Benjamim Enes Pereira (Carreço, 25 de dezembro de 1928 – Viana do Castelo, 1 de janeiro de 2020) foi um antropólogo, etnólogo e museólogo português que contribuiu para o desenvolvimento da antropologia e da museologia em Portugal. Participou no levantamento dos Instrumentos Musicais Populares Portugueses realizado na década de 60. Fez parte da equipa que fundou o Museu Nacional de Etnologia e da qual também faziam parte António Jorge Dias, Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Margot Dias.
Benjamim Enes Pereira nasceu dia de Natal de 1928, no lugar de Montedor que pertence à na freguesia de Carreço que pertence ao concelho de Viana de Castelo.
Jorge Dias convida-o a integrar o Centro de Estudos de Etnologia em 1959, sendo o último a entrar para aquela que é considerada como a equipa responsável pela criação do Museu Nacional de Etnologia e da qual também faziam parte Jorge Dias, Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Margot Dias.
Muda-se para Lisboa em 1963, quando é criado o Centro de Estudos de Antropologia Cultural e do qual Benjamim será um dos membros fundadores ao lado dos restantes membros do grupo liderado por Jorge Dias.
Embora fosse o único da equipa sem curso, é lhe atribuída a tarefa de organizar a Bibliografia Analítica de Etnografia Portuguesa que será publicada pelo Instituto de Alta Cultura em 1965.
Realiza os seus primeiros filmes etnográficos, em 1960, quando a equipa compra uma máquina de filmar que será utilizada por ele no trabalho de campo para filmar a realidade rural portuguesa e a cultural popular. Esteve directamente envolvido nas filmagens levadas a cabo em Portugal, pelo Instituto do Filme Científico de Göttingen em 1970, onde os filmes realizados eram encarados não como uma forma de expressão mas sim como uma técnica de registo complementar à descrição escrita e fotográfica. Isto reforça a sua ideia de que fotografar e filmar eram importantes, não só para o trabalho de investigação, como para contextualizar aquando da sua exposição em museus e similares.
Trabalha para o Museu Nacional de Etnologia até se reformar em 2000. Durante todo esse tempo, foi responsável por várias exposições, entre as quais se encontra a dedicada aos Instrumentos Musicais Populares Portugueses. Deve-se também a ele a organização das primeiras reservas que podem ser visitadas e que são conhecidas como Galerias da Vida Rural. É lá que se encontra reunida, a maior parte dos objectos que ele e Ernesto Veiga de Oliveira recolheram de forma sistemática, enquanto estavam no terreno.
Após se ter reformado, Benjamim Pereira coordenou vários projectos na área da museologia. Foi ele quem projectou o Museu da Luz criado com a finalidade de salvaguardar o património da região que ficou submersa após a construção da barragem do Alqueva. O Centro Cultural Raiano (Idanha-a-Nova), o Museu do Traje de Viana do Castelo, o Museu Francisco Tavares Proença Júnior (Castelo Branco) e o Museu do Abade de Baçal, foram outros projectos museológicos em que se envolveu.
Morreu a 1 de janeiro de 2020, no Hospital de Viana do Castelo, onde se encontrava internado. Aquando do seu falecimento em 2020, foram várias as entidades que apresentaram publicamente o seu voto de pesar, nomeadamente o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, a Ministra da Cultura Graça Fonseca, a Direcção Geral do Património Cultural (DGCP), o Instituto de História Contemporânea (FCSH), entre outras
Existem alcunhas que, não constituindo gentílicos, identificam as gentes oriundas de uma determinada região ou localidade. Elas resultam de uma rivalidade étnica que sempre existiu, as quais por vezes descem aos estreitos limites do lugarejo quando não mesmo do agregado familiar. De resto, a alcunha constitui no meio rural um elemento identificador de um determinado grupo familiar, transmitido de geração em geração.
Porque tinham o hábito de comerem pão de milho, eram os minhotos apelidados de “picamilho” enquanto os tomarenses ficaram conhecidos por “patos-bravos”. Os aveirenses sãocagaréus, os do Porto tripeiros e os alentejanoschaparros.
Quando alguém pergunta a um natural de Arcos de Valdevez qual é a sua terra, ele invariavelmente responde:
- Sou dos Arcos, ó!
Aproveitando este jeito peculiar dos arcuenses se exprimirem, os de Ponte da Barca zombam dos seus vizinhos dizendo que são dos “Arcos ó”!
De forma um pouco maldosa, existe também quem identifique osbragançanos– de Bragança – como “bragansuínos” e os de Paredes de Coura como “coirões”…
E, a propósito de Paredes de Coura, o Dr. José Leite de Vasconcelos deixou considerável informação na sua obra “Etnografia Portuguesa”. E, como exemplo da rivalidade étnica que podemos encontrar um pouco por todo o país, citamos precisamente as que aludem aos naturais de Paredes de Coura cujo gentílico se designa porcourensespor, numa versão mais arcaica, a região ser denominada deCoyra. Disse o conceituado arqueólogo e etnólogo no volume X da referida obra:
“Às gentes de Coura chamam papas de Coura, porque faziam lá umas papas de farinha de milho e leite que se vendiam nas feiras em cestos (balaios) e se cortavam à navalha, como o manjar branco do Porto. E também a mesma gente se designa de papeiros.
Em S. Paio de Jolda, concelho de Arcos de Valdevez, ouve-se:
O meu amor é de Coira,
É um grande cidadão;
É da raça dos mosquitos,
É de fraca geração.
E também:
- Tu és de Coira.
- Abaixo de Coira, bandalho!
E ainda: Nunca de Braga veio Bom tempo / Nem de Coura bom casamento.”
Paredes de Coura é terra de gente laboriosa e alegre do interior do Alto Minho. Estas rivalidades étnicas devem ser encaradas de uma forma positiva e apenas como elemento de estudo etnográfico. Trata-se de velharias que constituem um testemunho do relacionamento e da proximidade dos povos, com a mesma rivalidade que é frequente observar-se entre os próprios irmãos. E, caso alguém não entenda como tal, façamos como os bracarenses:
A Assembleia da República acaba de aprovar um voto de pesar pela morte de Anne Caufriez que faleceu no passado dia 18 de Outubro em Bruxelas.
Entre a sua valta obra realçamos a dedicada às Polifonias do Soajo, do concelho de Arcos de Valdevez.
Anne Caufriez (La Bouverie, 22 de maio de 1945 – Bruxelas, 18 de outubro de 2024), foi uma etnomusicóloga belga, doutorada em música tradicional portuguesa. Foi directora do departamento de investigação e conservação do Museu dos Instrumentos de Bruxelas e presidiu a Sociedade Europeia de Etnomusicologia.
Anne Caufriez nasceu no dia 22 de maio de 1945, na Bélgica, em La Bouverie, vindo na morrer na capital belga em 2024.
Em 1967, Anne Caufriez vem de férias a Portugal e permanece até 1970, durante este período regressa várias a França para ir buscar livros proibidos pela ditadura salazarista que depois distribui. Ao longo destes três anos, percorre o país e descobre as polifonias cantadas pelas mulheres enquanto trabalham no campo e os cantares dos pescadores algarvios.
Entre 1978 e 1983, vai até Portugal recolher material para o seu doutoramento em etnomusicologia que se debruçava sobre o romanceiro ibérico, escolhendo como área de estudo, a região de Trás-os-Montes, no nordeste de Portugal, em particular o concelho de Miranda do Douro, onde gravou entre outros, Adélia Garcia. Em 1982, concluiu o seu doutoramento na École des Hautes Etudes en Sciences Sociales de Paris em música tradicional portuguesa.
Trabalhava no CNRS, no laboratório de etnomusicologia, quando em 1987 decidiu aprofundar a sua investigação sobre a música portuguesa, continuando a estudar não só a música mirandesa, como as polifonias do Soajo, a música tradicional da Madeira, a influência judaica na música transmontana, entre outras.
Foi nomeada directora do departamento de investigação e conservação do Museu dos instrumentos de Bruxelas em 1974. Em 1978, representou a Bélgica na conferência organizada pela UNESCO sobre a salvaguarda do folclore.
Tréculas usadas nas procissões da Semana Santa, no Minho. Este instrumento musical tradicional é composto por treze tábuas de madeira de pinho de forma retangular, tendo entre elas doze troços de madeira de pinho de secção quadrangular e duas tiras de cabedal que sustentam o conjunto. Este é atravessado por corda de sisal terminada por duas argolas laterais em arame de ferro. O corpo do instrumento é posto em vibração pelo entrechoque das tábuas.
Esta peça faz parte da coleção de instrumentos musicais reunida pelo etnólogo Michel Giacometti e integra a exposição permanente do Museu da Música Portuguesa.
Fonte: Museu da Música Portuguesa – Casa Verdades de Faria
Esta fin de semana celébrase a romaría de Santa Marta de Ribarteme, en San Xosé de Ribarteme (As Neves) e na que estará Orgullo Galego. Esta é unha das romarías máis antigas de Galiza e das poucas que aínda conserva o uso de cadaleitos (que agora o párroco prohibe por consideralo paganismo, ateismo e bruxería), ademais neste caso con persoas dentro que se ofreceron a Santa Marta.
En que consiste este rito?
Pois ben, nesta romaría, os vivos agradecen a Santa Marta non ter morto. Esta é unha das romarías galegas máis antigas, e, aínda que a primeira referencia escrita consta de 1700, hai certeza de que xa se vén celebrando desde o século XII e con toda seguridade, é unha tradición cristianizada con fortes vínculos coas montañas e divindades da zona polo que podería ter moitísimo máis tempo.
Esta parroquia será durante a fin de semana centro de peregrinación dos devotos e na que destaca a procesión de cadaleitos nos que van persoas que se ofreceron a Santa Marta, un xeito de agradecerlle que as axudara a superar situacións que as tiveron moi preto da morte. Estes cadaleitos quedan no santuario, agardando por novas persoas para a seguinte edición.
Durante o día grande, estoupan as bombas e os devotos desfilan á misa desde a primeira hora da mañá. Algúns ofrecidos chegan tamén portando candeas e outros obxectos e buscan tocar a imaxe da Santa, presentarlle peticións, depositar os exvotos, a limosna, etc. Logo a romaría continúa con bebida e comida
Algunhas das oracións que entoan as persoas alí asistentes son as seguintes: Virxe Santa Marta, raíña da gloria, todo o que se lle ofrece, sae con vitoria”, “Virxe Santa Marta, estrela do norte, que lle deu a vida ao que estivo na morte”. "Virxe Santa Marta, ramo de azafrán,o noso remedio está na súa man".
Desde que xornais internacionais decidiron catalogala como unha das festas máis “singulares” do mundo, o certo é que a masificación, a chegada de xornalistas internacionais buscando sensacionalismo e de persoas tentando meterse nos cadaleitos para facerse selfies, fixo que perdera parte da súa ritualidade e a tentaran converter nun espectáculo mediático.
Non falta quen o reduce todo a unha simple crenza relixiosa, sen entender o papel tan importante da morte na nosa sociedade. Isto é todo o contrario, é algo ligado á nosa cultura e tradicións, xa o di o dito a respecto de San Andrés de Teixido, vai peregrinando de morto quen non foi de vivo, algo ligado a moitas romarías e ás nosas crenzas. A morte é parte da cultura galega desde tempos inmemoriais.
Polo tanto, independentemente das crenzas, en romarías como a de Santa Marta de Ribarteme hai moita antropoloxía, moita cultura, moitos ritos herdados posibelmente desde épocas precristiás. A uniformización cultural é a destrución cultural dun pobo, a supervivencia de ritos en moitos casos é un exemplo dun pobo vivo culturalmente e unha oportunidade de estudo para os antropólogos de todo o mundo que nos permite coñecer máis a nosa historia.
Temos aínda moitas romarías vivas, desde Santa Marta de Ribarteme até O Corpiño onde ía a xente curar o meigallo, Amil, A Franqueira, a Virxe da Barca ou Santo André de Teixido.
À semelhança do que outrora sucedia na romaria da Senhora da Peneda, no concelho de Arcos de Valdevez, em Santa Marta de Ribarteme e em San Xosé de Ribarteme, no concelho galego de As Neves que fica defronte de Melgaço, na outra margem do rio Minho, realizam-se hoje as tradicionais quanto insólitas “procissões dos caixões".
Foto: Olivier Guiberteau / BBC
“Santa Marta de Ribarteme, no concelho de As Neves, é o local de uma peregrinação anual em 29 de julho, na qual aqueles que experimentaram uma experiência de quase morte expressam sua gratidão visitando a igreja Santa Marta de Ribarteme, a padroeira da ressurreição.
Milhares de pessoas descem em As Neves a partir das 10h do dia de Santa Marta. Geralmente é impossível conseguir um assento na igreja, mas aqueles que não podem entrar na igreja lotada podem ouvir o culto transmitido por alto-falantes.
Aqueles que passaram por uma experiência de quase morte usam caixões como emblemas; Ou os carregam ou se colocam nos caixões e são carregados por amigos ou familiares. Após a missa do meio-dia, os romeiros caminham até o cemitério da cidade e depois retornam para fazer uma procissão pela cidade.
Como em muitas peregrinações, há um misto de solenidade e celebração. Enquanto os peregrinos cantam "Virgem Santa Marta, estrela do Norte, trazemos-vos aqueles que viram a morte", os ciganos tocam instrumentos e os vendedores vendem comida, especialmente a iguaria local do polvo cozido. Durante o dia, e ainda mais à noite, fogos de artifício são disparados por aqueles que estão na procissão para marcar seu progresso pela cidade.”
Também em San Xosé de Ribarteme, “cada 29 de xullo celébrase a romaría de Santa Marta, que posúe como singularidade unha famosa procesión de cadaleitos arredor da igrexa parroquial. Dentro dos cadaleitos van persoas vivas que deste xeito agradécenlle á santa a súa axuda na cura dalgunha doenza. Trátase dunha das romarías máis antigas de Galiza. Segundo o xornal británico The Guardian trátase da segunda festa máis curiosa do mundo e foi, ademais, obxecto dun documental que a produtora catalá Mago Productions encargou aos profesores australianos Claudia Terstappen e Greg Wallif.”
Sessão inaugural acontece amanhã, dia 14 de outubro, às 18h00.
Amanhã, dia 14 de outubro, pelas 18h00, terá lugar a inauguração da exposição bilingue «Abraço vivamente a sua ideia. Bernardino Machado, José Leite de Vasconcelos e os Museus em Portugal», no Museu Bernardino Machado. A exposição resulta de uma parceria entre o Município de Vila Nova de Famalicão, o Museu Nacional de Arqueologia e a Imprensa Nacional – Casa da Moeda, e conta com o Alto Patrocínio do Presidente da República.
A sessão inaugural conta com a presença do Presidente da Câmara Municipal, Mário Passos, do Diretor-geral do Património Cultural, João Carlos dos Santos, do Diretor do Museu Nacional de Arqueologia, António Carvalho, e do coordenador científico do Museu Bernardino Machado, Norberto Cunha.
A exposição estará patente até dia 23 de abril de 2023 no espaço museológico e resulta de uma candidatura ao projeto ProMuseus – Programa de Apoio Financeiro a Museus da Rede Portuguesa de Museus (Direção-Geral do Património Cultural / Ministério da Cultura), da qual resultou um financiamento na ordem dos 30 mil euros, que corresponde a cerca de 60% do total investido, sendo que o restante valor será suportado pelo três parceiros envolvidos.
Aspeto da "pedra dos namorados", baixo-relevo funerário procedente das imediações da estação luso-romana de Bilhares, Freguesia de São Silvestre da Ermida, na Serra Amarela, concelho de Ponte da Barca. Pertencente ao Museu Municipal do Porto e exposta no claustro da Biblioteca Municipal do Porto, atualmente na secção lapidar do Museu Nacional de Soares dos Reis. Deve-se a Rocha Peixoto a recolha desta obra de pedra a qual fora descobrindo nas suas digressões de férias.
Fonte: Arquivo Municipal do Porto
O QUE DIZ O ETNÓLOGO ROCHA PEIXOTO?
Mesmo em S. Silvestre da Ermida, na Serra da Amarela, como noutras povoações de Barroso e do Gerês, os « ajuntos » frequentes para a decisão em comum dos serviços de interesse colectivo – sementeiras e regas, segadas e queimadas, consertos e festividades – a sobrevivência ainda não de todo obliterada dos seis « homens do acordo» para a liquidação de pendências, o regime das vezeiras, a reunião, no mesmo local, dos espigueiros de todos, outros despojos bem vivazes de algumas formas de vida comunal, dão a imagem, com o aspecto da terra, o vestuário, a alfaia, a religiosidade e os costumes, dum aglomerado social já bem remoto.
2A Pedra dos Namorados encontra-se actualmente no « Museu Nacional de Soares dos Reis» (Porto).
2Para a cultura da Veiga do Meio, que é a mais próxima da freguesia, o « vivo» fornece uma parte do adubo desde o Outono à Primavera, alojado e mantido nas cortes do lugar ; mas de Junho a Setembro toda a rês é conduzida mais para o alto, para o sítio de Bilhares, e aí fornece então o elemento essencial ao cultivo da campina adjacente. As « cortes de Bilhares » são pequenos casinholos dispostos em grupos e de forma quadrada, com uma só porta de ingresso e saída, coberturas de colmo e apicotadas, elementarmente edificados com pedra solta e assentes num solo do qual se exuma, com frequência, muita pedra aparelhada, restos de cerâmica, telhas de rebordo e umas pequenas mós – que eram as que serviam aos mouros para moerem o ouro e a prata.2
3Pertence hoje ao Museu Municipal do Porto para onde foi conduzida a instâncias do actual Conservado (...)
3Pouco distante desta estação luso-romana, numa bouça para onde, aliás, ainda em tempos não esquecidos, fora transportada dum lugar próximo, existia a Pedra dos Namorados. (3) É uma laje pesada e espessa, com a forma que a ilustração representa e já danificada à esquerda e para a base. Jazendo fora do lugar onde primitivamente tivera assento, com o relevo para o alto, revestida de musgos e líquenes, e quase oculta pelo giestal de em volta, o povo denominou-a, na conformidade da representação figurativa, já à data em que fora deslocada. A tradicional atribuição aos mouros deu mesmo origem à lenda dum suposto tesouro que a laje ocultava :
Quem me virar,
Debaixo há de achar.
4E depois de inutilmente voltada :
Já há muito ia,
Que deste lado jazia.
5A natureza dum mau granito, o dilatado tempo de exposição, o meio cósmico, áspero e desabrido, porventura mais do que uma deslocação, tudo concorreu para que deste interessantíssimo monumento subsista apenas um fruste monólito com figuração quase indistinta. Apura-se entretanto que duas personagens, vestidas com uma túnica ou saio que apenas excede os joelhos, dão as mãos direita e esquerda, numa acomodação escultórica bem ingénua e bárbara. A cabeça duma personagem é coifada e a sua mão direita sustenta no peito, já indistinto mesmo ao tacto, um objecto que verosìmilmente era discóide. A outra personagem,. numa posição simétrica do braço esquerdo, mantinha um outro objecto que, pela palpação, se verifica ser alongado, talvez cilindro-cónico. Nenhum outro pormenor avulta a não serem as saliências das orelhas na personagem de cabeça descoberta. Só inferiormente e à direita, num despojo de almofada saliente, mal se divisam uns ténues vestígios do que poderia ter sido um depoimento lapidar.
6Toda a laje mede de alto 1,80 m. e pesa actualmente 740 kgs. A largura na base é de 1 metro e, a meia altura, de 0,95 m. A face posterior bombeia, e a espessura oscila entre 0,15 m. e 0,21 m. Das figuras a altura total não excede 1,10 m. Por fim um rebaixo de 0,02 m. no fundo da laje é outro pormenor que importa registrar.
4PIERRE PARIS, La sculpture antique, pág. 154 e segs. Quantin ed. Paris. S. d.
7JULES MATHA, Manuel d’archéologie étrusque et romaine, págs. 63-4 e 67, Quantin ed. Paris. S. d. – (...)
7As dimensões, a forma e a intenção simbólica do marido e mulher que parece ressaltar desse baixo relevo de modelação tão grosseira e rude, convergem para que se lhe atribua um inicial destino funerário. Ocorrem, ao examinar essa escultura quase informe, as numerosas estelas funerárias cartaginesas e de Esparta, por igual esculpidas com figuras de arte rudimentar (4), os cipos esculturados e dispostos juntos aos túmulos em certas necrópoles etruscas, as estelas, ao alto, ornamentadas com baixos-relevos, ainda na Toscana, as lajes redondas ou ovais, com 1 metro e 2 de altura, muito numerosas em Bolonha (5). Por outro lado é bem sabido que o tema ordinário dos sarcófagos etruscos consistia em representar nas tampas a mulher e o marido (6) numa atitude convencional e quase invariável. Em regra, como nas proximidades de Chiusi, o marido meio deitado mantém numa das mãos um símbolo e com a outra toca familiarmente numa espádua da mulher ; mais pormenorizados, os baixos-relevos narram os factos capitais da vida dos esposos, desde a cerimónia do casamento à última viagem que realizam inseparáveis até à eternidade ; outras vezes o tema apenas varia na atitude, representando os cônjuges deitados face a face e amorosamente abraçados para sempre (7).
8Admitindo o mesmo destino para a Pedra dos Namorados restaria averiguar se como estela ou tampa de sepulcro ela foi esculpida.
9A forma arredondada só na parte superior, a provável inscrição sobposta ao figurado e o rebaixo já aludido levariam a atribuir-lhe o papel duma estela. Mas é bem insignificante a altura do rebaixo para, por via dele, presumirmos uma erecção com solidez ; e convém ainda não desdenhar, considerando a magnífica conservação do granito no lado posterior, esta circunstância do desigual efeito atmosférico nas duas faces do moimento. Como tampa de sarcófago as dimensões já exaradas asseguram a plausibilidade absoluta quanto à largura e mais reduzida apenas, mas suficiente, na altura.
8LÉON MOREL, La Champagne souterraine, pág. 9, Matot ed. Reims. S. d.
10Ao cognominar o baixo-relevo o povo teve aproximadamente a intuição do assunto representado. Independentemente dos casos conhecidos e dos já citados convém recordar o das sepulturas gaulesas em que marido e mulher estavam colocados lado a lado, olhando-se e dando-se as mãos (8), e ainda os numerosos exemplos dos túmulos romanos em demasia vulgarizados. A obliteração do modelado e a sua infantil incorrecção deixam perceber entretanto e suficientemente as mãos que se unem.
10MARQUARDT, La vie privée des romains, II, pág. 208. Fontemoing ed. Paris, 1893.– DE BELLOGUET, (...)
11SALOMON REINACH, La sculpture en Europe avant les influences greco-romaines, in L’Anthropologie, V, (...)
12DAREMBERG et SAGLIO, , voc. Matres, fasc. 32, págs. 1637 e ainda 1638. Hachette ed. Paris, 190 (...)
13PERROT et CHIPIEZ, Histoire de l’art dans l’antiquité, III, Phénicie, pág. 469. Hachette ed. Paris, (...)
11Os vestuários dum e doutra não se distinguem, como acontecia de resto, em certos casos, nos romanos e nos gauleses (9) sendo até comum o saio a lusitanos, a gauleses, a lígures e a germânicos (10); a capucha (cuculla ?), todavia, diferenceia os sexos. Por fim os símbolos ou atributos que em uma mão cada um suspende recordam motivos similares exibidos como acessórios em algumas esculturas pré-históricas e em certos baixos-relevos hititas, como os cornos ou crossas, os vasos ad umbilicum em várias figuras galo-romanas11, a maçã emblemática da fecundação e o corno da abundância na plástica gaulesa (12), a pátera, contra o peito, de certas terras-cotas fenícias (13) e romanas. A actual situação do modelado, já inicialmente reduzido a uma evidente indigência artística, não permite transpor os horizontes duma conjectura apenas verosímil.
12Esta Pedra dos Namoradas partilha, com as estátuas dos guerreiros lusitanos e outra escultura esparsa de algumas nossas estações proto-históricas, o mesmo carácter duma arte rudimentar que, de resto, é comum aos povos de génio ou dotado ou rebelde a outras e mais altas aspirações estéticas. Todavia pela forma, pelo destino e pela intenção representada constitui um documento de viva curiosidade e indefectível interesse para a arqueologia nacional.
Porto, Maio de 1903.
O Censual de Braga omite no concelho de Ponte da Barca, até ao século XVIII, a freguesia de São Silvestre de Ermida. Porém, segundo alguns autores, o topónimo da freguesia poderá derivar de "uma ermida" com comunidade monástica pré-nacional dedicada a São Silvestre, mártir bracarense do século V.
Américo Costa, descreve-a como um curato anexo à abadia de São Miguel de Entre-Ambos-Os-Rios, pertencendo a apresentação do seu cura ao abade desta freguesia.
Refere ainda que São Silvestre da Ermida viria posteriormente a autonomizar-se de São Miguel de Entre-Ambos-Os-Rios, voltando. contudo, a anexar-se-lhe na primeira metade do século XIX.
Em termos administrativos aparece, em 1839, na comarca de Braga, em 1852, na de Pico de Regalados. Em 1862 fazia parte da comarca de Vila Verde e, em 1878, da de Ponte da Barca.
Em 1927, pelo Decreto-lei nº 13 917, de 9 de Julho, a comarca de Ponte da Barca foi suprimida, ficando as suas freguesias anexas à comarca de Arcos de Valdevez, para efeitos judiciais.
Pertence à Diocese de Viana do Castelo desde 3 de Novembro de 1977.
O ano começa com a triste notícia da morte de Benjamim Pereira (1928-2020).
Benjamim foi uma figura fundamental da etnografia portuguesa. Colaborou com Jorge Dias, Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano num gigantesco levantamento da cultura material portuguesa, que levou à criação do Museu Nacional de Etnologia. Depois seguiu-se um percurso que deixou pegadas fundas em todo país: Centro Cultural Raiano (Idanha a Nova), Museu Regional de Paredes de Coura, Museu Rural de Boticas, Museu Tavares Proença Júnior - Galeria de têxteis tradicionais (Castelo Branco), Museu da Luz, Museu do Canteiro (Alcains) ou no Museu do Traje de Viana, nomeadamente no Núcleo Museológico das actividades agro-marítimas, de Carreço, a sua terra.
O que hoje lembro é o privilégio de ter trabalhado com ele em Viana, no Museu do Traje, e de ter beneficiado da sua imensa sabedoria e da generosidade e gosto com que a partilhava. Quem falou com ele dificilmente esquecerá o "Sabes menino...", acompanhado de um gesto elegante, com que começava as suas frases.
Sentirei também uma falta tremenda da força, da exigência de rigor e do entusiasmo com que sempre me contagiava.
O enterro será amanhã, sexta-feira, às 15 horas, em Carreço, onde o corpo estará a partir de hoje à tarde.
De 31 de Janeiro a 28 de Fevereiro, Estufa do Parque da Ponte acolhe exposição de máscaras africanas
A Estufa do Parque da Ponte acolhe entre 31 de Janeiro e 28 de Fevereiro a exposição Pangea - Mascaras Africanas em contexto urbano, de Mudungase. A inauguração está agendada para o próximo dia 31 de Janeiro, às 19h00.
Nesta exposição o artista moçambicano apresenta alguns dos trabalhos que trouxe do seu país e outros da residência artística que está a desenvolver em Braga com a Maria Augusta Produções. A exposição também serve de contexto para as oficinas dirigidas ao público mais jovem que vai estar a orientar na videoteca do Parque S. João da Ponte.
As oficinas de criatividade Sensacional têm o foco no ambiente, na ideia de reciclagem, na carte e na partilha cultural, as oficinas pretendem estimular a criatividade sensacional de cada um na presença de diferentes resíduos sólidos urbanos.
Desde sempre o Homem acreditou na possibilidade dos mortos intercederem na acção criadora dos deuses e no próprio ciclo da natureza, contribuindo inclusivamente para o renascimento dos vegetais e das culturas que os demónios e maus espíritos do inverno fizeram desaparecer. Esta crença está na origem de uma infinidade de práticas relacionadas com o culto dos mortos que regra geral se iniciam em Novembro e prolongam-se até à Serração-da-Velha, atravessando as cerimónias solsticiais ou "saturnais" e os festejos carnavalescos.
Os ritos variam consoante as celebrações em causa mas conservam entre si uma finalidade comum que é o de assegurar que o ciclo da vida e da morte não se interrompa, possibilitando por conseguinte que ao inverno suceda impreterivelmente a primavera. De acordo com as investigações feitas no domínio da arqueologia e da antropologia, acredita-se que as práticas do culto dos mortos tiveram o seu começo na fase de transição da pedra lascada para a pedra polida, sendo disso testemunho os inúmeros monumentos funerários como os dolméns ou antas, inscrições votivas e outros achados. O folclore trouxe até nós inúmeros vestígios desse modo de pensar e dos cultos praticados pelos nossos ancestrais, devendo por esse modo constituir uma importante fonte de estudo.
Pão por Deus ! - pedem as crianças na região saloia, percorrendo as casas em alegre peditório. A ladaínha varia contudo de uma região para outra. Por exemplo, para os lados de Braga é costume dizer-se do seguinte modo: "Bolinhos, bolinhós, / Para mim e para vós / E para quem está debaixo da cruz / Truz truz". Na região de Ourém, o rapazio vai pelos casais e suplica: "Ti Maria: dai-me um bolinho em louvor de todos os santinhos !". E, se a dona da casa é pessoa dada à brincadeira, ao assomar à soleira da porta responde prontamente: "Dou sim ! com uma tranca no focinho ..."
Por esta ocasião, as pessoas cumprem o ritual da visita aos cemitérios e cuidam das sepulturas dos seus entes queridos. Mas, também em casa é costume em muitas localidades, após a ceia, deixar até ao dia seguinte a mesa composta de iguarias para que os defuntos possam banquetear-se. Em Barqueiros, no concelho de Mesão Frio, na noite de Todos-os-Santos coloca-se uma mesa com castanhas para os familiares falecidos, as quais ninguém tocará porque ficam "babadas dos defuntos". Da mesma forma que o azeite que alumia os defuntos jamais alumiará os vivos. Entre alguns povos do leste europeu conserva-se ainda a tradição de organizar o festim no próprio cemitério a fim de que todos em conjunto - mortos e vivos - possam confraternizar !
A partir desta época do ano, as noites das aldeias são povoadas por criaturas extraordinárias que surgem nas encruzilhadas e amedrontam os notívagos. Uivam os lobos nas penedias enquanto as bruxas se reúnem debaixo das pontes. A prudência aconselha que ao gado se prendam pequenas saquinhas de amuletos que o resguardem do "mau olhado". O serão é passado à lareira ouvindo histórias que nos embalam num mundo de sonhos e fantasia que nos alimenta a imaginação. E, quando finalmente é chegada a hora de dormir, faz-se o sinal-da-cruz para que o demónio não nos apoquente e a manhã do dia seguinte volte a sorrir radiante a anunciar uma vida nova.
Haloween ou "noite das bruxas"
A celebração nos Estados Unidos da América do Haloween ou "noite das bruxas" mais não constitui do que uma transposição que foi feita do culto dos mortos que os colonos levaram da Europa e que agora procuram nos procuram vender da mesma forma que nos impingem a coca-cola e a comida de plástico que dispensa os talheres que apenas servem a gente civilizada - é a globalização de acordo com o modo de vida americano e que rejeita as diferenças culturais entre os povos.
Mas, o que nos surpreende é que, possuindo o nosso povo riquíssimas e profundas tradições entre as quais as que se relacionam com o culto dos mortos, ainda exista quem com aparente formação académica insista em transmitir nas escolas aos seus alunos costumes que na realidade não lhes pertencem. Trata-se de uma pedagogia de natureza duvidosa que contraria inclusive o princípio da ligação da Escola com o meio que a envolve.
Quais sacerdotisas dos ritos próprios do culto pagão, as chamadas bruxas desde sempre povoam o nosso imaginário, associado ao mal e representando figuras demoníacas que ao longo dos séculos foram inculcadas nas nossas mentes pela religião Cristã que entre nós viria a impor-se ao paganismo. Tal como a figura de Pã, deus dos bosques, dos campos, dos rebanhos e dos pastores veio ao longo da Idade Média a ficar associada à do Diabo transfigurado na dama pé-de-cabra.
Proveniente do latim paganus que significa literalmente camponês ou rústico, o paganismo constitui uma forma de expressão religiosa em íntima comunhão com os fenómenos da natureza e profundamente ligado às necessidades espirituais do indivíduo inserido no mundo rural. Prova evidente dessa realidade constitui as tradições que respeitam aos ritos do inverno e ao culto dos mortos, desde os peditórios de “Pão Por Deus” até à “Serração da Velha”, passando pela celebração do solstício de Inverno e o Entrudos, celebrações quase todas convertidas em celebrações cristãs como o Natal, como se de festividades pagãs não se tratassem a sua origem. O mesmo sucede com outras festividades como o Solstício de Verão, com os seus ritos associados ao fogo e transformados em festividades são-joaninas.
Existem entre nós vestígios de antigos santuários pagãos como a do deus Endovélico na região do Alandroal, registando a própria toponímia a sua ancestral influência como sucede com a serra do Larouco, proveniente do deus Laraucus.
Porém, no ano 312 deu-se a alegada conversão do Imperador Constantino ao Cristianismo e, a partir do ano 392, passou o paganismo a ser proibido no Império Romano e consequentemente reprimido e perseguido, sendo essas medidas agravadas com a pena de morte a partir de 435 para quem praticasse ritos envolvendo o sacrifício de animais. Não obstante, o paganismo continuou a praticar-se, de forma mais ou menos discreta, sobretudo entre as gentes que viviam no campo. E a conversão à nova religião trazida pelos invasores romanos não foi tarefa fácil, deparando-se com maiores dificuldades entre os povos de regiões com maior apego às mais ancestrais tradições como se verificou no Minho e em Trás-os-Montes.
Os antigos templos e santuários pagãos foram destruídos para em seu lugar serem erguidas igrejas, o mesmo sucedendo com as encruzilhadas dos caminhos rurais e outros locais de culto nas aldeias que deram lugar a cruzeiros e a pequenos nichos contendo retábulos com as “alminhas” do Purgatório que passaram espiritualmente a aterrorizar as mentes dos humildes camponeses, até então habituados a uma relação mais sadia com a natureza que os rodeavam. Os sacerdotes pagãos conferiram uma nova roupagem às festas pagãs, procurando por esse meio conferir-lhes um novo sentido.
Mas, ainda assim, a religiosidade pagã sobrevive ao lado da nova fé, traduzida na manutenção de velhas tradições como as máscaras transmontanas e as festas dos caretos, o entrudo e as fogueiras de S. João. E, mesmo no Minho onde aparentemente existe forte religiosidade cristã, o que se verifica realmente é uma verdadeira manifestação de exuberância que caracteriza o minhoto, mais não constituindo a festa cristã do que um pretexto para exteriorizar a sua alegria como uma forma de profunda comunhão com a vida e o meio que o rodeia, iluminada por magníficas girândolas de fogo-de-vistas que revelam o seu apego embora inconsciente a antigas práticas religiosas.
Devemos a tais práticas religiosas pagãs os nossos mais profundos conhecimentos de medicina popular no uso das mais variadas espécies botânicas, o saber da meteorologia baseado na observação constante dos fenómenos naturais e da própria astronomia transmitido de geração em geração através de axiomas, a riqueza da nossa gastronomia e um infinito universo de conhecimentos que fazem parte do rico património do nosso folclore.
Com o decorrer do tempo, as perseguições acentuaram-se, tornando-se mais implacáveis durante a Idade Média e sobretudo no período da Inquisição. As sacerdotisas do paganismo eram perseguidas sob a acusação de bruxaria, sempre associada a práticas identificadas com ritos satânicos e talentos que lhes permitiam voar sentadas em rudimentares vassouras…
Nos tempos que correm, tais feitos mais não passam de fantasias literárias e até antigos rituais ligados ao culto dos mortos foram pela sociedade de consumo transformados em motivos de diversão, tal como no passado foram associados ao mal. Mas, o certo é que as bruxas jamais deixaram de existir e o paganismo parece estar de volta!
A celebração, nos Estados Unidos da América, do Haloween ou "noite das bruxas", não constitui mais do que a tradição do culto dos mortos que os colonos europeus levaram para o continente americano, entretanto regressada à Europa com uma roupagem comercial mais ao gosto da sociedade de consumo. O culto dos mortos constitui entre nós uma das mais ricas tradições que nos remetem para ancestrais cultos pagãos.
Desde sempre o Homem acreditou na possibilidade dos mortos intercederem na ação criadora dos deuses e no próprio ciclo da natureza, contribuindo inclusivamente para o renascimento dos vegetais e das culturas que os demónios e maus espíritos do inverno fizeram desaparecer. Esta crença está na origem de uma infinidade de práticas relacionadas com o culto dos mortos que regra geral se iniciam em Novembro e prolongam-se até à Serração-da-Velha, atravessando as cerimónias solsticiais ou "saturnais" e os festejos carnavalescos.
Naturalmente, os ritos variam consoante as celebrações em causa mas conservam entre si uma finalidade comum que é o de assegurar que o ciclo da vida e da morte não se interrompa, possibilitando por conseguinte que ao inverno suceda impreterivelmente a primavera. De acordo com as investigações feitas no domínio da arqueologia e da antropologia, acredita-se que as práticas do culto dos mortos tiveram o seu começo na fase de transição da pedra lascada para a pedra polida, sendo disso testemunho os inúmeros monumentos funerários como os dolmens ou antas, inscrições votivas e outros achados. O folclore trouxe até nós inúmeros vestígios desse modo de pensar e dos cultos praticados pelos nossos ancestrais, devendo por esse modo constituir uma importante fonte de estudo.
Pão por Deus! - pedem as crianças na região saloia, percorrendo as casas em alegre peditório. A ladainha varia contudo de uma região para outra. Por exemplo, para os lados de Braga é costume dizer-se do seguinte modo: "Bolinhos, bolinhós, / Para mim e para vós / E para quem está debaixo da cruz / Truz truz". Na região de Ourém, o rapazio vai pelos casais e suplica: "Ti Maria: dai-me um bolinho em louvor de todos os santinhos!". E, se a dona da casa é pessoa dada à brincadeira, ao assomar à soleira da porta responde prontamente: "Dou sim... com uma tranca no focinho!"
Por esta ocasião, as pessoas cumprem o ritual da visita aos cemitérios e cuidam das sepulturas dos seus entes queridos. Mas, também em casa é costume em muitas localidades, após a ceia, deixar até ao dia seguinte a mesa composta de iguarias para que os defuntos possam banquetear-se. Em Barqueiros, no concelho de Mesão Frio, na noite de Todos-os-Santos coloca-se uma mesa com castanhas para os familiares falecidos, as quais ninguém tocará porque ficam "babadas dos defuntos". Da mesma forma que o azeite que alumia os defuntos jamais alumiará os vivos. Entre alguns povos do leste europeu conserva-se ainda a tradição de organizar o festim no próprio cemitério a fim de que todos em conjunto - mortos e vivos - possam confraternizar!
A partir desta época do ano, as noites das aldeias são povoadas por criaturas extraordinárias que surgem nas encruzilhadas e amedrontam os notívagos. Uivam os lobos nas penedias enquanto as bruxas se reúnem debaixo das pontes. A prudência aconselha que ao gado se prendam pequenas saquinhas de amuletos que o resguardem do "mau-olhado". O serão é passado à lareira ouvindo histórias que nos embalam num mundo de sonhos e fantasia que nos alimenta a imaginação. E, quando finalmente é chegada a hora de dormir, faz-se o sinal-da-cruz para que o demónio não nos apoquente e a manhã do dia seguinte volte a sorrir radiante a anunciar uma vida nova.
No âmbito da sua actividade de estudo e aprofundamento dos conhecimentos sobre etnografia, o Grupo Folclórico Verde Minho levou hoje a efeito uma visita guiada ao Museu Nacional de Etnologia, com especial interesse pelos núcleos “Franklim Vilas com o olhar de Ernesto de Sousa” e “A música e os dias; Instrumentos populares portugueses”.
Transcrevemos a propósito a descrição feita no site oficial do Museu Nacional de Etnologia:
“A coleção dos instrumentos musicais populares resultou da recolha sistemática, promovida pela Fundação Calouste Gulbenkian, sob proposta de Jorge Dias, conduzida no terreno por Ernesto Veiga de Oliveira e Benjamim Pereira entre os anos de 1960 e 1965, altura em que o museu estava a ser pensado e nasceria.
O levantamento foi iniciado com base num questionário enviado a professores primários, párocos e interlocutores já conhecidos pelos membros da equipa do Centro de Estudos de Etnologia, mas foi sobretudo no contacto directo que ele se concretizou.
Aliava-se à aquisição dos instrumentos localmente em uso, a preocupação de perceber as condições e situações da sua utilização, ajudando a pensar o país na sua diversidade.
Descobriram-se músicos de relevo que se tornaram igualmente protagonistas dessa aventura. O sistema de classificação dos instrumentos, a sua inscrição nos tempos do calendário, a sua distribuição no país, são os principais eixos do livro de Ernesto Veiga de Oliveira, Instrumentos Musicais Populares Portugueses, publicado em 1966, e que logo se tornou na obra de referência não apenas para o conhecimento deste universo em Portugal, mas também nos estudos comparados em contexto europeu.
As reedições de 1982 e 2000, são a expressão do interesse e procura que despoletou, sendo a última um momento de grande alcance simbólico, pois com ela se celebrou a oferta ao Museu Nacional de Etnologia da coleção propriedade da Fundação Calouste Gulbenkian que aqui se encontrava em depósito. Nesta última edição, Benjamim Pereira conta a história desses anos de caminhadas pelo país, dos encontros com tocadores e comissões de festas e todos aqueles que foram interlocutores desse significativo percurso na produção de um conhecimento etnológico e de revelação do que somos. O que de mais importante se possa dizer sobre os instrumentos musicais é nesse livro que se encontra.”
Por seu turno, em relação ao núcleo museológico “Franklim Vilas com o olhar de Ernesto de Sousa”, o Museu Nacional de Etnologia apresenta a seguinte descrição:
“Em Portugal, a partir do final dos anos 50 e durante toda a década seguinte, intelectuais de várias formações (arquitetos, artistas, etnólogos, cineastas, escritores) entregaram-se à curiosidade e militância de um olhar determinado a ir para o lado de lá da opacidade dos discursos oficiais, da folclorização redutora e cansada, e assim reter maneiras de fazer, dizer, estar ou ser que poderiam ajudar a perceber o país na sua história e no seu devir concreto e insatisfeito. Era um contexto de crise anunciada pela pressão demográfica, escassez e fome no meio rural, e contenção autoritária dos gestos e da palavra. Uns buscavam materiais, estruturas e técnicas que davam as formas aos lugares habitados; outros o próprio impulso criador da matéria trabalhada com as mãos em figurações e cores oscilando entre a representação realista e a invenção onírica; outros com o ouvido atento às formas musicais, aos instrumentos e às vozes até aí ocultados; outros ainda as modulações da palavra e capacidade performativa e dramática de formas de teatro e ritualidades populares menos conhecidas. Frequentemente não sabiam uns dos outros, no entanto, nessa coincidência de percursos no tempo e nessa soma de resultados ou de parcelas de informação que atingiam um público, em geral restrito, ia-se percebendo o alcance e os sentidos daquele descobrimento. Eles traziam outro conhecimento sobre o país, muitas vezes com os contornos sólidos de informação e documentação geográfica, etnográfica, linguística (entre os mais recorrentes), mas eles abriam igualmente um campo de cumplicidades que tinham tanto de atitude política combativa quanto de partilha de emoções e deslumbramentos. Ernesto de Sousa foi um destes buscadores que desvendou o olhar sobre a obra do escultor Franklim Vilas Boas, trazendo-a para a sua reflexão crítica.
As obras que Ernesto de Sousa foi adquirindo nos anos de relacionamento com o artista formaram a sua coleção particular que agora foi doada ao Museu Nacional de Etnologia por Isabel Alves, sua companheira, cúmplice e incansável dinamizadora do seu legado.
Ernesto apresenta Franklim
“Franklim nasceu em 1919, em Esposende, onde morou, e morreu, num acidente, em Abril de 1968. Era casado e tinha vários filhos, vivendo todos em precárias condições financeiras. Pertencia a uma tradicional família de canteiros: dois irmãos, e atualmente, um dos sobrinhos, têm oficina própria. Quando o conhecemos, em Maio de 1964, Franklim, praticamente desconhecido para lá de seu meio, era muito pouco considerado pelos familiares, por se recusar “a trabalhar a pedra”. Era engraxador (e até isso tem importância, ao estudarmos o “acabado” das suas obras em madeira), e justificava a sua recusa de trabalhar a pedra com doenças e dores físicas. Verifiquei depois que tinha uma verdadeira antipatia, inclusive física, pela pedra; e que, pelo contrário, tratava ou referia-se à madeira com ternura e inteligência. As madeiras tinham “cadência” (ritmo, disposição) e significado. Por outro lado, o trabalho do canteiro obriga à instalação ou manutenção de uma oficina, e a um mínimo de organização – do que ele era inteiramente incapaz. Trabalhar a pedra constitui, enfim, um ofício, e trabalhar a madeira – do ponto de vista social – uma extravagância.” E.S.
“Em geral, à árvore e aos troncos correspondem tipos mais ou menos estáveis, onde é possível surpreender uma tradição, desde que desloquemos este conceito de toda a ideia genética consciente: é uma tradição sem modelos, uma tradição estrutural, se se pode dizer. Não que se tenham de pôr inteiramente de parte certas influências, mais ou menos directas. O importante é que há convergências tipológicas que o entalhador não podia ter apreendido por nenhuma via directa ou indirecta plausível – e cujo estudo terá de ser objecto de disciplinas não históricas. Noutros casos há um tipo comum a certas regiões históricas e geográficas: é o caso dos “Senhores”, que pertencem à tradição dos canteiros populares, a ceramistas, etc., e que remonta à antiguidade pré-românica.
Por agora limitemo-nos a sublinhar esta recorrência:
– árvore, troncos = temas, tipos, formas estáveis
– madeira do mar, raízes = temas instáveis, de mais evidente invenção.
Os tipos estáveis têm com frequência carácter antropomórfico. Geralmente relacionam-se com uma iconografia cristã, muito vaga, muitas vezes de ressonância oriental nos respectivos títulos: Egipto, Moisés… Ao rigor dos tipos corresponde uma imensa variação plástica, e muito mais íntima que simplesmente decorativa.
As árvores velhas, ou fragmentos de árvores, que perderam a dignidade erecta da árvore, caem, literalmente, num tratamento semelhante aos do segundo tipo. Na verdade, trata-se, aqui também, de um encontro da matéria com o correspondente e prévio imaginário.” E.S.
O olhar de Ernesto de Sousa
Ernesto de Sousa (1921-88) com uma formação universitária no campo das ciências, dedica-se desde muito jovem à fotografia, actividade que o acompanhará sempre, e de que decorrerá, mais tarde, não só o interesse pelo cinema, televisão e vídeo, mas ainda a arte de abordar a escultura, a partir da estética do fragmento. Fez rádio, jornalismo, cinema; dirigiu encenações teatrais, organizou exposições e cine-clubes; praticou a crítica e o ensaísmo de artes plásticas e cinema; foi professor em diferentes circunstâncias, fez estudos de etnologia e estética; é autor de vários livros; a partir de 1968 interessou-se particularmente pelo “mixed-media” e pela comunicação vídeo.
Nos anos quarenta desenvolve uma intensa actividade cineclubística. Funda o primeiro cineclube português, o Círculo de Cinema. De 1949 a 1953 vive em Paris onde estuda cinema, e entrevista Man Ray. De 1958 a 1962, realizou o filme Dom Roberto, uma viragem no cinema português, ponto de partida para o chamado “cinema novo”. Apresentado no Festival de Cannes 1963, foi galardoado com dois prémios.
No domínio da etnologia participou na organização de duas semanas-crítica sobre arte africana: em 1946, em colaboração com Diogo de Macedo; e em 1961, em colaboração com o Clube Universitário de Jazz. Dos seus estudos sobre arte popular refira-se Para o Estudo da Escultura Portuguesa (1964) e Arte Popular e Arte Ingénua (1970). E ainda no domínio estético, vários estudos sobre grafismo e oralidade. Um dos seus grandes mestres em ingenuidade e “ideias gerais” foi Almada Negreiros.
Ernesto de Sousa levou algumas das obras de Franklim que reuniu na sua coleção a rochedos, junto ao mar, entre a vegetação, na procura da sua respiração.”
Em pleno século XXI, não é mais possível efectuar recolhas no terreno. Qualquer trabalho sério passa pelo estudo do material recolhido em meados do século passado e que se encontra disperso nomeadamente em museus, arquivos, editoras discográficas, literatura e imprensa da época. Tudo o resto é pura fantasia, mero copianço sem fundamentação e trabalho sem credibilidade.
Antropóloga Clara Saraiva apresenta comunicação sobre práticas religiosas e rituais da Guiné Bissau
No próximo dia 22 de março, na Sala Couto Viana da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, às 17.00 horas, tem lugar aquarta conferência do Ciclo de Estudos “Crenças religiosas e mudanças culturais”, iniciativa do Centro de Estudos Regionais. Clara Saraiva apresenta a comunicação “Panos, oferendas e deuses: práticas religiosas e rituais da Guiné Bissau”.
Clara Saraiva é investigadora do Centro de Estudos Comparatistas (CEC), da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e colaboradora do Centro em Rede de Investigação em Antropologia (CRIA-FCSH). Foi também professora convidada na Brown University (EUA) e na UniversityofCalifornia-Berkeley (EUA). Especializada na área de Antropologia da Religião e do Ritual, tem pesquisa sobre as conceções da morte e os rituais funerários em diversos contextos culturais. Dirigiu o projeto“A invisibilidade da morte entre as populações migrantes em Portugal” (FCT). Desde 2004 trabalha sobre transnacionalismo religioso e a expansão das religiões afro-brasileiras em Portugal, com trabalho de campo em Portugal e no Brasil.Tem várias publicações em revistas nacionais e estrangeiras sobre a temática da morte, migrações, religiões e terapias transnacionais. É presidente da Associação Portuguesa de Antropologia (APA), Vice-Presidente do SIEF (InternationalSociety for EthnologyandFolklore) e membro da EthicsTask Force oftheWorldCouncilofAnthropologicalAssociations (WCAA).
O Ciclo de Estudos “Crenças religiosas e mudanças culturais”, integrado no plano de atividades do Centro de Estudos Regionais, é uma iniciativa aberta a todos os interessados.