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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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ELISABETE MATOS: “É FANTÁSTICO HOJE SER A TOSCA E AMANHÃ LADY MACBETH”

Jornal I entrevista soprano vimaranense Elisabete Matos

25 anos de carreira e a Medalha de Mérito Cultural, recebida ontem. Hoje a soprano actua de novo no Festival ao Largo

Um rodopio de mulheres fortíssimas, personagens imortalizadas por Bizet, Mozart, Puccini, Verdi ou Wagner, vividas em palco com intensidade tamanha que a prestação reclama a lucidez da intérprete. "É preciso ter um bocadinho o pé fora, senão corremos o risco de viver tanto aquilo como se estivéssemos mesmo com uma faca na mão", confessa a mais internacional das sopranos portuguesas, de passagem por Lisboa para uma homenagem e duas actuações. Depois de ontem, o Largo do Teatro Nacional de São Carlos volta a receber Elisabete Matos, acompanhada pelo coro do Teatro Nacional de São Carlos e pela Orquestra Sinfónica Portuguesa.

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25 anos de carreira reconhecidos com a atribuição da Medalha de Mérito Cultural. Como é receber esta distinção em casa?

Todos os prémios são recebidos com muita alegria. Quando se trabalhou uma vida inteira dedicada à arte, à música, ao canto lírico, evidentemente que é muito importante que os nossos resolvam dar--nos esse mimo. Causa uma satisfação e um orgulho muito grandes. Estou muito grata.

Mimos que já tinham chegado de fora?

Sim, em Itália, por exemplo, ou o Grammy nos EUA. No canto lírico há sempre menos atenção à informação. Já houve a notícia de que outras pessoas foram os primeiros a receber o Grammy e não é o caso. Fico muito contente por eles, mas fui a primeira, em 2000, juntamente com o Plácido Domingo. Fui nomeada no ano seguinte também. São prémios pelo mundo mas tomam significado especial quando vêm da nossa terra.

Há uma atenção mais evidente no estrangeiro ao seu trabalho?

Creio que é uma questão educacional. Se calhar noutros países há mais estímulo a todas as outras áreas artísticas, não só na música. Aqui somos um bocadinho desleixados nesse sentido, mas penso que as coisas se vão compondo. Cada vez mais as pessoas sentem a necessidade de estar perto da arte. A educação artística é uma função muito importante na escola. Há muitas pessoas que vêm a uma sala de concertos ou ópera casualmente e de repente sentem uma emoção. É isso que é a arte. É preciso ser despertado. O ser humano não é rico se não conhecer a arte na sua universalidade. É isso que o torna mais tolerante.

Prevalece a ideia de que o território erudito está reservado a um nicho?

Neste momento penso que é mais uma questão de possibilidades. Temos de ser realistas. Temos um único teatro nacional de ópera e uma pessoa que viva em Guimarães ou na Guarda como faz para vir a uma récita de ópera? É uma problemática até do ponto de vista económico. Já começa a haver pequenas coisas mas ainda não muito significativas. É necessária mais itinerância, que a música chegue a outros pontos além de Lisboa.

Percorrendo os libretos, falamos de histórias intemporais e até com um cunho bem popular.

Sim, e o bairrismo com que se viviam as coisas, o apoio aos compositores. Não era de todo uma arte elitista. Depois sim, adquire uma componente social, é um ponto onde as pessoas se encontram. Mas hoje em dia isso está um bocadinho ultrapassado. Tanto pode ver um rapaz novo vestido de maneira informal a assistir a uma récita de ópera como alguém com outro tipo de postura. Cabem todos.

Corre-se o risco inverso, de facilitar na qualidade dos intérpretes, do repertório?

O resultado final vai sempre depender de uma escolha muito particular, que é sempre feita por seres humanos. Considero que num teatro de ópera tem de primar não aquilo que Elisabete Matos gostaria de cantar mas sim aquilo de que o público precisa e quer ouvir. E chegar a um equilíbrio na encenação, nos cenários, na escolha do design do espectáculo, e, claro, do elenco e direcção de orquestra. A ópera é o espectáculo mais completo. É música e drama. Há tanta gente que entra neste espectáculo, dos maquinistas às senhoras que preparam os vestidos! É um espectáculo de massas e essencialmente belo porque é um espectáculo de conjunto. Claro que quem recebe os louros mais directos são o maestro e os intérpretes principais, mas não podemos esquecer todo o resto da engrenagem, pensada para cada público. Estamos cá para fazer sentir o público. Somos meros serventes e transmissores de sensações.

Ajustados aos tempos?

Às vezes seria mais fácil escolher outro caminho. Agora porque estamos no século xxiescolhemos esta linha assim e assado. Não. Se pensarmos que Puccini e Verdi viveram quando viveram, é preciso percorrer e não esquecer o que foi feito. O que continua a ser genial, por alguma razão é.

Era possível imaginar-se em miúda, no Minho, a pisar palcos como este?

Não, penso que não. Embora tenha tido sempre um contacto muito estreito com a música, através da parte mais popularucha, no bom sentido. Ouvia na banda o "1812" de Tchai- kovsky, a abertura do "Barbeiro de Sevilha". Isso para mim foi um despertar de algo que levou a uma escolha. Se pensarmos bem, as próprias bandas fazem um trabalho importante. Não tinha acesso a um teatro de ópera, isso veio mais tarde.

Quando sucede?

No Porto houve uma época em que se faziam círculos de ópera com pequenos agrupamentos, mesmo no Theatro Circo. Coisas que se foram perdendo. Hoje passamos todos problemas sérios, mas foi-se perdendo tudo um bocadinho, e é isso que não pode acontecer. Se pensar em mim, criança, precisava de ter a possibilidade de ver. Para uma miúda como eu era totalmente inviável vir a Lisboa ver um espectáculo de ópera. Ouvia-se nos discos.

Escutava outros géneros?

Fui sempre mais para o lado do jazz, gosto de fado bem cantado. Também ouvia pop numa fase adolescente. Mas o jazz é a minha escolha. Depois do trabalho escolho muito o silêncio. É necessário estar em paz. O silêncio também é música. Não é em vão que temos as pausas, que têm de ser respeitadas. Dão-nos um momento de pensar, de relaxar entre uma coisa e outra.

É necessário calar muitas vezes a voz, também para a preservar?

Sim, claro. É necessário esse mundo de introspecção. A voz são duas cordas que temos aqui dentro, que não vemos, por isso temos essa hipersensibilidade e essa sensibilidade, que nos faz chamar os divos. Quando as pessoas acordam e têm uma dor de cabeça, ok, têm de ir para o trabalho. Tomam um comprimido e aquilo vai atenuando. Nós, de repente, há um dia que por uma mudança de tempo ou uma aragem que se apanha, ou uma exaltação por um problema familiar ou amoroso, e não temos a voz em condições e temos um espectáculo à noite. Isso é o stresse, o maior pesadelo de qualquer cantor.

Já teve de cancelar espectáculos?

Sim. Graças a Deus devo ser das pessoas que menos cancelaram na vida, porque foram duas vezes, mas aconteceu. O público é soberano e temos de entregar sempre o melhor de nós. Quando a voz não está completamente bem e a técnica pode resolver, ainda dá. Agora quando se tem uma grande gripe e mal se consegue emitir sons, aí tem mesmo de se descansar. É muito desagradável mas faz parte da nossa profissão. É um stresse acrescentado ao stresse de ir ao palco todos os dias, e em directo, sempre, dar o melhor que temos. Quando chega aquele momento a única coisa que pensamos é "oxalá encontrem alguém que me possa substituir".

Essa vertigem do directo agrada tanto como aterroriza?

Sempre que subimos ao palco estamos em grande exposição. O cantor vive do directo. Se falha, o público está ali, a dizer que falhou aquela nota. É um teste diário. Evidentemente que nos carrega de adrenalina e isso dá sempre aquele nervosismo antes de uma récita, mas depois, quando se encontra o palco, há aquela causa efeito. É sempre um estar à prova e sujeito à crítica. A ter uma noite melhor ou pior. Obriga a muitos sacrifícios, a decidir que hoje não posso sair ou conversar, que é melhor ir ler um livro porque no dia a seguir tenho um ensaio ou uma récita. Não posso comer isto ou aquilo porque vai ser demasiado pesado e trazer consequências para as cordas vocais. É um bocadinho como um sacerdócio.

Como descobre a sua voz?

Em casa. Acho que mesmo pela família, inclusivamente da parte materna, que não tinha contacto com a música. O meu avô gostava de me pôr em cima de uma cadeirinha a cantar. Dava-me sempre uma gratificação. Lembro-me daquilo como os meus cachets Desde miúda tive sempre um bocado aquela coisa de cantar, de falar imenso, de fazer personagens. Era um bocado inconsciente mas estava a marinar. A minha escolha foi o violino, que era a minha paixão, mas com o tempo toda a gente falava da minha voz. Pensava que ia ser violinista toda a vida mas decido então trabalhar a voz com pequenas canções, pequenos poemas. Era a possibilidade de ser diferente daquilo que sou todos os dias. Isso ganhou a batalha. Foi aí que veio a decisão de me entregar ao canto lírico.

Já orientada pelos professores no conservatório?

Não, é uma escolha própria. Conforme vai havendo maior aproximação à técnica do canto começo a sentir que o meu caminho é esse. O meu caminho é contar histórias através da voz e não através do violino.

Falava dessas personagens. É fácil entrar no mundo e depois desligar-se dessa série de figuras fortíssimas a que dá vida?

É complicado. Estudo-as, até socialmente, no momento em que viveram, como se comportavam, sigo a pintura, a arquitectura, tudo em redor dessa época. Tem tudo a ver com a personagem e com aquilo que o libretista e o compositor escreveram. Depois é através dos meus sentimentos que elas chegam ao palco. Muitas vezes é preciso ter sempre um bocadinho do pé de fora, para não corrermos o risco de atingir e viver aquilo como se estivéssemos já com uma faca na mão preparada para matar alguém [risos]. É o que acontece na Tosca. Temos também de dosear a voz, que está lá para servir o drama. É preciso alguma lucidez que me lembre que sou Elisabete Matos e não devo passar certa linha. Ficamos sempre marcados pelas personagens e trazemos coisas cá para fora que demoram imenso tempo a sair. Mas é fantástico hoje ser a Tosca e amanhã Lady Macbeth ou a Sieglinde das Valquírias.

Ou a Isolda, a sua preferida.

Exacto. Com ela é facílimo deixar-me ir, quase não saber voltar. É uma satisfação muito grande poder ser tantas pessoas dentro de uma vida, mas pensando sempre que quando acaba voltamos a ser nós, com os nossos sentimentos, na nossa casa. Daí achar que um cantor tem de saber gerir muito bem isto. Está afastado da família, dos amigos, mas é preciso criar uma vida. Quando de repente um instrumento deixa de estar nas melhores condições, a partir de certa idade, se só soubermos fazer aquilo vêm as depressões, os problemas. Aconselho sempre as pessoas a criar uma vida dentro do possível, ter algo para além do palco. Porque quando saímos dele...

Imagina esse momento?

Sim, farei certamente alguma coisa ligada à música. Haverá um momento em que o ensino tomará uma proporção grande, até porque penso que é uma das obrigações de uma pessoa que atinge uma certa maturidade. Devemos transmitir aos mais jovens o que aprendemos com os outros. Há tantas outras coisas para fazer... Lembro-me que em criança era feliz só de parar no meio do campo e ouvir aquele barulho [tsssssssssssss], ou quando via as margaridas amarelas. O que não podemos é fazer desta bela profissão a ideia de que só podemos viver para ela. Devemos ter a consciência de que o momento de fazer outras coisas chegará. Tudo é fruto de uma época, como as rugas. A beleza transforma-se, também vem da maturidade, de ter vivido, de ter amado, dos desenganos amorosos. Esse conhecimento faz valer a pena.

É natural que nunca tenha sido a mesma pessoa quando deu a vida em ocasiões diferentes à mesma personagem.

Ah, nunca é igual. Estou em constante mutação. Há uma técnica mas nunca sentimos da mesma maneira. E há sempre uma aprendizagem ao acabar, senão também não tinha sentido o mesmo público ver as mesmas pessoas. O público também é sempre diferente e o resultado que vai sair é sempre outro. A vida é isso mesmo.

Como foi a sua estreia em palco?

Fiz a cigana Frasquita [Carmen] ainda era muito novinha, quando estava a transferir-me para Espanha. Ainda não tinha consciência de como as coisas iriam processar-se, mas foi uma experiência bonita, rodeada de colegas portugueses.

Quando sentiu que o seu caminho seria inevitavelmente este?

Já nessa altura. Quando vou para fora com uma bolsa de estudos da Fundação Gulbenkian já existia a ideia de querer viver disto. Agora, se ia conseguir ou não, era outra coisa. Não basta ter voz e talento, é preciso ter voz, talento, sorte, estar no sítio certo à hora certa, tenacidade, espírito de sacrifício, desprender-se de coisas. Não se pode ter tudo na vida, o que é preciso é tentar ser feliz.

Que nomes foram decisivos no seu percurso?

Tantos... O Plácido Domingo, o Carreras, Eva Marton, Teresa Berganza. Alguns com quem trabalhei e outros que ouvi e serviram de guia para a minha vida, como a Birgit Nilsson, a Renata Tebaldi, a Maria Callas, claro, que é um dos meus ídolos. É a mulher mais revolucionária, que leva a personagem ao palco. Curiosamente quase todos nomes do passado. Se pensar numa Tebaldi ou numa Callas, percebe que são especiais porque se dedicaram àquilo, foram ensinadas por grandes maestros. Hoje em dia é tudo muito rápido. Depois de uma vem outra, há aquela ideia do 90-60-90, aquelas coisas todas. É óbvio que é fantástico encontrar uma senhora belíssima no palco, que cante bem, que tenha uma grande personalidade. Mas também há grandes intérpretes que não eram propriamente belas. A beleza é o que vem da alma.

Que peso tem esse lado estético na vida de uma soprano?

Cada voz tem uma tipologia física. Não é correcto pensar que uma cantora de ópera é sinónimo de gorda, mas tem de haver consistência para pisar o palco três horas e estar ali em directo a lutar. O que não acho correcto é passar para o outro lado. Se é uma senhora gorducha mas é uma grande intérprete, qual é o problema? Aí é que se vê a genialidade do encenador e do figurinista. A estética só pela futilidade do que o olho vê não me interessa.

Já se sentiu avaliada exclusivamente por esse aspecto?

Graças a Deus nunca passei por isso. Mas há colegas minhas que eram mais fortes e viveram isso, que não tem nada a ver com a arte.

Já actuou em Guimarães. Tem um sabor especial regressar a casa?

Sim, são momentos bonitos. Guimarães, Braga, Porto... Sempre estive perto da terra. É conhecerem a menina que cresceu ali e de repente acharem que sou diferente. Depois passo por elas, chamo--as pelo nome e cria-se aquela naturalidade que deve existir. Só isso justifica a vida. É importante saber de onde viemos e que um dia vamos todos para o mesmo sítio.

Fonte: http://www.ionline.pt/