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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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O CONCELHO DE FAFE E A GUERRA COLONIAL (1961-1974) – CONTRIBUTOS PARA A SUA HISTÓRIA

O Núcleo de Artes e Letras de Fafe acaba de publicar uma obra que constitui um importante documento para a compreensão da nossa história contemporânea e os reflexos da mesma na vida de muitas famílias fafenses e na própria sociedade no concelho de Fafe. Trata-se do livro “O concelho de Fafe e a Guerra Colonial (1961-1974) – Contributos para a sua história”, da autoria de cinco escritores e investigadores de renome, alguns dos quais profundamente ligados à vida cultural e literária de Fafe. São eles Artur Ferreira Coimbra, Artur Magalhães Leite, Daniel Bastos, José Manuel Lages e Jaime Bonifácio Marques da Silva. Com apoio da Câmara Municipal de Fafe e da Junta de Freguesia de Fafe, a edição deste livro tem prefácio de Mário Beja Santos, autor de diversas obras literárias relacionadas com temas africanos mas conhecido do grande público sobretudo pelo seu pioneirismo na Defesa dos Direitos do Consumidor.

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Os autores abordam os mais diversos aspetos relacionados com o envolvimento direto ou indireto da comunidade fafense num esforço de guerra que os responsáveis do Estado Novo justificaram como sendo em defesa da Pátria.

Ao longo de quase quinze anos de conflito, mais de mil e quinhentos jovens foram arrancados à lavoura e ao convívio dos seus familiares, abandonaram a terra e o lar para irem combater nos territórios ultramarinos da Guiné, Angola e Moçambique, paragens distantes do continente africano onde um dia os navegadores portugueses ergueram padrões com as quinas de Portugal, tendo 41 deles sacrificado a sua própria vida. Para trás ficaram os pais, as irmãs e irmãos, as namoradas e as noivas, quando não sucedia mesmo as esposas chorando e rezando pelo seu regresso, são e salvo, aguardando com ansiedade a chegada do aerograma com as notícias necessariamente tranquilizadoras. E, quando tal não acontecia, restava a triste consolação da entrega de uma condecoração nas cerimónias que tinham lugar no 10 de Junho em homenagem às Forças Armadas.

Para além do seu impacto na vida de muitas famílias, a participação de tão elevado número de fafenses na guerra colonial teve também outros reflexos na vida social deste concelho minhoto. Desde logo, o afastamento de muitos jovens da agricultura e, após o seu regresso, a procura de melhores condições de vida nos grandes centros urbanos ou até no estrangeiro, quando não sucedia permanecerem nos territórios que entretanto passaram a conhecer. Muitos foram aqueles que, após cumprimento do serviço militar, optaram por viver nas antigas províncias ultramarinas, tendo na maior parte dos casos regressado aquando do período de transição de soberania em consequência do deflagrar de guerras civis. Pelo meio, ficaram filhos nascidos de relações espúrias ou paixões assolapadas” como refere Beja Santos no prefácio e, como indesejável herança, as doenças de stress pós-traumático resultantes da guerra.

Através das suas mais de duzentas páginas, o livro reúne as cinco comunicações que resultaram do II Curso Livre de História Local, sobre a temática do impacto da Guerra Colonial no concelho de Fafe, que decorreu entre Outubro e Novembro de 2013, com a participação de mais de quatro dezenas de pessoas. Esta obra constitui um excelente contributo para a preservação da nossa memória, a compreensão de factos da nossa história recente e, sobretudo, uma homenagem a todos quantos direta e indiretamente sofreram as vicissitudes da guerra – os que foram chamados a combater, aqueles que caíram, os seus familiares e a comunidade fafense de uma maneira geral que viveu o drama dos seus filhos num cenário de guerra!

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Em relação aos seus autores, apresentamos de uma forma necessariamente resumida a sua tão vasta biobibliografia. Artur Ferreira Coimbra é natural de Montalegre e reside em Fafe, sendo o responsável pela animação cultural do Município de Fafe. É licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e Mestre em Histórias das Instituições e da Cultura Moderna e Contemporânea pela Universidade do Minho. É presidente do Núcleo de Artes e Letras de Fafe e possui vasta obra publicada em poesia e investigação histórica acerca das instituições e gentes de Fafe.

Daniel Bastos é natural de Cepães, no concelho de Fafe. Com uma formação eclética que perpassa as áreas da História, Teologia, Ética e Filosofia Política, tem publicado diversas obras de investigação histórica sobre o concelho de Fafe, as quais já lhe valeram entre outros a atribuição em 2005 do Prémio de História Local por parte da Câmara Municipal de Fafe.

Artur Magalhães Leite é natural de Fareja, no concelho de Fafe. Licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto, possui diversos livros publicados incidindo sobre aspetos de natureza histórica e cultural de Fafe, tendo-lhe a Câmara Municipal de Fafe atribuído em 2011 o Prémio de História Local. Prestou serviço militar no Curso de Operações Especiais e, como alferes miliciano, participou na guerra em Angola, na região dos Dembos.

Jaime Bonifácio Marques da Silva é natural do concelho da Lourinhã. É licenciado em Educação Física pelo Instituto Superior de Educação Física da Universidade Técnica de Lisboa, reside em Fafe desde 1978. Cumpriu serviço militar nas tropas paraquedistas, tendo sido chamado a combater em Angola.

José Manuel Lages é natural de Braga. É licenciado em História pela universidade do Porto e Mestre em História da Colonização e Migrações Portugal-Brasil, pela Universidade do Minho. A ele se deve em grande medida a criação do Museu da Guerra Colonial, sediado em Vila Nova de Famalicão, do qual é diretor científico.