OS JUDEUS SÃO NOSSOS IRMÃOS – QUEM ERAM OS JUDEUS MINHOTOS?
Ponte de Lima: Arco da Porta Nova que dava acesso à Judiaria (Foto: Wikipédia)
Ao longo da História, várias foram as comunidades judaicas que se estabeleceram no Minho, nomeadamente em Braga, Guimarães, Viana do Castelo, Barcelos e Ponte de Lima. A elas se deve nomeadamente o incremento do comércio, das feiras medievais e do artesanato local.
Foram os judeus os principais organizadores da feira de Ponte de Lima cuja importância justificou a atribuição do foral por D. Teresa em 1125, a qual veio a registar u desenvolvimento notável nos séculos XIV e XV.
Em Ponte de Lima, viviam intramuros e o acesso à Judiaria fazia-se pela então Rua da Judiaria – atual Rua da Porta Nova – através do Arco da Porta Nova junto à torre da Cadeia Velha que ainda se conserva.
Aos judeus minhotos se deve em grande medida o incremento da economia local. Eram eles os mercadores e artesãos que abasteciam o comércio e contribuíram para o progresso da cidades e vilas ao tempo da Idade Média.
Em Viana do Castelo, foram muitos os judeus que na época dos Descobrimentos se fizeram mercadores e navegadores dedicando-se ao comércio sobretudo com os países do norte da Europa onde vieram a constituir feitorias nomeadamente em Antuérpia e a comunidade judaica de Amesterdão onde ergueu a magnífica Sinagoga Portuguesa que ainda é uma referência turística daquela cidade.
As marcas que deixaram em Viana da Foz do Lima – atual Viana do Castelo – levaram em 1442 os procuradores a requereram ao rei D. Afonso V a delimitação do bairro dos judeus que ocupava, na altura, uma das maiores praças do centro histórico.
Mas não foi somente no tecido urbano que os judeus deixaram a suas marcas. Eles possuíam os seus lugares de culto e interagiam frequentemente com as procissões e outras celebrações cristãs. A própria romaria de São Bartolomeu do Mar, no concelho de Esposende – que à época integrava o concelho de Barcelos – denuncia em grande medida influências de práticas dos cristãos-novos, judeus alegadamente convertidos ao Cristianismo.
Apesar de uma convivência pacífica, o período do estabelecimento da Inquisição levou à denúncia ao Tribunal do Santo Ofício de muitos judeus (cristãos-novos) pela prática de judaísmo, quem sabe na maioria dos casos tais perseguições motivadas por invejas e interesses pessoais. Muitos demandaram outras paragens a fim de escapar à intolerância religiosa. Os que ficaram, são atualmente tão minhotos como nós!

Todos os anos, por ocasião da festa litúrgica a São Bartolomeu que se celebra a 24 de agosto, vão as gentes Esposende em romaria à igreja do santo padroeiro da freguesia de Mar – São Bartolomeu do Mar – para invocar a sua proteção contra o medo e outros males atribuídos ao diabo como a epilepsia e a gaguez. Reza a lenda que, nesse dia, São Bartolomeu solta o diabo que durante o resto do ano traz preso, simbolizado num cão que mantém com uma trela.
Os romeiros levam os filhos transportando consigo ao colo uma galinha preta, dando três voltas em redor da capela antes de nela entrarem procederem á oferenda sacrificial, após o que colocam na cabeça a imagem de São Bartolomeu. Uma vez cumprido o ritual, encaminham-se para a praia onde terá lugar o “banho santo” das crianças nas águas gélidas e purificadoras do mar – aonde o diabo regressará ao anoitecer – que, com a ajuda do sargaceiro, é imersa por diversas vezes, contadas as ondas sempre em número ímpar.
A romaria de São Bartolomeu do Mar aparece documentada desde o século XVI, muito embora evidencie marcas de ancestralidade, devendo muito provavelmente ter tido a sua origem nalgum culto a uma divindade numa época anterior à cristianização dos povos peninsulares. De resto, a associação do cão à representação do diabo remete-nos para a figura do cão tricéfalo guardião do Hades que nos é descrita pela mitologia clássica. Porém, o ritual de exorcização com recurso à galinha preta ter-se-á originado de uma influência mais tardia, muito provavelmente de raiz judaica.
Quando em 1496, o rei D. Manuel ordenou a conversão dos judeus ao Cristianismo sob pena de expulsão, existia em Barcelos uma comunidade judaica, à semelhança aliás do que sucedia noutras localidades minhotas como Braga, Viana do Castelo e Ponte de Lima. Refira-se que, à altura, o território que atualmente faz parte do concelho de Esposende era parte do termo de Barcelos, apenas tendo sido elevado à categoria de município com a atribuição do foral pelo rei D. Sebastião em 19 de agosto de 1572. Terão então os judeus conversos ou seja, os cristãos-novos que habitavam a região, adaptado a sua prática religiosa às que eram geralmente mantidas pela Igreja Católica a fim de serem tolerados no seio das comunidades locais, atitude aliás comum à generalidade dos judeus que permaneceram no país.
O Yom Kippur constitui uma das festividades mais importantes e solenes do judaísmo, destinada ao arrependimento e ao pedido de perdão, correspondendo ao Ano Novo no calendário hebraico (Rosh Hashana) e coincidindo geralmente com os meses de setembro ou outubro do calendário cristão. Nos dias que antecedem o Yom Kippur, praticam os judeus um ritual de expiação dos pecados (Kaparot) que culmina na matança de milhares de galos e galinhas, preferencialmente de cor branca como símbolo de purificação. O ritual propriamente dito consiste em elevar o animal sobre as suas próprias cabeças, dando com eles três voltas enquanto murmuram :“Esta é minha mudança, este é meu substituto, esta é minha expiação”, sendo de seguida degolado com recurso a faca de lâmina rigorosamente afiada, cumprindo-se desta forma o sacrifício.
Com efeito, para além das semelhanças existentes, a altura do ano em que os judeus praticam o Kaparot é praticamente coincidente com a realização da romaria de São Bartolomeu do Mar, da mesma forma que se constata terem os primeiros registos desta festividade surgido pouco tempo decorrido após o início da conversão forçada dos judeus ordenada pelo rei D. Manuel I, fatos que nos levam a acreditar na possível relação entre ambas as tradições.
Fotos: Alfredo Cunha / Arquivo Municipal de Lisboa
