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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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REVOLUCIONÁRIOS DA REPÚBLICA DERAM FESTIM NA ROTUNDA

Passam hoje precisamente 106 anos desde a implantação da República em Portugal. Após uma série de escaramuças em diversos pontos da cidade e alguns tiros travados entre um punhado de soldados e meia centena de carbonários entrincheirados na Rotunda e as tropas monárquicas estacionadas no Rossio, o novo regime foi aclamado da varanda dos Paços do Concelho, em Lisboa.

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A imagem mostra o reduzido número de militares e civis que permaneceram no acampamento da Rotunda nos dias da Revolução.

 

Pelo meio, registaram-se numerosos incidentes e equívocos, de entre os quais se salienta a tentativa do embaixador alemão negociar com ambas as forças em confronto, a retirada em segurança do pessoal diplomático, atitude que ao ser avistada uma bandeira branca subindo o que é agora a avenida da Liberdade, foi confundida como uma rendição, o que acabaria precipitando o desfecho dos acontecimentos.

Já em 1640, perante a hesitação do Duque de Bragança em deixar-se aclamar rei pelos conspiradores que restauraram a independência de Portugal face ao domínio espanhol, colocara-se a hipótese de se implantar o regime republicano no nosso país. Porém, foi no Porto, em 31 de Janeiro de 1891, que ocorreu o primeiro movimento revolucionário destinado a implantar o regime republicano, tentativa que resultou em fracasso. O mesmo veio a verificar-se com nova tentativa ocorrida em 28 de Janeiro de 1908, do qual resultou o assassinato do rei do Rei D. Carlos, quatro dias após falhado o golpe.

Nas vésperas do dia aprazado para o desencadear da revolução, afluíram a Lisboa “primos” provenientes dos mais diversos pontos do país para participarem no levantamento. Cortaram as comunicações e as linhas férreas para impedir que as unidades militares na província fossem em socorro das forças leiais à monarquia. No dia 4 de Outubro, algumas localidades como Loures e Aldeia Galega, actual Montijo, proclamaram a República como manobra de diversão. Ainda assim, a revolta republicana foi dada como perdida, tendo inclusive levado ao suicídio de um dos seus principais chefes, o Almirante Cândido dos Reis.

Valeu à República um punhado de soldados e meia centena de carbonários que se entrincheiraram às ordens do Comissário Naval Machado dos Santos. Os políticos aguardavam nos Banhos de São Paulo o sucesso dos acontecimentos para então dirigirem-se aos Paços do Concelho e aí proclamarem a implantação do novo regime que os haveria de alcandorar ao poder.

Uma vez alcançado cessadas as hostilidades, os mais ardorosos combatentes travaram-se de novas e mais suculentas batalhas, atacando alvos mais comestíveis e nutritivos. O acampamento da Rotunda manteve-se por mais cinco dias que foram preenchidos com a realização de um autêntico festim que, a avaliar pelas quantidades de alimentos digeridos, reuniu largas centenas de comensais que, não tendo embora participado directamente nos combates, não quiseram deixar os seus créditos de bravura por mãos alheias.

Desse extraordinário sucesso dá-nos conta a insuspeita revista “Ilustração Portugueza”, na sua edição de 7 de novembro de 1910, sob o curioso título “Subsídios photographicos para a História da Revolução”:

O reducto da Avenida, que foi o verdadeiro baluarte da republica, offereceu aspectos deveras curiosos, mesmo depois de passados os combates. Durante os dias que os soldados e os civis ali se encontraram foi montado um serviço regular de subsistências, confeccionando-se em improvisadas cosinhas, rancho de que partilharam todos os que lá se tinham juntado nos dias da revolta. Na manhã do dia seis foram cozinhadas no acampamento duas mil pescadas em nove fogões de campanha e desde que se estabeleceu o serviço regular até ao dia 10, em que se retiraram os militares e paisanos, consumiu-se dez mil kilos de carne de vacca e quarenta mil kilos de pão, não sendo possível averiguar o numero de pessoas que foram alimentadas durante esse tempo na rotunda que se tornou um logar histórico”.- Não mencionou o cronista quantos litros de vinho regaram tão lauto repasto!

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A confecção do rancho no acampamento da Rotunda. O corneteiro, ao centro, aguardando ordens para tocar para o rancho…

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Os cestos com as duas mil pescadas. Um aspecto da confraternização. À esquerda vê-se um militar agarrado à sua namorada.