O PORTO É A CIDADE DA ARQUITETURA
Afirma ao BLOGUE DO MINHO o arquitecto Miguel Ibraim Rocha em entrevista conduzida por Benedita Aguiar
Miguel Ibraim da Rocha, arquiteto e fundador da Oficina de Projetos de Arquitetura UNUM Lda, profundo conhecedor da cidade do Porto e do país, com gabinete em plena Avenida dos Aliados, tem atualmente projetos em desenvolvimento nas principais artérias da cidade, de que são exemplo os edifícios na própria Avenida dos Aliados e Avenida Brasil, mas também em Lisboa onde o projeto referência é o Mosteiro de Santo Antãoo-Velho, vulgarmente conhecido como “O Coleginho”.
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As suas obras definem-se por traços limpos, com grande preocupação em manter a autenticidade dos edifícios, aceitando as contradições resultantes das suas múltiplas vivências históricas, mas sem complexos, é capaz de introduzir novas estruturas capazes de responder às exigentes novas realidades funcionais, exaltando, seletivamente percursos, espaços ou elementos arquitetónicos mais significativos.
Sentado atrás do seu estirador, o arquiteto conversou connosco, sobre a influência que a cidade do Porto teve e tem na sua vida, sobre os desafios da profissão em Portugal e sobre a oportunidade de fazer projetos dentro e fora de país. Descobrimos assim um pouco mais sobre suas inspirações e ambições.
Benedita Aguiar – Que significado tem o Porto na sua vida?
Miguel Ibraim da Rocha – O Porto é uma cidade deslumbrante com uma autenticidade arquitetónica muito própria e onde muitos estilos arquitetónicos se reúnem. Exemplos de arquitetura romana, gótica, barroca ou contemporânea, conferem a esta cidade uma extraordinária riqueza e que coloca o seu centro histórico como “um valor universal excecional” reconhecido e que merece especial proteção e valorização, listado por isso, como Património Mundial pela UNESCO.
O Porto é, quanto a mim, a cidade portuguesa da Arquitetura.
Devido a este seu património, cultura e identidade, a cidade encontra na arquitetura uma marca identitária, excecionalmente traduzida na sua "escola de arquitetura" que tem levado os seus herdeiros arquitetos aos mais altos patamares do reconhecimento arquitetónico mundial. Especial destaque, é claro, para os “Pritzker” Siza Vieira e Souto Moura, mas muitos outros se têm revelado e destacado por esse mundo fora.
Eu vivo e sinto esta cidade desde que nasci e o meu pai, construtor durante 50 anos, trouxe-me para dentro da construção e do mundo da arquitetura pelo que, desde muito cedo, encontrei na arte de construir a vocação à qual quis estar ligado
Benedita Aguiar – Quais os desafios que se apresentam a um arquiteto hoje em dia?
Miguel Ibraim da Rocha – Quando iniciei a atividade, devo dizer que não foi fácil. Sempre fui adepto de parcerias e as primeiras, por diversas razões, acabaram por não surtir o resultado esperado. Por outro lado e numa cidade de arquitetos é normal que a sociedade procure os arquitetos em voga. Entrar nesse mundo é pois um enorme desafio, complicado ao iniciar e depois de iniciar difícil de manter. Mas, por outro lado, sempre foi claro para mim que, tendo eu experiência do lado da promoção, teria de trabalhar com ousadia e precisão, percebendo e atendendo as necessidades de cada cliente, resultando em propostas inesperadas mas tecnicamente capazes. Hoje, um dos maiores mercados onde um arquiteto se pode afirmar é na reabilitação. Mas a reabilitação obriga a uma dose extraordinária de humildade do arquiteto perante a obra já construída, procurando, sempre que se justifique, manter a autenticidade do elemento arquitetónico, concordando eu aqui com Boito que aconselha a não se ludibriar as gerações presentes ou futuras, com mimetismos ou modas transitórias, devendo pelo contrário valorizar-se o estilo próprio da arquitetura, preservando-se deste modo a autenticidade das raízes culturais de uma região.
Claustro do “Coleginho” – Mosteiro de Santo Antão-o-Velho
Foi este o pensamento que esteve na conceção do projeto de reabilitação do “Coleginho” em Lisboa onde a uma certa degradação formal do edifício, motivada por algumas adições espúrias, a recuperação do edificado não foi entendida com o sentido de uma recomposição arqueológica, mas antes e no essencial, da interpretação da organização espacial e dos caracteres tipológicos de uma construção que se revelou extremamente recetiva.
“O Coleginho” – Proposta do conjunto com retificação volumétrica proposta
Assim, a intervenção, para além de considerar as melhores condições para a instalação do programa proposto, em todas as suas vertentes funcionais, teve como objetivo a clarificação volumétrica do conjunto, com particular relevância no desenho das coberturas, anulando os corpos disformes e adicionando uma nova cobertura que fecha o claustro, disciplinando assim o desenho formal, no objetivo de torná-lo mais coerente com a escala e tipologia do edifício. A solução, visa assim, restituir a autencidade ao edifício, aceitando as contradições resultantes de múltiplas vivências históricas mas também introduzindo, com critério, novas estruturas capazes de responderem às novas realidades funcionais, exaltando os elementos arquitetónicos mais significativos.
Benedita Aguiar – Que implicação tem o cliente no conceito arquitetónico e como este o influencia na hora de pensar a arquitetura?
Miguel Ibraim da Rocha – O cliente tem sempre implicação.
Em boa verdade, é ele que vai habitar e viver a casa. É importante por isso perceber quais as suas preocupações e desejos para que o arquiteto possa interpretar e dar uma resposta que vá de encontro a essas suas exigências.
Recentemente, numa casa projetada para um atleta de futebol internacional português, foi-me pedido algo singular. Tive de adaptar o projeto ao enorme número de troféus do cliente e ele queria, e bem, que estes estivessem em destaque numa das zonas da casa. Também existia uma enorme vontade que a casa fosse muito comunicante entre os espaços e mesmo entre os pisos.
A simplicidade conceptual e programática da casa une uma simplicidade estrutural definida por dois volumes, organizados sobre duas linhas estruturais que suportam a construção. Quando se abrem as janelas do piso térreo, a sala torna-se um piso livre, totalmente aberto para os jardins, quase fazendo parte deste.
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Benedita Aguiar – Na sua opinião, qual será o futuro da arquitetura com tanta evolução tecnológica?
Miguel Ibraim da Rocha – Li recentemente uma entrevista de Danièl Modol, presidente da Fundação Mies van der Rohe, onde ele afirma que a arquitetura está a entrar numa nova fase, onde os arquitetos aparecem novamente a dar relevo e atenção à memória dos lugares, porque estes são valores fortemente identitários.
Concordo em absoluto!
Considero, para além disso que esta ideia da memória deve ir mais longe com o emprego dos materiais tradicionais presentes logo no primeiro momento do “concept” arquitetónico, contribuindo assim para a sustentabilidade, mesmo na arquitetura pública onde esta ideia até deve ter um peso fundamental. Estamos neste momento a meio de um grande projeto público onde este carácter identitário do lugar é um dos temas do projeto.
Mas projetar é uma tarefa cada vez mais complexa. Hoje temos exigências técnicas que influenciam de sobremaneira o resultado final dos projetos. Veja-se por exemplo que ainda há uns anos atrás, raramente um projeto previa questões como as acessibilidades ou o comportamento térmico e acústico. Hoje, para além de uma obrigação técnica é uma imposição do cliente à qual o arquiteto tem de dar resposta. Eu diria que esta indústria do conforto incentiva o arquiteto a procurar e a planear novas soluções e a ter mais conhecimento sobre as várias tecnologias e soluções de mercado.
Hotel em Matosinhos
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