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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

BLOGUE DO MINHO

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RETRATOS DA EMIGRAÇÃO PORTUGUESA NA LITERATURA INFANTO-JUVENIL

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  • Crónica de Daniel Bastos

Nas últimas décadas a literatura infanto-juvenil, um ramo da literatura dedicado especialmente às crianças e jovens adolescentes, tem-se assumido concomitantemente como um dos géneros mais apreciados no panorama editorial português e uma relevante ferramenta para a criação de hábitos leitura.

Impulsionados por programas públicos, como o Plano Nacional de Leitura (PNL) e a Rede de Bibliotecas Escolares (RBE) que têm contribuído decisivamente em Portugal para o desenvolvimento de uma estratégia de promoção da literacia no público mais jovem, cada vez mais escritores, ilustradores e projetos editoriais têm apostado na conceção de livros destinados a crianças e jovens adolescentes.

Entre as várias temáticas abordadas, o fenómeno da emigração, uma realidade socio-histórica incontornável na sociedade portuguesa, tem sido alvo de múltiplas abordagens por parte de autores de literatura para crianças e jovens. É o caso, por exemplo, de António Mota, um dos mais conhecidos autores de literatura portuguesa juvenil que em 2012 lançou a obra O Agosto que Nunca Esqueci, um livro recomendado pelo PNL para leitores fluentes dos 12 aos 14 anos, que constitui um retrato da emigração portuguesa dos anos 60.

Recentemente, no passado mês de dezembro, foi apresentado na cidade costeira da Póvoa de Varzim o livro infantil Emigração. Que palavra esquisita!, uma obra assinada por Marta Pinto e ilustrada por Natacha Lourosa, cuja narrativa percorre a história de Clara, uma menina como tantas outras que vê o pai ter de viajar para longe, para outro país, para trabalhar, e que aguarda ansiosa pelo seu regresso.

Ainda nesse mês, a Associação dos Emigrantes Açorianos (AEA), cuja sede funciona nas instalações do Museu da Emigração Açoriana, na Ribeira Grande, ilha de São Miguel, lançou o livro infanto-juvenil Açores, uma caça ao sonho americano, que narra a história dos primeiros açorianos que chegaram aos Estados Unidos da América, por via da caça à baleia, no século XVIII. Com textos de Patrícia Carreira e ilustrações de Romeu Cruz, o livro bilingue que se encontra traduzido para inglês, estará disponível na costa Leste dos Estados Unidos a partir de fevereiro, sendo que as receitas das suas vendas reverterão para a edição de um novo livro, em maio, sobre a história da emigração açoriana para o Canadá, outro dos principais destinos da diáspora açoriana.

VIDAS SEM FRONTEIRAS

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  • Crónica de Daniel Bastos

Já não é novidade para ninguém que as novas tecnologias estão a mudar a forma como vivemos em sociedade. Uma “sociedade em rede” marcada pela constante revolução digital impulsionada pela internet, ferramenta de trabalho que ao possibilitar uma rápida difusão do conhecimento e informação transformou o mundo numa grande aldeia global.

O uso desta poderosa ferramenta do homem está, por força disso mesmo, cada vez mais presente na experiência emigratória portuguesa espalhada pelos quatro cantos de um mundo incontornavelmente digital e interconectado. Como assinala Cátia Ferreira, investigadora no Centro de Estudos de Comunicação e Cultura (UCP) e no Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (ISCTE), num relevante artigo publicado no final da década transata intitulado Identidades lusófonas em rede: importância da internet na relação dos emigrantes portugueses nos EUA com a cultura de origem, a “forma como os emigrantes portugueses comunicam está a mudar, o recurso à internet parece estar cada vez mais generalizado. Este novo meio de comunicação é apontado por muitos emigrantes como um dos meios mais utilizados no contacto com a cultura de origem, promovendo assim situações de diálogo intercultural que fomentam o desenvolvimento de identidades em rede”.

Um dos exemplos paradigmáticos das potencialidades do “diálogo intercultural” e das “identidades em rede” impelido pelo uso da internet no seio do fenómeno migratório nacional, encontra-se vertido na plataforma online “Vidas Sem Fronteira”, que pretende formar uma rede de participantes que queiram partilhar experiências interessantes para o sucesso de uma emigração.

Dinamizada por duas amigas, mulheres e mães portuguesas, Joana Barbosa e Maria Pereira, que se casaram com homens que escolheram carreiras internacionais, opção socioprofissional que contribui para que as famílias de ambas mudem frequentemente de país, a plataforma assume-se como um espaço de partilha de vivências e de contactos para quem, por exemplo, pretenda começar um novo percurso de vida no estrangeiro. Com várias abordagens de temas e assuntos, e com uma rede de participantes onde impera o universo feminino, este projeto singular também presente nas redes sociais, constitui-se essencialmente como uma valiosa plataforma de resolução de dificuldades e desafios entre cidadãos portugueses disseminados pelo mundo.

MILLENIALS, CIDADÃOS DO MUNDO, RELATOS DA NOVA DIÁSPORA

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  • Crónica de Daniel Bastos

Numa época em que se assiste a um surgimento cada vez maior de obras dedicadas à temática da emigração portuguesa, sintomático da importância que o fenómeno assume no país, o ano que agora termina assinalou recentemente o lançamento do livro Millenials, cidadãos do mundo, relatos da nova diáspora.

O livro, de autoria de Cristiana Lopes, uma emigrante portuguesa atualmente com 30 anos, natural da Gafanha da Nazaré, cidade costeira do concelho de Ílhavo, é baseado na experiência que a licenciada em Gestão pela Universidade de Aveiro empreendeu aos 22 anos. Período em que Cristiana Lopes, agora a viver e trabalhar em Madrid, em Espanha, realizou um estágio profissional na Cidade do México, capital densamente povoada do México, que acabou por ser a sua casa durante cinco anos, e onde conheceu o marido e pai da sua filha.

Ao longo de mais de 200 páginas, a obra que aborda ainda percursos de outros jovens lusos espalhados pelo mundo atual, constitui um relato fidedigno dos desafios e exigências por que passam os novos emigrantes portugueses, isto é, os membros da Geração Y ou millennials. Um conceito sociológico que designa aqueles que nasceram entre os anos de 1980 e 2000, e que no caso português é comummente apontada como a geração mais qualificada de sempre.

As histórias de vida apresentadas no livro acentuam deste modo as diferenças entre a nova e a antiga emigração portuguesa. Uma nova emigração engrossada por um cada vez mais significativo número de quadros com qualificações académicas superiores, já bastante distante da mundividência dos emigrantes portugueses que partiam “a salto” ou de mala de cartão das décadas de 1960-70.

Como apontava no verão passado a revista semanal Notícias Magazine, num interessante artigo sobre Os novos mundos dos emigrantes portugueses, cada vez mais “qualificada, mais bem preparada, com novas ferramentas, outra mentalidade. Sempre conectada aos seus e ao país. A emigração portuguesa está a mudar. Anda pelo Mundo, não se acomoda, cria oportunidades, não se move pela fortuna, parte pelas experiências e pelo enriquecimento pessoal e profissional. Não é escrava do trabalho, aproveita a vida. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”.

A (RE)CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DOS LUSODESCENDENTES

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  • Crónica de Daniel Bastos

Em cena desde 21 de novembro, o musical “Fado – A Música mais Triste do Mundo”, uma peça composta pela dramaturga Elaine Ávila, professora de teatro do Douglas College em Vancouver, na costa oeste do Canadá, que retrata as barreiras linguísticas e culturais dos lusodescendentes, despediu-se no final da semana passada do palco do Firehall Arts Centre, localizado na mesma metrópole.

Segundo informações veiculadas pela dramaturga, filha de emigrantes açorianos, à imprensa, a peça teatral foi inspirada em histórias de vida de membros da comunidade portuguesa em Vancouver. Nomeadamente associados do Centro Cultural Português de Burnaby, na Colúmbia Britânica, a província mais ocidental do Canadá, onde se estima que vivam aproximadamente 35 mil portugueses e lusodescendentes.

Histórias de vida, nas palavras da luso-canadiana, de quem por exemplo, com “14 anos saiu de casa e veio trabalhar para o Canadá atravessando meio oceano, ou que viram pela primeira vez neve, que foi como que flores a caírem do céu”. Assim como, da sua própria trajetória de vida, testemunhando a mesma que quando “imigramos para um novo país, todos nós corremos o perigo de perdermos a nossa cultura, a própria língua, o que me aconteceu nos Estados Unidos, pois há muita pressão de fingirmos que não somos portugueses”.

Num país tão fortemente marcado pelo fenómeno migratório, tanto que se encontrarão na atualidade cerca de 5 milhões de portugueses e lusodescendentes espalhados pelos quatro cantos do mundo, a problemática da (re)construção da identidade dos lusodescendentes tem captado nos últimos anos a atenção de vários especialistas sobre a emigração lusa, alguns deles provenientes inclusive do espaço da lusodescendência.

Um desses exemplos paradigmáticos encontra-se vertido na tese de doutoramento da socióloga Heidi Martins. Nascida na Suíça e filha emigrantes de transmontanos, a lusodescendente concluiu o seu grau académico na Universidade do Luxemburgo, uma instituição de ensino superior de investigação multilingue e de foco internacional, com um trabalho dedicado à questão de identidade e sentimentos de pertença de filhos de emigrantes portugueses no Grão-Ducado. Nação europeia, onde os filhos da pátria de Camões são a comunidade estrangeira mais numerosa, contabilizando sensivelmente 95 mil pessoas, ou seja, cerca de 15% da população total.

IMLus, UMA PLATAFORMA DE PROMOÇÃO DA LUSOFONIA

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  • Crónica de Daniel Bastos

O Instituto do Mundo Lusófono (IMLus), criado em finais de 2015 na Universidade Sorbonne, em Paris, uma das mais prestigiadas instituições académicas internacionais, e publicamente apresentado no primeiro Congresso da Lusofonia e da Francofonia, que decorreu no termo de 2017 na capital francesa, procura assumir-se como uma relevante plataforma de promoção da Lusofonia.

A missão do organismo independente, presidido por Isabelle de Oliveira, Professora titular de Ciências da Linguagem na Universidade Sorbonne, que lançou no mês passado em Portugal o seu novo livro O Devir da Lusofonia, prefaciado pelo nonagenário sociólogo francês Edgar Morin, um dos principais pensadores da contemporaneidade, passa por impulsionar, dinamizar e apoiar as ações que promovam a afirmação da língua portuguesa, bem como das comunidades lusófonas, em cooperação com as outras línguas e áreas linguísticas.

Esta visão e valores do IMLus ganham ainda maior relevância se considerarmos que a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), oficializou recentemente o 5 de Maio como Dia Mundial da Língua Portuguesa. Idioma que é atualmente, com mais de 250 milhões de falantes, um dos mais faladas do mundo, com particular destaque nos estados-membros que compõem a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP): Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.

Foi esta visão e valores alicerçados na cultura de língua portuguesa, que impulsionou o Instituto do Mundo Lusófono a organizar no início deste ano, em Paris, a gala Prémios da Lusofonia 2018, com o propósito de distinguir cerca de duas dezenas de personalidades lusófonas em áreas ligadas às artes, ao jornalismo e ao mundo empresarial. Personalidades lusófonas como o maestro Álvaro Cassuto, o escritor Mia Couto, o arquiteto Álvaro Siza Vieira ou o ator Lima Duarte, que foram homenageados com o prémio Percurso de Exceção.

Visão e valores que estão igualmente na base do próximo projeto do Instituto do Mundo Lusófono, mormente a edificação de uma escola na Guiné-Bissau, em articulação com Diogo Lacerda Machado, presidente do Conselho de Administração do BAO - Banco da África Ocidental, que estará à frente da iniciativa, liderando a angariação de fundos.

MIGRAÇÕES E ESTADO-PROVIDÊNCIA

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  • Crónica de Daniel Bastos

No final do passado mês de novembro decorreu no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL) a primeira conferência no âmbito dos 10 anos do Observatório da Emigração, dedicada ao tema “Migrações e Estado-Providência”.

No decurso do colóquio, que contou com a participação de cientistas sociais do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES), do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT), e do Professor do Centro de Estudos de Etnicidade e Migrações da Universidade de Liège, Jean-Michel Lafleur, que se tem debruçado sobre as formas como os migrantes transfronteiriços lidam com os riscos sociais em áreas como a saúde e o desemprego, uma equipa do IGOT constituída por Jennifer McGarrigle, Bruno Machado, Maria Lucinda Fonseca e Alina Esteves, defendeu nas palavras desta última investigadora que “Os emigrantes têm uma perceção muito incompleta do país para que vão”, em particular quanto ao funcionamento dos mecanismos sociais.

A conclusão expressa pela investigadora Alina Esteves, que alcançou eco na imprensa nacional, ou não fosse Portugal um país profundamente marcado pela emigração, é sustentada nos resultados que a equipa obteve através do projeto Mobile Welfare – Regimes de Segurança Social na Europa na era da mobilidade. Um projeto que criou sinergias entre o Instituto Demográfico Interdisciplinar da Holanda (NIDI), o Instituto Internacional para a Migração da Universidade de Oxford, o Centro de Investigação para as Migrações da Universidade de Varsóvia e o IGOT, e que levou a equipa lusa a realizar, ao longo de três anos, 39 entrevistas a cidadãos britânicos em Portugal e a cidadãos portugueses no Reino Unido.

A investigação permitiu aferir que as motivações que têm impelido a emigração portuguesa para o território britânico, um dos destinos mais procurados pelos emigrantes lusos nos últimos anos, entroncam nas categorias económicas e de realização pessoal, e que o aumento hodierno de residentes britânicos em Portugal, estima-se que o número de cidadãos do Reino Unido a viver em Portugal ultrapasse os 25 mil, não é alheio ao custo de vida baixo. Concomitantemente, como anotam os investigadores, quer os portugueses no Reino Unido, como os britânicos em Portugal, esforçam-se por criar redes de segurança para percalços que surjam nas suas trajetórias de vida.

A PROBLEMÁTICA DA EMIGRAÇÃO QUALIFICADA

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  • Crónica de Daniel Bastos

Segundo dados recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE), o ano de 2017 assinalou em Portugal uma diminuição do fluxo emigratório, expressa na saída de 31 mil e 753 portugueses que escolheram o estrangeiro para alcançar uma vida melhor, menos 17% do que no ano transato, período em que saíram 38 mil e 272.

Paralelamente, as estatísticas oficiais apontam que no mesmo ano registou-se um aumento do fluxo imigratório, contabilizado na entrada de 36 mil e 639 cidadãos estrangeiros que adotaram o território nacional como uma nova etapa das suas vidas, mais 18% do que no ano anterior, época em que entraram 43 mil e 353.   

A informação veiculada pelo INE revela deste modo que ao longo dos últimos anos, após recuperação de uma das mais graves crises do país e consequente incremento do desempenho socioeconómico, foi possível no ano de 2017 obter um saldo migratório positivo, invertendo a trajetória de declínio verificada desde o início da década de 2010.

Numa fase da vida coletiva nacional em que se auguram colossais desafios demográficos, ainda no mês passado o Gabinete de Estatísticas da União Europeia (Eurostat), através do documento Ageing Europe 2019, indica que dentro de três décadas cerca de metade da população portuguesa terá 55 anos ou mais, a manutenção deste saldo migratório positivo constitui uma condição “sine qua non” para a sustentabilidade do país.

No entanto, os dados recentes do INE revelam que manutenção deste salto migratório positivo está longe de ser um dado adquirido, porque além do mesmo ter que ser complementado com o crescimento da taxa de natalidade, que continua a ser das mais baixas da União Europeia, a emigração qualificada continua a engrossar o fluxo migratório nacional.

Nesse sentido, enquanto o país continuar envolto num inverno demográfico, e a assistir à “fuga de cérebros”, ou seja, à saída de emigrantes altamente qualificados, nas palavras abalizadas do Professor catedrático da Universidade de Coimbra, Rui Machado Gomes, “um dos fenómenos mais controversos da sociedade portuguesa contemporânea”, e não sendo o mesmo compensado pela entrada de pessoas com qualificações equivalentes, a competitividade, o progresso, a sustentabilidade e o futuro de Portugal continuarão perturbantes.

MEMÓRIAS DA EMIGRAÇÃO E DAS COMUNIDADES

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  • Crónica de Daniel Bastos

No âmbito das comemorações do 25.º aniversário da Direcção-Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas (DGACCP), estrutura central do Ministério dos Negócios Estrangeiros aprovada pelo Decreto-Lei  n.º 48/94, de 24 de Fevereiro, que coordena e executa as ações relativas à política de apoio às Comunidades Portuguesas, o governo português lançou no início do ano a iniciativa “Memórias da Emigração e das Comunidades Portuguesas”.

A ação, dinamizada pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - NOVA FCSH, tem como principal objetivo identificar, mapear, registar e patrimonializar os testemunhos de vida, as memórias e objetos de todos aqueles que participaram e participam da diáspora portuguesa, constituindo um espaço de encontro e de reflexão acerca do importante papel das comunidades portuguesas no mundo.

A iniciativa de enorme alcance e relevância, dado que simultaneamente procura dignificar e reconhecer a herança e as potencialidades das comunidades portuguesas, é aberta à participação de todos que se revejam nestes compromissos, e que queiram contribuir com as suas histórias e recordações para uma melhor compreensão da memória e a identidade de Portugal no Mundo.

Uma das iniciativas mais notórias ligadas a este projeto colaborativo decorreu na semana passada, entre os dias 13 e 15, no decurso do 1º Encontro “Memória para todos: História, Património e Comunidades”, no Teatro Aberto, em Lisboa.

Organizado pelo Centro República e o Instituto de História Contemporânea da NOVA FCSH em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa, o 1.º Encontro “Memória para todos: História, Património e Comunidades”, reuniu diferentes agentes, projetos e atividades empenhados na identificação, organização, curadoria, investigação e divulgação da memória e arquivos de e para comunidades.

Entre as várias participações, destacou-se a do Professor Emérito de Sociologia da Universidade de Essex, Paul Thompson, um dos pioneiros da História Oral, que na obra “A Voz do Passado”, sustenta, inclusive ao nível das comunidades migrantes, que “a história oral devolve a história às pessoas, nas suas próprias palavras. E ao dar-lhes um passado, ajuda-as também a caminhar para um futuro construído por elas mesmas”.

MAR DE SONHOS – A EMIGRAÇÃO NOS VAPORES TRANSATLÂNTICOS

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  • Crónica de Daniel Bastos

O Centro Português de Fotografia (CPF), instituição pública que assegura a conservação, valorização e proteção legal do património fotográfico nacional, no âmbito das suas dinâmicas dispõe de uma exposição itinerante que retrata a época em que a ligação entre o continente europeu e americano era feito por navio.

A exposição intitulada “Mar de Sonhos – a emigração nos vapores transatlânticos”, assenta em 22 fotografias, datadas do início do século XX, de autoria de Aurélio da Paz dos Reis (1862-1931), um importante e apaixonado fotógrafo amador, que se tornou também o grande pioneiro do cinema português.

As imagens a preto e branco de Aurélio da Paz dos Reis têm o condão de retratar o ciclo transoceânico da emigração portuguesa na transição para o século XX. Um período histórico nacional, em que a permanência de uma prática agrícola tradicional, uma incipiente industrialização e uma profunda assimetria entre o mundo rural e urbano, o interior e o litoral, levaram a que entre 1855 e 1914, mais de um milhão de portugueses, pressionados pela carestia de vida e baixos salários agrícolas, encetassem uma trajetória transoceânica em direção ao Brasil, aos EUA, à Argentina e à Venezuela.

Procedente do mundo rural e eminentemente masculino, este fluxo migratório, particularmente atraído pelo crescimento económico brasileiro, foi incisivo no Entre Douro e Minho, e sobretudo possível à revolução que se deu na navegação através da transição dos veleiros para os barcos a vapor.

O crescimento da emigração de portugueses para o Brasil esteve na origem, em 1852, da fundação da “Companhia de Navegação a Vapor Luso-Brasileira”, que teve ao seu serviço dois vapores, o “Donna Maria Segunda” e o “Dom Pedro Segundo”, ambos com capacidade para mais de 400 passageiros. Às vantagens da maior capacidade de transporte de passageiros, os barcos a vapor da “Companhia de Navegação a Vapor Luso-Brasileira”, e mais tarde da “Mala Real Inglesa”, que passou a garantir as ligações entre Portugal e o Brasil, aliavam ainda maior comodidade, segurança e rapidez, encurtando o tempo desta viagem transoceânica para menos de um mês.

Os barcos a vapor mantiveram-se até ao alvejar da segunda metade do séc. XX, época em que chegaram a Portugal os navios equipados com propulsão a diesel e se iniciou o ciclo da emigração intra-europeia, o grande meio de transporte dos emigrantes lusos. 

O FENÓMENO DA EMIGRAÇÃO NA MÚSICA PORTUGUESA

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  • Crónica de Daniel Bastos

A emigração, parte integrante da história e cultura nacional, tem sido ao longo dos anos uma profícua fonte de inspiração para inúmeros cantores, letristas, compositores e artistas, que nos mais diversos estilos musicais têm evocado as agruras da partida e da saudade de quem demanda no estrangeiro melhores condições de vida.

Os mais antigos recordar-se-ão seguramente da voz suave e triste de Adriano Correia de Oliveira que interpretou o “Cantar de Emigração”, com letra de Rosalia de Castro e música de José Niza. Uma das mais emblemáticas trovas do cantor de intervenção, o “Cantar de Emigração” constitui um retrato fidedigno da emigração portuguesa “a salto” para França nos anos 60, um período marcado pela saída maciça de jovens, sobretudo do Norte de Portugal, impelidos pela miséria rural, a ausência de liberdade e a fuga ao cumprimento do serviço militar, antecâmara da incorporação na Guerra Colonial.

Esta experiência marcante de fuga à pobreza de centenas de milhares de portugueses, que na sua maioria encontraram nos setores da construção civil e de obras públicas da região de Paris, cidade que muitos conheceram como expressa António Barreto “antes de ir a Lisboa ou de ver o mar”, seria celebrizada nos anos 80 com o tema “Um Português (Mala de Cartão) ” de Linda de Suza, uma das mais afamadas cantoras lusas, emigrante em França. Ainda em terras gaulesas, os anos 90 assistiram ao sucesso entre a comunidade portuguesa de Graciano Saga, um cantor popular que ficou conhecido com músicas sobre a Diáspora, de que se destaca o tema "Vem devagar emigrante" e "Amiga Emigrante".

A influência do fenómeno da emigração na expressão musical portuguesa não se cinge ao passado mais recente ou às canções de intervenção e música popular. A multiplicidade de projetos musicais onde está retratada na atualidade a temática da emigração vai desde o Fado e a Pop, singularmente representada em 2013 no dueto de Pedro Abrunhosa com o fadista Camané, que no tema “Para os braços da minha mãe” abordam a nova vaga de emigração; até ao Rap, discurso rítmico com rimas e poesias que o rapper brigantino Jorge Rodrigues e a cantora Vanessa Martins usaram em 2016 na música “Filha de emigrantes”, uma composição que retrata a vida hodierna dos emigrantes e a saudade que sentem da família e do país de origem.

A HOMENAGEM DA COMUNIDADE PORTUGUESA EM FRANÇA A GÉRALD BLONCOURT

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A homenagem contou com o enquadramento histórico do investigador Daniel Bastos (dir.), que organizou dois livros com as fotografias de Bloncourt, assim como dos testemunhos da socióloga das migrações Maria-Beatriz Rocha Trindade (centro), e do dirigente associativo Parcídio Peixoto (esq.)

 

No passado dia 26 de outubro, a Comunidade Portuguesa em França, no âmbito do primeiro aniversário do falecimento de Gérald Bloncourt, promoveu uma cerimónia pública de homenagem ao consagrado fotógrafo que imortalizou a história da emigração portuguesa para terras gaulesas nos anos 60.

A sessão, que decorreu no Museu Nacional da História da Imigração em Paris, um espaço carregado de enorme simbolismo onde é evidenciado o papel estruturante dos imigrantes no desenvolvimento económico, social e cultural da França, como é o caso dos portugueses, uma das principais comunidades estrangeiras estabelecidas no território gaulês, teve como principais mentores os dirigentes associativos Manuel Vaz, do Comité Aristides de Sousa Mendes, e Parcídio Peixoto, Presidente da Associação Memória das Migrações.

Pautada pela emoção e saudade, a homenagem a título póstumo congregou a presença de vários amigos e familiares de Gérald Bloncourt, em particular da sua esposa, Isabelle Repiton, companheira de vida e responsável do acervo que assegura a preservação da memória do fotojornalista, pintor e poeta. Assim como, de autoridades diplomáticas, representantes de associações, artistas e órgãos de comunicação social da comunidade lusa em França, e muitos admiradores do fotógrafo franco-haitiano que teve o condão de retratar as duras condições de vida dos descendentes dos grandes navegadores nos bidonvilles e o nascimento da democracia em Portugal.

No decurso da homenagem pública, abrilhantada pelo som da guitarra portuguesa interpretada por membros da Associação Gaivota, dedicada à disseminação e preservação do fado em França, e enriquecida pela projeção de fotografias e de um documentário alusivo à vida e obra de Gérald Bloncourt, foram vários os testemunhos emotivos de pessoas que conviveram com o antigo fotojornalista e colaborador de jornais de referência no campo social e sindical.

Uma vida e obra marcada pela defesa universal da solidariedade entre os povos, paradigmaticamente singularizada no olhar humanista e de compromisso que assumiu com os emigrantes lusos nos bairros de lata em Paris, e que se revelou fundamental na perpetuação da memória dos protagonistas anónimos da história portuguesa que lutaram aquém e além-fronteiras pelo direito a uma vida melhor e à liberdade.

A HERANÇA PORTUGUESA NO SRI LANKA

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  • Crónica de Daniel Bastos

A presença pioneira dos portugueses na Ásia no séc. XVI e XVII, catalisadora dos primeiros contactos entre a Europa e o Oriente, apresenta ainda nos dias de hoje marcas vivas dessa Era dos Descobrimentos.

É o caso do Sri Lanka, antigo Ceilão, ou a afamada “Taprobana de Camões”, uma nação insular situada ao largo da extremidade sul do subcontinente indiano, que preserva desde a centúria quinhentista, época em que os portugueses foram os primeiros europeus a desembarcar neste território astático, um singular legado luso.

Essa herança histórica remanesce na atualidade, desde logo, nos apelidos de mais de metade da população, estimada em cerca de 22 milhões de habitantes, como Perera, Fernandes, Sousa, Silva ou Fonseca.

Os elementos da cultura da Pátria de Camões no Sri Lanka estendem-se ainda à existência de uma comunidade de ascendência portuguesa, os “burghers”. Um grupo étnico que professa o cristianismo e fala um crioulo de raiz portuguesa, e que se encontra essencialmente concentrado nas cidades de Batticaloa e Trincomalee, na Província Oriental.

Ainda que esta comunidade não corresponda sequer a 1% da população total deste país asiático onde predomina a religião budista, hinduísta e islâmica, as raízes portuguesas encontram-se também presentes nas tradições musicais destes grupos étnicos, como a “Baila”, um estilo de música muito popular no antigo Ceilão.

A notável herança portuguesa na afamada “Taprobana de Camões” tem sido ao longo dos últimos anos metodicamente estudada pelo Professor Auxiliar da Universidade de Lisboa, Hugo Cardoso, investigador responsável do projeto "Documentation of Sri Lanka Portuguese", financiado pela "Endangedered Languages Documentation Programme" da School of Oriental and African Studies da Universidade de Londres. Um trabalho de enorme alcance cultural sobre a presença pioneira dos portugueses na Ásia, que tem como principal objetivo criar um corpus anotado da língua, música e danças portuguesas no antigo Ceilão, que inclui inclusive materiais primários recolhidos em diversos arquivos e bibliotecas.

DANIEL BASTOS APRESENTOU EM FAFE NOVO LIBRO SOBRE GÉRALD BLONCOURT E O NASCIMENTO DA DEMOCRACIA PORTUGUESA

Foi ontem apresentado no concelho minhoto de Fafe o livro Gérald Bloncourt – Dias de Liberdade em Portugal”.

A obra, concebida e realizada pelo historiador fafense Daniel Bastos a partir do espólio fotográfico de Gérald Bloncourt, um dos grandes nomes da fotografia humanista, e que é traduzida por Paulo Teixeira e prefaciada pelo coronel Vasco Lourenço, presidente da Direção da Associação 25 de Abril, foi apresentada no Auditório da Biblioteca Municipal de Fafe.

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O historiador Daniel Bastos (ao centro.), na sessão de apresentação do livro “Gérald Bloncourt – Dias de Liberdade em Portugal”, no Auditório da Biblioteca Municipal de Fafe, ladeado do advogado e comentador, Luís Marques Mendes (esq.), e do tradutor Paulo Teixeira

 

A sessão de apresentação, que encheu por completo o auditório, e que foi abrilhantada com canções de abril interpretadas pelo artista musical Carlos Miguel, esteve a cargo do advogado e comentador, Luís Marques Mendes, natural de Fafe, que caraterizou o livro como um verdadeiro serviço público que procura passar, em particular, às novas gerações a importância do 25 de Abril, a conquista da liberdade e da democracia. Um momento histórico que marcou a vida coletiva nacional, singularmente captado por Gérald Bloncourt, e que tem sido profusamente divulgado pelo historiador Daniel Bastos junto das comunidades portuguesas, embaixadoras da cultura e história do país, como também sublinhou Albino Costa, em representação do Município de Fafe.

Neste novo livro, realizado com o apoio da Associação 25 de Abril, Daniel Bastos revela uma parte pouco conhecida do espólio de Gérald Bloncourt, afamado fotógrafo que imortalizou a emigração portuguesa, mas que retratou também a explosão de liberdade que tomou conta do país após a Revolução de 25 de Abril de 1974.

Através de imagens até aqui praticamente inéditas, a obra aborda factos históricos que medeiam a Revolução dos Cravos e a celebração do Dia do Trabalhador na capital portuguesa. Designadamente, a chegada do histórico líder comunista Álvaro Cunhal ao Aeroporto de Lisboa, a emoção do reencontro de presos políticos e exilados com as suas famílias, o caráter pacífico e libertador da Revolução de Abril, e as celebrações efusivas do 1.º de Maio de 1974, a maior manifestação popular da história portuguesa.

Refira-se que esta sessão de apresentação antecede a cerimónia de homenagem pública que a comunidade portuguesa em França vai realizar no próximo dia 26 de outubro, no Museu Nacional da História da Imigração em Paris, no âmbito do primeiro aniversário do falecimento de Gérald Bloncourt.

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MALA DA PARTILHA - HISTÓRIAS DE VIDA

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  • Crónica de Danel Bastos

No final do passado mês de setembro, a Cáritas Portuguesa, uma instituição oficial da Conferência Episcopal Portuguesa para a promoção e dinamização da ação social da Igreja Católica, que tem como missão o desenvolvimento humano e a defesa do bem comum, apresentou na Câmara Municipal de Santarém, o livro “Mala da Partilha – Histórias de Vida”.

A obra, coordenada por Filipa Abecasis, Responsável Operacional da Unidade Internacional da Cáritas Portuguesa, e prefaciada pelo Cardeal Luis Antonio Tagle, arcebispo de Manila, nas Filipinas, e presidente da Caritas Internationalis, assenta num conjunto expressivo de cartas/testemunho de refugiados, emigrantes e imigrantes, que comparam e cruzam diferentes perspetivas do fenómeno migratório. Designadamente, as trajetórias de quem chega a Portugal à procura de uma vida melhor, com os percursos de quem sai do território nacional à procura de melhores condições de vida.

Segundo Filipa Abecasis, o livro, publicado no âmbito da campanha “Partilhar a Viagem” da Caritas Internationalis, que foi lançada pelo Papa Francisco, em 2017, com o tema “acolher, proteger, promover e integrar” migrantes e refugiados, enquadra uma “panóplia de testemunhos bastante diferentes que mostram a forma como as pessoas se sentem mais ou menos integrados, quais foram os desafios também na sua viagem até chegarem e depois também a história de integração”.

As diferentes histórias de vida reunidas na obra sublinham desde logo, que embora o país continue marcado pela emigração, estimativas da Nações Unidas apontam que o número de portugueses emigrados é de mais de 2,2 milhões, o processo de imigração em Portugal tem vindo a assistir nos últimos anos um crescente aumento. Dados recentes do Relatório de Imigração, Fronteiras e Asilo (RIFA) do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), registam que atualmente vivem em Portugal mais de 480 mil estrangeiros, maioritariamente oriundos do Brasil, Cabo Verde, Roménia, França e Itália.

Neste sentido, as diferentes histórias de vida partilhadas no livro, visam essencialmente a promoção de uma cultura do encontro propugnada pelo atual Papa Francisco, como contraposto à globalização da indiferença que grassa em muitas partes do mundo, e que não respeita a dignidade humana de migrantes e refugiados.

A PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA E IDENTIDADE DA EMIGRAÇÃO PORTUGUESA NA TOPONÍMIA

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  • Crónica de Daniel Bastos

O impacto da emigração tem impelido ao longo das últimas décadas vários municípios portugueses a perpetuarem, na toponímia das suas localidades, as marcas deste fenómeno estruturante que se encontra indelevelmente ligado à memória e identidade cultural das comunidades.

Como salienta Gonçalo Poeta Fernandes, no prefácio do livro “Desafios e Constrangimentos do Estudo da Toponímia. Intervenções e contributos”, a toponímia “respira o nosso quotidiano, o que nos envolve, preocupa ou dá felicidade, documenta as vivências das comunidades, suas políticas e intervenções territoriais, quem a sociedade distingue e pretende reter, na memória coletiva”.

É precisamente nesse sentido, que se encontram disseminados por todo o território nacional diversos nomes de ruas, com o claro propósito de enaltecer e preservar as vivências da emigração no seio das povoações.

É o caso, por exemplo, de Rabo de Peixe, uma vila e freguesia do concelho da Ribeira Grande, na ilha açoriana de São Miguel, uma região fortemente marcada pela emigração, onde desde o início da década de 2010 foram aprovados como nomes de novas artérias a “Rua da Diáspora” e a “Rua dos Emigrantes”.

A denominação de arruamentos com referências explícitas ao fenómeno migratório encontra-se igualmente muito presente no Arquipélago da Madeira, um território insular cuja matriz identitária, cultural, social, política e económica não pode ser dissociada da temática da emigração. A presença dos topónimos “Rua Emigrantes”, na freguesia de Caniço, em Santa Cruz, ou “Rua dos Emigrantes”, no município de Porto Moniz, são alguns dos exemplos paradigmáticos desta mundividência que se encontra também expressa nos nomes de muitas ruas de norte a sul de Portugal continental.

A perpetuação da memória e identidade da emigração portuguesa encontra-se inclusivamente nos últimos anos consagrada na toponímia de países que acolhem comunidades lusas. Desde logo em França, a mais numerosa das comunidades portuguesas na Europa, onde estreitados laços de geminação se encontram consagrados vários nomes de localidades de onde são oriundos os emigrantes lusos, como é o caso dos concelhos minhotos de Fafe e de Guimarães, que pontificam respetivamente, numa avenida na cidade de Sens e numa rotunda no burgo de Compiègne.

O PAPEL INESTIMÁVEL DA OBRA CATÓLICA PORTUGUESA DE MIGRAÇÕES NAS COMUNIDADES LUSAS

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  • Crónica de Daniel Bastos

A Obra Católica Portuguesa de Migrações (OCPM), um organismo de âmbito religioso, instituído em 1962, com personalidade jurídica, canónica e civil, sem fins lucrativos, tem desempenhado ao longo de mais de 50 anos de existência um papel inestimável no acompanhamento espiritual e cultural das Comunidades de Língua Portuguesa.

Dependente da Comissão Episcopal da Mobilidade Humana (CEMH), sendo simultaneamente secretariado da mesma Comissão, a OCPM assume como principal desígnio a causa dos migrantes no seio da Igreja Católica Portuguesa. Uma causa cada vez mais premente no contexto sociopolítico internacional, e uma das grandes bandeiras do atual pontificado do chefe da Igreja Católica, que reiteradamente tem feito a defesa dos direitos e dignidade dos migrantes.

No âmbito da sua ação e no cumprimento da sua missão, a Obra Católica Portuguesa de Migrações estende-se às equipas da Pastoral dos Ciganos, dos Marítimos, do Turismo e Peregrinações, das Capelanias de Imigrantes e de outras Organizações Católicas, como é o caso das Missões Portuguesas para Emigrantes.

Criada num período de forte emigração portuguesa, e reconhecendo a emigração como uma constante estrutural da sociedade nacional, a OCPM ao longo de mais de meio século tem dinamizado um trabalho notável de acompanhamento espiritual e cultural das comunidades lusas espalhadas pelo mundo.

Esse trabalho, manifesto entre outros, em celebrações, visitas pastorais, ações de formação ou participação em vários órgãos de informação, alavancou a fundação de Missões Católicas em importantes destinos da emigração portuguesa.

Desde logo, como assinalam Maria Beatriz Rocha-Trindade e Eugénia T. J. Costa Quaresma, autoras do livro “A Igreja face ao fenómeno migratório, 50 anos da OCPM, em destinos como a França, Canadá, Venezuela, África do Sul, Argentina, Brasil, Estados Unidos da América, Alemanha, Luxemburgo, Holanda, Reino Unido, Suíça e Austrália. Países onde vivem e trabalham milhões de compatriotas que continuam a ter nas Missões Portuguesas para Emigrantes um meio de referência no campo da assistência religiosa, cultural e de promoção da identidade nacional. 

A PROMOÇÃO DA LÍNGUA E CULTURA PORTUGUESA NA ESLOVÉNIA

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  • Crónica de Daniel Bastos

A conjugação de esforços e sinergias na promoção da língua e cultura lusa no estrangeiro tem permitido ao longo dos últimos anos ampliar a projeção do país no concerto mundial, inclusivamente em nações onde os portugueses não são das principais nacionalidades residentes.

Um desses exemplos encontra-se presentemente na Eslovénia, um estado situado na Europa Central, que faz fronteira com a Áustria, a Hungria, a Itália e a Croácia, onde na última década o altruísmo cultural e o amor pátrio de João Pita Costa têm sido fundamentais para a difusão da língua e cultura portuguesa nesta pequena nação de 2 milhões de habitantes.

Natural da Costa da Caparica e matemático de profissão, João Pita Costa que vive na capital eslovena, Liubliana, há mais de uma dezena de anos, é desse 2014 o editor da revista bilingue luso-eslovena “Sardinha”, uma revista cultural online que tem tido desde o seu aparecimento o apoio da Associação de Amizade Luso-Eslovena,

Através da cooperação com o Instituto Camões, e da articulação com estruturas diplomáticas e associativas lusas, a “Revista Sardinha” tem celebrado o dia de Portugal e das Comunidades em Liubliana, sendo que na primeira edição em 2017 juntou mais de 100 luso-falantes num convívio feito por portugueses para todos.

No ano passado, a prossecução cultural da revista luso-eslovena esteve na base da dinamização de um ciclo de cinema português, onde foi exibido o filme “Alentejo, Alentejo”, de Sérgio Tréfaut. Uma relevante iniciativa que decorreu no espaço Ziferblat, em Liubliana, e que foi antecedida de uma interveção, do professor Alcides Murtinheira, sobre o cante alentejano, género musical classificado há cinco anos como Património Cultural Imaterial da Humanidade.

Já no início deste ano, a contínua promoção da língua e cultura portuguesa na Eslovénia, contribuiu para que se tenha ouvido fado, um dos maiores símbolos da cultura nacional, em Liubliana, na sala de espetáculos Poket Teater Studio, estreitando-se ainda mais os laços luso-eslovenos que tem em João Pita Costa um dos seus mais afincados e genuínos ativistas culturais.

MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA: A CASA COMUM DA LUSOFONIA

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  • Crónica de Daniel Bastos

O Museu da Língua Portuguesa, inaugurado em 2006 na megametrópole brasileira de São Paulo, a maior cidade lusófona do mundo, assume-se desde a primeira década do séc. XXI, como a casa comum da vasta comunidade formada por todos os povos e nações que compartilham a cultura e a língua de Camões.

Desde a sua origem, o único Museu de Língua Portuguesa do mundo tem como missão e objetivos valorizar a diversidade da língua portuguesa, celebrá-la como elemento fundamental e fundador da cultura, e aproximá-la dos falantes do idioma em todo o mundo.

Um idioma que é atualmente dos mais falados à escala planetária, abrangendo a língua oficial de Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste, e que desde 2010 foi sancionado como a terceira língua oficial da Guiné Equatorial. Como destacam os organizadores da obra “A Língua Portuguesa no Mundo - Passado, Presente e Futuro”, a língua de Camões ocupa hodiernamente um dos lugares cimeiros na lista dos idiomas que ostentam uma dimensão mundial, assim como um incomensurável potencial de expansão.

As singulares características linguístico-culturais e a diversidade dos públicos-alvo do Museu de Língua Portuguesa, que praticamente numa década recebeu cerca de quatro milhões visitantes, sofreram um duro revés no ocaso do ano de 2015, quando um incêndio de grandes proporções atingiu o edifício do espaço museológico situado no complexo da Estação da Luz.

No entanto, a enorme onda de solidariedade que se gerou a nível mundial, e em particular lusófona, tem permitido desde a fatídica data encetar um processo sustentado de reconstrução, que está a procurar contribuir decisivamente para o alargamento do estudo, preservação, valorização e divulgação da cultura e língua portuguesa.

Estimando a reabertura do Museu de Língua Portuguesa no próximo ano, os responsáveis da sua reconstrução, de acordo com recentes declarações públicas, asseguram que o espaço museológico será modernizado com várias novidades tecnológicas e interativas, mantendo simultaneamente a sala de exposições temporárias, e a icónica Praça da Língua e o Auditório.