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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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COMO OUTRORA SE PEDIA A MOÇA EM CASAMENTO?

  • Crónica de Carlos Gomes

Alguns grupos folclóricos levam por vezes ao palco uma tentiva de recriação do pedido de casamento como outrora se fazia na nossa região. Trata-se de um costume cuja prática, aliás, nem sequer muito longínqua no tempo, em algumas aldeias mais isoladas do interior.

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Pedido de casamento não tradicional. Neste caso nem faz sentido porque já estão vestidos de noivos... Foto: https://www.altominho.com.pt/

 

Não obstante, tal “recriação” apresenta-se sempre como uma imitação de um hábito burguês, surgido com o Romantismo, e portanto alheio às tradições da sociedade rural. Em jeito de cavaleiro medieval – muito ao gosto dos artistas românticos! – o moço coloca um dos joelhos no chão, descobria a cabeça e, erguendo uma pequena caixinha com o vistoso anel de noivado, pede directamente a jovem em casamento. Em redor, a família não marca presença, sinal de que neste ritual não conta absolutamente para nada…

Sucede que nada disso corresponde à realidade que tais grupos pretendem recriar ou seja, o pedido de casamento à moda antiga. Desde logo, o anel de noivado era à época algo que não se usava e, com o casamento, a moça retirava as três libras e aliviava o garrido do seu traje domingueiro – nalguns ranchos deparamos com matriarcas de avançada idade trajadas de vermelho e até – imagine-se! – com as três medalhinhas…

A moça enquanto solteira permanecia em regra em casa dos pais e, por conseguinte, sob a autoridade e protecção paterna. Apesar da evidente influência matriarcal que se regista sobretudo no Minho. E ele jamais deveria colocar isso em causa pois tratava-se de uma questão de honra da família e dela própria.

Por conseguinte, depois de muito conversados e chegada a altura, o pretendente deveria pedir a autorização aos pais que poderiam aceitar ou não o casamento, dependendo o mesmo de circunstâncias tão variadas que íam desde a possibilidade de assegurar o sustento até ao bom nome da família do noivo.

A moça comunicava em casa a pretensão do namorado e assegurava que este seria recebido pelo pai. Para passar despercebido, não fosse algo correr mal na “entrevista” que lhe era concedida, o rapaz escolhia uma hora mais discreta para se esgueirar por atalhos até à casa do futuro sogro.

A partir de então, caso o pedido fosse aceite, as famílias tratavam de organizar os preparativos do casamento que poderiam variar nos seus pormenores entre as diferentes localidades.

A recriação das nossas tradições deve ser feita com conhecimento fundamentado e rigor, sob pena dos ditos grupos folclóricos estares a vender gato por lebre!

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Casamento tradicional transmontano. Foto: Artur Morgado

ARTISTA VIANENSE JOSÉ PASSOS RETRATA COM ALMA MOTIVOS RELIGIOSOS E ETNOGRÁFICOS

José Artur Rodrigues Passos de seu nome completo, nasceu em 1969, na freguesia de Monserrate, em Viana do Castelo.

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Licenciado em Design do Produto, o autor destas e outras obras, desde cedo demonstrou o gosto pelo desenho e pela pintura. Qualquer folha de papel em branco era preenchida pelo o que se lhe passava na alma.

Aqui retrata sobretudo um olhar do designer sobre o religioso, temática que sempre o fascinou. Aliás, à semelhança da etnografia e tradições populares em geral, da qual a região de Viana do Castelo é bem rica e portadora de todo um espólio único e exclusivo.

Nas duas exposições que realizou pode sempre ler-se o mesmo lema: “ Entrem... porque as pinturas também falam! Escutem... porque as pinturas também se expressam! Vejam...porque um quadro é um espelho da nossa imagem interior”.

E nós aqui estamos para contemplar a obra magnífica de José Passos!

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GRUPO ASSOCIATIVO DE DIVULGAÇÃO TRADICIONAL DE FORJÃES COMEMORA 25 ANOS AO SERVIÇO DO FOLCLORE

Grupo Associativo de Divulgação Tradicional de Forjães está de parabéns!

Coletividade que promove o folclore e etnografia de Esposende conta com 25 anos de existência.

O Grupo Associativo de Divulgação Tradicional de Forjães foi fundado a 5 de maio de 1995 e comemora, este ano, o seu 25º aniversário. Para esta data festiva, a associação preparou um vasto programa com várias iniciativas desde festivais de folclore, a debates e tertúlias e ainda o lançamento de um novo CD.

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As comemorações do GADT Forjães começaram no passado dia 22 de dezembro, com a apresentação oficial do programa e imagem gráfica que acompanhará todo o ano em que estes 25 anos estarão em destaque. “Na senda da tradição viramos história” foi o mote escolhido pelo grupo para acompanhar a programação que já realizou alguns dos eventos previstos.

A situação atual, resultante da pandemia provocada pelo novo Corona Vírus provocou uma alteração ao plano das comemorações, que se realizarão de modo virtual. Desta forma, foi lançado um evento na página oficial do grupo nas redes sociais, para que todos os elementos, familiares e amigos possam partilhar imagens e momentos que tenham sido marcantes na história do grupo.

Em plena semana onde o grupo comemora a data oficial da sua fundação, as atividades previstas iam desde uma cerimónia religiosa cantada pelo grupo, comemorando o Dia da Mãe com homenagens e ainda um Festival Folclórico Concelhio no qual, os 10 grupos folclóricos do concelho se iriam apresentar. A data simbólica e especial iria contar, também, com uma visita aos idosos do Lar Sto. António e Centro de Dia da ACARF, uma tertúlia musical e, por fim, a festa de aniversário com a comunidade. O mês de maio ficaria marcado por uma exposição de trajes dividida por vários pontos do comércio tradicional que resultaria num concurso de montras.

O Grupo Associativo de Divulgação Tradicional de Forjães vê-se, desta forma, obrigado a adiar um conjunto de iniciativas que serão realizadas futuramente. Neste sentido irá ainda mais longe, com a realização de vários encontros de folclore, como tem sido hábito ao longo da sua história.

Estes 25 anos de celebração contam com vários apoios indispensáveis como é exemplo o Município de Esposende e Junta de Freguesia de Forjães bem como várias empresas que se associaram ao programa.

P’lo GADT Forjães, Carlos Couto

OS MAIOS E AS MAIAS: O MINHO MANTÉM A TRADIÇÃO!

Com a entrada do mês de Maio, enfeitam-se de giestas floridas as janelas das casas nas vilas e aldeias do Minho anunciando a chegada da Primavera em todo o seu esplendor e, com ela as flores que contribuem para alegrar a nossa existência, perfumar e dar colorido ao ambiente que nos rodeia. São as maias feitas de ramos de giestas com as suas flores amarelas as quais, por tradição, são colocadas nas portas e carros agrícolas, constituindo este costume uma forma de celebrar o renascimento da vida vegetal. No concelho de Caminha, em pleno Alto Minho, uma das localidades onde a festa é vivida com mais intensidade, as giestas floridas aparecem em todos os sítios, incluindo nos veículos que transitam na via pública.

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Atualmente pouco divulgada, a festa das maias foi noutras épocas celebrada em todo o país, tendo caído em desuso devido a sucessivas proibições devidas a rixas originadas pelo despique entre localidades ou ainda por motivos religiosos, como sucedeu em 1402 por imposição régia a qual determinava "nõ cantassem mayas, ne Janeiras, e outras cousas q eram contra a ley de deus". A sua origem perde-se nos tempos e corresponde às Florálias celebradas entre os romanos e dedicadas a Flora, deusa das flores e da Primavera, a quem consagravam os jogos florais. Durante três dias consecutivos, as mulheres dançavam ao som de trombetas, sendo coroadas de flores as que logravam ganhar os jogos, adornando-se desse modo à semelhança da própria divindade a que prestavam culto. Aliás, é precisamente aos romanos que se atribui a implantação de tal costume na Península Ibérica, tendo a mesma alcançado especial aceitação na região do Algarve.

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Também entre nós houve em tempos idos o costume de, por esta ocasião, coroar-se de flores uma jovem vestida de branco, prestes a entrar na primavera da vida, qual maia adornada de joias, fitas e flores que nos trazem à lembrança as fogaceiras de Santa Maria da Feira e as moças que levam à cabeça os característicos tabuleiros das festas de Tomar. E, tal como Flora entre os romanos, a jovem maia sentava-se num trono florido a cujos pés o povo dançava durante todo o dia, venerando desse modo a esbelta divindade pagã e celebrando os seus atributos que se permitiam o retorno dos vegetais. Conta ainda uma lenda antiga que em Lagos, no Algarve, tal costume incidia sobre um homem da terra que era adornado com as melhores joias, o qual percorria as ruas da cidade montado num asno. Sucedeu que, em certa ocasião, terminada que foi a volta pela cidade, o maio dirigiu-se para os campos junto da cidade e desapareceu para nunca mais ser visto. Em virtude do ocorrido, o povo que ainda espera o seu regresso com as joias que consigo levou passou a designar o Maio como "o mês que há-de vir"...

E, enquanto o Maio não chega para as gentes de Lagos, é altura de festejarmos as maias, alegrando as janelas com ramos de giestas floridas. Em breve virá a celebração do Corpus Christi e a Vaca das Cordas em Ponte de Lima, as festas do Espírito Santo e a Coca em Monção, a festa das fogaceiras em terras de Santa Maria da Feira e as fogueiras pelo S. João a evocar o solstício do Verão. A seu tempo chegarão as colheitas e as malhadas, as vindimas e as adiafas e, pelo S. Miguel as desfolhadas ou descamisadas. Para trás fica o entrudus e as festas equinociais e pascais, a Serração da Velha e a Queima do Judas.

Assegurámos através do rito a ininterrupção do ciclo da natureza, participando desse modo na ação criadora dos deuses. Pela tradição, preservamos usos e costumes que chegaram até aos nossos dias e fazem parte do nosso folclore. Festejemos, pois, as maias, fazendo-as ressurgir com o mesmo colorido, alegria e pujança como nos tempos antigos!

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ARTE POPULAR E NAÇÃO NO ESTADO NOVO – A POLÍTICA FOLCLORISTA DO SECRETARIADO DE PROPAGANDA NACIONAL

- Um livro da investigadora Vera Marques Alves que se recomenda a todos quantos se decidam ao estudo do folclore e etnografia

“A generalidade da investigação tem olhado para o conjunto das práticas e dos discursos etnográficos promovidos pelo Secretariado da Propaganda Nacional (SPN) entre 1933 e 1950 como um epifenómeno da ideologia conservadora e ruralista, dominante no pensamento de Salazar.

Este livro mostra-nos como tais análises deixam de fora aspetos decisivos da intervenção folclorista do SPN/SNI.

A partir das teorias desenvolvidas pela antropologia e outras ciências sociais em torno dos usos nacionalistas da cultura popular, Vera Marques Alves relaciona os contornos de tal política com os caminhos que a etnografia portuguesa vinha seguindo nas décadas anteriores à institucionalização do Estado Novo, ao mesmo tempo que revela que o seu desenho deve muito ao próprio trajeto modernista e cosmopolita do primeiro diretor do SPN, António Ferro.

A autora defende, ainda, que é impossível explicar a campanha etnográfica do SPN, sem dar atenção ao contexto internacional de circulação de ideias em que as mesmas se enquadram. De resto, este livro torna bem patente a insistência de Ferro na exibição da «arte rústica portuguesa» em palcos internacionais, revelando assim que as iniciativas folcloristas desenvolvidas por este organismo não podem ser compreendidas sem considerarmos a sua configuração enquanto instrumento de reafirmação simbólica das fronteiras da nação, num período em que os processos de utilização identitária do folclore e da cultura popular são comuns” *

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Vera Marques Alves, a autora, é Investigadora do Centro em Rede de Investigação em Antropologia (CRIA) e Professora Auxiliar Convidada na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.

Nasceu em Lisboa, no dia 16 de Maio de 1969 e, em 1993, licenciou-se em Antropologia Social no ISCTE. Em 2008, doutorou-se em Antropologia pelo mesmo Instituto. Fez investigação sobre os usos nacionalistas da «arte popular portuguesa» durante o Estado Novo e continua a estudar a construção moderna desta categoria de objetos.

Colaborou nas obras coletivas “Vozes do povo. A folclorização em Portugal” (2003), ”Enciclopédia da música em Portugal no século XX” (2010) e “Como se faz um Povo” (2010).

É autora de”Arte popular e nação no Estado Novo. A política folclorista do Secretariado da Propaganda Nacional, (Imprensa de Ciências Socais (2013).

https://www.imprensa.ics.ulisboa.pt/

A QUEIMA DO JUDAS: VERSÃO CRISTIANIZADA DA SERRAÇÃO DA VELHA

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  • Crónica de Carlos Gomes

de os tempos mais remotos, o Homem procurou através do rito participar na ação criadora dos deuses, acompanhando o ciclo da vida e da própria natureza com celebrações que nos fazem acreditar que os mesmos possuem alguma dose de magia indispensável a todo o contínuo processo de nascimento, vida, morte e retorno que constitui o eterno ciclo da própria existência.

Eis porque, desde o começo do inverno até à sagração da primavera têm tradicionalmente lugar um conjunto de rituais que visam influenciar o ciclo da vida e dos vegetais de modo a assegurar o renascimento da própria natureza, os quais vão desde o culto aos mortos que ocorre no início de Novembro até à serração da velha, passando pelas festas solsticiais e do entrudo ou carnaval. Com a chegada do cristianismo, estas celebrações pagãs foram adquirindo formas mais ou menos cristianizadas, mas revelando frequentemente características que não se coadunam por completo com a fé cristã.

Entre os antigos ritos pagãos que nalgumas localidades assumiram uma forma cristianizada salienta-se a "serração da velha" destinada a celebrar o renascimento da primavera, a qual foi substituída pela "queima do judas", iniciativa que adquire frequentemente mais notoriedade em Ponte de Lima e também no concelho de Palmela, na margem sul do rio Tejo. Enquanto a serração da velha tinha tradicionalmente lugar na quarta-feira da terceira semana da quaresma, a queima do judas realiza-se invariavelmente no sábado imediatamente anterior ao domingo de páscoa, parecendo evocar a traição de Judas Escariotes a Jesus Cristo como a Bíblia menciona.

De resto, ambas as celebrações seguem no essencial o mesmo rumo que vai da leitura de um testamento à encenação da condenação cuja forma de execução, apesar do seu aspeto lúdico, não exige o rigor da autenticidade, pois em geral o boneco que o representa é armadilhado com fogo pirotécnico para poder rebentar e por fim queimar, quando a narração bíblica nos descreve um enforcamento. Em ambas as situações, na serração da velha e na queima do judas, o boneco a ser executado também faz a representação de alguém a quem se procura visar com a crítica social, não passando atualmente em muitos casos de uma mera brincadeira inofensiva sem a carga que noutras épocas a mesma representava.

Assim, de uma representação simbólica da separação do ano velho em relação ao que acabava de nascer por meio de um ato de serração, estas festividades adquiriram ainda um carácter social que através da ação crítica se procurava exorcizar os males do ano velho aqui simbolizado na figura de uma "velha", aliás da mesma forma que se procedeu durante todo o inverno e sobretudo durante o período carnavalesco onde toda a ordem social foi virada do avesso de modo a afastar os maus espíritos que povoam esta época do ano, associada à morte dos vegetais. E como a mentalidade antiga liga a morte à vida em vez de a separar, a natureza renasce sempre a partir da morte tal como ao inverno sucede invariavelmente a primavera.

É sábado e véspera de dia de Páscoa. Como de costume, as margens do rio Lima oferecem-nos um entardecer tranquilo onde o sol que se esconde para os lados de Viana espalha sobre as águas os seus raios como longas madeixas ruivas. Na Praça de Camões perfilam-se os bonecos que vão ser "executados" após a leitura do respetivo testamento. O bojo está recheado de fogo produzido pelos pirotécnicos da região, por sinal dos mais conceituados a nível internacional. O povo junta-se. Faz-se a leitura do "testamento do judas" onde se descobrem algumas verdades e, eis então que lhe é pegado o fogo. O boneco começa por rodopiar até que, uma quantidade maior de pólvora que é armazenada na cabeça o faz finalmente explodir. No dia seguinte é dia de aleluia e o povo vai, com a cruz florida, percorrer os caminhos da aldeia e visitar amigos e familiares onde a cruz é dada a beijar. É o compasso pascal, uma das tradições de grande beleza em toda a região de Entre-o-Douro-e-Minho!

Fonte: http://www.folclore-online.com/

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UM MORGADO DO MINHO E O SEU TRAJAR EM 1855

O morgado era a pessoa detentora do morgadio ou seja, da casa de família, terras, rendas e demais património estabelecido por vínculo de linhagem familiar transmitido ao longo de gerações, destinados a perpectuar o poder económico da família. Os domínios senhoriais eram inalienáveis e indivisíveis, sendo transmitidos por herança ao descendente varão primogénito.

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Com vista a preservar a árvore genealógica, o filho primogénito recebia geralmente o nome do pai por completo, sendo-lhe acrescentada a palavra Filho. O nome da mãe não era considerado para o efeito. De resto, o apelido Morgado constituí uma reminiscência dessa tradição, sendo ainda frequente no Minho o uso do termo morgado para identificar os filhos únicos a herdar dos pais.

A lei do morgadio foi estabelecida em Portugal através das Ordenações Filipinas de 1603 e veio a ser extinta em plena Monarquia Constitucional, no reinado de D. Luís, por Carta de Lei de 19 de Maio de 1863, apenas tendo perdurado o vínculo da Casa de Bragança até 1910 ou seja, à data da implantação da República.
A sociedade no meio rural ao longo do tempo nunca se deteve na existência de uma classe pobre como por vezes se faz crer mas de uma realidade bem mais complexa, assente em variadas classes sociais com diferente estatuto social e económico entre si e realidades que variam de região para região.
Fonte: https://www.facebook.com/Memorias-do-Reino-de-Portugal-328209621289546/

O MITO ESTÁ DESFEITO: EM PONTE DE LIMA TAMBÉM SE DANÇAVA A TIRANA NOS FINAIS DO SÉCULO XIX

O “Cancioneiro de Músicas Populares” constitui uma obra rara e de elevado interesse sobretudo para os estudiosos da nossa etnografia. Publicada em três volumes, compilando uma colecção de fascículos editados entre os anos 1893 e 1899 e impressos na Typografia Occidental, da cidade do Porto, contém “letra e musica de canções, serenatas, chulas, danças, descantes, cantigas dos campos e das ruas, fados, romances, hymnos nacionaes, cantos patrioticos, canticos religiosos de origem popular, canticos liturgicos popularisados, canções políticas, cantilenas, cantos maritimos, etc. e cançonetas estrangeiras vulgarizadas em Portugal”, recolhida por César A. Das Neves, coordenada a parte poética por Gualdino de Campos e prefaciada pelo Dr. Teophilo Braga.

Uma Tyrana recolhida em Ponte de Lima constitui uma das preciosidades do “Cancioneiro de Músicas Populares”. Esta obra pode ser consultada na Biblioteca Nacional de Portugal.

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FOLHETIM "TERRA FRIA" RETRATOU A VIDA DAS GENTES DO BARROSO

Terra Fria – Ferreira de Castro

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Ferreira de Castro era um homem que gostava de conhecer o ser humano em todas as suas vicissitudes, um estudioso das questões sociais, utilizando as suas observações para a realização da maioria dos seus livros.

“Terra Fria” é um dos romances onde ele aplica o fruto das suas longas observações, traçando-nos um retracto da vida do povo do nordeste transmontano, evidenciando o sofrimento, a luta quotidiana e o modo de vida quase medieval que se fazia sentir nos início dos anos 30 do século passado.

E, para mim, é aqui que reside a principal beleza deste romance. Escrito em 1934, Ferreira de Castro pretendeu transmitir a imagem da vida nessa região. Hoje em dia, 80 anos depois, esse cenário desapareceu ou poucos vestígios existem, pelo que é nas páginas de “Terra Fria” que descobrimos esse passado e que faz deste livro uma espécie de romance histórico.

Aldeia de Padornelos, Montalegre. Leonardo luta dia a dia pelo sustento da sua família. Ele a mulher, ainda sem filhos, procura em trabalhos esporádicos e principalmente no contrabando, ganhar algum dinheiro enquanto sonha em se estabelecer por conta própria com uma venda (espécie de mercearia que ainda conheci no Alentejo nos anos 80).

É neste contexto que Ferreira de Castro nos descreve a actividade do contrabando, tão em voga nessa altura. Mas o autor vai mais longe.

Volta a Padornelos um homem que havia estado emigrado nos Estados Unidos e, como era apanágio, fica conhecido pelo “americano”. Depressa dá mostras da sua riqueza que o leva a ser considerado um dos homens mais importantes e influentes da aldeia e é ele que dá origem ao drama que irá assolar a aldeia.

É um romance que nos faz sentir uma constante solidão. Somos assaltados por imagens de uma terra desoladora, fria, onde a pobreza é a única condição conhecida e onde o rico julga ter todo o poder sobre o pobre. A meu ver, Ferreira de Castro para além de evidenciar a pobreza do Portugal profundo, nesse caso em Trás-os-Monte, lança aqui uma crítica feroz ao abuso de poder do regime caracterizado no “americano” e a sua forma de agir.

Fonte: https://nlivros.blogspot.com/

CENAS PREPARADAS NO BARROSO, PARA ILUSTRAÇÃO DO FOLHETIM TERRA FRIA.

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Fonte: ANTT

SENHOR DA SERRA EM BELAS: ROMEIROS CANTANDO AO SOM DA GUITARRA

As imagens integraram diversas reportagens do jornal “O Século” e retratam diversos aspectos da já desaparecida e outrora muito concorrida Romaria do Senhor da Serra, em Belas, no concelho de Sintra, nas proximidades de Queluz. Uma festa, aliás, muito apreciada pelas gentes alfacinhas.

Numa das fotos, datada de 20 de Agosto de 1921, vemos vários romeiros cantando ao som da guitarra. Note-se, porém, a configuração do instrumento que mais se assemelha a uma viola.

Fonte: ANTT

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COSTUMES DO BARROSO

As fotos datam de 1933 e mostram vários aspectos da vida quotidiana à época na região do Barroso. Entre outros, registe-se o comprador de peles e o costume de deitar as reses à vezeira. Observe-se ainda o traje e o aspecto do interior da habitação, o mobiliário e, entre ele, o tradicional escano que também servia de arca e outrora servia ainda de mesa e cama. O que, na linguagem actual, diríamos um multifunções.

Fonte: ANTT

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SERÁ QUE JÁ EXISTIA A PROVÍNCIA DO "DOURO LITORAL" NOS FINAIS DO SÉCULO XIX QUE ALGUNS GRUPOS FOLCLÓRICOS DIZEM REPRESENTAR?

O Grupo Folclórico de Penafiel representa a região que compreendia a vetusta Comarca d’Entre-o-Douro-e-Minho.

Os penafidelenses cantam e dançam o malhão e o vira, ao som da concertina e das violas braguesas e amarantinas, cavaquinhos e reco-recos, ferrinhos, bombos e tabuinhas. E vestem-se com trajes de trabalho mas também de romaria como as fotos documentam.

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Penafiel situa-se na verdejante encosta do Vale do Sousa, fazendo parte do Distrito do Porto. O seu grupo folclórico foi constituído em 1980, assinalando no próximo mês de Novembro quatro décadas de existência.

O Grupo Folclórico de Penafiel afirma que representa o folclore da região d’Entre-o-Douro-e-Minho. E é com toda a legitimidade que o afirma até porque, quanto mais não fosse, o chamado Douro Litoral jamais existiu no século XIX e começos do século XX, época cujas tradições representam. De resto, a província que dá por esse nome foi uma invenção administrativa do Estado Novo em 1936 e que, à semelhança das demais províncias, pouca utilidade tiveram.

Além de que, Penafiel é um dos concelhos que não fazendo parte dos distritos de Braga e Viana do Castelo, integra o mesmo espaço geo-etnográfico do Minho.

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MORREU O ETNÓLOGO VIANENSE BENJAMIM PEREIRA

O ano começa com a triste notícia da morte de Benjamim Pereira (1928-2020).

Benjamim foi uma figura fundamental da etnografia portuguesa. Colaborou com Jorge Dias, Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano num gigantesco levantamento da cultura material portuguesa, que levou à criação do Museu Nacional de Etnologia. Depois seguiu-se um percurso que deixou pegadas fundas em todo país: Centro Cultural Raiano (Idanha a Nova), Museu Regional de Paredes de Coura, Museu Rural de Boticas, Museu Tavares Proença Júnior - Galeria de têxteis tradicionais (Castelo Branco), Museu da Luz, Museu do Canteiro (Alcains) ou no Museu do Traje de Viana, nomeadamente no Núcleo Museológico das actividades agro-marítimas, de Carreço, a sua terra.

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O que hoje lembro é o privilégio de ter trabalhado com ele em Viana, no Museu do Traje, e de ter beneficiado da sua imensa sabedoria e da generosidade e gosto com que a partilhava. Quem falou com ele dificilmente esquecerá o "Sabes menino...", acompanhado de um gesto elegante, com que começava as suas frases.

Sentirei também uma falta tremenda da força, da exigência de rigor e do entusiasmo com que sempre me contagiava.

O enterro será amanhã, sexta-feira, às 15 horas, em Carreço, onde o corpo estará a partir de hoje à tarde.

João Alpuim Botelho

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MINHO É OURO!

A atracção das nossas gentes por esse metal tão precioso quanto belo remete-nos para os confins da História, a um tempo em que as mulheres – ancestrais das actuais minhotas – se adornavam com torques e braceletes que agora inspiram os designers da moderna ourivesaria minhota.

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A esse tempo, já os romanos que aqui se estabeleceram exploraram as jazidas auríferas existentes na nossa região. Porém, a sua importância no costume minhoto tem influências bem mais recentes!

Na região de Entre-o-Douro e Minho, muitos foram camponeses forçados obrigados a emigrar sobretudo para o Brasil a fim de escapar à miséria que então assolava os campos. A filoxera que atingiu as vinhas e a indústrialização fomentada pela governação de Fontes Pereira de Melo constituíram alguns dos factores que estiveram na sua origem.

Não raras as vezes viajaram escondidos nos porões dos navios que partiam de Viana do Castelo e outros portos… clandestinamente! Uma vez chegados ao porto de Santos, no Brasil, escapavam sem qualquer registo para depois se aventurarem numa vida de glória ou miséria.

Não obstante, muitos dos nossos compatriotas regressaram ricos, construíram os seus solares e casas apalaçadas, as chamadas as casas dos brasileiros, sobretudo ao longo do litoral minhoto. Ficaram conhecidos por “brasileiros de torna-viagem”.

Do seu bolso ajudaram a construir escolas, beneficiaram igrejas e de um modo geral contribuíram para o progresso das suas terras de origem. Mas também não esqueceram as suas afilhadas, oferecendo-lhes geralmente um rico dote em oiro para que também elas viessem a conseguir um bom casamento... é isso que em grande medida explica uma certa ostentação do ouro nesta região!

Por conseguinte, este tornou-se um traço do carácter minhoto que define bem a sua personalidade, que combina bem com a sua natureza exuberante e maneira de estar. Algo que não é facilmente compreendido por pessoas de outras regiões do nosso país…

Distante da monotonia de outras terras, o minhoto vive desde que nasceu rodeado de uma paisagem alegre e ridente onde a grandeza das montanhas contrasta com a doçura verdejante das suas veigas. O minhoto é jovial e alegre. E, em todos os momentos da sua vida, mesmo nos mais difíceis, encara-os de frente e enfrenta-os com um sorriso nos lábios. O trabalho, a religião e a própria gastronomia são vividos em festa!

Foi essa sua paixão pelo ouro e a filigrana em geral que impulsionou a arte da ourivesaria, principalmente em Gondomar e Póvoa de Lanhoso. E, dela fez um dos ex-líbris de Portugal mundialmente reconhecido.

Fotos: Amadeu Ferrari / AML

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MONÇÃO: MUSEU ETNOGRÁFICO DE LONGOS VALES RECRIA A VIDA RURAL DE OUTROS TEMPOS

Fruto da disponibilidade e entusiasmo de Eduardo Cardoso, que durante alguns anos colecionou diversos objetos agrícolas, o Museu Etnográfico de Longos Vales, situado na antiga Escola Primária do Cesto, tornou-se uma realidade no dia 29 de maio de 2011.

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O equipamento, que reúne um considerável espólio de instrumentos do mundo rural, nasceu com o objetivo de divulgar antigos ofícios e modos de vida da freguesia de Longos Vales, valorizando e colocando à disposição do público uma herança cultural e etnográfica coletiva.

Ao longo deste percurso de quase uma década, o mentor do projeto tem vindo a apetrechar o espaço com novos utensílios e equipamentos, enriquecendo, de ano para ano, a estrutura dedicada ao mundo rural. No livro de honra, entre várias citações, pode ler-se: “o passado é o cimento que liga o presente e o futuro. Algo que devemos proteger e valorizar”.

Aberto ao público através de marcação prévia, o Museu Etnográfico de Longos Vales é visitado, frequentemente, por grupos de turistas e amantes da cultura popular, tendo sido, várias vezes, objeto de reportagens jornalísticas escritas e faladas, onde é dado enfâse à quantidade de materiais expostos.

No passado dia 29 de novembro, sexta-feira, cerca de vinte pessoas da Universidade Sénior de Monção visitaram o Museu Etnográfico de Longos Vales, desfrutando de uma tarde marcada pela convivialidade, vivência rural e recordações de infância.

Esta visita, que contou com a presença do presidente da Junta de Freguesia de Longos Vales, Pedro rodrigues, representou também a primeira oportunidade para Eduardo Cardoso mostrar as últimas peças do museu: malhadeira de centeio e oratório.

O Museu Etnográfico de Longos Vales mostra utensílios de campo, de cozinha e objetos ligados ao linho. Desta forma, quem passar por este espaço cultural pode reviver vivências de antigamente e apreciar, entre outros objetos, carros de bois, potes do alambique, pipos de vinho, malhadores e debulhadores de espigas, sachadeiras e cabaças.

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CELORICENSE AIDA ARAÚJO DUARTE LANÇA LIVRO "VILLA DE BASTO ESTUDO LINGUÍSTICO E ETNOGRÁFICO"

O Centro Cultural Prof. Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, em Celorico de Basto, vai receber este fim de semana, dia 9 de novembro, pelas 15h30, a apresentação do livro “Villa de Basto Estudo Linguístico e Etnográfico” da autora Celoricense Aida Araújo Duarte.

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O livro, segundo a autora, é “um contributo para a divulgação de aspectos da Etnografia e do modo de falar das gentes do lugar do Castelo, concelho de Celorico de Basto, nos anos 70”. Um retrato de um pedaço de território rural profundo apresentado em livro pela autora celoricense residente no Porto, autora de outras obras amplamente conhecidas como a “Filha da Montanha e do Vento”, a “Limpidez Ausente” e as “Sandálias da Lucinda”.

Uma autora versátil na forma de escrita passando pelos contos, pela poesia, pelo romance e agora, “numa paixão imensurável à tua terra” como salienta o Vereador da cultura da Câmara Municipal de Celorico de Basto, pela história e memória “numa obra voltada para a histórias das gentes que povoaram a Villa de Basto até aos anos 70, onde se evidencia o rigor e a excelência, como é apanágio desta autora”.

A apresentação do livro da autora Aida Araújo Duarte, em Celorico de Basto, direciona-se a todos os interessados em conhecer um pouco mais da história e memória da Villa de Basto e do Concelho, e terá lugar no Centro Cultural, no próximo dia 9 de novembro, pelas 15h30. 

AS BRUXAS SÃO AS SACERDOTISAS DO PAGANISMO

Quais sacerdotisas dos ritos próprios do culto pagão, as chamadas bruxas desde sempre povoam o nosso imaginário, associado ao mal e representando figuras demoníacas que ao longo dos séculos foram inculcadas nas nossas mentes pela religião Cristã que entre nós viria a impor-se ao paganismo. Tal como a figura de Pã, deus dos bosques, dos campos, dos rebanhos e dos pastores veio ao longo da Idade Média a ficar associada à do Diabo transfigurado na dama pé-de-cabra.

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Proveniente do latim paganus que significa literalmente camponês ou rústico, o paganismo constitui uma forma de expressão religiosa em íntima comunhão com os fenómenos da natureza e profundamente ligado às necessidades espirituais do indivíduo inserido no mundo rural. Prova evidente dessa realidade constitui as tradições que respeitam aos ritos do inverno e ao culto dos mortos, desde os peditórios de “Pão Por Deus” até à “Serração da Velha”, passando pela celebração do solstício de Inverno e o Entrudos, celebrações quase todas convertidas em celebrações cristãs como o Natal, como se de festividades pagãs não se tratassem a sua origem. O mesmo sucede com outras festividades como o Solstício de Verão, com os seus ritos associados ao fogo e transformados em festividades são-joaninas.

Existem entre nós vestígios de antigos santuários pagãos como a do deus Endovélico na região do Alandroal, registando a própria toponímia a sua ancestral influência como sucede com a serra do Larouco, proveniente do deus Laraucus.

Porém, no ano 312 deu-se a alegada conversão do Imperador Constantino ao Cristianismo e, a partir do ano 392, passou o paganismo a ser proibido no Império Romano e consequentemente reprimido e perseguido, sendo essas medidas agravadas com a pena de morte a partir de 435 para quem praticasse ritos envolvendo o sacrifício de animais. Não obstante, o paganismo continuou a praticar-se, de forma mais ou menos discreta, sobretudo entre as gentes que viviam no campo. E a conversão à nova religião trazida pelos invasores romanos não foi tarefa fácil, deparando-se com maiores dificuldades entre os povos de regiões com maior apego às mais ancestrais tradições como se verificou no Minho e em Trás-os-Montes.

Os antigos templos e santuários pagãos foram destruídos para em seu lugar serem erguidas igrejas, o mesmo sucedendo com as encruzilhadas dos caminhos rurais e outros locais de culto nas aldeias que deram lugar a cruzeiros e a pequenos nichos contendo retábulos com as “alminhas” do Purgatório que passaram espiritualmente a aterrorizar as mentes dos humildes camponeses, até então habituados a uma relação mais sadia com a natureza que os rodeavam. Os sacerdotes pagãos conferiram uma nova roupagem às festas pagãs, procurando por esse meio conferir-lhes um novo sentido.

Mas, ainda assim, a religiosidade pagã sobrevive ao lado da nova fé, traduzida na manutenção de velhas tradições como as máscaras transmontanas e as festas dos caretos, o entrudo e as fogueiras de S. João. E, mesmo no Minho onde aparentemente existe forte religiosidade cristã, o que se verifica realmente é uma verdadeira manifestação de exuberância que caracteriza o minhoto, mais não constituindo a festa cristã do que um pretexto para exteriorizar a sua alegria como uma forma de profunda comunhão com a vida e o meio que o rodeia, iluminada por magníficas girândolas de fogo-de-vistas que revelam o seu apego embora inconsciente a antigas práticas religiosas.

Devemos a tais práticas religiosas pagãs os nossos mais profundos conhecimentos de medicina popular no uso das mais variadas espécies botânicas, o saber da meteorologia baseado na observação constante dos fenómenos naturais e da própria astronomia transmitido de geração em geração através de axiomas, a riqueza da nossa gastronomia e um infinito universo de conhecimentos que fazem parte do rico património do nosso folclore.

Com o decorrer do tempo, as perseguições acentuaram-se, tornando-se mais implacáveis durante a Idade Média e sobretudo no período da Inquisição. As sacerdotisas do paganismo eram perseguidas sob a acusação de bruxaria, sempre associada a práticas identificadas com ritos satânicos e talentos que lhes permitiam voar sentadas em rudimentares vassouras…

Nos tempos que correm, tais feitos mais não passam de fantasias literárias e até antigos rituais ligados ao culto dos mortos foram pela sociedade de consumo transformados em motivos de diversão, tal como no passado foram associados ao mal. Mas, o certo é que as bruxas jamais deixaram de existir e o paganismo parece estar de volta!