PONTE DE LIMA: O QUE DISSE FRANCISCO SAMPAIO A RESPEITO DAS FEIRAS NOVAS?

As tradicionais Feiras Novas, a que Ponte de Lima ajunta cabedais para ser a mais castiça e a mais colorida de Portugal e faz gala disso, tem já a linda idade de 171 anos, pois foram criadas pelo Rei D. Pedro IV por provisão de 5 de Maio de 1826.
Durante muito tempo se chamavam as Festas de Nossa Senhora das Dores e documentos há que as remontam ao ano de 1792.
“Para dar maior solenidade às Festas das Dores” são criadas, então, as Feiras Novas, que no documento régio se estabeleciam nos dias 19, 20 e 21 de Setembro de cada ano.
Feiras Novas, porquê? Para as distinguirem das Feiras Velhas que essas são as mais antigas do Reino, já referenciadas no foral da Condessa D. Teresa, concedido a Ponte de Lima em 4 de Março de 1125 e que se realizam às segundas-feiras, de quinze em quinze dias. Os limianos às segundas-feiras que não são “dia de feira” chamam-lhes de “solteiras”.
Por acordo celebrado, há cerca de cinquenta anos, entre a Câmara Municipal e o Grémio do Comércio de Ponte de Lima as “Feiras Novaas” passaram a realizar-se no terceiro fim de semana de Setembro (Sábado, Domingo e Segunda).
Falar-vos de Ponte de Lima, é, também, motivo para relembrar esta terra “velhinha” de séculos que teve os seus primórdios numa “velha” via romana feita ao tempo de Augusto e de uma ponte que até deu o nome à terra: Ponte de Lima.
Por isso, ficamos contentes quando, soubemos das intenções da Edilidade por “a nu” os cinco arcos romanos do extremo norte por onde passaram as “centúrias” da “paz de Augusto” e que vão tornar ainda mais valorizada a romana/medieva Ponte.
Foi, por isso, quiçá, que a nossa Condessa D. Tareja quis fazer de “ponte” uma “Vila sua” para “estorvar” aquilo que já, em 1121, sucedera quando viu invadido o “seu” condado e as “suas” terras pela irmã D. Urraca acompanhada do famoso Arcebispo D. Gelmires.
A criação da “vila”, a entrega do foral, o estabelecimento da “feira” e as sanções aplicadas “se (alguém) fizer mal aos homens que de qualquer terra vierem à feira, tanto na ida como na vinda, pague sessenta soldos”, são algumas das intenções de D. Tareja em “fixar” aqui mais gente, inclusive, estabelecendo que, das “terras rotas” (cultivadas) se pagasse o terço, das não rotas, um quinto, um claro estímulo aos lavradores para que cultivassem as terras, a maior parte ainda “ermas” dos tempos da Reconquista.
E logo ali ficou marcada a história da Vila pois, do lado da margem direita (Refoios, Arcozelo, Calheiros, Brandara), ficaram as “honras” e os “solares” da Ribeira Lima; na margem esquerda, os “reguengos” e os “coutos” (Correlhã, Feitosa, Arca).
Fidalgos e guerreiros que não perdoam à Condessa a sua ligação com os Travas e que fazem causa comum na rebelião do filho (D. Afonso Henriques) contra a mãe juntando-se aos Senhores da Maia, lutando pela emancipação de Portugal!
Vai ser no entanto D. Pedro I, quem dá novo foral e novo impulso à Vila. Reconstroi-se a ponte, circunda-se a Vila de muralhas com nove portas e outras tantas torres.
Nove portas significam nove caminhos e isso, diz-nos bem, do centro de comunicações que já naquele tempoera Ponte de Lima.
Mas voltemos à “Feira”.
Não mudo de local até aos dias de hoje e bem será que fique sempre no “areal”.
Fazia-se no largo do Souto que, ao tempo de D. Pedro I e porque estava no caminho para o litoral, mereceu torre e porta com o mesmo nome. Conforme gravura da época podem ver-se dezenas de carvalhos e castanheiros, a demarcar o “souto” até ao rio.
Ao meio, o chafariz que João Lopes – o Moço construiu e que, por deliberação da Câmara de 1929, transitou para o largo de Camões. Ao lado, o Hospital de Peregrinos, pois Ponte de Lima foi e é Caminho de Santiago. Mais ao nascente era a porta e a torre de S. João, no lado de Ponte da Barca e que com a torre de Braga, fazia o eixo das mais importantes ligações tendo como já vimos o largo do Souto, a “feira” com o seu espaço nuclear.
Centenas de anos passados, em tempo de “Feiras Novas” ou de “Feiras Velhas” é sempre uma “Santa Feira”.
Dia de Feira, dia de “trocas”, dia de mercado, mas dia “santo”, dia de “féria”.
Por isso, as Feiras Novas são, também, Dia de Festa, Dia Santo, Dia de Romaria, mas e, acima de tudo, “Feiras Francas”.
O programa é a preceito.
Mete corrida de garranos e desfile de fanfarras, filarmónicas e Cortejo Etnográfico, Cortejo Histórico, Festival Folclórico, missa solene – a grande instrumental – e “imponente procissão”.
Junte-se-lhe as Feiras Francas, todos os dias pela manhã, a “feira das lavradeiras”, das primícias da terra, dos usos e costumes, das tendas, do artesanato.
A Feira do “gado” a montante da ponte. Dos “garranos”, na Alameda de S. João. E da parte de tarde a feira “dos namorados”!
Se acrescentarmos a este programa de “Feiras Novas” os fogos de artifício e, sobretudo, aquele dedo de conversa que nos faz abancar e beber do bom “vinho verde” nas tasquinhas, que são autênticas “universidades” na arte de bem receber os “forasteiros”, seja nos paladares de uma cozinha que tem já foro de cidadania e em que o “sarrabulho” é rei, ou nas concertinas que noite fora nos trazem a alacridade e o bulício dos descantes, dir-vos-ei que “Feiras Novas são, de facto, um chamariz a não perder em fim de Ciclo das Festas do Alto Minho, até para terminar bem aquilo que o povo apregoa:
“Quem nas romarias quiser andar pelo Santo Amaro tem de começar”.
Eu termino nas Feiras Novas!
Fonte: Francisco Sampaio in “Alto Minho – Região de Turismo”. Casa do Concelho de Ponte de Lima, Lisboa, 1997.
![]()