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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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ÁLVARO FEIJÓ: UM CENTENÁRIO

A 5 de julho do ano em curso ocorreu o centenário de nascimento do poeta vianense Álvaro (Távora de Castro e Sousa Correia) Feijó. Sirva a efeméride de pretexto para reabilitar um autor e uma obra que, silenciados precocemente pelo arrasador flagelo da tuberculose, (1) ambos são dignos de apreço e evocação, por parte, sobretudo, de seus conterrâneos.

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Álvaro Feijó faz parte de uma família aristocrática nortenha (Viana, Ponte de Lima e Lousada) que, além de outros méritos e competências, se notabilizou pelos excecionais dotes literários, sobretudo no domínio da poesia, a começar pelo seu tio-avô António, o mavioso poeta do “Lima saudoso todo cristal”, passando pelo seu tio Salvato (Salvareno), poeta e dramaturgo de pendor humorístico - e continuados por si, de cuja obra adiante falarei, e por seu irmão Rui, este mais vocacionado para o ensino (secundário e superior), o ensaísmo e a atividade política e social.

Álvaro terá passado uma infância sem sobressaltos nem incidentes. Adolescente, vai frequentar o Colégio Jesuíta de A Guarda, na vizinha Galiza, onde conclui os estudos secundários. Transportando nos genes a predisposição para as belas letras, a frequência daquele estabelecimento de ensino mais lhe terá incutido a persecução de tal desiderato, sabendo-se quanto os seus docentes porfiam em atingir níveis de excelência, sobretudo nas disciplinas de humanidades. Serão dessa época os seus primeiros tentames líricos, que ia reunindo em caderninhos sob o título de Desgarradas e onde, certamente, se evidenciavam influências parnasianas, saudosistas e presencistas, à medida que ia lendo as obras de seu tio-avô António, de Junqueiro, António Nobre, Pascoaes e Régio.

Terminados os preparatórios, deixa o Alto Minho e vai morar para a Casa senhorial de Vilar, em Lousada, (3) propriedade da família já no tempo do tio-avô, que ali passava algumas temporadas de repouso, vindo da Suécia retemperar forças, desfrutar do bom clima e da boa gastronomia, receber alguns amigos e cartear-se com outros. Dali parte para Coimbra a frequentar o curso de Direito e a dedicar-se com mais regularidade e paixão ao exercício poético. Datam de maio de 1937, tinha então 21 anos, os seus primeiros poemas conhecidos, ainda imbuídos do apuro preciosista herdado do parnasianismo. “Bem junto do portão / da minha Torre branca de Marfim / (…) passa uma estrada / que tem nas valas rosas-de-toucar.” - podemos ler no primeiro poema coligido, intitulado ESSA ESTRADA QUE PASSA À MINHA PORTA.

Num breve posfácio à 2ª edição de Os Poemas de Álvaro Feijó (1961), seu irmão Rui esclarece que as poesias que antecedem o livro Corsário (1940) representam um acervo que “Álvaro Feijó não quisera aproveitar para esse seu livro, único publicado em vida; estes poemas foram selecionados de entre uma grande massa de manuscritos de que se aproveitaram os que aos organizadores pareceram mais belos ou mais significativos do caminho do poeta.” (pág. 165)

Os organizadores, a convite do mesmo Rui, foram João José Cochofel e Carlos de Oliveira, amigos de Álvaro e à época grandes promessas, que o futuro largamente sancionou, da nossa literatura. Num longo prefácio de 24 páginas, João José Cochofel, referindo-se ao conjunto de poemas que acharam mais que os outros selecionáveis, afirma: “Quanto aos Primeiros Versos, havia que examinar a primitiva recolha, (da 1.ª edição), reoptar por uma ou por outra das diversas versões, verificar a exactidão dos textos, não fossem os verdes anos de quem organizou a primeira edição responsáveis por alguma inexperiência de juízo ou inadvertência de transcrição. Mas não. Poucos lapsos havia e, a vinte anos de distância, a segunda escolha coincidiu inteiramente com a primeira.” (pág. XIII)

Foi assim que, sob a designação de Primeiros Versos, foram publicados 29 textos datados de março de 1937 a janeiro (?) de 1940. Textos que, se revelam alguma imaturidade e fragmentação, uma certa e vaga ressonância de influências múltiplas, indiciam à saciedade a presença inequívoca de um autêntico poeta, na busca permanente da melhor forma, do mais apropriado ritmo para fixar cada composição. Se a pouca idade lhe não permitia ter conceções sólidas, muito menos definitivas, revelava-o, não obstante, como um espírito inquieto e insatisfeito, cuja busca de uma identidade própria e afirmativa constituía um processo em permanente evolução.

Como se verifica pela datação das suas primícias líricas, “a grande massa de manuscritos” a que alude seu irmão continuou (continua?) inédita, uma vez que as coligidas foram escritas, em Coimbra e em Lousada, a partir de 1937, dando fundamento à opinião corrente segundo a qual o nosso poeta só por esse tempo terá sentido o verdadeiro e indeclinável apelo da poesia. Não terá sido indiferente a forte onda de viragem do fazer poético então operado no meio académico coimbrão e um pouco por todo o país: a emergência do neorrealismo. Já citei João José Cochofel e Carlos de Oliveira; a eles podemos juntar Fernando Namora, Mário Dionísio, Manuel da Fonseca, Joaquim Namorado e muitos outros, que, pontificando, agitando mentalidades e comportamentos, em revistas como Seara Nova (Lisboa, 21-10-1921 a janeiro de 1979), O Diabo (Lisboa, 2-6-1934 a 21-12.1940), Sol Nascente (Porto, 30-1-1937 a 15-4-1940) e outras, iam dando corpo e visibilidade ao movimento. O Novo Cancioneiro (1941 / 1942), tão associado ao neorrealismo português como instrumento de fratura e renovação literária, não passou de uma mera coleção de poesia, sem explorar o enquadramento doutrinário subjacente às obras publicadas.

Álvaro Feijó encontrou em Coimbra essa efervescência literária, de forte componente político-social e, não renegando embora as suas raízes aristocrático-liberais, deixa-se contagiar por ela, primeiro timidamente nos poemas que antecedem Corsário (1940); depois mais assumida e ousadamente. “Um Novo Mundo há-de surgir, brilhar…” (pág. 18); “Se os homens quisessem, / o engenho assassino, / as armas da Morte, talvez se rompessem” (pág. 27); “Há mães, pelos taludes, dando o seio mirrado / à boca hiante dos filhinhos nus.” (pág. 29) – podemos respigar, aleatoriamente, da leitura destes Primeiros Versos.

Corsário foi o único livro que publicou em vida. Nele é presente e recorrente a visão do mar como desafio rumo ao desconhecido. “Há dentro de mim, como num búzio, / a voz do Mar”. (pág.76) E Viana do Castelo (da Foz do Lima) é o inominado cais de partida para a grande viagem, sem retorno. O sentimento da morte, com efeito, ora velado, ora explícito e obsessivo, impregna a quase totalidade destes poemas, inspirados nos de outras vítimas do infortúnio, como Cesário Verde e António Nobre, também eles levados na razia da tuberculose. Veja-se o início do poema RIBEIRA (págs 71 / 72): “Ó Ribeira das Naus! Ó meninos / ranhosos e famintos! / ó odor enjoativo do pescado! / ó mulher de ancas largas, peneirando / como o fluir das vagas! / lobos do mar bamboleando os corpos (…)”

Outro tópico interessante a retirar destes poemas prende-se com a pulsão amorosa que Álvaro Feijó lhes transmite. Na flor da juventude, a ânsia de um amor partilhado em unção espiritual e osmose física alterna, em contraponto, com acessos de desânimo e pessimismo. No POEMA DA RENÚNCIA podemos ler: “Nascemos só para viver e amar / e construir, na sombra e no silêncio; (…)” (pág.98) Logo adiante (pág. 101) no poema PIZZICATO confessa: “Eu trago um sonho comigo / que é como a vaga figura / duma mulher, / que se ama perdidamente, / e que, uma vez possuída / se tem medo de perder.” E do primeiro d’OS DOIS SONETOS DE AMOR DA HORA TRISTE, repare-se neste excerto em que o prenúncio da morte leva o poeta a dirigir à amada um veemente convite: “Quando eu morrer – e hei-de morrer primeiro / do que tu – não deixes fechar-me os olhos / meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos / e ver-te-ás de corpo inteiro // como quando sorrias no meu colo.” (pág. 77)

Como o desenganado Jacó do célebre soneto de Camões, suspirando por sua Raquel “serrana bela”, também Álvaro Feijó, perante a cruel sina de uma morte iminente, podia lamentar-se de ser “para tão longo amor tão curta a vida”.

Diário de Bordo foi o livro que o poeta deixou inédito, possivelmente inacabado. Consta de 25 poemas (Corsário tem 22) e nele se nota um mais seguro domínio do discurso poético, tanto mais de admirar quanto a circunstância de ter sido escrito em curto espaço de tempo – de junho a dezembro de 1940, bem próximo da sua morte. Também aqui o título e boa parte do conteúdo nos remetem para o ambiente marítimo, onde gostava de expandir o esto da inspiração. Título, aliás, que vai buscar ao último poema inserto no livro anterior: “Livro de Bordo de Corsário, deixa / que o tempo apague a tua prosa inútil / e escreve a história intensa / daquela frota em que tu vais partir (…)” (Corsário, pág. 106).

É nesta obra que, de um modo mais constante e notório, se manifestam as suas preocupações de natureza social e política, na linha do pensamento e da ação da maioria de seus pares, como ele revelados no catálogo do Novo Cancioneiro. No poema inicial, POEMA PARA TU DECORARES, como que inscreve um quadro programático de poeta militante: “É uma canção de berço / o que eu quisera fosse a minha vida /(…) E, no entanto, nasci para o combate.” (págs 109 / 110) Imbuído de generosidade e de utopia, visionário de um futuro promissor para os explorados de todo o mundo, metaforiza esse ideal / ideário na figura da “cancela”: “que seja um símbolo a cancela aberta / do caminho velho, / sobre a brancura do caminho novo / que tu hás-de seguir junto de mim.” (pág. 122)

Ironiza causticamente a vida faustosa dos ricos e poderosos, nas suas poses e festanças por salões de Paris, New York, exibindo “fardas e casacas”, “olímpicas mulheres de carnes frescas que os vestidos despem”, “comandantes de naus e regimentos”, etc. – enquanto que “às velas, às enxárcias, aos traquetes, / iam marujos descalços / forçando as naus por sobre o Mar azul / e nos terços das guerras segurando / arcabuzes e lanças e alabardas, / iam soldados chamorros (…)”. (poema INAUGURAÇÃO, págs 157 / 159) No último poema do livro, intitulado NATAL, lamenta a pobreza extrema da criança que, qual Jesus em Belém, nasceu “numa cama de folhelho / entre lençóis de estopa suja / num pardieiro velho. / Trinta horas depois a mãe pegou na enxada / e foi roçar nas bordas dos caminhos.” (pág. 170)

Terá a adesão ao movimento neorrealista, tendencialmente de natureza laica e esquerdista, afetado as convicções religiosas de Álvaro Feijó? A pergunta é pertinente e Cochofel não a negligencia. No prefácio a que aludi observa que, sobretudo nos poemas “Madalena”, “Ave Maria”, “ Prece” e “Nossa Senhora da Apresentação”, “dá-se uma inversão do significado tradicional dos mitos, esvaziados da sua transcendência e da sua exemplaridade divina, para adquirirem uma imanência e uma vulgaridade terrena. (…) Esta interpretação herética é tudo quanto resta da educação religiosa recebida por Álvaro Feijó no colégio de Jesuítas de La Guardia.” (págs. XVII /XVIII) Mas logo a seguir interroga: “Mas implicará ela (a interpretação) ainda uma certa religiosidade, uma certa intenção mística de humanizar o divino ou a sua negação pura e simples?” (Id.)

A questão tem cabimento numa leitura literal dos poemas em análise e noutros de igualmente polissémico sentido. Será de evocar aqui, porém, o conceito pessoano de poetafingidor, pelo qual Álvaro Feijó terá projetado um desdobramento de personalidade para o universo poético em contexto de subversão e combate ideológico, mantendo, porém, a íntima fidelidade aos preceitos e práticas religiosos que herdou no seio familiar e escolar. Será, pois, ousada e infundamentada a suposição de uma rutura total e definitiva com a espiritualidade cristã. Fiquemos com um excerto do poema NOSSA SENHORA DA APRESENTAÇÃO, onde o contraste dicotómico pede uma leitura pousada e prudente, sem precipitadas ilações, não obstante “os círios murchos das igrejas velhas.” (pág. 128)

“ELA,

Nossa Senhora da Apresentação.

Aquela que não tem mantos da cor do céu

nem fios de oiro nos cabelos

nem anéis nos dedos;

aquela

que não traz um menino nos seus braços

porque os seios mirraram

e já não têm pão para lhe dar;

aquela

que tem o corpo negro e sujo

e os ossos a saltar

da pele

e dos rasgões da saia e do corpete;

(…)

Dos meninos feitos nos intervalos das campanhas,

(…)

Nossa Senhora da Apresentação

e Justificação

- A Fome!

Notas (1) - A tuberculose, sobretudo a pulmonar, foi, com efeito, a grande doença infecciosa que dizimou, sobretudo no séc. XIX e primeira metade do séc. XX, grande parte da população de Portugal e do mundo. Só no campo das letras, das artes e das ciências a lista dos que sucumbiram ao seu efeito devastador é impressionante. Fixando-nos apenas nos escritores e poetas portugueses, verificamos que, entre versos e hemoptises, pereceram: Soares de Passos em 1860 com 34 anos incompletos; Júlio Dinis em 1871 com 33 anos incompletos: Cesário Verde em 1886 com 31 anos; José Duro em 1899 com 24 anos; António Nobre em 1900 com 33 anos incompletos; Camilo Pessanha em 1926 com 59 anos incompletos; António Aleixo em 1949 com 50 anos.

(2) – Refira-se que o Município de Lousada dedicou uma atenção especial a este centenário, organizando vários eventos como conferências, exposições, lançamentos de livros, concursos literários, projeção de filmes e visitas guiadas à Casa de Vilar, onde o poeta viveu. Foi naquela casa senhorial que Manuel Alegre se refugiou antes de partir para o exílio (Paris e Argel, 1964) e onde escreveu parte da Praça da Canção (publicada em 1965). No passado 10 de março o ilustre escritor e poeta deslocou-se a Lousada para, em cerimónia solene promovida pela Câmara Municipal, concelebrar o centenário de nascimento de Álvaro Feijó e o cinquentenário da publicação daquela famosa obra.

(3) – Casa de Vilar do Torno e Alentém. Desejando fornecer uma nota quanto possível fidedigna sobre a sua história, enderecei um e-mail à “Casa-Museu a Imagem em Movimento” em que parte dela se converteu em 2014, graças ao empenho do cineasta de animação Abi Feijó (Álvaro Graça de Castro Feijó) e da artista plástica Regina Pessoa. Solicitava informação sobre:

- a antiguidade da Casa; desde quando e quais os sucessivos titulares da família Feijó;

- se a parte da Casa anexa ao Museu continua como habitação e se o cineasta Abi Feijó é seu atual proprietário e residente;

- se a Torre ainda existe e mantém vínculo com a Casa;

- Se se mantém a exploração vinícola da quinta e quais os vinhos produzidos.

A resposta chegou célere e perfeitamente elucidativa, por intermédio do Dr. Abi, a quem publicamente agradeço.

É deste teor:

“Caro Cláudio Lima

Agradeço o seu interesse na obra do meu tio Álvaro. E aproveito para referir que inaugurou hoje mesmo (6 / 6) na Biblioteca Municipal de Lousada uma exposição dedicada justamente à obra do meu Tio Álvaro Feijó e estão previstas diversas iniciativas durante este ano e principalmente neste mês de Junho, comemorativas do Centenário do seu nascimento.

Passo a responder da melhor forma que sei às suas questões:

- A Casa de Vilar está na Família Feijó desde a segunda metade do séc. XIX. Pertencia ao meu tio Avô Júlio Feijó, que, por não ter tido filhos a deixou ficar ao seu sobrinho e meu Avô Rui Feijó, que por sua vez a deixou ficar à minha Avó Luísa Feijó e por morte dela ao meu Pai Rui Feijó. Durante uns tempos a propriedade foi assegurada por uma empresa familiar – a Rui Feijó & Filhos e, depois da morte de meu Pai esta sociedade foi dissolvida tendo eu, Abi Feijó, ficado com ela, em parceria com um Casal de amigos Canadianos (Normand Roger e Marcy Page).

Neste momento esta casa é a minha residência oficial, mas funciona também como sede da Casa Museu de Vilar a Imagem em Movimento, habitação que partilho com os amigos canadianos, tal como já referido.

Penso que a Torre de Vilar nunca foi pertença da família, pelo menos desde que eu tenho idade para me lembrar destas coisas, nem sequer tenho memória de haver referências a esta pertença em conversas da família. No entanto, há uns anos atrás o meu irmão Rui Feijó, quando era responsável pela gestão da quinta, alugou os terrenos envolventes da Torre de Vilar, pelo que, de alguma forma a Torre chegou a estar ligada à Casa de Vilar, por um curto período de tempo e apenas em regime de aluguer.

Junto com a Casa ficaram apenas cerca de 2 hectares de vinha, tendo os restos da quinta sido dividida pelos meus irmãos, que entretanto a venderam a terceiros. Dos 2 hectares de vinha que ficaram da minha responsabilidade, estão neste momento alugados aos Vinhos Niepoort, mas como este aluguer é ainda muito recente, o vinho aqui produzido ainda não tem rótulo.

Espero que estas informações lhe sejam úteis.

Um abraço

Abi Feijó”

A terminar: todas as transcrições de Os Poemas de Álvaro Feijó reproduzidas neste apontamento foram retiradas da 3.ª edição, aparecida em 1978 com a chancela da Brasília Editora, do Porto e nelas respeitada a ortografia.

junho de 2016

(apresentado na Biblioteca Municipal de Ponte de Lima em 17 de junho de 2016 A publicar no Anunciador das Feiras Novas – 2016)

Cláudio Lima