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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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MEMÓRIAS DA EMIGRAÇÃO E DAS COMUNIDADES

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  • Crónica de Daniel Bastos

No âmbito das comemorações do 25.º aniversário da Direcção-Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas (DGACCP), estrutura central do Ministério dos Negócios Estrangeiros aprovada pelo Decreto-Lei  n.º 48/94, de 24 de Fevereiro, que coordena e executa as ações relativas à política de apoio às Comunidades Portuguesas, o governo português lançou no início do ano a iniciativa “Memórias da Emigração e das Comunidades Portuguesas”.

A ação, dinamizada pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - NOVA FCSH, tem como principal objetivo identificar, mapear, registar e patrimonializar os testemunhos de vida, as memórias e objetos de todos aqueles que participaram e participam da diáspora portuguesa, constituindo um espaço de encontro e de reflexão acerca do importante papel das comunidades portuguesas no mundo.

A iniciativa de enorme alcance e relevância, dado que simultaneamente procura dignificar e reconhecer a herança e as potencialidades das comunidades portuguesas, é aberta à participação de todos que se revejam nestes compromissos, e que queiram contribuir com as suas histórias e recordações para uma melhor compreensão da memória e a identidade de Portugal no Mundo.

Uma das iniciativas mais notórias ligadas a este projeto colaborativo decorreu na semana passada, entre os dias 13 e 15, no decurso do 1º Encontro “Memória para todos: História, Património e Comunidades”, no Teatro Aberto, em Lisboa.

Organizado pelo Centro República e o Instituto de História Contemporânea da NOVA FCSH em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa, o 1.º Encontro “Memória para todos: História, Património e Comunidades”, reuniu diferentes agentes, projetos e atividades empenhados na identificação, organização, curadoria, investigação e divulgação da memória e arquivos de e para comunidades.

Entre as várias participações, destacou-se a do Professor Emérito de Sociologia da Universidade de Essex, Paul Thompson, um dos pioneiros da História Oral, que na obra “A Voz do Passado”, sustenta, inclusive ao nível das comunidades migrantes, que “a história oral devolve a história às pessoas, nas suas próprias palavras. E ao dar-lhes um passado, ajuda-as também a caminhar para um futuro construído por elas mesmas”.

MAR DE SONHOS – A EMIGRAÇÃO NOS VAPORES TRANSATLÂNTICOS

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  • Crónica de Daniel Bastos

O Centro Português de Fotografia (CPF), instituição pública que assegura a conservação, valorização e proteção legal do património fotográfico nacional, no âmbito das suas dinâmicas dispõe de uma exposição itinerante que retrata a época em que a ligação entre o continente europeu e americano era feito por navio.

A exposição intitulada “Mar de Sonhos – a emigração nos vapores transatlânticos”, assenta em 22 fotografias, datadas do início do século XX, de autoria de Aurélio da Paz dos Reis (1862-1931), um importante e apaixonado fotógrafo amador, que se tornou também o grande pioneiro do cinema português.

As imagens a preto e branco de Aurélio da Paz dos Reis têm o condão de retratar o ciclo transoceânico da emigração portuguesa na transição para o século XX. Um período histórico nacional, em que a permanência de uma prática agrícola tradicional, uma incipiente industrialização e uma profunda assimetria entre o mundo rural e urbano, o interior e o litoral, levaram a que entre 1855 e 1914, mais de um milhão de portugueses, pressionados pela carestia de vida e baixos salários agrícolas, encetassem uma trajetória transoceânica em direção ao Brasil, aos EUA, à Argentina e à Venezuela.

Procedente do mundo rural e eminentemente masculino, este fluxo migratório, particularmente atraído pelo crescimento económico brasileiro, foi incisivo no Entre Douro e Minho, e sobretudo possível à revolução que se deu na navegação através da transição dos veleiros para os barcos a vapor.

O crescimento da emigração de portugueses para o Brasil esteve na origem, em 1852, da fundação da “Companhia de Navegação a Vapor Luso-Brasileira”, que teve ao seu serviço dois vapores, o “Donna Maria Segunda” e o “Dom Pedro Segundo”, ambos com capacidade para mais de 400 passageiros. Às vantagens da maior capacidade de transporte de passageiros, os barcos a vapor da “Companhia de Navegação a Vapor Luso-Brasileira”, e mais tarde da “Mala Real Inglesa”, que passou a garantir as ligações entre Portugal e o Brasil, aliavam ainda maior comodidade, segurança e rapidez, encurtando o tempo desta viagem transoceânica para menos de um mês.

Os barcos a vapor mantiveram-se até ao alvejar da segunda metade do séc. XX, época em que chegaram a Portugal os navios equipados com propulsão a diesel e se iniciou o ciclo da emigração intra-europeia, o grande meio de transporte dos emigrantes lusos. 

O FENÓMENO DA EMIGRAÇÃO NA MÚSICA PORTUGUESA

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  • Crónica de Daniel Bastos

A emigração, parte integrante da história e cultura nacional, tem sido ao longo dos anos uma profícua fonte de inspiração para inúmeros cantores, letristas, compositores e artistas, que nos mais diversos estilos musicais têm evocado as agruras da partida e da saudade de quem demanda no estrangeiro melhores condições de vida.

Os mais antigos recordar-se-ão seguramente da voz suave e triste de Adriano Correia de Oliveira que interpretou o “Cantar de Emigração”, com letra de Rosalia de Castro e música de José Niza. Uma das mais emblemáticas trovas do cantor de intervenção, o “Cantar de Emigração” constitui um retrato fidedigno da emigração portuguesa “a salto” para França nos anos 60, um período marcado pela saída maciça de jovens, sobretudo do Norte de Portugal, impelidos pela miséria rural, a ausência de liberdade e a fuga ao cumprimento do serviço militar, antecâmara da incorporação na Guerra Colonial.

Esta experiência marcante de fuga à pobreza de centenas de milhares de portugueses, que na sua maioria encontraram nos setores da construção civil e de obras públicas da região de Paris, cidade que muitos conheceram como expressa António Barreto “antes de ir a Lisboa ou de ver o mar”, seria celebrizada nos anos 80 com o tema “Um Português (Mala de Cartão) ” de Linda de Suza, uma das mais afamadas cantoras lusas, emigrante em França. Ainda em terras gaulesas, os anos 90 assistiram ao sucesso entre a comunidade portuguesa de Graciano Saga, um cantor popular que ficou conhecido com músicas sobre a Diáspora, de que se destaca o tema "Vem devagar emigrante" e "Amiga Emigrante".

A influência do fenómeno da emigração na expressão musical portuguesa não se cinge ao passado mais recente ou às canções de intervenção e música popular. A multiplicidade de projetos musicais onde está retratada na atualidade a temática da emigração vai desde o Fado e a Pop, singularmente representada em 2013 no dueto de Pedro Abrunhosa com o fadista Camané, que no tema “Para os braços da minha mãe” abordam a nova vaga de emigração; até ao Rap, discurso rítmico com rimas e poesias que o rapper brigantino Jorge Rodrigues e a cantora Vanessa Martins usaram em 2016 na música “Filha de emigrantes”, uma composição que retrata a vida hodierna dos emigrantes e a saudade que sentem da família e do país de origem.

A HOMENAGEM DA COMUNIDADE PORTUGUESA EM FRANÇA A GÉRALD BLONCOURT

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A homenagem contou com o enquadramento histórico do investigador Daniel Bastos (dir.), que organizou dois livros com as fotografias de Bloncourt, assim como dos testemunhos da socióloga das migrações Maria-Beatriz Rocha Trindade (centro), e do dirigente associativo Parcídio Peixoto (esq.)

 

No passado dia 26 de outubro, a Comunidade Portuguesa em França, no âmbito do primeiro aniversário do falecimento de Gérald Bloncourt, promoveu uma cerimónia pública de homenagem ao consagrado fotógrafo que imortalizou a história da emigração portuguesa para terras gaulesas nos anos 60.

A sessão, que decorreu no Museu Nacional da História da Imigração em Paris, um espaço carregado de enorme simbolismo onde é evidenciado o papel estruturante dos imigrantes no desenvolvimento económico, social e cultural da França, como é o caso dos portugueses, uma das principais comunidades estrangeiras estabelecidas no território gaulês, teve como principais mentores os dirigentes associativos Manuel Vaz, do Comité Aristides de Sousa Mendes, e Parcídio Peixoto, Presidente da Associação Memória das Migrações.

Pautada pela emoção e saudade, a homenagem a título póstumo congregou a presença de vários amigos e familiares de Gérald Bloncourt, em particular da sua esposa, Isabelle Repiton, companheira de vida e responsável do acervo que assegura a preservação da memória do fotojornalista, pintor e poeta. Assim como, de autoridades diplomáticas, representantes de associações, artistas e órgãos de comunicação social da comunidade lusa em França, e muitos admiradores do fotógrafo franco-haitiano que teve o condão de retratar as duras condições de vida dos descendentes dos grandes navegadores nos bidonvilles e o nascimento da democracia em Portugal.

No decurso da homenagem pública, abrilhantada pelo som da guitarra portuguesa interpretada por membros da Associação Gaivota, dedicada à disseminação e preservação do fado em França, e enriquecida pela projeção de fotografias e de um documentário alusivo à vida e obra de Gérald Bloncourt, foram vários os testemunhos emotivos de pessoas que conviveram com o antigo fotojornalista e colaborador de jornais de referência no campo social e sindical.

Uma vida e obra marcada pela defesa universal da solidariedade entre os povos, paradigmaticamente singularizada no olhar humanista e de compromisso que assumiu com os emigrantes lusos nos bairros de lata em Paris, e que se revelou fundamental na perpetuação da memória dos protagonistas anónimos da história portuguesa que lutaram aquém e além-fronteiras pelo direito a uma vida melhor e à liberdade.

A HERANÇA PORTUGUESA NO SRI LANKA

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  • Crónica de Daniel Bastos

A presença pioneira dos portugueses na Ásia no séc. XVI e XVII, catalisadora dos primeiros contactos entre a Europa e o Oriente, apresenta ainda nos dias de hoje marcas vivas dessa Era dos Descobrimentos.

É o caso do Sri Lanka, antigo Ceilão, ou a afamada “Taprobana de Camões”, uma nação insular situada ao largo da extremidade sul do subcontinente indiano, que preserva desde a centúria quinhentista, época em que os portugueses foram os primeiros europeus a desembarcar neste território astático, um singular legado luso.

Essa herança histórica remanesce na atualidade, desde logo, nos apelidos de mais de metade da população, estimada em cerca de 22 milhões de habitantes, como Perera, Fernandes, Sousa, Silva ou Fonseca.

Os elementos da cultura da Pátria de Camões no Sri Lanka estendem-se ainda à existência de uma comunidade de ascendência portuguesa, os “burghers”. Um grupo étnico que professa o cristianismo e fala um crioulo de raiz portuguesa, e que se encontra essencialmente concentrado nas cidades de Batticaloa e Trincomalee, na Província Oriental.

Ainda que esta comunidade não corresponda sequer a 1% da população total deste país asiático onde predomina a religião budista, hinduísta e islâmica, as raízes portuguesas encontram-se também presentes nas tradições musicais destes grupos étnicos, como a “Baila”, um estilo de música muito popular no antigo Ceilão.

A notável herança portuguesa na afamada “Taprobana de Camões” tem sido ao longo dos últimos anos metodicamente estudada pelo Professor Auxiliar da Universidade de Lisboa, Hugo Cardoso, investigador responsável do projeto "Documentation of Sri Lanka Portuguese", financiado pela "Endangedered Languages Documentation Programme" da School of Oriental and African Studies da Universidade de Londres. Um trabalho de enorme alcance cultural sobre a presença pioneira dos portugueses na Ásia, que tem como principal objetivo criar um corpus anotado da língua, música e danças portuguesas no antigo Ceilão, que inclui inclusive materiais primários recolhidos em diversos arquivos e bibliotecas.

DANIEL BASTOS APRESENTOU EM FAFE NOVO LIBRO SOBRE GÉRALD BLONCOURT E O NASCIMENTO DA DEMOCRACIA PORTUGUESA

Foi ontem apresentado no concelho minhoto de Fafe o livro Gérald Bloncourt – Dias de Liberdade em Portugal”.

A obra, concebida e realizada pelo historiador fafense Daniel Bastos a partir do espólio fotográfico de Gérald Bloncourt, um dos grandes nomes da fotografia humanista, e que é traduzida por Paulo Teixeira e prefaciada pelo coronel Vasco Lourenço, presidente da Direção da Associação 25 de Abril, foi apresentada no Auditório da Biblioteca Municipal de Fafe.

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O historiador Daniel Bastos (ao centro.), na sessão de apresentação do livro “Gérald Bloncourt – Dias de Liberdade em Portugal”, no Auditório da Biblioteca Municipal de Fafe, ladeado do advogado e comentador, Luís Marques Mendes (esq.), e do tradutor Paulo Teixeira

 

A sessão de apresentação, que encheu por completo o auditório, e que foi abrilhantada com canções de abril interpretadas pelo artista musical Carlos Miguel, esteve a cargo do advogado e comentador, Luís Marques Mendes, natural de Fafe, que caraterizou o livro como um verdadeiro serviço público que procura passar, em particular, às novas gerações a importância do 25 de Abril, a conquista da liberdade e da democracia. Um momento histórico que marcou a vida coletiva nacional, singularmente captado por Gérald Bloncourt, e que tem sido profusamente divulgado pelo historiador Daniel Bastos junto das comunidades portuguesas, embaixadoras da cultura e história do país, como também sublinhou Albino Costa, em representação do Município de Fafe.

Neste novo livro, realizado com o apoio da Associação 25 de Abril, Daniel Bastos revela uma parte pouco conhecida do espólio de Gérald Bloncourt, afamado fotógrafo que imortalizou a emigração portuguesa, mas que retratou também a explosão de liberdade que tomou conta do país após a Revolução de 25 de Abril de 1974.

Através de imagens até aqui praticamente inéditas, a obra aborda factos históricos que medeiam a Revolução dos Cravos e a celebração do Dia do Trabalhador na capital portuguesa. Designadamente, a chegada do histórico líder comunista Álvaro Cunhal ao Aeroporto de Lisboa, a emoção do reencontro de presos políticos e exilados com as suas famílias, o caráter pacífico e libertador da Revolução de Abril, e as celebrações efusivas do 1.º de Maio de 1974, a maior manifestação popular da história portuguesa.

Refira-se que esta sessão de apresentação antecede a cerimónia de homenagem pública que a comunidade portuguesa em França vai realizar no próximo dia 26 de outubro, no Museu Nacional da História da Imigração em Paris, no âmbito do primeiro aniversário do falecimento de Gérald Bloncourt.

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MALA DA PARTILHA - HISTÓRIAS DE VIDA

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  • Crónica de Danel Bastos

No final do passado mês de setembro, a Cáritas Portuguesa, uma instituição oficial da Conferência Episcopal Portuguesa para a promoção e dinamização da ação social da Igreja Católica, que tem como missão o desenvolvimento humano e a defesa do bem comum, apresentou na Câmara Municipal de Santarém, o livro “Mala da Partilha – Histórias de Vida”.

A obra, coordenada por Filipa Abecasis, Responsável Operacional da Unidade Internacional da Cáritas Portuguesa, e prefaciada pelo Cardeal Luis Antonio Tagle, arcebispo de Manila, nas Filipinas, e presidente da Caritas Internationalis, assenta num conjunto expressivo de cartas/testemunho de refugiados, emigrantes e imigrantes, que comparam e cruzam diferentes perspetivas do fenómeno migratório. Designadamente, as trajetórias de quem chega a Portugal à procura de uma vida melhor, com os percursos de quem sai do território nacional à procura de melhores condições de vida.

Segundo Filipa Abecasis, o livro, publicado no âmbito da campanha “Partilhar a Viagem” da Caritas Internationalis, que foi lançada pelo Papa Francisco, em 2017, com o tema “acolher, proteger, promover e integrar” migrantes e refugiados, enquadra uma “panóplia de testemunhos bastante diferentes que mostram a forma como as pessoas se sentem mais ou menos integrados, quais foram os desafios também na sua viagem até chegarem e depois também a história de integração”.

As diferentes histórias de vida reunidas na obra sublinham desde logo, que embora o país continue marcado pela emigração, estimativas da Nações Unidas apontam que o número de portugueses emigrados é de mais de 2,2 milhões, o processo de imigração em Portugal tem vindo a assistir nos últimos anos um crescente aumento. Dados recentes do Relatório de Imigração, Fronteiras e Asilo (RIFA) do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), registam que atualmente vivem em Portugal mais de 480 mil estrangeiros, maioritariamente oriundos do Brasil, Cabo Verde, Roménia, França e Itália.

Neste sentido, as diferentes histórias de vida partilhadas no livro, visam essencialmente a promoção de uma cultura do encontro propugnada pelo atual Papa Francisco, como contraposto à globalização da indiferença que grassa em muitas partes do mundo, e que não respeita a dignidade humana de migrantes e refugiados.

A PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA E IDENTIDADE DA EMIGRAÇÃO PORTUGUESA NA TOPONÍMIA

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  • Crónica de Daniel Bastos

O impacto da emigração tem impelido ao longo das últimas décadas vários municípios portugueses a perpetuarem, na toponímia das suas localidades, as marcas deste fenómeno estruturante que se encontra indelevelmente ligado à memória e identidade cultural das comunidades.

Como salienta Gonçalo Poeta Fernandes, no prefácio do livro “Desafios e Constrangimentos do Estudo da Toponímia. Intervenções e contributos”, a toponímia “respira o nosso quotidiano, o que nos envolve, preocupa ou dá felicidade, documenta as vivências das comunidades, suas políticas e intervenções territoriais, quem a sociedade distingue e pretende reter, na memória coletiva”.

É precisamente nesse sentido, que se encontram disseminados por todo o território nacional diversos nomes de ruas, com o claro propósito de enaltecer e preservar as vivências da emigração no seio das povoações.

É o caso, por exemplo, de Rabo de Peixe, uma vila e freguesia do concelho da Ribeira Grande, na ilha açoriana de São Miguel, uma região fortemente marcada pela emigração, onde desde o início da década de 2010 foram aprovados como nomes de novas artérias a “Rua da Diáspora” e a “Rua dos Emigrantes”.

A denominação de arruamentos com referências explícitas ao fenómeno migratório encontra-se igualmente muito presente no Arquipélago da Madeira, um território insular cuja matriz identitária, cultural, social, política e económica não pode ser dissociada da temática da emigração. A presença dos topónimos “Rua Emigrantes”, na freguesia de Caniço, em Santa Cruz, ou “Rua dos Emigrantes”, no município de Porto Moniz, são alguns dos exemplos paradigmáticos desta mundividência que se encontra também expressa nos nomes de muitas ruas de norte a sul de Portugal continental.

A perpetuação da memória e identidade da emigração portuguesa encontra-se inclusivamente nos últimos anos consagrada na toponímia de países que acolhem comunidades lusas. Desde logo em França, a mais numerosa das comunidades portuguesas na Europa, onde estreitados laços de geminação se encontram consagrados vários nomes de localidades de onde são oriundos os emigrantes lusos, como é o caso dos concelhos minhotos de Fafe e de Guimarães, que pontificam respetivamente, numa avenida na cidade de Sens e numa rotunda no burgo de Compiègne.

O PAPEL INESTIMÁVEL DA OBRA CATÓLICA PORTUGUESA DE MIGRAÇÕES NAS COMUNIDADES LUSAS

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  • Crónica de Daniel Bastos

A Obra Católica Portuguesa de Migrações (OCPM), um organismo de âmbito religioso, instituído em 1962, com personalidade jurídica, canónica e civil, sem fins lucrativos, tem desempenhado ao longo de mais de 50 anos de existência um papel inestimável no acompanhamento espiritual e cultural das Comunidades de Língua Portuguesa.

Dependente da Comissão Episcopal da Mobilidade Humana (CEMH), sendo simultaneamente secretariado da mesma Comissão, a OCPM assume como principal desígnio a causa dos migrantes no seio da Igreja Católica Portuguesa. Uma causa cada vez mais premente no contexto sociopolítico internacional, e uma das grandes bandeiras do atual pontificado do chefe da Igreja Católica, que reiteradamente tem feito a defesa dos direitos e dignidade dos migrantes.

No âmbito da sua ação e no cumprimento da sua missão, a Obra Católica Portuguesa de Migrações estende-se às equipas da Pastoral dos Ciganos, dos Marítimos, do Turismo e Peregrinações, das Capelanias de Imigrantes e de outras Organizações Católicas, como é o caso das Missões Portuguesas para Emigrantes.

Criada num período de forte emigração portuguesa, e reconhecendo a emigração como uma constante estrutural da sociedade nacional, a OCPM ao longo de mais de meio século tem dinamizado um trabalho notável de acompanhamento espiritual e cultural das comunidades lusas espalhadas pelo mundo.

Esse trabalho, manifesto entre outros, em celebrações, visitas pastorais, ações de formação ou participação em vários órgãos de informação, alavancou a fundação de Missões Católicas em importantes destinos da emigração portuguesa.

Desde logo, como assinalam Maria Beatriz Rocha-Trindade e Eugénia T. J. Costa Quaresma, autoras do livro “A Igreja face ao fenómeno migratório, 50 anos da OCPM, em destinos como a França, Canadá, Venezuela, África do Sul, Argentina, Brasil, Estados Unidos da América, Alemanha, Luxemburgo, Holanda, Reino Unido, Suíça e Austrália. Países onde vivem e trabalham milhões de compatriotas que continuam a ter nas Missões Portuguesas para Emigrantes um meio de referência no campo da assistência religiosa, cultural e de promoção da identidade nacional. 

A PROMOÇÃO DA LÍNGUA E CULTURA PORTUGUESA NA ESLOVÉNIA

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  • Crónica de Daniel Bastos

A conjugação de esforços e sinergias na promoção da língua e cultura lusa no estrangeiro tem permitido ao longo dos últimos anos ampliar a projeção do país no concerto mundial, inclusivamente em nações onde os portugueses não são das principais nacionalidades residentes.

Um desses exemplos encontra-se presentemente na Eslovénia, um estado situado na Europa Central, que faz fronteira com a Áustria, a Hungria, a Itália e a Croácia, onde na última década o altruísmo cultural e o amor pátrio de João Pita Costa têm sido fundamentais para a difusão da língua e cultura portuguesa nesta pequena nação de 2 milhões de habitantes.

Natural da Costa da Caparica e matemático de profissão, João Pita Costa que vive na capital eslovena, Liubliana, há mais de uma dezena de anos, é desse 2014 o editor da revista bilingue luso-eslovena “Sardinha”, uma revista cultural online que tem tido desde o seu aparecimento o apoio da Associação de Amizade Luso-Eslovena,

Através da cooperação com o Instituto Camões, e da articulação com estruturas diplomáticas e associativas lusas, a “Revista Sardinha” tem celebrado o dia de Portugal e das Comunidades em Liubliana, sendo que na primeira edição em 2017 juntou mais de 100 luso-falantes num convívio feito por portugueses para todos.

No ano passado, a prossecução cultural da revista luso-eslovena esteve na base da dinamização de um ciclo de cinema português, onde foi exibido o filme “Alentejo, Alentejo”, de Sérgio Tréfaut. Uma relevante iniciativa que decorreu no espaço Ziferblat, em Liubliana, e que foi antecedida de uma interveção, do professor Alcides Murtinheira, sobre o cante alentejano, género musical classificado há cinco anos como Património Cultural Imaterial da Humanidade.

Já no início deste ano, a contínua promoção da língua e cultura portuguesa na Eslovénia, contribuiu para que se tenha ouvido fado, um dos maiores símbolos da cultura nacional, em Liubliana, na sala de espetáculos Poket Teater Studio, estreitando-se ainda mais os laços luso-eslovenos que tem em João Pita Costa um dos seus mais afincados e genuínos ativistas culturais.

MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA: A CASA COMUM DA LUSOFONIA

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  • Crónica de Daniel Bastos

O Museu da Língua Portuguesa, inaugurado em 2006 na megametrópole brasileira de São Paulo, a maior cidade lusófona do mundo, assume-se desde a primeira década do séc. XXI, como a casa comum da vasta comunidade formada por todos os povos e nações que compartilham a cultura e a língua de Camões.

Desde a sua origem, o único Museu de Língua Portuguesa do mundo tem como missão e objetivos valorizar a diversidade da língua portuguesa, celebrá-la como elemento fundamental e fundador da cultura, e aproximá-la dos falantes do idioma em todo o mundo.

Um idioma que é atualmente dos mais falados à escala planetária, abrangendo a língua oficial de Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste, e que desde 2010 foi sancionado como a terceira língua oficial da Guiné Equatorial. Como destacam os organizadores da obra “A Língua Portuguesa no Mundo - Passado, Presente e Futuro”, a língua de Camões ocupa hodiernamente um dos lugares cimeiros na lista dos idiomas que ostentam uma dimensão mundial, assim como um incomensurável potencial de expansão.

As singulares características linguístico-culturais e a diversidade dos públicos-alvo do Museu de Língua Portuguesa, que praticamente numa década recebeu cerca de quatro milhões visitantes, sofreram um duro revés no ocaso do ano de 2015, quando um incêndio de grandes proporções atingiu o edifício do espaço museológico situado no complexo da Estação da Luz.

No entanto, a enorme onda de solidariedade que se gerou a nível mundial, e em particular lusófona, tem permitido desde a fatídica data encetar um processo sustentado de reconstrução, que está a procurar contribuir decisivamente para o alargamento do estudo, preservação, valorização e divulgação da cultura e língua portuguesa.

Estimando a reabertura do Museu de Língua Portuguesa no próximo ano, os responsáveis da sua reconstrução, de acordo com recentes declarações públicas, asseguram que o espaço museológico será modernizado com várias novidades tecnológicas e interativas, mantendo simultaneamente a sala de exposições temporárias, e a icónica Praça da Língua e o Auditório.

AS VIVÊNCIAS DA EMIGRAÇÃO PORTUGUESA NOS PALCOS DO TEATRO

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  • Crónica de Daniel Bastos

Realidade incontornável na sociedade portuguesa, o fenómeno da emigração tem merecido cada vez mais a atenção de diversos campos de produção artística, como é o caso do Teatro, umas das principais manifestações artísticas, e um fenómeno cultural de enorme alcance na formação e desenvolvimento da cidadania.

Em Portugal, ao longo da última década, é notório o interesse que várias companhias e estruturas teatrais têm dedicado a este elemento estruturante da identidade coletiva nacional, como comprovam as inúmeras peças que têm sido levadas à cena inspiradas nas experiências e vivências da emigração.

Os exemplos são variados e perpassam o território nacional, na esteira da transversalidade do fenómeno migratório na sociedade portuguesa. No ocaso de 2011, por exemplo, o Teatro Municipal da Guarda (TMG), encetou um espetáculo sobre a odisseia da emigração lusa dos anos 60 para França, justificando então o seu diretor artístico a aposta no mesmo, pela atualidade da temática e a ligação muito forte da mesma com a região.

Em 2014, ano em que a emigração portuguesa se manteve num patamar elevado, o Teatro Experimental do Porto, levou a cena no Auditório Municipal de Gaia a peça “Nós somos os Rolling Stones”, que se assumiu como um manifesto geracional sobre a emigração de jovens lusos. Este novo paradigma da emigração portuguesa foi retratado no ciclo Migrações, que decorreu em 2018 no Teatro Maria Matos, em Lisboa, onde foi abordada a experiência de emigrantes portugueses em Great Yarmouth, uma pequena vila na costa leste de Inglaterra, através do espetáculo “Provisional figures Great Yarmouth”, que tinha sido já apresentado no Reino Unido e no Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, no Porto.

Presentemente, ainda no fim-de-semana passado, a Casa da Cultura de Câmara de Lobos, na Madeira, acolheu a produção teatral “Nas entrelinhas da emigração”, que retratou as vivências de um emigrante na África do Sul, um dos principais destinos da emigração madeirense nas décadas de 60 e 70, que no próximo ano, em conjunto com a pérola do Atlântico, será palco das comemorações oficiais do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

ANÍBAL MORGADO, O CONSTRUTOR DA CIDADE DE GUYANA NA VENEZUELA

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  • Crónica de Daniel Bastos

Numa época em que chegam diariamente a Portugal notícias sobre a grave crise política, económica e social em que mergulhou a Venezuela, nação onde vivem cerca de meio milhão de compatriotas que não são imunes aos efeitos da turbulência que atravessa este país da América do Sul, sobressaiu recentemente nos meios públicos de comunicação nacionais, um exemplo de esperança e resiliência de um dos mais considerados representantes da comunidade luso-venezuelana.

Mormente, o do empresário Aníbal Morgado, um aveirense que emigrou para a Venezuela há mais de seis décadas, e que é um dos principais responsáveis pela construção da cidade de Guayana, a metrópole mais povoada do Estado de Bolívar e do  Município de Caroní, com uma população de mais de um milhão de habitantes.

Um dos mais importantes centros industriais, económicos e financeiros da Venezuela, a cidade encerra a particularidade de ter sido construída de raiz nos anos 60 para responder à necessidade do poder central de criar uma metrópole no sul do país, com apoio do Instituto de Tecnologia do Massachussetts (MIT).

Ao longo do último meio século, o esforço de planificação, construção e desenvolvimento de Guayana, onde se encontram as principais barragens elétricas da Venezuela e as processadoras de ferro, alumínio, aço, bauxite e outros minerais, deve muito ao empreendedorismo de Aníbal Morgado, que através do Consórcio Empresarial Morgado (CEM), erigiu 80% do que é a metrópole em estradas, edificações, obras industriais e barragens.

Abordando o seu percurso de vida, marcado pela chegada à Venezuela em 1957, com 16 anos, território onde o irmão, Manuel Morgado, já vivia há dois anos. O empresário afirmou aos meios públicos de comunicação nacionais, que embora a Venezuela fosse “um país de muita esperança e neste momento essa esperança está bastante truncada”, está confiante que "depois de passar esta tempestade, o país ressurgirá porque a Guayana sempre tem sido uma zona de muita riqueza" e que por isso não pensa “ir embora”, acreditando que em Guayana “há futuro".

O exemplo de constância e resiliência perfilhado por Aníbal Morgado pode e deve constituir um renovado sinal de esperança no futuro da numerosa comunidade portuguesa, que tem enfrentado vários dilemas e momentos de incerteza na Venezuela.

SARRABULHO JUNTOU EMIGRANTES NO SOLAR DO TABERNEIRO EM PONTE DE LIMA

No seguimento do Mini – Torneio de Futebol de 11 realizado no passado dia 10 no campo do Águias de Souto, no qual participaram representações da comunidade Luso – portuguesa da região de Paris, realizou-se ontem um outro convívio, desta vez à mesa!

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O prato escolhido, naturalmente – Sarrabulho á moda de Ponte de Lima – no restaurante Solar do Taberneiro, com o grupo acolhido pela simpatia constante dos proprietários: Álvaro Araújo e D. Cassilda Quezado e a filha Joana.

Como entradas, pontificaram uma chouriça caseira de Perre, paio do cachaço, do lombo, chouriça de carne e a mui medalhada alheira de galo, tudo da MinhoFumeiro na Correlhã, e o Folar Limiano, uma Bola de enchidos já reconhecida Europa fóra e mais além, produzida pelo Chef Victor Lima, na Baldrufa, próximo ao cruzamento da Ponte Senhora da Guia.

Para molhar esses entreténs e seguidamente o jantar, foram selecionados dois Loureiros: o da Casa da Cuca, em Moreira de Lima, e o da Aromas4U, com sede no pólo empresarial da Gemieira.

O grupo de dúzia e meia de amigos era constituído por dirigentes das principais associações de emigrantes na metrópole parisiense e na Córsega: Luis Esteves, Presidente da Associação Luso – Francesa de Saint Cyr L´ École, do Rancho Os Lusitanos e Grupo de Cordas, Versalhes; Glória Silva, Presidente Emérita da dos Amigos de Portugal - Drancy e do grupo Romarias do Minho, Paris; Margarida Ribeiro, do mais antigo grupo folclórico português em França, a Ronda Típica de Chalette– Sur – Loing Margarida Ribeiro (Órleães), cidade geminada em 1988 com Ponte de Lima; Clara Fernandes, Presidente do Rancho Folclórico dos Emigrantes Portugueses de Ajaccio (Córsega). Completaram as presenças, o Presidente da Casa do Minho em Lisboa, Paulo Duque e o Director de Jornalismo do CESE (Comité Económico e Social) em Bruxelas, António Fernandes, um “ embaixador” da cultura popular portuguesa na Bélgica, com participação ou organizador de numerosos eventos anuais como tocador de concertina, acordéon, guitarra, viola e cavaquinho.

A rematar o repasto, uma surpresa da Pastelaria Doce Encontro, da Feitosa, cruzamento para os Bombeiros Voluntários: o mestre Bruno Alves, autor do doce típico Maravilha do Lima, então ao serviço d ”O Farinheiro”, na Seara, agora empresário, deliciou os comensais com uma Torta de Limão. Trata-se de um doce que atravessa ainda a fase de testes, e poderá ser a base para um outro, representativo da tradição doceira entre nós, sublinhou.

A festa terminaria no Villa Club, a convite do jovem João Gomes, Presidente do renascido futebol do Águias de Souto, com escolhas no seu mundo de conhecimento dos Gin´s e de cervejas belgas para fechar a noite.

Tito Morais / https://www.luso.eu/

A EMIGRAÇÃO PORTUGUESA PARA A HOLANDA

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  • Crónica de Daniel Bastos

Os dados mais recentes sobre a emigração lusa revelam que a Holanda, um dos países mais desenvolvidos do mundo, situado no litoral da planície do Norte da Europa, tem-se tornado ao longo das últimas décadas, um dos principais destinos dos emigrantes portugueses.

Segundo o Observatório da Emigração, a Holanda encerra o pódio das dez nações para onde mais portugueses emigram na atualidade. Ainda que os mesmos representem apenas cerca de 1% da população estrangeira que reside no território, desde o início do séc. XXI que o número de portugueses emigrados no país conhecido pela sua liberdade e tolerância, tem aumentado gradualmente, passando de 9.509, em 2000, para 16.456, em 2015.

No ano passado, este fluxo migratório atingiu um novo recorde, com a entrada de 2.800 portugueses, que escolheram esta região dos Países Baixos para iniciar um novo projeto de vida no estrangeiro.

As razões dessa escolha, não são certamente alheias, ao facto da Holanda possuir um dos salários mínimos mais altos da Europa, atualmente 1.600 euros, duas vezes superior ao que se encontra estabelecido em Portugal. Assim como, um sistema de educação, saúde e mobilidade que a tornam uma das nações com melhor qualidade de vida, como sustenta a sua constante presença nos rankings do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das Nações Unidas

Outro dos principais motivos, que podem ajudar a explicar que este território no noroeste da Europa se tenha tornado num dos principais destinos da emigração lusa, encontram-se na sua moderna indústria tecnológica, cujas condições de trabalho, formação, progressão e remuneração exercem grande capacidade de atração sobre a mão-de-obra qualificada portuguesa.

Como no passado, com as devidas salvaguardas, quando milhares de judeus portugueses no século XVI emigraram para a Holanda, na sequência da expulsão ordenada por D. Manuel I, vicissitude histórica que contribuiu para que a mesma se tornasse a principal potência marítima e comercial no séc. XVII, em detrimento dos reinos ibéricos, os portugueses na sua demanda hodierna por melhores condições de vida remanescem como um fator relevante no desenvolvimento socioeconómico da pátria holandesa.

ARCOS DE VALDEVEZ ACOLHEU 6º ENCONTRO COM A DIÁSPORA

6º Encontro com a Diáspora juntou 40 associações de 7 países

Convívio representa a vontade do município, do movimento associativo e dos emigrantes em participar no desenvolvimento dos Arcos de Valdevez.

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Mais de 80 conterrâneos, representantes de 40 associações sedeadas em 7 países, marcaram presença na 6ª edição do Encontro com a Diáspora, levado a cabo pela Câmara Municipal de Arcos de Valdevez.

A receção ao grupo teve lugar no salão nobre da Câmara Municipal dos Arcos de Valdevez, depois seguiram rumo ao Centro Interpretativo do Barroco, terminando em Soajo com uma visita pela vila e à eira dos espigueiros.

Este encontro, que ano após ano tem mostrado a sua força, tem como principal objetivo reforçar os laços entre a vasta comunidade de emigrantes e a sua terra natal, em termos culturais, sociais, turísticos e empresariais. Por outro lado, permite também dar mais notoriedade ao concelho e atrair mais investimento empresarial e turístico.

Para a Autarquia este encontro é muito importante porque permite “Uma maior proximidade com a Diáspora, essencial no reforço da nossa identidade, na promoção da nossa cultura e é um meio de divulgação do nosso concelho e das nossas potencialidades, atraindo mais pessoas, nomeadamente conterrâneos, investidores e visitantes para Arcos de Valdevez”.

“Queremos que Arcos de Valdevez seja cada vez mais um bom concelho para viver, trabalhar, visitar e regressar”, diz também o autarca, afirmando que o concelho tem várias oportunidades para a comunidade emigrante.

O autarca arcuense para reforçar o envolvimento com a comunidade emigrante criou um pelouro específico dedicado às relações com a Diáspora, para promover um diálogo mais intenso entre a Autarquia e a nossa vasta comunidade de emigrantes espalhada pelo mundo.

Outra das medidas foi a criação do Gabinete de Apoio ao Emigrante (GAE) para esclarecer e encaminhar os emigrantes na resolução dos problemas de uma forma mais rápida e eficaz (www.cmav.pt/p/gae).

A Câmara Municipal tem visitado as comunidades no estrangeiro, participado em iniciativas de promoção cultural, recreativa e económicas organizadas pelos nossos conterrâneos e tem celebrado protocolos de cooperação com autarquias estrangeiras.

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O ENTRECRUZAMENTO DA GUERRA COLONIAL COM A EMIGRAÇÃO PORTUGUESA

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  • Crónica de Daniel Bastos

A Guerra Colonial (1961-1974), época de confrontos bélicos entre as Forças Armadas Portuguesas e os Movimentos de Libertação das antigas províncias ultramarinas de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, representa um dos acontecimentos mais marcantes da história nacional e africana de expressão portuguesa do séc. XX.

Conflito bélico dramático, trágico e traumatizante para mais de um milhão de portugueses, que prestaram serviço militar nas três frentes de combate, onde tombaram cerca de 8.300 soldados, assim como para as populações angolanas, guineenses e moçambicanas, cujo número total de vítimas, entre guerrilheiros e civis, terá sido superior a 100 mil mortos, a Guerra do Ultramar ou Guerra da Libertação desencadeou profundas alterações demográficas, económicas, sociais, culturais e politicas.

Em Portugal, o desgaste provocado pela Guerra Colonial, que esteve na base do derrube do regime ditatorial salazarista que imperou entre 1933 e 1974, entrecruzou-se com o fenómeno da emigração. Nas décadas de 1960-70, a miséria, a pobreza e a fuga ao serviço militar de milhares de jovens como forma de escapar à incorporação na Guerra do Ultramar, impeliram a saída legal ou clandestina, de mais de um milhão de portugueses em direção ao centro da Europa, em particular para França.  

O fim da Guerra Colonial e a descolonização recrudesceriam o fenómeno migratório, não só por via da chegada ao território nacional de mais de meio milhão de portugueses de África, conhecidos como “retornados”. Mas também, pelo facto da independência das antigas colónias portuguesas de Angola e Moçambique, terem tornado no final dos anos 70, a África do Sul como o principal destino dos portugueses em África.

No entanto, no campo historiográfico do entrecruzamento da Guerra Colonial com a emigração portuguesa, existe ainda uma dimensão de conhecimento pouco ou nada estudada, designadamente a emigração nos anos 70 e 80 de milhares de antigos combatentes da Guerra do Ultramar. O impacto da emigração, ainda pouco conhecido, de milhares de homens que estiveram na Guerra Colonial, pode ser aferido pelo papel de assistência e preservação de memória dinamizado pela Liga dos Combatentes do Núcleo de Ontário, a segunda maior província do Canadá onde vivem cerca de meio milhão de portugueses, entre eles, mais de 20 mil antigos combatentes da Guerra do Ultramar, segundo dados veiculados pelo Núcleo de Ontário.

O AUMENTO DA EMIGRAÇÃO DE ENFERMEIROS PORTUGUESES

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  • Crónica de Daniel Bastos

No decorrer das últimas décadas tem sido impactante a tendência da emigração de jovens qualificados portugueses que perante a precariedade laboral, baixos salários e obstáculos à progressão de carreira, têm optado pela construção no estrangeiro dos seus projetos de vida.

Neste campo, tem-se destacado o fenómeno da emigração de profissionais de saúde, em particular os enfermeiros, tanto que desde 2010, números oficiais apontam para que mais de 14 mil destes profissionais de nível superior com competências técnicas, científicas e humanas tenham optado por sair de Portugal.

A grave crise económica e financeira que o país viveu a partir de 2011, e que obrigou à intervenção da troika em Portugal, atingiu duramente este grupo socioprofissional, assistindo-se nesse período à saída de 1.175 profissionais, valor que só seria ultrapassado em 2015, com a saída de 2.715 enfermeiros para o estrangeiro.

A trajetória de recuperação da economia portuguesa, e o incremento da contratação de profissionais de saúde no Serviço Nacional de Saúde (SNS), ainda que aquém das necessidades do SNS, parecia estar nos últimos anos a contribuir para o decréscimo da emigração de enfermeiros portugueses.

No entanto, dados apresentados no início deste mês pela Ordem dos Enfermeiros, instituição que emite as declarações de habilitação que estes profissionais precisam para exercer lá fora, há cada vez mais enfermeiros portugueses a procurar melhores condições de trabalho e de progressão na carreira em países como os Estados Unidos, Arábia Saudita, Inglaterra, Irlanda, França, Bélgica, Suíça ou Alemanha. Segundo a mesma, em 2018 a instituição recebeu um total de 2.736 pedidos de profissionais para exercer no estrangeiro, e o ano de 2019 pode mesmo ver este número ser superado, dado que nos primeiros seis meses do ano, a Ordem já recebeu 2.321 pedidos para obter a declaração de habilitação que permite trabalhar noutro país.

Numa época em que Portugal assiste a iniciativas que procuram apoiar o regresso de emigrantes ou lusodescendentes ao país, estas só terão verdadeiro impacto no nosso futuro coletivo, quando os responsáveis políticos e os agentes económicos concertarem uma agenda e estratégia que desde logo, não permita a constante emigração de jovens qualificados, como é o caso dos profissionais de enfermagem.