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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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O APOIO DOS EMPRESÁRIOS DA DIÁSPORA A ALUNOS LUSODESCENDENTES

  • Crónica de Daniel Bastos

Entre as características mais distintas da diáspora, a enorme capacidade empreendedora e o seu forte espírito de solidariedade, são seguramente das que mais sobressaem no código genético das comunidades lusas espalhadas pelos quatro cantos do mundo.

Ao longo das décadas têm sido inúmeras as campanhas solidárias, as iniciativas de apoio e os gestos de altruísmo protagonizados, a título individual ou coletivo, pelos portugueses no estrangeiro em prol de causas, valores e pessoas, muitas delas concidadãos que por vicissitudes da vida encontram na generosidade de muitos compatriotas uma bússola e um porto de abrigo.

Um desses exemplos de espírito solidário é o que no decurso dos últimos anos vários empresários portugueses da diáspora têm protagonizado ao nível da atribuição de bolsas de estudo a alunos lusodescendentes. Trata-se de uma ação benemérita que tem tido um papel essencial não só na promoção da cultura e língua portuguesa no mundo, como também na capacitação e valorização das comunidades portuguesas, e na dinamização da participação de jovens lusodescendentes no pulsar do movimento associativo.

Um dos exemplos paradigmáticos da dimensão e importância do apoio dos empresários da diáspora a alunos lusodescendentes é o que tem sido dinamizado desde a primeira década do séc. XXI pela Fundação António Amaral, em Palm Coast, cidade localizada no estado da Flórida, nos Estados Unidos da América.

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O empresário luso-americano Tony Amaral, no decurso de uma cerimónia de entrega de bolsas de estudo pela Fundação António Amaral a jovens de origem portuguesa na Flórida

Radicado há mais de meio século na América, o empresário no sector da construção e imobiliário Tony Amaral, benemérito e fundador da comunidade portuguesa de Palm Coast, instituiu em 2006 a Fundação António Amaral com o objetivo central de atribuir bolsas de estudo a jovens de origem portuguesa na Flórida.

Há 16 anos consecutivos que a Fundação António Amaral, através do espírito empreendedor e solidário do emigrante natural de Ovar, entrega bolsas de estudo a alunos lusodescendentes na Flórida, tendo até ao momento, distribuído 223 bolsas, no montante superior a 355 mil dólares. Este ano, as candidaturas às bolsas de estudo da Fundação António Amaral encontram-se abertas até 20 de maio, sendo que as mesmas serão entregues aos respetivos contemplados durante uma pequena cerimónia a ter lugar em Palm Coast no dia 6 de Junho, no âmbito das celebrações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

Também na América do Norte, mais concretamente no Canadá, onde vive uma das maiores comunidades lusas no continente americano, a Federação de Empresários e Profissionais Luso-Canadianos (FPCBP) vai realizar no termo do presente mês, no Pearson Convention Centre, em Brampton, região metropolitana de Toronto, uma cerimónia de entrega das Bolsas de Estudo e Prémios de Excelência Empresarial.

A iniciativa, que decorrerá durante o 39.º Jantar Anual de Gala da FPCBP, foi instituída há mais de quatro décadas e representa o programa mais antigo de bolsas de estudo da comunidade portuguesa no Canadá, tendo atribuído já mais de um milhão e meio de dólares para jovens luso-canadianos.

No ano passado, no âmbito do 40.º Aniversário da FPCBP, foram atribuídas 45 bolsas, o maior número até à data, graças à generosidade dos empresários luso-canadianos que financiam anualmente este programa que tem como principal objetivo incentivar os estudantes da comunidade a escolherem o caminho do ensino superior e motivá-los a serem futuros líderes, a nível global e comunitário.

Estes exemplos paradigmáticos da dimensão e importância do apoio dos empresários da diáspora a alunos lusodescendentes, e muitos outros que possam estar atualmente a ser dinamizados no seio das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, corroboram a visão hodierna expressa no trabalho académico de Catarina da Costa Tavares Silva, intitulado Empresários Portugueses na Diáspora - Tendências Recentes. Mormente, que os “empresários portugueses emigrados contribuem para a competitividade, modernização e inovação que é favorável para qualquer país, nomeadamente para Portugal”, constituindo-se “como um importante ativo estratégico a valorizar”.

BATISTA SEQUEIRA VIEIRA: A CONQUISTA DO SONHO AMERICANO NA CALIFÓRNIA

  • Crónica de Daniel Bastos

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos arquipélagos da Madeira e dos Açores, destaca-se hoje pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.

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Comendador Baptista Sequeira Vieira

No seio da numerosa comunidade lusa nos EUA, segundo dados dos últimos censos americanos residem no território mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, destacam-se vários percursos de vida de compatriotas que alcançaram o sonho americano ("the American dream”).

Entre as várias trajetórias de portugueses que começaram do nada na América e ascenderam na escala social graças a capacidades extraordinárias de trabalho, mérito e resiliência, destaca-se o percurso inspirador e de sucesso do comendador Batista Sequeira Vieira, uma das figuras mais proeminentes da comunidade luso-americana.

Natural dos Rosais, freguesia do Município de Velas, na Ilha de São Jorge, arquipélago dos Açores, Batista Sequeira Vieira emigrou em 1954, perto de completar 16 anos de idade, para San José, terceira cidade mais populosa do estado americano da Califórnia, na companhia do irmão mais velho, motivado pelas histórias de abundância e riqueza contadas pelo avô durante a sua meninice.

O fascínio pela América transmitido pelo avô, que chegou a ter uma pequena rede de sapatarias em Newman, na Califórnia, na região do Vale de San Joaquim, impulsionou o jovem emigrante açoriano a abalar do seio de uma família relativamente abastada de São Jorge em demanda do sonho americano.

A coragem e o "antes quebrar que torcer", manifestas no facto de ter começadoo seu percurso de autêntico self-made man em duras condições de vida e de trabalho numa leitaria, forjaram um homem que teve o vislumbre de nos anos 60, já depois do enlace com a sua companheira de vida, Dolores Machado, se ter lançado na construção civil, primeiro na pintura, a “Vieira Painting Company” e depois na construção e imobiliário alavancado pelo crescimento de Silicon Valley.

Empresário e empreendedor com uma trajetória marcada pelo mérito e pela inovação, premissas que estão desde o início na base do conglomerado de empresas que criou na Califórnia, o sucesso que o emigrante jorgense alcançou ao longo do último meio século no mundo dos negócios, têm sido acompanhados de um apoio constante à comunidade luso-americana.

Na década de 1970, comprou, em parceria, a primeira estação de rádio paraservir a comunidade portuguesa, e posteriormente adquiriu outra estação, com o propósito de servir a comunidade luso-americana do Vale de San Joaquim, realizando o sonho de introduzir na sua programação a língua portuguesa.Contemporaneamente, foi Presidente da Sociedade do Espírito Santo, da Luso-American Fraternal Federation, e desempenhou funções relevantes em várias instituições luso-americanas que sempre contaram com o seu generoso apoio, como é o caso, por exemplo, da Igreja Portuguesa de San José.

O seu profundo sentido de responsabilidade e de dever cívico foram distinguidos em 1985 pelo então presidente norte-americano, Ronald Reagan, assim como em 1989, pelo antigo Presidente da República, Mário Soares, que o agraciou com o grau de comendador da Ordem do Mérito. Na base da justíssima distinção da pátria de origem, estiveram os serviços meritórios, a ligação umbilical e a generosidade que ao longo dos anos tem devotado a várias instituições da sua terra natal, como por exemplo, a Casa de Repouso João Inácio de Sousa, que recebeu do empresário e filantropo luso-americano uma grande doação tanto a nível monetário como de equipamentos.

Com o seu nome associado a ruas e edifícios na Ilha de São Jorge, mais propriamente no povoado que o viu nascer, Rosais, onde no ano passado lhe foi prestada uma homenagem pública e descerrado um busto, o comendador Batista Sequeira Vieira, que foi distinguido em 2014 pela Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores com a atribuição da Insígnia Autonómica, inspira-nos a máxima do escritor e ensaísta francês Albert Camus: “A grandeza do homem consiste na sua decisão de ser mais forte que a condição humana”.

JOHN DOS PASSOS: UM ESCRITOR AMERICANO ORGULHOSO DAS SUAS RAÍZES MADEIRENSES

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

Um dos mais importantes escritores modernistas norte-americanos, John Dos Passos (1896-1970), nunca escondeu ao longo da sua renomada carreira literária o carinho e orgulho pelas suas raízes familiares madeirenses.

As origens lusas do autor de Manhattan Transfer e U.S.A. Trilogy, livros marcantes da América da primeira metade do século XX, descendem de Manuel Joaquim dos Passos, avô paterno do afamado escritor, natural da vila madeirense de Ponta do Sol, onde nasceu em 1816.

Manuel Joaquim dos Passos emigrou aos 14 anos de idade para os Estados Unidos da América (EUA), tendo-se radicado em Filadélfia, cidade da Pensilvânia, onde contraiu matrimónio com a americana Ann Cattel. Dessa união nasceram vários filhos, entre eles, um prestigiado advogado, John Randolph dos Passos (1844-1917), pai do escritor americano de origem portuguesa que em 1936, no auge da fama, chegou a ser capa da revista Time.

Amigo de Ernest Hemingway e de outros grandes nomes da literatura mundial, Jonh Dos Passos, que acompanhou as tropas americanas durante a Primeira Guerra Mundial como condutor de ambulâncias, e trabalhou como correspondente durante a Segunda Guerra Mundial, visitou a ilha da Madeira em três ocasiões.

A primeira, ainda em criança, no ano de 1905, acompanhado pelo seu pai, como o mesmo refere na introdução do seu livro The Portugal Story: “Embora eu fosse educado sem qualquer conhecimento da língua portuguesa, a minha família não perdera por completo o contacto com os parentes do meu avô, na Madeira. O meu pai, embora falasse apenas um pouco de francês, além do inglês, nunca se esqueceu de que era meio português. Tinha oito anos quando ele me levou ao Funchal. Lembro-me das visitas de um primo idoso que me dava, no jardim do velho Reid's Hotel, uma lição diária de latim”.

A segunda visita de John dos Passos à Madeira ocorreu em 1921, onde em trânsito a caminho de Lisboa, passeou pelo Funchal relembrando as raízes humildes do seu avó paterno que fora sapateiro no torrão natal. Mais tarde, em 1960, voltou a visitar a pérola do Atlântico, desta feita, acompanhado pela mulher, Elizabeth Hamlin Dos Passos, e a filha Lucy dos Passos Coggin, onde foram recebidos pelos familiares e autoridades locais.

No então discurso que realizou em agradecimento à homenagem que recebeu na Ponta do Sol, no decurso dessa terceira e última visita à região arquipelágica, John dos Passos exporia: “Desculpem eu não falar a língua dos meus avós. Como sabem o meu avô deixou a Ponta do Sol há muito mais de cem anos. É deveras enternecedor para mim ser recebido com tão grandeza gentileza e consideração. [...]. Mais tarde o meu pai tornou-se cada vez mais interessado a respeito da Madeira e das suas raízes portuguesas. Quando eu tinha oito anos trouxe-me, por algumas semanas ao Funchal. Assim quando aqui cheguei há dias reconheci os rochedos cor púrpura, o mar azul, os mergulhadores e as pequenas lagartixas que correm através dos jardins do Reid’s Hotel. Recordo amável hospitalidade de amigos e parentes da Madeira.”

A ligação estreita de John Dos Passos com a terra do avô paterno é desde o alvorecer do séc. XXI, preservada e dinamizada pelo Centro Cultural John dos Passos, fundado em homenagem ao escritor americano com raízes lusas e localizado no centro da vila da Ponta do Sol.

Atualmente, a instituição que acolhe exposições temporárias, seminários e conferências, com destaque particular para o simpósio anual dedicado a John dos Passos, possui uma sala de exposição permanente dedicada ao escritor, dois espaços museológicos, uma biblioteca, que apresenta a extensa obra do autor, e um auditório onde se desenvolvem as mais variadas atividades culturais como a música, a dança e o teatro.

A ligação do escritor norte-americano à terra de origem dos seus antepassados está ainda simbolicamente inscrita desde 2016 no nome de um dos aviões da TAP, companhia área portuguesa que atravessa o Atlântico para os EUA. Época em que Secretaria Regional de Turismo e Cultura da Madeira assumiu a responsabilidade do Prémio John Dos Passos, instituído com a finalidade de
homenagear o escritor homónimo e difundir a sua obra, rememorar as suas ancestrais ligações à Região e, simultaneamente incentivar a produção literária e a investigação histórico-literária.

JOSÉ SOARES: EMPRESÁRIO E BENEMÉRITO DA COMUNIDADE LUSO-AMERICANA DE NEW BEDFORD

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos Arquipélagos dos Açores e da Madeira, destaca-se hoje pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.

Atualmente, segundo dados dos últimos censos americanos, residem nos EUA mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, principalmente concentrados na Califórnia, Massachusetts, Rhode Island e Nova Jérsia. A grande maioria da população luso-americana trabalha por conta de outrem, na indústria, mas são já muitos os que trabalham nos serviços ou se destacam na área científica, no ensino, nas artes, nas profissões liberais e nas atividades políticas.

No seio da numerosa comunidade lusa nos EUA, onde proliferam centenas de associações recreativas e culturais, clubes desportivos e sociais, fundações para a educação, bibliotecas, grupos de teatro, bandas filarmónicas, ranchos folclóricos, casas regionais e sociedades de beneficência e religiosas, destacam-se percursos de vida de vários compatriotas que alcançaram o sonho americano ("the American dream”).

Entre as várias trajetórias de portugueses que começaram do nada na América e ascenderam na escala social graças ao trabalho, ao mérito e ao empenho, destaca-se o percurso inspirador e de sucesso de José Soares, um dos mais destacados empresários e beneméritos da comunidade luso-americana de New Bedford.

Natural de Ribeiras, freguesia da ilha do Pico, arquipélago dos Açores, José Soares emigrou ainda adolescente para a América no alvorecer dos anos 70, acompanhado os pais na demanda de melhores condições de vida para uma família humilde, que tinha já assistido na década de 1960 à partida do filho mais velho para o Canadá.

A chegada à América marcou o início de um percurso de vida de um verdadeiro self-made man”, que sem saber falar inglês e com apenas a 4.ª classe portuguesa, conseguiu completar o liceu e obter um curso técnico de eletricidade, ao mesmo tempo que auxiliava o pai nas horas vagas a pintar e a fazer manutenção de casas de madeira.

 O trabalho, o esforço e a resiliência, valores coligidos no seio familiar, impeliriam José Soares a fundar em 1979 a Bay State Drywall Company Inc., uma empresa de construção de referência no estado de Massachusetts, região da Nova Inglaterra. Atualmente com cerca de uma centena de funcionários, muitos deles portugueses, a Bay State tem ao longo das últimas décadas acumulado um importante portefólio de obras, mormente de centros comerciais, condomínios, supermercados e hotéis.

Radicado há mais de cinquenta anos nos Estados Unidos da América, o sucesso que o emigrante picoense alcançou ao longo dos últimos anos no mundo dos negócios, tem sido acompanhado igualmente de um apoio constante à comunidade luso-americana de New Bedford, onde é reconhecida a sua generosidade por ter pago, por exemplo, livros e material para vários alunos estudarem a língua de Camões.

Um dos mais destacados empresários e beneméritos da comunidade luso-americana, o exemplo de vida de José Soares, cujo apego às suas raízes açorianas contribuiu para ser em 1997 um dos fundadores da Azorean Maritime Heritage Society (AMHS) em New Bedford, inspira-nos a máxima do prolífico escritor francês Honoré de Balzac: “ Seja no que for, só se recebe na medida do que se dá”.

LUÍS PEDROSO: UM EXEMPLO DE EMPREENDEDORISMO E FILANTROPIA NA COMUNIDADE LUSO-AMERICANA

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos Arquipélagos dos Açores e da Madeira, destaca-se hoje pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.

Atualmente, segundo dados dos últimos censos americanos, residem nos EUA mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, principalmente concentrados na Califórnia, Massachusetts, Rhode Island e Nova Jérsia. A grande maioria da população luso-americana trabalha por conta de outrem, na indústria, mas são já muitos os que trabalham nos serviços ou se destacam na área científica, no ensino, nas artes, nas profissões liberais e nas atividades politicas.

No seio da numerosa comunidade lusa na América, onde proliferam centenas de associações recreativas e culturais, clubes desportivos e sociais, fundações para a educação, bibliotecas, grupos de teatro, bandas filarmónicas, ranchos folclóricos, casas regionais e sociedades de beneficência e religiosas, destacam-se percursos de vida de vários compatriotas que alcançaram o sonho americano ("the American dream”).

Entre as várias trajetórias de portugueses que começaram do nada nos EUA e ascenderam na escala social graças ao trabalho, ao mérito e ao empenho, destaca-se o exemplo inspirador de empreendedorismo e filantropia de Luís Pedroso. Natural da Ribeira da Areia, na ilha de São Jorge, nos Açores, Luís Pedroso emigrou para Massachusetts, estado norte-americano localizado na região da Nova Inglaterra, no final dos anos 60, ainda criança, acompanhado da mãe e três irmãos, após curtas passagens no decurso dessa década por África, designadamente Angola, pelo vale de São Joaquim, na Califórnia, e pela ilha da Terceira onde assistiu ao falecimento precoce do pai.

A chegada a Massachusetts, mormente à cidade de Lowell, onde a mãe e a irmã mais velha começaram a trabalhar numa fábrica de sapatos para sustentar a família, permitiu a Luís Pedroso completar os estudos e iniciar, depois de uma experiência laboral passageira num banco, calcorrear um percurso fulgurante na indústria eletrónica. O trabalho, o esforço e a resiliência, valores coligidos na figura materna, acabariam por impelir o luso-americano com raízes açorianas, a fundar em 1984, com 24 anos, a Qualitronics, uma empresa que desenhava, testava, construía e vendia serviços de reparação de componentes eletrónicos, que chegou a ter um volume de vendas anual de 25 milhões de dólares, quase duas centenas de funcionários, e que vendeu em 2000.

Quatro anos depois, a disposição para o trabalho e o espírito empreendedor levou-o a fundar com os irmãos a Accutronics, uma empresa na mesma área, com cerca de uma centena de funcionários, de que atualmente é presidente. O sucesso que Luís Pedroso alcançou ao longo das últimas décadas no mundo dos negócios, tem sido constantemente acompanhado de um generoso apoio a projetos da comunidade luso-americana.

Como é o caso da doação de 850 mil dólares (660 mil euros) que destinou à fundação do Centro Pedroso-Saab para Estudos Portugueses e Culturais na Universidade de Massachusetts em 2013, em homenagem aos pais, ou da generosa doação que auxiliou a construção do edifício da Massachusetts Alliance of Portuguese Speakers (MAPS), inaugurado no ano passado em Lowell.

Uma das figuras mais ativas da comunidade luso-americana, Luís Pedroso, que integra ainda a gestão do Enterprise Bank, do Lowell General Hospital e da Theodore Edson Parker Foundation, e que no final do ano de 2014 foi distinguido com o primeiro prémio "American Dream" do International Institute of New England, inspira-nos a máxima do filósofo Henri-Frédéric Amiel: “O nosso dever é ser útil não de acordo com os nossos desejos, mas de acordo com as nossas forças”.

O MUSEU DE HERANÇA MADEIRENSE NOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos Arquipélagos dos Açores e da Madeira, destaca-se atualmente pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.

Atualmente, segundo dados dos últimos censos americanos, residem nos EUA mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, principalmente concentrados em Massachusetts, Rhode Island, Nova Jérsia e Califórnia.

No caso da comunidade madeirense, que representa entre 3 a 5% do total de portugueses residentes nos Estados Unidos, a mesma tem ainda hoje uma presença significativa, por exemplo, em New Bedford. Uma cidade costeira localizada no estado de Massachusetts, onde desde 1915 se realizam as Festas do Santíssimo Sacramento Madeirense, que se assumem anualmente como uma das maiores festas portuguesas nos EUA e umas das maiores celebrações lusas fora do território nacional, e que com a exceção dos dois últimos anos, devido aos constrangimentos pandémicos, juntam milhares de pessoas.

As festividades, interrompidas nos tempos mais recentes pela pandemia de coronavírus, decorrem há vários anos no Campo Madeira, um recinto onde durante vários dias é possível assistir a concertos de música, espetáculos, parada, dança e corridas, assim como degustar a gastronomia madeirense ou conhecer uma réplica de uma casa típica de Santana.

As comemorações estendem-se ainda ao “Museum of Madeirian Heritage” (Museu de Herança Madeirense), um espaço museológico, situado também na cidade de New Bedford, que foi fundado pelo saudoso José de Sousa e oficialmente inaugurado em 1998, pelo antigo presidente do Governo Regional da Madeira, Alberto João Jardim.

Propriedade da Fundação do Santíssimo Sacramento, o Museu de Herança Madeirense, que acolhe vários documentos recolhidos entre os emigrantes naturais do arquipélago, assim como uma vasta coleção de fotografias e objetos alusivos à pérola do Atlântico, tem como missão preservar e valorizar o legado histórico da emigração madeirense nos Estados Unidos da América.

Enquanto espaço singular que homenageia e perpetua a herança madeirense nos EUA, o Museu de Herança Madeirense, constitui-se como um exemplo inspirador para as comunidades portuguesas no mundo, principalmente naquilo que deve ser o respeito pelo seu passado, a construção do seu presente e a projeção do seu futuro.

A CULTURA MARÍTIMA AÇORIANA NO MUSEU DA BALEAÇÃO EM NEW BEDFORD

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  • Crónica de Daniel Bastos

No seio da fértil cultura marítima açoriana, a baleação, também conhecida como pesca ou caça às baleias, ocupa um papel basilar na memória coletiva de muitas localidades açorianas, em particular, na ilha do Pico, o grande centro do antigo complexo baleeiro insular.

As raízes históricas da baleação açoriana remontam ao ocaso do séc. XVIII quando navios baleeiros da Nova Inglaterra, região no nordeste dos então recém-independentes Estados Unidos da América (EUA), que abrange os estados de Maine, Vermont, Nova Hampshire, Massachusetts, Connecticut e Rhode Island, recrutavam no arquipélago tripulação para as suas longas campanhas.

A experiência adquirida a bordo dos navios americanos foi decisiva para o estabelecimento da atividade baleeira nos Açores, uma atividade indissociável da cultura e da história arquipelágica, ou no conceito de Vitorino Nemésio da açorianidade.

Uma atividade que tendo perdurado até ao termo da década de 1980, época em que Portugal entrou para a Comunidade Económica Europeia (CEE) e a caça comercial seria entretanto proibida pela Comissão Baleeira Internacional, foi concomitantemente percursora da diáspora açoriana nos EUA, cuja presença no território se adensou a partir da segunda metade do séc. XIX, através da emigração de milhares de açorianos ligados aos negócios da pesca da baleia.

Um dos exemplos paradigmáticos do fenómeno migratório açoriano para a América impulsionado pela baleação encontra-se em New Bedford, uma cidade costeira situada no estado de Massachusetts. Com uma população de 100 mil habitantes, da qual cerca de 40% terá ascendência portuguesa, os pescadores açorianos constituíram a primeira vaga da imigração lusa em New Bedford a partir de 1870, época em que a cidade que detém um dos portos de pesca mais importantes dos EUA era um centro mundial da indústria baleeira.

Este relevante legado histórico esteve na base da edificação do Museu da Baleação de New Bedford, um espaço administrado pela Sociedade Histórica Old Dartmouth, fundada em 1903, e que tem como principal missão avançar no entendimento da influência da indústria baleeira e do porto de New Bedford na história, economia, ecologia, artes e culturas da região, da nação e do mundo.

Foi nesse sentido que, em 2010, foi inaugurado no Museu da Baleação de New Bedford, uma ala dedicada aos baleeiros dos Açores, designada de Galeria do Baleeiro Açoriano, e que se assume como o único espaço de exposição permanente nos EUA que presta homenagem aos portugueses, mormente açorianos, e o seu significativo contributo para a herança marítima norte-americana.  

O projeto da Galeria do Baleeiro Açoriano teve a sua génese em 1999, quando a saudosa professora universitária luso-descendente, Mary T. Vermette, apresentou uma proposta ao então ministro dos Negócios Estrangeiros, Jaime Gama, para que Portugal ajudasse a abrir o núcleo museológico. Diligência que levou o Estado português a aprovar uma contribuição de cerca de 700 mil dólares, e o Governo dos Estados Unidos a contribuir com 1,2 milhões para a renovação da ala do museu dedicada à galeria.

Constituída por mais de uma centena de objetos, a Galeria do Baleeiro Açoriano além de conter peças de arte, artefactos, filmes e fotografias sobre os laços marítimos, culturais e sociais que unem os dois lados do Atlântico, homenageia ainda figuras históricas da comunidade açoriana de New Bedford, designadamente marinheiros, mestres, proprietários de embarcações e empresários marítimos.

Mais recentemente, através de fundos provenientes de uma bolsa atribuída pela fundação William M. Wood, criada por um magnata da indústria têxtil filho de um baleeiro açoriano, a Galeria do Baleeiro Açoriano foi enriquecida com dois relevantes elementos, nomeadamente um modelo em grande escala de um bote baleeiro açoriano e um posto de vigia recriado.

Como realça Ricardo Manuel Madruga da Costa, em A ilha do Faial na logística da frota baleeira americana no “Século Dabney”, a Galeria do Baleeiro Açoriano no Museu da Baleação em New Bedford, constitui “um admirável tributo que retrata, com criterioso uso de recursos ao nível das peças e da icnografia expostas, o que representou, de facto, a presença tão significativa do baleeiro das ilhas dos Açores”.

O 1º MARQUÊS DE PONTE DE LIMA E A NEUTRALIDADE PORTUGUESA NA GUERRA DA INDEPENDÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA

  • Carlos Gomes

Artigo publicado na edição de 2021 da revista “O Anunciador das Feiras Novas”

À época da guerra da independência dos Estados Unidos da América era D. Tomás Xavier de Lima Teles da Silva, 1º Marquês de Ponte de Lima (13º Visconde de Vila Nova de Cerveira) Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra e Primeiro-ministro do governo.

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Diversas fontes afirmam ter exercido aqueles cargos entre 1 de Abril de 1786 e 15 de Dezembro de 1788. Porém, encontramos no Arquivo Nacional dos Estados Unidos da América uma carta datada de 16 de Julho de 1777, endereçada pelos Comissários Americanos ao Marquês de Ponte do Lima, contestando o encerramento dos portos de Portugal e todos os seus domínios aos navios daquele país. Àquela data reinava D. Maria I, tendo sucedido a D. José I que falecera em 24 de Fevereiro daquele ano.

A guerra da independência dos Estados Unidos da América ou seja, o conflito que opôs o Reino da Grã-Bretanha em relação às suas Treze Colónias na América do Norte, impunha a Portugal uma política de neutralidade em virtude da sua aliança com a Inglaterra. E, tal implicava o encerramento dos portos aos navios americanos. Uma política aliás, que veio a ser reeditada alguns anos mais tarde, no reinado de D. Maria I sob a regência de D. João VI na vã tentativa de persuadir Napoleão Bonaparte a não invadir Portugal.

Não obstante a neutralidade assumida aquando da Revolução Americana, Portugal apressou-se a reconhecer a independência dos Estados Unidos da América, tendo sido o primeiro país neutro a fazê-lo. Em 21 de Fevereiro de 1791, o presidente George Washington estabelece relações diplomáticas formais com o nosso país, nomeando o Coronel David Humphreys como embaixador. Os ingleses não devem ter ficado muito satisfeitos com a atitude algo precipitada da sua velha Aliada, a avaliar pela atitude poucos anos decorridos, do marechal William Beresford aquando das invasões francesas, ordenando a restituição a Espanha da praça de Olivença tomada pelos portugueses e permitindo que as tropas napoleónicas se retirassem levando consigo o produto das pilhagens.

Regressando à carta endereçada pelos “Comissários Americanos para o Marques de Ponte do Lima, [antes de 16 de Julho de 1777]” cujo original foi redigido em inglês, transcrevemos após a tradução possível para a Língua Portuguesa.

“Os Comissários Americanos para o Marques de Ponte do Lima, [antes de 16 de Julho de 1777]

Os Comissários Americanos para o Marquês de Ponte do Lima

Senhor,

O Congresso dos Estados Unidos da América viu com preocupação nos Jornais Públicos um Edital do falecido Rei de Portugal datado no Palácio da Ajuda: o 4 de julho de 1776, no qual os referidos Estados são falados em termos de Contumely, e todos os navios pertencentes ao seu povo então nos Portos de Portugal são ordenados a sair do mesmo em oito dias, e que, para o futuro, em todos os Portos dos Domínios Portugueses, nenhum Abrigo será dado a qualquer navio carregado ou em lastro proveniente de qualquer um dos Portos dos referidos Estados; mas, pelo contrário, eles devem ser repelidos dos referidos Portos, e na condição que eles entrem, sem dar-lhes o mínimo de sucurso de qualquer tipo.

Como uma longa amizade e comércio tem subsistido entre os portugueses e os habitantes da América do Norte, pelo qual Portugal foi abastecido com as mercadorias mais necessárias em troca de seus Superfluites, e não é o menor prejuízo já cometido ou mesmo tentado ou imaginado pela América para aquele Reino, os Estados Unidos não podem deixar de ficar surpresos ao encontrar não apenas o seu Comércio rejeitado, mas seus Navegadores que podem precisar de um Porto quando em Perigo recusam os direitos comuns da humanidade, uma conduta para os referidos Estados não apenas sem precedentes, mas que estamos confiantes de que não serão seguidos por qualquer outro poder na Europa: todos os outros tendo considerado nossa Diferença com e Separação da Inglaterra, como uma questão da qual eles não foram constituídos Juízes, e, portanto, não se comprometeram a condenar nenhuma das partes, sem audiência ou inquérito, mas permitir que nossos navios de todos os tipos tenham a mesma Liberdade de seus Portos que é permitido àqueles pertencentes à Inglaterra, e aos mesmos Privilégios de Comércio. Sendo, portanto, ministros do Congresso dos referidos Estados Unidos, fomos acusados por eles de representar em sua Corte seu sincero desejo de viver em paz com toda a Humanidade, e particularmente com sua Nação que eles sempre estimaram e respeitaram; e que eles esperam que seu Governo em sua Sabedoria reconsidere e revogue o referido Edital, e permita a Continuação da referida relação amigável e comercial entre seu Povo e o deles, que sempre foi tão vantajoso para ambos. Esta Representação que, por este meio, fazemos; e como uma parada precoce para o crescimento de mal-entendidos pode ter consequências benéficas para todos os envolvidos, não podemos deixar de esperar por uma resposta favorável e rápida. Com grande consideração, temos a honra de ser &c.

Para Sua Excelência, o Ministro das Relações Exteriores5

Áspero do Memorial a Portugal enviado por M. Castrioto”

[A numeração da nota segue a fonte franklin papers.]

  1. Uma breve biografia de Tomás Xavier de Lima Nogueira Vasconcelos Teles de Silva, visconde de Vila Nova de Cerveira e marquês de Ponte do Lima, secretário de Estado português para assuntos internos, está na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, e uma avaliação igualmente breve dele está em João Smith, Memórias do Marquês de Pombal... (2 vols., Londres, 1843), ii, 303. Esta carta tinha sido muito tempo na tomada, mas ele não tinha veja acima, xxii, 645; XXIII, 57, 611-13. Para Castrioto, que a levou para Lisboa em sua forma final, veja sua carta acima, 9 de julho.
  2. Na mão de BF; não há diferença consequente das cópias, exceto que nelas o endereço, em sua forma alterada, torna-se o título.
  3. A data de uma tradução francesa que o ministro português em Londres mais tarde transmitiu para Weymouth: Stevens, Facsímiles, v, nº 476, observa.
  4. O discurso foi alterado em outra mão para ler: "Para Vossa Excelência, o visconde de Ponte de Lima Ministro dos Assuntos do Reino de Portugal".

Entretanto, uma vez estabelecidas as relações diplomáticas entre Portugal e os Estados Unidos da América, o embaixador David Humphreys vai dando conta ao presidente Thomas Jefferson acerca da situação vivida em Portugal, tecendo considerações acerca da Rainha D. Maria I e do Marquês de Ponte de Lima.

A Revolução Francesa deflagra em 1789. A República Francesa é proclamada em 1792 e o rei Luís XVI é decapitado no ano seguinte. A realeza europeia entra em pânico.

Em carta data de 1 de fevereiro de 1792, o embaixador David Humphreys refere o seguinte: “A Rainha é naturalmente boa e deseja o melhor para sua nação. Mas ela também é politicamente inexperiente, tímida em exercer seu julgamento, e fortemente influenciada pelo primeiro-ministro, o Marquês de Ponte da Lima, e seu confessor. Ela faria melhor sem eles.— A corte fica em Salvaterra para onde a Rainha foi removida, por recomendação de seus médicos, depois de adoecer em meados de janeiro. Relatos sobre sua condição são confusos e contraditórios, e os atendentes do palácio foram proibidos de falar de sua saúde. Ele tem medo "de sussurros que ouvi de um quarto para depender, que sua doença é mais do tipo mental do que corpórea."”

Em 12 de agosto de 1792, o embaixador David Humphreys volta a transmitir ao seu presidente o seguinte: “Pessoas sensatas se desesperam com a recuperação total da Rainha. O Príncipe do Brasil parece não ter confiança em ninguém. Fransini, um italiano que era o preceptor matemático do príncipe e pensava-se que tinha influência com ele, deixou o reino, provavelmente por causa de seu desgosto pela crescente influência do primeiro-ministro, o Marquês de Ponte de Lima. O Marquês, o confessor da Rainha, e vários outros que foram excluídos da Rainha e sua corte através da influência do Dr. Willis devem se alegrar com a partida do médico. A nação é dedicada à família real, mas isso pode mudar se o príncipe não tiver um herdeiro porque "o jovem príncipe espanhol que provavelmente terá sucesso, não pode ter nenhuma reivindicação legal para a Coroa".”. Para além destas considerações, o embaixador concentra-se em aspectos comerciais relacionados sobretudo com produções agrícolas do milho e trigo.

Fonte: Arquivo Nacional dos Estados Unidos da América.

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TONY AMARAL: FUNDADOR E BENEMÉRITO DA COMUNIDADE PORTUGUESA DE PALM COAST (ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA)

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  • Crónica de Daniel Bastos

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos arquipélagos da Madeira e dos Açores, destaca-se hoje pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.

No seio da numerosa comunidade lusa nos EUA, segundo dados dos últimos censos americanos residem no território mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, destacam-se vários percursos de vida de compatriotas que alcançaram o sonho americano ("the American dream”).

Entre as várias trajetórias de portugueses que começaram do nada na América e ascenderam na escala social graças à capacidade de trabalho e de mérito, destaca-se o percurso inspirador e de sucesso de Tony Amaral, benemérito e fundador da comunidade portuguesa de Palm Coast.

Natural do concelho de Ovar, distrito de Aveiro, António Amaral emigrou para a América em 1964, com 13 anos de idade, na companhia da mãe e dos quatro irmãos, ao encontro da figura paterna que emigrara três anos antes em demanda de melhores condições de vida para uma família de lavradores marcada pelo espectro de grandes carências, na esteira da larga maioria da população que durante a ditadura portuguesa vivia na pobreza, quando não na miséria.

A chegada a Nova Jérsia, para onde o pai emigrara no alvorecer dos anos 60, e onde o jovem ovarense haveria de conhecer a esposa Maria, também emigrante, natural de Viseu, e com quem se casou aos 18 amos, marca o início de um percurso de vida de um verdadeiro “self-made man”, que começou por ajudar o pai na mercearia no nordeste dos EUA.

A capacidade empreendedora, impelida no limiar da década de 1980 pelos sobressaltos que viveu nessa época aquando de uma série de assaltos à sua loja, num período em que já era pai, levaram António Amaral, mais conhecido como Tony, em 1983 para Palm Coast, cidade localizada no estado da Flórida, no condado de Flagler, onde na altura já tinha um terreno.

Dotado de rasgo e visão, um ano depois Tony Amaral abriu em Palm Coast uma construtora, e começou a dedicar-se à compra e venda de terrenos. Em particular, a emigrantes lusos radicados em Nova Jérsia e Connecticut, numa época em que Flórida se assumia como uma terra de oportunidades, e Palm Coast, onde atualmente a comunidade luso-americana ronda os cinco mil habitantes, acolhia a chegada dos primeiros portugueses através da ação empreendedora nos sectores da construção e do imobiliário da Amaral Custom Homes.

O sentido de esforço, trabalho e dedicação, permitiram ao fundador da comunidade portuguesa de Palm Coast, construir nas últimas décadas um império empresarial com bases sólidas nas áreas da construção civil e imobiliário, que foi capaz de obter dividendos do crescimento populacional da Flórida, um dos maiores entre os estados americanos, e simultaneamente resistir à crise do subprime que acometeu os EUA na primeira década do séc. XXI.

Radicado há mais de cinquenta anos nos EUA, o sucesso que o empresário alcançou ao longo dos últimos anos no mundo dos negócios, tem sido acompanhado de uma singular dimensão benemérita em prol da comunidade luso-americana. O espírito solidário de Tony Amaral, fundamental para a construção do Portuguese American Cultural Center of Palm Coast, foi paradigmaticamente consubstanciado em 2006, quando o empresário ovarense constituiu a Fundação Amaral, que além de atribuir bolsas de estudo a jovens de origem portuguesa, possuiu igualmente uma vertente humanitária, expressa durante este período de pandemia no fornecimento a agregados carenciados de alimentos e produtos de higiene.

Os relevantes serviços de cidadania e o reiterado orgulho nas raízes portuguesas, sentimento pátrio que incitou Tony Amaral em 2017, no decurso dos incêndios de Pedrógão Grande, a dinamizar um movimento que arrecadou milhares de dólares para ajudar as vítimas, concorreram para que recentemente, no dia 25 de julho, Dia do Município de Ovar, a autarquia do distrito de Aveiro entregasse ao seu filho ilustre a Medalha Municipal Prata.

Uma das figuras mais proeminentes da comunidade luso-americana, o exemplo de vida de Tony Amaral, inspira-nos a máxima do escritor Franz Kafka: “A solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana”.

MANUEL EDUARDO VIEIRA: O “REI DA BATATA-DOCE” NA AMÉRICA

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  • Crónica de Daniel Bastos

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos arquipélagos da Madeira e dos Açores, destaca-se hoje pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.

No seio da numerosa comunidade lusa nos EUA, segundo dados dos últimos censos americanos residem no território mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, destacam-se vários percursos de vida de compatriotas que alcançaram o sonho americano ("the American dream”).

Entre as várias trajetórias de portugueses que começaram do nada na América e ascenderam na escala social graças a capacidades extraordinárias de trabalho, mérito e resiliência, destaca-se o percurso inspirador e de sucesso do comendador Manuel Eduardo Vieira, o maior produtor mundial de batata-doce biológica.

Natural de São João, freguesia do concelho de Lajes do Pico, arquipélago dos Açores, Manuel Eduardo Vieira antes de se fixar no território norte-americano, emigrou com 17 anos em 1962, no início do deflagrar da Guerra do Ultramar, para o Rio de Janeiro. Ao encontro de um tio, que o acolheu a pedido da mãe, e lhe permitiu estudar para além da 4.ª classe concluída no torrão natal, no seio de uma família humilde, com carências e enleada nas lides agrícolas.

A estadia no Brasil, que durou cerca de uma década, proporcionou ao picoense a formação na área de Contabilidade e Gestão, a experiência de trabalho de escritório em diversas empresas, o encontro com a futura esposa Laurinda, também emigrante, natural de Chaves, e foi ainda berço de nascimento dos seus três filhos.

A ida de Manuel Eduardo Vieira para os EUA ocorreria no começo dos anos 70, período em que os pais e o irmão Artur, já tinham emigrado para a Califórnia e onde trabalhavam no Vale de São Joaquim, numa empresa agrícola do tio António Vieira Tomás, que serviu de palco à sua primeira experiência profissional na área.

O esforço e o nunca desistir perante as dificuldades, patentes no facto de ter começado a estudar inglês à noite e a trabalhar no campo, durante o dia, forjaram um homem que conquistou a pulso o sonho americano. E que teve o impulso decisivo quando em 1977 o tio lhe fez a proposta de vender-lhe a A.V. Thomas Produce que produzia então batata-doce em cerca de 20 hectares de terreno, e tinha uma única linha de tratamento e de embalagem instalada num barracão na cidade de Livingston.

O duplo emigrante açoriano teve o engenho e arte de relançar a empresa, adquirida por 145 mil dólares, introduzindo técnicas pioneiras e inovadoras à produção da batata-doce, como a certificação de produção biológica em 1988, ou recentemente a batata-doce em embalagem individual e pronta a ir ao micro-ondas, e expandindo a propriedade que presentemente tem mais de 1200 hectares. Contexto que a transforma, segundo o departamento de Agricultura dos Estados Unidos, na maior produtora mundial de batata-doce biológica, com um volume de negócios que ultrapassa os 50 milhões de euros, e onde nas épocas da apanha, trabalham cerca de 900 trabalhadores, e que levou inclusive na década de 90 a cadeia de supermercados Safeway a oferecer a Manuel Eduardo Vieira uma placa de matrícula personalizada com as palavras King Yam “Rei da Batata-Doce”.

Empresário e empreendedor com uma trajetória marcada pelo mérito e pela inovação, premissas que levaram a que em 2013 vencesse a primeira edição do “Best Leader Awards (BLA) EUA” na categoria de “Lifetime Achievement”, e que dois anos antes, impeliu o então Presidente da República, Cavaco Silva, a atribuir-lhe a comenda da Ordem de Mérito, Manuel Eduardo Vieira mantém uma ligação umbilical à sua terra natal.

Ainda em 2017, foi inaugurada na praceta do Centro Social da Silveira, Lajes do Pico, onde foi o principal benemérito da obra do Salão do Centro Social, Cultural e Recreativo, uma estátua em sua homenagem e que eterniza igualmente a generosidade que tem repartido por diversas associações da ilha do Pico.

Radicado há cerca de cinquenta anos nos Estados Unidos da América, o sucesso que o emigrante picoense alcançou ao longo dos últimos anos no mundo dos negócios, tem sido acompanhado igualmente de um apoio constante à comunidade luso-americana, onde foi fundador e primeiro presidente da Sociedade Filarmónica Lira Açoriana de Livingston, da Casa dos Açores de Hilmar e da Igreja da Paróquia de Nossa Senhora da Assunção em Turlock.

Uma das figuras mais proeminentes da comunidade luso-americana, o exemplo inspirador e de sucesso do comendador Manuel Eduardo Vieira, encontra-se vertido numa das suas principais máximas de vida: “As coisas boas não aparecem facilmente, é preciso trabalhar duro para consegui-las. Se temos uma meta a atingir, não podemos desistir, porque com trabalho, organização e muita disciplina, tudo é possível”.

COMENDADOR JOSÉ MORAIS: UM "SELF-MADE MAN" LUSO-AMERICANO

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  • Crónica de Daniel Bastos

Uma das marcas mais características das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é a sua dimensão empreendedora, como corroboram as trajetórias de diversos compatriotas que criam empresas de sucesso e desempenham funções de relevo a nível cultural, social, económico e político.

Nos vários exemplos de empresários portugueses da diáspora, cada vez mais reconhecidos como uma mais-valia estratégica na promoção internacional do país, destaca-se o percurso inspirador e de sucesso do comendador José Morais, um dos mais ativos e notáveis empresários portugueses nos Estados Unidos da América.

Natural de Curalha, concelho de Chaves, José Morais emigrou para a América no início da década de 1950, aos 17 anos de idade, já casado, em demanda de melhores condições de vida, dada a estreiteza de horizontes do seu torrão natal, onde o fardo da pobreza, ruralidade e da interioridade durante a ditadura portuguesa era vivenciado por uma maioria de habitantes cultivadores da terra e pastores das suas vezeiras.

Depois de passar por New Bedford e Long Island, onde nasceram as três filhas, e ter começado por trabalhar numa fábrica de sapatos, José Morais estabeleceu-se mais tarde com a família em Manassas, na Virgínia, estado em que fundou uma empresa de construção civil e encetou um percurso de vida de um autêntico self-made man.

Detentor de um espirito indómito e de uma capacidade de trabalho infatigável, méritos coligidos no berço transmontano, José Morais construiu no último meio século um império empresarial nas áreas da construção civil, cimenteira e imobiliário, entre outros, contexto que concorre para que seja uma das figuras mais destacadas da comunidade luso-americana.

Empresário multifacetado, com uma trajetória marcada pelo mérito e resiliência, o self-made man luso-americano de raízes trasmontanas, que é também um colecionador de carros antigos, dedica-se presentemente, no estado da Virgínia, à produção de vinhos “Morais Vineyards”.

Radicado há mais cinquenta anos nos Estados Unidos da América, o sucesso que o emigrante flaviense alcançou ao longo dos últimos anos no mundo dos negócios, tem sido acompanhado de um apoio denodado à comunidade luso-americana, como é o caso do Virginia Portuguese Community Center, fundado em 1987 no centro de Manassas, a pouco mais de 50 quilómetros de Washington. Altruísmo que concorreu para que tenha sido durante mais de uma década membro do conselho das comunidades, e para que o então Presidente da República, Cavaco Silva, atribui-se-lhe as insígnias de comendador.

Uma das figuras mais proeminentes da comunidade portuguesa de Manassas, no estado de Virgínia, onde vivem e trabalham mais de dez mil luso-americanos, o comendador José Morais, que nunca esquece as suas raízes e nutre um bem-querer ativo pela sua terra natal, relembra-nos a máxima do magnata Jean Paul Getty: “O empresário verdadeiramente bem-sucedido é essencialmente um dissidente, um rebelde que raramente ou nunca está satisfeito com o status quo”.