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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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MUSEU HISTÓRICO DE SÃO JOSÉ: UM ESPAÇO DEDICADO À HERANÇA CULTURAL PORTUGUESA NA CALIFÓRNIA

  • Crónica de Daniel Bastos

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos Arquipélagos dos Açores e da Madeira, destaca-se atualmente pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.

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Atualmente, segundo dados dos últimos censos americanos, residem nos EUA mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, principalmente concentrados em Massachusetts, Rhode Island, Nova Jérsia e Califórnia. É neste último estado, que vive e trabalha a maior comunidade luso-americana do país, constituída por mais de 300 mil pessoas, e cuja presença histórica no oeste dos EUA remonta à centúria oitocentista, aquando da corrida ao ouro, da dinamização da pesca da baleia e do atum, e mais tarde das atividades ligadas à agropecuária.

A secular presença portuguesa na Califórnia, que se manifesta hodiernamente na existência de diversas associações, clubes e fundações luso-americanas, esteve na base da inauguração a 7 de junho de 1997, na antecâmara do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, do Museu Histórico de São José.

Erigido pela Sociedade da Herança Portuguesa da Califórnia, o museu, que ocupa um espaço de 650 metros quadrados, possuiu uma forte componente dedicada à emigração portuguesa para a Califórnia, às suas tradições, em especial religiosas. De tal modo, que o edifício constitui uma réplica do primeiro Império (Capela do Espírito Santo), à volta da qual se desenvolvem as festividades do Espírito Santo.

O Museu Histórico de São José alberga um conjunto de várias exposições que perpassam a história da emigração portuguesa para a Califórnia e o papel da comunidade lusodescendente num dos mais prósperos estados norte-americanos. O papel e importância da comunidade portuguesa concorreram decisivamente para que há dois anos fosse oficialmente inscrita na legislatura estadual da Califórnia, após aprovação unânime no Senado, uma resolução a declarar junho de 2019 como "Mês da Herança Nacional Portuguesa".

Enquanto espaço singular que homenageia e perpetua a herança cultural lusa nos Estados Unidos da América, em particular na Califórnia, o Museu Histórico de São José constitui-se como um exemplo inspirador para as Comunidades Portuguesas disseminadas pelo mundo, principalmente naquilo que deve ser o respeito pelo seu passado, a construção do seu presente e a projeção do seu futuro.

LIVRARIA PORTUGUESA DE MACAU: UMA VITRINA DA CULTURA LUSÓFONA NO ORIENTE

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  • Crónica de Daniel Bastos

No atual contexto de crise, originado pela pandemia da Covid-19 e os efeitos do confinamento social, as livrarias, espaços incontornáveis de cultura e cidadania, travam diariamente, no território nacional e nas comunidades portuguesas no mundo, hercúleas batalhas de sobrevivência.

Muitas são as que no decurso dos últimos tempos pereceram no campo de batalha, soçobrando às incursões da concorrência de grandes cadeias, à forte pressão nas rendas do mercado imobiliário, à falta de apoios ou à alteração do modo de ler, que já não se cinge exclusivamente a ler o livro em papel.

No entanto, ainda há quem resista, insistindo em manter as portas abertas apesar das incessantes contrariedades, quais faróis de uma sociedade em que nunca foi tão necessário parar para ler, refletir e cultivar a sabedoria. É o caso da Livraria Portuguesa de Macau, uma das principais vitrinas da cultura lusófona no Oriente, que para além de funcionar como local de venda de livros e de outros produtos culturais, organiza regularmente sessões de apresentação de livros e exposições. 

Fundada em 1985 pelo Instituto Cultural de Macau, numa época em que o território asiático ainda se encontrava sob administração lusa, a Livraria Portuguesa de Macau é atualmente detida pelo Instituto Português do Oriente  (IPOR). Uma entidade pública empresarial nacional, que assume como missão central preservar e difundir a língua portuguesa e a cultura lusófona no Oriente, com vista à continuidade e aprofundamento do diálogo intercultural.

Enfrentando as diversas dificuldades com que as estruturas livreiras se debatem quotidianamente, a que assomam os problemas relacionados com a importação de livros a partir do país, mormente a distância e o custo do transporte, a Livraria Portuguesa de Macau persiste na dinamização de iniciativas e atividades direcionadas para a comunidade portuguesa em Macau.

Mas para além da comunidade lusa em Macau, cifrada em milhares de compatriotas, a Livraria Portuguesa tem procurado simultaneamente atrair um público mais vasto, de residentes de Macau que não dominam a língua de Camões e também de turistas que visitam a região autónoma chinesa.

Enquanto espaço relevante de promoção da língua portuguesa, o quarto idioma mais falado no mundo como língua materna (depois do mandarim, do inglês e do espanhol), e que está a conquistar cada vez mais estudantes chineses, segundo dados recentes do Instituto Camões atualmente cerca de cinco mil chineses estudam português em 47 universidades, a Livraria Portuguesa de Macau desempenha uma missão fundamental na dinamização da cultura lusófona no Oriente, assim como no fortalecimento das relações interculturais luso-chinesas.

IN MEMORIAN FERNANDO CRUZ GOMES

  • Crónica de Daniel Bastos

No decurso da semana passada assinalaram-se os 82 anos do nascimento de Fernando Cruz Gomes, saudoso decano dos jornalistas da comunidade portuguesa no Canadá, falecido em 2018, e que era um dos rostos mais conhecidos da numerosa prole luso-canadiana que vive e trabalha em Toronto.

Natural da vila de Pampilhosa da Serra, no distrito de Coimbra, Fernando Cruz Gomes, iniciou nos finais dos anos 50 a sua vida profissional como jornalista, no vetusto “Primeiro de Janeiro”, um jornal diário que se publicou na cidade do Porto. Mas foi em solo africano, mais concretamente em Angola, antiga província ultramarina portuguesa, onde residiu durante 25 anos, que o seu trabalho jornalístico ganhou amplitude e profundidade, através do desempenho de funções em diversos meios de comunicação, jornais e rádios, como o "ABC Diário de Angola", a "Rádio Eclésia", no diário de Luanda "O Comércio", "A Província de Angola" (atual “Jornal de Angola”), no "Rádio Clube de Benguela" e na "Emissora Oficial de Angola".

No início da Guerra do Ultramar em Angola, a 15 de março de 1961, Fernando Cruz Gomes, chegou a acompanhar sozinho os combates entre as Forças Armadas Portuguesas e os Movimentos de Libertação deste território da costa ocidental de África. Durante o seu percurso jornalístico por terras africanas, o profissional de comunicação social, foi ainda presidente da secção de Angola do Sindicato Nacional de Jornalistas, onde se manteve até finais de 1974.

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O historiador Daniel Bastos (esq.), cujo percurso tem sido alicerçado no seio das Comunidades Portuguesas, entrevistado em 2014 pelo jornalista Fernando Cruz Gomes (dir.) na Galeria dos Pioneiros Portugueses em Toronto

 A sua chegada ao Canadá ocorreu em 1975, ano do conturbado processo de descolonização. Na nova pátria de adoção, foi fundador e diretor de jornais comunitários, como "Popular", "Comércio", "Mundo", “ABC Portuguese Canadian Newspaper” e "A Voz", e editor e repórter na CIRV Rádio e na FPTV.

As suas multifacetadas funções jornalísticas em Toronto, inclusive de correspondente durante vários anos da Lusa, foram fundamentais para a promoção e conhecimento da língua, cultura e pulsar da comunidade luso-canadiana. E estiveram na base do justíssimo reconhecimento de que foi alvo em 2014, com a atribuição da Ordem do Infante D. Henrique pelos serviços relevante que prestou à pátria de Camões.

A vida e obra de Fernando Cruz Gomes, que se encontram vertidas no livro Um Homem Novo Por entre os horrores da guerra, cuja edição a título póstumo em 2019 constituiu uma homenagem sentida da família e da comunidade portuguesa em Toronto, recordam a citação afetuosa do escritor brasileiro Coelho Neto: “a saudade é a memória do coração”.

ILDEBERTO MEDINA – UM EXEMPLO DE CONQUISTA DO SONHO AMERICANO

  • Crónica de Daniel Bastos

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos Arquipélagos dos Açores e da Madeira, destaca-se hoje pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.

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Atualmente, segundo dados dos últimos censos americanos, residem nos EUA mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, principalmente concentrados na Califórnia, Massachusetts, Rhode Island e Nova Jérsia. A grande maioria da população luso-americana trabalha por conta de outrem, na indústria, mas são já muitos os que trabalham nos serviços ou se destacam na área científica, no ensino, nas artes, nas profissões liberais e nas atividades politicas.

No seio da numerosa comunidade lusa nos EUA, onde proliferam centenas de associações recreativas e culturais, clubes desportivos e sociais, fundações para a educação, bibliotecas, grupos de teatro, bandas filarmónicas, ranchos folclóricos, casas regionais e sociedades de beneficência e religiosas, destacam-se percursos de vida de vários compatriotas que alcançaram o sonho americano ("the American dream”).

Entre as várias trajetórias de portugueses que começaram do nada na América e ascenderam na escala social graças ao trabalho, ao mérito e ao empenho, destaca-se o percurso inspirador e de sucesso de Ildeberto Medina, uma das figuras mais gradas da numerosa comunidade luso-americana de Providence, estado norte-americano de Rhode Island.

Natural da ilha Graciosa, arquipélago dos Açores, Ildeberto Medina emigrou para a América em 1977, com apenas 15 anos, na companhia dos pais e do irmão, repetindo as pisadas da avó paterna, que no ocaso do séc. XIX tinha partido para a Costa Leste dos Estados Unidos num barco baleeiro em demanda de melhores condições de vida.

A chegada a Boston, capital e cidade mais populosa do estado norte-americano de Massachusetts, numa fase de incremento da emigração açoriana para o território americano, não correu como planeado devido à inadaptação dos pais à nova realidade, contexto que motivou a família a retornar ao torrão natal. 

Nunca esmorecendo na ambição de alcançar o sonho americano, Ildeberto e o irmão mais novo, desta vez sozinhos, cruzaria pouco tempo depois novamente o Oceano Atlântico. Em 1979, a partir de Providence, realizaria o seu primeiro trabalho por conta própria, começando aí um percurso de autêntico“self-made man” que o catapultou a empresário do ramo da construção civil com a fundação da empresa “Medina Construction” em 1985.

Ao longo dos últimos 40 anos, o trabalho incansável, a resiliência inabalável e a constante dedicação à família, elevaram o graciosense, que logrou inclusive acabar o liceu e ingressar no ensino universitário norte-americano onde se formou em Línguas, a um empreendedor de reconhecidos méritos na comunidade luso-americana, como revelam as inúmeras distinções que tem alcançado.

A mais recente foi atribuída este mês pelo Mayor Roberto Silva, autarca lusodescendente de East Providence, que distinguiu Ildeberto Medina com proclamação oficial no âmbito dos 40 anos de empreendedorismo do proprietário da “Medina Painting & Remodeling” e sócio de várias empresas. Nos fundamentos da atribuição da distinção sobressai o trajeto singular do empresário luso-americano: “Através de contínuos esforços, árduo trabalho, em sistema de part-time, ao mesmo tempo que frequentava a escola, desde a sua chegada aos EUA, empenhou-se na conquista do êxito da sua iniciativa empresarial. E como tal a cidade de East Providence reconhece a sua bravura e sacrifício concluído no êxito empresarial”.

Apoiante constante do associativismo luso-americano, e uma das figuras mais gradas da comunidade de East Providence, o exemplo de vida de Ildeberto Medina, empresário de sucesso que nunca olvida as suas raízes portuguesas, inspira-nos a máxima do historiador italiano Cesare Cantú: “O mais saboroso pão e a mais agradável comodidade são os que conquistamos com o nosso suor”.

A REDE MUSEOLÓGICA DEDICADA À EMIGRAÇÃO PORTUGUESA

O desígnio e imperativo de valorização do conhecimento da história da emigração portuguesa têm impelido, nos últimos anos, o poder político a procurar incrementar uma estratégia cultural capaz de aglutinar os espaços museológicos ligados ao fenómeno migratório que se encontram disseminados pelo território nacional.

Esta estratégia cultural ganhou recentemente um novo e decisivo impulso, através da apresentação por parte da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, liderada por Berta Nunes, de um projeto que visa a criação de uma rede museológica digital dedicada à emigração lusa.

Uma rede museológica, cuja principal ambição passa por ligar a história da diáspora portuguesa e suas vias de acesso, via digital e num itinerário real, fisicamente implantado, apto a reconhecer os diferentes fluxos migratórios e capaz de atrair o interesse pelo país e suas gentes. Na esteira das palavras de Luís Castro Mendes, embaixador e antigo ministro da Cultura que preside ao conselho de consultores deste projeto, pretende-se deste modo fomentar “uma rede entre espaços museológicos, com vantagens em relação a um museu que concentrasse tudo”.

Precursora de uma visão museológica desconcentrada, esta rede museológica passará, através da dinamização de uma plataforma online, a disponibilizar assim os acervos do Museu das Migrações e das Comunidades, sediado em Fafe, do Espaço Memória e Fronteira, localizado em Melgaço, e do Museu da Emigração Açoriana, instalado na Ribeira Grande. E depois de estruturada, abarcará ainda projetos e instituições como o Cais da Língua e das Migrações, em Matosinhos, o Museu Português da Migração, no Sabugal, o Espaço Memória e Fronteira, no Fundão, e o Museu do Salto, em Vilar Formoso.

Esta plataforma, que passará a ligar os espólios que em Portugal contam a história da emigração portuguesa, pode e deve aglutinar ainda espaços museológicos que têm sido construídos ao longo das últimas décadas por portugueses no estrangeiro. Como, por exemplo, a Galeria dos Pioneiros Portugueses, em Toronto, impulsionada no presente pelo comendador Manuel DaCosta, e que se dedica à dinamização do legado dos pioneiros da emigração portuguesa para o Canadá; o Museu da Imigração, em Lausanne, na Suíça, criado pelo português Ernesto Ricou, e que nesta altura procura novo local; o Museu Etnográfico Português em Sydney, na Austrália, que tem procurado manter viva a identidade cultural da comunidade luso-australiana; ou o Museu Histórico Português em São José, Califórnia, dedicado às tradições lusas, em especial religiosas, neste estado norte-americano.

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O historiador Daniel Bastos (esq.), cujo percurso tem sido alicerçado no seio das Comunidades Portuguesas, acompanhado em 2016 do comendador Manuel DaCosta (dir.) na Galeria dos Pioneiros Portugueses, em Toronto, no âmbito de uma conferência sobre a Emigração Portuguesa

Estes espaços museológicos, e outros que se encontram ou possam vir a ser projetados na pátria de origem ou de acolhimento dos portugueses espalhados pelo mundo, são uma indubitável mais-valia na perpetuação da memória da emigração lusa, e fundamentais para a prossecução da missão descentralizada e polinuclear da vindoura rede museológica.

Como menciona Maria Beatriz Rocha-Trindade, uma das consultoras de referência deste projeto, no artigo Museus de Migrações – Porquê e para quem?, um “museu é, antes de tudo, um instrumento de educação e de difusão cultural destinado a criar referências, visíveis e concretas, que ultrapassem o fluir do tempo. Tanto os centros de pesquisa, que em regra os integram ou lhe estão associados, como os acervos que vão sendo constituídos produzem registos para memória futura”.

MENINA E MOÇA ME LEVARAM

  • Crónica de Daniel Bastos

Os últimos anos têm sido pródigos na conceção e realização de obras de autoras nacionais ou lusodescendentes residentes no estrangeiro dedicadas às mundividências femininas no contexto migratório, umas das dimensões da emigração portuguesa que por via destes contributos literários começa a ser mais conhecida e estudada.

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Um desses contributos literários, intitulado Menina e Moça me Levaram, acabou recentemente de dar à estampa através do trabalho proficiente da professora Aida Baptista, que nos últimos anos de docência desempenhou o cargo de Leitora de Língua e Cultura Portuguesas no Estrangeiro, ao serviço do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa (ICALP) e do Instituto Camões (IC).

Colaboradora da imprensa de língua portuguesa no mundo, onde publica regularmente artigos ligados ao fenómeno migratório, e autora dos livros Passaporte Inconformado e Chão da Renúncia, Aida Baptista é a responsável pela organização de uma obra que demanda o seu título no evocativo de saudade que dá início ao prólogo do livro Saudades, mais conhecido por História de Menina e Moça de Bernardim Ribeiro.

Assente num conjunto de histórias, contadas na primeira pessoa, de mulheres das mais diversas origens, profissões e faixas etárias, que, levadas por escolhas alheias (salvo raras exceções), passaram por processos migratórios em diferentes contextos geográficos, a obra  Menina e Moça me Levaram, com chancela da Editora Alma Letra, conta ainda com prefácio de Manuela Aguiar, antiga secretária de Estado da Emigração.

O lançamento da coletânea, que nas palavras da prefaciadora encontra-se “cheia de ensinamentos, e experiências, comovente, intimista poética, pitoresca, factual, escrita a muitas mãos, muitos destinos. Com elas viajamos pelas memórias, por paisagens de alma e sentimentos, por roteiros que cruzaram todos os continentes e mares”, integra-se nas comemorações dos 25 anos de vida ativa da Associação Mulher Migrante (AMM).

Uma associação de estudo, cooperação e solidariedade cuja principal missão passa pela análise da problemática das migrações femininas; pela cooperação com as mulheres profissionais e dirigentes de associações das comunidades portugueses no mundo e com imigrantes que vivem em território nacional; pelo combate ativo contra ideias e movimentos xenófobos; e pelo apoio à integração das mulheres na sociedade de acolhimento e defesa dos seus direitos de participação social, económica e política.

Nesse sentido, a coletânea Menina e Moça me Levaram, enquanto repositório de um conjunto diverso de experiências e narrativas vivenciadas por mulheres assume-se como um relevante contributo no alumiamento da componente feminina no fenómeno migratório, que vai ao encontro do anelo da “dama da literatura brasileira” Lygia Fagundes Telles: “Sempre fomos o que os homens disseram que nós éramos. Agora somos nós que vamos dizer o que somos”.

A PRESENÇA PORTUGUESA NO MUSEU DA IMIGRAÇÃO DO CANADÁ

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  • Crónica de Daniel Bastos

O Canadá, uma nação que abrange grande parte da América do Norte e se estende desde o oceano Atlântico, a leste, até o oceano Pacífico, a oeste, alberga uma das mais dinâmicas comunidades lusa que se destaca atualmente pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico.

Conquanto a presença regular de portugueses no território remonte ao início do séc. XVI, a emigração portuguesa para o Canadá começou a ter expressão a partir de 1953. Ano em que ao abrigo de um acordo luso-canadiano, que visava suprir a necessidade de trabalhadores para o sector agrícola e para a construção de caminhos-de-ferro, desembarcaram a 13 de maio em Halifax, província de Nova Escócia, um grupo pioneiro de oitenta e cinco emigrantes lusitanos.

Se entre 1953 e 1973, terão entrado no Canadá mais de 90.000 portugueses, na sua maioria originários dos Açores, estima-se que presentemente vivam no segundo maior país do mundo em extensão territorial, mais de meio milhão de luso-canadianos. Sobretudo concentrados em Ontário, Quebeque e Colúmbia Britânica, representando cerca de 2% do total da população canadiana que constitui um hino ao multiculturalismo. 

A dinamização da presença portuguesa no território canadiano tem merecido por parte da comunidade lusa uma especial atenção, como revela a fundação no início do séc. XXI da Galeria dos Pioneiros Portugueses. Um espaço museológico em Toronto, impulsionado no presente pelo comendador Manuel da Costa, que se dedica à perpetuação da memória e das histórias dos pioneiros da emigração portuguesa para o Canadá.

A relevância da presença portuguesa neste território da América do Norte está igualmente patente num dos mais importantes museus nacionais do Canadá, mormente o Museu Nacional da Imigração Canadiano do Pier 21.

Localizado em Halifax, na província da Nova Escócia, no oeste do Canadá, as instalações do Museu da Imigração do Canadá ocupam o Pier 21, um antigo porto com terminal de navios transatlânticos, que funcionou entre 1928 a 1971, e que durante esse período recebeu mais de um milhão de imigrantes. Em 1999, o antigo porto deu lugar ao Museu da Imigração, sendo que em 2011 tornou-se oficialmente no Museu Nacional da Imigração Canadiano.

Enquanto espaço museológico singular que homenageia o contributo estruturante da imigração no progresso do Canadá e que o catapulta para um dos países mais desenvolvidos do mundo, o Museu Nacional da Imigração Canadiano conserva nas suas variadas coleções inúmeros testemunhos da presença portuguesa no país. Designadamente antigos pertences de emigrantes lusos que chegaram ao Canadá entre 1953 e 1954, como passaportes, fotos de famílias, uma guitarra e roupas, que em parte foram doados pela Casa da Madeira Community Centre.

No espólio do Museu da Imigração do Canadá destaca-se na entrada do núcleo museológico uma escultura em madeira, uma obra de arte que retrata os 500 anos da presença portuguesa no território, e que foi doada em 2003 pelo emigrante luso Maurício Almeida. Assim como, uma garrafa com vinho da madeira aberta, que chegou ao Canadá com o emigrante português Augusto da Silva em 1953, e está identificada como “O que trarias? Quem e o que deixarias para trás?”.

Mais de que um espaço museológico onde estão conservados e expostos objetos sobre o fenómeno migratório, o Museu da Imigração do Canadá reconhece e valoriza na prossecução da sua missão a importância dos imigrantes, como é o caso dos portugueses, na construção do notável mosaico cultural da nação canadiana.

PATOÁ, UM IDIOMA DE ORIGEM PORTUGUESA EM VIAS DE EXTINÇÃO

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Crónica de Daniel Bastos

A presença pioneira dos portugueses na Ásia no séc. XVI e XVII, catalisadora dos primeiros contactos entre a Europa e o Oriente, difundiu durante a epopeia dos descobrimentos a língua de Camões por diversas regiões do continente asiático.

Através da dominação política, do comércio ou da missionação, a influência lusa no maior dos continentes terrestres, ao longo da expansão marítima, estendeu-se ao subcontinente indiano, a Ceilão, às áreas em torno da Baía de Bengala, ao Golfo Pérsico, a Sião, a Timor, às Molucas, à China e ao Japão.

Como salienta o investigador Hugo Cardoso, em O português em contacto na Ásia e no Pacífico, a língua lusa enraizou-se a partir de então “na região asiática ao ponto de se converter em importante língua franca de comércio e diplomacia, sobretudo para comunicação com e entre as demais potências europeias (britânicos, franceses, neerlandeses, dinamarqueses) que se começaram a estabelecer na Ásia a partir de finais do século XVI”.

Uma das regiões asiáticas que ainda hoje conserva importantes vestígios da presença lusa, em particular no campo linguístico, é indubitavelmente Macau, um território sob administração portuguesa até 1999, situado na costa sul da China, nação que reassumiu a soberania sobre a região em 20 de dezembro desse ano.

Durante a vetusta administração lusa em Macau desenvolveu-se inclusivamente um crioulo de base portuguesa, normalmente denominado como patoá, mas também conhecido como língu nhonha, papiâ cristâm di Macau, papiaçâm, maquista, ou macaísta, que mistura português, cantonês, malaio, cingalês, mas também tem influências do inglês, tailandês, japonês e algumas línguas da Índia.

Como aponta Alexandra Hagedorn Rangel, na dissertação de mestrado Filhos da terra: a comunidade macaense, ontem e hoje, devido “ao desenvolvimento da escolarização feita em português durante o século XX, o patuá acabou por cair em desuso e, hoje em dia, apenas as pessoas de muita idade é que ainda falam o patuá com fluência”.

De fato, atualmente o crioulo de Macau é um idioma de origem portuguesa em vias de extinção, a quem restam apenas meia centena de falantes, sendo que um dos mais conhecidos, Aida de Jesus, ou Dona Aida, fundadora do restaurante Riquexó, conhecida como a "madrinha da cozinha macaense", faleceu no decurso do mês de março aos 105 anos.

Na esteira do linguista Ataliba Teixeira de Castilho, as “línguas não são eternas. Pelo contrário, elas morrem enquanto outras nascem e se multiplicam”, sendo que no caso específico do Patoá, património imaterial da presença portuguesa em Macau, a sua reminiscência deve continuar a servir de base ao fortalecimento das seculares relações luso-chinesas.

O FESTIVAL DAS MIGRAÇÕES, CULTURAS E CIDADANIA EM TEMPOS DE PANDEMIA

  • Crónica de Daniel Bastos

No início de março realizou-se uma vez mais, no Grão Ducado do Luxemburgo, um país da Europa Setentrional circundado pela Bélgica a oeste, a França a sul e a Alemanha a leste, uma nova edição do Festival das Migrações, Culturas e Cidadania, um dos maiores eventos das comunidades estrangeiras a residir neste território.

Como é o caso da comunidade lusa, tanto que em 2015, havia mais de 90.000 portugueses no território, representando 17% da população do Luxemburgo, sendo que inclusive a língua de Camões é mesmo uma das cinco línguas mais faladas no país depois do francês, luxemburguês e alemão.

Este ano, a 38.ª edição da iniciativa organizada pelo Comité de Ligação das Associações de Estrangeiros (CLAE), que constitui um ponto de encontro anual dos estrangeiros no Luxemburgo, devido ao cenário de pandemia que o mundo atravessa decorreu em formato on-line.

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O historiador Daniel Bastos (dir), cujo percurso tem sido alicerçado no seio das Comunidades Portuguesas, apresentou no 33.º Festival das Migrações, das Culturas e da Cidadania, na companhia do ativista cultural Joaquim Pinto da Silva (esq.), o livro “Gérald Bloncourt – O olhar de compromisso com os filhos dos Grandes Descobridores”

 

Ao contrário dos anos anteriores, cujo modelo organizativo assentava na realização do festival na LuxExpo no Kirchberg, e paralelemente na dinamização de uma Feira do Livro e num encontro de culturas e artes contemporâneas, ArtsManif, eventos que contavam a presença de escritores e artistas dos quatro cantos do mundo, inclusivamente do espaço lusófono. A 38.ª edição decorreu em torno de quatro mesas redondas dedicadas à habitação, integração, impacto psicológico da pandemia e sobre o mundo associativo no Luxemburgo, e atraiu cerca de 2.500 pessoas que se ligaram para acompanhar um ou mais dos eventos programados e transmitidos ao vivo na página do CLAE.

Num ano complexo e desafiante para o mundo, o Festival das Migrações, Culturas e Cidadania reinventou-se mas mantendo a sua essência na valorização e partilha das culturas, ou na linha de pensamento de Jorge de La Barre, sociólogo que se tem interessado pela etnomusicologia, persiste em “dar a voz ao Outro, respeitar as diferenças, as maneiras de ser e de dizer”.

De fato, numa época em que a tentação de construção de muros a separar povos e culturas é grande, onde os populismos ganham terreno à custa das consequências económicas, da crise de refugiados e de intolerâncias religiosas, o Festival das Migrações, Culturas e Cidadania remanesce como uma pedrada no charco que agita as águas, reafirmando a premência da construção de uma cidadania europeia e mundial ativa, assente no primado universal da diversidade cultural e dos valores dos direitos humanos.

BRAGA: INTEGRAÇÃO É A CHAVE PARA O SUCESSO DA GESTÃO DA MIGRAÇÃO NA EUROPA

Ricardo Rio participou em sessão plenária do Comité Europeu das Regiões

A integração é a chave para o sucesso da gestão da migração na Europa. A ideia foi defendida por Ricardo Rio, presidente da Câmara Municipal de Braga, durante um debate sobre a integração dos migrantes e o combate ao radicalismo que decorreu esta Sexta-feira, 19 de Março, no âmbito da 143.ª sessão plenária do Comité Europeu das Regiões.

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Segundo Ricardo Rio, abertura dos territórios aos migrantes constitui uma mais-valia para o desenvolvimento das comunidades, pelo que “qualquer nova abordagem à gestão da migração na Europa, incluindo o novo pacto sobre a migração, deve começar pela melhoria das nossas capacidades de integração”. “As oportunidades de integração perdidas podem levar a polarizações e até mesmo a radicalismos”, alertou.

O Autarca Bracarense defendeu, por isso, a necessidade de garantir o acesso adequado dos migrantes à habitação e à saúde, mas também à educação e ao mercado de trabalho, abrindo assim as portas para a sua participação plena na vida cívica, política e social das comunidades.

Durante a sessão plenária presidida pela Comissária Europeia dos Assuntos Internos, Ylva Johansson, Ricardo Rio lembrou o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido em Braga, nomeadamente no âmbito do Plano Municipal para a Integração de Migrantes.

“Este plano visa promover a inclusão e a coesão social de todos os nacionais de países terceiros que pretendam fazer de Braga a sua casa e, nesse sentido, temos trabalhado com migrantes do Brasil à Síria, da Ucrânia a Timor-Leste”, apontou, destacando ainda a adesão de Braga à iniciativa europeia ‘Cidades e Regiões a favor da Integração’.

Ricardo Rio expressou igualmente o compromisso de Braga em valorizar a dimensão intercultural, dando como exemplo o projecto dos mediadores municipais e interculturais e o projecto ‘Divercidade – Uma viagem intercultural’, uma iniciativa financiada pelo Fundo para o Asilo, a Migração e a Integração, que tem por objectivo promover espaços, oportunidades e movimentos de informação que fomentem a integração e união das diversas comunidades migrantes que habitam na Cidade de Braga.

No final da sessão, o presidente do Comité das Regiões, Apostolos Tzitzikostas, e a Comissária Europeia dos Assuntos Internos, Ylva Johansson, lançaram uma nova parceria que prevê o incremento do diálogo entre a Comissão Europeia, o Comité das Regiões e os órgãos de poder local e regional, nomeadamente através de um fórum anual de regiões para mapear o impacto territorial e as necessidades de migração.

Esta parceria pretende ainda reforçar o intercâmbio de experiências entre as autoridades locais e regionais no domínio da integração, assim como melhorar os dados sobre a integração dos migrantes a nível local.

A OPOSIÇÃO AO ESTADO NOVO NAS COMUNIDADES PORTUGUESAS DA AMÉRICA DO NORTE

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  • Crónica de Daniel Bastos

Entre 1933 e 1974 vigorou em Portugal um regime autoritário e conservador, designado de Estado Novo, sustentado na força repressiva da polícia política (PIDE), nas amarras da censura e na ausência de liberdade. Um regime idealizado pelo seu principal mentor, Oliveira Salazar, ditador de um país eminentemente rural, pobre, atrasado e analfabeto.

Apesar da repressão e violência foram vários os que se opuseram às ideias do Estado Novo, e instaram na luta politica de oposição ao regime em defesa dos ideais da liberdade e da democracia. O movimento político de oposição à ditadura portuguesa estendeu-se também às comunidades portuguesas no estrangeiro, que na segunda metade do século XX foram robustecidas por centenas de milhares de compatriotas em fuga à miséria rural, à carestia de vida, e no início dos anos 60, à Guerra Colonial.

No contexto da luta contra o Estado Novo no seio das comunidades portuguesas, como aponta a investigadora Susana Maria Santos Martins, na tese de doutoramento Exilados portugueses em Argel. A FPLN das origens à rutura com Humberto Delgado (1960-1965), intervieram nas décadas de 1960-70 várias associações oposicionistas ao regime de Salazar na América do Norte.

Em Newark, Nova Jérsia, cidade que ainda hoje alberga uma das maiores comunidades portuguesas nos Estados Unidos da América (EUA), constituiu-se em 1960 o Committee Pro-Democracy in Portugal, a primeira associação de democratas lusos nos EUA. A coletividade, que teve como principal mentor Abílio de Oliveira Águas, antigo cônsul português em Providence (Rhode Island) no ocaso dos anos 20, e figura tutelar na comunidade luso-americana, congregou diversos emigrantes e exilados políticos na oposição ao regime salazarista.

A associação luso-americana, que teve um papel decisivo no depoimento em 1963 de Henrique Galvão contra Portugal na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, manteve-se ativa até aos anos 70, período em que faziam parte dos seus órgãos, Eduardo Covas, António José de Almeida, António Dias, Virgílio Varela e Abílio Águas. Tendo prosseguido até então uma diligente ligação com vários grupos oposicionistas, como o grupo Portugal Democrático, no Brasil, com a Frente Portuguesa de Libertação Nacional (FPLN), na Argélia, com a Acção Democrato-Social (ADS), em Portugal, com a Associação Socialista Portuguesa (ASP), em Genebra, e mais tarde, com o Partido Socialista (PS) que apoiou após a Revolução de Abril.

No Canadá, nação para onde emigraram entre 1953 e 1973 mais de 90.000 portugueses, na sua maioria originários dos Açores, uma das principais coletividades lusas oposicionistas foi criada no final dos anos 50 em Toronto. Denominada Portuguese Canadian Democratic Association (PCDA), a associação luso-canadiana, impulsionada por figuras como Fernando Círiaco da Cunha, aglutinou vários emigrantes e exilados políticos na denúncia do regime ditatorial português, através da dinamização de manifestações públicas e da publicação em 1964 do periódico A Verdade, e mais tarde, O Boletim.

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Manifestação de emigrantes e exiliados lusos em Toronto, no Canadá, a exigirem a libertação de presos políticos em Portugal (1966) - Photo by Reed, York University Libraries, Clara Thomas Archives & Special Collections, Toronto Telegram fonds, F0433, ASC08256.

 

Ainda no Canadá, mas em Montreal, a partir dos anos 60, foi criado o Movimento Democrático Português de Montreal, ao qual estavam ligados figuras como Rui Cunha Viana, Domingos da Costa Gomes, José das Neves Rodrigues, Jaime Monteiro e Eugénio Vargas. E que teve nas páginas do boletim Movimento, o seu principal instrumento de denúncia junto da comunidade luso-canadiana da ditadura salazarista e da Guerra Colonial na maior cidade da província do Quebeque.

Em Montreal, na esteira das demais comunidades portuguesas na América do Norte, as páginas da imprensa comunitária foram o instrumento privilegiado dos grupos oposicionistas de crítica à ausência de liberdade na pátria de origem e de denúncia da Guerra Colonial. Entre as décadas de 1960-70, o semanário independente em língua portuguesa, Luso-Canadiano, fundado por Henrique Tavares Bello, e que contou com a colaboração de Cunha Viana e Domingos da Costa Gomes, adotou assumidamente uma feição oposicionista ao regime instituído em Portugal. Neste mesmo período, a ação oposicionista de Henrique Tavares Bello em Montreal encontrava-se ainda, em interligação com Firmino Rita, associada à dinamização do Canada Movement for Freedom in Portugal and Colonies.

No seu conjunto, as várias dinâmicas oposicionistas ao Estado Novo na América do Norte no decurso das décadas de 1960-70, tiveram um papel importante na consciencialização política das comunidades portuguesas nos Estados Unidos e no Canadá, assim como na denúncia internacional do regime ditatorial e da Guerra Colonial em dois dos mais importantes palcos da política e diplomacia mundial.

O QUE SÃO A EMIGRAÇÃO E A IMIGRAÇÃO?

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  • Crónica de Carlos Gomes

A emigração – e por confrontação a imigração! – constitui uma acção que consiste em sair de uma região ou país para se estabelecer noutro. Trata-se de um fenómeno que em regra está associado a razões de ordem económica que levam as pessoas a procurarem melhores condições de vida em locais diferente, dentro ou fora do seu próprio país.

Com origem no latim migro e are, migrar significa simplesmente passar de um lugar a outro. Assim sendo, quando o termo migrar é antecedido do prefixo e – emigrar – refere-se àquele que sai do seu próprio país. Ao invés, sempre que o mesmo é antecedido do prefixo iimigrar – alude a quem vindo de fora entra no nosso país para aí se fixar. Por fim, quando se trata de um fenómeno interno ao próprio país, classificamos simplesmente como uma migração interna. É o caso de muitos minhotos que, sobretudo a partir de meados do século XIX, abandonaram a miséria que viviam nos campos rumo a Lisboa e a outros centros urbanos onde se registava crescimento industrial.

Mas a emigração – versus imigração – não constitui um fenómeno exclusivamente social. Nem todas as pessoas emigram por razões económicas. Existem ainda aqueles que o fazem por razões políticas, para se subtraírem aos deveres militares, na recusa da participação em conflitos bélicos com os quais estão em desacordo, refugiados de guerra ou situações de violência nos seus países… ou simplesmente por cobardia!

Os emigrantes – e os imigrantes! – são frequentemente utilizados como meio de arremesso ou simplesmente uma fonte económica a brotar remessas inesgotáveis em dinheiro destinadas a cobrir a má gestão dos governantes. Quem não se recorda de há cerca de meio século ter ouvido dizer que a emigração era o “escape da ditadura” e exigir o “regresso imediato dos emigrantes”? Entretanto, a avaliar pelo que tem sucedido nas últimas décadas, tudo leva a crer que a emigração passou a ser um “escape da democracia”…

Também quem imigra nem sempre o faz por necessidade económica ou de sobrevivência. Sem pretender generalizar – tal seria da maior injustiça e desumanidade! – existe quem vem de fora para o nosso país motivado por razões políticas ou simplesmente por oportunismo social, procurando tirar partido das regras de funcionamento do Estado Social. Ou ainda, munidos de ideários violentos à mistura de gente desgraçada e temerosa. 

Sob pena de deixarmos criar tensões sociais e políticas onde à partida não existem, vai sendo necessário separar o trigo do joio. E, não deixar que a seara seja contaminada pelas ervas daninhas!

QUEM É O FAFENSE DANIEL BASTOS – INVESTIGADOR DA DIÁSPORA PORTUGUESA E COLABORADOR DO BLOGUE DO MINHO?

Daniel Bastos é um nome com que desde há muito tempo os leitores do BLOGUE DO MINHO se encontram familiarizados. Ele tem a amabilidade de partilhar regularmente connosco as suas crónicas interessantes acerca das nossas comunidades de emigrantes espalhadas pelo mundo. Ou não fosse ele natural de Fafe – terra de forte emigração – que dedica especial atenção à diáspora portuguesa e possui inclusivé um Museu das Migrações e das Comunidades.

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Daniel Bastos nasceu a 18 de Janeiro de 1980 em Fafe. Licenciado em História (ensino de) pela Universidade de Évora em 2003, concluiu no mesmo ano o Curso de Cultura Teológica promovido pelo Instituto Superior de Teologia de Évora, e em 2013 pós-graduou-se em Ética e Filosofia Política, pela Universidade Católica em Braga.

Com uma formação eclética, e vários prémios e participações em conferências nacionais e internacionais, assim como livros publicados no domínio da História e Emigração, cujas sessões de apresentação o têm colocado em contacto estreito com as Comunidades Portuguesas, o percurso pessoal e literário do escritor, historiador e professor tem sido alicerçado no seio da Diáspora e da Lusofonia.

No decurso dos últimos anos, o investigador tem colaborado regularmente com a imprensa local, regional, nacional e da diáspora, através da publicação de crónicas dedicadas à temática das Comunidades, Emigração e Lusofonia.

Principais obras:

Fafe – Estudos de História Contemporânea, Labirinto, 2010. [pref. Iva Delgado]

Santa Casa da Misericórdia de Fafe - 150 anos ao Serviço da Comunidade (1962-2012), SCMF, 2012. [pref. Maria Beatriz Rocha-Trindade]

Fafe – História, Memória e Património, Converso, 2013. [fot. José Pedro Fernandes, pref. Gérald Bloncourt - ed. trilingue, trad. Paulo Teixeira]

Terra, Converso, 2014. [pref. Gérald Bloncourt - ed. bilingue com desenhos de Orlando Pompeu, trad. Paulo Teixeira]

Gérald Bloncourt - O olhar de compromisso com os filhos dos Grandes Descobridores (1954-1974), Converso, 2015. [pref. Eduardo Lourenço - ed. bilingue, trad. Paulo Teixeira]

José de Andrade – Terras de Monte Longo, 2017. [pref. Gérald Bloncourt - ed. trilingue com o apoio do Centro Português de Fotografia (CPF), trad. Paulo Teixeira]

Gérald Bloncourt – Dias de Liberdade em Portugal, 2019. [pref. Vasco Lourenço - ed. trilingue com o apoio da Associação 25 de Abril (A25A), trad. Paulo Teixeira]

CASA DO MINHO DO RIO DE JANEIRO COMEMORA HOJE 97 ANOS DE EXISTÊNCIA – O MINHO PREPARA-SE PARA CELEBRAR O SEU CENTENÁRIO!

A Casa do Minho do Rio de Janeiro celebra hoje 97 anos de existência ao serviço da comunidade minhota radicada no Brasil.

A industrialização verificada a partir da segunda metade do século XIX, as sucessivas crises económicas e sociais e a instabilidade política provocaram um enorme êxodo das populações rurais da nossa região sobretudo para Lisboa e ainda uma forte emigração para o Brasil.

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Milhares de portugueses, sobretudo da região de Entre-o-Douro-e-Minho, embarcaram clandestinamente nos porões dos navios com destino ao porto de Santos. Daí seguiram para São Paulo, Rio de Janeiro e outras paragens onde se empregaram sobretudo na indústria e comércio de panificação e na construção civil. Em Ribeirão Preto, foram eles que, na maior parte das vezes, edificaram os alojamentos e armazéns das roças de café que receberam os imigrantes italianos, mormente os sicilianos, fugidos à extrema miséria em que o seu país então se encontrava

Apesar da língua comum, a integração nem sempre foi fácil e muitos casos houve que muitos emigrantes, incapazes de ultrapassar as dificuldades e caindo em situação de desgraça, socorreram-se dos seus compatriotas para poderem regressar ao seu país.

Foi neste contexto social que, em 8 de Março de 1924, foi constituída no Rio de Janeiro a Casa do Minho. À semelhança do que sucedia em Portugal, o regionalismo traduzido na formação de “casas regionais” dava os primeiros passos em resultado da formação de colónias de indivíduos oriundos da mesma região, partilhando uma maneira própria de estar e sentindo a necessidade de reconstituírem os laços de amizade e convívio, interrompidos pela separação em relação às suas origens.

Porém, a distância em relação ao Minho é para o minhoto que vive no Brasil sentida de forma mais dolorosa e, como tal, necessita de reviver mais intensamente a sua infância, tal é a saudade que sente pela sua terra. De resto, trata-se de um sentimento que é comum a todo o emigrante que, para seu maior sofrimento, quando tem a oportunidade de regressar ainda que temporariamente à sua pequena aldeia, já não a encontra tal como a deixou, experimentando uma paragem no tempo.

O seu mundo, aquele que ficou neste lado do oceano Atlântico, é agora revivido num contexto completamente distinto mas que, pelas suas próprias mãos e capacidade de imaginação, é reconstituído no seio das suas associações, mormente a Casa do Minho no Rio de Janeiro. À sua maneira, os nossos conterrâneos radicados no Brasil e um pouco por todo o mundo, constituem os seus ranchos folclóricos, reeditam as festas, preservam as tradições e sobretudo conservam os laços que os unem entre si e fazem dos minhotos uma efetiva comunidade, preservando a solidariedade humana que foi, afinal de contas, a primeira razão de ser da criação da Casa do Minho.

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Constituída há 97 anos, a Casa do Minho no Rio de Janeiro foi criada com o propósito de estabelecer solidariedade e prestar auxílio aos nossos compatriotas que, nos anos difíceis do começo do século XX, se viram desamparados pela sorte e à beira da miséria, muitos dos quais tiveram então de ser expatriados, a Casa do Minho viria a constituir-se num baluarte do regionalismo minhoto e da afirmação do patriotismo dos portugueses em terras de Vera Cruz, precisamente a que ostenta no seu próprio emblema.

Ultrapassadas as dificuldades iniciais com que os nossos conterrâneos se debateram para conseguirem uma vida mais digna, as gentes minhotas deram à Casa do Minho uma nova missão que consiste na preservação da sua identidade, mormente através das mais variadas manifestações culturais, tertúlias literárias, manifestações religiosas, divulgação do folclore e, sobretudo, da união e convívio familiar dos seus associados.

Desde a sua fundação, a Casa do Minho no Rio de Janeiro é obra de muitos homens e mulheres que ao longo de oitenta e oito anos de existência souberam erguer uma grandiosa instituição que dignifica a comunidade minhota radicada no Brasil e prestigia o nosso país.

Localizada na rua Cosme Velho, na zona sul do Rio de Janeiro, a Sede social da Casa do Minho dispõe para além das instalações propriamente ditas, de uma grande arborizada, parque de estacionamento e dois magníficos recintos desportivos.

De entre as suas principais finalidades, cumpre-nos destacar a promoção da fraternidade Luso-Brasileira; o desenvolvimento da prática de atividades desportivas, recreativas, culturais e sociais; a difusão do culto à Comunidade Lusíada; a luta pelos interesses do Minho tornando conhecidas sua história, belezas naturais, gastronomia e o seu folclore.

Fotos: Casa do Minho do Rio de Janeiro

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OS APOIOS CONSTANTES DE EMIGRANTES PORTUGUESES ÀS CORPORAÇÕES DE BOMBEIROS

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  • Crónica de Daniel Bastos

Um dos mais importantes pilares da proteção civil em Portugal, os bombeiros desempenham um serviço fundamental em ações de socorro decorrentes de acidentes rodoviários, combate a incêndios, desastres naturais e industriais, emergência pré-hospitalar e transporte de doentes, assim como abastecimento de água às populações, socorros a náufragos, e inúmeras ações de prevenção e sensibilização junto das populações.

Exemplos de altruísmo e de cidadania, às vezes sem o devido reconhecimento dos poderes políticos, as corporações de bombeiros em Portugal debatem-se constantemente com grandes dificuldades, resultantes da falta crónica de meios financeiros, que em muitos casos entravam inclusive a prestação de serviços essenciais às populações.

Ao longo dos últimos anos, muitas destas dificuldades e entraves, agravados pelos contextos das crises económicas, têm sido mitigados e ultrapassados graças à generosidade de vários emigrantes portugueses, que um pouco por todo o território nacional são um apoio vital para o funcionamento de corporações e para a prossecução de relevantes serviços prestados pelos bombeiros às populações.

Os exemplos de apoios constantes de emigrantes às corporações de bombeiros no território nacional são muitos e variados. No decurso do passado mês de fevereiro, por exemplo, dois emigrantes portugueses, bombeiros na Suíça, Filipe Luís e José Luís Páscoa, e um empresário luso com atividade económica na Suíça, José Carlos Teixeira, ofereceram equipamento, no valor económico de 70 mil euros, aos Bombeiros Voluntários de Mondim de Basto, uma corporação localizada no distrito de Vila Real, que atravessa publicamente um período de carência de equipamentos de proteção individual.

Este exemplo de generosidade em prol dos bombeiros, muitas vezes conhecidos como “Soldados da Paz”, tem sido o lema de vida do emigrante luso Fernando Ribeiro, um ex-bombeiro, com casa em Amarante, cidade do distrito do Porto, e radicado na Suíça há mais de quarenta anos. Desde 2003, quando um incêndio quase cercou a sua habitação em Amarante, Fernando Ribeiro ajudou mais de uma dezena de corporações de bombeiros, através do reencaminhamento para Portugal de material usado e seminovo, como por exemplo, equipamentos completos de proteção individual, incluindo casacos, calças, botas, luvas, capacetes e outro tipo de material pesado, como mangueiras, reboques, pás, agulhetas, motobombas e escadas, estimado no valor de três milhões de euros.

Entre as várias corporações do norte e centro do país apoiadas pelo emigrante em terras helvéticas, a quem a Federação dos Bombeiros do Distrito do Porto atribuiu a Medalha de Ouro de Mérito, encontram-se Amarante, Póvoa de Varzim, Marco de Canavezes, Vila do Conde, Baião, Leça do Balio, Mesão Frio, Santa Marinha do Zêzere, Felgueiras, Vila Meã, Tondela, Murça, Caldas da Rainha, Vila Franca de Xira e Fafe.

Nesta última cidade minhota, a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Fafe, cuja génese no alvorecer do séc. XX se encontra ligada à magnanimidade dos emigrantes “brasileiros de torna-viagem”, tem contado nas últimas décadas com o apoio generoso do empresário Manuel Pinto Lopes. Um emigrante fafense radicado em França, que direta ou indiretamente já ofereceu à coletividade uma dezena de viaturas, mormente, veículos para combate a fogos florestais e urbanos, ambulâncias e autoescadas.

Entre os emigrantes portugueses que se têm constituído como genuínos filantropos das corporações de bombeiros, destaca-se também, por exemplo, o empresário de restauração luso-americano, Manuel Carvalho. Quando no verão de 2016, o líder da Fundação “Família Carvalho”, que é natural de Tamengos, concelho de Anadia, e reside nas últimas quatro décadas em Mineola, Nova Iorque, teve conhecimento das dificuldades financeiras dos bombeiros da sua terra natal, rapidamente organizou no início do ano seguinte um evento solidário em prol da coletividade anadiense.

A iniciativa, que decorreu durante um jantar na Churrasqueira “Bairrada”, da qual Manuel Carvalho é proprietário, mobilizou a comunidade luso-americana de Mineola e permitiu a angariação de uma quantia de cerca de 25 mil euros, que foram entregues à Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Anadia com o objetivo de auxiliar nas obras do quartel e na aquisição de uma viatura.

Estes notáveis exemplos de generosidade em prol das corporações de bombeiros, e muitos outros que foram ou estão a ser dinamizados no seio das comunidades portuguesas, evidenciam que o contributo dos emigrantes portugueses vai muito além do envio de remessas que têm uma forte influência na economia portuguesa, o seu contributo é igualmente marcante na promoção do progresso social e do desenvolvimento humano nacional.

PORTUGUESE TIMES: 50 ANOS AO SERVIÇO DA COMUNIDADE LUSO-AMERICANA

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  • Crónica de Daniel Bastos

Ao longo dos anos a comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cujos dados dos últimos censos americanos apontam que é atualmente constituída por mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, principalmente concentrados na Califórnia, Massachusetts, Rhode Island e Nova Jérsia, tem sido palco de uma notável multiplicidade de meios de comunicação social, em particular, ligados à imprensa escrita.

Como destaca o jornalista Vamberto Freitas em Algumas considerações sobre a imprensa portuguesa nos EUA, entre “quase todos aqueles que nestes últimos anos se têm interessado pelos centros lusos radicados nos Estados Unidos da América, uma das facetas da vida comunitária que geralmente mais os impressiona parece ser a exis­tência, sempre precária mas persistente, da Imprensa falada e escrita em língua portuguesa”.

As raízes da imprensa de língua portuguesa no território norte-americano remontam mesmo à segunda metade do séc. XIX, isto é, ao período inicial da emigração lusa para os EUA, quando muitos portugueses participaram na corrida ao ouro e na fundação de colónias agrícolas na Califórnia, ou se começaram a ligar aos negócios ligados à pesca da baleia.

Este contexto socio-histórico singular mereceu, inclusivamente, em 29 de novembro de 2013 amplo destaque no jornal The Herald News (Fall River), através de uma reportagem assinada por Kevin Andrade sobre a imprensa luso-americana. Segundo o jornalista de investigação luso-americano, existiram cerca de mil jornais nos Estados Unidos publicados em língua portuguesa, que constituem indubitavelmente um enorme e importante manancial para o conhecimento e estudo da história da comunidade portuguesa na América.

No profícuo campo dos jornais luso-americanos, um dos órgãos de informação que mais se tem destacado pelo seu dinamismo e longevidade tem sido o Portuguese Times. Um semanário de língua portuguesa fundado em Newark, New Jersey, em 1971 por Augusto Saraiva, que veio a ser adquirido em 1973 por António Alberto Costa, e que no início de 1974 assentou praça em New Bedford.

Com circulação nacional e assinantes em quase todos os estados americanos, o Portuguese Times, que tem presentemente como administrador Eduardo Sousa Lima e diretor Francisco Resendes, assinalou no decurso do mês de fevereiro o seu cinquentenário de publicação ininterrupta.

Ao longo do último meio século, o semanário luso-americano tem-se assumido como um jornal de referência da comunidade portuguesa nos EUA, em particular na Nova Inglaterra, uma região no nordeste dos Estados Unidos que abrange os estados de Maine, Vermont, Nova Hampshire, Massachusetts, Connecticut e Rhode Island.

Capaz de ultrapassar os contratempos e as adversidades, e na maior parte dos casos sobrevivendo graças ao espírito de carolice dos seus proprietários, diretores, colaboradores, leitores e empresários mecenas, com mais ou menos dificuldades expostas pelas crises económicas, o Portuguese Times ao longo dos últimos cinquenta anos tem conseguido resistir e renovar-se. Dando um exemplo genuíno de altruísmo e serviço em prol da comunidade portuguesa no território norte-americano, ajudando a promover a cidadania, a valorizar a cultura, as tradições e o dinâmico movimento associativo luso.

Descendente de uma provecta estirpe de jornais publicados em língua portuguesa no território norte-americano, o jornal Portuguese Times, orgulhoso do seu passado, projeta-se no presente e no futuro como um órgão de informação comunitário que constrói pontes entre Portugal e os Estados Unidos da América, dilui a saudade e a distância, fortalece a identidade cultural lusa e difunde Portugal na maior potência mundial.

REVISTA "LUSOPRESS" DISTINGUE DANIEL BASTOS COM O PRÉMIO "PORTUGUESES DE VALOR"

Daniel Bastos novamente distinguido “Português de Valor” em França

No âmbito da 11.ª edição do prémio "Portugueses de Valor", uma iniciativa organizada pela revista da diáspora Lusopress, um relevante meio de comunicação social da comunidade lusa em França, o escritor e historiador Daniel Bastos, que tem vários livros publicados no domínio da História e Emigração, e cujas sessões de apresentação o têm colocado em contacto estreito com as Comunidades Portuguesas, foi nomeado pelo terceiro ano consecutivo como um dos “Portugueses de Valor 2021”.

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A iniciativa, que tem o Alto Patrocínio do Presidente da República, demanda valorizar anualmente 100 portugueses que se encontram espalhados pelo mundo, e cujo percurso profissional, pessoal ou associativo se tem destacado em prol das Comunidades Portuguesas.

Refira-se ainda, que de 5 a 7 de agosto, será realizada na cidade de Bragança uma gala que vai premiar seis portugueses de França, dois do resto do mundo e dois de Portugal, a partir da seleção de cem pessoas, que levam o nome de Portugal mais longe, no campo cultural, empresarial, associativo e solidário, e cujas histórias vão ser reunidas no livro "Portugueses de Valor 2021".

MONUMENTOS AOS COMBATENTES DA GUERRA DO ULTRAMAR NAS COMUNIDADES PORTUGUESAS

  • Crónica de Daniel Bastos

No decurso do mês de fevereiro assinalam-se os 60 anos do início da Guerra do Ultramar (1961-1974), um período de confrontos bélicos entre as Forças Armadas Portuguesas e os Movimentos de Libertação das antigas províncias ultramarinas de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, que constitui um dos acontecimentos mais marcantes da história nacional e africana de expressão portuguesa do séc. XX.

Um conflito bélico dramático, trágico e traumatizante para mais de um milhão de portugueses, que prestaram serviço militar nas três frentes de combate, onde tombaram cerca de 8.300 soldados, assim como para as populações angolanas, guineenses e moçambicanas, cujo número total de vítimas, entre guerrilheiros e civis, terá sido superior a 100 mil mortos.

A densidade vivencial e o impacto da também conhecida como Guerra Colonial na sociedade portuguesa têm sustentado ao longo das últimas décadas a inauguração no território nacional de inúmeros monumentos de homenagem aos militares mortos, e que rondam já cerca de três centenas.

No cômputo da lista de monumentos alusivos aos Combatentes da Guerra do Ultramar, que se encontram assinalados pela Liga dos Combatentes (LC) no livro “Monumentos Aos Combatentes da Grande Guerra e do Ultramar”, grande parte deles construídos no séc. XXI, e que segundo o tenente-general Chito Rodrigues, Presidente da LC, são “a expressão de um sentimento profundo nacional acerca do que foi a guerra colonial e dos sacrifícios que o povo português fez nesse conflito", destaca-se ainda a existência de quatro monumentos construídos no seio das comunidades portugueses no Canadá e nos Estados Unidos.

No Canadá, onde se estima que na atualidade vivam mais de meio milhão de luso-canadianos, o primeiro monumento a ser erigido em memória dos combatentes que tombaram na guerra do Ultramar foi inaugurado em 2009, na cidade de Winnipeg, capital da província de Manitoba.

Projetado pelo arquiteto português Varandas dos Santos, o memorial impulsionando pela Associação Portuguesa de Veteranos de Guerra de Manitoba e Núcleo da Liga dos Combatentes de Portugal em Winnipeg, e concretizado com o apoio da Província de Manitoba, da Liga dos Combatentes, da Comunidade Luso-Canadiana, da Associação Portuguesa de Manitoba e da Chapel Lawn Memorial Gardens, invoca os militares do passado, presente e futuro.

Em 2012, a cidade de Oakville, junto a Toronto, capital da província de Ontário onde se estima que vivam mais de 20 mil antigos combatentes da Guerra do Ultramar, assistiu à inauguração, no cemitério Glen Oak Memorial Garden, de uma estátua em homenagem aos militares portugueses e canadianos mortos em situações de guerra.

O monumento, concebido em conjunto pelo arquiteto Varandas dos Santos e pelo comendador José Mário Coelho, e impelido pela Associação dos Ex-combatentes do Ultramar Português no Ontário, foi instalado no talhão denominado “Nossa Senhora de Fátima”. O monumento, que contou com apoios financeiros da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas e da Liga de Combatentes de Portugal, sobressai pela existência de vários elementos, dos quais se destacam uma Cruz de Cristo e um capacete de um soldado, tendo ainda a inscrição: “Sacrificados em vida, respeitados na morte”.

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O historiador Daniel Bastos (dir), com um percurso alicerçado no seio das Comunidades Portuguesas, visitou em 2019 o monumento de homenagem aos antigos combatentes da Guerra do Ultramar na cidade de Oakville, junto a Toronto, na companhia do ex-combatente e Presidente da Assembleia Geral da Associação Cultural 25 de Abril em Toronto, Artur Jesus (esq.)

 

Também no território canadiano, designadamente em Laval, cidade da província do Quebeque, região onde o número total de portugueses e lusodescendentes deverá ser superior a 60.000 pessoas, foi inaugurado, no dia 1 de Novembro de 2014, o Monumento aos Combatentes Portugueses. Erigido num espaço fornecido pela Associação Portuguesa de Laval, e impulsionado pelo Núcleo do Quebeque da Liga dos Combatentes, antiga Associação Ex-Combatentes do Ultramar (Angola, Guiné e Moçambique) do Quebeque, o monumento invoca singelamente a memória dos militares caídos no cumprimento do dever.

Ainda na América do Norte, mas já nos Estados Unidos, mais concretamente em Lowell, cidade do condado de Middlesex em Massachusetts, estado que alberga uma grande comunidade luso-americana de origem açoriana, foi inaugurado em 2000 um monumento em memória dos falecidos e ex-combatentes do ultramar português e dos participantes da Revolução de 25 de Abril de 1974. Impulsionado pela numerosa comunidade luso-americana, com especial destaque para Dimas Espínola, uma referência no mundo comunitário luso de Lowell, o monumento teve o apoio resoluto, entre outros, do Portuguese American Center, do Portuguese American Civic League e da Associação de Veteranos de Lowell.

Disseminados pelo território nacional e pelas comunidades portuguesas no mundo, mormente na América do Norte, os Monumentos aos Combatentes da Guerra do Ultramar, observam um dever de memória, pois como relembra o ensaísta francês Joseph Joubert “A memória é o espelho onde observamos os ausentes”.