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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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SABIA QUE NOS AÇORES AOS INHAMES CHAMAM DE “MINHOTOS”?

Remonta muito provavelmente ao século XV a introdução da cultura do inhame nos Açores pelos portugueses. O inhame é um tubérculo cujo nome científico é Colocasia esculenta (L.) Schott cujo sabor e textura lembra a batata doce. Trata-se de um alimento bastante recomendado para prevenir a prisão de ventre, controlar a diabetes e evitar doenças cardiovascolares, podendo ser ingerido nomeadamente em saladas, sopas e chás.

De acordo com a região, é identificado através de várias designações como taro, ciamo, fava-do-egipto, coco… e, na Ilha de São Miguel, toda a denominação de “minhoto”!

O termo inhame – do qual deriva a denominação de “minhoto” por aproximação fonética – parece ter-se originado de línguas africanas através de vocábulos como yamyam e nyama, não sendo plausivel a sua origem no galicismo mignon como alguns autores pretendem, até por razões históricas associadas às navegações quinhentistas. Aliás, nem sequer possui correspondência com o idioma dos flamengos que contribuíram para o povoamento do arquipélago dos Açores.

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Foto: Wikipédia

QUEM FOI D. JOÃO PIMENTA DE ABREU – O BARQUENSE QUE FOI BISPO DE ANGRA?

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João Pimenta de Abreu, 12.º bispo de Angra, era filho de Salvador de Barros e Abreu e de D. Isabel Pimenta, sobrinho dos poetas Diogo Bernardes e Frei Agostinho da Cruz. Aluno do Seminário de Braga (1579-81), veio a ser seu reitor (1609-12) e licenciouse no Colégio das Artes, em 1582.

Teólogo, foi colegial de S. Paulo, a 30 de Outubro de 1594, de que depois se tornou reitor de 1599 a 1602. Neste ano, doutorou-se em Teologia, a 3 de Novembro, e foi cónego magistral das Sés de Lamego, Braga e Coimbra. Exerceu também a função de chantre nesta última cidade. Em 1617, era deputado da Inquisição conimbricense, assim designado pelo inquisidor-geral D. Fernão Martins Mascarenhas.

Antes da sua sagração, a 2 de Janeiro de 1626, tomou posse da diocese por procuração, nomeando uma junta governativa, composta por três dignidades do cabido de Angra. Só entrou na diocese em 9 de Abril de 1627, embora alguns autores só apontem o ano de 1629 para tal.

Iniciou, a 27 de Setembro de 1632, a sua visita pastoral à ilha de S. Miguel. A 27 de Outubro, esteve na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, na Vila da Lagoa, encaminhando-se depois para a Ribeira Grande. Ainda nessa visita pastoral, deu autorização, em 1633, depois de visitado o eremitério de Nossa Senhora da Consolação das Furnas pelo Lic. João Lopes Cardoso, ouvidor da ilha, para que os eremitas vivessem no Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição do Vale de Cabaços, na Caloura, dado que o seu convento se achava destruído por fogo de 2 de Setembro de 1630.Drummond refere que o bispo vira os seus últimos dias no ano de 1634, achando-se aí de visita. Jaz na igreja matriz de S. Sebastião desta cidade.

Fonte: 475 anos da Diocese de Angra, Retratos dos Bispos de Angra. Museu de Angra do Heroísmo. 2009

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Igreja matriz de S. Sebastião, em Angra do Heroísmo, onde jaz D. João Pimenta de Abreu

João Pimenta de Abreu (Ponte da Barca,? — Ponta Delgada, 28 de Dezembro de 1632) foi o 12.º bispo de Angra, tendo governado a diocese açoriana de 1626 a 1632.

João Pimenta de Abreu nasceu em Ponte da Barca, na então Província do Minho, filho de Salvador de Barros de Abreu e de sua mulher Isabel Pimenta Fernandes, pessoas nobres aparentadas com os Senhores de Regalados. Doutorou-se em Teologia pela Faculdade de Teologia da Universidade de Coimbra, tendo sido cónego magistral das sés de Lamego, Braga e Coimbra. Foi também chantre da Sé de Coimbra.

Em 1617 foi feito deputado do Santo Ofício. Foi sagrado bispo de Angra a 2 de Janeiro de 1626, tomando de imediato posse da diocese por procuração mas escolheu não partir de imediato para os Açores. Em consequência, nomeou uma Junta Governativa, composta de três dignidades do Cabido de Angra, para a governar em seu nome. Apenas entrou oficialmente em Angra no dia 9 de Abril de 1627.

Francisco Ferreira Drummond, nos seus Anais da Ilha Terceira, acusa este bispo de ser amigo por extremo de lhe darem cousas de valor, não porque trocasse por ofertas a justiça, mas por não ter génio de rejeitar o que se lhe dava. Essa característica valeu-lhe censuras e a fama de ambicioso.

Obteve do rei, por alvará, o privilégio de mandar recolher nas cadeias civis os réus condenados a prisão pelo tribunal eclesiástico e determinou, ao que parece por sugestão do visitador Padre-Mestre Fr. Frutuoso Pereira, da Ordem de São Bento, que fossem nomeados nas paróquias olheiros, pessoas que deviam anotar quem faltava às missas. Proibiu que nas procissões os homens fossem junto das mulheres.

Faleceu em Ponta Delgada a 28 de Dezembro de 1632, durante uma visita pastoral à ilha de São Miguel. Está sepultado na Igreja Matriz de Ponta Delgada.

Fonte: Wikipédia

JORNALISTA E ESCRITOR LUSO-BRASILEIRO ÍGOR LOPES VOLTA A APRESENTAR LIVRO NOS AÇORES

Ilha Terceira vai conhecer a obra

O jornalista e escritor luso-brasileiro Ígor Lopes vai voltar aos Açores em dezembro para apresentar o livro-reportagem: “Açores em Cores – Belezas, Contornos e Potencialidades”, que leva o selo da editora “Present Celebration”.

O Auditório do Museu de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, será palco, no dia 11 de dezembro, pelas 17h, do evento de apresentação da obra, que conta com o apoio do Governo açoriano, por meio da Direção Regional das Comunidades. O livro vai ser apresentado pelo autor e por Claudine Lourenço, jornalista e apresentadora radicada na ilha Terceira há vários anos e referência entre a comunidade brasileira na ilha e na região.

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O objetivo central do livro, de acordo com Ígor Lopes, é “revelar detalhes que brasileiros, lusodescendentes e açordescendentes devem conhecer sobre o Arquipélago”. Ao longo de 226 páginas, recheadas de entrevistas e fotografias, o autor leva-nos a conhecer pontos específicos sobre as nove ilhas açorianas, deixando claro que “os Açores são um bom lugar para viver, trabalhar, investir, estudar ou, simplesmente, desfrutar de locais de tirar o fôlego”.

O conteúdo está centrado no formato pergunta-resposta, onde especialistas em diversos segmentos nos Açores, no âmbito público e privado, falam sobre variados temas de promoção das ilhas.

O prefácio do livro é assinado por Adélio Amaro, escritor, presidente do Centro do Património da Estremadura, idealizador do projeto BibliRuralis e diretor do Gazeta Lusófona, na Suíça. O posfácio é assinado por Beatriz H. Ramos Amaral, escritora e Mestre em Literatura e Crítica Literária. Ricardo Alexandre, diretor-adjunto da TSF Rádio Notícias, de Portugal continental, escreveu sobre Ígor Lopes.

A obra foi já lançada no Brasil, nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, onde reuniu um grande público e autoridades, e passou também, com grande sucesso, pelo Fundão, Porto, Lisboa e Ponta Delgada. Agora, chegou a vez de os terceirenses conhecerem o resultado de dois anos de trabalho literário e de investigação.

Com entrega em todo o mundo, o livro está a venda através das redes sociais do autor ou por encomenda direta via e-mail: igorpereiralopes@gmail.com

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Quem é Ígor Lopes?

Ígor Lopes é jornalista, escritor e social media. É CEO da Agência Incomparáveis, que conecta União Europeia e Mercosul; Doutorando em Ciências da Comunicação pela Universidade da Beira Interior; Mestre em Comunicação e Jornalismo pela Universidade de Coimbra; Licenciado em Comunicação Social, na vertente Jornalismo, no Rio de Janeiro, pela FACHA; Possui especialização em Gestão de Redes Sociais e Comunidades para Jornalistas pela Universidade de Guadalajara, México, e especialização em Comunicação Mediática pela Universidade de Santiago de Compostela, Espanha. Atua para agências de notícias e meios de comunicação onde há Diáspora portuguesa e comunidade luso-brasileira.

É jornalista da Agência e-Global, Diário da Lagoa, Revista do Villa, Voz de Portugal, Minho Digital e Mundo Lusíada. Atua ainda como Coordenador de Redação do Gazeta Lusófona, da Suíça, e é correspondente na Europa do programa de TV “Assim é Portugal” e da “TV do Villa”.

É autor dos livros-reportagem “Maria Alcina, a força infinita do Fado” (2016), “Casa do Distrito de Viseu: 50 anos de dedicação à cultura portuguesa no Rio de Janeiro” (2016), “Rancho Folclórico Maria da Fonte da Casa do Minho do Rio de Janeiro - A jornada do grupo português que valoriza a cultura minhota no Brasil desde 1954” (2019); e “Festas d'Agonia - Viana do Castelo - Para Brasileiros e Lusodescendentes” (2021).

Recebeu das mãos do presidente da Sociedade Brasileira de Heráldica e Humanística, Dom Galdino Cocchiaro, a "Comenda da Ordem Nacional do Mérito do Empreendedor Visconde de Mauá", título oficializado como "Honraria Oficial do Município de Mauá" e pelo Governo da República do Brasil, através do Ministério da Educação e Cultura, com o apoio da Secretaria de Estado da Justiça e Defesa da Cidadania do Governo de São Paulo. Nesta mesma oportunidade, o escritor foi ainda empossado como "Chanceler", com atuação internacional, “tendo como objetivo central atuar na aproximação entre Brasil e Portugal” no eixo cultural.

É membro da Academia de Letras de Teófilo Otoni (ALTO), da Eco Academia de Letras, Ciências e Artes de Terezópolis de Goiás (E-ALCAT), da Academia de Letras e Artes de Paranapuã (ALAP), da Academia Luso-Brasileira de Letras (ALBL) e da Academia de Letras e Artes da Guiné-Bissau (ALAB). Foi condecorado no Brasil e em Portugal com medalhas, diplomas e comendas por diversas instituições.

Ígor Lopes é presidente da mesa da Assembleia Geral da Plataforma, entidade que reúne os órgãos de comunicação social da diáspora lusa, é vice-presidente da Associação Mais Lusofonia, diretor de Relações Internacionais da Câmara do Comércio da Região das Beiras e da Casa do Brasil - Terras de Cabral.

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Encontre o autor nas redes sociais:

Facebook: facebook.com/IgorPLopes

Instagram: @igorlopesrj

LinkedIn: linkedin.com/in/igorlopes-jornalista/

TikTok: @igorplopes

E-mail: igorpereiralopes@gmail.com

Site da Agência: http://agenciaincomparaveis.com/

Dados Técnicos:

Título: “Açores em Cores - Belezas, Contornos e Potencialidades”

ISBN: 978-65-00-06792-7 - Brasil

Depósito Legal: 4728 85/20 - Portugal

Ano: 2020

Editora: Present Celebration

Açores – Brasil – Portugal Continental

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BATISTA SEQUEIRA VIEIRA: A CONQUISTA DO SONHO AMERICANO NA CALIFÓRNIA

  • Crónica de Daniel Bastos

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do séc. XIX e o último quartel do séc. XX, período em que se estima que tenham emigrado cerca de meio milhão de portugueses essencialmente oriundos dos arquipélagos da Madeira e dos Açores, destaca-se hoje pela sua perfeita integração, inegável empreendedorismo e relevante papel económico e sociopolítico na principal potência mundial.

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Comendador Baptista Sequeira Vieira

No seio da numerosa comunidade lusa nos EUA, segundo dados dos últimos censos americanos residem no território mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, destacam-se vários percursos de vida de compatriotas que alcançaram o sonho americano ("the American dream”).

Entre as várias trajetórias de portugueses que começaram do nada na América e ascenderam na escala social graças a capacidades extraordinárias de trabalho, mérito e resiliência, destaca-se o percurso inspirador e de sucesso do comendador Batista Sequeira Vieira, uma das figuras mais proeminentes da comunidade luso-americana.

Natural dos Rosais, freguesia do Município de Velas, na Ilha de São Jorge, arquipélago dos Açores, Batista Sequeira Vieira emigrou em 1954, perto de completar 16 anos de idade, para San José, terceira cidade mais populosa do estado americano da Califórnia, na companhia do irmão mais velho, motivado pelas histórias de abundância e riqueza contadas pelo avô durante a sua meninice.

O fascínio pela América transmitido pelo avô, que chegou a ter uma pequena rede de sapatarias em Newman, na Califórnia, na região do Vale de San Joaquim, impulsionou o jovem emigrante açoriano a abalar do seio de uma família relativamente abastada de São Jorge em demanda do sonho americano.

A coragem e o "antes quebrar que torcer", manifestas no facto de ter começadoo seu percurso de autêntico self-made man em duras condições de vida e de trabalho numa leitaria, forjaram um homem que teve o vislumbre de nos anos 60, já depois do enlace com a sua companheira de vida, Dolores Machado, se ter lançado na construção civil, primeiro na pintura, a “Vieira Painting Company” e depois na construção e imobiliário alavancado pelo crescimento de Silicon Valley.

Empresário e empreendedor com uma trajetória marcada pelo mérito e pela inovação, premissas que estão desde o início na base do conglomerado de empresas que criou na Califórnia, o sucesso que o emigrante jorgense alcançou ao longo do último meio século no mundo dos negócios, têm sido acompanhados de um apoio constante à comunidade luso-americana.

Na década de 1970, comprou, em parceria, a primeira estação de rádio paraservir a comunidade portuguesa, e posteriormente adquiriu outra estação, com o propósito de servir a comunidade luso-americana do Vale de San Joaquim, realizando o sonho de introduzir na sua programação a língua portuguesa.Contemporaneamente, foi Presidente da Sociedade do Espírito Santo, da Luso-American Fraternal Federation, e desempenhou funções relevantes em várias instituições luso-americanas que sempre contaram com o seu generoso apoio, como é o caso, por exemplo, da Igreja Portuguesa de San José.

O seu profundo sentido de responsabilidade e de dever cívico foram distinguidos em 1985 pelo então presidente norte-americano, Ronald Reagan, assim como em 1989, pelo antigo Presidente da República, Mário Soares, que o agraciou com o grau de comendador da Ordem do Mérito. Na base da justíssima distinção da pátria de origem, estiveram os serviços meritórios, a ligação umbilical e a generosidade que ao longo dos anos tem devotado a várias instituições da sua terra natal, como por exemplo, a Casa de Repouso João Inácio de Sousa, que recebeu do empresário e filantropo luso-americano uma grande doação tanto a nível monetário como de equipamentos.

Com o seu nome associado a ruas e edifícios na Ilha de São Jorge, mais propriamente no povoado que o viu nascer, Rosais, onde no ano passado lhe foi prestada uma homenagem pública e descerrado um busto, o comendador Batista Sequeira Vieira, que foi distinguido em 2014 pela Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores com a atribuição da Insígnia Autonómica, inspira-nos a máxima do escritor e ensaísta francês Albert Camus: “A grandeza do homem consiste na sua decisão de ser mais forte que a condição humana”.

AS MEMÓRIAS DA EMIGRAÇÃO AÇORIANA NO ESPÓLIO FOTOGRÁFICO DE LAUDALINO DA PONTE PACHECO

Daniel Bastos

  • Crónica de Daniel Bastos

Recentemente, a Araucária, uma editora independente com sede na ilha de São Miguel, nos Açores, fundada pela ativista cultural espanhola Blanca Martín-Calero, lançou o livro Laudalino da Ponte Pacheco (1963-1975).

Concebido a partir de uma centena e meia de imagens de Laudalino da Ponte Pacheco (1921-1998), cujo numeroso espólio constitui um repositório etnográfico das freguesias da costa norte da ilha de São Miguel, especialmente da Maia, onde o fotógrafo nasceu e viveu, a dimensão do valioso trabalho do retratista micaelense perpassa ainda o fenómeno da emigração. Um dos aspetos como salienta a historiadora Susana Serpa Silva, “estruturais da história do povo das ilhas atlânticas e da sociedade portuguesa em geral”.

Nomeadamente, a emigração açoriana para o Canadá a partir de 1953, ano em que o irmão mais novo de Laudalino partiu para Montreal. Maior cidade da província do Quebequebe, de onde no ano seguinte enviou por correio, a câmara fotográfica que permitiu ao irmão realizar retratos para passaportes e bilhetes de identidade, assim como retratar as tradições e a vida rural da costa norte da ilha de São Miguel, e as inúmeras partidas e chegadas de emigrantes.

Homem dos sete ofícios, além de fotógrafo, foi também carpinteiro, distribuidor de jornais e de tabaco, vendedor de rádios e reparador de eletrodomésticos, Laudalino da Ponte Pacheco viajou duas vezes até ao Canadá. No decurso das viagens à nação da América do Norte, onde adquiriu uma máquina de filmar Super 8 e um projector, como destaca o livro homónimo, filmou “as casas dos familiares e dos amigos emigrantes, os edifícios, as ruas, os carros, as praças, os monumentos, as paisagens”, sendo que no retorno à terra natal, “passou os filmes em sua casa para os amigos visionarem, com grande sucesso”.

Na esteira das páginas do livro, as fotografias de Laudalino da Ponte Pacheco, sobre as vivências açorianas das décadas de 1960-70, constituem “documentos riquíssimos para a compreensão do território antropológico, sociológico e histórico da ilha de São Miguel, transformando a macronarrativa vigente em micronarrativas úteis para a compreensão e reflexão sobre um povo, as suas singularidades as vicissitudes e os desafios a que foi sujeito; compõem matéria para entender o presente e melhor programar o futuro.”

A CULTURA MARÍTIMA AÇORIANA NO MUSEU DA BALEAÇÃO EM NEW BEDFORD

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  • Crónica de Daniel Bastos

No seio da fértil cultura marítima açoriana, a baleação, também conhecida como pesca ou caça às baleias, ocupa um papel basilar na memória coletiva de muitas localidades açorianas, em particular, na ilha do Pico, o grande centro do antigo complexo baleeiro insular.

As raízes históricas da baleação açoriana remontam ao ocaso do séc. XVIII quando navios baleeiros da Nova Inglaterra, região no nordeste dos então recém-independentes Estados Unidos da América (EUA), que abrange os estados de Maine, Vermont, Nova Hampshire, Massachusetts, Connecticut e Rhode Island, recrutavam no arquipélago tripulação para as suas longas campanhas.

A experiência adquirida a bordo dos navios americanos foi decisiva para o estabelecimento da atividade baleeira nos Açores, uma atividade indissociável da cultura e da história arquipelágica, ou no conceito de Vitorino Nemésio da açorianidade.

Uma atividade que tendo perdurado até ao termo da década de 1980, época em que Portugal entrou para a Comunidade Económica Europeia (CEE) e a caça comercial seria entretanto proibida pela Comissão Baleeira Internacional, foi concomitantemente percursora da diáspora açoriana nos EUA, cuja presença no território se adensou a partir da segunda metade do séc. XIX, através da emigração de milhares de açorianos ligados aos negócios da pesca da baleia.

Um dos exemplos paradigmáticos do fenómeno migratório açoriano para a América impulsionado pela baleação encontra-se em New Bedford, uma cidade costeira situada no estado de Massachusetts. Com uma população de 100 mil habitantes, da qual cerca de 40% terá ascendência portuguesa, os pescadores açorianos constituíram a primeira vaga da imigração lusa em New Bedford a partir de 1870, época em que a cidade que detém um dos portos de pesca mais importantes dos EUA era um centro mundial da indústria baleeira.

Este relevante legado histórico esteve na base da edificação do Museu da Baleação de New Bedford, um espaço administrado pela Sociedade Histórica Old Dartmouth, fundada em 1903, e que tem como principal missão avançar no entendimento da influência da indústria baleeira e do porto de New Bedford na história, economia, ecologia, artes e culturas da região, da nação e do mundo.

Foi nesse sentido que, em 2010, foi inaugurado no Museu da Baleação de New Bedford, uma ala dedicada aos baleeiros dos Açores, designada de Galeria do Baleeiro Açoriano, e que se assume como o único espaço de exposição permanente nos EUA que presta homenagem aos portugueses, mormente açorianos, e o seu significativo contributo para a herança marítima norte-americana.  

O projeto da Galeria do Baleeiro Açoriano teve a sua génese em 1999, quando a saudosa professora universitária luso-descendente, Mary T. Vermette, apresentou uma proposta ao então ministro dos Negócios Estrangeiros, Jaime Gama, para que Portugal ajudasse a abrir o núcleo museológico. Diligência que levou o Estado português a aprovar uma contribuição de cerca de 700 mil dólares, e o Governo dos Estados Unidos a contribuir com 1,2 milhões para a renovação da ala do museu dedicada à galeria.

Constituída por mais de uma centena de objetos, a Galeria do Baleeiro Açoriano além de conter peças de arte, artefactos, filmes e fotografias sobre os laços marítimos, culturais e sociais que unem os dois lados do Atlântico, homenageia ainda figuras históricas da comunidade açoriana de New Bedford, designadamente marinheiros, mestres, proprietários de embarcações e empresários marítimos.

Mais recentemente, através de fundos provenientes de uma bolsa atribuída pela fundação William M. Wood, criada por um magnata da indústria têxtil filho de um baleeiro açoriano, a Galeria do Baleeiro Açoriano foi enriquecida com dois relevantes elementos, nomeadamente um modelo em grande escala de um bote baleeiro açoriano e um posto de vigia recriado.

Como realça Ricardo Manuel Madruga da Costa, em A ilha do Faial na logística da frota baleeira americana no “Século Dabney”, a Galeria do Baleeiro Açoriano no Museu da Baleação em New Bedford, constitui “um admirável tributo que retrata, com criterioso uso de recursos ao nível das peças e da icnografia expostas, o que representou, de facto, a presença tão significativa do baleeiro das ilhas dos Açores”.

MUSEU DA EMIGRAÇÃO AÇORIANA – UM ESPAÇO DE MEMÓRIAS DA EMIGRAÇÃO PORTUGUESA

  • Crónica de Daniel Bastos

A emigração tem sido ao longo do tempo um fenómeno constante no modo de vida de milhares de açorianos. Embora as suas origens remontem aos primórdios do povoamento do arquipélago português situado no Atlântico nordeste, o seu carácter sistemático consubstanciou-se entre os séculos XIX e XX com o surgimento dos cinco grandes destinos da emigração açoriana: Brasil, Estados Unidos da América, Bermudas, Havai e Canadá.

Atualmente estima-se que cerca de 1,5 milhões de açorianos e seus descendentes residam no estrangeiro, números reveladores da grandeza da diáspora açoriana, muito mais se considerarmos que residem no arquipélago cerca de 250 mil pessoas, e que ajudam a compreender a razão destas numerosas comunidades serem denominadas “a 10.ª ilha dos Açores”.

Como sustenta António Machado Pires, acerca da Emigração, Cultura e Modo de Ser Açoriano, os “açorianos da emigração são hoje, pelo seu número e pela sua diversidade, um vasto prolongamento da unidade e da diversidade dos Açores. São continuadores, descendentes, representantes de um conjunto de tradições, de uma língua e de uma cultura”.

A mundividência e relevância da diáspora açoriana encontram-se plasmadas na missão e objetivos do Museu da Emigração Açoriana. Inaugurado em 2005, no antigo Mercado de Peixe da Ribeira Grande, o espaço museológico, aberto à união de esforços e trabalhos em parceria no âmbito da história da emigração portuguesa, preserva através de fotografias, documentos, roupas e memórias de diversos tipos, as trajetórias de milhares de açorianos que ao longo do devir histórico saíram do arquipélago para o estrangeiro em busca de melhores condições de vida.

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O historiador Daniel Bastos (esq.), cujo percurso tem sido alicerçado no seio das Comunidades Portuguesas, visitou em 2019 o MEA-Museu da Emigração Açoriana, acompanhado de Rui Faria (dir.), coordenador do espaço museológico e presidente da AEA-Associação dos Emigrantes Açorianos

 

O Museu da Emigração Açoriana, ao estruturar uma visão geral sobre as razões e destinos da diáspora açoriana, constitui não só, um elemento-chave na história da emigração açoriana, como valida a sua considerável base de dados com fichas de emigrantes e os requerimentos para emigração realizados no século XIX. Como também representa um elemento-chave para a compreensão e identidade do arquipélago, e do demais território nacional, ou não fosse a emigração um fenómeno constante da vida portuguesa.

OS AÇORIANOS NO MUNDO

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  • Crónica de Daniel Bastos

No ocaso do ano passado, o presidente do Governo dos Açores, Vasco Cordeiro, anunciou no decurso de um jantar-convívio com a comunidade portuguesa, açoriana e lusodescendente nas Bermudas, um território britânico ultramarino membro da comunidade do Caribe, localizado no Oceano Atlântico, a entrada em vigor da plataforma de recenseamento de açorianos no mundo.

Uma plataforma, implementada no seguimento do projeto do Conselho da Diáspora, que representa uma medida de enorme alcance, dado que se estima que na atualidade cerca de 1,5 milhões de açorianos e seus descendentes residam no estrangeiro. Em particular, no Canadá, Estados Unidos, Brasil e Bermudas, áreas geográficas onde a presença açoriana passará a eleger cerca de dois terços dos 33 elementos que integrarão o Conselho da Diáspora.

Criado, no âmbito do departamento do Governo Regional com competência em matéria de emigração e comunidades, e aprovado por unanimidade pela Assembleia Legislativa Regional, o Conselho da Diáspora Açoriana (CDA), constitui-se como um órgão consultivo do Governo Regional que visa assegurar a participação, a colaboração e a auscultação, dos açorianos no mundo, no projeto de desenvolvimento dos Açores.

Nesse sentido, os açorianos da diáspora que se inscrevam na plataforma passam a ter uma maior interligação e intervenção na realidade sociopolítica de um arquipélago que assinala presentemente 600 anos de história e 400 anos de emigração. E simultaneamente possibilitam às autoridades regionais obter uma radiografia mais precisa da identidade arquipelágica espalhada pelo mundo, e assim incrementar uma nova dinâmica na promoção das inúmeras potencialidades que envolvem o universo da diáspora açoriana.

Ao pretender deste modo aproximar mais os emigrantes e os lusodescendentes do projeto de desenvolvimento do arquipélago, as autoridades regionais reconhecem na esteira das palavras da investigadora Susana Serpa Silva, o papel dos que em «muito contribuíram para o desenvolvimento das ilhas os que partiram sem regressar e os que regressaram também, sem que se possa, no entanto, obliterar o contributo de todos os demais que, por apego ao mundo insular ou por melhor sorte e nível de vida, por cá ficaram e por cá lutaram nesta terra de sonhos adiados e penosamente alcançados”.

AÇORIANOS PERCORREM CAMINHOS DE SANTIAGO

Caminho Braga-Santiago percorrido pela primeira vez por grupo dos Açores

O grupo é constituído por oito elementos, três homens e cinco mulheres, com idades entre os 13 e 64 anos – embora a maioria esteja nas casa dos 40 anos – e profissões como professor, agente de execução ou coordenador de transportes públicos. Um deles reside em Ribeira Grande e os restantes em Ponta Delgada (ilha de São Miguel).

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Uma das peregrinas é Rute Nunes e esta é a sua quinta peregrinação nos caminhos de Santiago. Escolheu o Caminho da Geira e dos Arrieiros pelo “facto de ser menos turístico e explorado que os anteriores, pela beleza natural e o cariz histórico”, conforme explicou este domingo, 14, à chegada a Lobios (Espanha).

“Está a corresponder inteiramente às minhas expectativas”, adiantou a açoriana, que foi “infetada pelo vírus peregrino desde a primeira peregrinação”.

Já Rui Machado explica que “as motivações de cada um são diferentes”. Uns são peregrinos, outros, como é seu próprio caso, estão a fazer o caminho “um pouco por turismo”.

Quem aconselhou o percurso foi Luís Guimarães, presidente do CALAG e natural de Vieira do Minho – cinco membros do grupo são naturais dos Açores e três migrantes do continente português. A jornada começou no dia 12 de abril – data em que o grupo foi recebido na União de Freguesias de Real, Dume e Semelhe - e o objetivo é chegarem a Santiago de Compostela no domingo de Páscoa (21 de abril).

Para Luís Guimarães, esta peregrinação, em que participam ainda Gracinda Martins, Maria Guedes, Andrea Soares, Jorge Lopes e Matilde Guimarães, “é um desafio, na medida em que se trata de um caminho duro, passando por zonas pouco habitadas, em que utilizamos o GPS e o Guia do Peregrino”, escrito por Carlos de Barreira e Henrique Malheiro.

“A amplitude da riqueza natural e patrimonial do Caminho da Geira e dos Arrieiros transporta-nos aos tempos ancestrais dos romanos e da construção da Catedral de Santiago de Compostela, percorrendo florestas, bosques e vinhedos, atravessados por rios largos e pequenos ribeiros, onde a nossa presença ainda surpreende os animais no seu ambiente natural. É um itinerário de espiritualidade, descoberta e aventura, que convida os peregrinos a regressarem ao verdadeiro Caminho”, escreve o jornalista Carlos Ferreira, no prefácio do guia.

A Câmara de Lagoa ofereceu aos peregrinos impermeáveis, t-shirts e cantis, apoio simbólico que, no entender de Nelson Santos, vereador com o pelouro do desporto e turismo, “é um reconhecimento por tudo o que o CALAG tem feito pelo concelho e pelo forte contributo que tem dado no desenvolvimento turístico com a divulgação e promoção dos trilhos lagoenses”.

A Associação do Caminho Jacobeu da Geira Minhoto Ribeiro e a Associação Codeseda Viva coordenam a investigação histórica, patrimonial, do traçado e sobre outros recursos necessários à validação do caminho [ainda não possui albergues, nem está marcado, pelo que deve usar-se GPS], um trabalho iniciado em 2009 que pretendem ver reconhecido com a oficialização do traçado até ao Ano Santo Jacobeu de 2021.

Este itinerário, também conhecido por Caminho da Geira Minhoto Ribeiro, foi percorrido por pelo menos 300 pessoas desde maio de 2017, estimando-se que o número cresça até 500 no corrente ano.

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MUSEU DA EMIGRAÇÃO AÇORIANA: UM ESPAÇO DE MEMÓRIAS DA EMIGRAÇÃO PORTUGUESA

  • Crónica de Daniel Bastos

O historiador Daniel Bastos (esq.) no MEA-Museu da Emigração Açoriana, acompanhado de Rui Faria, coordenador do espaço museológico e presidente da AEA-Associação dos Emigrantes Açorianos, estabeleceu no início do presente mês de março uma parceria de cooperação com o MEA e tornou-se sócio da AEA.

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A emigração tem sido ao longo do tempo um fenómeno constante no modo de vida de milhares de açorianos. Embora as suas origens remontem aos primórdios do povoamento do arquipélago português situado no Atlântico nordeste, o seu carácter sistemático consubstanciou-se entre os séculos XIX e XX com o surgimento dos cinco grandes destinos da emigração açoriana: Brasil, Estados Unidos da América, Bermudas, Havai e Canadá.

Atualmente estima-se que cerca de 1,5 milhões de açorianos e seus descendentes residam no estrangeiro, números reveladores da grandeza da diáspora açoriana, muito mais se considerarmos que residem no arquipélago cerca de 250 mil pessoas, e que ajudam a compreender a razão destas numerosas comunidades serem denominadas “a 10.ª ilha dos Açores”.

Como sustenta António Machado Pires, acerca da “Emigração, Cultura e Modo de Ser Açoriano”, os “açorianos da emigração são hoje, pelo seu número e pela sua diversidade, um vasto prolongamento da unidade e da diversidade dos Açores. São continuadores, descendentes, representantes de um conjunto de tradições, de uma língua e de uma cultura”.

A mundividência e relevância da diáspora açoriana encontram-se plasmadas na missão e objetivos do Museu da Emigração Açoriana. Inaugurado em 2005, no antigo Mercado de Peixe da Ribeira Grande, o espaço museológico, aberto à união de esforços e trabalhos em parceria no âmbito da história da emigração portuguesa, preserva através de fotografias, documentos, roupas e memórias de diversos tipos, as trajetórias de milhares de açorianos que ao longo do devir histórico saíram do arquipélago para o estrangeiro em busca de melhores condições de vida.

O Museu da Emigração Açoriana, ao estruturar uma visão geral sobre as razões e destinos da diáspora açoriana, constitui não só, um elemento-chave na história da emigração açoriana, como valida a sua considerável base de dados com fichas de emigrantes e os requerimentos para emigração realizados no século XIX. Como também representa um elemento-chave para a compreensão e identidade do arquipélago, e do demais território nacional, ou não fosse a emigração um fenómeno constante da vida portuguesa.

JOHN PHILIP SOUSA, UM INSIGNE LUSO-AMERICANO

  • Crónica de Daniel Bastos

No início do mês passado assinalaram-se os 164 anos do nascimento de John Philip Sousa, insigne compositor e maestro de banda luso-americano, do romantismo tardio, popularmente conhecido como “O Rei das Marchas”, como The Stars and Stripes Forever, marcha oficial dos Estados Unidos.

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John Philip Sousa nasceu em Washington, a 6 de novembro de 1854, terceiro dos dez filhos do português, natural dos Açores, João António Sousa e de uma austríaca, Marie Elisabeth Trinkaus. A sua precoce vocação musical levou a que ainda muito jovem se iniciasse nos estudos musicais, tocando violino, e aprendendo composição musical.

Em 1892, o musicógrafo luso-americano apresentou, em New Jersey, a sua própria banda, a “Sousa Band”, encetando um percurso musical fulgurante. Desde essa data até à década de 1930, realizou mais de quinze mil concertos, sendo que no ocaso do séc. XIX a sua banda representou os Estados Unidos da América na Exposição Universal de Paris.

Antes em 1888, tinha já composto a marcha “Semper Fidelis” que foi adotada como hino da Marinha dos Estados Unidos da América. A 14 de maio de 1897, em Filadélfia, no decurso da inauguração solene de uma estátua de George Washington, primeiro Presidente dos Estados Unidos da América, em que esteve presente o presidente norte-americano dessa época, William McKinley, foi tocada pela primeira vez em público a marcha intitulada The Stars and Stripes Forever (Estrelas e Barras para Sempre), considerada a obra-prima do luso-americano, e que mereceu as honras, por lei do Congresso dos Estados Unidos, de marcha nacional do país.

Afamado compositor e maestro, John Philip Sousa, escreveu também obras poéticas, de ficção, manuais, crónicas jornalísticas e uma autobiografia, tendo inclusivamente idealizado um instrumento de sopro da família dos metais, o Sousafone, uma tuba especial que o executante apoia no ombro para que possa executá-la enquanto anda ou marcha, e que é o maior dos instrumentos de sopro.

John Philip de Sousa, que faleceu no dia 6 de março de 1932, e foi sepultado com honras oficiais em Washington, no Cemitério do Congresso, é meritoriamente uma das figuras luso-americanas de maior destaque na cultura e história norte-americana.

MEMÓRIAS DE SÃO ROQUE DO FAIAL: AS VOZES DOS EMIGRANTES

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  • Crónica de Daniel Bastos

Na freguesia de São Roque do Faial, uma freguesia do concelho de Santana, ao norte da Ilha da Madeira, encravada na base do Maciço Montanhoso Central, entre a Ribeira da Metade e a Ribeira do Castelejo, está a ser dinamizado nos últimos anos um projeto comunitário singular em torno da temática da emigração.

Intitulado “Memórias de São Roque do Faial: as vozes dos emigrantes”, o projeto é fruto de uma ideia inspirada nos fluxos emigratórios desta povoação madeirense conhecida pela sua ruralidade e fantásticos miradouros. Esta realidade sócio histórica conduziu à criação de um espaço de partilha, conhecimento e informação sobre as tradições e cultura da freguesia com o principal objetivo de estabelecer um elo de ligação entre os residentes e emigrantes de São Roque do Faial.

Procurando preservar, respeitar e transmitir a cultura e tradição associada à pitoresca freguesia madeirense, bem como contactar diretamente e ativamente com os seus usos e costumes, de forma a manter vivas as tradições, como é o caso das vindimas, das romagens no Natal, das festas do verão, designadamente o dia do padroeiro S. Roque, das lendas e das imensas belezas naturais misturadas com aromas e cores, o projeto assenta parte significativa do seu trabalho no levantamento das histórias de vida e testemunhos dos emigrantes.

Não poderia ser de outra forma, porquanto numa povoação fortemente marcada pela emigração, como reconhecem os responsáveis do projeto comunitário, não há casa que não tenha família emigrante ou residentes que tenham sido emigrantes no Brasil, Venezuela, Austrália, África do Sul, Estados Unidos ou Inglaterra.

Neste sentido, este projeto comunitário que tem sido dinamizado ao longo dos últimos anos na freguesia de São Roque do Faial, reveste-se de um valor cultural de importância local, regional e nacional. Pois além de preservar aspetos culturais de carácter etnográfico da povoação e da região, e de divulgar junto das novas gerações a cultura tradicional, através da recolha e registo de usos e costumes, saberes e fazeres, histórias e memórias, existe um claro propósito de reconhecer, valorizar e dignificar as sucessivas gerações locais, que à imagem e semelhança de muitos compatriotas, um dia deixaram o país para demandarem outras paragens à procura de uma vida melhor.

CÂMARA DOS DEPUTADOS RECEBE, EM 1913, UMA REPRESENTAÇÃO RECLAMANDO CONTRA A FORMA COMO ERA FEITA A FISCALIZAÇÃO NO POSTO FRONTEIRIÇO DE VALENÇA

Os passageiros eram obrigados a sair da carruagem e levar as suas malas num longo percurso para serem minuciosa e demoradamente inspecionadas e as senhoras iam à “apalpadeira” e tinham de despir-se.

O deputado Alexandre de Barros, na sessão de 7 de Maio de 1913 da Câmara dos Deputados, apresentou um pedido de providências relativamente a um incidente ocorrido na Alfândega de Valença, questionando a forma como era feita a fiscalização nas alfândegas da raia. Na mesma sessão, Afonso Costa que acumulava o cargo de Presidente do Governo com o de Ministro das Finanças, informou que já havia ordenado um inquérito.

A referida Sessão parlamentar foi presidida por Simas Machado, um bracarense descendente de famílias açorianas que foi general e comandante da 2ª Divisão do Corpo Expedicionário Português na Primeira Guerra Mundial e cuja carreira terminou com a instauração da ditadura militar em 1926.

O referido debate consta do Diário da Câmara dos Deputados do qual transcrevemos as passagens que consideramos elucidativas, mantendo a grafia original, começando pela representação que lhe deu origem.

O General Simas Machado presidiu à Câmara dos Deputados

“Para a Secretaria.

Representações

Senhores Deputados. - Na qualidade de presidente dum grupo de 762 pessoas, que acabam de regressar duma visita à cidade de Vigo, numa excursão promovida pela Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Pôrto, venho, ao abrigo do artigo 32.° da Constituição Política da República Portuguesa, queixar-me da forma como êsse grupo foi, ao começo da madrugada de hoje, tratado no pôsto aduaneiro da estação do caminho de ferro de Valença.

Foi toda a gente, homens e senhoras, obrigada a sair das carruagens, a uma hora evidentemente incómoda, e a fazer um longo percurso levando as suas malas e mais objectos, sem atenção a que ninguêm é obrigado a fazer de carregador.

No pôsto fiscal a investigação das malas fez-se com delonga e minúcia, que estaria bem para descaminhadores e contrabandistas profissionais, mas não para quem vinha em simples excursão de recreio, em que, se alguma cousa se traz, é um ou outro objecto de diminuto valor, como recordação ou para presentear pessoas amigas.

Pois não só a pesquisa das malas se fez com irritante minúcia, mas, salvo raras excepções, que melhor se chamarão acasos foram revistados, um a um, os excursionistas, devendo dizer-se que, salvo excepções raríssimas, as senhoras (e havia muitas dezenas delas) foram obrigadas a ir à apalpadeira.

Não posso, Srs. Deputados, dizer-vos dum modo absoluto, que seja ilegal êste procedimento, mas nem tudo quanto não é ilegal deve consentir-se.

E, em todo o caso, o meio violento e vexatório de que se usou, só, excepcionalmente e individualmente, se justifica, quando há fundados motivos dalguma certa pessoa oferecer suspeita de pretender subtrair aos direitos algum objecto. Colectivamente considerado, o procedimento havido para com o grupo a que tive a honra de presidir foi duma grossaria inqualificável, que para honra do nosso pais é preciso que não se repita.

A grossaria chegou a ponto dalgumas senhoras serem forçadas a despir-se até a camisa. E, para maior vergonha nossa, um caso dêstes sucedeu com a senhora dum cidadão inglês que fazia parte da excursão e que indignadíssimo protestava contra a indecência de tal procedimento.

Escusa-se de pensar de turismo em Portugal, emquanto vergonhas destas se passarem.

Dignai-vos, Srs. Deputados, deliberar a êste respeito como o caso requere. Num pôsto fiscal de fronteira não basta o Código Aduaneiro, é preciso que, alêm de muita prudência, haja tambêm o código da delicadeza.

Saúde e Fraternidade.

Pôrto, 5 de Maio de 1913. = Bernardo Lucas.”

O deputado Alexandre de Barros pediu para intervir:

“Sr. Presidente: peço a V. Exa. a fineza de me inscrever para quando estiver presente o Sr. Ministro das Finanças, a fim de o interrogar sôbre o assunto do oficio que acaba de ser lido na mesa, para que S. Exa. diga como é feito o serviço da fiscalização da nossa fronteira.

Estas minhas considerações são por efeito dos factos que se passaram na Alfândega de Valença, de que reza a representação lida na mesa, e que consta do expediente.”

A intervenção do deputado Alexandre de Barros:

“Sr. Presidente: eu desejo fazer alguns reparos acêrca da maneira como se procedeu, quando regressou ao Pôrto, com alguns excursionistas que foram a Vigo.

Os factos que vou apontar merecem a atenção da Câmara, comquanto não sejam novos, e exigem que o Sr. Ministro das Finanças os mande averiguar, para que só veja como se exerce o serviço de fiscalização na fronteira.

Por Valença regressou um comboio com excursionistas, e procedeu-se com cies por uma forma desagradável e inconveniente; não se pode consentir que se tratem portugueses como inimigos dêste país, e êsses excursionistas foram tratados pior, como contrabandistas.

O Sr. Américo Olavo: - Mas há muita gente que se aproveita dessas excursões para fazer contrabando.

Nesta altura entra o Sr. Presidente do Ministério.

O Orador (continuando): - Folgo em ver já presente o Sr. Ministro das Finanças, para chamar a atenção de S. Exa. para o que vinha relatando à Câmara.

A entrada em Valença, portugueses que tinham ido a Vigo, numa excursão, foram tratados por forma inconveniente pela guarda fiscal. Não se tratou de exercer uma fiscalização, mas simplesmente de molestar. E natural que se exerça uma fiscalização conveniente, mas abusos não se podem permitir. Não foram só homens os molestados, mas tambêm senhoras, e uma delas de origem inglesa. Peço, portanto, as mais enérgicas providências.”

A intervenção de Afonso Costa, Presidente do Governo e Ministro das Finanças:

“Em primeiro lugar, peço desculpa a V. Exa., Sr. Presidente, e à Câmara, de não ter comparecido ao princípio da sessão, mas venho agora directamente de casa, onde, desde as oito horas, estive trabalhando em serviço do Estado.

Com relação ao caso de que se trata, procedi como me competia.

Ante ontem à noite, estando em casa do Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros, assistindo a um jantar que êle oferecia, recebi um telegrama do Sr. Bernardo Lucas, dizendo que tinha ido a uma excursão a Vigo, onde foi recebido bem, mas que fora mal recebido na fronteira portuguesa, com ofensas ás senhoras que iam na excursão.

Imediatamente mandei um telegrama a S. Exa., dizendo que ia já providenciar, agradecendo-lhe tambêm a propaganda que tinha feito em terra estrangeira.

Os jornais do Pôrto deram uma larga documentação do facto.

Ontem soube que o Sr. Ministro da Guerra deu ordens terminantes ao comandante da guarda fiscal daquele distrito para dar as providências necessárias. E, hoje, recebi um ofício do Sr. Dr. Bernardo Lucas, narrando os factos.

Imediatamente o enviei àquele comandante, a fim de levantar o respectivo processo; e tambêm dei ordem para que não houvesse na fronteira embaraços às excursões.

Pede o Sr. Alexandre de Barros que eu mande verificar os factos e castigar aqueles que o mereçam.

E o que já fiz.

Não sei o que se passou; mas imagine S. Exa. que os excursionistas vinham cheios de sedas e outros objectos?

Quere S. Exa. que eu amanhã vá demitir ou castigar funcionários que cumpriram o seu dever?

Nenhuns conhecimentos, repito, tenho do que se passou; formulei apenas uma hipótese, e, assim, nenhuns elementos tenho para me associar a censuras ou a louvores á guarda fiscal.

Como pessoa reflectida, espero o inquérito, para saber se houve ou não excessos por parte da guarda fiscal

A questão, que aliás nenhuma importância tem, fica colocada neste pé.

Nesta questão apareceu, contudo, um caso especial. E que, entre as senhoras que foram objecto duma busca mais minuciosa, se encontrava uma senhora inglesa. E preciso dizer bem alto que nenhuma espécie de diferença há entre senhoras portuguesas, inglesas ou francesas, e não posso consentir, seja a quem for, que ponha a questão nesse pé. Isso seria abominável e daria a impressão de que o sentimento da dignidade nacional se apagou.

A diferença não é nenhuma: são mulheres, e se essa foi portadora de algodões que negou aos direitos, a lei ser-lhe há aplicada, pois os guardas apenas cumpriram o seu dever.”