Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

AÇORIANOS PERCORREM CAMINHOS DE SANTIAGO

Caminho Braga-Santiago percorrido pela primeira vez por grupo dos Açores

O grupo é constituído por oito elementos, três homens e cinco mulheres, com idades entre os 13 e 64 anos – embora a maioria esteja nas casa dos 40 anos – e profissões como professor, agente de execução ou coordenador de transportes públicos. Um deles reside em Ribeira Grande e os restantes em Ponta Delgada (ilha de São Miguel).

Caminho da Geira e dos Arrieiros 00 (Foto Henrique Malheiro).jpg

Uma das peregrinas é Rute Nunes e esta é a sua quinta peregrinação nos caminhos de Santiago. Escolheu o Caminho da Geira e dos Arrieiros pelo “facto de ser menos turístico e explorado que os anteriores, pela beleza natural e o cariz histórico”, conforme explicou este domingo, 14, à chegada a Lobios (Espanha).

“Está a corresponder inteiramente às minhas expectativas”, adiantou a açoriana, que foi “infetada pelo vírus peregrino desde a primeira peregrinação”.

Já Rui Machado explica que “as motivações de cada um são diferentes”. Uns são peregrinos, outros, como é seu próprio caso, estão a fazer o caminho “um pouco por turismo”.

Quem aconselhou o percurso foi Luís Guimarães, presidente do CALAG e natural de Vieira do Minho – cinco membros do grupo são naturais dos Açores e três migrantes do continente português. A jornada começou no dia 12 de abril – data em que o grupo foi recebido na União de Freguesias de Real, Dume e Semelhe - e o objetivo é chegarem a Santiago de Compostela no domingo de Páscoa (21 de abril).

Para Luís Guimarães, esta peregrinação, em que participam ainda Gracinda Martins, Maria Guedes, Andrea Soares, Jorge Lopes e Matilde Guimarães, “é um desafio, na medida em que se trata de um caminho duro, passando por zonas pouco habitadas, em que utilizamos o GPS e o Guia do Peregrino”, escrito por Carlos de Barreira e Henrique Malheiro.

“A amplitude da riqueza natural e patrimonial do Caminho da Geira e dos Arrieiros transporta-nos aos tempos ancestrais dos romanos e da construção da Catedral de Santiago de Compostela, percorrendo florestas, bosques e vinhedos, atravessados por rios largos e pequenos ribeiros, onde a nossa presença ainda surpreende os animais no seu ambiente natural. É um itinerário de espiritualidade, descoberta e aventura, que convida os peregrinos a regressarem ao verdadeiro Caminho”, escreve o jornalista Carlos Ferreira, no prefácio do guia.

A Câmara de Lagoa ofereceu aos peregrinos impermeáveis, t-shirts e cantis, apoio simbólico que, no entender de Nelson Santos, vereador com o pelouro do desporto e turismo, “é um reconhecimento por tudo o que o CALAG tem feito pelo concelho e pelo forte contributo que tem dado no desenvolvimento turístico com a divulgação e promoção dos trilhos lagoenses”.

A Associação do Caminho Jacobeu da Geira Minhoto Ribeiro e a Associação Codeseda Viva coordenam a investigação histórica, patrimonial, do traçado e sobre outros recursos necessários à validação do caminho [ainda não possui albergues, nem está marcado, pelo que deve usar-se GPS], um trabalho iniciado em 2009 que pretendem ver reconhecido com a oficialização do traçado até ao Ano Santo Jacobeu de 2021.

Este itinerário, também conhecido por Caminho da Geira Minhoto Ribeiro, foi percorrido por pelo menos 300 pessoas desde maio de 2017, estimando-se que o número cresça até 500 no corrente ano.

Caminho da Geira e dos Arrieiros 01 (Foto Rute Nunes).jpg

Caminho da Geira e dos Arrieiros 02 (Foto Rute Nunes).jpg

Caminho da Geira e dos Arrieiros 03 (Foto Rute Nunes).jpg

Caminho da Geira e dos Arrieiros 04 (Foto Rute Nunes).jpg

Caminho da Geira e dos Arrieiros 05 (Foto Rute Nunes).jpg

Caminho da Geira e dos Arrieiros 06 (Foto Rute Nunes).jpg

MUSEU DA EMIGRAÇÃO AÇORIANA: UM ESPAÇO DE MEMÓRIAS DA EMIGRAÇÃO PORTUGUESA

  • Crónica de Daniel Bastos

O historiador Daniel Bastos (esq.) no MEA-Museu da Emigração Açoriana, acompanhado de Rui Faria, coordenador do espaço museológico e presidente da AEA-Associação dos Emigrantes Açorianos, estabeleceu no início do presente mês de março uma parceria de cooperação com o MEA e tornou-se sócio da AEA.

Museu da Emigração Açoriana - Daniel Bastos e Rui Faria.JPG

A emigração tem sido ao longo do tempo um fenómeno constante no modo de vida de milhares de açorianos. Embora as suas origens remontem aos primórdios do povoamento do arquipélago português situado no Atlântico nordeste, o seu carácter sistemático consubstanciou-se entre os séculos XIX e XX com o surgimento dos cinco grandes destinos da emigração açoriana: Brasil, Estados Unidos da América, Bermudas, Havai e Canadá.

Atualmente estima-se que cerca de 1,5 milhões de açorianos e seus descendentes residam no estrangeiro, números reveladores da grandeza da diáspora açoriana, muito mais se considerarmos que residem no arquipélago cerca de 250 mil pessoas, e que ajudam a compreender a razão destas numerosas comunidades serem denominadas “a 10.ª ilha dos Açores”.

Como sustenta António Machado Pires, acerca da “Emigração, Cultura e Modo de Ser Açoriano”, os “açorianos da emigração são hoje, pelo seu número e pela sua diversidade, um vasto prolongamento da unidade e da diversidade dos Açores. São continuadores, descendentes, representantes de um conjunto de tradições, de uma língua e de uma cultura”.

A mundividência e relevância da diáspora açoriana encontram-se plasmadas na missão e objetivos do Museu da Emigração Açoriana. Inaugurado em 2005, no antigo Mercado de Peixe da Ribeira Grande, o espaço museológico, aberto à união de esforços e trabalhos em parceria no âmbito da história da emigração portuguesa, preserva através de fotografias, documentos, roupas e memórias de diversos tipos, as trajetórias de milhares de açorianos que ao longo do devir histórico saíram do arquipélago para o estrangeiro em busca de melhores condições de vida.

O Museu da Emigração Açoriana, ao estruturar uma visão geral sobre as razões e destinos da diáspora açoriana, constitui não só, um elemento-chave na história da emigração açoriana, como valida a sua considerável base de dados com fichas de emigrantes e os requerimentos para emigração realizados no século XIX. Como também representa um elemento-chave para a compreensão e identidade do arquipélago, e do demais território nacional, ou não fosse a emigração um fenómeno constante da vida portuguesa.

JOHN PHILIP SOUSA, UM INSIGNE LUSO-AMERICANO

  • Crónica de Daniel Bastos

No início do mês passado assinalaram-se os 164 anos do nascimento de John Philip Sousa, insigne compositor e maestro de banda luso-americano, do romantismo tardio, popularmente conhecido como “O Rei das Marchas”, como The Stars and Stripes Forever, marcha oficial dos Estados Unidos.

Elmer_Chickering_-_John_Philip_Sousa

John Philip Sousa nasceu em Washington, a 6 de novembro de 1854, terceiro dos dez filhos do português, natural dos Açores, João António Sousa e de uma austríaca, Marie Elisabeth Trinkaus. A sua precoce vocação musical levou a que ainda muito jovem se iniciasse nos estudos musicais, tocando violino, e aprendendo composição musical.

Em 1892, o musicógrafo luso-americano apresentou, em New Jersey, a sua própria banda, a “Sousa Band”, encetando um percurso musical fulgurante. Desde essa data até à década de 1930, realizou mais de quinze mil concertos, sendo que no ocaso do séc. XIX a sua banda representou os Estados Unidos da América na Exposição Universal de Paris.

Antes em 1888, tinha já composto a marcha “Semper Fidelis” que foi adotada como hino da Marinha dos Estados Unidos da América. A 14 de maio de 1897, em Filadélfia, no decurso da inauguração solene de uma estátua de George Washington, primeiro Presidente dos Estados Unidos da América, em que esteve presente o presidente norte-americano dessa época, William McKinley, foi tocada pela primeira vez em público a marcha intitulada The Stars and Stripes Forever (Estrelas e Barras para Sempre), considerada a obra-prima do luso-americano, e que mereceu as honras, por lei do Congresso dos Estados Unidos, de marcha nacional do país.

Afamado compositor e maestro, John Philip Sousa, escreveu também obras poéticas, de ficção, manuais, crónicas jornalísticas e uma autobiografia, tendo inclusivamente idealizado um instrumento de sopro da família dos metais, o Sousafone, uma tuba especial que o executante apoia no ombro para que possa executá-la enquanto anda ou marcha, e que é o maior dos instrumentos de sopro.

John Philip de Sousa, que faleceu no dia 6 de março de 1932, e foi sepultado com honras oficiais em Washington, no Cemitério do Congresso, é meritoriamente uma das figuras luso-americanas de maior destaque na cultura e história norte-americana.

MEMÓRIAS DE SÃO ROQUE DO FAIAL: AS VOZES DOS EMIGRANTES

30128522348_0068acc1a9_b

  • Crónica de Daniel Bastos

Na freguesia de São Roque do Faial, uma freguesia do concelho de Santana, ao norte da Ilha da Madeira, encravada na base do Maciço Montanhoso Central, entre a Ribeira da Metade e a Ribeira do Castelejo, está a ser dinamizado nos últimos anos um projeto comunitário singular em torno da temática da emigração.

Intitulado “Memórias de São Roque do Faial: as vozes dos emigrantes”, o projeto é fruto de uma ideia inspirada nos fluxos emigratórios desta povoação madeirense conhecida pela sua ruralidade e fantásticos miradouros. Esta realidade sócio histórica conduziu à criação de um espaço de partilha, conhecimento e informação sobre as tradições e cultura da freguesia com o principal objetivo de estabelecer um elo de ligação entre os residentes e emigrantes de São Roque do Faial.

Procurando preservar, respeitar e transmitir a cultura e tradição associada à pitoresca freguesia madeirense, bem como contactar diretamente e ativamente com os seus usos e costumes, de forma a manter vivas as tradições, como é o caso das vindimas, das romagens no Natal, das festas do verão, designadamente o dia do padroeiro S. Roque, das lendas e das imensas belezas naturais misturadas com aromas e cores, o projeto assenta parte significativa do seu trabalho no levantamento das histórias de vida e testemunhos dos emigrantes.

Não poderia ser de outra forma, porquanto numa povoação fortemente marcada pela emigração, como reconhecem os responsáveis do projeto comunitário, não há casa que não tenha família emigrante ou residentes que tenham sido emigrantes no Brasil, Venezuela, Austrália, África do Sul, Estados Unidos ou Inglaterra.

Neste sentido, este projeto comunitário que tem sido dinamizado ao longo dos últimos anos na freguesia de São Roque do Faial, reveste-se de um valor cultural de importância local, regional e nacional. Pois além de preservar aspetos culturais de carácter etnográfico da povoação e da região, e de divulgar junto das novas gerações a cultura tradicional, através da recolha e registo de usos e costumes, saberes e fazeres, histórias e memórias, existe um claro propósito de reconhecer, valorizar e dignificar as sucessivas gerações locais, que à imagem e semelhança de muitos compatriotas, um dia deixaram o país para demandarem outras paragens à procura de uma vida melhor.

CÂMARA DOS DEPUTADOS RECEBE, EM 1913, UMA REPRESENTAÇÃO RECLAMANDO CONTRA A FORMA COMO ERA FEITA A FISCALIZAÇÃO NO POSTO FRONTEIRIÇO DE VALENÇA

Os passageiros eram obrigados a sair da carruagem e levar as suas malas num longo percurso para serem minuciosa e demoradamente inspecionadas e as senhoras iam à “apalpadeira” e tinham de despir-se.

O deputado Alexandre de Barros, na sessão de 7 de Maio de 1913 da Câmara dos Deputados, apresentou um pedido de providências relativamente a um incidente ocorrido na Alfândega de Valença, questionando a forma como era feita a fiscalização nas alfândegas da raia. Na mesma sessão, Afonso Costa que acumulava o cargo de Presidente do Governo com o de Ministro das Finanças, informou que já havia ordenado um inquérito.

A referida Sessão parlamentar foi presidida por Simas Machado, um bracarense descendente de famílias açorianas que foi general e comandante da 2ª Divisão do Corpo Expedicionário Português na Primeira Guerra Mundial e cuja carreira terminou com a instauração da ditadura militar em 1926.

O referido debate consta do Diário da Câmara dos Deputados do qual transcrevemos as passagens que consideramos elucidativas, mantendo a grafia original, começando pela representação que lhe deu origem.

O General Simas Machado presidiu à Câmara dos Deputados

“Para a Secretaria.

Representações

Senhores Deputados. - Na qualidade de presidente dum grupo de 762 pessoas, que acabam de regressar duma visita à cidade de Vigo, numa excursão promovida pela Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Pôrto, venho, ao abrigo do artigo 32.° da Constituição Política da República Portuguesa, queixar-me da forma como êsse grupo foi, ao começo da madrugada de hoje, tratado no pôsto aduaneiro da estação do caminho de ferro de Valença.

Foi toda a gente, homens e senhoras, obrigada a sair das carruagens, a uma hora evidentemente incómoda, e a fazer um longo percurso levando as suas malas e mais objectos, sem atenção a que ninguêm é obrigado a fazer de carregador.

No pôsto fiscal a investigação das malas fez-se com delonga e minúcia, que estaria bem para descaminhadores e contrabandistas profissionais, mas não para quem vinha em simples excursão de recreio, em que, se alguma cousa se traz, é um ou outro objecto de diminuto valor, como recordação ou para presentear pessoas amigas.

Pois não só a pesquisa das malas se fez com irritante minúcia, mas, salvo raras excepções, que melhor se chamarão acasos foram revistados, um a um, os excursionistas, devendo dizer-se que, salvo excepções raríssimas, as senhoras (e havia muitas dezenas delas) foram obrigadas a ir à apalpadeira.

Não posso, Srs. Deputados, dizer-vos dum modo absoluto, que seja ilegal êste procedimento, mas nem tudo quanto não é ilegal deve consentir-se.

E, em todo o caso, o meio violento e vexatório de que se usou, só, excepcionalmente e individualmente, se justifica, quando há fundados motivos dalguma certa pessoa oferecer suspeita de pretender subtrair aos direitos algum objecto. Colectivamente considerado, o procedimento havido para com o grupo a que tive a honra de presidir foi duma grossaria inqualificável, que para honra do nosso pais é preciso que não se repita.

A grossaria chegou a ponto dalgumas senhoras serem forçadas a despir-se até a camisa. E, para maior vergonha nossa, um caso dêstes sucedeu com a senhora dum cidadão inglês que fazia parte da excursão e que indignadíssimo protestava contra a indecência de tal procedimento.

Escusa-se de pensar de turismo em Portugal, emquanto vergonhas destas se passarem.

Dignai-vos, Srs. Deputados, deliberar a êste respeito como o caso requere. Num pôsto fiscal de fronteira não basta o Código Aduaneiro, é preciso que, alêm de muita prudência, haja tambêm o código da delicadeza.

Saúde e Fraternidade.

Pôrto, 5 de Maio de 1913. = Bernardo Lucas.”

O deputado Alexandre de Barros pediu para intervir:

“Sr. Presidente: peço a V. Exa. a fineza de me inscrever para quando estiver presente o Sr. Ministro das Finanças, a fim de o interrogar sôbre o assunto do oficio que acaba de ser lido na mesa, para que S. Exa. diga como é feito o serviço da fiscalização da nossa fronteira.

Estas minhas considerações são por efeito dos factos que se passaram na Alfândega de Valença, de que reza a representação lida na mesa, e que consta do expediente.”

A intervenção do deputado Alexandre de Barros:

“Sr. Presidente: eu desejo fazer alguns reparos acêrca da maneira como se procedeu, quando regressou ao Pôrto, com alguns excursionistas que foram a Vigo.

Os factos que vou apontar merecem a atenção da Câmara, comquanto não sejam novos, e exigem que o Sr. Ministro das Finanças os mande averiguar, para que só veja como se exerce o serviço de fiscalização na fronteira.

Por Valença regressou um comboio com excursionistas, e procedeu-se com cies por uma forma desagradável e inconveniente; não se pode consentir que se tratem portugueses como inimigos dêste país, e êsses excursionistas foram tratados pior, como contrabandistas.

O Sr. Américo Olavo: - Mas há muita gente que se aproveita dessas excursões para fazer contrabando.

Nesta altura entra o Sr. Presidente do Ministério.

O Orador (continuando): - Folgo em ver já presente o Sr. Ministro das Finanças, para chamar a atenção de S. Exa. para o que vinha relatando à Câmara.

A entrada em Valença, portugueses que tinham ido a Vigo, numa excursão, foram tratados por forma inconveniente pela guarda fiscal. Não se tratou de exercer uma fiscalização, mas simplesmente de molestar. E natural que se exerça uma fiscalização conveniente, mas abusos não se podem permitir. Não foram só homens os molestados, mas tambêm senhoras, e uma delas de origem inglesa. Peço, portanto, as mais enérgicas providências.”

A intervenção de Afonso Costa, Presidente do Governo e Ministro das Finanças:

“Em primeiro lugar, peço desculpa a V. Exa., Sr. Presidente, e à Câmara, de não ter comparecido ao princípio da sessão, mas venho agora directamente de casa, onde, desde as oito horas, estive trabalhando em serviço do Estado.

Com relação ao caso de que se trata, procedi como me competia.

Ante ontem à noite, estando em casa do Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros, assistindo a um jantar que êle oferecia, recebi um telegrama do Sr. Bernardo Lucas, dizendo que tinha ido a uma excursão a Vigo, onde foi recebido bem, mas que fora mal recebido na fronteira portuguesa, com ofensas ás senhoras que iam na excursão.

Imediatamente mandei um telegrama a S. Exa., dizendo que ia já providenciar, agradecendo-lhe tambêm a propaganda que tinha feito em terra estrangeira.

Os jornais do Pôrto deram uma larga documentação do facto.

Ontem soube que o Sr. Ministro da Guerra deu ordens terminantes ao comandante da guarda fiscal daquele distrito para dar as providências necessárias. E, hoje, recebi um ofício do Sr. Dr. Bernardo Lucas, narrando os factos.

Imediatamente o enviei àquele comandante, a fim de levantar o respectivo processo; e tambêm dei ordem para que não houvesse na fronteira embaraços às excursões.

Pede o Sr. Alexandre de Barros que eu mande verificar os factos e castigar aqueles que o mereçam.

E o que já fiz.

Não sei o que se passou; mas imagine S. Exa. que os excursionistas vinham cheios de sedas e outros objectos?

Quere S. Exa. que eu amanhã vá demitir ou castigar funcionários que cumpriram o seu dever?

Nenhuns conhecimentos, repito, tenho do que se passou; formulei apenas uma hipótese, e, assim, nenhuns elementos tenho para me associar a censuras ou a louvores á guarda fiscal.

Como pessoa reflectida, espero o inquérito, para saber se houve ou não excessos por parte da guarda fiscal

A questão, que aliás nenhuma importância tem, fica colocada neste pé.

Nesta questão apareceu, contudo, um caso especial. E que, entre as senhoras que foram objecto duma busca mais minuciosa, se encontrava uma senhora inglesa. E preciso dizer bem alto que nenhuma espécie de diferença há entre senhoras portuguesas, inglesas ou francesas, e não posso consentir, seja a quem for, que ponha a questão nesse pé. Isso seria abominável e daria a impressão de que o sentimento da dignidade nacional se apagou.

A diferença não é nenhuma: são mulheres, e se essa foi portadora de algodões que negou aos direitos, a lei ser-lhe há aplicada, pois os guardas apenas cumpriram o seu dever.”