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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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MANUEL EDUARDO VIEIRA: O “REI DA BATATA-DOCE” NA AMÉRICA

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  • Crónica de Daniel Bastos

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos arquipélagos da Madeira e dos Açores, destaca-se hoje pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.

No seio da numerosa comunidade lusa nos EUA, segundo dados dos últimos censos americanos residem no território mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, destacam-se vários percursos de vida de compatriotas que alcançaram o sonho americano ("the American dream”).

Entre as várias trajetórias de portugueses que começaram do nada na América e ascenderam na escala social graças a capacidades extraordinárias de trabalho, mérito e resiliência, destaca-se o percurso inspirador e de sucesso do comendador Manuel Eduardo Vieira, o maior produtor mundial de batata-doce biológica.

Natural de São João, freguesia do concelho de Lajes do Pico, arquipélago dos Açores, Manuel Eduardo Vieira antes de se fixar no território norte-americano, emigrou com 17 anos em 1962, no início do deflagrar da Guerra do Ultramar, para o Rio de Janeiro. Ao encontro de um tio, que o acolheu a pedido da mãe, e lhe permitiu estudar para além da 4.ª classe concluída no torrão natal, no seio de uma família humilde, com carências e enleada nas lides agrícolas.

A estadia no Brasil, que durou cerca de uma década, proporcionou ao picoense a formação na área de Contabilidade e Gestão, a experiência de trabalho de escritório em diversas empresas, o encontro com a futura esposa Laurinda, também emigrante, natural de Chaves, e foi ainda berço de nascimento dos seus três filhos.

A ida de Manuel Eduardo Vieira para os EUA ocorreria no começo dos anos 70, período em que os pais e o irmão Artur, já tinham emigrado para a Califórnia e onde trabalhavam no Vale de São Joaquim, numa empresa agrícola do tio António Vieira Tomás, que serviu de palco à sua primeira experiência profissional na área.

O esforço e o nunca desistir perante as dificuldades, patentes no facto de ter começado a estudar inglês à noite e a trabalhar no campo, durante o dia, forjaram um homem que conquistou a pulso o sonho americano. E que teve o impulso decisivo quando em 1977 o tio lhe fez a proposta de vender-lhe a A.V. Thomas Produce que produzia então batata-doce em cerca de 20 hectares de terreno, e tinha uma única linha de tratamento e de embalagem instalada num barracão na cidade de Livingston.

O duplo emigrante açoriano teve o engenho e arte de relançar a empresa, adquirida por 145 mil dólares, introduzindo técnicas pioneiras e inovadoras à produção da batata-doce, como a certificação de produção biológica em 1988, ou recentemente a batata-doce em embalagem individual e pronta a ir ao micro-ondas, e expandindo a propriedade que presentemente tem mais de 1200 hectares. Contexto que a transforma, segundo o departamento de Agricultura dos Estados Unidos, na maior produtora mundial de batata-doce biológica, com um volume de negócios que ultrapassa os 50 milhões de euros, e onde nas épocas da apanha, trabalham cerca de 900 trabalhadores, e que levou inclusive na década de 90 a cadeia de supermercados Safeway a oferecer a Manuel Eduardo Vieira uma placa de matrícula personalizada com as palavras King Yam “Rei da Batata-Doce”.

Empresário e empreendedor com uma trajetória marcada pelo mérito e pela inovação, premissas que levaram a que em 2013 vencesse a primeira edição do “Best Leader Awards (BLA) EUA” na categoria de “Lifetime Achievement”, e que dois anos antes, impeliu o então Presidente da República, Cavaco Silva, a atribuir-lhe a comenda da Ordem de Mérito, Manuel Eduardo Vieira mantém uma ligação umbilical à sua terra natal.

Ainda em 2017, foi inaugurada na praceta do Centro Social da Silveira, Lajes do Pico, onde foi o principal benemérito da obra do Salão do Centro Social, Cultural e Recreativo, uma estátua em sua homenagem e que eterniza igualmente a generosidade que tem repartido por diversas associações da ilha do Pico.

Radicado há cerca de cinquenta anos nos Estados Unidos da América, o sucesso que o emigrante picoense alcançou ao longo dos últimos anos no mundo dos negócios, tem sido acompanhado igualmente de um apoio constante à comunidade luso-americana, onde foi fundador e primeiro presidente da Sociedade Filarmónica Lira Açoriana de Livingston, da Casa dos Açores de Hilmar e da Igreja da Paróquia de Nossa Senhora da Assunção em Turlock.

Uma das figuras mais proeminentes da comunidade luso-americana, o exemplo inspirador e de sucesso do comendador Manuel Eduardo Vieira, encontra-se vertido numa das suas principais máximas de vida: “As coisas boas não aparecem facilmente, é preciso trabalhar duro para consegui-las. Se temos uma meta a atingir, não podemos desistir, porque com trabalho, organização e muita disciplina, tudo é possível”.

ENVELHECER NAS COMUNIDADES PORTUGUESAS

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  • Crónica de Daniel Bastos

Dentro dos desafios e problemáticas que as sociedades enfrentam na atualidade, o envelhecimento populacional assume uma cada vez maior premência, dadas as suas implicações coletivas e multidimensionais, como é o caso, do mercado laboral, da proteção social, das estruturas familiares ou dos laços intergeracionais.

Como apontam as Nações Unidas, o número de idosos, com 60 anos ou mais, deve duplicar até 2050 e mais do que triplicar até 2100, passando de 962 milhões em 2017 para 2,1 mil milhões em 2050 e 3,1 mil milhões em 2100. Se o envelhecimento populacional é um fenómeno mundial, na Europa assume maiores proporções, até porque, hoje em dia, o velho continente tem a maior percentagem da população com 60 anos ou mais (25%).

No quadro do inverno demográfico mundial e europeu, a sociedade portuguesa é uma das mais afetadas, apontando mesmo o Instituto Nacional de Estatística (INE) que quase metade da população portuguesa terá mais de 65 anos dentro de meio século. Este cenário de envelhecimento da população que reside no território nacional, também é visível no seio das comunidades lusas, em particular, nos países com maior e mais antiga tradição de emigração portuguesa.

Segundo o estudo sociológico, A emigração portuguesa no século XXI, a percentagem dos idosos entre os emigrantes lusos aumentou, por exemplo, no Canadá 11 pontos percentuais, passando de 17% para 28%, entre 2001 e 2011, e nos EUA aumentou sete pontos percentuais, de 16% para 23%. Crescimento elevado da percentagem dos idosos é ainda observável entre os emigrantes portugueses em França, destino europeu mais antigo. Essa percentagem duplicou, passando de 8% para 16% entre 2002 e 2011”.

É neste contexto de populações nacionais emigradas mais envelhecidas, que ganha especial relevância a iniciativa que está a ser por estes dias dinamizada no seio da comunidade portuguesa em Toronto, onde vive a maioria dos mais de 500 mil compatriotas e lusodescendentes presentes no Canadá. Designadamente, o projeto de construção a breve prazo de um centro, orçado em vários milhões de dólares, capaz de acolher mais de 200 idosos, especialmente direcionado para a comunidade portuguesa.

Este projeto, há muito ambicionado pelos emigrantes lusos na maior cidade canadiana, está a ser dinamizado pela Magellen Community Charities (Instituição de Caridade Comunitária Magalhães). Uma organização sem fins lucrativos, em homenagem ao navegador português, que através da colaboração do poder politico e da solidariedade da comunidade luso-canadiana, pretende construir um lar culturalmente específico que terá que cumprir as seguintes condições: profissionais de saúde que falem português; atividades cultural e espiritualmente desenvolvidas em ambiente cultural sensível; promoção de programas sociais e recreativos em português e alimentação que deve incluir pratos tradicionais.

Numa época de galopante envelhecimento da população, e em que os efeitos da pandemia de COVID-19 têm acarretado graves consequências socioeconómicas, a construção de uma “casa” para os mais velhos da comunidade luso-canadiana, demonstra que o espírito de solidariedade e entreajuda ainda é uma das principais marcas da diáspora, em particular, da comunidade portuguesa em Toronto.

ARCOS DE VALDEVEZ: ANTÓNIO JOAQUIM FERREIRA – NATURAL DA FREGUESIA DE S. JORGE – REQUEREU EM 1880 O PASSAPORTE PARA VIAJAR PARA O BRASIL

Em 1880, o arcuense António Joaquim Ferreira, natural da freguesia de S. Jorge, requereu passaporte para viajar para o Estado do Pará, no Brasil. Possuía na altura 31 anos de idade. A correspondência foi produzida entre 5 de Novembro de 1880 e 11 de Julho de 1890.

Fonte: ANTT

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MUSEU DA FAMÍLIA TEIXEIRA: UM TRIBUTO AO LEGADO MIGRATÓRIO LUSO-VENEZUELANO

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  • Crónica de Daniel Bastos

O arquipélago da Madeira, cais singular de chegadas e partidas no oceano Atlântico, tem sido, ao longo da história portuguesa, um dos territórios nacionais mais fortemente marcado pelo fenómeno da emigração.

Um dos principais destinos da emigração madeirense na segunda metade do séc. XX, foi indubitavelmente a Venezuela, país da América do Sul, onde se estima que vivam atualmente cerca de 400 mil emigrantes portugueses, conquanto os lusodescendentes possam ser 1,3 milhões, essencialmente radicados na capital, Caracas, e sobretudo ligados aos sectores da hotelaria, construção civil e alimentação.

O relevante legado histórico da emigração lusa para a pátria de Simón Bolívar, maioritariamente oriunda da Madeira, está desde o início da segunda década do séc. XXI plasmado na missão e visão do Museu da Família Teixeira, situado na Fajã da Murta, freguesia do Faial, no concelho de Santana.

Um espaço museológico concebido pelo empresário Anaclet Teixeira de Freitas, e que tem como principal desígnio homenagear e perpetuar a memória dos seus progenitores, Albino Teixeira e Conceição Caires, naturais de Fajã da Murta, e que nos anos 50, tal como milhares de conterrâneos, encetaram uma trajetória migratória familiar para a Venezuela à procura de melhores condições de vida.

Nos anos 60, com apenas sete anos de idade, Anaclet Teixeira, foi ao encontro dos pais em Caracas onde viria no alvorecer da década de 80 a especializar-se em gastronomia judaica-ortodoxa. Área alimentar, que aliada a uma incansável capacidade de trabalho, ao culto do mérito e a uma constante dedicação à família, permitiram-lhe construir um verdeiro império comercial, atualmente refletido nas conhecidas cadeias de lojas “Rey David” na capital venezuelana.

Detentor de vários investimentos na América Latina, assim como na sua terra natal, onde tem investido em hotéis e imobiliário, contexto que confluiu para que no passado dia 1 de julho, Dia da Região Autónoma da Madeira e das Comunidades Madeirenses, tenha sido agraciado pelo Governo Regional com a insígnia autonómica de bons serviços, Anaclet Teixeira erigiu em Fajã da Murta um espaço museológico que alberga as memórias, objetos, cartas e fotografias da família.

Um núcleo museológico, aberto ao público e com entrada gratuita, aformoseado por um jardim com vinte palmeiras trazidas do Egipto, uma capela, um coreto e uma adega, que ao preservar a história de vida da Família Teixeira, dinamiza e perpetua a memória histórica do fenómeno da emigração no Arquipélago da Madeira, em particular do legado migratório luso-venezuelano.

Como destaca a socióloga das migrações, Maria Beatriz Rocha-Trindade, no artigo Museus de Migrações – Porquê e para quem?, o Museu da Família Teixeira “constitui um espaço museológico revelador de muitos factos que se encontram intimamente ligados à vida pessoal de um migrante, que partiu para a Venezuela pelo chamamento do seu pai e que a partir daí construiu habilmente e de forma particularmente inteligente o sucesso obtido”.

O exemplo de vida Anaclet Teixeira, empreendedor de sucesso que apesar de várias vicissitudes da vida nunca olvida as suas raízes e família, como espelha a construção do museu dedicado a homenagear e perpetuar a memória dos seus pais, inspira-nos a máxima do ensaísta francês Joseph Joubert: “A memória é o espelho onde observamos os ausentes”.

PAREDES DE COURA: PROCESSO DE REQUERIMENTO DE PASSAPORTE DE ANTÓNIO JOSÉ RODRIGUES PARA VIAJAR PARA O BRASIL

À semelhança de muitos minhos, o courense António José Rodrigues, emigrou para o Brasil em 1890. Era natural de São Pedro de Formariz, filho de José dos Santos Rodrigues e Flora Rita Rodrigues e, já com a idade de 57 anos, viajou para o Rio de Janeiro. Os documentos que junto se reproduzem fazem parte do processo de requerimento do seu passaporte.

Fonte: ANTT

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POBREZA, PANDEMIA E SOLIDARIEDADE NA COMUNIDADE PORTUGUESA EM FRANÇA

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  • Crónica de Daniel Bastos

O impacto da pandemia que assola o mundo tem agravado e desvendado várias situações de emigrantes portugueses envoltos nas dificuldades do isolamento, das malhas da pobreza, do flagelo do desemprego e da precariedade.

Nos últimos tempos, têm sido conhecidos, por exemplo, no seio da comunidade portuguesa em França, a mais numerosa das comunidades lusas na Europa, rondando um milhão de pessoas, vários casos de emigrantes que viram a pandemia reduzir os seus salários ou ficarem mesmo sem trabalho, não conseguindo por via disso pagar a renda da casa e consequentemente soçobrar perante o espectro da pobreza.

Ainda no final do mês de junho, o Presidente do Conselho Fiscal da Misericórdia de Paris, Manuel Antunes da Cunha, revelou no decurso das XI Jornadas Sociais da Santa Casa da Misericórdia de Paris, que seis portugueses, entre os 38 e 82 anos, encontram-se entre as 535 pessoas que morreram nas ruas de França em 2020. Segundo o dirigente da instituição de assistência social lusa em Paris, região onde pereceram cinco mendigos portugueses no ano passado, muitas das vezes olvidamos os compatriotas “cujos percursos de vida não foram os desejáveis para eles e, portanto, em situações de pandemia, aqueles que estão no limiar da pobreza ou têm uma vida remediada rapidamente se encontram em situações de precariedade”. No entendimento do mesmo, a “pandemia põe à vista as dificuldades de uma população que está na fronteira do limiar da pobreza. Há um conjunto de pessoas da nova migração para França que vieram em condições difíceis e não têm retaguarda familiar”.

Este cenário de intrincadas dificuldades decorrentes do cenário pandémico tem sido essencialmente mitigado no seio da comunidade portuguesa em França através de um enorme espírito entreajuda e solidariedade, que tem inclusivamente contribuído decisivamente para a prossecução da missão da instituição de assistência social lusa em Paris. Ainda no ocaso do mês de junho, o coletivo “Todos Juntos”, voltou a mobilizar-se para ajudar a Santa Casa da Misericórdia de Paris numa campanha de recolha de géneros alimentícios, produtos de higiene e outros bens essenciais destinados a apoiar famílias portuguesas carenciadas

Este espírito de entreajuda e solidariedade tem sido igualmente profusamente dinamizado ao longo dos últimos anos pela ação benemérita do empresário luso-francês João Pina, instituidor da Fundação “Nova Era Jean Pina”, e que tem sido responsável pela promoção de projetos de cariz sociocultural em prol das pessoas mais desfavorecidas ou vulneráveis, como idosos, crianças institucionalizadas e desempregados. Ainda recentemente, a Fundação Nova Era, assinou um contrato de aluguer de um apartamento que albergou um lusodescendente, residente em França, que se encontrava há vários meses a residir num espaço sem as condições mínimas de habitabilidade.

Estes exemplos inspiradores de entreajuda e solidariedade, e muitos outros que estão a ser dinamizados no seio da comunidade portuguesa em França, assim como um pouco toda a diáspora lusa, têm sido fundamentais para mitigar os efeitos adversos da pandemia, e dão sentido à citação do afamado advogado Clarence Darrow: “O homem que luta por outro é melhor do que aquele que luta por si próprio”.

O MUSEU ETNOGRÁFICO PORTUGUÊS NA AUSTRÁLIA

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  • Crónica de Daniel Bastos

A comunidade portuguesa na Austrália, cujas raízes remontam à segunda metade do séc. XX com a chegada de um grupo de emigrantes da Ilha da Madeira à cidade portuária de Freemantle, destaca-se atualmente pela sua perfeita integração no continente-ilha, situado no hemisfério sul, na Oceânia.

Conquanto, os dados oficiais apontem para que vivam hoje pouco mais de 55 mil portugueses na Austrália, a comunidade lusa encontra-se disseminada por metrópoles como Perth, Melbourne ou Sydney, onde é possível encontrar centros culturais e recreativos, restaurantes e bairros onde se pode falar exclusivamente a língua de Camões.

A herança cultural lusa no território australiano é voluntariamente dinamizada e preservada, desde 10 de junho de 1997, pelo Museu Etnográfico Português na Austrália. Um espaço museológico, inaugurado nesse ano em Camperdown, o bairro de maior concentração de portugueses na cidade de Sydney, através de um grupo de compatriotas decididos a promover a cultura e tradições nacionais, não só no seio da comunidade lusa na Austrália, mas como também das diversas comunidades que constituem esta nação que se destaca pelo seu multiculturalismo.

O Museu Etnográfico Português na Austrália, que é ao mesmo tempo um centro cultural que dinamiza exposições temporárias, teatro, música e conferências, fomentando assim a coesão e identidade portuguesa junto dos emigrantes e lusodescendentes, alberga inúmeras réplicas e símbolos da pátria de origem. Como por exemplo, réplicas de caravelas, trajes do Minho, Madeira e de varinas de Lisboa, guitarras, olaria alentejana, rendas de bilros ou tapetes de Arraiolos.

O espólio do Museu Etnográfico Português na Austrália, que convida a uma viagem pelas culturas e tradições nacionais, tem sido ao longo das últimas décadas enriquecido com objetos doados ou emprestados por membros da comunidade luso-australiana, assim como pelo envio por parte de várias câmaras municipais de artigos alusivos às culturas e tradições dos seus concelhos.

O papel relevante da instituição na preservação e transmissão da herança cultural portuguesa na Austrália concorreu para quem em março de 2018, no decurso de uma visita oficial à Oceânia, o então Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Luís Carneiro, tenha atribuído a Placa de Mérito das Comunidades ao Museu Etnográfico Português na Austrália.

Enquanto espaço singular que concomitantemente dignifica a presença portuguesa na Austrália, valoriza a comunidade luso-australiana e divulga a língua e cultura pátria no continente-ilha, o Museu Etnográfico Português na Austrália constitui-se como um exemplo inspirador para as comunidades portuguesas no mundo, principalmente naquilo que deve ser o respeito pelo seu passado, a construção do seu presente e a projeção do seu futuro.

DANIEL BASTOS É O NOVO EMBAIXADOR DA FUNDAÇÃO "NOVA ERA JEAN PINA"

O escritor e historiador Daniel Bastos, que ao longo dos últimos anos tem publicado vários livros no domínio da História e Emigração, cujas sessões de apresentação o têm colocado em contacto estreito com as Comunidades Portuguesas, é o novo embaixador da Fundação “Nova Era Jean Pina”.

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O historiador Daniel Bastos (dir.), acompanhado do empresário benemérito João Pina, instituidor da Fundação “Nova Era Jean Pina”

A Fundação “Nova Era Jean Pina”, constituída em 2019, por um dos mais dinâmicos e beneméritos empresários portugueses em França, João Pina, administrador do Grupo Pina Jean, sediado nos arredores de Paris, um grupo empresarial com atividades em áreas como a construção civil, limpeza e reciclagem de resíduos, que tem dinamizado relevantes iniciativas de ação social no território francês e nacional, assume como principal missão a promoção de uma cultura e rede de solidariedade nas Comunidades Portuguesas.

Sob o lema “Solidariedade em Movimento”, e sustentando que “a solidariedade não tem fronteiras”, a Fundação “Nova Era Jean Pina”, que tem vários membros dos seus órgãos sociais espalhados pela França, Bélgica, Estados Unidos da América e Brasil, visa com o convite endereçado ao escritor e historiador Daniel Bastos para embaixador da instituição, reforçar no seio da Diáspora, a promoção, apoio e desenvolvimento de projetos de solidariedade em prol das pessoas mais desfavorecidas ou vulneráveis, como idosos, crianças institucionalizadas e desempregados.

COMENDADOR JOSÉ MORAIS: UM "SELF-MADE MAN" LUSO-AMERICANO

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  • Crónica de Daniel Bastos

Uma das marcas mais características das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é a sua dimensão empreendedora, como corroboram as trajetórias de diversos compatriotas que criam empresas de sucesso e desempenham funções de relevo a nível cultural, social, económico e político.

Nos vários exemplos de empresários portugueses da diáspora, cada vez mais reconhecidos como uma mais-valia estratégica na promoção internacional do país, destaca-se o percurso inspirador e de sucesso do comendador José Morais, um dos mais ativos e notáveis empresários portugueses nos Estados Unidos da América.

Natural de Curalha, concelho de Chaves, José Morais emigrou para a América no início da década de 1950, aos 17 anos de idade, já casado, em demanda de melhores condições de vida, dada a estreiteza de horizontes do seu torrão natal, onde o fardo da pobreza, ruralidade e da interioridade durante a ditadura portuguesa era vivenciado por uma maioria de habitantes cultivadores da terra e pastores das suas vezeiras.

Depois de passar por New Bedford e Long Island, onde nasceram as três filhas, e ter começado por trabalhar numa fábrica de sapatos, José Morais estabeleceu-se mais tarde com a família em Manassas, na Virgínia, estado em que fundou uma empresa de construção civil e encetou um percurso de vida de um autêntico self-made man.

Detentor de um espirito indómito e de uma capacidade de trabalho infatigável, méritos coligidos no berço transmontano, José Morais construiu no último meio século um império empresarial nas áreas da construção civil, cimenteira e imobiliário, entre outros, contexto que concorre para que seja uma das figuras mais destacadas da comunidade luso-americana.

Empresário multifacetado, com uma trajetória marcada pelo mérito e resiliência, o self-made man luso-americano de raízes trasmontanas, que é também um colecionador de carros antigos, dedica-se presentemente, no estado da Virgínia, à produção de vinhos “Morais Vineyards”.

Radicado há mais cinquenta anos nos Estados Unidos da América, o sucesso que o emigrante flaviense alcançou ao longo dos últimos anos no mundo dos negócios, tem sido acompanhado de um apoio denodado à comunidade luso-americana, como é o caso do Virginia Portuguese Community Center, fundado em 1987 no centro de Manassas, a pouco mais de 50 quilómetros de Washington. Altruísmo que concorreu para que tenha sido durante mais de uma década membro do conselho das comunidades, e para que o então Presidente da República, Cavaco Silva, atribui-se-lhe as insígnias de comendador.

Uma das figuras mais proeminentes da comunidade portuguesa de Manassas, no estado de Virgínia, onde vivem e trabalham mais de dez mil luso-americanos, o comendador José Morais, que nunca esquece as suas raízes e nutre um bem-querer ativo pela sua terra natal, relembra-nos a máxima do magnata Jean Paul Getty: “O empresário verdadeiramente bem-sucedido é essencialmente um dissidente, um rebelde que raramente ou nunca está satisfeito com o status quo”.

GÉRALD BLONCOURT: O FOTÓGRAFO DA EMIGRAÇÃO PORTUGUESA

  • Crónica de Daniel Bastos

No rescaldo do dia 10 de junho, em que se comemorou o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, este ano ainda marcadas pelos efeitos de isolamento social decorrentes da pandemia de coronavírus, assoma na memória coletiva nacional a figura cimeira do fotógrafo Gérald Bloncourt (1926-2018), um dos grandes nomes da fotografia humanista, cujas amplamente conhecidas imagens que imortalizam a história da emigração portuguesa para França, representam um contributo fundamental para uma melhor compreensão e representação do nosso passado recente.

Colaborador de jornais de referência no campo social e sindical, o antigo fotojornalista franco-haitiano que esteve radicado em Paris mais de meio século, teve o condão de retratar a chegada das primeiras levas massivas de emigrantes portugueses a França nos anos 60. A lente humanista do fotógrafo com dotes poéticos captou com particular singularidade as duras condições de vida dos nossos compatriotas nos bairros de lata nos arredores de Paris, conhecidos como bidonvilles, como os de Saint-Denis ou Champigny, com condições de habitabilidade deploráveis, sem eletricidade, sem saneamento nem água potável, construídos junto das obras de construção civil.

Igualmente relevantes são as imagens que Bloncourt captou durante a sua primeira viagem a Portugal nos anos 60, onde retratou o quotidiano das cidades de Lisboa, Porto e Chaves. Assim como as da viagem a “salto” que fez com emigrantes além Pirenéus, e as dos primeiros dias de liberdade em Portugal, como as das comemorações do 1.º de Maio de 1974 em Lisboa, acontecimento que permanece ainda hoje como a maior manifestação popular da história portuguesa.

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Entre 2015 e 2019, o historiador Daniel Bastos (esq.) concebeu e realizou os livros “O Olhar de Compromisso com os filhos dos Grandes Descobridores” e “Dias de Liberdade em Portugal”, que eternizam, respetivamente, o valioso espólio fotográfico de Gérald Bloncourt (dir.)

O trabalho fotográfico de Bloncourt sobre a emigração e a génese da democracia portuguesa constitui um valioso repositório do último meio século nacional, que resgata das penumbras do esquecimento os protagonistas anónimos da história nacional que lutaram aquém e além-fronteiras pelo direito a uma vida melhor e à liberdade.

O trabalho e percurso de vida do fotógrafo francês de origem haitiana, que durante mais de vinte anos escreveu com luz a vida dos portugueses em França e Portugal, foram em 2016 distinguidos pelo Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa. No âmbito das Comemorações do 10 de junho em Paris, cujas comemorações oficiais nesse ano aconteceram pela primeira vez numa cidade fora do país, modelo de celebração junto das comunidades portuguesas que há dois anos não tem sido possível concretizar por parte do mais alto magistrado da Nação devido à pandemia global criada pela covid-19, o aclamado fotógrafo foi condecorado na cidade simbólica de Champigny, com a ordem de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

Como realçou o chefe de Estado português, aquando do perecimento de Gérald Bloncourt, "há um dever de memória" em evocar o trabalho com a emigração portuguesa do fotojornalista franco-haitiano, porquanto o mesmo “foi uma das testemunhas do duro quotidiano dos compatriotas que viveram os primeiros anos da maior vaga de emigração para França, sendo simultaneamente amigo e companheiro de tantos portugueses que ali construíram o seu futuro”.

10 DE JUUNHO, O DESAFIO DA ESPERANÇA NAS COMUNIDADES PORTUGUESAS

  • Crónica de Daniel Bastos

Ainda que já consigamos vislumbrar a luz ao fundo do túnel, os efeitos de isolamento social derivados do cenário pandémico global que vivemos há sensivelmente dois anos, concorrem para que uma vez mais as comemorações do Dia de Portugal no seio das Comunidades Portuguesas, as mais genuínas manifestações de amor à pátria lusa, decorram numa configuração mais simples e simbólica.

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Como no território nacional, onde o 10 de junho será assinalado oficialmente na Região Autónoma da Madeira, sem comemorações no estrangeiro pelo segundo ano consecutivo, sendo que este ano esteve previsto que acontecessem também na Bélgica, as celebrações no seio da Diáspora prosseguirão num modelo minimalista mas não menos afetivo.

Antevêem-se portanto, uma vez mais, comemorações simbólicas do Dia de Portugal, com recurso às plataformas digitais como meio de mitigar o isolamento social, assim como singelas cerimónias presenciais onde o hastear da bandeira e o entoar do hino nacional decorrerão com poucas pessoas e regras sanitárias.

Na antecâmara das comemorações de mais um 10 de junho, e perante o contínuo impacto social da pandemia que entrava o normal quotidiano das sociedades, urge uma ampla reflexão aquém e além-fronteiras sobre o futuro das Comunidades Portuguesas, tanto que persistem os casos de dificuldades no seu movimento associativo.

Dificuldades que se arrastam perante a impossibilidade de realização de eventos e iniciativas, como é o exemplo cimeiro do Dia de Portugal, e que são em muitos casos indispensáveis para a obtenção de receitas que permitem custear o normal funcionamento das associações, como seja o pagamento da água, luz, rendas dos espaços ou a sua manutenção.

O risco de fecho definitivo de diversas associações no seio das Comunidades Portuguesas é real, e é ainda agravado pela problemática do envelhecimento dos seus quadros dirigentes, da maioria dos seus associados e da escassa participação dos lusodescendentes.

Este risco de erosão associativo no seio da Diáspora só não tomou ainda dimensões alarmantes, devido ao espírito de engenho e solidariedade dos emigrantes portugueses, em particular, da resiliência, dedicação, esforço e carolice dos associados e dirigentes das associações lusas, assim como dos seus patrocinadores e empresários mecenas que têm dado um contributo vital na sobrevivência do movimento associativo.

Este momento delicado que o movimento associativo da Diáspora atravessa, se por um lado demanda junto das autoridades governativas das pátrias de origem e de acolhimento um reforço de apoios extraordinários destinados às ações e projetos das associações. Por outro lado, impele que as forças vivas do movimento associativo das Comunidades Portuguesas coloquem definitivamente em cima da mesa, não só, quando a vida voltar a breve trecho a normalizar, a diversificação de atividades capazes de conciliarem a cultura tradicional enraizada nas coletividades com novas dimensões socioculturais que possam atrair as jovens gerações de lusodescendentes.

Como também a adoção de um novo modelo de atuação e organização das associações, que necessariamente terá que passar, em vários quadrantes da geografia da Diáspora, por um paradigma de partilha de uma “casa comum”, capaz de reunir num só espaço com dignidade e dimensão a valiosa argamassa identitária das Comunidades Portuguesas.

Um modelo de “Casa de Portugal”, de portas sempre abertas a tudo e a todos, com uma agenda capaz de congregar as diversas sinergias do movimento associativo e de potenciar o coletivo, a união e os parcos recursos humanos e financeiros, em prol da cultura portuguesa.

Que perante as adversidades que nos últimos dois anos temos enfrentado, em particular, o movimento associativo das Comunidades Portuguesas, saibamos com esperança e solidariedade fazer das fraquezas forças, dos desafios oportunidades, para assim construirmos um futuro melhor, e em breve nos encontrarmos todos, presencialmente, em torno na Bandeira Portuguesa.

A todos os portugueses, aquém e além-fronteiras, um Feliz Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

A PRESENÇA PORTUGUESA NO MUSEU DA IMIGRAÇÃO EM PARIS

  • Crónica de Daniel Bastos

A presença da comunidade portuguesa em França, a mais numerosa das comunidades lusas na Europa e uma das principais comunidades estrangeiras, estabelecidas no território gaulês, rondando um milhão de pessoas, ocupa um papel de destaque no Museu Nacional da História da Imigração em Paris.

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Fundado em 2007 e inserido no projeto da Cidade Nacional da História da Imigração, a exposição permanente do Museu da Imigração em Paris, composta por documentos de arquivo, imagens, obras de arte, objetos da vida diária e testemunhos visuais e sonoros que demandam (re)conhecer o contributo da imigração em França, é enriquecida por diversos fragmentos alusivos ao contributo da emigração lusa no desenvolvimento do território e da sociedade gaulesa.

Entre eles, destacam-se as peças cedidas pelo saudoso conselheiro das comunidades portuguesas José Batista de Matos, mormente o passaporte, a marmita do almoço e o capacete que este usou nas obras do metro de Paris, onde trabalhou trinta anos e ajudou a construir mais de duas dezenas de estações na capital francesa.

O espólio alusivo ao papel e importância da comunidade portuguesa é ainda ilustrado por vários esquemas de diapositivos, uma entrevista a um emigrante luso realizada nos anos 60, recordações, malas e fotografias, como a de um grupo de ranchos do Alto Minho que se encontra inserida na secção "vida de cá, vida de lá".

Refira-se que desde a sua génese, um dos membros do Conselho Científico e de Orientação do Museu Nacional da História da Imigração em Paris, é o sociólogo português Manuel Dias, Presidente do Comité Francês Aristides de Sousa Mendes e da Associação Aquitânia, que ao longo das últimas décadas tem dinamizado relevantes iniciativas em prol das relações culturais luso-francesas.

Como foi o caso em 2016, do centenário do acordo de mão-de-obra franco-português e a participação portuguesa na Grande Guerra, efeméride que computou a dinamização, no espaço museológico, de um colóquio e de uma exposição de fotografia sobre "Os Portugueses na Grande Guerra". Ou em 2019, da homenagem póstuma que a comunidade portuguesa em França prestou, no mesmo espaço, a Gérald Bloncourt, fotógrafo franco-haitiano que imortalizou a história da emigração lusa para o território gaulês.

Mais de que um estabelecimento cultural, científico e educacional dedicado à história e às culturas da imigração em França, o Museu Nacional da História da Imigração em Paris, como sustenta a etnóloga e antropóloga social Andréa Delaplace, é “um espaço borbulhante de discussões e espetáculos vivos no qual as diferentes culturas da imigração podem se expressar. Um verdadeiro fórum, uma verdadeira Cité, pólis, no sentido grego do termo”.

JOE SILVEY, UM PIONEIRO DA SOCIEDADE MULTICULTURAL NO CANADÁ

  • Crónica de Daniel Bastos

Estabelecida em grande parte da América do Norte, a sociedade canadiana destaca-se pela sua génese multiculturalista, intrinsecamente associada ao facto de possuir um dos maiores índices de desenvolvimento humano. Na base da mescla de grupos, idiomas e culturas étnicas que coexistem no Canadá, encontra-se o pioneirismo luso, que muito antes do fluxo migratório das décadas de 1950-60, teve no cabouqueiro Joe Silvey um percursor da presença portuguesa no território.

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Natural dos Açores, Joe Silvey ou José Silva, terá deixado a ilha do Pico em 1846, ainda a entrar na adolescência, embarcando num barco baleeiro americano. Esfumada a quimera do ouro que levou à época infindos aventureiros à Califórnia, instalou-se na Columbia Britânica por volta de 1860, onde veio a unir-se a Khaltinaht, neta do chefe índio Kiapilano, e de cuja relação nasceu a filha, Elizabeth, a primeira criança de sangue europeu nascida em Vancouver. Joe acabaria por se tornar, em 1867, o primeiro europeu a receber a nacionalidade canadiana, tendo por essa altura aberto em Gastown um saloon chamado The Hole in the Wall (O Buraco na Parede).

Após a morte da sua primeira mulher, o açoriano natural do Pico vendeu o saloon e instalou-se em Stanley Park, onde se dedicou à pesca, tendo sido o primeiro a conseguir uma licença oficial para pescar com a técnica da rede de cerco. Até à sua morte em 1802, Joe casou-se ainda com a índia salish conhecida como Lucy, de quem teve dez filhos, fixando-se em Read Island, onde comprou um vasto terreno e partilhou parte da sua prosperidade derivada da atividade piscatória com a comunidade local.

O pioneirismo de Joe Silvey na construção da sociedade multicultural no Canadá levou a que em 25 de abril de 2015 a Câmara de Vancouver, onde vivem e trabalham milhares de emigrantes portugueses, inaugura-se em Stanley Park um monumento em sua homenagem. Este pioneirismo foi também há poucos anos alvo de tributo em Portugal, através da inauguração, no final do mês de junho, de uma estátua em Belém, executada pelo escultor Luke Marston, trineto de Joe, e um profundo conhecedor das suas raízes lusas.

Com o aproximar das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, este ano ainda marcadas pelo contexto de pandemia, a memória histórica da figura Joe Silvey, um pioneiro da sociedade multicultural no Canadá, recorda-nos nos tempos complexos que vivemos como a capacidade de superação e de aprendizagem com os desafios é essencial na construção do nosso presente e futuro coletivo.

MUSEU HISTÓRICO DE SÃO JOSÉ: UM ESPAÇO DEDICADO À HERANÇA CULTURAL PORTUGUESA NA CALIFÓRNIA

  • Crónica de Daniel Bastos

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos Arquipélagos dos Açores e da Madeira, destaca-se atualmente pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.

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Atualmente, segundo dados dos últimos censos americanos, residem nos EUA mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, principalmente concentrados em Massachusetts, Rhode Island, Nova Jérsia e Califórnia. É neste último estado, que vive e trabalha a maior comunidade luso-americana do país, constituída por mais de 300 mil pessoas, e cuja presença histórica no oeste dos EUA remonta à centúria oitocentista, aquando da corrida ao ouro, da dinamização da pesca da baleia e do atum, e mais tarde das atividades ligadas à agropecuária.

A secular presença portuguesa na Califórnia, que se manifesta hodiernamente na existência de diversas associações, clubes e fundações luso-americanas, esteve na base da inauguração a 7 de junho de 1997, na antecâmara do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, do Museu Histórico de São José.

Erigido pela Sociedade da Herança Portuguesa da Califórnia, o museu, que ocupa um espaço de 650 metros quadrados, possuiu uma forte componente dedicada à emigração portuguesa para a Califórnia, às suas tradições, em especial religiosas. De tal modo, que o edifício constitui uma réplica do primeiro Império (Capela do Espírito Santo), à volta da qual se desenvolvem as festividades do Espírito Santo.

O Museu Histórico de São José alberga um conjunto de várias exposições que perpassam a história da emigração portuguesa para a Califórnia e o papel da comunidade lusodescendente num dos mais prósperos estados norte-americanos. O papel e importância da comunidade portuguesa concorreram decisivamente para que há dois anos fosse oficialmente inscrita na legislatura estadual da Califórnia, após aprovação unânime no Senado, uma resolução a declarar junho de 2019 como "Mês da Herança Nacional Portuguesa".

Enquanto espaço singular que homenageia e perpetua a herança cultural lusa nos Estados Unidos da América, em particular na Califórnia, o Museu Histórico de São José constitui-se como um exemplo inspirador para as Comunidades Portuguesas disseminadas pelo mundo, principalmente naquilo que deve ser o respeito pelo seu passado, a construção do seu presente e a projeção do seu futuro.

LIVRARIA PORTUGUESA DE MACAU: UMA VITRINA DA CULTURA LUSÓFONA NO ORIENTE

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  • Crónica de Daniel Bastos

No atual contexto de crise, originado pela pandemia da Covid-19 e os efeitos do confinamento social, as livrarias, espaços incontornáveis de cultura e cidadania, travam diariamente, no território nacional e nas comunidades portuguesas no mundo, hercúleas batalhas de sobrevivência.

Muitas são as que no decurso dos últimos tempos pereceram no campo de batalha, soçobrando às incursões da concorrência de grandes cadeias, à forte pressão nas rendas do mercado imobiliário, à falta de apoios ou à alteração do modo de ler, que já não se cinge exclusivamente a ler o livro em papel.

No entanto, ainda há quem resista, insistindo em manter as portas abertas apesar das incessantes contrariedades, quais faróis de uma sociedade em que nunca foi tão necessário parar para ler, refletir e cultivar a sabedoria. É o caso da Livraria Portuguesa de Macau, uma das principais vitrinas da cultura lusófona no Oriente, que para além de funcionar como local de venda de livros e de outros produtos culturais, organiza regularmente sessões de apresentação de livros e exposições. 

Fundada em 1985 pelo Instituto Cultural de Macau, numa época em que o território asiático ainda se encontrava sob administração lusa, a Livraria Portuguesa de Macau é atualmente detida pelo Instituto Português do Oriente  (IPOR). Uma entidade pública empresarial nacional, que assume como missão central preservar e difundir a língua portuguesa e a cultura lusófona no Oriente, com vista à continuidade e aprofundamento do diálogo intercultural.

Enfrentando as diversas dificuldades com que as estruturas livreiras se debatem quotidianamente, a que assomam os problemas relacionados com a importação de livros a partir do país, mormente a distância e o custo do transporte, a Livraria Portuguesa de Macau persiste na dinamização de iniciativas e atividades direcionadas para a comunidade portuguesa em Macau.

Mas para além da comunidade lusa em Macau, cifrada em milhares de compatriotas, a Livraria Portuguesa tem procurado simultaneamente atrair um público mais vasto, de residentes de Macau que não dominam a língua de Camões e também de turistas que visitam a região autónoma chinesa.

Enquanto espaço relevante de promoção da língua portuguesa, o quarto idioma mais falado no mundo como língua materna (depois do mandarim, do inglês e do espanhol), e que está a conquistar cada vez mais estudantes chineses, segundo dados recentes do Instituto Camões atualmente cerca de cinco mil chineses estudam português em 47 universidades, a Livraria Portuguesa de Macau desempenha uma missão fundamental na dinamização da cultura lusófona no Oriente, assim como no fortalecimento das relações interculturais luso-chinesas.

IN MEMORIAN FERNANDO CRUZ GOMES

  • Crónica de Daniel Bastos

No decurso da semana passada assinalaram-se os 82 anos do nascimento de Fernando Cruz Gomes, saudoso decano dos jornalistas da comunidade portuguesa no Canadá, falecido em 2018, e que era um dos rostos mais conhecidos da numerosa prole luso-canadiana que vive e trabalha em Toronto.

Natural da vila de Pampilhosa da Serra, no distrito de Coimbra, Fernando Cruz Gomes, iniciou nos finais dos anos 50 a sua vida profissional como jornalista, no vetusto “Primeiro de Janeiro”, um jornal diário que se publicou na cidade do Porto. Mas foi em solo africano, mais concretamente em Angola, antiga província ultramarina portuguesa, onde residiu durante 25 anos, que o seu trabalho jornalístico ganhou amplitude e profundidade, através do desempenho de funções em diversos meios de comunicação, jornais e rádios, como o "ABC Diário de Angola", a "Rádio Eclésia", no diário de Luanda "O Comércio", "A Província de Angola" (atual “Jornal de Angola”), no "Rádio Clube de Benguela" e na "Emissora Oficial de Angola".

No início da Guerra do Ultramar em Angola, a 15 de março de 1961, Fernando Cruz Gomes, chegou a acompanhar sozinho os combates entre as Forças Armadas Portuguesas e os Movimentos de Libertação deste território da costa ocidental de África. Durante o seu percurso jornalístico por terras africanas, o profissional de comunicação social, foi ainda presidente da secção de Angola do Sindicato Nacional de Jornalistas, onde se manteve até finais de 1974.

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O historiador Daniel Bastos (esq.), cujo percurso tem sido alicerçado no seio das Comunidades Portuguesas, entrevistado em 2014 pelo jornalista Fernando Cruz Gomes (dir.) na Galeria dos Pioneiros Portugueses em Toronto

 A sua chegada ao Canadá ocorreu em 1975, ano do conturbado processo de descolonização. Na nova pátria de adoção, foi fundador e diretor de jornais comunitários, como "Popular", "Comércio", "Mundo", “ABC Portuguese Canadian Newspaper” e "A Voz", e editor e repórter na CIRV Rádio e na FPTV.

As suas multifacetadas funções jornalísticas em Toronto, inclusive de correspondente durante vários anos da Lusa, foram fundamentais para a promoção e conhecimento da língua, cultura e pulsar da comunidade luso-canadiana. E estiveram na base do justíssimo reconhecimento de que foi alvo em 2014, com a atribuição da Ordem do Infante D. Henrique pelos serviços relevante que prestou à pátria de Camões.

A vida e obra de Fernando Cruz Gomes, que se encontram vertidas no livro Um Homem Novo Por entre os horrores da guerra, cuja edição a título póstumo em 2019 constituiu uma homenagem sentida da família e da comunidade portuguesa em Toronto, recordam a citação afetuosa do escritor brasileiro Coelho Neto: “a saudade é a memória do coração”.

ILDEBERTO MEDINA – UM EXEMPLO DE CONQUISTA DO SONHO AMERICANO

  • Crónica de Daniel Bastos

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos Arquipélagos dos Açores e da Madeira, destaca-se hoje pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.

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Atualmente, segundo dados dos últimos censos americanos, residem nos EUA mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, principalmente concentrados na Califórnia, Massachusetts, Rhode Island e Nova Jérsia. A grande maioria da população luso-americana trabalha por conta de outrem, na indústria, mas são já muitos os que trabalham nos serviços ou se destacam na área científica, no ensino, nas artes, nas profissões liberais e nas atividades politicas.

No seio da numerosa comunidade lusa nos EUA, onde proliferam centenas de associações recreativas e culturais, clubes desportivos e sociais, fundações para a educação, bibliotecas, grupos de teatro, bandas filarmónicas, ranchos folclóricos, casas regionais e sociedades de beneficência e religiosas, destacam-se percursos de vida de vários compatriotas que alcançaram o sonho americano ("the American dream”).

Entre as várias trajetórias de portugueses que começaram do nada na América e ascenderam na escala social graças ao trabalho, ao mérito e ao empenho, destaca-se o percurso inspirador e de sucesso de Ildeberto Medina, uma das figuras mais gradas da numerosa comunidade luso-americana de Providence, estado norte-americano de Rhode Island.

Natural da ilha Graciosa, arquipélago dos Açores, Ildeberto Medina emigrou para a América em 1977, com apenas 15 anos, na companhia dos pais e do irmão, repetindo as pisadas da avó paterna, que no ocaso do séc. XIX tinha partido para a Costa Leste dos Estados Unidos num barco baleeiro em demanda de melhores condições de vida.

A chegada a Boston, capital e cidade mais populosa do estado norte-americano de Massachusetts, numa fase de incremento da emigração açoriana para o território americano, não correu como planeado devido à inadaptação dos pais à nova realidade, contexto que motivou a família a retornar ao torrão natal. 

Nunca esmorecendo na ambição de alcançar o sonho americano, Ildeberto e o irmão mais novo, desta vez sozinhos, cruzaria pouco tempo depois novamente o Oceano Atlântico. Em 1979, a partir de Providence, realizaria o seu primeiro trabalho por conta própria, começando aí um percurso de autêntico“self-made man” que o catapultou a empresário do ramo da construção civil com a fundação da empresa “Medina Construction” em 1985.

Ao longo dos últimos 40 anos, o trabalho incansável, a resiliência inabalável e a constante dedicação à família, elevaram o graciosense, que logrou inclusive acabar o liceu e ingressar no ensino universitário norte-americano onde se formou em Línguas, a um empreendedor de reconhecidos méritos na comunidade luso-americana, como revelam as inúmeras distinções que tem alcançado.

A mais recente foi atribuída este mês pelo Mayor Roberto Silva, autarca lusodescendente de East Providence, que distinguiu Ildeberto Medina com proclamação oficial no âmbito dos 40 anos de empreendedorismo do proprietário da “Medina Painting & Remodeling” e sócio de várias empresas. Nos fundamentos da atribuição da distinção sobressai o trajeto singular do empresário luso-americano: “Através de contínuos esforços, árduo trabalho, em sistema de part-time, ao mesmo tempo que frequentava a escola, desde a sua chegada aos EUA, empenhou-se na conquista do êxito da sua iniciativa empresarial. E como tal a cidade de East Providence reconhece a sua bravura e sacrifício concluído no êxito empresarial”.

Apoiante constante do associativismo luso-americano, e uma das figuras mais gradas da comunidade de East Providence, o exemplo de vida de Ildeberto Medina, empresário de sucesso que nunca olvida as suas raízes portuguesas, inspira-nos a máxima do historiador italiano Cesare Cantú: “O mais saboroso pão e a mais agradável comodidade são os que conquistamos com o nosso suor”.

A REDE MUSEOLÓGICA DEDICADA À EMIGRAÇÃO PORTUGUESA

O desígnio e imperativo de valorização do conhecimento da história da emigração portuguesa têm impelido, nos últimos anos, o poder político a procurar incrementar uma estratégia cultural capaz de aglutinar os espaços museológicos ligados ao fenómeno migratório que se encontram disseminados pelo território nacional.

Esta estratégia cultural ganhou recentemente um novo e decisivo impulso, através da apresentação por parte da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, liderada por Berta Nunes, de um projeto que visa a criação de uma rede museológica digital dedicada à emigração lusa.

Uma rede museológica, cuja principal ambição passa por ligar a história da diáspora portuguesa e suas vias de acesso, via digital e num itinerário real, fisicamente implantado, apto a reconhecer os diferentes fluxos migratórios e capaz de atrair o interesse pelo país e suas gentes. Na esteira das palavras de Luís Castro Mendes, embaixador e antigo ministro da Cultura que preside ao conselho de consultores deste projeto, pretende-se deste modo fomentar “uma rede entre espaços museológicos, com vantagens em relação a um museu que concentrasse tudo”.

Precursora de uma visão museológica desconcentrada, esta rede museológica passará, através da dinamização de uma plataforma online, a disponibilizar assim os acervos do Museu das Migrações e das Comunidades, sediado em Fafe, do Espaço Memória e Fronteira, localizado em Melgaço, e do Museu da Emigração Açoriana, instalado na Ribeira Grande. E depois de estruturada, abarcará ainda projetos e instituições como o Cais da Língua e das Migrações, em Matosinhos, o Museu Português da Migração, no Sabugal, o Espaço Memória e Fronteira, no Fundão, e o Museu do Salto, em Vilar Formoso.

Esta plataforma, que passará a ligar os espólios que em Portugal contam a história da emigração portuguesa, pode e deve aglutinar ainda espaços museológicos que têm sido construídos ao longo das últimas décadas por portugueses no estrangeiro. Como, por exemplo, a Galeria dos Pioneiros Portugueses, em Toronto, impulsionada no presente pelo comendador Manuel DaCosta, e que se dedica à dinamização do legado dos pioneiros da emigração portuguesa para o Canadá; o Museu da Imigração, em Lausanne, na Suíça, criado pelo português Ernesto Ricou, e que nesta altura procura novo local; o Museu Etnográfico Português em Sydney, na Austrália, que tem procurado manter viva a identidade cultural da comunidade luso-australiana; ou o Museu Histórico Português em São José, Califórnia, dedicado às tradições lusas, em especial religiosas, neste estado norte-americano.

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O historiador Daniel Bastos (esq.), cujo percurso tem sido alicerçado no seio das Comunidades Portuguesas, acompanhado em 2016 do comendador Manuel DaCosta (dir.) na Galeria dos Pioneiros Portugueses, em Toronto, no âmbito de uma conferência sobre a Emigração Portuguesa

Estes espaços museológicos, e outros que se encontram ou possam vir a ser projetados na pátria de origem ou de acolhimento dos portugueses espalhados pelo mundo, são uma indubitável mais-valia na perpetuação da memória da emigração lusa, e fundamentais para a prossecução da missão descentralizada e polinuclear da vindoura rede museológica.

Como menciona Maria Beatriz Rocha-Trindade, uma das consultoras de referência deste projeto, no artigo Museus de Migrações – Porquê e para quem?, um “museu é, antes de tudo, um instrumento de educação e de difusão cultural destinado a criar referências, visíveis e concretas, que ultrapassem o fluir do tempo. Tanto os centros de pesquisa, que em regra os integram ou lhe estão associados, como os acervos que vão sendo constituídos produzem registos para memória futura”.

MENINA E MOÇA ME LEVARAM

  • Crónica de Daniel Bastos

Os últimos anos têm sido pródigos na conceção e realização de obras de autoras nacionais ou lusodescendentes residentes no estrangeiro dedicadas às mundividências femininas no contexto migratório, umas das dimensões da emigração portuguesa que por via destes contributos literários começa a ser mais conhecida e estudada.

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Um desses contributos literários, intitulado Menina e Moça me Levaram, acabou recentemente de dar à estampa através do trabalho proficiente da professora Aida Baptista, que nos últimos anos de docência desempenhou o cargo de Leitora de Língua e Cultura Portuguesas no Estrangeiro, ao serviço do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa (ICALP) e do Instituto Camões (IC).

Colaboradora da imprensa de língua portuguesa no mundo, onde publica regularmente artigos ligados ao fenómeno migratório, e autora dos livros Passaporte Inconformado e Chão da Renúncia, Aida Baptista é a responsável pela organização de uma obra que demanda o seu título no evocativo de saudade que dá início ao prólogo do livro Saudades, mais conhecido por História de Menina e Moça de Bernardim Ribeiro.

Assente num conjunto de histórias, contadas na primeira pessoa, de mulheres das mais diversas origens, profissões e faixas etárias, que, levadas por escolhas alheias (salvo raras exceções), passaram por processos migratórios em diferentes contextos geográficos, a obra  Menina e Moça me Levaram, com chancela da Editora Alma Letra, conta ainda com prefácio de Manuela Aguiar, antiga secretária de Estado da Emigração.

O lançamento da coletânea, que nas palavras da prefaciadora encontra-se “cheia de ensinamentos, e experiências, comovente, intimista poética, pitoresca, factual, escrita a muitas mãos, muitos destinos. Com elas viajamos pelas memórias, por paisagens de alma e sentimentos, por roteiros que cruzaram todos os continentes e mares”, integra-se nas comemorações dos 25 anos de vida ativa da Associação Mulher Migrante (AMM).

Uma associação de estudo, cooperação e solidariedade cuja principal missão passa pela análise da problemática das migrações femininas; pela cooperação com as mulheres profissionais e dirigentes de associações das comunidades portugueses no mundo e com imigrantes que vivem em território nacional; pelo combate ativo contra ideias e movimentos xenófobos; e pelo apoio à integração das mulheres na sociedade de acolhimento e defesa dos seus direitos de participação social, económica e política.

Nesse sentido, a coletânea Menina e Moça me Levaram, enquanto repositório de um conjunto diverso de experiências e narrativas vivenciadas por mulheres assume-se como um relevante contributo no alumiamento da componente feminina no fenómeno migratório, que vai ao encontro do anelo da “dama da literatura brasileira” Lygia Fagundes Telles: “Sempre fomos o que os homens disseram que nós éramos. Agora somos nós que vamos dizer o que somos”.

A PRESENÇA PORTUGUESA NO MUSEU DA IMIGRAÇÃO DO CANADÁ

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  • Crónica de Daniel Bastos

O Canadá, uma nação que abrange grande parte da América do Norte e se estende desde o oceano Atlântico, a leste, até o oceano Pacífico, a oeste, alberga uma das mais dinâmicas comunidades lusa que se destaca atualmente pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico.

Conquanto a presença regular de portugueses no território remonte ao início do séc. XVI, a emigração portuguesa para o Canadá começou a ter expressão a partir de 1953. Ano em que ao abrigo de um acordo luso-canadiano, que visava suprir a necessidade de trabalhadores para o sector agrícola e para a construção de caminhos-de-ferro, desembarcaram a 13 de maio em Halifax, província de Nova Escócia, um grupo pioneiro de oitenta e cinco emigrantes lusitanos.

Se entre 1953 e 1973, terão entrado no Canadá mais de 90.000 portugueses, na sua maioria originários dos Açores, estima-se que presentemente vivam no segundo maior país do mundo em extensão territorial, mais de meio milhão de luso-canadianos. Sobretudo concentrados em Ontário, Quebeque e Colúmbia Britânica, representando cerca de 2% do total da população canadiana que constitui um hino ao multiculturalismo. 

A dinamização da presença portuguesa no território canadiano tem merecido por parte da comunidade lusa uma especial atenção, como revela a fundação no início do séc. XXI da Galeria dos Pioneiros Portugueses. Um espaço museológico em Toronto, impulsionado no presente pelo comendador Manuel da Costa, que se dedica à perpetuação da memória e das histórias dos pioneiros da emigração portuguesa para o Canadá.

A relevância da presença portuguesa neste território da América do Norte está igualmente patente num dos mais importantes museus nacionais do Canadá, mormente o Museu Nacional da Imigração Canadiano do Pier 21.

Localizado em Halifax, na província da Nova Escócia, no oeste do Canadá, as instalações do Museu da Imigração do Canadá ocupam o Pier 21, um antigo porto com terminal de navios transatlânticos, que funcionou entre 1928 a 1971, e que durante esse período recebeu mais de um milhão de imigrantes. Em 1999, o antigo porto deu lugar ao Museu da Imigração, sendo que em 2011 tornou-se oficialmente no Museu Nacional da Imigração Canadiano.

Enquanto espaço museológico singular que homenageia o contributo estruturante da imigração no progresso do Canadá e que o catapulta para um dos países mais desenvolvidos do mundo, o Museu Nacional da Imigração Canadiano conserva nas suas variadas coleções inúmeros testemunhos da presença portuguesa no país. Designadamente antigos pertences de emigrantes lusos que chegaram ao Canadá entre 1953 e 1954, como passaportes, fotos de famílias, uma guitarra e roupas, que em parte foram doados pela Casa da Madeira Community Centre.

No espólio do Museu da Imigração do Canadá destaca-se na entrada do núcleo museológico uma escultura em madeira, uma obra de arte que retrata os 500 anos da presença portuguesa no território, e que foi doada em 2003 pelo emigrante luso Maurício Almeida. Assim como, uma garrafa com vinho da madeira aberta, que chegou ao Canadá com o emigrante português Augusto da Silva em 1953, e está identificada como “O que trarias? Quem e o que deixarias para trás?”.

Mais de que um espaço museológico onde estão conservados e expostos objetos sobre o fenómeno migratório, o Museu da Imigração do Canadá reconhece e valoriza na prossecução da sua missão a importância dos imigrantes, como é o caso dos portugueses, na construção do notável mosaico cultural da nação canadiana.