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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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DOURO LITORAL É MINHO!

Transcrevemos parte de um extenso texto da autoria do escritor ponte-limense Conde d’Aurora, D. José de Sá Coutinho, o qual constitui o prefácio da "Antologia da Terra Portuguesa", publicado pela Livraria Bertrand, através do qual se rebate a ideia errónea com que muitas vezes se encara parte do Minho como se tratando de uma nova província – o Douro Litoral – construindo-se conceitos errados nomeadamente no domínio do folclore e da etnografia.

“Cabe, este volume da Antologia da Terra Portuguesa, aos escritores da Província do Douro Litoral.

Trata-se de uma novíssima divisão territorial, transitória medida, esperemos (com seu muito de arbitrário), tentativa de adaptação à divisão liberal por distritos à moda francesa revolucionária dos departamentos – e contrariando toda a tradição, costumes e condições naturais.

Criou-se nos últimos anos, mutilando a velha e tradicional Província de Entre Douro e Minho (já truncada em 1834, subdividida em Minho e em Douro, já então sendo Santo Tirso, no Douro, por exemplo, mas não tendo qualquer efeito prático essa divisão de Províncias), de modo a ficarem nela incluídos o Distrito do Porto e ainda os Concelhos de Espinho, Arouca, Castelo de Paiva e Vila da Feira, do Distrito de Aveiro – e os de Resende e Cinfães, no de Viseu.

E sendo a nova comarca administrativa denominada Minho, apenas constituída pelos distritos de Braga e de Viana do Castelo.

Divisão de critério meramente ferroviário, baseado na penetração das duas velhas linhas do Estado, a do Minho e a do Douro, subdividindo-se em Ermesinde.

A querer partilhar a velha e ancestral Província na sua unidade inegável que resistira a tantos séculos, por se achar demasiado grande, porque não dar-lhe então os títulos, respectivamente, de Alto e Baixo Minho?

Assim poderiam continuar a ser minhotos, oficialmente, os povos do resto da velha comarca interamnense; minhotos sem distinção dos restantes, hoje destinados à condição de douro-litoralenses, os minhotos de Felgueiras, de Santo Tirso, da Póvoa ou de Baião…

De resto o leitor verá, pelos trechos da presente antologia, como todos os escritores, à excepção dos burocratas da actualidade, tratam este pedaço de território nacional como Minho, e seus habitantes por minhotos, que o são com a maior propriedade e legitimidade. Ao acaso, citarei o grande escritor Carlos Malheiro Dias sempre apelidando os portugueses de minhotos nos três volumes das suas magistrais Cartas de Lisboa; o mesmo sucedendo a Almeida Garrett; e ao imortal criador de Fradique Mendes, considerando coração do Minho a Quinta de Moreira da Maia, de Luís de Magalhães, tão admiravelmente descrita sob o título de Quinta de refaldes (Minho), e a de Santa Cruz, em Baião, dos Condes de Resende, imortalizada como Tormes.

Ora porque o Entre Douro e Minho continua a ser uma indiscutível unidade mas tão vastos seus interesses culturais, espirituais e temporais, enchendo o tempo e o Espaço, justo é caberem-lhe três volumes nesta colecção de antologias; e que por tácito entendimento entre os dois ilustres pensadores que orientam a do Minho e a do Porto, e o humilde escrevedor anotante desta prefacção, se relegasse para o mais obscuro o esboço do conjunto provincial.

Já o Padre João Baptista de Castro, no seu Mapa de Portugal, publicado no ano distante de 1745, se referia à divisão de Portugal em seis províncias – e quanto à do Minho relatava:

“Como esta Província está encerrada entre as famosas correntes dos rios Douro e Minho no Ocidente setentrional da Espanha tomou nome de Entre Douro e Minho, que em latim se diz Interamnensis, ou Duriminea. Quase todos os geógrafos (e cita Duarte Nunes de Leão, João de Barros Faria, João Salgado de Araújo e outros) “lhe dão de comprido de Norte a Sul dezoito léguas, e de Nascente a Poente doze de largo na sua maior largura, porque em algumas partes não tem mais de oito.

Confina esta Província da bando do Meio-Dia com o rio Douro, que a separa da Beira: da banda do Ocidente parte com o mar oceano, começando em S. João da Foz e acabando na vila de Caminho, onde o rio Minho divide Portugal da Galiza.”

(E não transcrevo mais porque é o repetido por todos os geógrafos e no texto o tem o leitor avonde: Castro laboreiro ao Gerês, serra de Barroso a Cavez e Amarante, e, por Baião, outra vez ao rio Douro).

E refere ainda o Padre Baptista as “estãncias da musa de um engenho espanhol”:

 

“Es entre-Duero, y Miño la primera

Porcion del Reyno, en rios muy bañada

Donde Braga magnânima propéra

De los Brachatos hija sublimada

 

Al Romano difícil, y guerrera:

A los de Porto altiva, y respetada:

De Augusto honor, Juridico Convento

Corte Sueva, y Arçobispal assiento.

Del Duero ilistra el margen atractivo

Porto que de Gatelo Pueblo raro

Com mitra Episcopal se ostenta altivo,

Dandole a Portugal nombre preclaro

Guimarães, Villa es noble, y primitivo

Solio de Reys Lusos. Tiene claro

Timbre Puente de Lima: altas belezas

Viana, de partido ambas cabeças.”

 

Província das romarias (da Peneda e do São Torcato, da Agonia e das “Feiras Novas” à de S. Gonçalo e á da srª da Graça).

Comarca das feiras, semanais, quinzenais e anuais, tão célebres as de Ponte de Lima e Barcelos como a do S. Martinho em Penafiel, feira de cavalos rivalizando com a do S. Miguel em Famalicão (da faca minhota e do garrano travadinho).

Terra do granito, terra negra de aluvião, do vinho verde de enforcado e de latadas, desde Monção a Amarante: seus pequeninos campos de propriedade não pulverizada como o pretendem tantos economistas, mas ábia e socialmente dividida: total de cem mil produtores de vinho, agasalhando menos de duas pipas (ou seja menos de mil litros!) cerca de cinquenta mil colheteiros; trinta mil arrecadando de duas a cinco pipas anuais; apenas uns escassos noventa e cinco atingindo a centena; e só dez, ao todo, ultrapassando duzentas pipas, mas nenhum colhendo mais de quinhentas!

Província interamnense do consórcio do feijão e do milho, ininterruptamente, há séculos, sem um sinal de erosão – essa lepra que arruinou já quatro quintas partes do território total da grande América do Norte.

Terra dos lindos jugos trabalhados em madeira ainda hoje entalhada com os primitivos desenhos de beleza ingénua do século XVI, idêntica à velhas arquibancadas monásticas.

Com seus lindos boizinhos piscos de focinhito negro luzidio e alta cornadura de belo desenho em lira.

Carro de eixo móvel girando em admirável cântico vesperal de louvar a Deus, nos altos córregos dos pequeninos altos montes minhotos.

E das danças e dos cantares, da gota e do vira de Carreço e de Santa marta, à chla de Paredes e de Penafiel.

E das soberbas mulheres de peito estrelado a oiro – esse oiro trabalhado à mão pelos mesteirais da Póvoa de Lanhoso e de Gondomar (é curioso ter havido contrastarias nestas duas localidades). Entre Douro e Minho das mil águas de rega, de lima e rega, de torna-tornarás, e seus mil cantantes e bucólicos regatinhos (“espertos regatinhos” dizia Eça!) movendo as 30.000 azenhas registadas na Repartição de Hidráulica como existentes já desde antes do Código Civil e ainda há pouco laborando…

Como diferenciar nos livros de Camilo. O grande escritor quase exclusivamente minhoto, suas páginas do Minho actual das do actual Douro Litoral: Landim, Famalicão, Santo Tirso, Braga, Amarante, Porto?

Profético, parece, também, outro grande escritor que se sublimava no descritivo do Minho, Antero de Figueiredo, haver saltitado entre terras idênticas hoje separadas pelo risco dos repartidores administrativos…

Minho, bem Minho, essa terra negra de Bougado, ao diante transcrita na pintura anteriana.

Terra de brasileiros, todo esse Entre Douro e Minho, aquém e além Ave – que a admirável página de Fialho, ao descrever o chalet de Famalicão, podia-o ter encaixado em qualquer outra silória interamnense, dos Arcos de Valdevez a Fafe.

Excelente tipo de portugueês, tão mal tratado pela literatura e ao qual se devem tantos dos benefícios da Província no terrível período da crise do liberalismo.

Seja um primeiro acto de desagravo a inserção neste volume da página da Monografia de Gondomar referente à grande figura desse protótipo de brasileiro torna-viagem, a imortal figura do Conde de Ferreira, Deus tenha em Santa guarda a sua alma.

Aos escritores (desde Eça a Garrett, desde Alberto Sampaio a todos os seus pares da Portugália; desde Gonçalo Sampaio a João penha; desde Régio a Pascoais, desde Vila Moura a António Patrício) – não me referirei se não muito rapidamente, porque a antologia fala pela própria boca deles mesmos.

(…)

Deste pedaço irridente da velha província de Entre Douro e Minho do Sudeste, hoje Douro Litoral, melhor do que a minha pálida e descolorida prosa falarão os escritores, dos mais célebres e afamados de Portugal, tanto os nascidos como os radicados na Província de que o presente trabalho é antologia.”

Conde d’Aurora