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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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FERREIRA DE CASTRO EM GUIMARÃES

FERREIRA DE CASTRO (foto de Santos Simões e Ferreira de Castro num jantar no Teatro Jordão a seguir à inauguração do seu bustono dia a 17 de Abril de 1971). Texto de Álvaro Nunes.

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José Maria Ferreira de Castro (1898-1974), insigne escritor e conceituado jornalista, encontra-se imortalizado no concelho vimaranense, quer na sua toponímia local, quer pelo busto inaugurado nas Caldas das Taipas, em 19 de Abril de 1971, já lá vão 50 anos.

Com efeito, naquela data, o Círculo de Arte e Recreio, presidido por J. Santos Simões, promoveria uma homenagem ao escritor, que assiduamente veraneava naquela amada vila taipense. Realmente, “A terra onde a lua fala”, assim a denominou e titulou o escritor em artigo publicado do “Notícias de Guimarães” de 29 de Setembro de 1963, foi um dos seus espaços sentimentais em que “o senhor do chapéu” conviveria e faria amizades, quer entre o povo anónimo rendido à sua simplicidade e bonomia, quer entre admiradores da sua obra, ora pelo poder cativante da sua mensagem em prol dos deserdados ora pelo seu humanismo social novo.

Evocar Ferreira de Castro (FC) neste terno preito de há 50 anos, é por conseguinte não só um modo de ressuscitá-lo para além da sua (re)leitura, como também presentificar a história local mais recente, que o busto do escultor António Duarte perpetua. De facto, nesse dia, presente na cerimónia, acompanhado da sua esposa, Ferreira de Castro, sempre avesso a homenagens, comover-se-ia com as palavras alusivas de Santos Simões, José de Oliveira (Presidente da Junta de Caldelas) e do crítico Arsénio Mota, bem como da mensagem de saudação do grande amigo e escritor brasileiro Jorge Amado, que não pudera estar presente.

Ora, Ferreira de Castro foi de facto um dos proeminentes escritores portugueses do século XX, que soube ficcionar e plasmar como poucos a sua experiência pessoal de lutador e deserdado. Com efeito, nascido de pais pobres em Ossela (Oliveira de Azeméis) e órfão de pai ainda criança, cedo seria forçado a emigrar para o Brasil, com o objetivo conquistar o pão que o diabo amassou. Aí, no inferno verde da selva amazónica, no seringal do Paraíso e posteriormente em Belém do Pará, subsistindo em biscates como a colagem de cartazes ou embarcadiço da carreira fluvial do Oiapoque, cresceria e se fez homem. Um crescimento que faria a pulso e às suas próprias custas, com a simples instrução primária no alforge e muita vontade de se autoeducar, de moldes a almejar com anelo o seu sonho de ser jornalista.

Autodidata por educação, lutador determinado por natureza e sonhador sem limites, Ferreira de Castro acabaria por publicar no Brasil os primeiros textos jornalísticos e o primeiro livro “Criminoso por Ambição” (1916), que distribuiria porta a porta.

Vicissitudes similares passaria também em Portugal, quando regressa em 1919. Na verdade, como ilustre desconhecido nos meios jornalísticos, onde pretende trabalhar, vive os anos iniciais com dificuldades, em esporádicas colaborações dispersas em revistas e jornais nacionais que, como diz, representavam “ o forno de onde me vinha o pão(…) me punha a mesa sóbria, substituía os fatos e os sapatos quando muito usados, me pagava os cigarros e os cafés”.

O jornalismo seria porém, além de fonte de sobrevivência, o caminho inicial para a literatura, em especial a partir de meados da década de 20 e inícios dos anos 30. Efetivamente após colaborações diversas no jornal “O Luso” e na revista “A Hora”, na qual escreve um artigo elogioso sobre Raul Brandão, bem como no suplemento literário do jornal operário “A Batalha” da Confederação Geral do Trabalho, FC passaria em 1927 a integrar a seção internacional do jornal “O Século” e a assumir a presidência do Sindicato de Profissionais da Imprensa de Lisboa; e, anos mais tarde, a assumir a direção do hebdomadário “O Diabo”, periódico de crítica literária e artística de oposição ao Estado Novo, no qual colaboraria também o vimaranense Abel Salazar, editando o seu “Pensamento Positivo Contemporâneo”, que divulgaria paulatinamente, em 51 artigos, os novos ideias do empirismo lógico europeu.

Ora, seria esta faceta de jornalista excelente, engajado e interventivo, que seria também motivo de outra homenagem nas Caldas das Taipas em 26 de Novembro de 1983, por parte do Gabinete de Imprensa de Guimarães, presidido por Luís Caldas, no âmbito do XII Encontro de Imprensa Regional.

Deveras, como Jornalista, legar-nos-ia peças imemoriais como as Constituintes da II República Espanhola, a Revolta da Andaluzia e o plebiscito da Catalunha, ou a entrevista ao líder republicano irlandês Eamon de Valere, assim como preciosos trabalhos sobre o mutualismo, os albergues noturnos, as condições de vida nas minas de S. Domingos, ou as prisões portuguesas, como o Limoeiro, onde se infiltrara com a conivência dos reclusos. Peças únicas que muitas vezes seriam proibidas pela censura, ainda que algumas hajam sido recuperadas postumamente na obre “Os Fragmentos – um romance e algumas evocações” (1974).

Aliás, o combate à censura foi um dos seus porfiados cavalos de batalha, que o levaria anos mais tarde, desencantado, a abandonar o mister de jornalista. Reconhece-lhe todavia algo positivo; “ a censura tem, porém, uma virtude: é demonstrar quanto vale ser homem livre, um povo livre”

No entanto, a luta de Ferreira de Castro passaria também pela sua intervenção política em torno do Movimento de Unidade Democrática (MUD), em prol da democracia, pela defesa testemunhal de antifascistas perseguidos pelo salazarismo, bem como pelo apoio a várias candidaturas oposicionistas, que inclusive o levariam a ser sondado para a candidatura à Presidência da República em 1958, que humildemente recusaria.

Todavia, é na sua obra que FC melhor espelha a sua matriz ideológica. De facto, embora defenda que “a literatura não tem obrigação de lutar e nem de salvar ninguém (…) não tem de estar vinculada a qualquer ismo”, ela assume-se do ponto de vista ético-social, na obra do autor, como um espelho fiel dos sentimentos e inquietações da época, numa expressão precursora do humanismo social, em prol dos humilhados e ofendidos.

E de facto assim seria com as obras de consagração. Em primeiro lugar, “Emigrantes” (1928) que através do protagonista Manuel da Bouça, se torna “ o romance de todos os emigrantes”, e também dele próprio, que o sentiu na pele, pois como disse “o problema da emigração é dolorosamente familiar e que eu fui mesmo, porventura, o primeiro romancista português a tratá-lo com experiência própria”. Depois “A Selva” (1930), livro de duas pátrias (Portugal e Brasil),” pelo muito que sofri durante os primeiros anos da minha adolescência e pela coragem que me deu pra o resto da vida (…) que há de registar a tremenda caminhada dos deserdados através dos séculos em busca do pão e da justiça”.

Livro que teria adaptações a cinema e série televisiva que a UNESCO anunciaria, em 1973, encontrar-se entre os dez romances mais lidos em todo o mundo.

No mesmo rumo seguir-se-iam “Eternidade” (1933) centrado na luta dos camponeses, operários e bordadeiras da Madeira, “Terra Fria” (1934), galardoado com o Prémio Ricardo Malheiro, focalizado nas pobres condições de vida das gentes barrosãs sujeitas à canga do “feudalismo” dos poderosos ou “A Lã e a Neve”(1947) que se assume como uma epopeia do trabalho do povo têxtil e do pastoreio da Serra da Estrela.

A este ciclo segue-se ainda um período de literatura de viagens, entre as quais se destacam “Pequenos Mundos e Velhas Civilizações”(1937), “A Volta ao Mundo” (1944) e “As Maravilhas Artísticas do Mundo”(1959), que em 1963 seria distinguido pela Academia de Belas Ares de Paris.

A esta fase segue-se uma outra direcionada para as realidades sociais e históricas, entre as quais publica obras como “A Curva da Estrada” (1950), “A Missão” (1954) e “Instinto Supremo” (1968) que o faz regressar à amazónia e que presumivelmente terá sido escrito parcialmente nas Caldas das Taipas.

Porém, uma vida e uma obra ímpar que o levaria à presidência da Sociedade Portuguesa de Escritores (1962), à receção de galardões como o Grande Prémio Águia de Outo do Festival do Livro de Nice (1970), cujo valor pecuniário investe na Biblioteca de Ossela, e ao Prémio da Academia do Mundo Latino (1971) em parceria com Eugenio Montale e Jorge Amado. Ademais, a ajuntar, duas indigitações para o Prémio Nobel da Literatura: em1951 e em1968, este último em companhia de Jorge Amado, apresentado pela União Brasileira de Escritores.

Em súmula, uma vida e obra que se complementam coerentemente e que terminaria em 29 de Junho de 1974. Porém, uma existência vivida em plenitude que perenemente se evoca nas Caldas das Taipas, quer na simples condição de homem apaixonado pela terra, quer como cidadão exemplar dos valores de Abril, que ainda viveria o primeiro 1º. de Maio a gritar: ”Escrever é lutar! Escrever é lutar”.

Assim, como afirmaria o poeta José Gomes Ferreira, no decurso do seu elogio fúnebre “Quando um amigo morre, que nos resta senão ressuscitá-lo?

A evocação histórica do 17 de Abril de 1971, nas Caldas das Taipas, é uma forma de ressuscitação, que a leitura da sua obra e visita às suas casas-museus em Ossela e Sintra poderão complementar.

Fonte: https://www.facebook.com/correiodahistoria.pt