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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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APÚLIA E SARGAÇO

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  • Crónica de Helder Cardoso

Diz o povo que além das aptidões e das qualidades herdadas, é a tradição que faz de nós aquilo que somos. Apúlia e as tradições da apanha do sargaço estão intimamente ligadas dada a importância do Sargaço na sua História tendo, principalmente nos últimos 100 anos, a transformado.

De tal forma ligadas que, já por volta de 1300, há registos acerca desta atividade.

 A importância económica nesta atividade agro-maritima foi de tal ordem grande que a área de influência se alargava às freguesias vizinhas (fig.1) devido não só ao seu uso predominante, desde tempos imemoriais, na agricultura biológica mas também à venda do sargaço para outras localidades.

Por volta de 1730, o clero ordenou que a apanha do sargaço só seria legal depois da obtenção de uma licença por parte dos párocos locais e que a mesma apanha do sargaço estava vedada às mulheres na apanha noturna devido ao medo dos comportamentos imorais. Mesmo durante o dia, ordenou o Bispo “que deviam levar os homens as suas calças e as mulheres os seus mantéus a cobrir-lhes as partes pudendas sob pena de multa de duzentos reis para as obras da igreja”.

A agricultura biológica, algo tão em voga nos dias que correm, é a mais antiga e foi a mais importante forma de adubar as terras devido à constituição química do sargaço que é rico em iodo, cal, potássio, ácido fosfórico e azoto e constituindo assim um excelente adubo natural, excelente para a utilização nos campos, que eram longe da costa (como mais abaixo poderemos constatar). A necessidade da utilização do sargaço “obrigava” à apanha independentemente das condições do mar e isso, muitas vezes, custou a vida aos agricultores.

Pela composição química do sargaço, aliada aos campos de masseira, foi conseguida uma simbiose na natureza que tornou os terrenos produtivos e rentáveis, brotando deles legumes de reconhecida qualidade.

Estes campos de masseira, são a combinação perfeita entre a Terra e o Mar, pois num solo impróprio e improdutivo, habitualmente fustigado pelo vento, os nativos encontraram forma de tornar estes terrenos produtivos. As Masseiras (fig.2) são campos escavados na areia até ao nível freático e funcionam como uma espécie de estufa natural. Os valos (lados das masseiras) protegem a área central dos ventos criando assim um microclima. Nestes valos são cultivadas vinhas de forma a sustentar os mesmos.

Por força dos constantes ataques na costa, as povoações eram localizadas mais no interior. No entanto, dada a importância do mar no quotidiano da população, havia a necessidade de fazer o mesmo percurso várias vezes. O percurso, esse, era o mais simples e prático – linhas retas até ao mar – desde os principais núcleos populacionais (fig.3). Estes caminhos ainda hoje existem, alguns ainda como caminhos, outros como vias principais de acesso à vila, como é o caso da Avenida da Praia. Posteriormente, com a evolução e fixação das populações junto ao litoral, o crescimento foi condicionado por estas vias de acesso, sendo criados apenas pequenos caminhos ou becos sem grande fluidez ou critério sendo bastante visível este problema especialmente no Verão.

O Verão, que é a altura do ano em que Apúlia, um pouco à semelhança de muitas localidades costeiras, triplica a sua população dada a afluência sazonal. Isto levou a que o crescimento urbanístico fosse desorganizado e descuidado.

Em 1850 o centro era a rua da igreja e a zona da igreja com apenas uma via de comunicação até à praia. Em 1900 a via de comunicação existente já liga à vila de Fão e já existem construções ao longo do caminho. Chegamos a 1950 já com pequenos caminhos, becos e travessas sem grande fluidez ou critério (fig.4).

Esta mudança “repentina” no urbanismo deveu-se, sobretudo, à grande procura sazonal, o que fez crescer as construções sem planeamento urbanístico (pois no Verão tudo se alugava aos banhistas: quartos, caves garagens adaptadas a residências, quintais e terrenos para campismo…). Por outro lado, foram deixadas construções peculiares e únicas, como é o caso dos moinhos, ou as casas de xisto nas Pedrinhas). Estas casas de xisto eram, inicialmente, abrigos onde os agricultores deixavam os seus utensílios da apanha do Sargaço. Na fase da construção, para tornarem eficiente as suas deslocações, nos dias de mareada traziam para a beira da praia o xisto no carro de bois e iam embora com o sargaço.

Toda esta mudança urbanística deveu-se sobretudo à, ainda hoje, excelente praia medicinal recomendada dos 8 aos 80. É uma das praias portuguesas mais rica em iodo devido à presença do Sargaço, em que a espécie mais abundante é a Feofícia, aqui conhecida como bodelha, cintas, cordas, folha de Maio ou taborra.

Esta parte medicinal das águas de Apúlia levou a que, desde o século XIX, esta praia fosse frequentada por famílias sobejamente importantes e conhecidas e cá se construíssem importantes casas senhoriais, como é o caso da família Sá Carneiro, a família Sameiro (do famoso piloto Vasco Sameiro, que deu nome à pista automóvel de Braga), do Visconde de São Januário – Ministro do Exército a quem os fangueiros pediram para que intercedesse junto do Rei para a construção da Ponte de Fão sobre o rio Cavado, ou o Visconde da Fervença de quem Camilo Castelo Branco era amigo e visita frequente à sua residência em Apúlia. Além destas, muitas outras famílias de casas senhoriais das terras de Barcelos, Braga, Vila Verde, Amares, Fafe tinham cá habitação. E a grande maioria destes edifícios ainda hoje existe.

Esta ligação de Apúlia ao Sargaço acontece já desde tempos imemoriais e é uma riqueza cultural única que em tempos integrou uma candidatura a Património Imaterial da Unesco. Os Sargaceiros de Apúlia têm sido, ao longo dos anos, fiéis embaixadores desta tradição e também um dos maiores embaixadores do Concelho de Esposende.

Com a mudança dos tempos, das necessidades e das tecnologias a aposta a fazer pelas novas gerações deverá ser no sentido de promover (ainda mais) a utilização do sargaço na agricultura e inovar na sua utilização. Esta seria, sem dúvida, uma valiosa aposta no Eco-turismo e no Turismo Histórico onde há um grande potencial por explorar.

Hélder Cardoso (com Filipe Queiroga e João Cândido Veloso)

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