feira adquiri a maior parte da sua obra.

“A Escola do Paraíso”, que muitos consideram um livro autobiográfico, tendo como personagem central o menino Gabriel, descreve de forma emocionante a vida social da cidade de Lisboa do princípio do século XX, local onde o autor nasceu e viveu grande parte do tempo (proscrito pelo regime, radicou-se nos Estados Unidos a partir de 1935, onde veio a falecer). O passado desperta sempre em nós um sentimento nostálgico, mas se alguém fala dele numa narrativa sentida e direta, eivada de pormenores de vivências, conseguindo fazer-nos figurantes desse tempo, então temos mesmo que ser tocados pela obra. Por mim não resisti a relê-la decorridos alguns anos.

Mas a minha proposta efetiva de leitura vai noutro sentido. Trata-se do livro “Máscaras de Salazar”, de Fernando Dacosta (sucessivamente reeditado). Fernando Dacosta, na década de 1960, na qualidade de jornalista, trabalhou junto da Assembleia Nacional e do Conselho de Ministros, tendo criado com D. Maria, a governanta de Salazar, uma relação empática ao ponto de se tornar seu habitual confidente. Isso e a relação amistosa com figuras gradas do regime e a socialite da capital proporcionaram-lhe todas as condições para que, de modo factual, pudesse fazer o retrato do Salazarismo.

Em meu entender, trata-se da obra que melhor explica e comprova porque suportamos 48 anos um regime que assentava em princípios opostos à realidade do mundo, legando-nos um país tristemente atrasado em todos os domínios, em guerra com as colónias e em confronto com a lógica do tempo, rejeitado pelas nações em geral. Ler “As Máscaras de Salazar” é estar habilitado a poder dizer Salazarismo jamais.

goncalofagundes@gmail.com

Imagem_1gfmm (2).jpg

LIVROS QUE NOS TOCAM

615985_289756137805503_1161989730_o.jpg

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

Voltaire, escritor e filósofo (1694/1778), afirmava que “a leitura engrandece a alma”. Nada mais evidente. Quando se lê sabe-se sempre mais, razão para nos tornamos mais confiantes no saber e abraçar melhor a vida. Ler, para quem sente esse prazer, pode dar-nos também estabilidade emocional, particularmente quando nos identificamos com a obra e nos deixamos prender por ela.

Mas a leitura não passa só pelos livros. É consabido que importante é ler, também podendo ser jornais, revistas ou qualquer outra variedade. Nos meios rurais, ao longo de décadas, a leitura disponível para as pessoas era o jornal diário, tantas vezes disputado nas tabernas pelos curiosos das notícias. Apercebia-me de leitores semianalfabetos que se gabavam da sua satisfatória cultura tendo como base a leitura dos periódicos. Faziam uso disso e gostavam de desafiar no conhecimento os jovens que possuíam já a chamada 4ª classe.

Para mim, o gosto pela leitura foi-me em boa parte incutido pelas bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, que prestaram ao país um serviço cultural e formativo incomensurável. Nos fins-de-semana esperava pacientemente pelas carrinhas servidas de autores variados, onde pontificava Cruz Cerqueira, um cidadão culto, simpático e bem preparado para orientar os visitantes no tipo de obras aconselhadas à sua faixa etária.

Julgo que grande parte dos cidadãos, pouco ou muito, leem e tem curiosidade pelo conhecimento, que também pode advir de outras formas, especialmente através dos meios audiovisuais. E nesta leitura que ao longo do tempo vamos fazendo há sempre algo, especialmente livros, que nos marcam e ficam como referência. No meu caso, há escritores dos quais me tornei leitor assíduo. José Saramago, por exemplo é um deles. Li quase tudo o que escreveu e um dos seus livros que mais me marcou até nem foi o universal “Memorial do Convento”, mas sim o “Levantado do Chão”, a sua primeira obra de referência.

Neste romance, Saramago dá vida à luta do povo alentejano contra aqueles que o oprimiam: os latifundiários e as forças da ordem que os protegiam, com a complacência envergonhada da igreja. Uma luta sacrificada, mas obstinada, enquadrada num ambiente de miséria rural. No texto de contracapa do livro escreveu Saramago: “Um escritor é um homem como os outros: sonha. E o meu sonho foi o de poder dizer deste livro, quando terminasse: Isto é o Alentejo”. Nada mais evidente, José.

goncalofagundes@gmail.com

16707424_JFFEt.jpeg

CASA DA EIRA EM LANHELAS RECEBE SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESSEN

Sophia de Mello Breyner Andresen - uma poética da resistência

Poética, ou seja, no âmbito da literatura, uma actividade criativa envolvendo a exploração do significado das palavras e das respectivas associações lexicais enquanto símbolos e artefactos de modelação do mundo e da vida. Afinal, a magia de uma fala meticulosamente convertida em escrita, com vista a proporcionar ao leitor uma fonte transepocal de fruição estética e de conhecimento.

imagecasalanhelassofia.png

E nesse propósito, recorrendo o autor de um texto, quer no domínio da prosa quer no domínio da poesia, a variadas figuras de estilo (imagens, metáforas, alegorias, etc.). Isto, de acordo com a sua particular sensibilidade, e em função da musicalidade e comunicabilidade apropriadas a uma específica atmosfera narrativa. Tal como a criar um imprevisto ordenamento sintáctico, uma imagem inusitada ou uma ideia original.

Ora se é predominantemente no âmbito da poesia que mais usual é a pesquisa dos jogos de linguagem - bem como a libertação de uma normativa gramatical e retórica -, esses imaginativos recursos estilísticos podem ainda condicionar um qualquer outro género literário. E entre estes a crónica, o conto e o drama, práticas que ocasionalmente a autora que homenageamos experimentou.

Resistência, ou seja, a oposição e luta contra uma determinada ordem de valores entendida como motivo de opressão e desesperança por aqueles que a sofrem. E muito especialmente pelos grupos sociais mais desfavorecidos no plano económico, político e cultural. Grupos que, normalmente, em qualquer sociedade, representam a maioria dos cidadãos e, assim, a estrutura de base da pirâmide social.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), nascida numa família da alta-burguesia portuense em que se cruzavam tradições aristocráticas nacionais e heranças burguesas e cosmopolitas do norte europeu, enquanto intelectual e cidadã estaria condicionada, naqueles lusitanos, sombrios e asfixiantes anos 40 em que iniciou a sua carreira literária, a dar apoio ao regime autoritário do Estado Novo (1928-1974). Porém, não tardou a jovem autora a demarcar-se desse acanhado e estiolado universo político-cultural e a encetar um activo e corajoso combate contra a ordem vigente.

Após transitar do Porto para Lisboa onde frequentou a licenciatura em Filologia Românica, embora sem a concluir (1936-1939), vai em 1946 estabelecer na capital a residência definitiva e aí constituir família. Entretanto, à medida que os filhos foram surgindo (um quinteto) desenvolveu uma notável e continuada actividade poética com imediata repercussão ao nível da mais exigente esfera crítica nacional.

Uma poética que progressivamente repercutiu, embora quase sempre com discreta e elegante contenção retórica, as suas opções ideológicas e objectivos sócio-políticos. Um programa visando abolir um regime obsoleto e a instauração no país de uma democracia de tipo europeu. Neste contexto, entre outras actividades, Sophia apoiou a candidatura do general Delgado à presidência da República em 1958, subscreveu a Carta dos movimentos católicos contra o regime autoritário e foi uma incansável activista política integrada na direcção do Centro Nacional de Cultura. Mais tarde, após a revolta militar de 25 de Abril de 1974, no decurso da restauração de um regime tendencialmente democrático, acabou por integrar a lista de deputados socialistas pelo círculo do Porto à Assembleia Constituinte. Uma experiência frustrante.

De facto, mau grado o iminente colapso das liberdades mais genéricas ter sido evitado a tempo, os jogos palacianos ou/e arruaceiros que então se digladiavam, eram processos de acção inconciliáveis com a sua rectilínea ética social. E daí a ulterior e inflexível abstenção que assumiu relativamente a novas incumbências político-partidárias.

No ano de 1940, Sophia Andresen havia publicado os seus primeiros poemas na revista Cadernos de Poesia. Um género que cultivou ao longo dos anos, paralelamente a uma actividade no campo da tradução (Eurípides, Shakespeare, Claudel, Dante, etc.), como enquanto contista - Contos Exemplares (1962), Os três reis do Oriente (1965) - e ainda a autoria de uma belíssima série de narrativas para crianças: A Menina do mar (1958), A fada Oriana (1959), A noite de Natal (1959), O cavaleiro da Dinamarca (1954), O rapaz de bronze (1966), A Floresta (1968), entre outros títulos.

Nesta sintética resenha não devendo ser esquecidas as suas episódicas reflexões literárias sobre diferentes temas e autores, e em particular a emotiva e intensa meditação que dedicou à arte da Grécia antiga. Tal como os textos dramáticos que escreveu e a correspondência com Jorge de Sena, títulos que igualmente ajudam a aclarar o seu percurso humano, intelectual e político. E obviamente a elucidarem a longa lista de obras poéticas que subscreveu – da inaugural Poesia (1944); de Coral (1950) a Mar Novo (1958) e deste a Livro Sexto (1962) e, entre outros livros, de Geografia (1957) a Navegações (1983) e de O Búzio de Cós e outros poemas (1997) a Orpheu e Eurídice (2001) - permitindo, pois, uma leitura crítica destas obras elucidar a fulgurante e sincrética visão do mundo que nelas se expressa.

Sophia de Mello Breyner Andresen - altiva cariátide no contexto de uma atrabiliária vida literária e de um jacobino maniqueísmo ideológico ainda mal resolvido -, a sua figura frágil mas de enorme solidez cívica e moral vai-se agigantando à medida que se adensa o conhecimento de uma complexa e pessoal fidelidade à herança filosófica e estético-religiosa do mundo helénico, a sua mais funda paixão.

Sophia é antes de mais uma hipersensível paisagista. Uma ofuscada pitonisa submetida ao império mágico da luz, “A omnipotência do Sol rege a minha vida”, Geografia, p. 11, e assim, sujeita igualmente às sombras mediterrânicas e ao seu inextinguível acervo cultural. Um oráculo, por conseguinte, irremediavelmente preso à sublime presença das suas praias e acrópoles, à estatuária, às poéticas e homéricas odisseias e tragédias, ao pensamento crítico e mitologia.

A urbana escritora portuense é, pois, uma criatura contrastante, umbilical e panteisticamente irmanada a uma agreste e domesticada Natureza. Como sujeita ao fascínio por uma cultura imemorial que o mar e a poesia dulcificam e ameaçam, um magma primordial de ideias e valores dinamizado pelas forças instintivas e o rigor ético em que se esculpem e temperam as almas mais inteiras.

E assim, a este culto sophianiano do mar grego e do mar português (o mar da Granja, o mar de Lagos e de outras muitas navegações), mares confundidos na sua metafísica imobilidade e eterna cadência, podendo aplicar-se a fórmula que o artista plástico e poeta surrealista da Galiza, Urbano Lugrís, comungando semelhante devoção, um dia proferiu: “perante o mar deveríamos ajoelhar-nos”.

Mas esta herança clássica, sensível, senão epicurista, e ainda legível nas paisagens da orla do Mediterrâneo, evoca-a Sophia como a componente primordial da cultura europeia. Ganhando, porém, uma outra densidade, uma outra mística sociológica e margem de libertação ao, sincreticamente, integrar a transfiguradora herança do cristianismo.

Herança que a escritora, perante a perplexidade de quem ignora a força da mensagem evangélica, sempre arvorou como arma de combate. E, por isso, serenamente pôde escrever no seu Livro Sexto (1962), p. 62: “Era um Cristo sem poder / Sem espada e sem riqueza/ Seus amigos o negavam/ Antes do galo cantar/ A polícia o perseguia/ Guiada por Fariseus/ … Foi cuspido e foi julgado/ … E morreu desfigurado/ A treva caiu dos céus/ Sobre a terra em pleno dia/ Nem uma nódoa se via nas vestes dos Fariseus.”

CANTAR DE EMIGRAÇÃO

Este parte, aquele parte

e todos, todos se vão

Galiza ficas sem homens

que possam cortar teu pão

 

Tens em troca órfãos e órfãs

tens campos de solidão

tens mães que não têm filhos

filhos que não têm pai

 

Coração que tens e sofre

longas ausências mortais

viúvas de vivos mortos

que ninguém consolará

 

Rosalía de Castro in Follas Novas. 1880

Tradução: José Niza

PT-TT-EPJS-SF-008-00853_m0001.jpg

PT-TT-EPJS-SF-008-10258_m0001.jpg

PT-TT-EPJS-SF-010-04848-001-006_m0001_derivada.jpg

PT-TT-EPJS-SF-010-04848-002-004_m0001_derivada.jpg

PT-TT-SNI-ARQF-RP-003-29868_m0001_derivada.jpg

PT-TT-SNI-ARQF-RP-003-29870_m0001_derivada.jpg

PT-TT-SNI-ARQF-RP-003-29949_m0001_derivada.jpg

SEC-AG-0307M.jpg

SEC-AG-0308M.jpg

SEC-AG-0309M.jpg

SEC-AG-0311M.jpg

SEC-AG-0316M.jpg

SEC-AG-0404M.jpg

SEC-AG-0405M.jpg

SEC-AG-0406M.jpg

SEC-AG-0407M.jpg

SEC-AG-0408M.jpg

Fonte: ANTT

MUNICÍPIO DE PONTE DE LIMA ACOLHE APRESENTAÇÃO DO LIVRO "A ESCOLHA"

O Município de Ponte de Lima promove o lançamento da obra “A Escolha”, da autoria de Maria da Luz Ferreira de Barros, no próximo dia 08 de fevereiro de 2020, pelas 15h00, no auditório da Biblioteca Municipal de Ponte de Lima.

a escolha (002).png

Trata-se do primeiro romance da autora, cuja ação se desenrola em Ponte de Lima, privilegiando as temáticas da causa feminina, os abusos cometidos sobre as mulheres, desde a Idade Média.

Um livro que aborda vivências, preocupações de estigmas e costumes do passado, que memorizam e limitam as mulheres cuja apresentação estará a cargo de Cristiana Freitas, Diretora do Arquivo Municipal de Ponte de Lima.

Marque presença na sessão de apresentação de “A Escolha”.

Aceite o nosso convite e venha celebrar connosco a literatura em Língua Portuguesa.

Esperamos por si!

Sobre a autora:

Nasceu numa aldeia do concelho de Santa Maria da Feira, no lugar da Cruz, freguesia de Lobão, em 1957.

Filha mais velha de uma família numerosa com mais seis irmãos, ajudou desde pequenina nas lides da terra; tendo que deixar a escola, contra a vontade dos seus mestres, e trabalhar para ajudar a família.

Mais tarde, já casada, retomou os estudos. Licenciou-se em Ciências Históricas, na Universidade Portucalense – Infante D. Henrique, em 1992, concluiu o Mestrado em História Medieval na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, em 1996, e terminou o Curso de Doctoramiento pela Faculdad de Filosofia y Letras da Universidad de Valladolid, em 2000, sempre dentro da História Social Medieval.

Nesta área, participou em vários projetos de investigação, desde logo na Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, entre 1995 e 2001. Publicou diversos artigos em revistas da especialidade, e foi coautora da História da Marinha Portuguesa - Homens, Doutrinas e Organização, (1139 – 1414).

PORQUE MIGUEL TORGA NÃO GOSTAVA DO MINHO?

Dizia o insígne escritor Miguel Torga que “…no Minho tudo é verde, o caldo é verde, o vinho é verde…” – como transmontano que era, dos pés à cabeça, desconhecia o escritor que o Minho também possuía outras cores como o branco da neve que a tempos cobre as serranias de Castro Laboreiro!

Miguel Torga1.jpg

"Desanimado, meti para Castro Laboreiro à procura dum Minho com menos milho, menos couves, menos erva, menos videiras de enforcado e mais meu. Um Minho que o não fosse, afinal. Encontrei-o logo dois passos adiante, severo, de curcelo e carapuça.

A relva dera finalmente lugar à terra nua que, parda como o burel, tinha ossos e chagas. O colmo de centeio, curtido pelos nevões, perdera o riso alvar das malhadas. Identificara-se com o panorama humano, e cobria pudicamente a dor do frio e da fome. Um rebanho de ovelhas silenciosas retouçava as pedras da fortaleza desmantelada. E uma velha muito velha, desmemoriada como uma coruja das catacumbas, vigiava a porta do baluarte, a fiar o tempo. Era a pré-história ao natural, à espera da neta.

 

Ó castrejinha do monte,

Que deitas no teu cabelo?

Deito-lhe água da fonte

E rama de tormentelo.

 

Bonita, esbofeteada do frio, a cachopa vinha à frente dum carro de bois carregado de canhotas. Preparava a casa de inverno para quandochegasse a hora da transumância e toda a família —pais, irmãos, gados, pulgas e percevejos— descesse dos cortelhos da montanha para os cortelhos do vale, abrigados das neves.

 

– Conhece esta cantiga?

– Ãhn?

 

Falava uma língua estranha, alheia ao Diário de Noticias, mas próxima do Livro de Linhagens do Conde de Barcelos.

 

– É legitimo este cão?

– É cadela.

 

Negro, mal encarado, o bicho, olhou-me por baixo, a ver se eu insistia na ofensa. O matriarcado teimava ainda...

 

– A Peneda?

 

A moça apontou a vara. E, como ao gesto de um prestidigitador, foram- se desvendando a meus olhos mistérios sucessivos. Todo o grande maciço de pedra se abriu como uma rosa. A Peneda, o Suajo e o Lindoso.Um nunca mais acabar de espinhaços e de abismos, de encostas e planaltos. Um mundo de primária beleza, de inviolada intimidade, que ora fugia esquivo pelas brenhas, tímido e secreto, ora sorria dum postigo, acolhedor e fraterno.

 

Quando dei conta, estava no topo da Serra Amarela a merendar com a solidão. Tinham desaparecido de vez as cangas lavradas e coloridas que ofendiam as molhelhas do suor verdadeiro. A zanguizarra dos pandeiros festivos e as lágrimas dos foguetes já não encandeavam a lucidez dos sentidos. Os aventais de chita garrida davam lugar aos de estopa encardida. Nem contratos pré-nupciais ardilosos, nem torres feudais, nem rebanhos de homens pequeninos, dóceis, a cantar o Avé atrás do cura da freguesia. Pisava, realmente, a alta e livre terra dos pastores, dos contrabandistas e das urzes. As pernas de granito dum velho fojo abriam-se num grande V, como as dum gigante no sono da sesta. E saltou-me vivo à lembrança o instantâneo de Joaquim Vicente Araújo, quando no seu Diário Filosófico da Viagem ao Gerês fala duma batida aos lobos, que presenciou, e em que toda a população masculina do lugar colaborara: «Era cousa de ver a má catadura duns e a presteza de todos, que descalços, outros de socos, armados desciam pelas fragas». Sem a coragem dos avós, agora os habitantes comunitârios de Vilarinho da Furna atacavam as alcateias a estricnina e caçavam corças furtivamente. Mas mesmo assim nao faziam má figura ao lado do rio Homem, que, talvez a querer justificar um nome que a etimologia lhe nega, parecia um lavrador numa leira de pedras, tenaz em todo o percurso, e sempre límpido, a espelhar o céu. Na margem de lá, o Pé do Cabril, solene, esperava a abraço duma ascensão. E coma a desafiar aquela pétrea majestade, arrogante e lustroso, o toira do lugar roncou de uma chã. Símbolo tangível da virilidade e da fecundação, nenhum outro deus, ali, tinha forças para o destronar. Plenitude encarnada do instinto natural de preservação da seiva capaz de se multiplicar em cada acto de amor, era ele o pólo de todos os cultos cuItos e desvelos. Rei já no tempo das casarotas megalíticas que me rodeavam, continuava a sê-lo ainda no presente por exigência e graça da própria vida.

 

Atravessada a ponte em corcova, galgados os muros ciclópicos da Calcedónia, numa erudiçao feita à custa dos pés, e guiado pelos miliários imperiais, segui a geira romana até chegar à Portela do Homem, onde as legiões invasoras pareciam aquarteladas. Mas foi a guarda fiscal, vigilante, que me recebeu.

 

A uma sombra tutelar, pouco depois, num minuto de descanso, a Historia recente da Pátria avivou-se.

 

– Uma das incursoes monarquicas foi por aqui...

– Tentaram... Tentaram...

– Este Minho! Este Minho!...

– Tem uma costela talassa, tem...

 

Mas recusei-me a reintegrar, por simples razões partidárias, aquelas viris penedias no planisfério verdurengo de onde a própria natureza as libertara. Tranquei as portas da memória e, pela margem do rio, subi aos Carris. Uma multidão minava as fragas à procura de volfrâmio, por conta da guerra e de quem a fazia. Teixos e carvalhos centenários acompanharam-me quase todo o caminho. Só desistiram quando me aproximei do cume da montanha, onde a vida, já sem raizes, tenta levantar voo.

 

Agora, sim! Agora podia, em perfeita paz de espírito, estender a minha ternura lusíada por toda a portuguesa Galiza percorrida. Pano de fundo, o mar de terras baixas era apenas um cenário esfumado; à boca do palco reflectiam-se nas várias albufeiras do Cávado a redonda pureza da Cabreira e a beleza sem par do Gerês. E o espectador emotivo já não tinha necessidade de brigar com o cavador instintivo que havia também dentro de mim. Embora através da magia agreste dos relevos, talvez por contraste, impunha-se-me com outra significação a abundância dos canastros, o optimismo dos semeadores e a própria embriaguez que anestesiava cada acto, no fundo necessária à saúde dos corpos individuais e colectivos. Integrava o alegrete perpétuo no meu caleidoscópio telúrico. Bem vistas as coisas, se ele não existisse faria falta no arranjo final do ramalhete corográfico português.

 

Em acção de graças por esta conclusão pacificadora, rezei orações pagãs no Altar de Cabrões, antes de subir à Nevosa e aos Cornos da Fonte Fria a experimentar como se tremem maleitas em pleno Agosto.

 

Estava exausto, mas o corpo recusava-se a parar. Pitões acenava-me lá longe, de tectos colmados e de chancas ferradas. Não obstante pisar o mais belo pedaço de chão pátrio, queria repousar em terra real e consubstancialmente minha. Ansiava por estender os ossos nos tomentos de Barroso, onde, apesar de tudo, era mais seguro adormecer. Quem me garantia a mim que, mesmo alcandorado nos carrapitos doirados da Borrajeira, não voltaria a ter pela noite fora um pesadelo verde?"

PONTE DE LIMA CONTA HISTÓRIAS A BEBÉS

Sessão de Hora do Conto para bebés, crianças e famílias em Ponte de Lima

O Município de Ponte de Lima continua a apostar na promoção do livro e da leitura desde tenra idade através de sessões da Bebéteca desenvolvidas na Biblioteca Municipal.

bebeteca_Prancheta 1.jpg

Este projeto decorre uma vez por mês na Sala Infantil e destina-se a famílias com bebés e crianças até aos 6 anos de idade.

A próxima Bebéteca será dinamizada no dia 25 de janeiro de 2020 e contará com uma sessão de leitura encenada, através da história “A formiga e a cigarra” de Luísa Ducla-Soares, seguida de um momento musical intitulado “A Cigarra e a Formiga” do Panda e os Caricas. Para terminar promover-se-á o atelier de expressão artística “Formiguinha rabiga e a sua barriga”.

FAMALICÃO EVOCA JÚLIO BRANDÃO

Exposição dedicada a Júlio Brandão está patente na Biblioteca Municipal

A Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco de Vila Nova de Famalicão tem patente até 4 de janeiro a exposição dedicada a “Júlio Brandão: Recordações dum velho poeta|150 anos do nascimento”. A mostra está inserida no programa comemorativo dos 150 anos do nascimento de Júlio Brandão, que o município está a assinalar. Júlio Brandão, ilustre poeta, cronista, crítico literário, crítico de arte, publicista, dramaturgo, jornalista, professor e museólogo, nasceu a 9 de agosto de 1869, na rua de Santo António, no coração da cidade famalicense.

Exposição Júlio Brandão.jpg

Entre as várias homenagens à memória de Júlio Brandão, promovidas e apoiadas pela Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, a título póstumo, destacam-se a atribuição do seu nome a uma escola do centro da cidade, a Escola Básica Júlio Brandão; a homenagem promovida em 1950 pela Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, com a instalação de uma glorieta em granito e bronze no topo norte do Parque 1º de Maio, e as comemorações do centenário do seu nascimento, através do denominado “Ciclo Comemorativo do 1º Centenário do nascimento do Escritor e Poeta Júlio Brandão, em agosto de 1969.

Entre outras mais recentes, enquadradas agora nas comemorações dos 150 anos sobre o seu nascimento, destacam-se a colocação de uma placa identificativa na rua onde nasceu, a Rua de Santo António, e uma intervenção artística comemorativa no mural da fachada da escola de que é patrono, a Escola Básica Júlio Brandão.

Refira-se que na inauguração da exposição que decorreu no passado sábado, a Biblioteca Municipal lançou a edição comemorativa fac-similada da obra poética da autoria de Júlio Brandão “O Livro de Aglaïs”.

OBRA "TRILHOS DE LUAR" VAI SER APRESENTADA NO GERÊS

Apresentação pública da Obra de Domingos Ribeiro Alves, “Trilhos de Luar” a 14 de Dezembro na vila do Gerês pelas 15horas
O Auditório Professor Dr. Emídio Ribeiro, situado no Centro de Animação Turística da vila do Gerês irá acolher no próximo dia 14 de Dezembro a apresentação pública da Obra de Domingos Ribeiro Alves, “Trilhos de Luar”.

ConvitesTemplate-5 copy.jpg