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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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OS VIMARANENSES NA BATALHA DE LA LYS

(participação vimaranense na 1 ªGuerra Mundial por Álvaro Nunes - Foto da Bandeira do regimento vimaranense )

No próximo dia 9 de Abril perpassa mais um ano sobre a ocorrência da trágica Batalha de La Lys, ocorrida em 1918, que as tropas do Regimento de Infantaria nº. 20, aquarteladas nos Paços dos Duques de Bragança, em Guimarães, travaram fatidicamente na região da Flandres.

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De facto, La Lys foi para as tropas portuguesas um enorme desastre, talvez e apenas superável por Alcácer Quibir, em 1578. Efetivamente, “La Lys resultou numa verdadeira tragédia para o Batalhão de Infantaria nº. 20, que num só dia viu o seu número de efetivos reduzidos para 300 homens”, como escreve o major Dorbalino Martins no seu “Estudo de pesquisa sobre a intervenção portuguesa na I Guerra Mundial (1914-1918), na Flandres”.

Com efeito, rezam as crónicas que neste confronto e defesa do sector de Fauquissart terão perecido 21 oficiais e 725 praças de infantaria 20, nos dois dias do embate.

Não foi porém por falta de coragem que tudo correu mal. Com efeito quer infantaria 20, quer os demais regimentos de Braga e Viana do Castelo que constituíam a denominada “Brigada do Minho”, bateram-se valentemente na frente de combate, apesar da inferioridade numérica e deficientes meios e apoios. Além disso, neste combate desigual, os portugueses não puderam contar com os ingleses, que recuaram as suas posições e desguarneceram os flancos. Ademais, encontravam-se completamente desanimados e exaustos, pois a sua substituição na linha da frente tardara e havia sido adiada por falta de barcos. Provavelmente estes fatores teriam sido do conhecimento do inimigo, que matreiramente desencadeou esta ofensiva poderosa e desesperada, antes da chegada das tropas americanas à Europa.

Mas Guimarães sempre esteve com o seu regimento, ao qual pertencera Raul Brandão, anos antes. Orgulhou-se até do louvor que as autoridades militares lhe tributaram, dias antes, durante a investida alemã de 12 de março, no qual se ria exarado: “que o batalhão de infantaria nº. 20 seja louvado pela disciplina, coragem e bravura com que repeliu o inimigo no violento ataque de 12 do corrente, não permitindo que ele tomasse um só elemento da linha A”.

Com efeito, a cidade sempre esteve com o coração nas mãos pelo seu regimento, desde o dia da despedida na estação de caminho de ferro de Guimarães, em 22 de maio de 1917, rumo ao porto de Brest., assim descrito no Comércio de Guimarães:

“(…) A partida destes 1200 homens, na sua quase totalidade tirados à lavoura, ao comércio e à indústria, como era de esperar, encheu de emoção a cidade de D. Afonso Henriques. Durante horas e horas Guimarães parecia mergulhada nas trevas dum grande luto, duma grande dor. Para cima de vinte mil pessoas assistiram à partida (…)”-

E chorou igualmente as perdas dos seus entes queridos, como o noticia o citado periódico, a propósito do falecimento em combate do capitão José Vieira Faria, militar das campanhas de África e “estimadíssimo conterrâneo”.

Realmente vários vimaranenses tombaram para sempre na Flandres, cujos nomes estão hoje perpetuados no monumento e mausoléu erigido no cemitério da Atouguia e recordados na toponímica local, como são o caso a Rua dos Combatentes da Grande Guerra e da Rua Capitão Alfredo Guimarães (1884-1918), vimaranense cujo corpo repousa no cemitério português de Richebourg, em França, entre muitos dos cerca de 7 mil portugueses falecidos em combate.

Todavia, a cidade nunca se esqueceu do seu regimento a quem sempre prestou preito. Assim foi, em 1924, no decurso das Festas Gualterianas com a organização do cortejo que do Toural seguiu até ao Paço dos Duques, aí descerrando uma lápide evocativa, removida em 1940, após as obras de restauro no palácio. Assim foi também em 1927, com a condecoração da bandeira de infantaria 20, pelos feitos dos seus soldados.

Condecorações a que se acrescentaria a Cruz de Guerra de 1ª. Classe que o Ministério da Guerra também lhe atribuiria em 21 de abril de 1923 e 31 de março de 1926, “atendendo aos brilhantes feitos” e “forma brilhante e corajosa firmeza e resistência “ demonstradas na frente de combate.

A paz chegaria porém a 9 de novembro de 1918 e a cidade rejubilaria em manifestações de rua, casas embandeiradas e repiques de sinos, abrilhantados pelos acordes da Nova Filarmónica Vimaranense.

No entanto, o Regimento de Infantaria nº. 20 tão querido à cidade, quer nas festas quer nas horas de luto, acabaria por não resistir às guerras políticas internas. Deste modo, acabaria por ser extinto por Salazar, em 1927, após longos anos de prestimosos serviços prestados, que recuam à data da sua criação por carta régia de 5 de novembro de 1884: o chamado ano de ouro de Guimarães.

Quanto às razões subjacentes para esta extinção, especula-se que terão “fundamentação” na rebelião que esta unidade militar assumiu contra a ditadura militar, em fevereiro de 1927. Porém, segundo um documento manuscrito do alferes Silvestre José Barreira (1876-1929), um dos sobreviventes de La Lys, porque na altura estava ausente da frente de combate devido a internamento hospitalar, parece não haver dúvidas sobre outra eventual causa da extinção: a recusa do regimento de infantaria 20 em aderir ao golpe militar de 28 de maio de 1926, desencadeado a partir de Braga.

Transcrevemos o citado apontamento desse diário, facultado pelo seu neto Silvestre Barreira, datado de 28 de maio, para que dele se retirem as devidas ilações:

“ Dia em que teve início um movimento revolucionário militar, chefiado pelo general Gomes da Costa que para tal veio para Braga em 27. Fui convidado para entrar neste movimento na noite de 27; recusei-me, bem como todos os oficiais de infª. 20, recusa que todos mantiveram até final exceto o cap. Machado, tenente Matos e alferes Pinheiro, que por motivos de última hora foram levados a aderir”.

La Lys e infantaria 20 seriam evocados nesse mês e ano do centenário na Casa da Memória de Guimarães. Recordações de um passado mais recente, mas obviamente relevante, que os vimaranenses deverão evocar, porque , apesar de disfóricos, estão na primeira linha da nossa história

Fonte: https://www.facebook.com/correiodahistoria.pt