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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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DANIEL BASTOS DESTACOU IMPORTÂNCIA DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS NO INstantes

No passado sábado, o historiador Daniel Bastos, que ao longo dos últimos anos tem publicado vários livros no domínio da História e Emigração, cujas sessões de apresentação o têm colocado em contacto estreito com a diáspora portuguesa, apresentou o seu novo livro “Crónicas – Comunidades, Emigração e Lusofonia” no INstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes.

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O historiador Daniel Bastos (esq.), acompanhado do fotógrafo Pereira Lopes, fundador e diretor do INstantes, no decurso da apresentação do livro “Crónicas – Comunidades, Emigração e Lusofonia”

No decurso da 9edição de um dos eventos culturais de referência no panorama nacional, que ano após ano se tem enriquecido com diversas propostas dentro do mundo da fotografia artística, conceptual e de autor, o escritor além da apresentação do seu mais recente livro que reúne os textos que tem escrito nos últimos anos em diversos meios de comunicação dirigidos para as comunidades lusas, proferiu uma palestra onde abordou a história da emigração portuguesa.

Ao longo da sua comunicação, o investigador destacou o papel e importância das comunidades portuguesas, genuínas embaixadas de Portugal no mundo, e recordou a figura do saudoso fotógrafo franco-haitiano Gérald Bloncourt, que imortalizou a epopeia da emigração lusa para França nos anos 60, e com quem o autor realizou os livros “O olhar de compromisso com os filhos dos Grandes Descobridores” e “Dias de Liberdade em Portugal”.

Historiador, escritor e professor, Daniel Bastos é atualmente consultor do Museu das Migrações e das Comunidades, sediado em Fafe, e da rede museológica virtual das comunidades portuguesas, instituída pela Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, que pretende criar uma plataforma entre diversos núcleos museológicos, arquivos e coleções respeitantes à história e à memória, à vida e às perspetivas de futuro dos portugueses que vivem e trabalham fora do seu país.

O APOIO DOS EMPRESÁRIOS DA DIÁSPORA A ALUNOS LUSODESCENDENTES

  • Crónica de Daniel Bastos

Entre as características mais distintas da diáspora, a enorme capacidade empreendedora e o seu forte espírito de solidariedade, são seguramente das que mais sobressaem no código genético das comunidades lusas espalhadas pelos quatro cantos do mundo.

Ao longo das décadas têm sido inúmeras as campanhas solidárias, as iniciativas de apoio e os gestos de altruísmo protagonizados, a título individual ou coletivo, pelos portugueses no estrangeiro em prol de causas, valores e pessoas, muitas delas concidadãos que por vicissitudes da vida encontram na generosidade de muitos compatriotas uma bússola e um porto de abrigo.

Um desses exemplos de espírito solidário é o que no decurso dos últimos anos vários empresários portugueses da diáspora têm protagonizado ao nível da atribuição de bolsas de estudo a alunos lusodescendentes. Trata-se de uma ação benemérita que tem tido um papel essencial não só na promoção da cultura e língua portuguesa no mundo, como também na capacitação e valorização das comunidades portuguesas, e na dinamização da participação de jovens lusodescendentes no pulsar do movimento associativo.

Um dos exemplos paradigmáticos da dimensão e importância do apoio dos empresários da diáspora a alunos lusodescendentes é o que tem sido dinamizado desde a primeira década do séc. XXI pela Fundação António Amaral, em Palm Coast, cidade localizada no estado da Flórida, nos Estados Unidos da América.

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O empresário luso-americano Tony Amaral, no decurso de uma cerimónia de entrega de bolsas de estudo pela Fundação António Amaral a jovens de origem portuguesa na Flórida

Radicado há mais de meio século na América, o empresário no sector da construção e imobiliário Tony Amaral, benemérito e fundador da comunidade portuguesa de Palm Coast, instituiu em 2006 a Fundação António Amaral com o objetivo central de atribuir bolsas de estudo a jovens de origem portuguesa na Flórida.

Há 16 anos consecutivos que a Fundação António Amaral, através do espírito empreendedor e solidário do emigrante natural de Ovar, entrega bolsas de estudo a alunos lusodescendentes na Flórida, tendo até ao momento, distribuído 223 bolsas, no montante superior a 355 mil dólares. Este ano, as candidaturas às bolsas de estudo da Fundação António Amaral encontram-se abertas até 20 de maio, sendo que as mesmas serão entregues aos respetivos contemplados durante uma pequena cerimónia a ter lugar em Palm Coast no dia 6 de Junho, no âmbito das celebrações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

Também na América do Norte, mais concretamente no Canadá, onde vive uma das maiores comunidades lusas no continente americano, a Federação de Empresários e Profissionais Luso-Canadianos (FPCBP) vai realizar no termo do presente mês, no Pearson Convention Centre, em Brampton, região metropolitana de Toronto, uma cerimónia de entrega das Bolsas de Estudo e Prémios de Excelência Empresarial.

A iniciativa, que decorrerá durante o 39.º Jantar Anual de Gala da FPCBP, foi instituída há mais de quatro décadas e representa o programa mais antigo de bolsas de estudo da comunidade portuguesa no Canadá, tendo atribuído já mais de um milhão e meio de dólares para jovens luso-canadianos.

No ano passado, no âmbito do 40.º Aniversário da FPCBP, foram atribuídas 45 bolsas, o maior número até à data, graças à generosidade dos empresários luso-canadianos que financiam anualmente este programa que tem como principal objetivo incentivar os estudantes da comunidade a escolherem o caminho do ensino superior e motivá-los a serem futuros líderes, a nível global e comunitário.

Estes exemplos paradigmáticos da dimensão e importância do apoio dos empresários da diáspora a alunos lusodescendentes, e muitos outros que possam estar atualmente a ser dinamizados no seio das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, corroboram a visão hodierna expressa no trabalho académico de Catarina da Costa Tavares Silva, intitulado Empresários Portugueses na Diáspora - Tendências Recentes. Mormente, que os “empresários portugueses emigrados contribuem para a competitividade, modernização e inovação que é favorável para qualquer país, nomeadamente para Portugal”, constituindo-se “como um importante ativo estratégico a valorizar”.

BATISTA SEQUEIRA VIEIRA: A CONQUISTA DO SONHO AMERICANO NA CALIFÓRNIA

  • Crónica de Daniel Bastos

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos arquipélagos da Madeira e dos Açores, destaca-se hoje pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.

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Comendador Baptista Sequeira Vieira

No seio da numerosa comunidade lusa nos EUA, segundo dados dos últimos censos americanos residem no território mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, destacam-se vários percursos de vida de compatriotas que alcançaram o sonho americano ("the American dream”).

Entre as várias trajetórias de portugueses que começaram do nada na América e ascenderam na escala social graças a capacidades extraordinárias de trabalho, mérito e resiliência, destaca-se o percurso inspirador e de sucesso do comendador Batista Sequeira Vieira, uma das figuras mais proeminentes da comunidade luso-americana.

Natural dos Rosais, freguesia do Município de Velas, na Ilha de São Jorge, arquipélago dos Açores, Batista Sequeira Vieira emigrou em 1954, perto de completar 16 anos de idade, para San José, terceira cidade mais populosa do estado americano da Califórnia, na companhia do irmão mais velho, motivado pelas histórias de abundância e riqueza contadas pelo avô durante a sua meninice.

O fascínio pela América transmitido pelo avô, que chegou a ter uma pequena rede de sapatarias em Newman, na Califórnia, na região do Vale de San Joaquim, impulsionou o jovem emigrante açoriano a abalar do seio de uma família relativamente abastada de São Jorge em demanda do sonho americano.

A coragem e o "antes quebrar que torcer", manifestas no facto de ter começadoo seu percurso de autêntico self-made man em duras condições de vida e de trabalho numa leitaria, forjaram um homem que teve o vislumbre de nos anos 60, já depois do enlace com a sua companheira de vida, Dolores Machado, se ter lançado na construção civil, primeiro na pintura, a “Vieira Painting Company” e depois na construção e imobiliário alavancado pelo crescimento de Silicon Valley.

Empresário e empreendedor com uma trajetória marcada pelo mérito e pela inovação, premissas que estão desde o início na base do conglomerado de empresas que criou na Califórnia, o sucesso que o emigrante jorgense alcançou ao longo do último meio século no mundo dos negócios, têm sido acompanhados de um apoio constante à comunidade luso-americana.

Na década de 1970, comprou, em parceria, a primeira estação de rádio paraservir a comunidade portuguesa, e posteriormente adquiriu outra estação, com o propósito de servir a comunidade luso-americana do Vale de San Joaquim, realizando o sonho de introduzir na sua programação a língua portuguesa.Contemporaneamente, foi Presidente da Sociedade do Espírito Santo, da Luso-American Fraternal Federation, e desempenhou funções relevantes em várias instituições luso-americanas que sempre contaram com o seu generoso apoio, como é o caso, por exemplo, da Igreja Portuguesa de San José.

O seu profundo sentido de responsabilidade e de dever cívico foram distinguidos em 1985 pelo então presidente norte-americano, Ronald Reagan, assim como em 1989, pelo antigo Presidente da República, Mário Soares, que o agraciou com o grau de comendador da Ordem do Mérito. Na base da justíssima distinção da pátria de origem, estiveram os serviços meritórios, a ligação umbilical e a generosidade que ao longo dos anos tem devotado a várias instituições da sua terra natal, como por exemplo, a Casa de Repouso João Inácio de Sousa, que recebeu do empresário e filantropo luso-americano uma grande doação tanto a nível monetário como de equipamentos.

Com o seu nome associado a ruas e edifícios na Ilha de São Jorge, mais propriamente no povoado que o viu nascer, Rosais, onde no ano passado lhe foi prestada uma homenagem pública e descerrado um busto, o comendador Batista Sequeira Vieira, que foi distinguido em 2014 pela Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores com a atribuição da Insígnia Autonómica, inspira-nos a máxima do escritor e ensaísta francês Albert Camus: “A grandeza do homem consiste na sua decisão de ser mais forte que a condição humana”.

CERVEIRA RECORDA “OLHARES SOBRE A EMIGRAÇÃO CERVEIRENSE” NOS SÉCULOS XIX E XX

Conferência está agendada para o dia 7 de maio, às 15h30, seguida da inauguração de exposição temática

A presente temática vai ser abordada em três vertentes: numa conferência com uma perspetiva histórica e emotiva dada pelo Prof. Doutor Henrique Rodrigues, e uma análise interpretativa protagonizada por quatro jovens estudantes, além de uma exposição documental, fotográfica e de material utilizado na época.

Pelo vasto histórico de emigração registado no concelho, a Câmara Municipal de Vila Nova de Cerveira decidiu avançar com uma iniciativa que suscitasse uma reflexão sobre a importância e impacto desse fenómeno na comunidade cerveirense, relembrando os movimentos migratórios portugueses, particularmente a emigração para o Brasil no século XIX e nas primeiras décadas do século XX, e para os países europeus, nomeadamente para França, na segunda metade do século XX. No dia 7 de maio, às 15h30, a Biblioteca Municipal acolhe a conferência “Olhares sobre a Emigração Cerveirense” nos séculos XIX e XX, à qual se seguirá, pelas 16h30, a inauguração de uma exposição temática sobre o mesmo enquadramento no Arquivo Municipal.

A Conferência tem como orador o Prof. Doutor Henrique Rodrigues, cuja participação vai incidir nas mobilidades e escritas da emigração oitocentista “Minha esposa do meu coração” e contará, ainda, com a intervenção de um grupo de quatro jovens estudantes da Escola Secundária de Vila Nova de Cerveira - Ema Lameira, João Oliveira, Sónia Fariñas e Tiago Cabodeira – que, sob orientação da Profª Emília Lagido, vão apresentar o tema “«Ei-los que partem» - do Brasil à Europa, visando a emigração comparativa dos cerveirenses entre os finais do século XIX e os anos 60 do século XX”. Após o encerramento desta conferência, a Câmara Municipal vai proceder à inauguração de uma exposição temática, patente no Arquivo Municipal até ao dia 28 de setembro, e que pode ser visitada de forma livre ou mediante a marcação de visitas guiadas, no período normal de funcionamento daquele equipamento público.

“Olhares sobre a Emigração Cerveirense” nos séculos XIX e XX apresenta os dois fenómenos emigratórios para o Brasil e para França, através de alguns documentos da época, como passaportes individuais e coletivos, requerimentos, bilhetes de vapor e processos de emigração de vários cerveirenses, de registos fotográficos de emigrantes e das suas famílias, entre outros materiais que recordam as memórias dos emigrantes, como por exemplo máquinas fotográficas ou malas de viagem. Há, ainda, algumas histórias de cerveirenses que, graças à fortuna alcançada com a emigração, não esqueceram as origens e tornaram-se beneméritos ao dotar as suas freguesias com melhoramento de grande vulto, de distribuir quantias monetárias e agasalhos pelos mais pobres e mesmo de apoiar as crianças na aprendizagem escolar.

Entre alguns dos dados investigados e expostos pelo Arquivo Municipal, sabe-se por exemplo que, em ambos os períodos, as freguesias do concelho com o maior número de emigrantes, sobretudo de homens solteiros, foram Vila Nova de Cerveira, Sopo e Covas, maioritariamente lavradores e pedreiros. O destino é que foi diferente, entre 1837 e 1900 foi o Brasil, e já entre 1953 e 1977, a França foi o destino de emigração eleição pelos portugueses.

Com o apoio do Município de Fafe e do Museu das Migrações, esta exposição é complementada com um conjunto de fotografias da autoria do reconhecido Gérald Bloncourt, o fotógrafo que imortalizou a emigração portuguesa em França, nos anos 60 e 70, tendo ficado célebre por um trabalho publicado no Journal Le Monde, de 25 de Abril de 1964, intitulado “Quase 100 mil trabalhadores portugueses instalaram-se nas ‘favelas’ de Paris”.

BREVE ENQUADRAMENTO DOS DOIS FENÓMENOS EMIGRATÓRIOS EXPOSTOS

A emigração apresenta-se como um dos comportamentos mais marcantes da sociedade portuguesa, especialmente a partir da segunda metade do século XVIII, com o «rush mineiro» no Brasil. Mas foi no século XIX que a emigração para o território americano registou um volume quantitativo mais expressivo. Ao longo de um século, o Brasil materializou o sonho de Eldorado, fascinando centenas de milhares de portugueses, na maioria homens, quase sempre jovens e alguns ainda crianças, oriundos sobretudo do Entre Douro e Minho.

As dificuldades nos transportes transoceânicos resultantes da 1ª Guerra Mundial, o impacto da Grande Depressão em 1929 e o eclodir da 2ª Guerra Mundial, acrescidas da imposição de entraves à entrada de novos emigrantes, quebraram a corrente migratória para o ‘Novo Mundo’, em detrimento da emigração intraeuropeia, a partir do decénio de 1950-1960. Para muitos portugueses, França foi o destino migratório por excelência, resultante do processo de reconstrução gaulês do pós-guerra que, em parte, seria suportado por um enorme contingente de mão de obra portuguesa pouco qualificada, que encontraria nos setores da construção civil e de obras públicas da região de Paris o seu principal sustento.

Cartaz - Olhares sobre a emigração Cerveirense.j

A HOMENAGEM NA SOCIEDADE DE GEOGRAFIA DE LISBOA A GÉRALD BLONCOURT

No passado dia 22 de abril, um coletivo de personalidades luso-francesas promoveu uma cerimónia pública de homenagem ao saudoso fotógrafo franco-haitiano Gérald Bloncourt (1926-2018), consagrado fotógrafo que imortalizou a história da emigração portuguesa para França nos anos 60.

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Mesa de Honra na cerimónia de homenagem a Gérald Bloncourt (Da esq. para a dir.: a Professora Catedrática Maria Beatriz Rocha-Trindade, Presidente da Comissão de Migrações da SGL, o Eng. Luís Aires Barros Presidente da SGL, e a jornalista Isabelle Repiton, viúva do fotógrafo franco-haitiano

A sessão, que decorreu na Sociedade de Geografia de Lisboa (SGL), uma das mais relevantes instituições culturais do país, na esteira da que tinha ocorrido há três anos no Museu Nacional da História da Imigração em Paris, teve como principal mentora a Professora Catedrática Maria Beatriz Rocha-Trindade, Presidente da Comissão de Migrações da Sociedade de Geografia de Lisboa, e uma das principais especialistas nacionais do fenómeno migratório.

Pautada pela emoção e saudade, a homenagem congregou a presença de vários amigos e familiares de Gérald Bloncourt, em particular da sua esposa, Isabelle Repiton, companheira de vida e responsável do acervo que assegura a preservação da memória do fotojornalista, pintor e poeta. Assim como, de dirigentes associativos, agentes políticos, académicos, emigrantes, lusodescendentes e admiradores do fotógrafo que teve o condão de retratar as duras condições de vida dos emigrantes lusos nos bidonvilles e o nascimento da democracia em Portugal.

No decurso da homenagem, enriquecida com uma exposição de fotografias cedidas pelo Museu das Migrações e das Comunidades, sediado em Fafe, cujo espólio acolhe uma centena de fotografias oferecidas por Gérald Bloncourt dedicadas à emigração portuguesa para França, foram vários os testemunhos emotivos de pessoas que conviveram com o antigo fotojornalista e colaborador de jornais de referência no campo social e sindical.

Uma vida e obra marcada pela defesa universal da solidariedade entre os povos, paradigmaticamente singularizada no olhar humanista e de compromisso que assumiu com os emigrantes lusos nos bairros de lata em Paris, e que se revelou fundamental na perpetuação da memória dos protagonistas anónimos da história portuguesa que lutaram aquém e além-fronteiras pelo direito a uma vida melhor e à liberdade.

Como destacou o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, aquando do falecimento do fotógrafo que condecorou com o grau de Comendador da Ordem do Infante Dom Henrique em 2016, no decurso das Comemorações Oficiais do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas em Paris, "há um dever de memória" em evocar o trabalho com a emigração portuguesa do fotojornalista franco-haitiano Gérald Bloncourt. Porquanto o mesmo “foi uma das testemunhas do duro quotidiano dos compatriotas que viveram os primeiros anos da maior vaga de emigração para França, sendo simultaneamente amigo e companheiro de tantos portugueses que ali construíram o seu futuro”.

DANIEL BASTOS ABORDOU EM BRAGA PANORAMA HISTÓRICO DA EMIGRAÇÃO PORTUGUESA

Na passada quinta-feira (28 de abril), o historiador Daniel Bastos que ao longo dos últimos anos tem publicado vários livros no domínio da História e Emigração, cujas sessões de apresentação o têm colocado em contacto estreito com as comunidades portuguesas, participou como escritor convidado na Semana da Leitura do Colégio João Paulo II, uma instituição de ensino particular em Braga.

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 No decurso da iniciativa, em que o historiador e escritor apresentou o seu mais recente livro “Crónicas - Comunidades, Emigração e Lusofonia”, obra que reúne os textos que este tem escrito nos últimos anos em diversos meios de comunicação dirigidos para a diáspora, Daniel Bastos proferiu uma palestra onde abordou o panorama histórico da emigração portuguesa.

Ao longo da sua comunicação, o investigador destacou junto da comunidade educativa que encheu o auditório da instituição de ensino, as sucessivas vagas de emigrantes de Portugal para vários países do mundo, como o Brasil no final do séc. XIX, ou os Estados Unidos, Canadá e França no início da década de 1950. A par das consequências sociodemográficas associadas ao fluxo migratório, Daniel Bastos destacou o papel dos emigrantes no desenvolvimento e projeção do país, assim como o facto de nos últimos anos Portugal receber por via da imigração um importante contributo no desenvolvimento socioeconómico, na inversão do paradigma da balança migratória e do processo acentuado de envelhecimento da população.

Historiador, escritor e professor no Colégio João Paulo II, Daniel Bastos é atualmente consultor do Museu das Migrações e das Comunidades, sediado em Fafe, e da rede museológica virtual das comunidades portuguesas, instituída pela Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, que pretende criar uma plataforma entre diversos núcleos museológicos, arquivos e coleções respeitantes à história e à memória, à vida e às perspetivas de futuro dos portugueses que vivem e trabalham fora do seu país.

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MUNICÍPIO ARCUENSE VISITA ANTONY E VIRY-CHATILLON EM FRANÇA

O Presidente da Câmara Municipal João Esteves visitou os municípios amigos Antony e Viry-Chatillon, da zona de Paris, por ocasião da visita à Feira de Nanterre.

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Na visita a Antony, Município com o qual Arcos de Valdevez tem um protocolo de colaboração, esteve com o Presidente da Câmara desse Município e com a Vereadora Rosa Macieira Moulin, natural do Soajo. Neste encontro as autarquias debateram assuntos ligados a esta cooperação e analisaram a realização de iniciativas conjuntas, envolvendo jovens e a comunidade sénior.

Em Viry-Chatillon também teve a oportunidade de estar com o Presidente da Câmara e vários vereadores, bem como com Christine Pocato, natural de Vilarinho do Souto/Ermelo, diretora geral da Câmara Municipal desta cidade na região de Paris.

A comitiva visitou diversos equipamentos culturais e desportivos e empresas, deste município e está previsto desenvolver uma parceria nas áreas das artes e cultura, juventude e desenvolvimento económico.

Com estes encontros entre o Município arcuense e as Câmaras Municipais francesas pretendeu-se aprofundar as relações entre as localidades, estabelecer novas áreas de cooperação entre os mesmos e promover uma aproximação entre os habitantes e as associações, já que nesta região vivem muitos portugueses, nomeadamente arcuenses.

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COMUNIDADE PORTUGUESA NO CANADÁ: MEMÓRIA E CELEBRAÇÃO DAS SUAS RAÍZES

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

Uma das mais relevantes comunidades lusas na América do Norte, que se destaca pela dinâmica da sua atividade associativa, económica e sociopolítica, as raízes da comunidade portuguesa no Canadá remontam ao início da década de 1950.

Embora a presença regular de portugueses neste território da América do Norte fosse uma realidade desde o alvorecer do séc. XVI, foi somente nos primórdios dos anos 50 que se consubstanciaram as relações diplomáticas entre as duas nações. Como relembra Lisa Rice Madan, Embaixadora do Canadá em Portugal, num artigo de opinião publicado no princípio deste ano no jornal Público, intitulado Canadá-Portugal: 70 anos de relações diplomáticas e muita mais de amizade, em 8 de dezembro de 1951, o Rei George VII, “na qualidade de chefe de Estado do Canadá, escreveu ao Presidente da República de Portugal anunciando a decisão de acreditar para Portugal, o nosso fiel e bem-amado William Ferdinand Alphonse Turgeon, como enviado extraordinário e ministro plenipotenciário do Canadá em Portugal. Um mês mais tarde, o Canadá concedeu o agrément à nomeação do dr. Luís Esteves Fernandez, embaixador e Portugal nos Estados Unidos, para ministro de Portugal para o Canadá. As legações, como então eram chamadas, foram abertas oficialmente a 18 de Janeiro de 1952”.

Ainda nesse ano, em 12 de abril, Gonçalo Caldeira Coelho tomaria posse como Encarregado de Negócios e assumiu a gerência da legação, ou seja da embaixada. Dois anos depois, Portugal e o Canadá, procurando estreitar as relações económicas, assinaram um Acordo Comercial que revogou e substituiu o Acordo com o mesmo objeto que vigorava entre os dois países desde 1 de outubro de 1928.

É no contexto das relações estabelecidas entre os dois países, que em 1953, ao abrigo de um Acordo Luso-Canadiano, que visava suprir a necessidade de trabalhadores para o sector agrícola e para a construção de caminhos-de-ferro, que transportados pelo Saturnia, desembarcaram a 13 de maio em Halifax, província de Nova Escócia, os primeiros emigrantes portugueses.

Se entre 1953 e 1973, terão entrado no Canadá mais de 90.000 portugueses, na sua maioria originários dos Açores, estima-se que atualmente vivam no segundo maior país do mundo em área total, mais de meio milhão de luso-canadianos, sobretudo concentrados em Ontário, Quebeque e Colúmbia Britânica, representando cerca de 2% do total da população canadiana que constitui um hino ao multiculturalismo. 

É a partir deste legado histórico que a Galeria dos Pioneiros Portugueses, impulsionada no presente pelo comendador Manuel DaCosta, um dos mais ativos beneméritos na preservação da cultura portuguesa, na linha da máxima lapidar de Marcus Garvey: “um povo sem o conhecimento da sua história, origem e cultura é como uma árvore sem raízes”-, perpétua em Toronto a memória dos primeiros emigrantes portugueses no Canadá.

Foi a partir deste legado histórico, que um pouco por todas as comunidades portuguesas disseminadas pelo imenso território canadiano, foi celebrado em 2003, com profundo simbolismo e sentimento de pertença, exposto em inúmeras atividades e eventos, o 50.º aniversário da emigração portuguesa para o Canadá.

Será seguramente a partir deste legado histórico, que sensivelmente dentro de um ano, num contexto pós-pandémico, e não obstante assinalarem-se hodiernamente 70 anos de relações diplomáticas luso-canadianas, que será celebrado com reiterado simbolismo e sentimento de pertença, manifesto em vindouras atividades e eventos, o septuagésimo aniversário da chegada da primeira vaga de emigrantes portugueses ao Canadá

Um aniversário que fortalecerá, concomitantemente, os laços dos emigrantes luso-canadianos à língua e cultura materna, mas também à pátria de acolhimento, até porque como reiteradamente tem destacado Justin Trudeau, primeiro-ministro do Canadá, as sucessivas vagas de emigrantes portugueses têm contribuído desde a década de 1950 para “a construção do Canadá moderno”. Nas palavras do mesmo, em 2018, durante a visita oficial do primeiro-ministro António Costa ao Canadá: “A cultura portuguesa está presente nas nossas vilas e cidades de diversas formas, com valores tradicionais de família, trabalho árduo e paixão pelo futebol. Os luso-canadianos são a chave da explicação do Canadá de hoje”.

DANIEL BASTOS APRESENTOU EM LISBOA NOVO LIVRO SOBRE AS COMUNIDADES PORTUGUESAS

Na passada sexta-feira, dia 22 de abril, foi apresentado em Lisboa o livro “Crónicas -Comunidades, Emigração e Lusofonia”.

A obra, que reúne as crónicas que o escritor e historiador Daniel Bastos tem escrito nos últimos anos em diversos meios de comunicação dirigidos para as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, foi apresentada na Sociedade de Geografia de Lisboa.

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Mesa da sessão de apresentação do livro “Crónicas -Comunidades, Emigração e Lusofonia” (Da esq. para dir.: o historiador Daniel Bastos, acompanhado do advogado e comentador, Luís Marques Mendes, da Presidente da Comissão de Migrações da Sociedade de Geografia de Lisboa (SGL), Maria Beatriz Rocha-Trindade, e da Diretora do Museu da SGL, Manuela Cantinho

A sessão de apresentação, que encheu a sala de convívio, de uma das mais relevantes instituições culturais do país, de dirigentes associativos, agentes políticos, académicos, emigrantes e lusodescendentes, esteve a cargo do conhecido advogado e comentador, Luís Marques Mendes, que assina o prefácio da obra e caracterizou a mesma como um “exemplo de cidadania e de serviço público”.

Segundo Luís Marques Mendes, este livro é “o espelho da homenagem que Daniel Bastos quer prestar aos milhões de portugueses que, fora do nosso país, honram, servem e prestigiam Portugal. E fá-lo como deve ser: com simplicidade e com verdade, com entusiasmo e com realismo, com autenticidade e com pragmatismo, com respeito pelo passado mas sem descurar a ambição do futuro”.

Neste novo livro, composto por cerca de centena e meia de crónicas, e realizado com o apoio da Sociedade de Geografia de Lisboa - Comissão de Migrações, o historiador português através de uma assumida visão de compromisso com os emigrantes, revela o empreendedorismo, as contrariedades, a resiliência e a solidariedade das comunidades lusas, a riqueza do seu movimento associativo, e as enormes potencialidades culturais, económicas e políticas que as mesmas representam nas pátrias de acolhimento e de origem.

Refira-se que o livro foi apresentado no decurso de uma cerimónia de homenagem a Gérald Bloncourt, fotógrafo franco-haitiano que imortalizou a emigração portuguesa e os primeiros dias da Revolução de Abril, e com quem o autor realizou os livros “O olhar de compromisso com os filhos dos Grandes Descobridores” e “Dias de Liberdade em Portugal”. E que, ao longo do ano estão previstas várias sessões de apresentação da obra noutros espaços do território nacional e da Diáspora.

Historiador, escritor e professor, Daniel Bastos, é atualmente consultor do Museu das Migrações e das Comunidades, sediado em Fafe, e da rede museológica virtual das comunidades portuguesas, instituída pela Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, que pretende criar uma plataforma entre diversos núcleos museológicos, arquivos e coleções respeitantes à história e à memória, à vida e às perspetivas de futuro dos portugueses que vivem e trabalham fora do seu país.

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JOHN DOS PASSOS: UM ESCRITOR AMERICANO ORGULHOSO DAS SUAS RAÍZES MADEIRENSES

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

Um dos mais importantes escritores modernistas norte-americanos, John Dos Passos (1896-1970), nunca escondeu ao longo da sua renomada carreira literária o carinho e orgulho pelas suas raízes familiares madeirenses.

As origens lusas do autor de Manhattan Transfer e U.S.A. Trilogy, livros marcantes da América da primeira metade do século XX, descendem de Manuel Joaquim dos Passos, avô paterno do afamado escritor, natural da vila madeirense de Ponta do Sol, onde nasceu em 1816.

Manuel Joaquim dos Passos emigrou aos 14 anos de idade para os Estados Unidos da América (EUA), tendo-se radicado em Filadélfia, cidade da Pensilvânia, onde contraiu matrimónio com a americana Ann Cattel. Dessa união nasceram vários filhos, entre eles, um prestigiado advogado, John Randolph dos Passos (1844-1917), pai do escritor americano de origem portuguesa que em 1936, no auge da fama, chegou a ser capa da revista Time.

Amigo de Ernest Hemingway e de outros grandes nomes da literatura mundial, Jonh Dos Passos, que acompanhou as tropas americanas durante a Primeira Guerra Mundial como condutor de ambulâncias, e trabalhou como correspondente durante a Segunda Guerra Mundial, visitou a ilha da Madeira em três ocasiões.

A primeira, ainda em criança, no ano de 1905, acompanhado pelo seu pai, como o mesmo refere na introdução do seu livro The Portugal Story: “Embora eu fosse educado sem qualquer conhecimento da língua portuguesa, a minha família não perdera por completo o contacto com os parentes do meu avô, na Madeira. O meu pai, embora falasse apenas um pouco de francês, além do inglês, nunca se esqueceu de que era meio português. Tinha oito anos quando ele me levou ao Funchal. Lembro-me das visitas de um primo idoso que me dava, no jardim do velho Reid's Hotel, uma lição diária de latim”.

A segunda visita de John dos Passos à Madeira ocorreu em 1921, onde em trânsito a caminho de Lisboa, passeou pelo Funchal relembrando as raízes humildes do seu avó paterno que fora sapateiro no torrão natal. Mais tarde, em 1960, voltou a visitar a pérola do Atlântico, desta feita, acompanhado pela mulher, Elizabeth Hamlin Dos Passos, e a filha Lucy dos Passos Coggin, onde foram recebidos pelos familiares e autoridades locais.

No então discurso que realizou em agradecimento à homenagem que recebeu na Ponta do Sol, no decurso dessa terceira e última visita à região arquipelágica, John dos Passos exporia: “Desculpem eu não falar a língua dos meus avós. Como sabem o meu avô deixou a Ponta do Sol há muito mais de cem anos. É deveras enternecedor para mim ser recebido com tão grandeza gentileza e consideração. [...]. Mais tarde o meu pai tornou-se cada vez mais interessado a respeito da Madeira e das suas raízes portuguesas. Quando eu tinha oito anos trouxe-me, por algumas semanas ao Funchal. Assim quando aqui cheguei há dias reconheci os rochedos cor púrpura, o mar azul, os mergulhadores e as pequenas lagartixas que correm através dos jardins do Reid’s Hotel. Recordo amável hospitalidade de amigos e parentes da Madeira.”

A ligação estreita de John Dos Passos com a terra do avô paterno é desde o alvorecer do séc. XXI, preservada e dinamizada pelo Centro Cultural John dos Passos, fundado em homenagem ao escritor americano com raízes lusas e localizado no centro da vila da Ponta do Sol.

Atualmente, a instituição que acolhe exposições temporárias, seminários e conferências, com destaque particular para o simpósio anual dedicado a John dos Passos, possui uma sala de exposição permanente dedicada ao escritor, dois espaços museológicos, uma biblioteca, que apresenta a extensa obra do autor, e um auditório onde se desenvolvem as mais variadas atividades culturais como a música, a dança e o teatro.

A ligação do escritor norte-americano à terra de origem dos seus antepassados está ainda simbolicamente inscrita desde 2016 no nome de um dos aviões da TAP, companhia área portuguesa que atravessa o Atlântico para os EUA. Época em que Secretaria Regional de Turismo e Cultura da Madeira assumiu a responsabilidade do Prémio John Dos Passos, instituído com a finalidade de
homenagear o escritor homónimo e difundir a sua obra, rememorar as suas ancestrais ligações à Região e, simultaneamente incentivar a produção literária e a investigação histórico-literária.

HISTORIADOR DANIEL BASTOS LANÇA LIVRO DE CRÓNICAS SOBRE COMUNIDADES, EMIGRAÇÃO E LUSOFONIA

No próximo dia 22 de abril (sexta-feira), o escritor e historiador Daniel Bastos apresenta em Lisboa, o seu mais recente livro intitulado Comunidades, Emigração e Lusofonia”.

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A obra, que reúne as crónicas que o historiador tem escrito nos últimos anos em diversos meios de comunicação dirigidos para as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, é apresentada às 17h30, na Sociedade de Geografia de Lisboa, no decurso de uma cerimónia pública de homenagem a Gérald Bloncourt. Fotógrafo que imortalizou a emigração portuguesa e os primeiros dias da Revolução de Abril, e com quem Daniel Bastos realizou os livros “O olhar de compromisso com os filhos dos Grandes Descobridores” e “Dias de Liberdade em Portugal”.

A apresentação da obra, que é prefaciada por Luís Marques Mendes, e conta com posfácios de Maria Beatriz Rocha-Trindade, Presidente da Comissão de Migrações da Sociedade de Geografia de Lisboa, e de Isabelle Oliveira, Presidente do Instituto do Mundo Lusófono, estará a cargo do conhecido advogado e comentador.

Neste novo livro, composto por cerca de centena e meia de crónicas e realizado com o apoio da Sociedade de Geografia de Lisboa - Comissão de Migrações, uma das mais relevantes instituições culturais do país, Daniel Bastos pretende dignificar, reconhecer e valorizar as sucessivas gerações de compatriotas que, por razões muito diversas, saíram de Portugal.

Através de uma assumida visão de compromisso com os emigrantes, o historiador revela o empreendedorismo, as contrariedades, a resiliência e a solidariedade das comunidades portuguesas, a riqueza do seu movimento associativo, e as enormes potencialidades culturais, económicas e políticas que as mesmas representam nas pátrias de acolhimento e de origem. Uma visão que para o autor “emanando do legado histórico português, antevê os emigrantes como argonautas indispensáveis ao desígnio nacional de desbravar os mares desconhecidos do futuro, e antepara a Lusofonia como um espaço indispensável para a afirmação de Portugal no concerto das Nações”.

Sobre Daniel Bastos, escreve no prefácio Marques Mendes: “Uma das facetas mais marcantes da sua personalidade tem a ver com a colaboração estreita que mantém nos últimos anos com a imprensa local, regional e da diáspora. Aí o autor evidencia a sua especial sensibilidade – a paixão que nutre pelas comunidades portuguesas dispersas pelo mundo, o empenho que dispensa ao ideal da lusofonia, o sentido estratégico que retira da nossa diáspora, a mais-valia estruturante que vê, e bem, nos vários Portugais que compõem Portugal”.

Para o conhecido advogado e comentador, este livro é “o espelho da homenagem que Daniel Bastos quer prestar aos milhões de portugueses que, fora do nosso país, honram, servem e prestigiam Portugal. E fá-lo como deve ser: com simplicidade e com verdade, com entusiasmo e com realismo, com autenticidade e com pragmatismo, com respeito pelo passado mas sem descurar a ambição do futuro”.

Refira-se que a edição da obra, cuja capa é assinada pelo mestre-pintor Orlando Pompeu, um dos mais consagrados artistas plásticos nacionais da atualidade, deveu-se em grande parte ao mecenato de empresas e instituições da Diáspora que partilham uma visão de responsabilidade social e um papel de apoio à cultura, e que ao longo do ano estão previstas várias sessões de apresentação do livro junto das comunidades portuguesas.

Historiador, escritor e professor, Daniel Bastos, é atualmente consultor do Museu das Migrações e das Comunidades, sediado em Fafe, e da rede museológica virtual das comunidades portuguesas, instituída pela Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, que pretende criar uma plataforma entre diversos núcleos museológicos, arquivos e coleções respeitantes à história e à memória, à vida e às perspetivas de futuro dos portugueses que vivem e trabalham fora do seu país.

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MOVES – MIGRAÇÃO E MODERNIDADE: DESAFIOS HISTÓRICOS E CULTURAIS

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

No decurso dos últimos anos o acervo bibliográfico dedicado às migrações em Portugal tem sido profusamente enriquecido com o lançamento de um conjunto diversificado de documentos que ampliam o estudo e conhecimento sobre este fenómeno.

Neste conjunto de trabalhos, onde se cruzam os olhares interdisciplinares das ciências sociais, encontram-se livros, capítulos de livros, artigos em revistas científicas, artigos em atas de congressos, conferências e outros tipos de encontros científicos, relatórios, assim como dissertações de licenciatura, mestrado e doutoramento. 

No âmbito dos cursos de 3.º ciclo (doutoramento) que se têm debruçado sobre esta importante temática, destaca-se desde 2019 o Programa Doutoral MOVES - Migração e Modernidade: Desafios Históricos e Culturais. Um projeto conjunto da Universidade do Porto e de mais quatro universidades europeias (Universidade Carolina de Praga, Universidade Paul Valéry de Montpellier, Universidade Livre de Berlim e Universidade de Kent).

Dotado pela Comissão Europeia com um financiamento de 3,9 milhões de euros, o programa MOVES propõe-se a promover uma análise histórica dos movimentos populacionais do passado para contextualizar a atual crise de migração, através da realização de estudos comparativos. O objetivo principal é envolver especialistas das Humanidades e das Ciências Sociais  na definição e disseminação de soluções inovadoras que apoiem a resposta dada pelos países nas questões prementes relacionadas com a gestão da migração.

Uma das particularidades do projeto é que para além das cinco universidades envolvidas, o MOVES conta com 18 parceiros não-académicos, incluindo organizações não-governamentais, associações de solidariedade e indústrias criativas. Como é o caso, do Museu das Migrações e das Comunidades, sediado em Fafe, um espaço museológico percursor no seu género em Portugal, que assenta a sua missão no estudo, preservação e comunicação das expressões materiais e simbólicas da emigração portuguesa.

Na esteira, do acordo firmado entre o Museu das Migrações e das Comunidades, e o programa MOVES, a cidade minhota foi palco no início deste mês da apresentação de dois trabalhos académicos sob a coordenação de Rui Carvalho Homem (do Departamento de Estudos Anglo-Americanos da FLUP), e que estiveram a cargo da doutoranda Naiara Rodriguez-Pena (Universidade de Kent e Universidade Paul Valéry de Montpellier), que investiga “A influência de ideias e memórias do passado nas aspirações migratórias”. E da doutoranda Viktoryia Vaitovich (Universidade Paul Valéry de Montpellier / Universidade do Porto) que aborda as distintas vagas da emigração portuguesa, perspetivadas a partir da "teoria do sistema-mundo" de Immanuel Wallerstein, sob o título “De emigrantes para imigrantes: mudança na emigração em Portugal como consequência das relações centro-periferia”.

Num mundo cada vez mais globalizado, em que as novas realidades geopolíticas, tecnológicas e humanitárias colocam vários desafios às sociedades e consequentemente às instituições, este exemplo de estreita cooperação do estudo académico com a sociedade civil, mostra como é possível colocar o conhecimento ao serviço das populações. E desenvolver, em conjunto, competências específicas na área do conhecimento sobre as migrações a quem pretende seguir uma carreira académica, ao nível do ensino ou da investigação.

MARIA BEATRIZ ROCHA: UMA VIDA DE TRABALHO ACADÉMICO SOBRE MIGRAÇÕES

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

No decurso das últimas décadas o estudo sobre o fenómeno migratório tem sido profusamente enriquecido com um conjunto diversificado de atividades e trabalhos que têm dado um importante contributo para o conhecimento da emigração portuguesa.

Neste conjunto diversificado de atividades e trabalhos, onde se cruzam os olhares interdisciplinares das ciências sociais, encontram-se, entre outros, livros, artigos em revistas científicas, congressos, conferências, relatórios, dissertações de licenciatura, mestrado e doutoramento. 

Autora de uma vasta bibliografia sobre matérias relacionadas com as migrações, onde se destacam, entre outros, os livros Sociologia das Migrações (1995), Migrações - Permanência e Diversidade (2009), A Serra e a Cidade - O Triângulo Dourado do Regionalismo (2009) ou Das Migrações às Interculturalidades (2014). E colaboradora habitual de revistas científicas internacionais neste domínio, Maria Beatriz Rocha-Trindade, nascida em Faro, e Doutorada pela Universidade de Paris V (Sorbonne) e Agregada pela Universidade Nova de Lisboa (FCSH), é uma das cientistas sociais que mais tem contribuído para o conhecimento da emigração portuguesa.

Professora Catedrática Aposentada na Universidade Aberta, foi responsável pela fundação nos inícios dos anos 90, nesta instituição de ensino superior público, do Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais (CEMRI). Um centro pioneiro na área das Migrações e Relações Interculturais, que conta atualmente com mais de meia centena de investigadores, e que tem dinamizado ao longo dos últimos anos uma intensa pesquisa interdisciplinar e formação avançada na área das migrações e das relações interculturais em contexto nacional e internacional.

O pioneirismo da insigne académica e investigadora está igualmente expresso na introdução em Portugal do ensino da sociologia das migrações, primeiro na Universidade Católica, no curso de Teologia, em 1994, e dois anos depois, na Universidade Aberta, a nível de licenciatura e de mestrado.

Membro de diversas organizações científicas portuguesas e estrangeiras, designadamente da Comissão Científica da Cátedra UNESCO sobre Migrações, da Universidade de Santiago de Compostela, do Museu das Migrações e das Comunidades, criado em 2001 por deliberação do Município de Fafe, e da Comissão Científica do Centro de Estudos de História do Atlântico/CEHA, a Professora Maria Beatriz Rocha-Trindade, coordena presentemente a Comissão de Migrações da Sociedade de Geografia de Lisboa.

Constituída por membros oriundos de vários quadrantes da sociedade que têm estudado e refletido sobre o fenómeno migratório, emigração/imigração, a Comissão de Migrações da Sociedade de Geografia de Lisboa, uma das mais relevantes instituições culturais do país, tem sido responsável pela dinamização de relevantes iniciativas no campo do fenómeno migratório. Como por exemplo, em 2019, quando realizou o colóquio “CPLP - que presente e que futuro?”, ou no ano anterior, o “Fórum Luso-Estudos/ Edição 2018”, o seminário “Enologia, Mobilidade e Turismo” e a conferência “Jornalismo para a Paz em contexto de mobilidade”.

O percurso de vida singular e o trabalho académico laborioso da Professora Catedrática Maria Beatriz Rocha-Trindade, Titular da Ordre National du Mérite, de França, com o grau de Chevalier, da Medalha de Mérito do Município de Fafe e da Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública, de Portugal, foram recentemente expressos no XXVI Congresso Internacional de Antropologia Ibero-Americana, considerado um dos mais relevantes do espaço Ibero-Americano, este ano realizado no Fundão e subordinado ao tema “Territórios, Migrações e Fronteiras”.

No âmbito do Congresso, decorreu uma sessão de homenagem à Professora Doutora Maria Beatriz Rocha-Trindade, com a atribuição da Medalha de Ouro do Município do Fundão, destacando os seus responsáveis que a “insigne investigadora de referência internacional na área das migrações, tem desenvolvido, ao longo da sua carreira, um precioso e incontornável contributo para o conhecimento das migrações nos âmbitos disciplinares da Sociologia, da História, da Geografia e da Antropologia”.

MAGELLAN COMMUNITY CENTRE: UM PROJETO EMBLEMÁTICO DA COMUNIDADE PORTUGUESA EM TORONTO

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

Dentro dos desafios e problemáticas que as sociedades enfrentam na atualidade, o envelhecimento populacional assume uma cada vez maior premência, dadas as suas implicações coletivas e multidimensionais, como é o caso, do mercado laboral, da proteção social, das estruturas familiares ou dos laços intergeracionais.

Como apontam as Nações Unidas, o número de idosos, com 60 anos ou mais, deve duplicar até 2050 e mais do que triplicar até 2100, passando de 962 milhões em 2017 para 2,1 mil milhões em 2050 e 3,1 mil milhões em 2100. Se o envelhecimento populacional é um fenómeno mundial, na Europa assume maiores proporções, até porque, hoje em dia, o velho continente tem a maior percentagem da população com 60 anos ou mais (25%).

No quadro do inverno demográfico mundial e europeu, a sociedade portuguesa é uma das mais afetadas, apontando mesmo o Instituto Nacional de Estatística (INE) que quase metade da população portuguesa terá mais de 65 anos dentro de meio século. Este cenário de envelhecimento da população que reside no território nacional, também é visível no seio das comunidades lusas, em particular, nos países com maior e mais antiga tradição de emigração portuguesa.

Segundo o estudo sociológico, A emigração portuguesa no século XXI, a percentagem dos idosos entre os emigrantes lusos aumentou, por exemplo, no Canadá 11 pontos percentuais, passando de 17% para 28%, entre 2001 e 2011, e nos EUA aumentou sete pontos percentuais, de 16% para 23%. Crescimento elevado da percentagem dos idosos é ainda observável entre os emigrantes portugueses em França, destino europeu mais antigo. Essa percentagem duplicou, passando de 8% para 16% entre 2002 e 2011”.

É neste contexto de populações nacionais emigradas mais envelhecidas, que ganha especial relevância a iniciativa que está a ser dinamizada nos últimos anos na comunidade portuguesa em Toronto, onde vive a maioria dos mais de 500 mil compatriotas e lusodescendentes presentes no Canadá. Designadamente, o projeto de construção a breve prazo de um centro, o Magellan Community Centre, orçado em vários milhões de dólares, capaz de acolher mais de 200 idosos, especialmente direcionado para a comunidade lusa.

Este projeto, há muito ambicionado pelos emigrantes lusos na maior cidade canadiana, está a ser dinamizado pela Magellen Community Charities (Instituição de Caridade Comunitária Magalhães). Uma organização sem fins lucrativos, em homenagem ao navegador português, que através da colaboração do poder politico e da solidariedade da comunidade luso-canadiana, pretende construir um lar culturalmente específico que terá que cumprir as seguintes condições: profissionais de saúde que falem português; atividades cultural e espiritualmente desenvolvidas em ambiente cultural sensível; promoção de programas sociais e recreativos em português e alimentação que deve incluir pratos tradicionais.

Numa época de galopante envelhecimento da população, e em que os efeitos da pandemia têm acarretado graves consequências socioeconómicas, a construção de uma “casa” para os mais velhos da comunidade luso-canadiana, demonstra desde logo que o espírito de solidariedade e entreajuda ainda é uma das principais marcas da diáspora, em particular, da comunidade portuguesa em Toronto.

Estando, nesta fase, em processo de angariação de fundos, desdobrando-se os seus vários diretores em contactos e apelos para que a comunidade luso-canadiana, cada um dentro das suas possibilidades, possa contribuir para que o projeto se torne a breve trecho uma realidade. Como realçou, aquando da apresentação pública do mesmo, o empresário benemérito e diretor da Magellan Community Charities, Manuel DaCosta, é “importante estarmos todos envolvidos, se não vamos perder uma oportunidade que não termos num futuro próximo. Estamos empenhados para que tenha sucesso e para que toda a comunidade se envolva. Não é só para nós (direção), mas para toda a comunidade”.

Na linha de pensamento do Comendador Manuel DaCosta, este emblemático projeto da comunidade e para a comunidade portuguesa em Toronto, e quiçá um modelo de inspiração e de boas práticas para outras áreas geográficas da diáspora lusa, reaviva-nos a afirmação notável de Fernando Pessoa, um dos mais importantes poetas da língua portuguesa “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”.

DANIEL BASTOS DISTINGUIDO PELA COMUNIDADE PORTUGUESA NA VENEZUELA

A Federação Iberoamericana de Luso Descendentes, uma associação de referência da comunidade portuguesa na Venezuela, que tem como principal desígnio a promoção da cultura e união luso-venezuelana, acaba de distinguir o historiador Daniel Bastos.

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O representante da Fundação Nova Era Jean Pina junto das comunidades portuguesas, que ao longo dos últimos anos tem publicado vários livros no domínio da História e Emigração, cujas sessões de apresentação o têm colocado em contacto estreito com a Diáspora, e que atualmente é docente no Colégio João Paulo II, em Braga, e consultor do Museu das Migrações e das Comunidades, sediado em Fafe, foi agraciado com a condecoração ordem: "Luís Vaz de Camões".

Na base da distinção atribuída encontra-se o relevante apoio que a Fundação Nova Era Jean Pina, cuja missão visa a promoção de uma cultura e rede de solidariedade na Diáspora, destinou à comunidade luso-venezuelana na última quadra natalícia, mormente a distribuição de 200 cabazes de Natal a famílias portuguesas residentes na Venezuela. Um apoio protocolado com a Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, e operacionalizado pela Federação Iberoamericana de Luso Descendentes, que permitiu melhorar o Natal de compatriotas que vivem com graves dificuldades neste país da América Latina.

Refira-se que a condecoração está prevista ser entregue, em Lisboa, no decurso do mês de junho, pelo presidente geral da Federação Iberoamericana de Luso Descendentes, Jany Ferreira, na esteira das celebrações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, numa cerimónia em que será também distinguido o instituidor da Fundação Nova Era Jean Pina, o empresário luso-francês João Pina, com a condecoração ordem: "Infante D. Henrique".

COMENDADOR CARLOS DE LEMOS: UM PALADINO DA COMUNIDADE LUSO-AUSTRALIANA

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

Uma das marcas mais características das comunidades portuguesas é a sua dimensão empreendedora e benemérita, como corroboram os percursos de diversos compatriotas que dinamizam atividades de relevo a nível económico, político, cultural e social.

Nos vários exemplos de patrícios que compõem e engrandecem a diáspora lusa, cada vez mais reconhecidos como uma mais-valia na promoção do país, destaca-se a trajetória do Comendador Carlos de Lemos, antigo Cônsul Honorário de Portugal em Melbourne, na Austrália, e um dos mais devotados paladinos da cultura e história portuguesa no continente-ilha.

Natural de Melgaço, vila raiana no distrito de Viana do Castelo, onde nasceu em 1926, Carlos Pereira de Lemos iniciou a sua vida profissional como topógrafo em Portugal, trabalhando depois em Moçambique, África do Sul, Timor e na Austrália. No périplo que encetou pelo mundo, o alto-minhoto que começou a trabalhar com apenas 12 anos de idade numa loja em Melgaço, e já adolescente num café em Monção, conheceu personalidades marcantes como Nelson Mandela, Samora Machel, Rui Cinatti ou José Ramos-Horta.

Detentor de uma formação eclética, Carlos de Lemos foi estudante na África do Sul – Rhodes University e University of South Africa, onde se licenciou em Ciências Políticas e Sociologia. E pós-graduou-se em Pedagogia na Universidade de Melbourne, tendo sido professor de Sociologia e Ciências Políticas no Royal Melbourne Institute of Technology, e de línguas na Universidade de Monash, assim como representante do Banco Borges em Melbourne.

A chegada ao território australiano na década de 80, onde viria a estabelecer-se, marcou o princípio de uma profunda ligação à comunidade luso-australiana, atualmente constituída por cerca de 50 mil portugueses, essencialmente disseminados por metrópoles como Perth, Melbourne ou Sydney.

Paralelamente à sua atividade profissional, Carlos de Lemos tornou-se um importante dirigente associativo luso-australiano, através da criação de uma escola de português e de um programa de rádio. Em 1988, foi nomeado Cônsul Honorário de Portugal em Melbourne, incumbência que exerceu durante três décadas com intenso trabalho, num verdadeiro espirito de missão em prol da comunidade luso-australiana.

Nesse âmbito, foi o grande impulsionador do Festival Português de Warrnambool, uma cidade na costa sudoeste de Vitória, onde pelo seu incansável labor foi inaugurado em 2001 um padrão de homenagem aos navegadores portugueses, tendo inclusive sido dado a uma das ruas de Warrnambool o seu nome, “De Lemos Court”. Ainda, no alvorecer deste mês, o dinâmico nonagenário luso-australiano proferiu no Museu Marítimo de Warrnambool uma palestra onde abordou a tese da descoberta portuguesa da Austrália, que escora que terá sido o navegador Cristóvão Mendonça, por volta de 1522, o primeiro português a avistar as costas australianas, quando navegava na zona por ordem de D. Manuel I, dois séculos e meio antes do capitão inglês James Cook.

O notável percurso de vida de Carlos de Lemos, patenteado no seu livro História de Uma Vida, publicado em 2016 e prefaciado pela antiga secretária de Estado da Emigração, Manuela Aguiar, foi distinguido em 2002 com a Ordem de Mérito, no grau de Comendador, pelo então Presidente da República Jorge Sampaio. Mais recentemente Carlos de Lemosfoi condecorado pelo Estado de Timor-Leste e pelo governo australiano com a Ordem da Austrália, assim como pelo Município de Melgaço com a atribuição da medalha de Cidadão de Mérito.

Uma das figuras mais conhecidas da comunidade luso-australiana, o exemplo de vida do Comendador Carlos de Lemos,devotado paladino da cultura e história portuguesa no continente-ilha, relembra-nos a interpelação de Nelson Mandela: “Será que alguém pensa genuinamente que se não conseguiu algo foi por não ter tido o talento, a força, a resistência e a determinação nesse sentido?”.

JOSÉ SOARES: EMPRESÁRIO E BENEMÉRITO DA COMUNIDADE LUSO-AMERICANA DE NEW BEDFORD

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos Arquipélagos dos Açores e da Madeira, destaca-se hoje pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.

Atualmente, segundo dados dos últimos censos americanos, residem nos EUA mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, principalmente concentrados na Califórnia, Massachusetts, Rhode Island e Nova Jérsia. A grande maioria da população luso-americana trabalha por conta de outrem, na indústria, mas são já muitos os que trabalham nos serviços ou se destacam na área científica, no ensino, nas artes, nas profissões liberais e nas atividades políticas.

No seio da numerosa comunidade lusa nos EUA, onde proliferam centenas de associações recreativas e culturais, clubes desportivos e sociais, fundações para a educação, bibliotecas, grupos de teatro, bandas filarmónicas, ranchos folclóricos, casas regionais e sociedades de beneficência e religiosas, destacam-se percursos de vida de vários compatriotas que alcançaram o sonho americano ("the American dream”).

Entre as várias trajetórias de portugueses que começaram do nada na América e ascenderam na escala social graças ao trabalho, ao mérito e ao empenho, destaca-se o percurso inspirador e de sucesso de José Soares, um dos mais destacados empresários e beneméritos da comunidade luso-americana de New Bedford.

Natural de Ribeiras, freguesia da ilha do Pico, arquipélago dos Açores, José Soares emigrou ainda adolescente para a América no alvorecer dos anos 70, acompanhado os pais na demanda de melhores condições de vida para uma família humilde, que tinha já assistido na década de 1960 à partida do filho mais velho para o Canadá.

A chegada à América marcou o início de um percurso de vida de um verdadeiro self-made man”, que sem saber falar inglês e com apenas a 4.ª classe portuguesa, conseguiu completar o liceu e obter um curso técnico de eletricidade, ao mesmo tempo que auxiliava o pai nas horas vagas a pintar e a fazer manutenção de casas de madeira.

 O trabalho, o esforço e a resiliência, valores coligidos no seio familiar, impeliriam José Soares a fundar em 1979 a Bay State Drywall Company Inc., uma empresa de construção de referência no estado de Massachusetts, região da Nova Inglaterra. Atualmente com cerca de uma centena de funcionários, muitos deles portugueses, a Bay State tem ao longo das últimas décadas acumulado um importante portefólio de obras, mormente de centros comerciais, condomínios, supermercados e hotéis.

Radicado há mais de cinquenta anos nos Estados Unidos da América, o sucesso que o emigrante picoense alcançou ao longo dos últimos anos no mundo dos negócios, tem sido acompanhado igualmente de um apoio constante à comunidade luso-americana de New Bedford, onde é reconhecida a sua generosidade por ter pago, por exemplo, livros e material para vários alunos estudarem a língua de Camões.

Um dos mais destacados empresários e beneméritos da comunidade luso-americana, o exemplo de vida de José Soares, cujo apego às suas raízes açorianas contribuiu para ser em 1997 um dos fundadores da Azorean Maritime Heritage Society (AMHS) em New Bedford, inspira-nos a máxima do prolífico escritor francês Honoré de Balzac: “ Seja no que for, só se recebe na medida do que se dá”.

AS VIVÊNCIAS DA EMIGRAÇÃO PORTUGUESA NOS PALCOS DO TEATRO

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

Realidade incontornável na sociedade portuguesa, o fenómeno da emigração tem merecido cada vez mais a atenção de diversos campos de produção artística, como é o caso do Teatro, umas das principais manifestações artísticas, e um fenómeno cultural de enorme alcance na formação e desenvolvimento da cidadania.

Em Portugal, ao longo da última década, é notório o interesse que várias companhias teatrais têm dedicado a este elemento estruturante da identidade coletiva nacional, como comprovam as inúmeras peças que têm sido levadas à cena inspiradas nas vivências da emigração.

Os exemplos são variados e perpassam o território nacional, na esteira da transversalidade do fenómeno migratório na sociedade portuguesa. No ocaso de 2011, por exemplo, o Teatro Municipal da Guarda (TMG), encetou um espetáculo sobre a odisseia da emigração lusa dos anos 60 para França, justificando então o seu diretor artístico a aposta no mesmo, pela atualidade da temática e a ligação muito forte da mesma com a região.

Em 2014, ano em que a emigração portuguesa se manteve num patamar elevado, o Teatro Experimental do Porto, levou a cena no Auditório Municipal de Gaia a peça “Nós somos os Rolling Stones”, que se assumiu como um manifesto geracional sobre a emigração de jovens lusos. Este novo paradigma da emigração portuguesa foi retratado no ciclo Migrações, que decorreu em 2018 no Teatro Maria Matos, em Lisboa, onde foi abordada a experiência de emigrantes portugueses em Great Yarmouth, uma pequena vila na costa leste de Inglaterra, através do espetáculo “Provisional figures Great Yarmouth”, que tinha sido já apresentado no Reino Unido e no Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, no Porto.

Presentemente, ainda no decurso do mês de fevereiro, duas companhias teatrais trouxeram à cena espetáculos dedicados ao fenómeno da emigração portuguesa. Nomeadamente, a academia de teatro bracarense Tin.Bra, que estreou na capital do Minho o espetáculo “Odisseia da Emigração: IR”, a primeira peça de uma trilogia sobre a emigração portuguesa dos anos 60. Inspirada nas experiências e vivências da emigração portuguesa, a partir da década de 1960, a peça usa o teatro e a música como instrumento artístico para retratar a realidade deste fenómeno cultural de enorme impacto na região minhota.

Na mesma esteira, o Teatro Manga, uma companhia fixada em Lisboa e dedicada às artes performativas que trabalha no cruzamento entre teatro, dança e performance, estreou no Espaço Escola de Mulheres (Clube Estefânia), estreou a peça “Emigrantes”. Inspirada em “The Arrival”, obra gráfica de Shaun Tan, o espetáculo Emigrantes conta a história da experiência global que é a migração e leva-nos a pensar sobre os processos de adaptação e integração das comunidades migrantes.

A importância crescente que várias companhias teatrais têm dado à temática da emigração lusa, aviva simultaneamente o impacto do fenómeno no território nacional, e a frase imbuída de atualidade de Almeida Garrett, refundador do teatro português: “O Teatro é um grande meio de civilização”.

AS MEMÓRIAS DA EMIGRAÇÃO AÇORIANA NO ESPÓLIO FOTOGRÁFICO DE LAUDALINO DA PONTE PACHECO

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

Recentemente, a Araucária, uma editora independente com sede na ilha de São Miguel, nos Açores, fundada pela ativista cultural espanhola Blanca Martín-Calero, lançou o livro Laudalino da Ponte Pacheco (1963-1975).

Concebido a partir de uma centena e meia de imagens de Laudalino da Ponte Pacheco (1921-1998), cujo numeroso espólio constitui um repositório etnográfico das freguesias da costa norte da ilha de São Miguel, especialmente da Maia, onde o fotógrafo nasceu e viveu, a dimensão do valioso trabalho do retratista micaelense perpassa ainda o fenómeno da emigração. Um dos aspetos como salienta a historiadora Susana Serpa Silva, “estruturais da história do povo das ilhas atlânticas e da sociedade portuguesa em geral”.

Nomeadamente, a emigração açoriana para o Canadá a partir de 1953, ano em que o irmão mais novo de Laudalino partiu para Montreal. Maior cidade da província do Quebequebe, de onde no ano seguinte enviou por correio, a câmara fotográfica que permitiu ao irmão realizar retratos para passaportes e bilhetes de identidade, assim como retratar as tradições e a vida rural da costa norte da ilha de São Miguel, e as inúmeras partidas e chegadas de emigrantes.

Homem dos sete ofícios, além de fotógrafo, foi também carpinteiro, distribuidor de jornais e de tabaco, vendedor de rádios e reparador de eletrodomésticos, Laudalino da Ponte Pacheco viajou duas vezes até ao Canadá. No decurso das viagens à nação da América do Norte, onde adquiriu uma máquina de filmar Super 8 e um projector, como destaca o livro homónimo, filmou “as casas dos familiares e dos amigos emigrantes, os edifícios, as ruas, os carros, as praças, os monumentos, as paisagens”, sendo que no retorno à terra natal, “passou os filmes em sua casa para os amigos visionarem, com grande sucesso”.

Na esteira das páginas do livro, as fotografias de Laudalino da Ponte Pacheco, sobre as vivências açorianas das décadas de 1960-70, constituem “documentos riquíssimos para a compreensão do território antropológico, sociológico e histórico da ilha de São Miguel, transformando a macronarrativa vigente em micronarrativas úteis para a compreensão e reflexão sobre um povo, as suas singularidades as vicissitudes e os desafios a que foi sujeito; compõem matéria para entender o presente e melhor programar o futuro.”

A EMIGRAÇÃO PORTUGUESA RETRATADA NA BANDA DESENHADA

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

A banda desenhada, um género literário em franco crescimento que assenta numa sequência de imagens (desenhadas e/ou pintadas) que narram uma história, podendo incluir ou não texto (legendas, diálogos ou pensamentos), começa a direcionar através dos seus autores e protagonistas a sua atenção para a temática da emigração portuguesa.

O exemplo mais recente ocorreu no início deste mês com a chegada aos escaparates das livrarias francesas do livro Les Portugais, assinado pelo artista plástico lusodescendente Olivier Afonso, e que conta em banda desenhada a odisseia dos portugueses nos anos 70 em França. Mormente a história da emigração clandestina composta por passadores, a antiga realidade dos bidonvilles e a incessante procura de melhores condições de vida, eixos assertivamente explorados na obra por este filho de emigrantes lusos vindos de Monção e Felgueiras, e que nasceu e cresceu nos arredores de Paris no decurso da década de 1970.

Na mesma esteira, cinco anos antes tinha sido lançado no território gaulês, pelo autor francês Robin Walter, a banda desenhada Maria e Salazar, que retrata a história da emigração portuguesa para França. O livro biográfico e autobiográfico, editado no ano seguinte em português, foi desenvolvido a partir do contacto com Maria, uma emigrante lusa que chegou a Paris em 1972, e que trabalhou como empregada doméstica na casa dos pais de Robin Walter durante 30 anos.

Esta história franco-portuguesa tinha sido já no começo da década de 2010 abordada pelo desenhador francês lusodescendente, Cyril Pedrosa, no livro de banda desenhada Portugal. Misturando a ficção com alguns elementos autobiográficos, o autor nascido em 1972, em Poitiers, oriundo de uma família da Figueira da Foz que emigrou nos anos 30 para França, retrata em Portugal a história de um lusodescendente francês sem contacto com o país dos seus antepassados e que resolve tentar saber mais sobre as suas origens.

Nessa época, e no âmbito da sua participação no Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, um dos cinco maiores eventos de quadrinhos da Europa, Cyril Pedrosa precisou que aborda no livro “um Portugal imaginário, quer dizer, aquele que eu conheço e que não é o verdadeiro Portugal. É um Portugal emocional, o das sensações e da afeição que tenho por esse país, por esse povo, por essa língua. Sei perfeitamente que não conheço a realidade do país, para isso teria que viver nele. Mas conheço a beleza da sua língua, a generosidade dos portugueses”.

Como salienta António Jorge Pereira da Silva de Almeida Serra, na dissertação A utilização da Banda Desenhada no ensino da História e Geografia de Portugal, ao “longo das últimas décadas a BD tem vindo a amadurecer, abrangendo uma grande diversidade de públicos, desde crianças a adultos”, contribuindo deste modo, no caso concreto da emigração lusa, para um melhor conhecimento da história desse fluxo profundamente presente na memória e identidade da sociedade portuguesa.