CAMINHA: FESTIVAL DE VILAR DE MOUROS – DECANO DOS FESTIVAIS DE MÚSICA EM PORTUGAL
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Um ano depois da carga policial sobre a multidão no Festival de Música dos Salesianos no Estoril, em agosto de 1971 o Alto Minho recebia a primeira edição do festival de Vilar de Mouros.
A história começa um pouco antes, com duas edições mais pequenas: em 1965, dedicada à música tradicional do Minho e da Galiza, e em 1968, com artistas portugueses como José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Carlos Paredes no meio de ranchos folclóricos e da banda da GNR.
No verão de 1971, o festival, apostado na “música moderna”, na Pop e no Rock, recebe nos dias 7 e 8 de agosto nomes como Elton John, Manfred Mann, Quarteto 1111, Rão Kyao, Sindikato, Duo Ouro Negro ou Amália Rodrigues.
Em relatório da PIDE/DGS de 26 de agosto, aquilo que sobressai são considerações de índole essencialmente moral e dos costumes: a alegada promiscuidade e as práticas sexuais da assistência, homens de mão dada, o consumo de drogas, os modos de Elton John ou o desagrado da população com os “cabeludos” e o aspeto da assistência.
A análise política estava guardada para as bandeiras vermelhas nas margens do rio Coura, para o facto de um dos membros dos Manfred Mann ter gritado "Angola é… (qualquer coisa)” e de o seu baterista, Mike Hugg, ser “um declarado comunista”.
Naquele que terá sido o primeiro festival de música Rock em Portugal terão estado 20 a 25 mil pessoas. Dias de liberdade e libertação, modernidade, música, juventude e festa, que o regime, decrépito, olhou com desconforto, destacando GNR e PIDE para vigiarem os acontecimentos, desta vez sem cargas policiais, mas numa omnipresença vigilante. As ditaduras não gostam de Rock n’ Roll.
A muitos dos jovens que por ali passaram esperava-os a guerra colonial ou as fortemente politizadas universidades portuguesas em clima de crescente tensão, enquanto o Estado Novo, no seu período “marcelista”, pusera para trás quaisquer veleidades democratizadoras e de resolução do conflito em África. O fim aproximava-se às mãos de jovens militares desgastados com a guerra colonial.
Foto: Armando Vidal, publicada na reportagem de 'O Século Ilustrado' de 11 de agosto de 1971. Disponível no blog Portal da Loja | Fonte: Museu do Aljube Resistência e Liberdade