LIVRO DE ALEXANDRA PEREIRA DE CASTRO
Resgatar bracarenses do breu da ingratidão
- Costa Guimarães
O Hotel do Elevador, no Bom Jesus do Monte, acolheu hoje à tarde a apresentação do novo livro de Alexandra Pereira de Castro que se assume como um gesto de homenagem a “Grandes vultos de Braga dos séculos XVIII e XIX” que se libertam do breu da ingratidão e a “cidade desamou”.
A sessão, promovida pela Confraria do Bom Jesus do Monte, decorreu numa sala Cónego José Marques, repleta de amigos e convidados e enriqueceu a celebração deste Património Cultural da UNESCO.
Trata-se de uma obra com mais de 250 páginas que evoca a vida e obra de Manuel Rebello da Costa, grande benfeitor do Bom Jesus, e de outros bracarenses que se libertaram da lei da morte através de obras valerosas: D. Jerónimo José da Costa Rebello, Bispo do Porto, e os Comendadores Joaquim José da Costa Rebello, Barão da Gramoza, e José Narcizo da Costa Rebello, Cónego de Braga.
“Braga tem uma grande dívida de gratidão para com estes benfeitores” que foram monárquicos liberais, proprietários abastados mas solidários com inúmeras instituições da Cidade dos Arcebispos — acentuou a autora da obra
Na sala podiam-ver-se o Reitor da Basílica dos Congregados, Paulo Terroso, o director adjunto do Colégio Dom Diogo de Sousa, AntónioAraújo, o ex-ministro da Economia, Manuel Braga da Cruz, a mãe e irmã da autora, César Valença, ex-director do Museu Nogueira da Silva, Luís Costa, director do Lar D. Pedro V, e Varico Pereira, vice-presidente da Confraria do Bom Jesus do Monte, a quem coube a tarefa de apresentar o livro e a autora.
Quanto ao livro, Varico Pereira definiu-o como “um tributo aos benfeitores e antepassados que foram membros da Confraria do Bom Jesus do Monte, o que constitui um motivo de inspiração para o futuro”.
O Vice-presidente da Confraria destacou o “eminente relevo desta obra para os bracarenses, para a nossa Confraria e para Braga”, enquanto a autora agradeceu a oportunidade dada pela Confraria do Bom Jesus para acolher a apresentação deste livro, ganhando mais relevo porque foi escrito antes da Declaração do Bom Jesus do Monte como património da UNESCO. Recorde-se que o Hotel Elevador era um antigo quartel destinado a acolher os romeiros do Bom Jesus.
Depois, Alexandra Pereira de Castro apresentou uma síntese da sua obra que é mais um esforço para trazer o passado ao presente e fazer com que os antepassados estejam connosco, numa tentativa de falar antecipadamente do futuro — parafraseando o Padre António Vieira.
Com uma bela encadernação, a obra tem o valor inexcedível de reproduzir a cores dezenas de fotos que estavam escondidas em arquivos particulares e de instituições, às quais acresce a numerosa e vária documentação que confere a este trabalho um rigor científico inquestionável pelos críticos mais eruditos. Foi um esforço para que os bracarenses não conheçam estes seus antepassados “apenas de retrato” mas os conheçam “de verdade” como se o sangue deles bulisse no sangue bracarense.
O prefácio do livro é da autoria de Artur Anselmo Pereira de Castro faz-nos viajar a um tempo em que duas facções que, “além de se digladiarem, ultrapassavam pelo ódio mútuo a civilidade e a tolerância”, em que o “esbulho dos bens, a prisão, o assassinato, a convocação da turba para por e depor eminências políticas, o exílio dos sucessivos derrotados, satisfaziam à época, o ideal do domínio e da vingança” (cf. pág. 13).
É neste tempo, da rainha D. Maria II, que se verifica a ascensão de três grandes vultos e irmãos, D. Jerónimo, Bispo do Porto, Barão da Gramoza e Cónego José Narciso da Costa Rebello, cuja vida o prefaciador resume, lembrando que na génese destes três grandes vultos se encontra Manuel Rebelo da Costa, que “foi tão só o segundo benfeitor e zelador do Santuário do Bom Jesus do Monte, nascido ainda no século XVII e falecido no século seguinte” (cf. p. 16) porque o primeiro foi o Arcebispo D. Rodrigo de Moura Telles.
A ele se deve um vasto conjunto de obras naquele Santuário e assim se “compreende o carinho e orgulho da Autora no destapar do esquecimento de tão relevantes antepassados, benfeitores, religiosos, políticos e escritores que a cidade de Braga desamou mas que deixaram obras e benemerência que se estendem muito para além da memória menos grata da cidade” (cf. p.17).
Esta é mais uma obra de historiografia da genealogista bracarense e Membro da Academia de Letras e Artes de Portugal, Alexandra Maria Ferreira Braga de Sousa Louro Pereira de Castro que, nos últimos sete anos ofereceu aos bracarenses as obras “História e Genealogia Familiar — Famílias Convergentes do Visconde de Vila Nova de Famalicão” (2012), “Memorial do Cemitério de Monte d'Arcos de Braga — Arte Tumular e seus eméritos” (2016), “Jerónimo de Sousa Louro — In Memoriam — e o Monumento de S. Frutuoso de Montélios” (2018).
Alexandra Pereira de Castro não esconde que esta investigação apresenta um tronco da sua família que não “estava totalmente estudado e que passa agora a estar reunido numa só publicação” e resulta da sua dedicação à Genealogia.
Nesse trabalho, a autora descobriu que, no século XVIII, um seu antepassado “foi uma figura respeitada e importante nesta cidade de Braga, não só por ser um abastado proprietário, mas também por ter sido o segundo maior benfeitor do Bom Jesus do Monte”. Foi um “tesouro encontrado que me deixou emocionada e orgulhosa” — assegura a autora, na página 20.
Trata-se de Manuel Rebello da Costa, um dos grandes temas deste livro, que, apesar de ter tido “dezoito filhos também teve a infelicidade de ver falecer prematuramente nove deles e os outros nove seguiram a vida religiosa”, pelo que a descendência deste rico ramo não foi devidamente assegurada.
O livro abre com um capítulo dedicado ao tronco comum da família bracarense descendente de Manuel Pinto e de D. Antónia Costa, onde se incluem os nomes que dão corpulência ao livro: Manuel Rebello da Costa, D. Jerónimo José da Costa Rebello (Bispo do Porto), Comendador Joaquim José da Costa Rebello (Barão da Gramoza), Comendador José Narcizo da Costa Rebello (Cónego de Braga), António José Pinto da Costa Rebello (1.º Visconde da Gramoza), Joaquim Augusto Pinto da Costa Rebello (2.º Visconde da Gramoza), Joaquim Guilherme da Costa Rebello Cunha Reis (3.º Visconde da Gramoza), D. Maria Adelaide Justina da Costa Rebello Cunha Reis (Senhora da Casa das Goladas), Dr. César da Costa Araújo Valença (Senhor da Casa da Sarola de Baixo) e a autora, Alexandra Maria Ferreira Braga de Sousa Louro Pereira de Castro, proprietária da Casa de Juste (Santa Lucrécia de Algeriz) e co-herdeira da Casa de Galvão (Melgaço).
Os capítulos seguintes são dedicados aos “grandes vultos bracarenses”, sempre bem documentados os aspectos pessoais, profissionais, testamentários e solidários de cada um deles, sem cortes e bem contextualizados.
Alexandra Pereira de Castro pretendeu apenas “relembrar filhos de Braga”, sem manifestar alguma pena “que a cidade não os valorizou e esqueceu”. Deu exemplo de uma cidade brasileira, Tiradentes, perto de S. Paulo, onde existe uma rua com o nome do Barão da Gramoza, enquanto em Braga nada existe, apesar de ser verdade que, “sem eles, a História de Braga e desta Confraria não ficaria completa”.
ESCRITOR, BISPO E COMBATENTES
Nesta sequência são lembrados os filhos de Manuel Rebello da Costa, como é o caso de José Rebello da Costa, Cónego secular que se notabilizou na escrita e insubstituível para conhecer a História do Porto e da Região de Entre Douro e Minho, no século XVIII, ou avó e mãe da autora.
A vida e obra de D. Jerónimo José da Costa Rebelo, Bispo do Porto, está espectacularmente documentada em 52 páginas com documentos e fotos que nos elucidam sobre os tempos difíceis que se viveram no século XIX.
Ficamos a saber que a escadaria da Capela de Guadalupe — “Água de Lupe, sítio mais lindo de Braga” — foi custeada pelo 1.º Barão da Gramoza, Comendador José Joaquim da Costa Rebello, nascido em finais do séc. XVIII, tornando-se um abastado proprietário, capitalista e fidalgo Cavaleiro da Casa Real. Morava numa casa do Campo de Sant'Ana (hoje Avenida Central), antigo hospício dos Religiosos Capuchos de S. Frutuoso e foi Provedor da Santa Casa de Misericórdia de Braga e ocupou o cargo de Presidente da Câmara Municipal de Braga, em 1846. É um dos beneméritos do Bom Jesus do Monte e da Ordem Terceira de S. Francisco (cf. p. 157) mas o seu testamento é a prova eloquente da sua generosidade com inúmeras instituições, familiares e amigos (cf. pp. 160-167).
Dotado de uma personalidade de combate, surge-nos o Comendador José Narcizo da Costa Rebello, cónego da Sé de Braga, nascido em 1791, merecedor do tratamento de “Senhoria” pelo Rei D. João VI, mas nem isso evitou ter sido preso político, passando vinte dias na Cadeia do Aljube do Porto, em 1830. Em 25 de Agosto “foi absolvido por não haver prova necessária para a condenação” (cf. p. 175).
Foi nomeado Cónego da Sé de Braga em 1826 mas teve a Oposição de outros capitulares que lhe negaram a posse. O Arcebispo teve apresentar queixa ao Rei que censurou e obrigou os capitulares opositores a darem-lhe posse. O testamento mostra a sua grandeza de alma, sendo singular a disposição de doar três mil cruzados para a Câmara Municipal de Braga construir uma estátua a D. Pedro V, na Alameda de Sant'Ana (cf. pp. 193-207).
Estranhamente, em 1913, a Câmara Municipal de Braga “desrespeitou o testamento e transferiu a estátua para o Campo Mouzinho de Albuquerque” — sustentou Alexandra Pereira de Castro, antes de uma animada sessão de autógrafos.
As páginas finais — coroadas com índice onomástico — são dedicadas à família de Costa Rebelo da Cunha Reis, a partir do Coronel Caetano Maria da Cunha Reis, filho do Senhor da Casa Grande do Campo das Hortas e das Casas de Alvação e Torre de Alvite, em Cabeceiras de Basto, sempre na perspectiva de olhar para a posteridade, inspirada na experiência dos seus antepassados.
QUEM É A AUTORA?
Monárquica assumida, Alexandra Maria Ferreira Braga de Sousa Louro Pereira de Castro, nasceu em S. João do Souto, Braga, em Outubro de 1963.
Esta investigadora na área da Genealogia, é Dama de Mérito da Sacra e Militar Ordem Constantiniana de S. Jorge e membro da Associação da Nobreza Histórica de Portugal e da Academia Portuguesa de Ex-Libris, sendo Delegada no Minho desta Academia.
É também membro da Associação Portuguesa de Genealogia, do Instituto Português de Heráldica, da Academia de Letras e Artes de Portugal e “Academico d'Onore” da Real Academia Sancti Ambrosii Martyris de Itália.
No seu curriculum consta ainda a filiação no Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (Brasil), e Confraria dos Vinhos Verdes. Nos últimos sete anos, brindou os bracarenses e amantes de temas históricos com quatro livros.