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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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PONTE DE LIMA: O COVEIRO DA CORRELHÃ VIA A “PROCISSÃO DOS DEFUNTOS”

A revista “Notícias Magazine”, suplemento do Jornal de Notícias, publicou na sua edição de 27 de Fevereiro de 2000, uma reportagem sob o título “Histórias do Sobrenatural”, através da qual deu a conhecer algumas crenças e superstições registadas “pelas encruzilhadas de Norte a Sul” do país. Entre elas, o sr. Artur Lopes, da Correlhã, narra-nos o “dom perturbador” do senhor Martins que foi coveiro daquela freguesia de Ponte de Lima, o que a seguir transcrevemos.

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Gamela dos medos, a Correlhã! O senhor Martins, coveiro, faleceu há uns anos, no Lugar de Silveiro. Morreu, mas aqui ninguém lhe esquece o dom perturbador: ele via a procissão dos defuntos!

A reportagem muda-se para Ponte de Lima. O senhor Artur Lopes, editor-livreiro naquela cidade, conduz-nos a Mato Pequeno, freguesia da Correlhã. “Era dali. Grunhia. Queria que a seguissem. Depois metia na direcção da Veiga. A cor atirava para o branco… Dizia-se que era o Diabo”. O senhor Lopes explica in situa aparição da coisa: “Porca gorda, assim como surgia, se evaporava no ar. Ela e os bacorinhos que a acompanhavam sempre…”

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Gamela de medos, a Correlhã! O senhor Martins, coveiro, faleceu há uns anos, no lugar e Silveiro. Morreu, mas aqui ninguém lhe esquece o dom perturbador: ele via a procissão dos defuntos!

Conforme o próprio contava, a visão era repentina e nítida: via o funeral, o caixão, o padre, as velas. Distinguia, um a um, todos os acompanhantes. E ficava a saber quem na freguesia seria o próximo a morrer. O eleito era sempre a primeira pessoa que seguisse atrás do caixão. O senhor Martins nunca lhe revelava o nome. Só dizia: “A seguir é de tal sítio…” e acertava!

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Outro caso impressionou e manteve-se em religioso respeito, durante meses e anos, as gentes da Correlhã. Em casa de um abastado lavrador, pouco depois de este ter falecido, aconteceram coisas do outro mundo: choviam pedras no telhado, a empregada levava bofetadas no estábulo, quando ia ordenhar a vaca, a roupa, nos coradouros e nos gavetões, aparecia com cortes em forma de cruz.

Não se falava noutra coisa. Segundo o povo, era uma Alma desencaminhada a chamar a atenção: a Alma do agricultor, quase de certeza. Boa pessoa em vida, disso ninguém duvidava. Mas, sabe-se lá, podia ter deixado promessa por cumprir, dizia-se. E toda a gente reclamava a opinião e os serviços de padre Dalmo. Este é que não se mostrava disponível.

Quando soube que a sopa espumava na panela barrelas de sabão, como nas celhas, o padre finalmente decidiu-se. Foi assistir à feitura do caldo. Manteve-se sempre na cozinha, inspecionou cada ingrediente. Espiolhou as batatas, os legumes, testou o sal e a água, cheirou a panela… Tudo normal.

Caldo feito, quis o padre ser o primeiro a provar. Mal pôs a colher à boca, levou bofetada. Caiu por terra. Aturdido, aconselhou a intervenção de um padre exorcista…

Para melhor apurarmos estas ocorrências, e, eventualmente, desfazermos equívocos, chegámos à fala com dois descendentes da casa. O outro sorriu, coçou a cabeça… “Não me lembro de nada, era miúdo. Quem contava isto tudo era a minha mãe. Infelizmente, faleceu a semana passada”.

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CARDEAL PATRIARCA PUBLICA NORMAS SOBRE EXORCISMOS E FUNERAIS

Documento pede articulação entre ciências médicas e assistência espiritual para responder a aumento de pedidos de ajuda

O cardeal-patriarca de Lisboa publicou um conjunto de normas sobre a celebração de bênçãos, funerais e exorcismos, apelando, no caso destes últimos, a uma “boa articulação” entre as ciências médicas e a assistência espiritual.

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As imagens registam os exorcismos praticados na década de setenta, na localidade de Cabração, Concelho de Ponte de Lima, pelo pároco Manuel Lopes Miranda

No documento, publicado pela página do Patriarcado na Internet, revela-se que “tem vindo a aumentar o número de pessoas que, por se considerarem atormentadas pelos poderes do mal, recorrem à Igreja, procurando auxílio espiritual”.

As ‘Normas Pastorais’, com data de 25 de janeiro, reúnem um conjunto de indicações que visam “inserir as regras canónicas e litúrgicas para a celebração dos Sacramentos e Sacramentais num processo de pastoral dinâmica, de evangelização”.

Nesse sentido, D. José Policarpo pede um “acolhimento personalizado” de quem procura a Igreja para um exorcismo, para permitir “o discernimento de cada caso, também no que diz respeito a eventuais perturbações do foro psicossomático”.

“Ignorá-las ou desprezá-las é uma falta de respeito pela pessoa que sofre, porque o induz em erro, o leva facilmente a uma passividade, que o impede de um verdadeiro ato de fé, e pode mesmo dificultar a sua cura”, pode ler-se.

As novas normas apelam aos padres, para que “estejam suficientemente preparados e esclarecidos sobre o modo de acolher e ajudar essas pessoas”. O exorcismo, precisa o documento, tem por finalidade “expulsar os demónios ou libertar da influência diabólica”, pelo que cabe ao sacerdote “distinguir corretamente” os casos de “ataque do diabo”.

Em caso de celebração do exorcismo, é pedido que este se realize “de modo que se manifeste a fé da Igreja e não possa ser considerado por ninguém como ação mágica ou supersticiosa”, evitando fazer dele “um espetáculo para os presentes”.

“Todos os meios de comunicação social estão excluídos, durante a celebração do exorcismo, e também antes dessa celebração; e concluído o exorcismo, nem o exorcista nem os presentes divulguem qualquer notícia a seu respeito, mas observem a devida discrição”, assinala o ponto 46 do documento.

As normas agora publicadas vêm completar o documento que tinha sido publicado pelo Patriarcado de Lisboa, em 18 de maio de 2008, sobre os Sacramentos da Iniciação Cristã (Batismo, Confirmação e Eucaristia).

No que diz respeito aos funerais, o Patriarcado recorda que são “uma celebração da Igreja” e um “ato de culto”, pelo que se devem observar “as leis litúrgicas” e as disposições do Código de Direito Canónico.

“Com este fim e também para não provocar ou agravar divisões no interior das comunidades, não devem aceitar-se, a cobrir os féretros, bandeiras de agrupamentos políticos partidários, sejam eles quais forem”, refere o texto.

Entre as normas previstas para os casos de cremação sublinha-se que “não se devem lançar as cinzas do corpo humano à terra”.

NRF/PL/OC

Fonte: http://www.agencia.ecclesia.pt/

PONTE DE LIMA: CABRAÇÃO É UM SANTUÁRIO DA NATUREZA!

Rodeada de floresta e sem iluminação pública até há escassas quatro décadas, a Cabração viveu ao longo de séculos isolada na encosta da serra, fechada sobre si mesma, temerosa do bulício que ocorria à sua volta. De importantes acontecimentos que vieram a ficar na História chegava, por vezes, o som longínquo que ecoava para além dos montes, umas vezes do lado da Galiza quando a Espanha esteve a ferro e fogo, outras mais a sul quando os realistas proclamaram em Viana do Castelo a restauração do regime monárquico. Na Cabração, apenas na Além foi hasteada a bandeira monárquica por essa altura, na casa que foi dos Carmo.

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Nesta casa foi hasteada a bandeira realista quando foi proclamada a Monarquia do Norte, em 1919

À noitinha, à lareira, contavam-se estórias de almas penadas que apareciam nas encruzilhadas e de bruxas que se juntavam sob a velha ponte de madeira que, mais à frente da Regueira ligava à Balouca. Tais crenças que nos testemunham ritos ancestrais ligados ao paganismo, alimentavam a imaginação dos mais novos e fizeram da Cabração terra fértil para a prática de exorcismos que tiveram no senhor abade – o padre Manuel Lopes Miranda – o último representante do guardião do paraíso.

A feira de Ponte de Lima que se realiza todas as segundas-feiras desde tempos imemoráveis e cujo testemunho documental mais antigo que se conhece é o foral atribuído por D. Teresa em 1125, era praticamente a única saída para o mundo. Até ao aparecimento da camioneta da carreira, o povo juntava-se em ranchos e lá ia, reta abaixo, até à bila. Ali, enquanto uns feiravam, outros guardavam as compras. Os mais novos aproveitavam para fazer novos namoricos. O ponto de encontro era junto à torre onde se encontra o magnífico painel de azulejos de Jorge Colaço que conta a lenda da Cabração. Mais recentemente, as pessoas juntavam no Café Guerra que ficava próximo. E, à tardinha, regressavam à terra ainda a tempo de darem de comer ao gado.

A partir dos começos do século vinte, muitos filhos desta terra debandaram para o Brasil e Lisboa. Mais tarde, nos anos sessenta, a França tornou-se o principal destino mas houve ainda quem se aventurasse por outras paragens, como Espanha, Alemanha e até os Estados Unidos da América. E, quem ficava, via com desconsolo as leiras ficarem de velho. À parte a ocasião em que se realiza a festa à Padroeira no 15 de agosto, pouco mais de uma centena de almas povoa a localidade. Porém, a Cabração chegou a ter mais de meio milhar de habitantes.

Apesar de humilde, é uma terra cheia de encantos de rara beleza e um local bastante aprazível para viver, suficientemente distante do frenesi dos grandes aglomerados urbanos. Aqui escorria o mel que as abelhas produziam em milhares de colmeias que povoavam os montes onde cresce toda a sorte de plantas silvestres respirando ar puro. E também o leite dos numerosos rebanhos de cabras que outrora aqui apascentavam e vieram a dar nome à terra – Cabras são, Senhor!

A Cabração é terra antiquíssima como se documenta pelo conhecimento que se tem da existência de um povoado castrejo pré-romano e do Convento da Carrapachana cuja localização não foi ainda possível determinar com absoluta segurança, apesar dos vestígios de ruínas no Outeirinho e na Costa. Mas, a humildade da terra não permitiu despertar até ao presente o interesse dos arqueólogos.

Não obstante, aqui nasceram algumas das mais ilustres figuras de Ponte de Lima como foi o Dr. Augusto Joaquim Alves dos Santos que, para além de eminente pedagogo, teólogo, escritor, político e cientista, foi o introdutor do estudo da Psicologia em Portugal, tendo na Universidade de Coimbra criado um laboratório, atualmente transformado em museu que ostenta o seu nome.

Ao perpetuar a sua memória na toponímia da vila, Ponte de Lima reconheceu a sua importância. Porém, como pedagogo, bem poderia tornar-se o patrono de uma das escolas do nosso Concelho e, sobretudo, a sua vida e a vasta obra que produziu serem dadas a conhecer aos seus conterrâneos.

Nos tempos que correm, a luz elétrica já ilumina os caminhos da freguesia. Porém, a razão ainda não ilumina as mentes que continuam a ignorar a extraordinária riqueza histórica, paisagística e ambiental que a Cabração guarda dentro de si e, qual santuário, preserva longe dos olhares profanos.

O Dr. Alves dos Santos, uma das figuras mais ilustres de Ponte de Lima, nasceu na Cabração

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O padre Manuel Lopes Miranda realizando um dos seus exorcismos

QUEM NA CABRAÇÃO AINDA SE LEMBRA DO “PINTINHO”?

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Até meados dos anos setenta do século passado, a Freguesia de Cabração, no Concelho de Ponte de Lima, era conhecida pelos rituais de exorcismo que os seus párocos ali praticaram. Recordamos o Padre Miranda, último exorcista que ali exerceu tal ofício e a extraordinária afluência diária de visitantes à localidade. Este tema mereceu, aliás, um artigo publicado na edição de 1998 da revista “O Anunciador das Feiras Novas” com o título “Cabração: o último exorcista”.

O padre Manuel Lopes Miranda veio a falecer em 26 de Janeiro de 1978 e foi sepultado na sua terra natal, em jazigo de família, no cemitério paroquial de Cristelo, no Concelho de Barcelos.

Entretanto, a prática do exorcismo na Freguesia da Cabração adquiriu tal popularidade que o povo chegou a criar uma palavra para identificar algo de sobrenatural que apoquentava as pessoas e, por extensão, tudo o que se revelasse estranho no comportamento de cada indivíduo. E, tal vocábulo depressa se tornou de uso corrente e empregue de forma jocosa, algo divertida que só por si constituía uma prática exorcista. Chamavam-lhe o “pintinho”!