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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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IDOSOS RECUSAM REGIME DE MEDICAMENTOS

"Metade dos idosos acompanhados não adere a regime de medicamentos" – apresentação do livro da professora Lígia Monterroso, do ISAVE

“Quarenta e nove por cento dos idosos, acompanhados por profissionais de saúde não aderem ao regime medicamentoso que lhes é prescrito” – revela o livro da prof. Lígia Monterroso (ISAVE) apresentado hoje, dia 14 de Março, na Feira do Livro, em Amares.

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A Diretora da Licenciatura de Enfermagem do Instituto Superior de Saúde (ISAVE) apresentou o livro “Regime terapêutico das pessoas idosas dependentes – avaliação da adesão e da gestão”, na Galeria de Artes e Ofícios, na presença do vice-presidente da Câmara Municipal de Amares (Isidro Araújo) e de Arnaldo Sousa, do ISAVE, além de alunos de Enfermagem.

Editado pela Novas Edições Académicas, o livro constitui uma súmula da tese de doutoramento da Prof. Lígia Monterroso, nascida em Amarante, que reflete um levantamento efetuado em várias unidades de saúde no Algarve.

Na sua intervenção, Lígia Monterroso partiu do seu gosto pelo cuidado com os idosos, “cada vez mais medicados, que gastam rios de dinheiro, têm farmácias de remédios em suas casas sem utilidade”.

A sua tese procura responder à pergunta – “que enfermagem podemos desenvolver com os idosos, porque os mais velhos são a mais valia de conhecimento, são eles que nos ensinam, e como é que os marginalizamos e esquecemos”?

Hoje existem mais medicamentos porque há mais patologias, o que desafia os enfermeiros a mais esfoço para tratar um idoso com doença mental.

Numa primeira fase, Lígia Monterroso verificou que, “entre 50 idosos doentes mentais, no Hospital do barlavento que eram acompanhados semanalmente, 37% não cumpriam o pano medicamentoso”.

Um segundo estudo envolveu os Centros de Saúde de Lagos, Vila do Bispo e Aljezur, integrados na Unidade de Cuidados Continuados do Infante e os cuidadores informais que trabalham 24 sobre 24 horas, sem formação, desapoiados e sem saber o que fazer quando entram em depressão.

Não foi por acaso, porque Sagres é a zona do país com maior taxa de suicídio e a adesão ao regime terapêutico era um problema grave. “Em 57 famílias, estudadas, verificou-se o incumprimento do regime medicamentoso por falta de recursos económicos, medicamentos caros e as pensões não chegam para pagar medicamentos”.

Esta situação conduz ao descontrolo das doenças mentais arrastando consigo os cuidadores. Que fazer? Para encontrar uma resposta surge um terceiro estudo que envolveu 198 entrevistas (além de 44 recursas, desistência ou morte) a doentes dependentes em todo o Algarve, integrados em Unidades de Cuidados Continuados e acompanhados diariamente por profissionais de saúde.

O índice de complexidade do tratamento (uma coisa é tomar um comprimido e outra é um injetável) permite concluir que “quanto maior é o grau de complexidade, menor é a adesão ao tratamento”.

Acresce o “erro de comunicação entre o enfermeiro e a pessoa idosa porque comunicar não é fácil nem é inato. Temos de ter a certeza de que o nosso doente perceba aquilo que lhe dizemos” – lembra Lígia Monterroso.

Face aos números apresentados face à adesão ao regime medicamentoso, a professora do ISAVE concluiu: “estamos a fazer um mau trabalho. É um número assustador”.

Mais, este numero têm consequências económicas, porque os “medicamentos são comparticipados por cada um de nós e metade da população (49%) idosa doente está a desperdiçar e deitar fora o meu dinheiro (dos impostos)”.

Os portugueses ignoram, por exemplo, que “uma noite em UCI (Unidade de Cuidados Intensivos) custa seis mil euros” e uma “visita ao Hospital com medicamentos custa 250 euros”.

Outro fator a combater é a iliteracia: “como explicar que o mesmo fármaco seja aplicado três vezes (um princípio ativo, um nome do laboratório e um nome comercial do medicamento)? A Indústria farmacêutica detesta que se fale disto”.

A docente do ISAVE lamentou a demora na prescrição de medicamentos para doenças crónicas (entre 48 a 72 horas) e a “quantidade absurda de fármacos que é prescrita que fomenta o erro, pois é mais fácil a um idoso tomar dois medicamentos do que sete”.

Colocando-se na pele de enfermeira, Lígia Monterroso questionou “o modo como atuamos com os outros: o enfermeiro não tem tempo para tirar as dúvidas aos idosos”.

Do seu trabalho resultou um programa no Algarve, em colaboração com as Câmaras Municipais, de melhorar o acesso ao medicamento a idosos residentes em zona isoladas e recônditas: a s Câmaras recebem as recitas e entregam os medicamentos aos utentes em sua casa”.

Apesar de estarmos mal, Lígia Monterroso reconheceu que a Europa está pior, concluindo pela necessidade urgente de “cuidar do cuidador informal de idosos dependentes. Ele tem um papel ingrato enquanto outros familiares só pensam no que vão herdar. Os cuidadores estão sempre despertos, sem tempo para sair de casa ou parar umas horas”.

“O idoso doente não precisa só de um cuidador mas sim de um cuidador com saúde mental e saúde física” – conclui Lígia Monterroso, ao defender que “as famílias que abandonam os seus idosos ou os depositam nos hospitais deviam perder as pensões deles”.

Arnaldo Sousa traçou o perfil bio-biliográfico da autora e o vice-presidente da Câmara de Amares enalteceu a vontade do Município em colaborar com o ISAVE em outras iniciativas no futuro.