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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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CAMINHA: ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DE LANHELAS FOI OFICIALMENTE ELIMINADA HÁ 10 ANOS!

A Estação Ferroviária de Lanhelas situa-se no troço da Linha do Minho entre Caminha e São Pedro da Torre (Valença), mais precisamente entre o Apeadeiro de Seixas e a Estação Ferroviária de Vila Nova de Cerveira.

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Prevista desde o início dos planos para a construção da Linha do Minho elaborados na década de 1870, a Estação Ferroviária de Lanhelas – originalmente denominada de Lanhellas – foi perdendo importância e veio a ser eliminada da rede ferroviária em 20 de Outubro de 2011.

Esta Estação ferroviária foi pelo Secretariado Nacional de Informação, uma das premiadas com menção honrosa especial, pela sua participação no XIII Concurso das Estações Floridas realizado em 1954.

Foto: João Silvério / https://apeadeirodasvirtudes.blogspot.com/

CAMINHA EVOCA JOSÉ ANTÓNIO GUERREIRO – O LIBERAL DE LANHELAS

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José António Guerreiro (Lanhelas, 5 de dezembro de 1789 — Lisboa, 1 de agosto de 1834) foi um magistrado e político, considerado uma das maiores figuras do liberalismo português oitocentista, que protagonizou um curto mas intenso percurso político que o colocou na chefia do governo liberal no exílio, cargo que exerceu em Londres de 2 de junho de 1828 a 15 de junho 1829. Eleito pelo Minho, foi um dos mais influentes deputados nas Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa, determinante na elaboração da Constituição de 1822.

Nasceu em Lanhelas, concelho de Caminha, no Alto Minho, filho de Bento José Dantas Guerreiro. Formou-se bacharel de Leis na Universidade de Coimbra em 1816, sendo premiado como o melhor aluno do seu curso.

Ingressou na magistratura no ano de 1817, sendo colocado na vila de Mértola como juiz de fora. Defensor dos ideais da Revolução Liberal do Porto, em 1821 foi eleito deputado às Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa em representação dos eleitores do círculo do Minho. Nos debates parlamentares revelou-se um dos deputados mais participativos e assertivos, assumindo um destacado papel nos trabalhos que levaram à aprovação da Constituição de 1822. Tendo as Cortes Constituintes terminado o seu trabalho, em 1822 foi eleito deputado pelo Minho ao primeiro parlamento constitucional, iniciando uma carreira parlamentar que o manteria como deputado durante todo o vintismo. Foi reeleito em 1826, passando nessa legislatura a ocupar o cargo de vice-presidente da mesa da Câmara dos Deputados.

No conturbado período de vigência da Constituição de 1822, para além das funções parlamentares, foi também membro do governo, embora por períodos muito curtos, com a pasta de Ministro e Secretário de Estado dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça, primeiro efemeramente em 1823, durante a Vilafrancada, ainda no reinado de D. João VI de Portugal, e depois em 1826, como interino, já na regência da infanta Isabel Maria de Bragança.

A proclamação de D. Miguel como rei absoluto em 1828 obrigou-o, a partir para o exílio. Partiu para a Galiza e daí para Londres, onde permaneceu até 1831. Foi uma das principais figuras da comunidade emigrada portuguesa, mantendo importante colaboração com os líderes liberais no exílio. Foi o principal autor do Manifesto dos Direitos de Sua Magestade Fidelíssima, a Senhora Dona Maria Segunda; e exposição da questão portugueza, publicado em Rennes em 1831, a principal obra teorizadora da legitimidade dinástica de D. Pedro IV e de D. Maria II. O opúsculo, escrito em colaboração com Pedro de Sousa Holstein, o futuro duque de Palmela, foi determinante na propaganda da causa liberal.

Com a instalação da Regência de Angra, transferiu-se para a ilha Terceira, onde integrou o Conselho de Regência que em nome de D. Maria II governava a ilha e dirigiu as operações que levariam à preparação da força que protagonizou o desembarque no Mindelo.

Em 1833, ainda em plena guerra civil, durante o Cerco do Porto, D. Pedro IV concedeu-lhe a grã-cruz da Ordem da Torre e Espada e em 1834, nomeou-o membro do Conselho de Estado. Contudo, por esta altura já se encontrava gravemente doente, pois fora gravemente ferido durante o Cerco do Porto quando ... embarcado na fragata Alcion, tentou esta forçar a barra do Douro, porém as baterias do Castelo de S. João da Foz afundaram o navio, ferindo gravemente o Dr. Guerreiro que retirou convalescente para Lisboa, residindo na freguesia das Mercês até falecer no 1.º de Agosto de 1834. Tinha 45 anos de idade, deixando cinco filhos menores e parcos meios, pelo que a viúva teve ela de vender os bens que o casal tinha em Gondarém e Lanhelas.

José António Guerreiro é um dos parlamentares homenageados na sala sessões do Palácio de São Bento, numa tela em elipse de 22 metros de largura por 5 de altura, da autoria do pintor José Maria Veloso Salgado (1864-1945), que contou com a colaboração dos discípulos Luís Marques da Silva Júnior e Júlio Santos Jesus, que evoca as Cortes Constituintes de 1821-1822 reunidas na biblioteca do Palácio das Necessidades. Entre os quarenta deputados vintistas retratados a ouvirem atentamente Manuel Fernandes Tomás, surge em lugar de destaque, à direita do orador, a figura soerguida de José António Guerreiro. Foi também homenageado por duas vezes na sua freguesia natal de Lanhelas, primeiro em 1926, quando uma artéria local recebeu o seu nome, passando a integrar a toponimia lanhelense até à actualidade, e depois em 1989, assinalando a na passagem do bicentenário do seu nascimento.

Fonte: Wikipédia

JOSÉ ANTÓNIO GUERREIRO - FIGURA ILUSTRE DE LANHELAS

José António Guerreiro (Lanhelas, 5 de dezembro de 1789 — Lisboa, 1 de agosto de 1834) foi um magistrado e político, considerado uma das maiores figuras do liberalismo português oitocentista, que protagonizou um curto mas intenso percurso político que o colocou na chefia do governo liberal no exílio, cargo que exerceu em Londres de 2 de junho de 1828 a 15 de junho 1829. Eleito pelo Minho, foi um dos mais influentes deputados nas Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa, determinante na elaboração da Constituição de 1822.

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Nasceu em Lanhelas, concelho de Caminha, no Alto Minho, filho de Bento José Dantas Guerreiro. Formou-se bacharel de Leis na Universidade de Coimbra em 1816, sendo premiado como o melhor aluno do seu curso.

Ingressou na magistratura no ano de 1817, sendo colocado na vila de Mértola como juiz de fora. Defensor dos ideais da Revolução Liberal do Porto, em 1821 foi eleito deputado às Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa em representação dos eleitores do círculo do Minho. Nos debates parlamentares revelou-se um dos deputados mais participativos e assertivos, assumindo um destacado papel nos trabalhos que levaram à aprovação da Constituição de 1822. Tendo as Cortes Constituintes terminado o seu trabalho, em 1822 foi eleito deputado pelo Minho ao primeiro parlamento constitucional, iniciando uma carreira parlamentar que o manteria como deputado durante todo o vintismo. Foi reeleito em 1826, passando nessa legislatura a ocupar o cargo de vice-presidente da mesa da Câmara dos Deputados.

No conturbado período de vigência da Constituição de 1822, para além das funções parlamentares, foi também membro do governo, embora por períodos muito curtos, com a pasta de Ministro e Secretário de Estado dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça, primeiro efemeramente em 1823, durante a Vilafrancada, ainda no reinado de D. João VI de Portugal, e depois em 1826, como interino, já na regência da infanta Isabel Maria de Bragança.

A proclamação de D. Miguel como rei absoluto em 1828 obrigou-o, a partir para o exílio. Partiu para a Galiza e daí para Londres, onde permaneceu até 1831. Foi uma das principais figuras da comunidade emigrada portuguesa, mantendo importante colaboração com os líderes liberais no exílio. Foi o principal autor do Manifesto dos Direitos de Sua Magestade Fidelíssima, a Senhora Dona Maria Segunda; e exposição da questão portugueza, publicado em Rennes em 1831, a principal obra teorizadora da legitimidade dinástica de D. Pedro IV e de D. Maria II. O opúsculo, escrito em colaboração com Pedro de Sousa Holstein, o futuro duque de Palmela, foi determinante na propaganda da causa liberal.

Com a instalação da Regência de Angra, transferiu-se para a ilha Terceira, onde integrou o Conselho de Regência que em nome de D. Maria II governava a ilha e dirigiu as operações que levariam à preparação da força que protagonizou o desembarque no Mindelo.

Em 1833, ainda em plena guerra civil, durante o Cerco do Porto, D. Pedro IV concedeu-lhe a grã-cruz da Ordem da Torre e Espada e em 1834, nomeou-o membro do Conselho de Estado. Contudo, por esta altura já se encontrava gravemente doente, pois fora gravemente ferido durante o Cerco do Porto quando ... embarcado na fragata Alcion, tentou esta forçar a barra do Douro, porém as baterias do Castelo de S. João da Foz afundaram o navio, ferindo gravemente o Dr. Guerreiro que retirou convalescente para Lisboa, residindo na freguesia das Mercês até falecer no 1.º de Agosto de 1834. Tinha 45 anos de idade, deixando cinco filhos menores e parcos meios, pelo que a viúva teve ela de vender os bens que o casal tinha em Gondarém e Lanhelas.

José António Guerreiro é um dos parlamentares homenageados na sala sessões do Palácio de São Bento, numa tela em elipse de 22 metros de largura por 5 de altura, da autoria do pintor José Maria Veloso Salgado (1864-1945), que contou com a colaboração dos discípulos Luís Marques da Silva Júnior e Júlio Santos Jesus, que evoca as Cortes Constituintes de 1821-1822 reunidas na biblioteca do Palácio das Necessidades. Entre os quarenta deputados vintistas retratados a ouvirem atentamente Manuel Fernandes Tomás, surge em lugar de destaque, à direita do orador, a figura soerguida de José António Guerreiro. Foi também homenageado por duas vezes na sua freguesia natal de Lanhelas, primeiro em 1926, quando uma artéria local recebeu o seu nome, passando a integrar a toponimia lanhelense até à actualidade, e depois em 1989, assinalando a na passagem do bicentenário do seu nascimento.

Fonte: Wikipédia

JOSÉ ANTÓNIO GUERREIRA, O LIBERAL DE LANHELAS - DE VINTISTA A CARTISTA

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  • José António Barreto Nunes (Supremo Tribunal de Justiça)

Esta comunicação incide sobre a figura de José António Guerreiro (JAG, Lanhelas, Caminha, 1789 – Lisboa, 1834), que ficou conhecido como “O liberal de Lanhelas”, mas que quase caiu no esquecimento da história pátria. Foi vintista moderado, cartista destacado, cidadão íntegro; sempre próximo dos reis liberais e do então marquês de Palmela.

Com 19 anos, por ocasião da primeira invasão francesa, foi nomeado secretário da Junta Provisória de Governo de Valença. Concluídos os estudos na Faculdade de Leis e Cânones na Universidade de Coimbra, fez a leitura de Bacharel e foi Juiz de Fora de Mértola. Regressou definitivamente à política, ao ser eleito deputado proprietário pela província do Minho, para as Cortes Gerais e Extraordinárias (Constituintes) de 1820/22. Foi, depois, eleito deputado substituto pelo Minho nas Cortes Ordinárias de 1822/23, tendo sido nomeado membro do Tribunal de Liberdade de Imprensa. Também foi eleito para as Cortes Ordinárias de 1826/28, agora por três províncias (Minho, Beira e Estremadura), nas quais foi vice-presidente, depois de ter sido um dos eleitos, finalmente escolhido pela regente D. Isabel Maria. Foi Ministro por duas vezes, a primeira, para a pasta da Justiça num Governo de transição em 1823, em plena  Vilafrancada, que durou cinco dias, do qual se demitiu por ter sido nomeado por um rei constitucionalista, que depois se transformou em rei absoluto, recusando a sua colaboração nos novos moldes. Foi novamente Ministro e Secretário de Estado dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça em 1826, agora interino, demitindo-se, mais uma vez, algum tempo decorrido, para manter a sua integridade. Em 1828, na fase do primeiro miguelismo, afastou-se do continente, tendo seguido para junto da Corte Imperial do Brasil, onde se tornou figura destacada, ao ter conseguido convencer D. Pedro, então imperador do Brasil, a regressar a Portugal. O mesmo D. Pedro encarregou-o de levar para Londres as instruções necessárias à criação da Regência de Angra, escolhendo-o para ser um dos seus membros, com mandato que cumpriu entre 1829 e 1832. Em Londres escreveu a duas mãos, com o então marquês de Palmela, o «Manifesto dos Direitos de Sua Majestade Fidelíssima a Senhora D. Maria Segunda, e Exposição da Questão Portugueza» que foi publicado em 1829. Foi Conselheiro de Sua Majestade a Infanta Regente D. Isabel Maria e Conselheiro de Estado da Rainha D. Maria II. A biografia de JAG que aqui se apresenta, para além da evocação que dele faz o Duque de Palmela nas suas Memórias, tem por fundamento três fontes fidedignas e coincidentes no essencial. O primeiro, uma carta que escreveu a sua mãe pouco antes de falecer; o segundo, a necrologia publicada na Gazeta de Lisboa alguns dias depois de ter falecido; o terceiro, o discurso feito por Almeida Garrett na Câmara dos Deputados em 1835, na defesa de um pedido de pensão requerido pela sua viúva.

Fonte: https://cbr1820.com/2020/04/28/jose-antonio-guerreiro/

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CASA DA EIRA EM LANHELAS RECEBE SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESSEN

Sophia de Mello Breyner Andresen - uma poética da resistência

Poética, ou seja, no âmbito da literatura, uma actividade criativa envolvendo a exploração do significado das palavras e das respectivas associações lexicais enquanto símbolos e artefactos de modelação do mundo e da vida. Afinal, a magia de uma fala meticulosamente convertida em escrita, com vista a proporcionar ao leitor uma fonte transepocal de fruição estética e de conhecimento.

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E nesse propósito, recorrendo o autor de um texto, quer no domínio da prosa quer no domínio da poesia, a variadas figuras de estilo (imagens, metáforas, alegorias, etc.). Isto, de acordo com a sua particular sensibilidade, e em função da musicalidade e comunicabilidade apropriadas a uma específica atmosfera narrativa. Tal como a criar um imprevisto ordenamento sintáctico, uma imagem inusitada ou uma ideia original.

Ora se é predominantemente no âmbito da poesia que mais usual é a pesquisa dos jogos de linguagem - bem como a libertação de uma normativa gramatical e retórica -, esses imaginativos recursos estilísticos podem ainda condicionar um qualquer outro género literário. E entre estes a crónica, o conto e o drama, práticas que ocasionalmente a autora que homenageamos experimentou.

Resistência, ou seja, a oposição e luta contra uma determinada ordem de valores entendida como motivo de opressão e desesperança por aqueles que a sofrem. E muito especialmente pelos grupos sociais mais desfavorecidos no plano económico, político e cultural. Grupos que, normalmente, em qualquer sociedade, representam a maioria dos cidadãos e, assim, a estrutura de base da pirâmide social.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), nascida numa família da alta-burguesia portuense em que se cruzavam tradições aristocráticas nacionais e heranças burguesas e cosmopolitas do norte europeu, enquanto intelectual e cidadã estaria condicionada, naqueles lusitanos, sombrios e asfixiantes anos 40 em que iniciou a sua carreira literária, a dar apoio ao regime autoritário do Estado Novo (1928-1974). Porém, não tardou a jovem autora a demarcar-se desse acanhado e estiolado universo político-cultural e a encetar um activo e corajoso combate contra a ordem vigente.

Após transitar do Porto para Lisboa onde frequentou a licenciatura em Filologia Românica, embora sem a concluir (1936-1939), vai em 1946 estabelecer na capital a residência definitiva e aí constituir família. Entretanto, à medida que os filhos foram surgindo (um quinteto) desenvolveu uma notável e continuada actividade poética com imediata repercussão ao nível da mais exigente esfera crítica nacional.

Uma poética que progressivamente repercutiu, embora quase sempre com discreta e elegante contenção retórica, as suas opções ideológicas e objectivos sócio-políticos. Um programa visando abolir um regime obsoleto e a instauração no país de uma democracia de tipo europeu. Neste contexto, entre outras actividades, Sophia apoiou a candidatura do general Delgado à presidência da República em 1958, subscreveu a Carta dos movimentos católicos contra o regime autoritário e foi uma incansável activista política integrada na direcção do Centro Nacional de Cultura. Mais tarde, após a revolta militar de 25 de Abril de 1974, no decurso da restauração de um regime tendencialmente democrático, acabou por integrar a lista de deputados socialistas pelo círculo do Porto à Assembleia Constituinte. Uma experiência frustrante.

De facto, mau grado o iminente colapso das liberdades mais genéricas ter sido evitado a tempo, os jogos palacianos ou/e arruaceiros que então se digladiavam, eram processos de acção inconciliáveis com a sua rectilínea ética social. E daí a ulterior e inflexível abstenção que assumiu relativamente a novas incumbências político-partidárias.

No ano de 1940, Sophia Andresen havia publicado os seus primeiros poemas na revista Cadernos de Poesia. Um género que cultivou ao longo dos anos, paralelamente a uma actividade no campo da tradução (Eurípides, Shakespeare, Claudel, Dante, etc.), como enquanto contista - Contos Exemplares (1962), Os três reis do Oriente (1965) - e ainda a autoria de uma belíssima série de narrativas para crianças: A Menina do mar (1958), A fada Oriana (1959), A noite de Natal (1959), O cavaleiro da Dinamarca (1954), O rapaz de bronze (1966), A Floresta (1968), entre outros títulos.

Nesta sintética resenha não devendo ser esquecidas as suas episódicas reflexões literárias sobre diferentes temas e autores, e em particular a emotiva e intensa meditação que dedicou à arte da Grécia antiga. Tal como os textos dramáticos que escreveu e a correspondência com Jorge de Sena, títulos que igualmente ajudam a aclarar o seu percurso humano, intelectual e político. E obviamente a elucidarem a longa lista de obras poéticas que subscreveu – da inaugural Poesia (1944); de Coral (1950) a Mar Novo (1958) e deste a Livro Sexto (1962) e, entre outros livros, de Geografia (1957) a Navegações (1983) e de O Búzio de Cós e outros poemas (1997) a Orpheu e Eurídice (2001) - permitindo, pois, uma leitura crítica destas obras elucidar a fulgurante e sincrética visão do mundo que nelas se expressa.

Sophia de Mello Breyner Andresen - altiva cariátide no contexto de uma atrabiliária vida literária e de um jacobino maniqueísmo ideológico ainda mal resolvido -, a sua figura frágil mas de enorme solidez cívica e moral vai-se agigantando à medida que se adensa o conhecimento de uma complexa e pessoal fidelidade à herança filosófica e estético-religiosa do mundo helénico, a sua mais funda paixão.

Sophia é antes de mais uma hipersensível paisagista. Uma ofuscada pitonisa submetida ao império mágico da luz, “A omnipotência do Sol rege a minha vida”, Geografia, p. 11, e assim, sujeita igualmente às sombras mediterrânicas e ao seu inextinguível acervo cultural. Um oráculo, por conseguinte, irremediavelmente preso à sublime presença das suas praias e acrópoles, à estatuária, às poéticas e homéricas odisseias e tragédias, ao pensamento crítico e mitologia.

A urbana escritora portuense é, pois, uma criatura contrastante, umbilical e panteisticamente irmanada a uma agreste e domesticada Natureza. Como sujeita ao fascínio por uma cultura imemorial que o mar e a poesia dulcificam e ameaçam, um magma primordial de ideias e valores dinamizado pelas forças instintivas e o rigor ético em que se esculpem e temperam as almas mais inteiras.

E assim, a este culto sophianiano do mar grego e do mar português (o mar da Granja, o mar de Lagos e de outras muitas navegações), mares confundidos na sua metafísica imobilidade e eterna cadência, podendo aplicar-se a fórmula que o artista plástico e poeta surrealista da Galiza, Urbano Lugrís, comungando semelhante devoção, um dia proferiu: “perante o mar deveríamos ajoelhar-nos”.

Mas esta herança clássica, sensível, senão epicurista, e ainda legível nas paisagens da orla do Mediterrâneo, evoca-a Sophia como a componente primordial da cultura europeia. Ganhando, porém, uma outra densidade, uma outra mística sociológica e margem de libertação ao, sincreticamente, integrar a transfiguradora herança do cristianismo.

Herança que a escritora, perante a perplexidade de quem ignora a força da mensagem evangélica, sempre arvorou como arma de combate. E, por isso, serenamente pôde escrever no seu Livro Sexto (1962), p. 62: “Era um Cristo sem poder / Sem espada e sem riqueza/ Seus amigos o negavam/ Antes do galo cantar/ A polícia o perseguia/ Guiada por Fariseus/ … Foi cuspido e foi julgado/ … E morreu desfigurado/ A treva caiu dos céus/ Sobre a terra em pleno dia/ Nem uma nódoa se via nas vestes dos Fariseus.”

CASA DA EIRA EM LANHELAS APRESENTA AS AVENTURA DE ROBINSON CRUSOE

ROBINSON CRUSOE, imagens literárias e imaginação gráfica

À passagem do tricentenário da publicação, em 1719, em Londres, do romance de aventuras ROBINSON CRUSOE, da autoria de Daniel Defoe, a CASA DA EIRA, em LANHELAS, promove uma exposição/debate a partir de um núcleo de antigas e modernas edições da exótica e famosíssima narrativa que tantos encómios suscitou a grandes figuras do olimpo cultural dos últimos séculos.

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Para além da contextualização histórica da ficção defoneana - depois da Bíblia tida como o texto mais difundido universalmente -, e considerada a sua centralidade no âmbito da literatura de viagens e as especulações que suscitou na esfera da teoria económica e, ultimamente, emergindo como alvo de ásperas polémicas e anátemas enquanto alegoria do sistema colonial (com os temas incandescentes da aculturação forçada e do confronto entre a civilização ocidental e as etnias dos "tristes trópicos" na mira da miltância pós-colonial mais aguerrida), na habitual troca de ideias a que a circunstância convida, prestar-se-á ainda uma especial atenção ao comentário gráfico de diferentes episódios e descrições do livro, com mais evidente interesse plástico ou espessura emotiva, a ilustrarem muitas das suas edições.

Obviamente uma tradução gráfica que representa um atractivo suplementar para o leitor e a exigir uma curta sinopse acerca dos processos de composição tipográfica e uma reflexão sobre a actual e crescente permuta de sentidos entre a literatura e a arte. Uma interligação que, por meados do século XIX, com a descoberta e divulgação da fotografia, permitiu à imagem visual assumir um progressivo e avassalador protagonismo estético decorrente sobretudo da multiplicação dos jornais diários, de revistas e folhetos envolvendo enormes ou mesmo gigantescas tiragens. Em certos casos superando várias centenas de milhar e até o milhão de exemplares. Com o uso da cor ganhando depois a ilustração de um texto uma outra vivacidade e sedução. E com o advento do mercado da banda desenhada, com a aparição da publicidade sonora e visual, e, por fim, com o êxito fulminante da arte cinematográfica, vindo rapidamente a imagem em movimento a dominar absolutamente os consumos da área do simbólico. E aliás, nas décadas mais recentes, dada a explosiva captação e difusão de registos visuais por via digital, agora à escala das centenas de milhões de imagens/dia, verificando-se inclusive um claro retraimento da esfera da comunicação através da expressão escrita. E assim, com este inédito refluxo, a ficar perigosamente ameaçada a função racional na elaboração, comunicação e adopção de ideias e valores entre os humanos.

Neste quadro de uma meditação sobre a solitária experiência de um náufrago, de um europeu perdido numa ilha selvagem do fim do mundo, de um homem inteiramente livre no seu diálogo com a natureza, Robinson Crusoe, e este a recriar um mundo no qual é o único agente e único senhor - como depois a reencontrar outros seres humanos e outros variados e complexos mundos -, não se omitirá uma reflexão relativamente às polémicas travadas em torno das liberdades públicas e da mordaça e entraves que uma pesada ou totalitária intromissão do Estado poderá impor ao cidadão. Como da evocação deste universo ficcional imaginado por Defoe, bem como de outras experiências literárias semelhantes difundidas por via do texto impresso e graficamente ornamentado, se pretende concluir o evento com uma meditação sobre a hipertrofia dos contactos em rede que hoje nos vai absorvendo a mente, a alma e os dias. Um conúbio desnaturalizado entre indivíduos, entre multidões anónimas de interlocutores virtuais, todos inadevertidamente presos nesse proliferante vespeiro, à imediatez da vida, ofuscados e sufocados pelo império e o fascínio da imagem.

É claro que será feita uma prévia e sumária alusão à biografia do militante político e publicista D. Defoe, como se há-de esclarecer a aventura real vivida por Alexander Selkrik, o navegante escocês que, na sequência de um naufrágio real, terá vivido solitariamente durante vários anos (1704-1708) numa ilha do Oceano Pacífico, algures na costa do Chile actual. Episódio que terá inspirado a Defoe a sua mítica figura de Robinson Crusoe. E a propósito é de notar que recentes escavações arqueológicas na ilha de Aguas Buenas parecem comprovar uma presença europeia no seu território pelos inícios do século XVIII. E daí ter sido rebaptizada a ilha com o nome de "Ilha de Robinson Crusoe". Embora a que foi idealizada por Defoe se situe nas imediações da foz do Orenoco, e assim no Oceano Atlântico.