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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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QUEM QUER PROVAR O ARROZ DE SARRABULHO À MANEIRA VEM A PONTE DE LIMA ENTRE 23 E 25 DE JANEIRO

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Permanecem insondáveis e indecifráveis os designíos que levaram o navegador Cristóvão Colombo até ao continente americano – terra onde não encontrou as tão ambicionadas especiarias nem os árabes que até então as negociavam! – abrindo caminho à celebração do Tratado de Tordesilhas e, como ele, ao caminho marítimo para a Índia por parte dos portugueses. Mas, o que se sabe é que foi graças à colonização da América que a cultura do milho, até então denominada por “trigo índio”, chegou até nós desde os finais do século XIV e, beneficiando das condições ambientais implantou-se no Minho e em todo o noroeste peninsular.

A abundância de água foi determinante e fez com que o milho depressa entrasse na nossa dieta alimentar, desde a confecção da brôa ao caldo – aquilo a que usualmente designamos por “papas de sarrabulho”. E, a adesão do minhoto a este novo alimento foi a tal ponto que, por onde passasse, passou a ser apelidado de “pica-milho”.

Por seu turno, apesar do arroz ter sido introduzido na Península Ibérica pelos muçulmanos e os portugueses terem tido contacto com esta cultura no Japão de onde era originária, desde meados do século XVI, só a partir do século XVIII surge documentação a seu respeito registando o seu cultivo nos campos alagadiços do Ribatejo.

Também aqui intervêm o clima e a orografia que neste caso dificultam o cultivo do arroz na nossa região, tornando as planícies junto aos rios Mondego, Tejo, Sorraia, Sado e Mira as suas áreas preferidas. Isso determinou que a introdução do arroz nos hábitos alimentares dos minhotos tivésse sido relativamente recente.

Porém, tal não impediu que, do tradicional caldo, os limianos não reinventassem com êxito tão sublime iguaria que faz a delícia dos melhores apreciadores da nossa cozinha tradicional – o arroz de sarrabulho com rojões à moda de Ponte de Lima!

Foi em meados do século XIX que, pelas mãos hábeis da cozinheira Clara Penha esta magnífica tela de sabores foi criada, tendo passado o testemunho a Belozinda Varela. E, desde então, não deixou de aumentar o número de devotos que anualmente acorrem a Ponte de Lima ou promovem mesmo em terras distantes a degustação desta especialidade gastronómica, com rituais de uma verdadeira liturgia.

A sua denominação oficial é Sarrabulho à moda de Ponte de Lima. E, para além da travessa com o arroz de sarrabulho propriamente dito, servido rigorosamente no ponto da cozedura, outro prato acompanha com as miudezas, as batatas assadas, belouras, tripa de farinha, fígado fatiado, chouriça de cebola ou sarrabulha… tudo bem regado com uma malga do melhor vinho verde da nossa região!

Quem nunca degustou o Sarrabulho à Moda de Ponte de Lima jamais conhece um dos mais divinais paladares gastronómicos do Minho!

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Porém, o Concelho de Ponte de Lima é terra de velhos pergaminhos que honra a História e preserva a tradição. Por conseguinte, por maior que seja o sucesso que logra alcançar com esta especialidade gastronómica, jamais poderá olvidar as suas origens e as autênticas raízes da sua cozinha tradicional É que, em Ponte de Lima, noutros tempos, também se comiam papas de sarrabulho!

Sucede que o milho foi trazido para a Europa na sequência da colonização da América iniciada no século XVI, após a chegada de Cristóvão Colombo e, enquanto a sua cultura se implantou no noroeste peninsular desde essa altura, tirando partido das excelentes condições hidrológicas e climáticas da região, o arroz apenas se tornou conhecido na nossa região a partir dos finais do século XIX graças ao desenvolvimento das vias de comunicação. Até então, o seu cultivo apenas era feito a partir nas margens dos rios, do Mondego para o Sul onde as temperaturas são mais amenas e, por conseguinte, mais propícias a esta cultura.

Ao longo de cinco séculos, a cultura do milho marcou de tal forma os hábitos e a paisagem rural do Minho que se tornou indissociável do modo de ser do minhoto. Desde os caraterísticos espigueiros ao folclore e à culinária, o milho está sempre presente na nossa cultura tradicional. E Ponte de Lima não é exceção!

Tal como outrora sucedia noutras terras em redor, também em Ponte de Lima o sarrabulho era servido com farinha de milho, formando as afamadas “papas de sarrabulho”. De resto, é o próprio historiador Adelino Tito de Morais, membro da Confraria do Arroz de Sarrabulho de Ponte de Lima, que o afirma: “o sarrabulho deu lugar ao arroz de sarrabulho na Vila de Ponte de Lima, após o casamento de Pedro Joaquim dos Santos com Clara Rosa Penha. Manuel Dias vai, antes, para duas famílias de apelidos Lima, oriunda da Feitosa e Barros, talvez de Brandara, que lançaram as fortes raízes no final do séc. XIX”.

Quer isto dizer que em Ponte de Lima não existe apenas “arroz de sarrabulho” – ela é também a terra das “papas de sarrabulho” e, como tal, deveria preservar a sua tradição!

Ao forasteiro que visita deve ser-lhe apresentado aquilo que realmente a terra possui para lhe oferecer, incluindo as antigas iguarias da nossa culinária, muitas das quais já desaparecidas na voragem do tempo como sucede com a castanha que foi em tempos idos a base da nossa alimentação. Ponte de Lima possui uma cozinha extraordinariamente rica que também faz parte do nosso património cultural.

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