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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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CASA DO MINHO EM WINNIPEG (CANADÁ) FOI FUNDADA HÁ 50 ANOS – LIMIANO MANUEL RODRIGUES SOUSA FOI O PRINCIPAL IMPULSIONADOR!

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Nas últimas décadas, a comunidade portuguesa de Winnipeg consolidou-se como uma das mais organizadas, cultural e socialmente, na região. No entanto, nem sempre foi assim. Quando a Casa do Minho foi fundada, no longínquo ano de 1974, a comunidade já contava com cerca de vinte e cinco mil pessoas, mas era servida apenas por uma associação. Embora a intenção não tenha sido de rivalizar com a única organização existente na época, a Casa do Minho foi inevitavelmente formada por necessidade. O que aconteceu depois é um exemplo de perseverança, resiliência, compromisso e dedicação dos seus associados e amigos.

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Manuel Rodrigues Sousa é um exemplo dessa devoção. Foi um dos fundadores da Casa do Minho e tornou-se uma figura respeitada na comunidade portuguesa de Winnipeg devido às suas décadas de dedicação abnegada como voluntário com funções e responsabilidades variadas. Ainda ativo no campo associativo, o seu legado transpôs gerações e inspirou outros jovens a seguir os seus passos. Um exemplo perfeito disso é o seu filho mais novo, Samuel Sousa, que tem estado no centro das atenções em muitas das iniciativas da organização e que agora é o seu novo presidente.

Nascido a 10 de novembro de 1943, em S. Martinho de Gandra, Ponte de Lima, Manuel Sousa trabalhou desde cedo como lavrador. Rapidamente desenvolveu uma afeição especial pelo folclore e juntou-se ao grupo da sua aldeia na tenra idade de 15 anos. Em 1964, alistou-se no exército e um ano depois viajou para a Guiné-Bissau para lutar numa guerra colonial desnecessária durante três longos anos. Voltou para a sua cidade natal em 1967, quatro dias após o falecimento do seu pai. Nesse mesmo ano, casou-se e começou a trabalhar como camionista para uma fornecedora de materiais de construção. Cinco anos depois, a 4 de junho de 1972, partiu para o Canadá num voo que pousou em Toronto, cidade onde planeava ficar e, mais tarde, juntar a sua família. No entanto, ele foi convencido por conhecidos a voar mais para o oeste, para Winnipeg, onde chegou dias depois. Eventualmente adquiriu estatuto de residente permanente no Canadá e, a 16 de abril de 1975, viajou a Portugal para trazer consigo a sua esposa e dois filhos, tornando Winnipeg o seu lar permanente.

Quando cheguei, a comunidade era grande. Há quem diga que naquela época tínhamos mais portugueses aqui do que agora porque a imigração estava aberta e tínhamos gente a chegar a toda a hora. […] Embora aqui tivéssemos muita gente, havia pouco envolvimento na comunidade”, disse Manuel Sousa em entrevista realizada via Zoom. “Em 1973, comecei a envolver-me. A Associação Portuguesa de Manitoba era a única associação na altura, mas eram poucas as pessoas que estavam envolvidas”, acrescentou.

Embora a participação da comunidade na vida associatiava não fosse proeminente, Manuel Sousa testemunhou a integração inaugural de um rancho português no Folklorama, um evento que exibe as diversas culturas e etnías de Winnipeg durante duas semanas repletas de interesse a cada agosto. "O Senhor José Vieira, natural de Oleiros (Ponte da Barca), formou o rancho, em 1967 ou 68, que fazia parte da Associação Portuguesa. Em 1973, o Sr. Vieira convidou-me para fazer parte do grupo”, recordou Manuel Sousa.

Foi aqui que Manuel Sousa se envolveu pela primeira vez no trabalho comunitário em Winnipeg, mas mal sabia ele que o rancho folclórico da Associação serviria de prelúdio para a formação da Casa do Minho. Aconteceu que, na época, o rancho não tinha equipamento para ampliar o som para que os irmãos Garcia e Luciano Matias, os acordeonistas que acompanhavam o rancho na altura, fossem devidamente ouvidos pelo público. Garcia Matias decidiu comprar um microfone e um conjunto de colunas e então propôs que, embora não cobrasse pelos ensaios, lhe pagassem 10 dólares por cada atuação. Os elementos do rancho concordaram prontamente mas o Sr. Vieira não conseguiu convencer a Direcção da Associação Portuguesa, que tinha dois administradores que se opunham veementemente à proposta. Disso resultou uma ruptura entre José Vieira e a Associação, que o levou a formar o seu próprio grupo denominado Casa do Minho Portuguese Folk Dances. Assim, a nova associação foi formada. José Vieira tornou-se o seu primeiro Presidente.

“Em 4 de maio de 1974, o Sr. Vieira registou o grupo no Folk Arts Council. Foi na garagem dele que fizemos os primeiros ensaios”, recordou Manuel Sousa. “Sou um dos fundadores, membro número 8. Não tínhamos membros pagantes e formamos o nossa próprio Executivo composta por voluntários. Demos-lhe o nome de Casa do Minho mas, na altura, pouquíssimos membros eram minhotos”, acrescentou.

Durante cerca de nove anos, o folclore manteve-se como a principal atividade da associação, mas o teatro, produzido pelos seus voluntários, e organizações de jantares para celebrar ocasiões especiais como a Páscoa e o Ano Novo também iam ganhando o seu espaço. “A nossa primeira peça [de teatro] foi em 1975. Depois começámos a comemorar o Carnaval, a Páscoa e o Ano Novo [numa época em que] esses jantares formais não eram organizados. Fomos nós que começámos. Alugávamos salões e os voluntários serviam”, disse Manuel Sousa. A primeira festa de Ano Novo foi realizada em 1976.

Embora a garagem de José Vieira se tenha tornado um local viável para os ensaios nos meses de verão, as coisas não pareciam tão promissoras quando o primeiro inverno chegou, obrigando o grupo a mudar-se para um local com aquecimento adequado. “O Bomba Club, na Sargent [Avenue] tinha uma cave espaçosa. Como o Sr. Vieira era cliente lá, eles concordaram em alugar o espaço para nós ensaiarmos. Pagávamos 20 ou 30 dólares por mês. Depois, alugámos uma casinha na Isabel [Street] onde ficamos até 1983. Depois, havia um senhor dono de uma padaria (Continental Bakery) que não usava o espaço do último andar. Alugámos por 100 dólares por mês”, lembrou Manuel Sousa.

É em 1983 que a Casa do Minho assiste a um crescimento significativo. Após nove anos de tentativas falhadas para participar do Folklorama de Winnipeg, a sua candidatura foi finalmente aprovada. Foi Manuel Sousa que ficou responsável por todo o processo, já que José Vieira se encontrava de férias em Portugal na altura. "O Senhor Vieira estava em Portugal e fomos chamados para uma reunião no Folk Arts Council. O meu inglês era fraco na altura e tive que trazer ajuda. Fizeram algumas perguntas e eu disse-lhes que representaríamos o norte de Portugal, de Valença a Coimbra. Disse-lhes também que os Açores e a Madeira não estavam bem representados [no folklorama] e que também os representaríamos. Eles disseram que considerariam a nossa participação e sugeriram que encontrássemos um salão para servir como nosso pavilhão. Sir John Franklin [Centro Comunitário] tinha um salão e uma cozinha separada. Lá, podíamos receber mais gente”, contou Manuel Sousa. Mais tarde, a cave da Imaculada Conceição, igreja católica portuguesa, tornou-se o local do pavilhão do Folklorama da Casa do Minho até que a organização adquiriu o seu edifício atual, em 1997.

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Fotos: Paulo Ferreira