Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

BRAZ REGUEIRO EXPÔS EM 1966 NA ASSEMBLEIA NACIONAL A SITUAÇÃO ECONÓMICA EM QUE À ÉPOCA SE ENCONTRAVA O MINHO

Braz Regueiro, deputado à Assembleia Nacional na IX Legislatura, na sessão de 22 de março de 1966, expôs a situação económico-social do Minho à época, com um discurso eloquente que não resistimos a transcrever do Diário das Sessões do dia seguinte. Presidiu à sessão Mário Figueiredo, tendo como secretários Fernando Cid de Oliveira Proença e Mário Bento Martins Soares.

brazregueiro1 (1).jpg

Braz Regueiro era natural de Peso da Régua. Porém, no exercício da sua profissão de médico, viria a ficar bastante ligado ao concelho de Paredes de Coura onde foi Diretor do Sanatório Presidente Carmona em acumulação com as funções de médico municipal do mesmo concelho, Diretor da Consulta do Dispensário de Paredes de Coura e Médico delegado dos Serviços Médico-Sociais das Caixas de Previdência. Foi ainda Presidente da Comissão Concelhia de Paredes de Coura da União Nacional (1965); Delegado da Legião Portuguesa no concelho de Paredes de Coura (1965) e Presidente da Câmara Municipal de Paredes de Coura (1965).

"O Sr. Braz Regueiro: - Sr. Presidente, Srs. Deputados: E a primeira vez que peço a palavra neste areópago político, pelo que são para V. Ex.ª, Sr. Presidente, os meus melhores cumprimentos de admiração e respeito.

Respeito pelo homem probo e pelo professor ilustre e admiração pelo seu poder de decisão, firmeza de princípios, coragem moral, capacidade de trabalho, espírito, de sacrifício e isenção inatacável.

Aos ilustres Deputados desta Assembleia apresento também os melhores cumprimentos de fraterna amizade e a promessa de sempre leal colaboração.

Sr. Presidente, Srs. Deputados: O Minho é o jardim de Portugal, classificação que com verdade e justiça calha bem a essa formosa província, das mais coloridas e pitorescas, das mais tradicionais, das mais populosas e das mais activas, «berço onde se embalou a nacionalidade portuguesa».

Terra de gente boa e hospitaleira, presente sempre nos momentos das grandes crises nacionais, vivendo a cultivar a tenra na tranquilidade bucólica da paz e, de fugida, descansando e dormindo embalada pelo vaivém das ondas do mar, que, como ainda este Inverno se verificou, ou tudo lhe dá, ou tudo lhe leva.

Como já foi dito, a história do País é a história do Minho, já que aqui se iniciou a autonomia do velho Condado Portucalense. O Minhoto traz no peito, como em simbiose, o génio celta e a alma grega: é fecundo e emigrador.

Pelas sete partidas do Mundo se distribui o Minhoto.

Noutros tempos, quando a miséria era factor determinante da emigração, o Minhoto procurava o Brasil, terra irmã, de todas a mais querida, onde se vivia - e vive ainda - como em Portugal: os mesmos costumes, a mesma língua, a mesma crença, os mesmos ideais!

Portugal e Brasil, ontem como hoje, são árvore frondosa presa pelas mesmas raízes a um passado de glória, hoje como ontem, a mesma carne e espírito, - o mesmo sangue e lágrimas!

Brasil e Portugal, milhares de léguas a separarem-nos, milhões, de vínculos e afectos a unirem-nos!

Os ventos da história mudaram, e a emigração faz-se hoje de preferência para França, para a Alemanha e para o Canadá e é determinada já, não pela miséria, mas pela ambição de melhoria do nível de vida.

No Brasil de outros tempos, na França, na Alemanha ou no Canadá dos nossos dias, onde vive o Minhoto vive a nossa raça, onde ele está se perpetua a nossa história, lá anda «a nossa vida em pedaços repartida» e lá está também o orgulho de Portugal evangelizador e colonizador, o valente, caminheiro «que todos os campos ara e se mais mundos houvera lá chegara».

Rico, muito rico, esse maravilhoso vale do Minho, rico de paisagem, de céu azul de apoteose, azul dourado, azul inocente, azul sem mácula, onde o sol ri, a verdura canta, o vinho é alegre e a tulha é farta, no dizer de um poeta.

Lá no alto, Melgaço, a dominar uma vastidão de território serrano, até há pouco impermeável ao progresso e hoje terra de populações aspirando a cada vez mais regalias e benefícios.

Depois Monção, a menina bonita do Alto Minho, terra de Deuladeu Martins, hoje como ontem ciosa dos seus encantos, dispondo de atractivos e condições naturais excepcionais para o enquadramento numa desejada conjuntura turística nacional.

Valença do Minho, mais abaixo, fortaleza inexpugnável de outras eras, protótipo da povoação muralhada, enamorada sempre do rio que lhe serve o nome, a demarcar a fronteira norte de Portugal.

Cerveira a seguir, pequenina e maneirinha, alegre e colorida, cem o rio aos pés e a contrastar com os seus altos verdejantes e serpenteados.

Caminha vem depois, a deslumbrar, a intimar paragem e descanso ao turista que vem do norte; graciosa e gentil, autêntica «fascinação feita de luz e água».

Perto está Viana, a capital do distrito, a princesa do Lima, cheia de tradições etnográficas e folclóricas, de belezas paisagísticas sem par, de riquezas incomparáveis no seu património histórico e cultural.

Ponte de Lima, terra de poetas enamorados do encanto da paisagem; símbolo da abundância; terra de fidalgos e do Lete mitológico, «o lugar próprio para esquecer todos os outros do Mundo».

Arcos de Valdevez, mais além, com os encantos do Extremo, e as solidões da Peneda. É concelho também de fidalgos ilustres. É rica nos frondosos arvoredos, nas ravinas dos montes e nas férteis planícies, onde corre o fascinador e meigo Vez.

Pegado e muito junto, está Ponte da Barca, a terra da Nóbrega de Antanho, pequena, mas encantadora, aristrocata e briosa da sua génese histórica.

Finalmente, Paredes de Coura, o coração do distrito e o celeiro do Minho, pequeno concelho serrano onde o ar é puro e as águas abundantes.

Chamam-lhe a Suíça portuguesa pela sua situação montanhosa e pela excelência do seu clima privilegiado.

Nos arredores da vila, no encantador monte da Pena, ergue-se o Sanatório do Presidente Carmona, unidade assistencial moderna e eficiente e obra do Estado Novo.

E agora o contraste!

Distrito rico, muito rico de paisagem e boniteza, é pobre, muito pobre, nos aspectos social e económico.

O extraordinário surto de actividades ligadas ao turismo quase não se faz sentir neste vale do Minho, que, como vimos e sabemos, é das terras mais privilegiadas pela natureza, a pedir meças a quantas das melhores de todo o Mundo se reclamam por aí em coloridos cartazes turísticos.

À parte um arremedo de turismo na capital do distrito, nada, absolutamente nada, está feito, ao abrigo de investimentos oficiais ou de iniciativa particular nos restantes concelhos, todos, sem excepção, a oferecer gratuitamente tantos motivos de atracção pelo encanto de dons naturais.

Só Viana e Valença mantêm uma indústria hoteleira à altura das circunstâncias.

De resto, só instalações anacrónicas, quando não repugnantes, a incitar os Poderes Públicos no sentido de investir capitais na construção, em todas as sedes de concelho, não digo de pousadas, mas de estalagens, modestas embora, mas a satisfazer as exigências do mundo moderno, com orgânica semioficial, com pessoal adestrado e capaz, de preferência preparado em escolas hoteleiras, que, a exemplo da vizinha e amiga Espanha, há necessidade de criar a bem do turismo nacional.

Salve-se a honra do convento e o que resta da tradicional cozinha portuguesa.

E que dizer da indústria?

Os investimentos nesse sector são tão reduzidos que, todos o sabem, por não contar praticamente na economia do distrito, é causa determinante - mais do que o elevado índice da natalidade - do êxodo rural para os meios urbanos e para o estrangeiro, êxodo que, sendo característica regional de todos os tempos, o é hoje com aspectos catastróficos para a lavoura, empobrecida pela insuficiência dos preços, tributações onerosas, condições meteorológicas nem sempre favoráveis e mão-de-obra a impor salários altos. O amanho das terras está entregue quase exclusivamente a velhos e a mulheres, a exigir-lhes um sacrifício doloroso para quem não é escravo ou o é por amor e devoção à terra, presos a uma monocultura - a do milharal - que constitui uma precariedade económica tão pequena que, por vezes, ao depauperamento da província se junta a fome na família.

O Sr. Borges de Araújo: - Muito bem!

O Orador: - Aqui fica um aviso sincero, doloroso e alarmante: se não acodem à lavoura do Alto Minho, exausta por séculos de produção, o que em breve restará é chão queimado.

Que esperar da cultura de prédios rústicos de área tão reduzida, altamente absorvedora da mão-de-obra, mantas de retalhos que valorizam e enriquecem a paisagem, mas que são peso morto na economia nacional?

A pequena courela tem os seus dias contados, já que o que se pretende como objectivo económico do País é uma maior quantidade do melhor produto ao mais baixo preço, objectivo impossível de atingir com os pequenos prédios rústicos que constituem uma agricultura nntieconómica.

No emparcelamento está a solução. Por que esperamos?

Temos de lutar contra a falira de espírito associativo dos nossos lavradores e educá-lo no sentido de perceberem primeiro e aceitarem depois um sistema que ao fim e ao cabo lhes aumenta os proventos e os detende da ruína.

E que dizer, e para rematar, de dois problemas que afligem todos os concelhos, todo o Alto Minho, de lês a lês, motivo constante de reparos e protestos, justos e compreensíveis por constituírem necessidades, que mal se compreende esperem ainda solução [...ilegível...]

Quero referir-me à distribuição de águas e à electrificação.

Nas 287 freguesias do distrito de Viana do Castelo, em 31 de Dezembro de 1965 existiam, inventariadas, J 346 fontes de mergulho, das quais só 520 foram beneficiadas, aguardando ainda comparticipação 556, ficando muitas outras à espera do antecipado estudo.

Registe-se também que das 287 freguesias, só 115 dispõem de abastecimento de água por fontanário e só 27 gozam da regalia de abastecimento domiciliário.

Estes números falam por si e, dispensam quaisquer outros comentários, uma vez que mais que tudo é a saúde pública que está em jogo.

Um parêntesis para salientar que já depois de concluídos estes apontamentos tivemos a honra de receber, no passado sábado, a visita de S. Ex.ª o Ministro das Obras Públicas; visita de estudo, de estudo honesto, sério e eficiente, como são sempre as visitas do ilustre Ministro, que a todos vem dando lições de portuguesismo e de sacrifício pela grei. numa manifestação de inteligência e competência sem par.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - S. Ex.ª. defendo até à minúcia, quis sabor dos presidentes dos municípios como estávamos em relação às fontes de mergulho e em face da calamitosa situação, afirmou: «Até final de 1966 ou se beneficiam as fontes de mergulho ou se arrasam». Para grandes males, grandes remédios.

Os povos do Alto Minho pedem-me que agradeça desta tribuna a S. Ex.ª a carinhosa protecção.

Não é menos desanimado o que diz respeito à distribuição de energia eléctrica aos concelhos do distrito.

Vejamos: nas mesmas 287 freguesias só 108 estão totalmente electrificadas; 30 só parcialmente. Neste momento aguardam a tão desejada regalia - ia a dizer o tão desejado direito - 149 freguesias!

Para só me referir a dois concelhos, sem me esquecer que proporcionalmente todos os outros se mantêm deficitários, citarei que no de Arcos de Valdevez, de 51 freguesias, só 7 estão totalmente electrificadas 11 parcialmente e 33 completamente às escuras.

Ponte de Lima, também com 51 freguesias, só 6 conhecem a regalia desse índice de civilização; só duas estão parcialmente electrificadas e 43 vivem nas trevas a partir do pôr do Sol.

Há 25 anos que faço clínica num concelho rural do Alto Minho.

Assisti já a centenas de partos tendo como única fonte, de iluminação a luz da candeia.

Assisti já milhares de receitas à luz bruxuleante de uma vela de cera, já que a vela de cera se usa indistintamente entre essas populações pobres na igreja e no lar, uma vez que a de estearina lhes custa mais uns tostões.

Eu, que queria morrer a subscrever uma receita por amor à arte e por necessidade, peço a Deus me dê a graça de subscrever a estima à luz da energia eléctrica.

Acabo, como comecei, citando de maneira despretensiosa as grandezas e misérias de uma região, rica, muito rica pela graça de Deus, pobre, muito pobre pela indiferença e ingratidão dos homens.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O orador foi muito cumprimentado."

zdiarsess.jpg