BERNARDINO MACHADO EVOCOU CARDEAL SARAIVA NA SESSÃO DE 13 DE JUNHO DE 1912 DO SENADO DA REPÚBLICA
O Sr. Benardino Machado: — Um Sr. Senador preguntou ontem se não estavam suprimidas as legações de Viena de Áustria e Berlim. A legação de Viena de Áustria está preenchida. 9 o Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros afirmou-me que em breve seria preenchida a de Berlim.
Preguntou-se também, em outro lugar, que cão no Senado, se continuava deserta a legação do Brasil.
Sr. Presidente, não fui imediatamente tomar conta da legação do Rio de Janeiro, porque entendi depois que não devia sair, e que estando aqui cumpria o meu dever patriótico.
Permita-me agora o Senado que, antes de mais nada, procure esclarecer as bases deste debate, tanto mais que ontem se pronunciaram nesta Câmara algumas palavras que podem lançar a confusão no espírito público.
A Kepública não é inimiga "do clero; a República é inimiga do clericalismo, do clericalismo, que foi, durante toda a história da nacicnalidade portuguesa, o maior e pior inimigo de Portugal.
A República ó inimiga do clericalismo que, se não fôsae proclamada a República, teria talvez comprometido a independência da pátria.
A República não é inimiga do clero português, e não se pode dizer que o padre não é patriota, porqae isso seria esquecer o bispo de Viseu, que protestou coníra o dogma da infalibilidade papal, e o cardeal Saraiva, que presidiu às Constituintes de 1820.
Há muitos membros do clero que são profundamente patriotas.
A República Portuguesa não ó atéa, nem católica, nem protestante, está acima de todas as religiões. A República Portuguesa só tem uma religião — a religião da Fraternidade.
Disse-se aqui que da Lei da Separação é consequência a suspensão da legação junto do Vaticano.
Já disse que o Brasil, que tem a igreja separada do Estado, mantêm uma legação junto do Vaticano, e já disse também que nações, que não possuem a religião católica, como a Alemanha e a Rússia, mantêm legação em Roma junto do Vaticano.
A lei portuguesa da Separação é uma lei de independência do Estado, e a manutenção duma legação em Roma não tem o resultado de fazer católicos todos os portugueses, como as legações portuguesas em França e na Inglaterra não dão em resultado que sejamos franceses ou ingleses. Para que a igreja não saia da esfera do seu poder espiritual, é preciso toda, a vigilância e é a legação quem a exerce.
Demais, a Lei da Separação ainda não veio ao Parlamento, e já se quere votar mna das suas consequências ! ... E necessário que se estude a questão das missões e do padroado no Oriente, e se verifique se a legação junto do Vaticano tom ou não importância para a resolução destes assuntos.
^Póde o Senado, cujas funções são moderadoras, com as responsabilidades da agravação deste projecto?
Emquarito não se elucidarem estas questões, não dou o meu voto ao projecto.
O orador não reviu.