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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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MONUMENTOS AOS COMBATENTES DA GUERRA DO ULTRAMAR NAS COMUNIDADES PORTUGUESAS

  • Crónica de Daniel Bastos

No decurso do mês de fevereiro assinalam-se os 60 anos do início da Guerra do Ultramar (1961-1974), um período de confrontos bélicos entre as Forças Armadas Portuguesas e os Movimentos de Libertação das antigas províncias ultramarinas de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, que constitui um dos acontecimentos mais marcantes da história nacional e africana de expressão portuguesa do séc. XX.

Um conflito bélico dramático, trágico e traumatizante para mais de um milhão de portugueses, que prestaram serviço militar nas três frentes de combate, onde tombaram cerca de 8.300 soldados, assim como para as populações angolanas, guineenses e moçambicanas, cujo número total de vítimas, entre guerrilheiros e civis, terá sido superior a 100 mil mortos.

A densidade vivencial e o impacto da também conhecida como Guerra Colonial na sociedade portuguesa têm sustentado ao longo das últimas décadas a inauguração no território nacional de inúmeros monumentos de homenagem aos militares mortos, e que rondam já cerca de três centenas.

No cômputo da lista de monumentos alusivos aos Combatentes da Guerra do Ultramar, que se encontram assinalados pela Liga dos Combatentes (LC) no livro “Monumentos Aos Combatentes da Grande Guerra e do Ultramar”, grande parte deles construídos no séc. XXI, e que segundo o tenente-general Chito Rodrigues, Presidente da LC, são “a expressão de um sentimento profundo nacional acerca do que foi a guerra colonial e dos sacrifícios que o povo português fez nesse conflito", destaca-se ainda a existência de quatro monumentos construídos no seio das comunidades portugueses no Canadá e nos Estados Unidos.

No Canadá, onde se estima que na atualidade vivam mais de meio milhão de luso-canadianos, o primeiro monumento a ser erigido em memória dos combatentes que tombaram na guerra do Ultramar foi inaugurado em 2009, na cidade de Winnipeg, capital da província de Manitoba.

Projetado pelo arquiteto português Varandas dos Santos, o memorial impulsionando pela Associação Portuguesa de Veteranos de Guerra de Manitoba e Núcleo da Liga dos Combatentes de Portugal em Winnipeg, e concretizado com o apoio da Província de Manitoba, da Liga dos Combatentes, da Comunidade Luso-Canadiana, da Associação Portuguesa de Manitoba e da Chapel Lawn Memorial Gardens, invoca os militares do passado, presente e futuro.

Em 2012, a cidade de Oakville, junto a Toronto, capital da província de Ontário onde se estima que vivam mais de 20 mil antigos combatentes da Guerra do Ultramar, assistiu à inauguração, no cemitério Glen Oak Memorial Garden, de uma estátua em homenagem aos militares portugueses e canadianos mortos em situações de guerra.

O monumento, concebido em conjunto pelo arquiteto Varandas dos Santos e pelo comendador José Mário Coelho, e impelido pela Associação dos Ex-combatentes do Ultramar Português no Ontário, foi instalado no talhão denominado “Nossa Senhora de Fátima”. O monumento, que contou com apoios financeiros da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas e da Liga de Combatentes de Portugal, sobressai pela existência de vários elementos, dos quais se destacam uma Cruz de Cristo e um capacete de um soldado, tendo ainda a inscrição: “Sacrificados em vida, respeitados na morte”.

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O historiador Daniel Bastos (dir), com um percurso alicerçado no seio das Comunidades Portuguesas, visitou em 2019 o monumento de homenagem aos antigos combatentes da Guerra do Ultramar na cidade de Oakville, junto a Toronto, na companhia do ex-combatente e Presidente da Assembleia Geral da Associação Cultural 25 de Abril em Toronto, Artur Jesus (esq.)

 

Também no território canadiano, designadamente em Laval, cidade da província do Quebeque, região onde o número total de portugueses e lusodescendentes deverá ser superior a 60.000 pessoas, foi inaugurado, no dia 1 de Novembro de 2014, o Monumento aos Combatentes Portugueses. Erigido num espaço fornecido pela Associação Portuguesa de Laval, e impulsionado pelo Núcleo do Quebeque da Liga dos Combatentes, antiga Associação Ex-Combatentes do Ultramar (Angola, Guiné e Moçambique) do Quebeque, o monumento invoca singelamente a memória dos militares caídos no cumprimento do dever.

Ainda na América do Norte, mas já nos Estados Unidos, mais concretamente em Lowell, cidade do condado de Middlesex em Massachusetts, estado que alberga uma grande comunidade luso-americana de origem açoriana, foi inaugurado em 2000 um monumento em memória dos falecidos e ex-combatentes do ultramar português e dos participantes da Revolução de 25 de Abril de 1974. Impulsionado pela numerosa comunidade luso-americana, com especial destaque para Dimas Espínola, uma referência no mundo comunitário luso de Lowell, o monumento teve o apoio resoluto, entre outros, do Portuguese American Center, do Portuguese American Civic League e da Associação de Veteranos de Lowell.

Disseminados pelo território nacional e pelas comunidades portuguesas no mundo, mormente na América do Norte, os Monumentos aos Combatentes da Guerra do Ultramar, observam um dever de memória, pois como relembra o ensaísta francês Joseph Joubert “A memória é o espelho onde observamos os ausentes”.

MARIA BEATRIZ ROCHA TRINDADE: UMA VIDA DE TRABALHO ACADÉMICO SOBRE MIGRAÇÕES

  • Crónica de Daniel Bastos

No decurso das últimas décadas o estudo sobre o fenómeno migratório tem sido profusamente enriquecido com um conjunto diversificado de atividades e trabalhos que têm dado um importante contributo para o conhecimento da emigração portuguesa.

Neste conjunto diversificado de atividades e trabalhos, onde se cruzam os olhares interdisciplinares das ciências sociais, encontram-se, entre outros, livros, artigos em revistas científicas, congressos, conferências, relatórios, dissertações de licenciatura, mestrado e doutoramento.

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Autora, prefaciadora, coordenadora e colaboradora de várias obras relacionadas com a emigração portuguesa, Maria Beatriz Rocha-Trindade (esq.) apresentou em 2017 o livro “Terras de Monte Longo” do historiador Daniel Bastos (dir.)

 

Autora de uma vasta bibliografia sobre matérias relacionadas com as migrações, onde se destacam, entre outros, os livros Sociologia das Migrações (1995), Migrações - Permanência e Diversidade (2009), A Serra e a Cidade - O Triângulo Dourado do Regionalismo (2009) ou Das Migrações às Interculturalidades (2014). E colaboradora habitual de revistas científicas internacionais neste domínio, Maria Beatriz Rocha-Trindade, nascida em Faro, é Doutorada pela Universidade de Paris V (Sorbonne) e Agregada pela Universidade Nova de Lisboa (FCSH).

Professora Catedrática Aposentada na Universidade Aberta, foi responsável pela fundação nos inícios dos anos 90, nesta instituição de ensino superior público, do Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais (CEMRI). Um centro pioneiro na área das Migrações e Relações Interculturais, que conta atualmente com mais de meia centena de investigadores, e que tem dinamizado ao longo dos últimos anos uma intensa pesquisa interdisciplinar e formação avançada na área das migrações e das relações interculturais em contexto nacional e internacional.

O pioneirismo da insigne académica e investigadora está igualmente expresso na introdução em Portugal do ensino da sociologia das migrações, primeiro na Universidade Católica, no curso de Teologia, em 1994, e dois anos depois, na Universidade Aberta, a nível de licenciatura e de mestrado.

Membro de diversas organizações científicas portuguesas e estrangeiras, designadamente da Comissão Científica da Cátedra UNESCO sobre Migrações, da Universidade de Santiago de Compostela, do Museu das Migrações e das Comunidades, criado em 2001 por deliberação do Município de Fafe, e da Comissão Científica do Centro de Estudos de História do Atlântico/CEHA, a Professora Maria Beatriz Rocha-Trindade, coordena presentemente a Comissão de Migrações da Sociedade de Geografia de Lisboa.

Constituída por membros oriundos de vários quadrantes da sociedade que têm estudado e refletido sobre o fenómeno migratório, emigração/imigração, a Comissão de Migrações da Sociedade de Geografia de Lisboa, uma das mais relevantes instituições culturais do país, tem sido responsável pela dinamização de relevantes iniciativas no campo do fenómeno migratório. Como por exemplo, em 2019, quando realizou o colóquio “CPLP - que presente e que futuro?”, ou no ano anterior, o “Fórum Luso-Estudos/ Edição 2018”, o seminário “Enologia, Mobilidade e Turismo” e a conferência “Jornalismo para a Paz em contexto de mobilidade”.

O percurso de vida singular e o trabalho académico laborioso da Professora Catedrática Maria Beatriz Rocha-Trindade, Titular da Ordre National du Mérite, de França, com o grau de Chevalier, da Medalha de Mérito do Município de Fafe e da Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública, de Portugal, estão sublimemente sintetizados nas palavras do docente e investigador Jorge Malheiros, no prefácio da obra Das Migrações às Interculturalidades: “a investigação em migrações em Portugal não seria a mesma coisa sem a Professora Maria Beatriz Rocha-Trindade”.

MANUEL BETTENCOURT – ENTRE O SONHO AMERICANO E O ORGULHO NAS RAÍZES PORTUGUESAS

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  • Crónica de Daniel Bastos

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos Arquipélagos dos Açores e da Madeira, destaca-se hoje pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.

Atualmente, segundo dados dos últimos censos americanos, residem nos EUA mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, principalmente concentrados na Califórnia, Massachusetts, Rhode Island e Nova Jérsia. A grande maioria da população luso-americana trabalha por conta de outrem, na indústria, mas são já muitos os que trabalham nos serviços ou se destacam na área científica, no ensino, nas artes, nas profissões liberais e nas atividades politicas.

No seio da numerosa comunidade lusa nos EUA, onde proliferam centenas de associações recreativas e culturais, clubes desportivos e sociais, fundações para a educação, bibliotecas, grupos de teatro, bandas filarmónicas, ranchos folclóricos, casas regionais e sociedades de beneficência e religiosas, destacam-se percursos de vida de vários compatriotas que alcançaram o sonho americano ("the American dream”).

Entre as várias trajetórias de portugueses que começaram do nada na América e ascenderam na escala social graças ao trabalho, ao mérito e ao empenho, destaca-se o percurso inspirador e de sucesso do comendador Manuel Bettencourt, uma das figuras mais gradas da comunidade luso-americana.

Natural de Ribeirinha, uma aldeia do concelho de Santa Cruz da Graciosa, ilha Graciosa, arquipélago dos Açores, Manuel Bettencourt emigrou para a América no final dos anos 60, na casa dos vinte anos de idade, ao encontro dos pais que tinham partido um ano antes em demanda de melhores condições de vida para uma família humilde e numerosa, marcada pelo espectro de grandes carências, na esteira da larga maioria da população que durante a ditadura portuguesa vivia na pobreza, quando não na miséria.

A chegada à Califórnia, estado no oeste dos EUA, numa fase de crescimento da emigração açoriana para o território americano, marca o início de um percurso de vida de um verdadeiro self-made man”, que sem saber falar inglês, desde logo arranjou trabalho no hotel onde o pai fazia limpezas. Durante cerca de uma década, Manuel Bettencourt, ao mesmo tempo que lavava pratos e servia às mesas, compondo assim os rendimentos da família formada por uma dezena de irmãos, deu asas ao sonho de estudar, de tirar um curso superior, que acalentava desde o torrão natal, em particular do Faial onde tirou o segundo ano do liceu.

O trabalho, o esforço e a resiliência, valores coligidos no seio familiar, permitiram ao jovem graciosense fazer, em regime noturno, o ensino secundário, e depois graduar-se em Educação Geral no San Jose City College e posteriormente licenciar-se em Biologia na San Jose State University.

A progressão na carreira e a valorização profissional levariam Manuel Bettencourt nos quatro anos seguintes a ir para o México, para Guadalajara, estudar Estomatologia, com o objetivo de regressar à Califórnia e abrir um consultório em Santa Clara, atual centro de Silicon Valley, desígnio que cumpriria e que o levou a exercer cirurgia dentária durante 30 anos.

Profissional de medicina dentária renomado, com uma trajetória marcada pelo carecimento, humildade, dedicação e mérito, o dentista luso-americano que sempre trabalhou de perto com os seus compatriotas, demonstrou sempre ao longo da sua vida uma faceta de apoio aos mais necessitados. Contexto que concorreu para que nunca tenha recusado um paciente por falta de dinheiro, ou se mostre ainda hoje disponível para prestar cuidados dentários a inúmeras crianças de agregados carenciados de imigrantes mexicanos.

Atualmente reformado, o sucesso que alcançou no campo da cirurgia dentária foi constantemente acompanhado de uma enorme dedicação às tradições e instituições da comunidade portuguesa na Califórnia, tendo ao longo das últimas décadas ocupado diversos cargos de direção no movimento associativo.

Os notáveis serviços de cidadania e os relevantes contributos em prol da comunidade luso-americana, assim como o reiterado orgulho nas raízes portuguesas que o levam quase todos os anos ao torrão natal, estão na base das condecorações de Comendador da Ordem de Mérito (2002), Comendador da Ordem do Infante D. Henrique (2011) e Insígnia Autonómica de Reconhecimento (2015) que lhe foram atribuídas pelas autoridades nacionais e regionais.

Uma das figuras mais gradas da comunidade luso-americana, o exemplo de vida do comendador Manuel Bettencourt, inspira-nos a máxima do escritor indiano Rabindranath Tagore:“Quanto maiores somos em humildade, tanto mais próximos estamos da grandeza”.

JEAN PINA, DE SONHADOR A PROMOTOR DA SOLIDARIEDADE LUSO-FRANCESA

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  • Crónica de Daniel Bastos

Uma das marcas mais características das comunidades portuguesas é a sua dimensão empreendedora e benemérita, como corroboram os percursos de diversos compatriotas que criam empresas de sucesso e dinamizam atividades de relevo a nível económico, político, cultural e social.

Nos vários exemplos de empresários da diáspora, cada vez mais reconhecidos como uma mais-valia na promoção do país, destaca-se a trajetória do empresário português João Pina, radicado na região de Paris, um dos mais dinâmicos e beneméritos empresários portugueses em França.

Natural de Trinta, uma pequena povoação do concelho da Guarda, João Pina emigrou para França nos anos 80, com 19 anos de idade, na esteira de milhares de portugueses que procuravam na pátria gaulesa uma vida melhor. A chegada a Paris, ainda que marcada inicialmente por um conjunto de contratempos e dificuldades, como foi o caso de um acidente grave que fez com que ficasse em coma vários dias, e que concorreu para que se tornasse um zeloso devoto de Nossa Senhora de Fátima, assinalou um percurso de empresário de sucesso na área da construção civil, como é vivificado na obra biográfica assinada em 2016 por Elizabete Dente - “Jean Pina de sonhador a promotor”.

Presentemente administrador do Grupo Pina Jean, sediado nos arredores de Paris, um conjunto de seis empresas com atividades em áreas como a construção civil, limpeza e reciclagem de resíduos, que o elevam a um dos mais relevantes empresários luso-franceses, o êxito que João Pina, conhecido em terras gaulesas por Jean Pina, alcançou ao longo das últimas décadas no mundo dos negócios, tem sido reiteradamente acompanhado de uma inequívoca solidariedade em prol da comunidade portuguesa em França.

O espírito solidário de Jean Pina foi paradigmaticamente consubstanciado em novembro de 2019, quando o empresário guardense constituiu a Fundação Nova Era Jean Pina. O lema da instituição “Solidariedade em Movimento” é revelador da sua missão primacial. Mormente, dinamizar a cooperação entre França e Portugal através da promoção, apoio e desenvolvimento de projetos de solidariedade para com as pessoas mais desfavorecidas e vulneráveis, como idosos, crianças institucionalizadas e desempregados.

Foi nesta entrecho, que por exemplo, o empresário luso-francês esteve em 2018 na base do estabelecimento de protocolos entre instituições franco-portuguesas de apoio a deficientes. Ou no ano seguinte, na concretização de um protoloco de cooperação com o Centro Cultural Português em Paris do Instituto Camões com o Groupe Jeunesse SOS – M.E.C.S. Félix Faure, com vista à inserção de alunos franceses através da iniciação à língua e cultura portuguesa.

Dinamizador e patrocinador de várias atividades, e projetos de cariz sociocultural e solidário, o empresário e benemérito da comunidade em França não esquece as suas raízes, sendo que pessoalmente ou através da Fundação Nova Era Jean Pina tem sido responsável pela realização de múltiplas iniciativas na região da Guarda.

Atividades no torrão natal que ao longo dos últimos anos têm impelido o encontro de empresários guardenses em Paris, e a oferta de bens alimentares à Loja Social “Mão Amiga” e a idosos e crianças da região da Guarda. Assim como a doação de roupa, brinquedos e material para a ala de Pediatria e Oncologia do Hospital da Guarda, e a entrega de duas dezenas de bolsas de estudo a reclusos do Estabelecimento Prisional da Guarda.

Têm sido várias as ceias de Natal organizadas por Jean Pina na Guarda para as quais convida crianças institucionalizadas e idosos isolados. Ainda recentemente para mitigar as dificuldades socioeconómicas causadas pela pandemia de coronavírus, a sua fundação ofereceu cerca de meio milhar de cabazes de Natal a famílias carenciadas da cidade mais alta de Portugal.

A inesgotável generosidade de Jean Pina na região da Guarda levaram no final do ano passado a Assembleia Municipal de Celorico da Beira a aprovar um voto de louvor à fundação Nova Era e ao empresário luso-francês. Ainda nesse ano, a Assembleia de Freguesia da Guarda, Almeida e o Município de Mangualde tinham aprovado por unanimidade votos de louvor pelo trabalho de Jean Pina, méritos que tinham já concorrido em 2015 para que tivesse sido distinguido com a Medalha de Mérito Municipal da Cidade da Guarda.

Uma das figuras mais conhecidas da comunidade lusa em França, provavelmente a maior comunidade portuguesa fora de Portugal, o exemplo de vida do empresário e benemérito Jean Pina inspira-nos a máxima de Madre Teresa de Calcutá: “Eu sei que o meu trabalho é uma gota no oceano, mas sem ele o oceano seria menor”.

OS NOTÁVEIS EXEMPLOS DE SOLIDARIEDADE DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS EM TEMPOS DE PANDEMIA

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  • Crónica de Daniel Bastos

Nestes tempos difíceis que atravessamos, devido aos efeitos da pandemia de coronavírus que ao longo do último ano gerou uma crise socioeconómica mundial sem precedentes, as comunidades portuguesas têm sido palcos constantes de muitos e bons exemplos de solidariedade.

Uma generosidade que perpassa a geografia universal dos portugueses no estrangeiro, e que se tem revelado essencial para mitigar o espectro de desemprego, as perdas de rendimento e as grandes dificuldades de vida que bateram à porta de muitos compatriotas.

Os exemplos deste sentimento de responsabilidade, partilha e auxílio no seio da diáspora lusa têm sido muitos, verdadeiramente inspiradores, a todos os títulos notáveis, e não devem deixar de ser enaltecidos e prosseguidos no nosso quotidiano.

É o caso, por exemplo, da incomensurável onda de generosidade que tem sido dinamizada em França, onde vive a maior comunidade portuguesa de emigrantes, mais de um milhão, e que através do coletivo “Todos Juntos” reuniu, no decurso do ano transato, várias toneladas de alimentos para ajudar famílias carenciadas de emigrantes lusos que vivem na região parisiense.

Na mesma esteira solidária, e durante o mesmo período, a comunidade portuguesa e de luso-descendentes na África do Sul, que se estima que atualmente ronde o meio milhão de pessoas, na sua maioria com raízes madeirenses, através do Fórum Português da África do Sul, entregou cerca de 400 toneladas de alimentos ao Governo sul-africano para ajudar no combate à fome na província de Gauteng, a mais afetada pela pandemia da covid-19.

Por esta altura em Toronto, a maior cidade do Canadá, onde reside uma das mais dinâmicas comunidades portuguesas da América do Norte, uma das mais relevantes plataformas de comunicação social lusa, a MDC Media Group, presidida pelo comendador Manuel da Costa, um dos mais ativos e beneméritos empresários luso-canadianos, que incorpora órgãos de informação como o jornal Milénio Stadium, as revistas Amar e Luso Life, e a Camões Rádio e TV, persevera na recolha de alimentos para entregar no Food Banks Canada.

Ainda na maior cidade do Canadá, e com o apoio constante dos diversos órgãos de informação da MDC Media Group, ao longo dos últimos tempos a equipa de voluntários liderada por José Dias, Luís Miguel de Castro e Carlos Lopes têm dinamizado a “Food for Thought”. Através da generosidade de vários estabelecimentos e figuras gradas da comunidade luso-canadiana, o grupo de voluntários têm conseguido distribuir “alimento para a alma” de vários agregados de concidadãos que por estes dias vivem com mais dificuldades.

Estes notáveis exemplos de solidariedade, e muitos outros que estão atualmente a ser dinamizados no seio das comunidades portuguesas, dão sentido à incitação universal e intemporal de Nelson Mandela, um dos símbolos dos direitos humanos mais reconhecidos do século XX: Um dos desafios do nosso tempo, sem ser beato ou moralista, é reinstalar na consciência do nosso povo esse sentido de solidariedade humana, de estarmos no mundo uns para os outros, e por causa e por meio dos outros”.

RETRATOS DA EMIGRAÇÃO PORTUGUESA NA LITERATURA INFANTO-JUVENIL

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  • Crónica de Daniel Bastos

Nas últimas décadas a literatura infanto-juvenil, um ramo da literatura dedicado especialmente às crianças e jovens adolescentes, tem-se assumido como um dos géneros mais apreciados no panorama editorial português e uma relevante ferramenta para a criação de hábitos leitura.

Impulsionados por programas públicos, como o Plano Nacional de Leitura (PNL) e a Rede de Bibliotecas Escolares (RBE) que têm contribuído decisivamente em Portugal para o desenvolvimento de uma estratégia de promoção da literacia no público mais jovem, cada vez mais escritores, ilustradores e projetos editoriais têm apostado na conceção de livros destinados a crianças e jovens adolescentes.

Entre as várias temáticas abordadas, o fenómeno da emigração, uma realidade socio-histórica incontornável no território nacional, tem sido alvo de múltiplas abordagens por parte de autores de literatura para crianças e jovens. É o caso, por exemplo, de António Mota, um dos mais conhecidos autores de literatura juvenil que em 2012 lançou a obra O Agosto que Nunca Esqueci, um livro recomendado pelo PNL para leitores fluentes dos 12 aos 14 anos, que constitui um retrato da emigração portuguesa dos anos 60.

Em 2017, a famalicense Marta Pinto assinou o livro infantil Emigração. Que palavra esquisita!. Uma obra ilustrada por Natacha Lourosa, e cuja narrativa percorre a história de Clara, uma menina como tantas outras que vê o pai ter de viajar para longe, para outro país, para trabalhar, e que aguarda ansiosa pelo seu regresso.

No ocaso do ano de 2019, a Associação dos Emigrantes Açorianos (AEA), cuja sede funciona nas instalações do Museu da Emigração Açoriana, na Ribeira Grande, ilha de São Miguel, lançou o livro infanto-juvenil Açores, uma caça ao sonho americano, que narra a história dos primeiros açorianos que chegaram aos Estados Unidos da América, por via da caça à baleia, no século XVIII. Com pesquisa de Rui Faria, textos de Patrícia Carreiro, ilustrações de Romeu Cruz e tradução de Cristina Oliveira, o livro bilingue que se encontra traduzido para inglês, ficou disponível na costa Leste dos Estados Unidos a partir do início do ano seguinte, sendo que as receitas das suas vendas revertem para a edição de um novo livro sobre a história da emigração açoriana para o Canadá, outro dos principais destinos da diáspora açoriana.

Já no decurso do ano transato, e no seio das comunidades portuguesas, a empresária lusodescendente de terceira geração na Califórnia e dirigente do Conselho de Liderança Luso-americano (PALCUS), Ângela Simões, lançou o livro bilingue “Maria and Joao go to the Festa! A Maria e o João vão à Festa!”. Com ilustrações da luso-americana Hélia Borges Sousa e tradução portuguesa do professor luso-americano Diniz Borges, natural da ilha Terceira, nos Açores, e diretor do Portuguese Beyond Borders Institute da Universidade de Fresno State, na Califórnia, o livro direcionado para crianças dos 6 aos 12 anos, narra uma história que retrata a tradição das "Festas" das comunidades portuguesas nos Estados Unidos, e que imerge assim na génese dos emigrantes portugueses na América.

Porquanto as crianças são o presente e futuro do mundo, a conceção e realização de obras no campo da literatura infanto-juvenil, com enfoque no fenómeno migratório, uma constante estrutural da história portuguesa, é simultaneamente, um importante contributo para a aprendizagem. Assim como para o processo educativo, mormente a educação para a cidadania, que visa contribuir para a formação de pessoas responsáveis, autónomas, solidárias, que conhecem e exercem os seus direitos e deveres em diálogo e no respeito pelos outros, com espírito democrático, pluralista, crítico e criativo.

REPÚBLICA DOMINICANA: AÇORIANOS EM SÃO DOMINGOS

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  • Crónica de Daniel Bastos

No decurso dos últimos anos o acervo bibliográfico sobre o fenómeno migratório tem sido profusamente enriquecido com o lançamento de um conjunto significativo de livros que têm ampliado o estudo e conhecimento sobre a história da emigração portuguesa.

Um dos exemplos mais recentes que asseveram a importância destas obras na análise e compreensão da emigração nacional, encontra-se vertido no livro “Açorianos em São Domingos” da autoria do antropólogo e historiador luso-brasileiro, Luiz Nilton Corrêa.

A obra, lançada no ocaso do ano passado com a chancela da Letras Lavadas e o apoio da Direção Regional das Comunidades, do Governo dos Açores, e que é resultado da dissertação de mestrado realizada pelo investigador luso-brasileiro entre 2006 e 2008 na Universidade dos Açores, com orientação do saudoso professor Carlos Cordeiro, conhecido pelo seu trabalho de investigação sobre a identidade açoriana, aborda a saga dos emigrantes micaelenses na República Dominicana em 1940.

Embrenhando-se num fenómeno marcante na vida de milhares de açorianos, estima-se presentemente que cerca de 1,5 milhões de açorianos e seus descendentes residam no estrangeiro, o trabalho de Luiz Nilton Corrêa tem o condão de deslindar uma dos movimentos da emigração açoriana que não é tão conhecido como o dos seus cinco grandes destinos nos séculos XIX e XX (Brasil, Estados Unidos da América, Bermudas, Havai e Canadá).

Mormente, o processo de emigração e repatriamento de um grupo de micaelenses que seguiu em 1940 para a República Dominicana, país que divide o território da ilha Hespaniola com a República do Haiti, atualmente conhecido como um dos principais destinos turísticos mundiais, e cuja capital e maior cidade é São Domingos.

Em plena II Guerra Mundial, como desvenda Luiz Nilton Corrêa, o segundo maior e mais diverso país caribenho, através de um pretenso atrativo pacote de apoios fomentou uma política de atração de milhares de refugiados do conflito bélico, assim como de imigrantes, de modo a incrementar o seu desenvolvimento populacional e económico.

Foi neste entrecho, que em 1940 um grupo de centena e meia de emigrantes naturais de São Miguel, marcados pelo espectro da pobreza e na demanda de melhores condições de vida, encetaram uma trajetória efémera em direção à República Dominicana. O almejado eldorado caribenho revelou-se uma experiência traumatizante, que acentuou ainda mais o sofrimento e a pobreza vivenciada na pátria de origem, e que terminou tragicamente com a morte de dois emigrantes micaelenses e o repatriamento do grosso dos mesmos através de diligências do governo ditatorial do Estado Novo, após pressão das comunidades açorianas nos Estados Unidos da América e nas Bermudas.

Na esteira das palavras da investigadora Susana Serpa Silva, tendo em conta a “importância de que se reveste a temática da emigração – intimamente ligada à História, à memória e à identidade arquipelágicas”, o recente livro dedicado à saga dos emigrantes micaelenses na República Dominicana em 1940 constitui mais um importante contributo para a compreensão da história da emigração açoriana, e do demais território nacional, ou não fosse a emigração um fenómeno constante da vida portuguesa.

LIVRARIAS EMBAIXADORAS DA LÍNGUA E CULTURA LUSÓFONA

Nos últimos anos tem-se assistido em Portugal ao encerramento de um conjunto significativo de livrarias, muitas delas antigos espaços culturais de eleição, de encontro, de convívio e de cidadania. O fecho ainda há poucos anos de portas, em Lisboa, da Aillaud & Lellos, da Book House, da Bulhosa Livreiros e da Pó dos Livros, ou no Porto, da Leitura, são apenas alguns destes tristes exemplos que têm pautado o panorama cultural nacional.

A evolução e a crise do mercado, a concorrência de grandes cadeias, a forte pressão nas rendas do mercado imobiliário, a falta de apoios ou a alteração do modo de ler, que já não se cinge exclusivamente a ler o livro em papel, e a recente crise provocada pela pandemia de coronavírus, são alguns dos motivos que estão na base do encerramento destes estabelecimentos culturais ameaçados de extinção.

Este fenómeno de empobrecimento da vida cultural não é um exclusivo do país, tendo-se igualmente acentuado nos últimos anos no seio das comunidades portuguesas. Longe vão os tempos em que a Livraria Lusófona, do editor João Heitor, foi durante mais de duas décadas um espaço singular na difusão da língua e cultura portuguesa a partir do Quartier Latin em Paris.

Uma triste sina de desaparecimento que atingiu também nos tempos mais recentes a antiga livraria Orfeu, sediada em Bruxelas, propriedade do ativista cultural Joaquim Pinto da Silva, cujo desiderato visava promover as culturas portuguesas e galega no coração da Europa. Assim como, a Livraria Camões, em Genebra, do emigrante e livreiro natural do Porto, António Pinheiro, uma genuína embaixada literária de Portugal em terras helvéticas, e a Luso Livro que assumia como principais objetivos divulgar a língua e cultura portuguesas em Zurique.

Com mais ou menos dificuldades, subsistem ainda algumas livrarias disseminadas pelas Comunidades Portuguesas, que como no território nacional, vão resistindo aos ventos da extinção, teimando em funcionar como polos agregadores e difusores da cultura e língua lusa. É o caso da Livraria - die portugiesische & brasilianische Buchhandlung em Berlim, um espaço de referência da literatura lusófona na capital da Alemanha; a TFM, uma livraria emblemática da cultura lusófona na cidade germânica de Frankfurt; a Livraria Portuguesa de Macau, detida pelo Instituto Português do Oriente  (IPOR), que constitui um espaço incontornável da portugalidade no Oriente; e da La petite portugaise, uma livraria portuguesa em Bruxelas que pretende divulgar a cultura lusófona no coração da Europa.

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O historiador Daniel Bastos (centro), cujo percurso tem sido alicerçado no seio das comunidades portuguesas, em 2019 na sessão de apresentação do livro “Gérald Bloncourt – Dias de Liberdade em Portugal”, na livraria portuguesa em Bruxelas La Petite Portugaise, ladeado de Elisabete Soares, representante da livraria luso-belga, e de Paulo Pisco, deputado eleito pelo círculo da emigração na Europa

 

A prossecução cultural destes espaços no seio das comunidades portuguesas demanda neste sentido o apoio resoluto das instâncias competentes do Estado Português ao nível da política cultural externa do país, que não podem olvidar a missão destas livrarias, verdadeiras embaixadoras da língua, cultura e expressão lusófona. Como o autor e jornalista brasileiro Airton Ortiz, acredito que “somos o resultado das viagens que fazemos, dos livros que lemos e das pessoas que amamos”.

OS DESAFIOS DO FUTURO PRÓXIMO DO MOVIMENTO ASSOCIATIVO DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS

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  • Crónica de Daniel Bastos

O movimento associativo das comunidades portuguesas constitui um dos mais importantes elos de ligação dos inúmeros compatriotas espalhados pelo estrangeiro à língua, cultura, história e memória da pátria de origem, e simultaneamente uma das marcas mais expressivas da sua inserção socioprofissional nos territórios de acolhimento.

Espaços privilegiados de cultura e participação cívica, o movimento associativo é a argamassa identitária que une as comunidades portuguesas, e um conjunto essencial de estruturas que as elevam à condição das mais genuínas embaixadoras de Portugal no mundo.

Nestes tempos de pandemia, que mudou radicalmente a forma como as sociedades operam, o meio associativo das comunidades lusas encontra-se submerso em dificuldades e incertezas.

Dificuldades e incertezas resultantes do cenário pandémico, que entrava a realização de eventos e iniciativas, como foi o caso paradigmático do Dia de Portugal, qual barómetro anual da dinâmica e vitalidade do meio associativo na diáspora, que este ano que agora finda se cingiu a comemorações simbólicas.

Celebrações minimalistas que substituíram a realização de tradicionais iniciativas, que em muitos casos garantem a obtenção de receitas que permitem custear o normal funcionamento das associações, como seja o pagamento da água, luz, rendas dos espaços ou a sua manutenção.

Nesse sentido, o risco de fecho definitivo de diversas associações no seio das comunidades portuguesas, nunca foi tão real, e é ainda agravado por problemáticas muito anteriores ao surgimento da pandemia. Designadamente, o envelhecimento dos seus quadros dirigentes, da maioria dos seus associados e da escassa participação dos lusodescendentes.

Este perigo acrescido de encerramento coloca portanto vários desafios ao futuro próximo do movimento associativo das comunidades portuguesas, que desde logo deve colocar definitivamente em cima da mesa, não só, quando a vida tender a normalizar em 2021 com os programas de vacinação em massa, a diversificação de atividades capazes de conciliarem a cultura tradicional enraizada nas coletividades com novas dimensões socioculturais, como o cinema, a literatura ou a moda, de modo a atrair as jovens gerações de lusodescendentes.

Como também a adotar um novo modelo de atuação e organização das associações, que em muitos casos, poderá passar por um paradigma de partilha de uma “casa comum”, capaz de reunir num só espaço com dignidade e dimensão a valiosa argamassa identitária das comunidades portuguesas.

Uma “Casa de Portugal”, de portas abertas a parcerias com agremiações, escolas e universidades onde se ensina a língua portuguesa, com uma agenda capaz de congregar diversas sinergias, de diluir diferenças e divergências. E assim potenciar o coletivo, a união, e os cada vez mais parcos recursos humanos e financeiros que existem no movimento associativo luso em prol da cultura portuguesa.

Uma “Casa de Portugal“ em que se possa organizar vários eventos culturais do movimento associativo. Desde as festas e festivais de folclore, à programação de artes plásticas, cinema, dança, literatura, teatro, ciclos de conferências ou divulgação de trabalhos dos investigadores que cada vez mais proliferam na lusodescendência.

Que esta união e solidariedade possa emanar ininterruptamente nas comunidades portugueses, em particular, no movimento associativo, de modo a que rapidamente se ultrapassem os desafios do seu futuro próximo. E que esta seja a centelha que nos guie nestes tempos conturbados no rumo da alegria, da saúde e de um próspero ano novo.

NATAL EM TEMPO DE PANDEMIA NAS COMUNIDADES PORTUGUESAS

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  • Crónica de Daniel Bastos

Natal é a festa por excelência da família, da paz, do amor, da alegria, da solidariedade e da esperança num futuro melhor, que este ano a humanidade aguarda ansiosa que marque o fim da malfadada pandemia de coronavírus.

Uma pandemia que tem acarretado nas sociedades efeitos devastadores no campo socioeconómico, espelhados em milhares de vítimas e de casos de infeção, assim como generalizadas medidas de confinamento que paralisam a economia e colocam os países às portas de uma recessão sem precedentes.

Disseminadas pelos quatro cantos do mundo, as comunidades portuguesas, a mais autêntica e consistente manifestação lusa além-fonteiras, não estão imunes a estes efeitos que alteram transversalmente o nosso quotidiano e rotinas.

Efeitos que ao longo dos últimos meses foram responsáveis pelo cancelamento ou adiamento de eventos e iniciativas que integram os planos anuais de atividades do movimento associativo das comunidades portuguesas, e que são em vários casos essenciais para obter receitas que permitam financiarem o seu normal funcionamento. Mas também pelo crescente aumento de relatos de situações de precariedade, perda de rendimentos, desemprego e ameaça de insegurança económica no seio de diversos agregados de emigrantes portugueses.

Em França, onde vive a maior comunidade portuguesa de emigrantes, mais de um milhão, o Instituto Nacional de Estatística e de Estudos Económicos gaulês divulgou recentemente que há mais 500 mil desempregados no país, fruto da atual crise económica provocada pela pandemia e que está a afetar muitos compatriotas. Ainda há poucos dias, Ilda Nunes, provedora da Santa Casa da Misericórdia de Paris (SCMP), uma relevante instituição cuja missão e valores visam a assistência à comunidade portuguesa em França, veiculou publicamente que os pedidos de ajuda aumentaram consideravelmente entre a comunidade portuguesa, mormente entre 25 a 30%.

 Nesta fase de grandes dificuldades, a comunidade portuguesa em França, à imagem e semelhança de outras comunidades lusas, tem demonstrado um enorme espírito de solidariedade, um dos, senão mesmo, o mais importante valor que nos humanizam e dão sentido ao Natal. E que ao longo dos anos, as comunidades lusas perseveram em manter como umas suas principais matrizes socioculturais, apoiando quer os nossos concidadãos no estrangeiro, assim como os portugueses residentes no território nacional.

Foi nesta esteira, que no sábado passado o coletivo “Todos Juntos”, após ter recolhido 15 toneladas de alimentos em junho para a Santa Casa da Misericórdia de Paris, voltou a fazer uma recolha de alimentos na região parisiense para ajudar as famílias apoiadas pela SCMP, e planeia inclusive dinamizar novas iniciativas no próximo ano.

É nesta linha de exemplos solidários, que em Toronto, no Canadá, território onde vive e trabalha uma das mais dinâmicas comunidades lusas da América do Norte, ao longo dos últimos tempos a equipa de voluntários liderada por José Dias, Luís Miguel de Castro e Carlos Lopes têm dinamizado a “Food for Thought”. Através da generosidade de vários estabelecimentos e figuras gradas da comunidade luso-canadiana, o grupo de voluntários têm conseguido distribuir “alimento para a alma” de vários agregados de concidadãos que por estes dias vivem com mais dificuldades.

Estes exemplos inspiradores de solidariedade, e muitos outros que estão atualmente a serem dinamizados no seio das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, reforçam que o Natal, mesmo em tempos de pandemia, é uma época de esperança, de ainda mais união e de solidariedade.

Que esta esperança, união e solidariedade que emana das comunidades portugueses, nos irmane a todos a tornar o mundo um lugar melhor, em que nas noites frias de Inverno o calor da esperança, da união e da solidariedade aqueça os nossos corações, e nos guie nestes tempos conturbados e desafiantes no rumo da alegria, da saúde, de uma feliz quadra natalícia e um próspero ano novo.

OLHARES LITERÁRIOS FEMININOS SOBRE A EMIGRAÇÃO PORTUGUESA

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  • Crónica de Daniel Bastos

Nos últimos anos o panorama literário sobre o fenómeno migratório tem sido profusamente enriquecido com um conjunto expressivo de obras de autores nacionais ou lusodescendentes residentes no estrangeiro, que através do mundo dos livros têm dado um importante contributo para o conhecimento de múltiplas dimensões da realidade emigratória portuguesa.

Neste panorama literário, destacam-se cada vez mais obras escritas por autoras que vivem nas comunidades portuguesas, e que têm tido o condão de aclarar o papel das mulheres no seio da emigração. Um dos lados, como refere a reputada investigadora no domínio da História das mulheres e do género, Irene Vaquinhas, “menos conhecido e estudado do fenómeno migratório”.

Enquadra-se neste contexto, por exemplo, o livro em forma de contos “Correr Mundo - Dez mulheres, dez histórias de emigração”, lançado com a chancela da Oxalá Editora em março do ano que agora finda, no âmbito do Dia Internacional da Mulher. A obra, onde são abordadas a “saudade da infância e das origens, da língua, da família, as questões da identidade e do desenraizamento, a desvalorização dos emigrantes no país de acolhimento pela natureza do seu trabalho, as dificuldades de adaptação, as viagens até ao país de acolhimento”, é assinada por Irene Marques, professora de Literatura e Escrita Criativa nas Universidades de Toronto e Ryerson, no Canadá, que em 2019 arrecadou o Prémio Ferreira de Castro; Paula de Lemos, investigadora de Literatura Comparada na Universidade de Trier, na Alemanha, e detentora do Prémio Manuel Teixeira Gomes 2002; Luísa Costa Hölzl, tradutora, poetisa e professora de Língua Portuguesa da Universidade de Munique, na Alemanha; Luísa Semedo, doutorada em Filosofia e Conselheira das Comunidades Portuguesas eleita em França, que em 2017 ganhou o Prémio Literário e de Ilustração Eça de Queiroz; Gabriela Ruivo Trindade, formada em Psicologia e a viver em Londres, vencedora do Prémio LeYa em 2013; Maria João Dodman, doutorada em Literatura pela Universidade de Toronto e professora na York University, no Canadá; São Gonçalves, escritora e poetisa que reside no Luxemburgo;  Luz Marina Kratt, escritora e jornalista que vive entre a Suíça e a Áustria; Helena Araújo, blogger e escritora residente em Berlim, na Alemanha; e Altina Ribeiro, conhecida escritora da comunidade portuguesa em França.

Na mesma data comemorativa, as pintoras Maria João Sousa, Gracinda da Rocha e Cândida Martins, em conjunto com a poetisa Deolinda Xavier Cabo, há vários anos radicadas na comunidade portuguesa do Quebeque, Canadá, lançaram o livro “Mãos de Mulher”. Uma obra onde se entrelaça a pintura e a poesia, e que nas palavras do prefaciador Manuel Carvalho, patenteia “retalhos do torrão natal nunca esquecido e do novo mundo que as acolheu, numa mescla aparentemente dispersa mas que uma leitura mais atenta nos faz vislumbrar o significado, por vezes sinuosos, e tantas vezes dolorido, destes percursos existenciais, a fluir entre o onírico e o real, na busca incessante da felicidade e do sentido da caminhada humana”.

Ainda na esteira literária sobre o fenómeno migratório, Isabel Mateus, escritora estabelecida no Reino Unido, lançou em meados deste ano a obra “Anna, A Brasileirinha de São Paulo” que mergulha na epopeia da emigração portuguesa para o Brasil. Segundo a consagrada socióloga das Migrações, Maria Beatriz Rocha-Trindade, neste livro a autora “oriunda de Trás-os-Montes, uma das regiões mais afetadas pela saída dos que procuraram melhorar vida fora do país, conseguiu, através da sua escrita, reconstituir o cenário em que se deslocou uma família, excelente paradigma dos que no início do século XX, deixando aldeias perdidas do interior, atravessaram o Atlântico tentando atingir o sonho que o relato de muitos conterrâneos tinha ajudado a construir”.

Estes exemplos de olhares literários femininos, e outros que foram apresentados ou se encontrem porventura no prelo, representam um relevante contributo para o conhecimento da emigração portuguesa. Um fenómeno complexo, que nas palavras abalizadas do saudoso pensador Eduardo Loureço, nos “põe em causa, a diversos níveis, de maneira indirecta, a imagem de nós mesmos mas por isso deve ser apreendida na sua verdade, de maneira adulta e não servir de pretexto como serve a muita gente, a fantasmas colectivos, uns positivos outros negativos, que têm pouco a ver com ela”.

EROSÃO, UM PROJETO DE VALORIZAÇÃO DA IDENTIDADE CULTURAL DA EMIGRAÇÃO

  • Crónica de Daniel Bastos

Na freguesia de Cepães, uma freguesia do concelho de Fafe, situada no distrito de Braga, com intensa atividade industrial e aptidão agrícola, ao longo dos últimos três anos tem sido dinamizado um original projecto comunitário em rede que e envolve toda a comunidade local em torno da história e memória da emigração. 

Partindo dos percursos migratórios do final do século XIX e do século XX para o Brasil e França, assim como das expressões materiais e simbólicas do ciclo de retorno dos emigrantes que marcam indelevelmente a região do Vale do Ave. E em particular o concelho de Fafe, contexto que impeliu o município minhoto a instituir no alvorecer do séc. XXI o Museu das Migrações e Comunidades, o grupo local EnfimTeatro, núcleo dramático da Sociedade de Recreio Cepanense, está a desenvolver desde o primeiro trimestre de 2017 o projeto comunitário Erosão, tendo em vista a dinamização de atividades culturais nas áreas do teatro e cinema.

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O historiador Daniel Bastos (esq.), cujo percurso tem sido alicerçado no seio das Comunidades Portuguesas, acompanhado em 2018 dos responsáveis do projeto comunitário Erosão, José Rui Rocha e Nuno Pacheco, na Sociedade de Recreio Cepanense, no âmbito de uma conferência sobre a Emigração Portuguesa

 

Tendo como objetivos capitais o desenvolvimento, formação, divulgação, produção e ação artística, cultural e educativa, através de um amplo, exigente e democrático acesso à cultura. O EnfimTeatro tinha projetado para o final deste ano em que se assinalam os 25 anos da morte de Miguel Torga, um dos mais influentes escritores portugueses do século XX, cujo percurso de vida e literário foi marcado pela sua experiência nos anos 20 como emigrante no Brasil, o lançamento do filme Erosão.

Esta dinâmica de trabalho, que não é imune aos efeitos da pandemia de coronavírus que um pouco por todo o lado tem contribuído para o cancelamento ou adiamento de eventos e iniciativas que integram os planos anuais de muitas associações, assenta no pressuposto basilar que a comunidade é protagonista. Pelo que, os termos viagem, emigração, esperança, utopia, tradições, memória, identidade e património são os pilares fundamentais da estrutura do argumento do filme que funciona simultaneamente como catalisador de uma rede cultural, tanto que a iniciativa conta com a colaboração de diversas instituições, associações e grupos comunitários.

Como sustentam os seus responsáveis, o projeto Erosão embrenha-se na comunidade, nas suas metamorfoses, linguagens, hábitos e tradições, comprometendo-se com as suas virtudes e dificuldades, ou seja, está vinculado com a paisagem, o património material e imaterial, as pessoas, enfim, o território.

Foi nessa esteira, que em meados de setembro a comunidade local assistiu à realização do evento ambulante “A Arte do Jogo do Pau”, composto por teatro de rua e representações de jogo do pau, uma das artes marciais portuguesas mais antigas com tradição no Norte de Portugal, principalmente no Minho, e que era praticado com varapau ou cajado, um instrumento de trabalho e simultaneamente uma arma do dia-a-dia das pessoas.

Mais que uma abordagem singular ao fenómeno migratório, o projeto Erosão dinamizado pelo grupo comunitário EnfimTeatro, constitui uma relevante valorização das tradições, usos, costumes e da emigração, partes integrantes da história e da identidade portuguesa.