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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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PONTE DE LIMA: 900 ANOS DE UMA NOBRE TERRA POPULAR – OPINIÃO DE GIL E. DO LAGO

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Não somos nós que escolhemos os lugares, eles escolhem-nos, dizem. Não sei se é assim mas sei que os limianos não se importam de terem sido escolhidos por Ponte de Lima. Normalmente todos os nativos têm orgulho da sua terra, é a mais bonita, especial, a mais importante, á sua maneira pelo menos. Mas várias vezes reflecti se esse orgulho que nós limianos temos era só por um sentimento de pertença ou se realmente haveria algo mais. Sinceramente, e com essa declaração de interesses limiana à parte, realmente sinto essa importância de ser limiano.

Até porque basta estudar um bocadinho sobre a história de Ponte de Lima. A História é factual, não é um sentimento. Começando logo por esta comemoração, 900 anos é especial. Muito.

E o melhor é que os limianos vivem isso sem soberba, só com orgulho, honra e responsabilidade dessa pertença.

Somos uma das povoações mais antigas, anteriores à nacionalidade, nomeada já no Condado Portucalense, e temos uma das mais completas, relevantes e longevas feiras do país, duas das maiores manifestações culturais e populares de Portugal, as Feiras Novas e a Vaca das Cordas, temos um prato gastronómico próprio, o sarrabulho, um dos mais importantes monumentos nacionais, a ponte românico/medieval.

E depois, estamos no Alto Minho, uma das regiões mais bonitas da Península Ibérica. Do mundo, diz o limiano.

Somos terra de ilustres figuras históricas nacionais. Políticos, juristas, escritores, homens de cultura e ciência. Beato Francisco Pacheco, Cardeal Saraiva, António Feijó, Norton de Matos, Conde de Aurora, só para enumerar uma ínfima parte. É uma honra pertencer a uma terra de tão ilustres figuras.

A minha Ponte de Lima

Cresci no centro da vila, na artéria que deve o seu nome pela proximidade à Igreja Matriz, e que tal como outras artérias na confluência da abadia paroquial, pertencia na altura ainda aos carros. Rua do Souto, Cardeal Saraiva, Rua da Abadia, Rua Manuel Morais, Largo de S. José, Rua da Matriz, todas tinham trânsito. Ruelas características como já não há, todas em paralelo com passeios estreitos e encarquilhados. Morei na Rua da Abadia até quase à adolescência - depois fui para a Feitosa. Aí conheci a Ponte de Lima das aldeias, dos campos e dos caminhos, e que hoje já tem nuances do crescimento da urbe que é a vila. A minha Ponte de Lima era a das ruas de comércio, tradicional, de mercearias, padarias, pastelarias, roupas e tecidos.. Como em qualquer localidade, a urbe foi-se transformando, o concelho foi-se transformando. Mas a identidade ficou sempre, os costumes, a chieira.

Quando jovem, uma das coisas que me fazia sentir mais orgulho como limiano era as Feiras Novas. Além de ser a melhor altura do ano, as Feiras Novas eram um cartão de visita para todo o norte, sempre elogiada quando dizíamos ser de Ponte de Lima. E é especial não só por ser uma festa grande, mas também por ser a montra viva e dinâmica do que é ser desta terra. Como bom anfitrião dei a conhecer as Feiras Novas a vários colegas de fora.

Como jornalista tive o privilégio de, em diferentes fases, exercer a profissão ao nível regional. Conheci obviamente muitas coisas do concelho. O foral é da vila mas a vila é feita também pelo concelho, pelas suas freguesias. Conheci mais a minha terra, a cada reportagem, a cada entrevista, a estudar a história que temos. Conheci e compreendi quem todos os dias contribui para o que somos como terra. Convivi com muitos protagonistas que fizeram a história da vila, desde artistas, desportistas, passando por cantadores ao desafio a políticos, até por quem dedicou toda a vida a uma arte ou uma causa. Somos uma região de ilústres mas a maior parte de quem faz um povo é a gente comum. Afinal, somos todos gente comum, que diariamente fazemos um lugar, uma aldeia, uma vila, um concelho.

Esta é uma terra de nobre humilde gente e gente nobre que determinadamente expandiu o limianismo. Terra de solares e paços como não há em Portugal, mas com cada pedaço de terra trabalhada e orgulho na sua ruralidade. Permanece um concelho bastante rural mas não se importa. A vila no entanto, expande-se nas aforas, ganhando um sentido sério de urbanidade, guardando no entanto religiosamente o seu graal que é o casco histórico, que tem de permanecer intocável como um tesouro. Temos já uma vila nova a uma vila antiga. Se não forem cometidos exagerados erros de crescimento convivem bem.

Mas vila, essa vila dos 900 anos, essa vila das ruelas e dos imponentes casarões, da milenar e característica ponte estendida pelo Lima, do Arrabalde, das Pereiras, do Largo de Camões, da Rua Beato Francisco Pacheco, do “Passeio”junto ao areal, da Igreja Matriz e do seu largo, das muralhas da “Cadeia”, da Rua do Souto, da Avenida dos Plátanos, do Pinheiro e da Lapa, da Avenida D. Teresa (a rainha “limiana”).. etc. etc.., essa é a do casco histórico, da nossa história. Esse tesouro encantado qual Ovo Fabergé. E depois, ver desde a Além da Ponte (que é também como que parte da vila) as fachadas em frente ao rio ao pôr-do-sol, é por si só uma das sete maravilhas em postal.

Futuro

Embora seja para falar de aniversário, ele celebra-se porque há presente, e sobre o presente poderia ser altura de ver mais a sério a possibilidade de sermos mais ousados em ter um importante símbolo arquitectónico como imagem de marca da contemporaneidade do concelho, de estrearmos encontros de arte ou festivais (escrita, fotografia, cinema) que acompanhem o que os tempos pedem e há muito são o presente, não o futuro.

Por outro lado penso que se poderia conciliar um espaço verde para lazer na parte histórica. Não só para ver e apreciar, mas para usufruir, estar. E, apesar de alguns monumentos mais recentes estarem à altura, deveria haver mais critério nos apontamentos esculturais que pontuam a vila, para se coadunarem mais com a grandeza histórica da vila.  Em suma, parabéns a Ponte de Lima, parabéns a nós, e obrigado a quem fez desta vila o que é hoje. E depois, e não sei se estão comigo nisto, acho que Ponte de Lima está para Portugal como Portugal está para o mundo, há sempre um limiano onde menos se espera. Na lua ainda não sei, não fui…

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