Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

FOLCLORE DO MINHO NÃO PRESCREVE – MINHOTOS EM LOURES DESCONFINAM AO SOM DA CONCERTINA!

O Grupo Folclórico Verde Minho vai participar nas comemorações do 47º aniversário da data histórica do 25 de Abril em Loures.

A partir das 15 horas, os seus tocadores e os cantadores vão concentrar-se no largo fronteiro aos Paços do Concelho e percorrer a cidade em espaço aberto e respeitando as normas estabelecidas pela Direcção-Geral de Saúde.

Através da animação da cidade com a execução de músicas de cariz tradicional, o Grupo Folclórico Verde Minho participa na vida cultural do concelho onde se encontra sediado.

- Os minhotos não baixam os braços, mesmo quando não dançam o vira!

VM-SIGAaRUSGA.JPG

A PRESENÇA DE CASTELO DO NEIVA NAS FESTAS D’AGONIA

  • Crónica de Gonçalo Fagundes Meira

A participação da nossa freguesia nestas centenárias Festas remonta a 1936, neste caso, com presença no Cortejo Etnográfico, na altura denominado Parada Regional. A participação na Festa do Traje aconteceu um pouco mais tarde, em 1950, quando esta se afirma categoricamente, com realização no Estádio “Dr. José de Matos”, do SCV. Mas estes dois destacados números da Romaria das Romarias, designação por que é bem conhecida a nível nacional, têm um percurso não isento de contratempos e incertezas.

casteloneivasfestasviana (6).jpg

Sargaceiras do Castelo do Neiva

O Cortejo Etnográfico, com o nome de Parada Agrícola, iniciou-se em 1908. Reeditou-se em 1909, mas nos 18 anos seguintes nunca constou dos programas da Romaria. Por insistência da imprensa local, voltou em 1926, para que novo interregno acontecesse, agora de 8 anos. Regressou em 1934, ainda com o mesmo nome, mas, em 1935, 36 e 37 já como Parada Regional. A novo interregno, seguiu-se um novo retorno em 1948, ano do centenário da cidade, então já com o nome de Cortejo Etnográfico, e com um programa onde constava a participação de 51 carros, mais de 55 grupos, com cerca de 2000 mil figurantes. Nos dez anos de 1950 ainda tem algumas intermitências, contudo, na década seguinte, o Cortejo Etnográfico instala-se definitivamente como referência maior das Festas.

casteloneivasfestasviana (5).jpg

Primeira representação de Castelo de Neiva com os seus sargaceiros nas festas da Senhora d’Agonia, em 1936, no local de partida do cortejo. Na estrada da Papanata. Foto de Abel Viana

A Festa do Traje tem o seu primeiro ensaio em 1927. Do programa consta um concurso de trajes regionais, anunciado como “Certame de Costumes”. O resultado é francamente mau, a imprensa não aplaude e a experiência é abandonada. Em 1948, consolida-se com brilhantismo a prática de sortear objetos de ouro pelas lavradeiras vestidas a rigor, iniciada dois anos antes. Daí que, em 195o, o programa da Romaria nos apresente, de forma bem explícita, a realização da Festa do Traje no Estádio do SCV, como atrás referido, para não mais acabar.

casteloneivasfestasviana (4).JPGAno de 1951. Participação na Festa do Traje

A representação dos Castelenses

A convite muito especial da Comissão que tinha a incumbência de realizar o cortejo, a nossa freguesia fez-se representar pela primeira vez em 1936, na então Parada Regional, (para os castelenses, se bem me recordo, sempre se considerou Parada, mesmo quando esta deixou de o ser) reunindo exclusivamente motivos, costumes, indumentária e folclores do distrito de Viana do Castelo, como dá a conhecer o jornal Aurora do Lima, edição de 14/04/1936. A nossa terra apresenta-se, nesse caso, com um grupo de sargaceiros, bem representativo de uma atividade que estava no seu auge, enquadrada na área da Festa Marítima, onde se situavam igualmente as freguesias de Anha e Darque, bem como a Ribeira de Viana, dado também a ligação destas à atividade marítima. A nossa indumentária, sempre igual, é simples e de pouco colorido, contrariamente à de outras paragens, mas tem personalidade e impõe respeito. Assenta no branco e é de fabrico fácil. É constituída pela branqueta feita de lã pura, para que o corpo permaneça quente quando dentro da água, e com sueste feito de pano-cru, banhado com óleo de linhaça, para o tornar impermeável e não se molhar a cabeça quando se enfrenta as ondas. A partir deste ano de 1936, havendo realização, jamais Castelo do Neiva deixou de participar no cortejo.

casteloneivasfestasviana (3).jpg

Descendo a Av. dos Combatentes no Cortejo Etnográfico de 1963

Igualmente, aconteceu com a Festa do Traje, a partir de 1950, quando oficialmente teve o seu início. Segundo o programa desta iniciativa, neste ano, participaram 15 freguesias e Castelo do Neiva aí consta: “com a gente do campo e do mar; sargaceiros e sargaceiras vestindo de branqueta, traje com que enfrentam o mar sobre primitivas jangadas, jogando a vida sem temor, sempre com uma cantiga a florir nos lábios”, assim “rezava” o dito programa, que citava ainda como responsáveis por esta representação o Prof. Manuel Augusto da Silva Lima e Augusto Alves Bonifácio, gente que ainda conheci.

casteloneivasfestasviana (2).jpg

Mais uma participação no Cortejo Etnográfico. Anos 50/60

Para se fazerem representar com dignidade em qualquer destes números, os castelenses, muito antes das Festas, tinham longos preparativos, que apesar de se desenrolarem em condições precárias, não arrefeciam ânimos, antes pelo contrário, estimulavam alegria e envolvimento, pese o estilo adotado, com mais ou menos elaboração. Recordo-me, quando miúdo, década de 1950, de assistir aos ensaios do numeroso grupo que nos representaria. Tudo começava, portanto, com largas semanas de antecedência. Na eira da casa de um vizinho, que funcionava como tocador de concertina e ensaiador, aquele conjunto de moças e moços esforçava-se para conseguir uma representação condigna, que prestigiasse a sua terra. À luz de candeeiros, já que não havia energia elétrica (essa só chegou quase vinte anos depois) ensaiava-se uma dança caseira, a acompanhar um coro que entoava a Moda da Carrasquinha, muito popular e de região indefinida. Se bem me recordo, entre várias, tinha esta quadra: carrasquinha sacode a saia/carrasquinha levanta o braço/dá-me um beijo amorzinho/e eu te darei um abraço. Acompanhavam a quadra os bailadores, com as moças a sacudir a saia e a levantar o braço, a que se seguiam os beijinhos e abraços da parte de moços e moças. Mas nem sempre os ensaios resultavam bem, a dança azarava e o ensaiador, homem por vezes de mau humor, ameaçava pôr tudo no olho da rua, acusando os bailadores de falta de responsabilidade e empenho, porém, tudo harmonizava, terminando sempre de forma pacífica.

Nas Festas, os sargaceiros de Castelo do Neiva eram sempre os mais aplaudidos e os mais fotografados, e a imprensa dava-lhes honra de primeira página, descrevendo-os como gente garbosa e representativa de uma comunidade determinada, com absoluto domínio do mar e que deste arrancava o sustento para centenas de famílias. Era uma representação verdadeiramente genuína, tão intensa era a vida de mar dos castelenses e tão significativa era a apanha do sargaço na freguesia. Hoje, Castelo do Neiva mantém a sua representação nesta afamada Romaria, por vezes com pequenas variantes, mas tendo sempre a representação do sargaço como aspeto principal. Contudo, correndo o risco de ser apodado de saudosista, fico com a ideia de que nos tempos de antigamente a nossa representação nos cortejos e festas do traje era mais autêntica e de sentimento profundo.

casteloneivasfestasviana (1).jpgNo Cortejo Etnográfico, na década de 1980, com uma representação vistosa