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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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JOSÉ ANTÓNIO GUERREIRO - FIGURA ILUSTRE DE LANHELAS

José António Guerreiro (Lanhelas, 5 de dezembro de 1789 — Lisboa, 1 de agosto de 1834) foi um magistrado e político, considerado uma das maiores figuras do liberalismo português oitocentista, que protagonizou um curto mas intenso percurso político que o colocou na chefia do governo liberal no exílio, cargo que exerceu em Londres de 2 de junho de 1828 a 15 de junho 1829. Eleito pelo Minho, foi um dos mais influentes deputados nas Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa, determinante na elaboração da Constituição de 1822.

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Nasceu em Lanhelas, concelho de Caminha, no Alto Minho, filho de Bento José Dantas Guerreiro. Formou-se bacharel de Leis na Universidade de Coimbra em 1816, sendo premiado como o melhor aluno do seu curso.

Ingressou na magistratura no ano de 1817, sendo colocado na vila de Mértola como juiz de fora. Defensor dos ideais da Revolução Liberal do Porto, em 1821 foi eleito deputado às Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa em representação dos eleitores do círculo do Minho. Nos debates parlamentares revelou-se um dos deputados mais participativos e assertivos, assumindo um destacado papel nos trabalhos que levaram à aprovação da Constituição de 1822. Tendo as Cortes Constituintes terminado o seu trabalho, em 1822 foi eleito deputado pelo Minho ao primeiro parlamento constitucional, iniciando uma carreira parlamentar que o manteria como deputado durante todo o vintismo. Foi reeleito em 1826, passando nessa legislatura a ocupar o cargo de vice-presidente da mesa da Câmara dos Deputados.

No conturbado período de vigência da Constituição de 1822, para além das funções parlamentares, foi também membro do governo, embora por períodos muito curtos, com a pasta de Ministro e Secretário de Estado dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça, primeiro efemeramente em 1823, durante a Vilafrancada, ainda no reinado de D. João VI de Portugal, e depois em 1826, como interino, já na regência da infanta Isabel Maria de Bragança.

A proclamação de D. Miguel como rei absoluto em 1828 obrigou-o, a partir para o exílio. Partiu para a Galiza e daí para Londres, onde permaneceu até 1831. Foi uma das principais figuras da comunidade emigrada portuguesa, mantendo importante colaboração com os líderes liberais no exílio. Foi o principal autor do Manifesto dos Direitos de Sua Magestade Fidelíssima, a Senhora Dona Maria Segunda; e exposição da questão portugueza, publicado em Rennes em 1831, a principal obra teorizadora da legitimidade dinástica de D. Pedro IV e de D. Maria II. O opúsculo, escrito em colaboração com Pedro de Sousa Holstein, o futuro duque de Palmela, foi determinante na propaganda da causa liberal.

Com a instalação da Regência de Angra, transferiu-se para a ilha Terceira, onde integrou o Conselho de Regência que em nome de D. Maria II governava a ilha e dirigiu as operações que levariam à preparação da força que protagonizou o desembarque no Mindelo.

Em 1833, ainda em plena guerra civil, durante o Cerco do Porto, D. Pedro IV concedeu-lhe a grã-cruz da Ordem da Torre e Espada e em 1834, nomeou-o membro do Conselho de Estado. Contudo, por esta altura já se encontrava gravemente doente, pois fora gravemente ferido durante o Cerco do Porto quando ... embarcado na fragata Alcion, tentou esta forçar a barra do Douro, porém as baterias do Castelo de S. João da Foz afundaram o navio, ferindo gravemente o Dr. Guerreiro que retirou convalescente para Lisboa, residindo na freguesia das Mercês até falecer no 1.º de Agosto de 1834. Tinha 45 anos de idade, deixando cinco filhos menores e parcos meios, pelo que a viúva teve ela de vender os bens que o casal tinha em Gondarém e Lanhelas.

José António Guerreiro é um dos parlamentares homenageados na sala sessões do Palácio de São Bento, numa tela em elipse de 22 metros de largura por 5 de altura, da autoria do pintor José Maria Veloso Salgado (1864-1945), que contou com a colaboração dos discípulos Luís Marques da Silva Júnior e Júlio Santos Jesus, que evoca as Cortes Constituintes de 1821-1822 reunidas na biblioteca do Palácio das Necessidades. Entre os quarenta deputados vintistas retratados a ouvirem atentamente Manuel Fernandes Tomás, surge em lugar de destaque, à direita do orador, a figura soerguida de José António Guerreiro. Foi também homenageado por duas vezes na sua freguesia natal de Lanhelas, primeiro em 1926, quando uma artéria local recebeu o seu nome, passando a integrar a toponimia lanhelense até à actualidade, e depois em 1989, assinalando a na passagem do bicentenário do seu nascimento.

Fonte: Wikipédia

JOSÉ ANTÓNIO GUERREIRA, O LIBERAL DE LANHELAS - DE VINTISTA A CARTISTA

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  • José António Barreto Nunes (Supremo Tribunal de Justiça)

Esta comunicação incide sobre a figura de José António Guerreiro (JAG, Lanhelas, Caminha, 1789 – Lisboa, 1834), que ficou conhecido como “O liberal de Lanhelas”, mas que quase caiu no esquecimento da história pátria. Foi vintista moderado, cartista destacado, cidadão íntegro; sempre próximo dos reis liberais e do então marquês de Palmela.

Com 19 anos, por ocasião da primeira invasão francesa, foi nomeado secretário da Junta Provisória de Governo de Valença. Concluídos os estudos na Faculdade de Leis e Cânones na Universidade de Coimbra, fez a leitura de Bacharel e foi Juiz de Fora de Mértola. Regressou definitivamente à política, ao ser eleito deputado proprietário pela província do Minho, para as Cortes Gerais e Extraordinárias (Constituintes) de 1820/22. Foi, depois, eleito deputado substituto pelo Minho nas Cortes Ordinárias de 1822/23, tendo sido nomeado membro do Tribunal de Liberdade de Imprensa. Também foi eleito para as Cortes Ordinárias de 1826/28, agora por três províncias (Minho, Beira e Estremadura), nas quais foi vice-presidente, depois de ter sido um dos eleitos, finalmente escolhido pela regente D. Isabel Maria. Foi Ministro por duas vezes, a primeira, para a pasta da Justiça num Governo de transição em 1823, em plena  Vilafrancada, que durou cinco dias, do qual se demitiu por ter sido nomeado por um rei constitucionalista, que depois se transformou em rei absoluto, recusando a sua colaboração nos novos moldes. Foi novamente Ministro e Secretário de Estado dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça em 1826, agora interino, demitindo-se, mais uma vez, algum tempo decorrido, para manter a sua integridade. Em 1828, na fase do primeiro miguelismo, afastou-se do continente, tendo seguido para junto da Corte Imperial do Brasil, onde se tornou figura destacada, ao ter conseguido convencer D. Pedro, então imperador do Brasil, a regressar a Portugal. O mesmo D. Pedro encarregou-o de levar para Londres as instruções necessárias à criação da Regência de Angra, escolhendo-o para ser um dos seus membros, com mandato que cumpriu entre 1829 e 1832. Em Londres escreveu a duas mãos, com o então marquês de Palmela, o «Manifesto dos Direitos de Sua Majestade Fidelíssima a Senhora D. Maria Segunda, e Exposição da Questão Portugueza» que foi publicado em 1829. Foi Conselheiro de Sua Majestade a Infanta Regente D. Isabel Maria e Conselheiro de Estado da Rainha D. Maria II. A biografia de JAG que aqui se apresenta, para além da evocação que dele faz o Duque de Palmela nas suas Memórias, tem por fundamento três fontes fidedignas e coincidentes no essencial. O primeiro, uma carta que escreveu a sua mãe pouco antes de falecer; o segundo, a necrologia publicada na Gazeta de Lisboa alguns dias depois de ter falecido; o terceiro, o discurso feito por Almeida Garrett na Câmara dos Deputados em 1835, na defesa de um pedido de pensão requerido pela sua viúva.

Fonte: https://cbr1820.com/2020/04/28/jose-antonio-guerreiro/

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CASA DA EIRA EM LANHELAS RECEBE SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESSEN

Sophia de Mello Breyner Andresen - uma poética da resistência

Poética, ou seja, no âmbito da literatura, uma actividade criativa envolvendo a exploração do significado das palavras e das respectivas associações lexicais enquanto símbolos e artefactos de modelação do mundo e da vida. Afinal, a magia de uma fala meticulosamente convertida em escrita, com vista a proporcionar ao leitor uma fonte transepocal de fruição estética e de conhecimento.

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E nesse propósito, recorrendo o autor de um texto, quer no domínio da prosa quer no domínio da poesia, a variadas figuras de estilo (imagens, metáforas, alegorias, etc.). Isto, de acordo com a sua particular sensibilidade, e em função da musicalidade e comunicabilidade apropriadas a uma específica atmosfera narrativa. Tal como a criar um imprevisto ordenamento sintáctico, uma imagem inusitada ou uma ideia original.

Ora se é predominantemente no âmbito da poesia que mais usual é a pesquisa dos jogos de linguagem - bem como a libertação de uma normativa gramatical e retórica -, esses imaginativos recursos estilísticos podem ainda condicionar um qualquer outro género literário. E entre estes a crónica, o conto e o drama, práticas que ocasionalmente a autora que homenageamos experimentou.

Resistência, ou seja, a oposição e luta contra uma determinada ordem de valores entendida como motivo de opressão e desesperança por aqueles que a sofrem. E muito especialmente pelos grupos sociais mais desfavorecidos no plano económico, político e cultural. Grupos que, normalmente, em qualquer sociedade, representam a maioria dos cidadãos e, assim, a estrutura de base da pirâmide social.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), nascida numa família da alta-burguesia portuense em que se cruzavam tradições aristocráticas nacionais e heranças burguesas e cosmopolitas do norte europeu, enquanto intelectual e cidadã estaria condicionada, naqueles lusitanos, sombrios e asfixiantes anos 40 em que iniciou a sua carreira literária, a dar apoio ao regime autoritário do Estado Novo (1928-1974). Porém, não tardou a jovem autora a demarcar-se desse acanhado e estiolado universo político-cultural e a encetar um activo e corajoso combate contra a ordem vigente.

Após transitar do Porto para Lisboa onde frequentou a licenciatura em Filologia Românica, embora sem a concluir (1936-1939), vai em 1946 estabelecer na capital a residência definitiva e aí constituir família. Entretanto, à medida que os filhos foram surgindo (um quinteto) desenvolveu uma notável e continuada actividade poética com imediata repercussão ao nível da mais exigente esfera crítica nacional.

Uma poética que progressivamente repercutiu, embora quase sempre com discreta e elegante contenção retórica, as suas opções ideológicas e objectivos sócio-políticos. Um programa visando abolir um regime obsoleto e a instauração no país de uma democracia de tipo europeu. Neste contexto, entre outras actividades, Sophia apoiou a candidatura do general Delgado à presidência da República em 1958, subscreveu a Carta dos movimentos católicos contra o regime autoritário e foi uma incansável activista política integrada na direcção do Centro Nacional de Cultura. Mais tarde, após a revolta militar de 25 de Abril de 1974, no decurso da restauração de um regime tendencialmente democrático, acabou por integrar a lista de deputados socialistas pelo círculo do Porto à Assembleia Constituinte. Uma experiência frustrante.

De facto, mau grado o iminente colapso das liberdades mais genéricas ter sido evitado a tempo, os jogos palacianos ou/e arruaceiros que então se digladiavam, eram processos de acção inconciliáveis com a sua rectilínea ética social. E daí a ulterior e inflexível abstenção que assumiu relativamente a novas incumbências político-partidárias.

No ano de 1940, Sophia Andresen havia publicado os seus primeiros poemas na revista Cadernos de Poesia. Um género que cultivou ao longo dos anos, paralelamente a uma actividade no campo da tradução (Eurípides, Shakespeare, Claudel, Dante, etc.), como enquanto contista - Contos Exemplares (1962), Os três reis do Oriente (1965) - e ainda a autoria de uma belíssima série de narrativas para crianças: A Menina do mar (1958), A fada Oriana (1959), A noite de Natal (1959), O cavaleiro da Dinamarca (1954), O rapaz de bronze (1966), A Floresta (1968), entre outros títulos.

Nesta sintética resenha não devendo ser esquecidas as suas episódicas reflexões literárias sobre diferentes temas e autores, e em particular a emotiva e intensa meditação que dedicou à arte da Grécia antiga. Tal como os textos dramáticos que escreveu e a correspondência com Jorge de Sena, títulos que igualmente ajudam a aclarar o seu percurso humano, intelectual e político. E obviamente a elucidarem a longa lista de obras poéticas que subscreveu – da inaugural Poesia (1944); de Coral (1950) a Mar Novo (1958) e deste a Livro Sexto (1962) e, entre outros livros, de Geografia (1957) a Navegações (1983) e de O Búzio de Cós e outros poemas (1997) a Orpheu e Eurídice (2001) - permitindo, pois, uma leitura crítica destas obras elucidar a fulgurante e sincrética visão do mundo que nelas se expressa.

Sophia de Mello Breyner Andresen - altiva cariátide no contexto de uma atrabiliária vida literária e de um jacobino maniqueísmo ideológico ainda mal resolvido -, a sua figura frágil mas de enorme solidez cívica e moral vai-se agigantando à medida que se adensa o conhecimento de uma complexa e pessoal fidelidade à herança filosófica e estético-religiosa do mundo helénico, a sua mais funda paixão.

Sophia é antes de mais uma hipersensível paisagista. Uma ofuscada pitonisa submetida ao império mágico da luz, “A omnipotência do Sol rege a minha vida”, Geografia, p. 11, e assim, sujeita igualmente às sombras mediterrânicas e ao seu inextinguível acervo cultural. Um oráculo, por conseguinte, irremediavelmente preso à sublime presença das suas praias e acrópoles, à estatuária, às poéticas e homéricas odisseias e tragédias, ao pensamento crítico e mitologia.

A urbana escritora portuense é, pois, uma criatura contrastante, umbilical e panteisticamente irmanada a uma agreste e domesticada Natureza. Como sujeita ao fascínio por uma cultura imemorial que o mar e a poesia dulcificam e ameaçam, um magma primordial de ideias e valores dinamizado pelas forças instintivas e o rigor ético em que se esculpem e temperam as almas mais inteiras.

E assim, a este culto sophianiano do mar grego e do mar português (o mar da Granja, o mar de Lagos e de outras muitas navegações), mares confundidos na sua metafísica imobilidade e eterna cadência, podendo aplicar-se a fórmula que o artista plástico e poeta surrealista da Galiza, Urbano Lugrís, comungando semelhante devoção, um dia proferiu: “perante o mar deveríamos ajoelhar-nos”.

Mas esta herança clássica, sensível, senão epicurista, e ainda legível nas paisagens da orla do Mediterrâneo, evoca-a Sophia como a componente primordial da cultura europeia. Ganhando, porém, uma outra densidade, uma outra mística sociológica e margem de libertação ao, sincreticamente, integrar a transfiguradora herança do cristianismo.

Herança que a escritora, perante a perplexidade de quem ignora a força da mensagem evangélica, sempre arvorou como arma de combate. E, por isso, serenamente pôde escrever no seu Livro Sexto (1962), p. 62: “Era um Cristo sem poder / Sem espada e sem riqueza/ Seus amigos o negavam/ Antes do galo cantar/ A polícia o perseguia/ Guiada por Fariseus/ … Foi cuspido e foi julgado/ … E morreu desfigurado/ A treva caiu dos céus/ Sobre a terra em pleno dia/ Nem uma nódoa se via nas vestes dos Fariseus.”

CASA DA EIRA EM LANHELAS APRESENTA AS AVENTURA DE ROBINSON CRUSOE

ROBINSON CRUSOE, imagens literárias e imaginação gráfica

À passagem do tricentenário da publicação, em 1719, em Londres, do romance de aventuras ROBINSON CRUSOE, da autoria de Daniel Defoe, a CASA DA EIRA, em LANHELAS, promove uma exposição/debate a partir de um núcleo de antigas e modernas edições da exótica e famosíssima narrativa que tantos encómios suscitou a grandes figuras do olimpo cultural dos últimos séculos.

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Para além da contextualização histórica da ficção defoneana - depois da Bíblia tida como o texto mais difundido universalmente -, e considerada a sua centralidade no âmbito da literatura de viagens e as especulações que suscitou na esfera da teoria económica e, ultimamente, emergindo como alvo de ásperas polémicas e anátemas enquanto alegoria do sistema colonial (com os temas incandescentes da aculturação forçada e do confronto entre a civilização ocidental e as etnias dos "tristes trópicos" na mira da miltância pós-colonial mais aguerrida), na habitual troca de ideias a que a circunstância convida, prestar-se-á ainda uma especial atenção ao comentário gráfico de diferentes episódios e descrições do livro, com mais evidente interesse plástico ou espessura emotiva, a ilustrarem muitas das suas edições.

Obviamente uma tradução gráfica que representa um atractivo suplementar para o leitor e a exigir uma curta sinopse acerca dos processos de composição tipográfica e uma reflexão sobre a actual e crescente permuta de sentidos entre a literatura e a arte. Uma interligação que, por meados do século XIX, com a descoberta e divulgação da fotografia, permitiu à imagem visual assumir um progressivo e avassalador protagonismo estético decorrente sobretudo da multiplicação dos jornais diários, de revistas e folhetos envolvendo enormes ou mesmo gigantescas tiragens. Em certos casos superando várias centenas de milhar e até o milhão de exemplares. Com o uso da cor ganhando depois a ilustração de um texto uma outra vivacidade e sedução. E com o advento do mercado da banda desenhada, com a aparição da publicidade sonora e visual, e, por fim, com o êxito fulminante da arte cinematográfica, vindo rapidamente a imagem em movimento a dominar absolutamente os consumos da área do simbólico. E aliás, nas décadas mais recentes, dada a explosiva captação e difusão de registos visuais por via digital, agora à escala das centenas de milhões de imagens/dia, verificando-se inclusive um claro retraimento da esfera da comunicação através da expressão escrita. E assim, com este inédito refluxo, a ficar perigosamente ameaçada a função racional na elaboração, comunicação e adopção de ideias e valores entre os humanos.

Neste quadro de uma meditação sobre a solitária experiência de um náufrago, de um europeu perdido numa ilha selvagem do fim do mundo, de um homem inteiramente livre no seu diálogo com a natureza, Robinson Crusoe, e este a recriar um mundo no qual é o único agente e único senhor - como depois a reencontrar outros seres humanos e outros variados e complexos mundos -, não se omitirá uma reflexão relativamente às polémicas travadas em torno das liberdades públicas e da mordaça e entraves que uma pesada ou totalitária intromissão do Estado poderá impor ao cidadão. Como da evocação deste universo ficcional imaginado por Defoe, bem como de outras experiências literárias semelhantes difundidas por via do texto impresso e graficamente ornamentado, se pretende concluir o evento com uma meditação sobre a hipertrofia dos contactos em rede que hoje nos vai absorvendo a mente, a alma e os dias. Um conúbio desnaturalizado entre indivíduos, entre multidões anónimas de interlocutores virtuais, todos inadevertidamente presos nesse proliferante vespeiro, à imediatez da vida, ofuscados e sufocados pelo império e o fascínio da imagem.

É claro que será feita uma prévia e sumária alusão à biografia do militante político e publicista D. Defoe, como se há-de esclarecer a aventura real vivida por Alexander Selkrik, o navegante escocês que, na sequência de um naufrágio real, terá vivido solitariamente durante vários anos (1704-1708) numa ilha do Oceano Pacífico, algures na costa do Chile actual. Episódio que terá inspirado a Defoe a sua mítica figura de Robinson Crusoe. E a propósito é de notar que recentes escavações arqueológicas na ilha de Aguas Buenas parecem comprovar uma presença europeia no seu território pelos inícios do século XVIII. E daí ter sido rebaptizada a ilha com o nome de "Ilha de Robinson Crusoe". Embora a que foi idealizada por Defoe se situe nas imediações da foz do Orenoco, e assim no Oceano Atlântico.

CÂMARA DE CAMINHA INAUGURA OBRA DE ARTE ‘ABRIGO’ NA BEIRADA DO RIO EM LANHELAS

Cerimónia terá lugar sábado, dia 15 de dezembro, pelas 11H00

A Câmara Municipal de Caminha e a Comunidade Intermunicipal do Alto Minho vão inaugurar a peça artística ‘Abrigo’, da dupla FAHR 021.3, no âmbito do projeto DESENCAMINHARTE (DES 18), no dia 15 de dezembro, pelas 11H00, na beirada do rio, em Lanhelas.Esta obra pertence a um conjunto de 10 projetos propostos pelo DESENCAMINHARTE, que tem como missão criar sinergias entre território, arte, cultura e população, numa dinâmica de envolvimento intermunicipal. A cerimónia conta com a presença de Guilherme Lagido Domingos, presidente em exercício do Município de Caminha, e de Josefina Covinha, presidente da Junta de Freguesia de Lanhelas.

Desencaminharte

Segundo os autores, que são também coordenadores da edição deste ano do DESENCAMINHARTE, “Abrigo” é um “objeto pousado na margem, um banco, um abrigo, um barracão vazio, um recorte na paisagem. Este direciona o olhar para as águas do Minho e para a outra margem, gerando na sua forma um espaço sagrado de contemplação e de retiro. A sua modelação sugere a maturação de uma pedra que se moldou ao tempo daquele lugar, onde tudo parece ser mais lento, mais calmo, mais emocional.”

O DESENCAMINHARTE é um programa que visa promover a criação artística no Alto Minho através de uma dinâmica em rede que estimule o reconhecimento da sua identidade. A edição de 2018, com programação a cargo do coletivo HODOS, centra-se no desenvolvimento de dispositivos que contribuem para a valorização do património cultural e natural da região. Dez autores relevantes no panorama artístico e arquitetónico contemporâneo foram desafiados a intervir na paisagem singular de cada um dos dez municípios. A partir de uma leitura sensível e afetiva do lugar, estas obras serão construídas até ao final do ano, num diálogo aberto entre território, arte, cultura e população.

HODOS é um coletivo constituído por FAHR 021.3, depAArchitects e StillUrban Design, com o objetivo de valorizar os percursos pedestres em Portugal, afirmando-os como elementos de integração ou dissociação na paisagem. Através da identificação e tratamento de pontos de interesse nesses percursos, HODOS pretende reformular a experiência da caminhada com recurso à criação de peças de arte e arquitetura.

FAHR 021.3 é um coletivo fundado em 2012 por Filipa Frois Almeida e Hugo Reis. Ambos formados em arquitetura pela Escola Superior Artística do Porto, os seus percursos foram sendo marcados por interseções da arte com a arquitetura. O estúdio FAHR 021.3 assume-se assim pelo cruzamento dos seus fundadores, em procura de uma identidade evolutiva e inquietante em torno de processos experimentais com especial foco no cruzamento entre a arte e a arquitetura em espaço público. Esta dupla tem sido distinguida nacional e internacionalmente por um conjunto de projetos que se caracterizam pela sua abordagem formal e provocadora como Hairchitecture, Metamorfose, Eclipse e NAPPE (2016-19 em Taiwan).

CASA DA EIRA EM LANHELAS REALIZA EXPOSIÇÃO E PROMOVE DEBATE AOBRE SIDÓNIO PAIS

Sidónio, “o presidente-rei”, a República e a Grande Guerra

Na viragem para o século XX, a 2ª Revolução Industrial pôs à disposição da Humanidade uma larga cópia de recursos tecnocientíficos e culturais. A saber, o uso do petróleo e da energia eléctrica, avanços espectaculares no domínio da física, da química e da medicina, a aparição do automóvel e do aeroplano, a divulgação do telégrafo e da cinematografia, não esquecendo as novas modalidades de lazer, de expressão literária e artística. Um espantoso surto de criatividade a deixar antever uma era de inusitada prosperidade e de paz. As elites urbanas, em alguns países ocidentais, podiam inclusive rever-se na fórmula que a imprensa vulgarizava para realçar esse dinâmico e eufórico momento histórico: La Belle Époque.

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Todavia, fruto de um pujante crescimento demográfico e urbano, e de um correlativo extremar de posições entre as ideologias conservadoras, liberais, socialistas, libertárias e comunistas, as lutas sociais, fortemente desestabilizadoras da ordem pública, demarcavam-se por um grau superior de virulência. Teorizava-se e proclamava-se a legitimidade da perseguição e da expedita eliminação dos adversários. Alastrava a agitação social e a repressão, como igualmente se exacerbavam as rivalidades entre os impérios que dominavam o planeta, dia a dia militarmente mais poderosos e agressivos.

Eis, pois, o contexto em que os portugueses, à vista das nuvens acasteladas em torno da sua aventura colonial, como cientes da atávica miséria que os perseguia, numa escala menos entusiástica ou mesmo tingida de angústias e temores, viram o dealbar do novo século. A maior parte, naturalmente, indiferente, outra apenas receosa, alguns a temer o acercar da desgraça. Porém, a limitada parcela que contribuiu para o desmoronar da multissecular e obsoleta ordem monárquica e a subsequente implantação de um inflexível regime republicano, em Outubro de 1910, essa, ilusoriamente triunfante.

No decorrer de um não muito longo mas intenso itinerário de vida e de empenhamento cívico, o cidadão caminhense Sidónio Pais(1872-1918), partidário dessa traumática ruptura histórica, pôde vivenciar como poucos dos seus compatriotas, no país e no exterior, aquelas peculiares e contrastantes percepções de uma Europa no auge do seu poderio, mas dividida por fracturantes tensões entre as suas principais componentes estaduais, a fragilizá-la e arrastando-a inelutavelmente para o abismo.

Major de artilharia, um lente e juvenil reitor da Universidade de Coimbra, matemático brilhante com adicional formação filosófica, Sidónio Pais logo foi incumbido de diversas missões de notória responsabilidade político-administrativa. Entretanto, a integração na maçonaria veio facilitar-lhe o desempenho de cargos de maior relevância e depressa ascendeu à esfera governativa.

Neste quadro, da Assembleia Constituinte onde exerceu o cargo de deputado por Aveiro, então como membro do Partido Unionista, passa em 1911 a soçobrar a pasta do ministério do Fomento e depois do ministério das Finanças. Em Setembro do ano seguinte, decerto por vontade própria e esquivando-se a responsabilidades familiares que pouco o atormentavam, e tendo em conta as suas múltiplas faculdades intelectuais e políticas, é enviado em funções diplomáticas para Berlim. Missão de particular sensibilidade dadas as ambições coloniais do império germânico, uma alarmante ameaça para a continuidade dos domínios africanos de Portugal, agravada seguidamente com a eclosão do conflito armado em 1914. Contudo, o diplomata português só em Março de 1916 regressará ao país após a declaração de guerra a Portugal formulada pela Alemanha.

Se os portugueses se batiam em África desde 1914, com a deslocação em 1917 do Corpo Expedicionário Português para a frente de batalha na Flandres, então subordinado à direcção britânica e em muito más condições logísticas, sanitárias e de preparação técnica, enfrenta doravante o formidável poder de fogo das forças da coligação dos impérios alemão e austro-húngaro. Ocorrendo assim um enorme salto qualitativo no plano da beligerância. E isto com forte incidência no país a nível sócio-económico e político. Impulsionando como nunca as querelas entre partidos e intra-partidárias e um mal-estar geral acentuado mais tarde com o desastre militar do Lys, em Abril de 1918, e o martírio, na lama e no terror das trincheiras, de cerca de 10. 000 dos nossos soldados.

Germanófilo, simplesmente pacifista ou sobretudo decidido opositor do anti-clerical e jacobino governo do partido Democrático, Sidónio, ainda a exercer funções do foro diplomático, tirando proveito da sua ligação ao exército e de um enorme descontentamento popular que envolvia as próprias hostes republicanas, foi capaz de organizar e dirigir no terreno uma conspiração que, em 5 Dezembro de 1917, se converteu em golpe de estado sangrento. Do seu êxito decorre o afastamento do chefe do governo, Afonso Costa, bem como do Presidente da República, Bernardino Machado e dos seus seguidores.

A proclamada “República Nova” de Sidónio rapidamente conquista a adesão das populações mais distantes da capital e dos círculos do poder, e até disputa aliados entre as mais politizadas massas proletárias. Ora não será este sucesso, mau grado as boas intenções republicanas, uma prova do irrealismo e da dogmática irresponsabilidade dos costistas e da sua gerontocrática e azeda governação?

Eleito mais tarde Presidente da República por sufrágio universal, Sidónio mantém-se arredado da intriga e dos conciliábulos partidários, e sai frequentemente do palácio de Belém. Viaja pelo país, visita instituições, envolve-se afectivamente com os mais deserdados. Surpreendentemente, o frequentador de paradas, de claustros académicos e de salões diplomáticos, convive sem esforço com o povo e vai-se elevando à categoria de grande sedutor de multidões. A imprensa fotográfica, com destaque para a revista A Ilustração Portuguesa, dá por sua vez um evidente contributo nesta reapropriação mediática das antigas, amáveis e tradicionais confrontações do príncipe com os seus súbditos.

Sidónio pressente um inesperado empoderamento a movê-lo rumo a uma perigosa auto-suficiência política. Altera a Constituição, rejuvenesce o regime e, paulatinamente, desloca-o para um modelo de pendor presidencialista senão autoritário. Na sombra, os seus adversários não abandonam a luta. Desenham conspirações. A agitação recrudesce nos passos perdidos e nas lojas menos translúcidas. Os peões do campo dos ressentidos que conseguem escapar à prisão não desistem de visar quem lhes entravava aspirações, benesses e ideais. Em 14 de Dezembro de 1918, depois de um primeiro atentado fracassado a 5 do mesmo mês, Sidónio Pais, o popular monarca redivivo é varado por uma bala assassina no interior da Estação do Rossio, em Lisboa.

Surpresa? Decerto não. Com efeito, o que esperará alguém que terá muito provavelmente exultado com o magnicídio de D. Carlos e de seu filho friamente abatidos no Terreiro do Paço em Lisboa? E de alguém que identicamente chega ao poder pela via do recurso às armas, pese embora ulteriores e plebiscitárias aclamações, depois de haver tirado proveito de um regime, a República, que, também pelas armas, e não pela via democrática do voto popular, se estabeleceu na governação do país?

A pretexto desta exposição foto-bibliográfica que rememora o extraordinário itinerário de um caminhense - seguramente o mais reconhecido que o município viu nascer -, não apenas se procederá a um debate centrado na sua pessoa e labor cívico-político. Paralelamente, como se impõe, será a própria natureza do regime republicano português e a participação de Portugal no conflito que abrasou o mundo entre 1914 e 1918 que serão igualmente objecto de controvérsia e esclarecimento. Esta última dimensão do evento encerra, aliás, em simultâneo, o ciclo de três exposições-debate sobre a Grande Guerra iniciado em 2014 pela Casa da Eira.

Quanto a Sidónio e ao seu ímpar e trágico destino, o fragmento da coroa de louros que poderemos aqui depor em sua memória foi Fernando Pessoa que o compôs:

“[…] No mistério onde a Morte some/Aquilo a que a alma chama vida, /Que resta dele a nós – só o nome/ E a fé perdida? //

Se Deus o havia de levar, / Para que foi que no-lo trouxe/Cavaleiro leal, do olhar/Altivo e doce? //

Soldado-rei que oculta sorte/Como em braços da Pátria ergueu, /E passou como o vento norte/Sob o ermo céu//

Mas a alma acesa não aceita /Essa morte absoluta, o nada/De quem foi Pátria, e fé eleita, / E ungida espada. //

[…] Quem ele foi sabe-o a Sorte/Sabe-o o Mistério e a sua lei/A Vida fê-lo herói, e a Morte/ O sagrou Rei! […]”

  1. S. Depois de Camões ter saudado como heróis tantos antigos soldados portugueses, mereceria Sidónio, do heteronímico e genial Pessoa, tão messiânica, sebástica e grandiloquente homenagem?

E nós? Mereceremos nós ouvir Pessoa a lembrar-nos estes insondáveis e enigmáticos mistérios? Fugidias sombras esculpidas na pedra de uma língua poderosa, mas decerto tão efémera como todos os relâmpagos e a própria vida.

LANHELAS ACOLHE A PRÓXIMA REUNIÃO DESCENTRALIZADA DO EXECUTIVO CAMINHENSE

Sessão terá lugar dia 31 de outubro, pelas 18H30,no edifício da Casa da Banda

Este mês, o executivo vai deslocar-se à freguesia de Lanhelas para realizar mais uma reunião de Câmara descentralizada. A reunião terá lugar no dia 31, pelas 18H30, no edifício da Casa da Banda.

casa da banda

As reuniões públicas descentralizadas são um instrumento de participação que os munícipes têm à disposição para dialogar diretamente com os decisores políticos concelhios. Estas reuniões favorecerem a proximidade junto da população e permitem ao presidente e vereadores da Câmara Municipal ouvir, esclarecer e prestar contas da gestão municipal, contribuindo assim para uma democracia local mais participativa.

Recorda-se que estas reuniões apresentam como único ponto da ordem de trabalhos a audição dos munícipes. Assim, os munícipes interessados em intervir deverão proceder à respetiva inscrição, com uma antecedência mínima de 48 horas, na Câmara Municipal, através do telefone 258 710 300 ou do e-mail geral@cm-caminha.pt

Ainda o podem fazer na sede da Junta de Freguesia de Lanhelas. É de realçar que, no momento da inscrição, os munícipes deverão indicar o contacto telefónico e o assunto a tratar. Será dada prioridade aos assuntos relacionados com as freguesias em questão e de interesse coletivo e/ou público.