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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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VIANA DO CASTELO LANÇA LIVROS SOBRE AS MEMÓRIAS DA GUERRA COLONIAL

A freguesia de S. Romão do Neiva recebeu uma cerimónia em honra dos Ex-Combatentes do Ultramar, que contou com a presença do presidente da Câmara Municipal, Luís Nobre, e onde foi apresentado um livro do jovem Rodrigo André Vitorino Vaz sobre as memórias da Guerra Colonial.

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A edição “Só o não saber se Regressava”, com prefácio do Coronel Luís Gonzaga Coutinho de Almeida, é da autoria de um jovem de 22 anos, que escreveu e apresentou outro livro em Castelo do Neiva recentemente, denominado “Como fazer história a partir de quem a viveu?” com prefácio de Fernando Tavares Pimenta.

Para Luís Nobre, a iniciativa demonstra que a história recente pode ser o mote para a investigação, valorizando o papel de um jovem que se mostrou interessa do e recolher testemunhos sobre um episódio que ainda está na memória de muitos portugueses. Por isso, lançou o desafio ao autor para que escreva sobre os ex-combatentes do concelho.

A Guerra Colonial foi o período de confrontos entre as Forças Armadas Portuguesas e as forças organizadas pelos movimentos de libertação das antigas colónias — Angola, Guiné-Bissau e Moçambique — entre 1961 e 1974, altura em que ocorreu a Revolução dos Cravos.

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MUNICÍPIO DE TERRAS DE BOURO RECOLHE DADOS DOS EX-COMBATENTES NO ULTRAMAR

Recolha de Dados dos Ex -Combatentes no Ultramar

A Câmara Municipal de Terras de Bouro, no intuito de publicar uma monografia que legitime e reconheça o imprescindível contributo dos antigos combatentes de Terras de Bouro no Ultramar, entre 1961 e 1975, procedeu junto das juntas de freguesia à recolha de informação relevante para conceção e publicação da referida Homenagem.

Se, por qualquer motivo, não foi contactado ou não teve ainda a oportunidade de fornecer a sua informação como Ex-Combatente (data de incorporação, data de regresso, ramo das forças armadas, país onde esteve destacado e uma fotografia), contacte a câmara municipal para esse efeito através do telefone 253 350 010 (Divisão da Cultura).

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PONTE DA BARCA: FALECEU JOSÉ MARIA DE LACERDA E MEGRE

Faleceu no dia 14Ago2021 o veterano José Maria Neves de Lacerda e Megre, Tenente Mil.º de Infantaria na situação de disponibilidade. Serviu Portugal na Província Ultramarina de Moçambique, como comandante de pelotão da CArt563 «BRAVOS E SEMPRE LEAIS», no período de 12Dez1963 a 14Fev1966.

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A sua Alma descansa em Paz.

Elementos cedidos por um colaborador do portal UTW

Nasceu no dia 14 de Novembro de 1939 em Ponte da Barca

Em 16 de Junho de 1963 Soldado-Cadete nº 1595/63 da Escola Prática de Infantaria (EPI – Mafra) «AD UNUM», promovido a Aspirante-a-Oficial Miliciano Atirador de Infantaria e colocado no Regimento de Artilharia Pesada 2 (RAP2 – Gaia) «BRAVOS E SEMPRE LEAIS»;

Em 1 de Novembro de 1963 promovido a Alferes Miliciano;

Em 23 de Novembro de 1963, tendo sido mobilizado para servir Portugal na Província Ultramarina de Moçambique, embarca em Lisboa no NTT 'Niassa' rumo ao porto de Lourenço Marques, como comandante de pelotão da Companhia de Artilharia 563 (CArt563) «BRAVOS E SEMPRE LEAIS»;

Em 14 de Fevereiro de 1966 inicia regresso a bordo do NTT 'Vera Cruz';

Em 1 de Março de 1966 desembarca em Lisboa, seguindo para o Regimento de Artilharia Pesada 2 (RAP2 – Gaia) «BRAVOS E SEMPRE LEAIS»;

Em Abril de 1966 promovido a Tenente Miliciano e nomeado oficial de tiro para o Regimento de Artilharia Pesada 2 (RAP2 – Gaia) «BRAVOS E SEMPRE LEAIS» e para a Carreira de Tiro de Espinho, onde prepara três sucessivos batalhões destinados a servir na Província Ultramarina da Guiné;

Em 1969 considerado na situação de disponibilidade.

Faleceu durante a manhã de 14Ago2021, no Hospital de Santo António no Porto.

Fonte: https://www.facebook.com/utw.veteranosguerraultramar

CÂMARA DE BRAGA E TUB ASSUMEM TRANSPORTE DE EX-COMBATENTES

A Camara Municipal de Braga e os Transportes Urbanos de Braga vão, por sua iniciativa, assumir o transporte dos ex-combatentes residentes no Município de Braga, de forma temporária, e até que o processo de regulamentação que está pendente por parte do governo se encontre concluído.

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Assim, atendendo a que o governo admite que se trata de um processo de relativa complexidade e que ainda não tem qualquer data prevista para avançar os Transportes Urbanos de Braga e a Camara Municipal de Braga decidiram antecipar o benefício a todos os ex-combatentes.

Deste modo, evitam-se os constrangimentos que se têm vindo a verificar um pouco por todo o país, na medida em que a grande maioria dos ex-combatentes não está devidamente informada da falta da regulamentação da Lei 46/2020.

Assim, para usufruírem deste benefício os ex-combatentes devem apresentar em qualquer posto de venda dos TUB o respectivo cartão de ex-combatente, um comprovativo de morada no concelho de Braga, uma foto tipo passe ou cartão de cidadão, de modo a ser emitido um passe para utilização da rede dos Transportes Urbanos de Braga sem qualquer custo e sem qualquer limite de viagens mensal.

A antecipação desta medida, que promove a qualidade de vida, por parte da Camara Municipal de Braga e dos Transportes Urbanos de Braga representa mais um passo concreto na promoção da mobilidade inclusiva e sustentável no Concelho de Braga.

GUIMARÃES HOMENAGEIA ANTIGOS COMBATENTES

Caldas das Taipas inaugurou memorial em homenagem aos antigos combatentes. A Cerimónia decorreu este sábado e contou com a presença da Secretária de Estado do Antigo Combatente, Catarina Sarmento e Castro, do Presidente da Câmara de Guimarães, Domingos Bragança, do Presidente da Liga dos Combatentes, Chito Rodrigues e do Presidente da Junta de Caldelas, Luís Soares.

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A proposta de construção do memorial aos combatentes foi uma iniciativa de um grupo de antigos combatentes de Caldas das Taipas (Luís Miguel Rodrigues, José Oliveira, Cirilo Silva), concretizada pela Junta de Freguesia de Caldelas - Caldas das Taipas.

Fonte: Município de Guimarães

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MONUMENTOS AOS COMBATENTES DA GUERRA DO ULTRAMAR NAS COMUNIDADES PORTUGUESAS

  • Crónica de Daniel Bastos

No decurso do mês de fevereiro assinalam-se os 60 anos do início da Guerra do Ultramar (1961-1974), um período de confrontos bélicos entre as Forças Armadas Portuguesas e os Movimentos de Libertação das antigas províncias ultramarinas de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, que constitui um dos acontecimentos mais marcantes da história nacional e africana de expressão portuguesa do séc. XX.

Um conflito bélico dramático, trágico e traumatizante para mais de um milhão de portugueses, que prestaram serviço militar nas três frentes de combate, onde tombaram cerca de 8.300 soldados, assim como para as populações angolanas, guineenses e moçambicanas, cujo número total de vítimas, entre guerrilheiros e civis, terá sido superior a 100 mil mortos.

A densidade vivencial e o impacto da também conhecida como Guerra Colonial na sociedade portuguesa têm sustentado ao longo das últimas décadas a inauguração no território nacional de inúmeros monumentos de homenagem aos militares mortos, e que rondam já cerca de três centenas.

No cômputo da lista de monumentos alusivos aos Combatentes da Guerra do Ultramar, que se encontram assinalados pela Liga dos Combatentes (LC) no livro “Monumentos Aos Combatentes da Grande Guerra e do Ultramar”, grande parte deles construídos no séc. XXI, e que segundo o tenente-general Chito Rodrigues, Presidente da LC, são “a expressão de um sentimento profundo nacional acerca do que foi a guerra colonial e dos sacrifícios que o povo português fez nesse conflito", destaca-se ainda a existência de quatro monumentos construídos no seio das comunidades portugueses no Canadá e nos Estados Unidos.

No Canadá, onde se estima que na atualidade vivam mais de meio milhão de luso-canadianos, o primeiro monumento a ser erigido em memória dos combatentes que tombaram na guerra do Ultramar foi inaugurado em 2009, na cidade de Winnipeg, capital da província de Manitoba.

Projetado pelo arquiteto português Varandas dos Santos, o memorial impulsionando pela Associação Portuguesa de Veteranos de Guerra de Manitoba e Núcleo da Liga dos Combatentes de Portugal em Winnipeg, e concretizado com o apoio da Província de Manitoba, da Liga dos Combatentes, da Comunidade Luso-Canadiana, da Associação Portuguesa de Manitoba e da Chapel Lawn Memorial Gardens, invoca os militares do passado, presente e futuro.

Em 2012, a cidade de Oakville, junto a Toronto, capital da província de Ontário onde se estima que vivam mais de 20 mil antigos combatentes da Guerra do Ultramar, assistiu à inauguração, no cemitério Glen Oak Memorial Garden, de uma estátua em homenagem aos militares portugueses e canadianos mortos em situações de guerra.

O monumento, concebido em conjunto pelo arquiteto Varandas dos Santos e pelo comendador José Mário Coelho, e impelido pela Associação dos Ex-combatentes do Ultramar Português no Ontário, foi instalado no talhão denominado “Nossa Senhora de Fátima”. O monumento, que contou com apoios financeiros da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas e da Liga de Combatentes de Portugal, sobressai pela existência de vários elementos, dos quais se destacam uma Cruz de Cristo e um capacete de um soldado, tendo ainda a inscrição: “Sacrificados em vida, respeitados na morte”.

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O historiador Daniel Bastos (dir), com um percurso alicerçado no seio das Comunidades Portuguesas, visitou em 2019 o monumento de homenagem aos antigos combatentes da Guerra do Ultramar na cidade de Oakville, junto a Toronto, na companhia do ex-combatente e Presidente da Assembleia Geral da Associação Cultural 25 de Abril em Toronto, Artur Jesus (esq.)

 

Também no território canadiano, designadamente em Laval, cidade da província do Quebeque, região onde o número total de portugueses e lusodescendentes deverá ser superior a 60.000 pessoas, foi inaugurado, no dia 1 de Novembro de 2014, o Monumento aos Combatentes Portugueses. Erigido num espaço fornecido pela Associação Portuguesa de Laval, e impulsionado pelo Núcleo do Quebeque da Liga dos Combatentes, antiga Associação Ex-Combatentes do Ultramar (Angola, Guiné e Moçambique) do Quebeque, o monumento invoca singelamente a memória dos militares caídos no cumprimento do dever.

Ainda na América do Norte, mas já nos Estados Unidos, mais concretamente em Lowell, cidade do condado de Middlesex em Massachusetts, estado que alberga uma grande comunidade luso-americana de origem açoriana, foi inaugurado em 2000 um monumento em memória dos falecidos e ex-combatentes do ultramar português e dos participantes da Revolução de 25 de Abril de 1974. Impulsionado pela numerosa comunidade luso-americana, com especial destaque para Dimas Espínola, uma referência no mundo comunitário luso de Lowell, o monumento teve o apoio resoluto, entre outros, do Portuguese American Center, do Portuguese American Civic League e da Associação de Veteranos de Lowell.

Disseminados pelo território nacional e pelas comunidades portuguesas no mundo, mormente na América do Norte, os Monumentos aos Combatentes da Guerra do Ultramar, observam um dever de memória, pois como relembra o ensaísta francês Joseph Joubert “A memória é o espelho onde observamos os ausentes”.

VILA NOVA DE FAMALICÃO: VERMOIM HOMENAGEIA ANTIGOS COMBATENTES

Em dia de aniversário Vermoim reconheceu os seus heróis

Foi com uma homenagem aos seus antigos combatentes que Vermoim assinalou no passado domingo, dia 28 de junho, o Dia da Freguesia, numa cerimónia que contou com a presença do Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, Paulo Cunha.

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A freguesia aproveitou a comemoração da efeméride para inaugurar o novo Largo dos Combatentes, prestando assim uma homenagem àqueles que “no seu tempo lutaram por algo que não pediram e ofereceram a cada um de nós um recomeço com a liberdade e com um sonho de esperança numa nova comunidade”, referiu a propósito o presidente da Junta de Freguesia, Manuel Carvalho, que também não esqueceu os “heróis” dos tempos atuais.

“No passado, no presente e no futuro, o importante é que a comunidade se una em torno da valorização dos valores humanos. Esta tem de ser uma hora de solidariedade e nos últimos tempos temos assistido a comportamentos exemplares de cidadania no seio da nossa comunidade”, referiu o autarca de freguesia, que elogiou ainda o “enorme pacote de apoios” lançado pela Câmara Municipal para reduzir o impacto provocado pela pandemia da Covid-19 na vida dos famalicenses.

Paulo Cunha felicitou a comunidade de Vermoim por mais um aniversário e apesar do “tempo de provações e desafios” mostrou-se otimista quando ao futuro.

“Em múltiplas circunstâncias já mostramos que sabemos vencer as dificuldades e lidar com as contingências. Sou otimista pelo que conheço do território, porque sei o que foi feito num passado recente que me dá garantias que isso vai voltar a acontecer no presente e no futuro”, referiu.

O autarca garantiu ainda que não haverá cedências nos compromissos assumidos com os famalicenses: “Teremos condições para dar continuidade aos nossos projetos e não haverá nenhum retrocesso nos planos sociais e económicos. Aquilo que estava planeado poderá ser executado porque vivemos num território que converge no mesmo sentido”, disse.

MUNICÍPIO DE LOURES HOMENAGEIA LIMIANO ANTÓNIO DA SILVA CAPELA - COMBATENTE NO ULTRAMAR ESTÁ CONSAGRADO NA TOPONOMIA

Guiné 61/74 - P18334: (De)Caras (104): Onde fica a Rua António da Silva Capela?... Fica em Lousa, Loures... Quem foi? Um herói limiano, esquecido na sua terra natal, Ponte de Lima (Mário Leitão / Adelino Silva)

Localização da Rua António da Silva Capela, Lousa, Loures. Fonte: © Google (2018)  (com a devida vénia...)

Freguesia: Lousa

Concelho: Loures

Distrito: Lisboa

GPS: 38.867017, -9.213068

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  1. Como chegar à Rua António da Silva Capela, em Lousa, Loures ?  O portal Moovitapp dá-te uma ajuda...

E sabes quem foi o António da Silva Capela? Não sabes, como ninguém sabe... tanto em Loures (onde está sepultado) como em Ponte de Lima (onde nasceu)... Ninguém sabe, nem está sequer interessado em saber... Para ter nome de rua, é alguém que já morreu...

É verdade, é alguém que já morreu. Um jovem minhoto, que morreu em combate, numa guerra já esquecida, e que ninguém quer lembrar: guerra do ultramar, para uns, guerra colonial, para outros... Em suma, um camarada nosso cuja memória temos a obrigação de honrar...

Foi homenageado em 1971, dois anos depois da sua morte, com um nome de rua no município onde foi sepultado (e onde deveria residir ao tempo em que fora chamado a prestar o serviço militar obrigatório)... Era então presidente da câmara municipal de Loures (1970-1974) um tal Luís Filipe da Cunha de Noronha Demony (nascido em Moçambique, em 1928)... Estávamos no "tempo do fascismo", dirão alguns…

Hoje já ninguém se lembra dessa simples homenagem do município de Loures ao soldado limiano... Felizmente, há quem se recuse em deixar este nosso camarada, morto em combate na Guiné, no setor de Bula, em 18 de outubro de 1969, ficar "sepultado na vala comum do esquecimento"... Conterrâneos seus como Mário Leitão, nosso grã-tabanqueiro, ou o jornalista Adelino da Silva, fazem questão de resgatar a sua memória.

Sobre o herói limiano António da Silva Capela (Cabaços,. Ponte de Lima), escreveu o  nosso Mário Leitão:

(...) "Soldado Atirador 72441868. Este jovem deixou-nos algumas das mais lancinantes e emotivas imagens que se conhecem de toda a filmografia da Guerra do Ultramar, divulgadas pelo Institut National de l’Audiovisuel francês (...) Trata-se de um filme chocante sobre a agonia de António Capela, nascido em Cabaços no dia 25 de Outubro de 1947 e recenseado em Loures, onde está sepultado no Cemitério da Lousa. Foi mobilizado para a Guiné pelo Regimento de Cavalaria 7, extinto em 1975, como membro da Companhia de Cavalaria 2487, pertencente ao Batalhão de Cavalaria 2868, que embarcou no dia 23/02/1969 e regressou a 30/12/1970. Era filho de Gabriel dos Santos Capela e de Rosa Araújo da Silva." (...)

Adelino da Silva, por sua vez, escreveu, em 18 de julho de 2016, no portal "Vale Mais" um vibrante e brilhante artigo de opinião ("As lavadeiras do rio Lima e a guerra colonial") que merece ser conhecido dos amigos e camaradas da Guiné que aqui se sentam sob o poilão da Tabanca Grande.

  1. AS LAVADEIRAS DO RIO LIMA E A GUERRA COLONIAL

Opinião > Adelino Silva > Jornal Vale Mais, 18 Julho, 2016

[Texto e foto: reproduzidos com a devida vénia, ao autor e ao editor]

Estávamos em 18 de outubro de 1969, era um sábado de outono, morno e soalheiro. Vivíamos no “Portugal Maior” — assim batizado por Norton de Matos, o nosso General —, aquele Portugal, real e utópico, cujos territórios se estendiam do Minho a Timor.

Na Guiné-Bissau — uma das parcelas desse “Portugal Maior” —, os jovens soldados portugueses combatiam, há alguns anos, contra uma guerrilha “invisível”, mas vivamente determinada em derrotar o exército colonial, com emboscadas ferozes e minas insidiosas.

Em Ponte de Lima, na centenária vila, as mães desses soldados — as airosas e risonhas “lavadeiras do Lima” —, engalanavam o pitoresco areal, ainda doirado e luminoso, com fulgentes estendais, em cenário policromático matizado por incontáveis peças de roupa.

Na Guiné, nas rústicas tabancas, circundadas por verdes matas gementes, as mães dos guerrilheiros pilavam arroz e milho, de forma ritmada e vagarosa, em mais um dia longo e sonolento.

Perto de Bula, nos bosques viridentes e adversos, um jovem limiano de Cabaços (António da Silva Capela), integrava como soldado atirador, uma patrulha da “Operação Ostra Amarga” (*), precisamente aquela que Spínola — o enigmático comandante-chefe —, escolheu, como palco improvisado, para promover mais um episódio de propaganda inútil, levando, para os “trilhos da morte”, uma equipa de repórteres franceses, ao serviço da rádio e da televisão ORTF e da revista Paris-Match.

“Ostra Amarga” viria a tornar-se, nesse dia, num doloroso e gélido malogro para as nossas tropas e num invulgar batismo de guerra para os jornalistas franceses.

Em “direto”, a cores e debaixo de “fogo cerrado”, aquela equipa de ousados repórteres registou, em película, num longo travelling dantesco, o clímax dramático e apocalítico, tingido de rostos de dor, horror e tragédia, de uma das operações de combate mais desumanas, alguma vez filmada nas frentes da guerra colonial e que viria a ser fatal para o jovem limiano.

As imagens ácidas, cortantes e pungentes, resultantes de mais uma emboscada impiedosa, correram mundo; a televisão francesa emitiu-as em 11/11/1969; e a revista “Paris Match” publicou, em 15/11/1969, uma reportagem, sob o título, “Guiné: a estranha guerra dos Portugueses”.

UM POVO QUE LAVA NO RIO E A ESTRANHA GUERRA DA GUINÉ

Mas, para mostrar o contraste, entre essa “estranha guerra dos Portugueses” (a cores) e o “Portugal real” (a “preto e branco”), o realizador francês, um génio criativo sabedor da força da tessitura da cor e do poema “povo que lavas no rio”, de Pedro Homem de Mello (PHM), inseriu, no meio do caos cénico, alguns fotogramas pincelados de beleza extrema, onde brota o gracioso areal limiano, esmaltado por infindas peças de roupa a flutuar ao vento, em suaves bailados coreográficos, e vigiadas, com denodo, por duas mãos cheias de generosas mulheres — as míticas “lavadeiras do Lima#.

[Vd. INA.fr., vídeo  "Guerre en Guinée",  minuto 8, 47º segundo...]

São imagens expressivas, a “preto e branco”, onde sobressai o quotidiano simples dessas “mulheres-lavadeiras”, que o atento realizador francês, utilizando o efeito catalisador da arte cinematográfica, exibiu ao mundo, simbolicamente, como sendo as “mães de Portugal”, que sustentavam a “estranha guerra” da Guiné, com a seiva mais valiosa da juventude.

Hoje, na sempre vetusta e renovada vila, as “mães de Portugal” — as “lavadeiras do Lima” — deixaram de ser a imagem icónica do “povo que lava no rio” e, no pictórico areal do Lima, os lençóis de alvura reluzente já não tremulam, em animada sinfonia visual, com a pureza das brisas que passam. Na Guiné, as mães dos antigos guerrilheiros, continuam a viver nas tabancas, envolvidas por cortinados de paisagens de ruínas e de silêncio, e a pilar arroz e milho, em tardes sempre quentes e intermináveis.

Em 31/10/1971, António Capela foi homenageado com o nome de uma rua em Loures (onde se encontra sepultado), evento noticiado com grande brilho, em 15/11/1971, no jornal “Mirante”.

Mães que lavam no rio ou que pilam arroz nas tabancas, jovens soldados ou guerrilheiros que combatem ou morrem em “estranhas guerras”, são os laços traumáticos que unem dois povos, num véu de mágoa e de mistério, e que só serão suavizados pelas teias do tempo que passa. O resto, já o havia escrito, de forma sublime, PHM [Pedro Homem de Melo, 1904-1984], o tal poeta esquecido: “Pode haver quem te defenda; Quem compre o teu chão sagrado; Mas a tua vida não”.(**)

Notas do editor:

(*) Vd. poste de 19 de fevereiro de 2018 >  Guiné 61/74 - P18333: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (49): Quem são os camaradas da CCAV 2487 / BCAV 2862 (Bula, 1969/70), que assistiram aos últimos minutos de vida do trágico herói limiano António da Silva Capela (1947-1969), uma das vítimas mortais da emboscada, em 18/10/1969, no último dia da Op Ostra Amarga ? Estou a fazer a biografia deste filho de Ponte de Lima, que não pode ficar sepultado na vala comum do esquecimento na sua terra natal... (Mário Leitão)

(**)  Último poste da série > 10 de janeiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18197: (De)Caras (103): Patrício Ribeiro, "pai dos tugas" ou o "último improvável herói tuga" na Guiné-Bissau?... Recordando o seu ato de heroísmo e altruísmo em Varela, em 1998, ao "pôr a salvo", na fragata Vasco da Gama, um grupo de portugueses e outros estrangeiros... 18 milhas / c. 33 km pelo mar dentro, numa canoa nhominca...

Fonte: https://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/