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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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ENTRE REDES E MARÉS – HAVERRÁ SEMPRE UMA BONANÇA: UM TRIBUTO POÉTICO À COMUNIDADE PISCATÓRIA DE VILA PRAIA DE ÂNCORA – CRÓNICA DE CARLOS SAMPAIO

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𝗨𝗺 𝘁𝗿𝗶𝗯𝘂𝘁𝗼 𝗽𝗼𝗲́𝘁𝗶𝗰𝗼 𝗮̀ 𝗰𝗼𝗺𝘂𝗻𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗽𝗶𝘀𝗰𝗮𝘁𝗼́𝗿𝗶𝗮, 𝗮̀𝘀 𝘀𝘂𝗮𝘀 𝗵𝗶𝘀𝘁𝗼́𝗿𝗶𝗮𝘀 𝗲 𝗮𝗼 𝗰𝗼𝗿𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗱𝗲 𝗩𝗶𝗹𝗮 𝗣𝗿𝗮𝗶𝗮 𝗱𝗲 𝗔̂𝗻𝗰𝗼𝗿𝗮.

𝗘𝗻𝘁𝗿𝗲 𝗥𝗲𝗱𝗲𝘀 𝗲 𝗠𝗮𝗿𝗲́𝘀 – 𝗛𝗮𝘃𝗲𝗿𝗮́ 𝘀𝗲𝗺𝗽𝗿𝗲 𝘂𝗺𝗮 𝗕𝗼𝗻𝗮𝗻𝗰̧𝗮

“𝗝𝘂𝗻𝘁𝗼 𝗮𝗼 𝗳𝗮𝗿𝗼𝗹, 𝗰𝗮𝗱𝗮 𝗮𝗺𝗮𝗻𝗵𝗲𝗰𝗲𝗿 𝗲́ 𝗽𝗿𝗼𝗺𝗲𝘀𝘀𝗮 𝗲 𝗿𝗲𝗰𝗼𝗺𝗲𝗰̧𝗼.” Assim começa o poema de 𝗖𝗲𝗹𝗶𝗻𝗮 𝗣𝗮𝗿𝗲𝗻𝘁𝗲, transformado em vídeo, e assim começa também a vida de cada pescador que parte do nosso porto. É o ciclo eterno de esperança e luta que define Vila Praia de Âncora.

As palavras ganham corpo nas imagens:“𝗮𝘀 𝗺𝗮̃𝗼𝘀 𝗱𝗼 𝗽𝗼𝘃𝗼 𝘁𝗲𝗰𝗲𝗺 𝗿𝗲𝗱𝗲𝘀 𝗲 𝗽𝗿𝗲𝗽𝗮𝗿𝗮𝗺 𝗼 𝗰𝗮𝗺𝗶𝗻𝗵𝗼 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝘂𝗺 𝗱𝗶𝗮” São mãos calejadas, marcadas pela luta, pelo sal e pelo tempo. Mãos que carregam a nossa história e a nossa fé, mãos que nos lembram que a 𝗦𝗲𝗻𝗵𝗼𝗿𝗮 𝗱𝗮 𝗕𝗼𝗻𝗮𝗻𝗰̧𝗮 continua a ser o farol de todos os regressos.

Neste poema, como na vida, "𝗻𝗼 𝗽𝗲𝗶𝘁𝗼 𝗺𝗼𝗿𝗮 𝗮 𝘀𝗮𝘂𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗱𝗼𝘀 𝗾𝘂𝗲 𝗼 𝗺𝗮𝗿 𝗹𝗲𝘃𝗼𝘂, 𝗲 𝗻𝗼 𝗼𝗹𝗵𝗮𝗿, 𝘂𝗺𝗮 𝗲𝘀𝗽𝗲𝗿𝗮𝗻𝗰̧𝗮 𝗾𝘂𝗲 𝗻𝗮̃𝗼 𝘀𝗲 𝗮𝗽𝗮𝗴𝗮.” São as famílias que esperam, as mulheres que rezam, as avós que sussurram preces com o terço entre os dedos, e as crianças que crescem no som das marés.

O poema lembra-nos ainda que “𝗼 𝘀𝗮𝗹 𝗻𝗮̃𝗼 𝗲́ 𝘀𝗼́ 𝘁𝗲𝗺𝗽𝗲𝗿𝗼… 𝗲́ 𝘁𝗮𝗺𝗯𝗲́𝗺 𝗱𝗼𝘀 𝗼𝗹𝗵𝗼𝘀 𝗾𝘂𝗲 𝗲𝘀𝗽𝗲𝗿𝗮𝗺, 𝗱𝗮𝘀 𝗹𝗮́𝗴𝗿𝗶𝗺𝗮𝘀 𝗾𝘂𝗲 𝗰𝗮𝗲𝗺.” É a marca de um povo feito de coragem e de fé, que transforma dor em identidade, ausência em memória e silêncio em oração.

Antes já tinha a certeza, mas hoje sinto-a renovada: os meus 𝟭𝟰 𝗮𝗻𝗼𝘀 𝗱𝗲 𝗲𝗺𝗽𝗲𝗻𝗵𝗼 𝗻𝗮 𝗔𝘀𝘀𝗼𝗰𝗶𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗱𝗲 𝗣𝗲𝘀𝗰𝗮𝗱𝗼𝗿𝗲𝘀 𝗲 𝗮𝘀 𝗺𝗶𝗻𝗵𝗮𝘀 𝗰𝗶𝗻𝗰𝗼 𝗱𝗲́𝗰𝗮𝗱𝗮𝘀 𝗰𝗼𝗺𝗼 𝗰𝗶𝗱𝗮𝗱𝗮̃𝗼 𝗰𝗼𝗺𝗽𝗿𝗼𝗺𝗲𝘁𝗶𝗱𝗼 𝗰𝗼𝗺 𝗮 𝗻𝗼𝘀𝘀𝗮 𝘃𝗶𝗹𝗮 valem a pena. Porque esta luta é pela 𝗰𝗼𝗲𝘀𝗮̃𝗼 𝘀𝗼𝗰𝗶𝗮𝗹, 𝗽𝗲𝗹𝗮 𝗵𝗶𝘀𝘁𝗼́𝗿𝗶𝗮, 𝗽𝗲𝗹𝗼 𝗽𝗮𝘁𝗿𝗶𝗺𝗼́𝗻𝗶𝗼 𝗰𝘂𝗹𝘁𝘂𝗿𝗮𝗹 𝗲 𝗽𝗲𝗹𝗮𝘀 𝗿𝗮𝗶́𝘇𝗲𝘀 que nos definem. Vale a pena lutar pela modernização do porto, vale a pena preservar a romaria e vale a pena manter viva a chama desta identidade piscatória.

E quando o poema invoca:“𝗧𝘂, 𝗦𝗲𝗻𝗵𝗼𝗿𝗮 𝗱𝗮 𝗕𝗼𝗻𝗮𝗻𝗰̧𝗮, 𝗾𝘂𝗲 𝗰𝗼𝗻𝗵𝗲𝗰𝗲𝘀 𝗼 𝗽𝗲𝘀𝗼 𝗱𝗮𝘀 𝗿𝗲𝗱𝗲𝘀 𝗲 𝗱𝗮𝘀 𝗮𝘂𝘀𝗲̂𝗻𝗰𝗶𝗮𝘀, 𝗮𝗯𝗲𝗻𝗰̧𝗼𝗮 𝗲𝘀𝘁𝗲 𝗽𝗼𝘃𝗼 𝗱𝗼 𝗺𝗮𝗿”,sentimos que esta homenagem não é apenas um tributo artístico. É uma voz coletiva que tem de correr os quatro cantos do mundo, para que todos saibam quem somos e de onde vimos.

Este vídeo é poesia em movimento. É identidade transformada em arte. É memória erguida em homenagem.

𝗘𝗻𝘁𝗿𝗲 𝗥𝗘𝗗𝗘𝗦 𝗲 𝗠𝗔𝗥𝗘́𝗦, 𝗖𝗲𝗹𝗶𝗻𝗮 𝗣𝗮𝗿𝗲𝗻𝘁𝗲

𝗨𝗺 𝘁𝗿𝗶𝗯𝘂𝘁𝗼 𝗽𝗼𝗲́𝘁𝗶𝗰𝗼 𝗮̀ 𝗰𝗼𝗺𝘂𝗻𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗽𝗶𝘀𝗰𝗮𝘁𝗼́𝗿𝗶𝗮, 𝗮̀𝘀 𝘀𝘂𝗮𝘀 𝗵𝗶𝘀𝘁𝗼́𝗿𝗶𝗮𝘀 𝗲 𝗮𝗼 𝗰𝗼𝗿𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗱𝗲 𝗩𝗶𝗹𝗮 𝗣𝗿𝗮𝗶𝗮 𝗱𝗲 𝗔̂𝗻𝗰𝗼𝗿𝗮.

Carlos Sampaio

Poema

Entre Redes e Marés

Junto ao farol, cada amanhecer

é promessa e recomeço.

Nas primeiras luzes do dia,

as mãos do povo tecem redes e preparam o caminho para mais um dia.

São mãos marcadas pela luta, pelo tempo, pelo sal.

Guardam histórias, dores e uma fé inabalável na Senhora da Bonança.

No peito, mora a saudade dos que o mar levou.

E no olhar, uma esperança que não se apaga.

Ali ficam as mulheres, firmes,

esperando os que partem para o mar em busca do pão.

Elas sabem que o mar é traiçoeiro,

mas ainda assim confiam.

Porque aqui, o amor é feito de espera e força.

O povo do mar é feito de coragem e oração.

Os filhos dormem, e as avós, com o terço entre os dedos,

sussurram preces que se misturam ao som das marés e dos dias.

Erguem os olhos à imagem da Senhora

ela que escuta os segredos guardados nas ondas e nos olhares.

O sal…

O sal não é só tempero.

É silêncio, é cicatriz.

É o riso que foi embora,

é a dor que nunca se diz.

É o gosto amargo de um barco que não voltou.

Não… o sal não é só do mar

ele é também dos olhos que esperam,

das lágrimas que caem.

Porque o mar ensina.

Ensina a amar de longe,

a manter a fé acesa,

mesmo quando tudo à volta é água.

Mesmo quando o medo vai e vem com a maré.

E por entre os dias feitos de espera, dor e esperança,

há um riso de criança que resiste,

há uma prece que se ouve.

Tu, Senhora da Bonança, que conheces o peso das redes e das ausências,

abençoa este povo do mar

feito de sal, de fé, e de amor que nasce do lado de dentro.

Ali, junto ao farol,

há um barco que chega e outro que parte,

um dia que termina e outro que começa.

Celina Parente