JOGO DO PAU EM FAFE: UM DOS ÍCONES DA SUA IDENTIDADE – CRÓNICA DE ARTUR COIMBRA
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A tradição do jogo do pau encontra-se marcada em alguns municípios minhotos, em especial Fafe e Cabeceiras de Basto, nascendo num contexto cultural de confronto permanente, em que nenhum homem saía de casa sem levar um pau como companhia, quando ia para as feiras do gado, para entabuar negócios ou para as festas da região.
No caso da terra da Justiça, é visto como representação simbólica de uma conhecida faceta da identidade fafense, e vem de há séculos, embora não se possa fixar uma data de origem, começando por constituir uma reprodução social dos indivíduos do sexo masculino, fortes, ágeis e proprietários rurais, exibida nas feiras e romarias do Minho e de Fafe, em particular.
Da sua prática estavam excluídas as mulheres, os velhos e as crianças, pelas suas próprias características.
Em 1860, há mais de 160 anos, Camilo Castelo Branco, nas famosas Memórias do Cárcere, abordava a relação da conhecida família Vieira de Castro (da Casa do Ermo, em Paços, Fafe) com o jogo do pau, gabando a sua valentia e as suas façanhas, sobretudo nas feiras e nas seculares festas de Nossa Senhora de Antime. Ouçamo-lo:
É de saber que Luís Lopes, António Manuel, e José Vieira (pai e tios de José Cardoso), foram, em anos verdes, três denodados jogadores de pau, e tamanho terror incutiram nas cercanias de Fafe que bastaria a qualquer deles, para vencer a sua, mandar o pau e não ir, como o rei da Suécia fazia às botas.
As mais memorandas façanhas dos Vieiras de Castro tinham o seu teatro na celebrada romaria da Senhora de Antime.
Nas sociedades camponesas, os proprietários como membros da elite rural tinham no jogo do pau, como briga, uma das formas de exibição do seu estatuto, constituindo o “pau de lódão” um dos seus referentes simbólicos de poder, enquanto, por exemplo, o cajado era um objecto próprio dos pastores, por isso, em patamar inferior da hierarquia social.
O “pau de lódão” tem como características materiais não partir, ser leve e raro, símbolo de representação masculina e de proprietário, opondo-se à vara de marmeleiro, que é frágil e própria para actividades agrícolas como tanger o gado. A vara é assim um objecto feminino, para uso dos caseiros, jornaleiros ou das mulheres.
O pau é, de qualquer forma, um objecto de carácter fálico, identificado com o poder e os que o representavam.
É claro que hoje não se luta com o pau, a não ser esporadicamente, não existe uma prática social que utilize esse objecto como atributo simbólico significativo, não constituindo um identificativo de grupo social.
Hoje apenas entra no quadro de recriações tendo em vista a preservação dessa memória cultural.
É neste âmbito de uma tradição cultural fafense de séculos, que acaba de ser publicada a obra Jogo do Pau em Fafe – Contribuição para a sua história, de Pedro Pereira da Silva, um autor que não é de Fafe, tendo nascido em Lamego, em 1976, mas integra desde há uma década o jogo do pau do Centro Cultural e Recreativo da Juventude de Cepães, que assumiu a edição da obra.
Para o autor, o jogo do pau de Fafe é uma expressão de jogo do pau diferente das outras formas de jogar conhecidas no país. A sua singularidade radica, por um lado, no tipo de jogos e na forma como eles são feitos e, por outro, pela aplicação do chamado Jogo Traçado.
Pedro Silva identifica vários tipos de jogo praticado em Fafe: Roda do meio, Roda do meio a dois, Jogo da Quelha, Um a bater dois, Um aparta dois e Água à nora. Estes são jogos de grupo, o que denota que o jogo do pau de Fafe tem um cariz comunitário, de trabalho em grupo. Há, contudo, um jogo de homem para homem, encarado ou ladeado, chamado Contra-jogo. Cada um dos jogos enumerados apresenta depois variantes, dentro do mesmo jogo.
O autor enumera depois os grupos que em Fafe praticaram o jogo do pau (em especial o extinto Kas Bak) e os que ainda o praticam, exatamente o Centro Cultural e Recreativo da Juventude de Cepães (CCRJC), que tem uma formação masculina e outra feminina (esta desde há três anos), ambas com actuações pelo país e no estrangeiro.
Numa segunda parte da obra, Pedro Silva recolhe histórias sobre mestres e jogadores do pau em Fafe, os mais famosos dos quais foram o mestre “Quéu”, os irmãos “Tripa” e os irmãos do “Santo”. Atualmente, pontificam os mestres e jogadores José Avelino Nogueira, José Carlos de Melo e Óscar Cunha, líder do CCRJC.
O livro foi apresentado publicamente há dias, aquando da realização do evento “Cepães Milenar”, que animou a conhecida freguesia durante três dias.
O jogo do pau em Fafe ganhou assim uma obra que será de referência para o conhecimento dessa prática cultural e identitária do povo fafense, pelo menos desde o século XIX.
Não sendo de Fafe, mas mergulhando neste projecto e na cultura fafense como um seu natural, Pedro Silva, membro do CCRJC e praticante desta arte tradicional viva, empenha-se em dar a conhecer, contar e, assim, preservar as histórias do Jogo do Pau em Fafe.
Enriquecendo a bibliografia sobre o património imaterial fafense, Jogo do Pau em Fafe assume-se como um contributo valioso para manter viva esta herança cultural que é identitária do território e das gentes fafenses.
O caminho será, porventura, a próxima candidatura do jogo do pau fafense a património imaterial da região e do país!
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