AFIFE TERRA DAS RAPARIGAS BONITAS, LINDAS COMO GREGAS! – POR FRANCISCO SAMPAIO – FOTOS DE SÉRGIO MOREIRA & SÍLVIA MOREIRA
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Afife terra das raparigas bonitas, lindas como gregas!
Louras, de olhos verdes na Agrichousa; em Gateira, Tílias e Pedreira de olhos negros, rosto gentil e mimoso que nem a crestação do sol, do mar ou vento conseguem queimar!
Me vou com elas!
São seis horas da manhã.
Acabou a missa d’alva e a Luísa e a Zélia das “Chapas”, a Rosa do “Póvoa”, a Matilde, a Ana dos “Ferreiros” passam já de redenho ao ombro!
São sargaceiras!
Raparigas frescas, lavadas, a cheirar à maresia e ao campo, vestidas de linho, vestidas de mar, mangas arregaçadas na camisa bordada, o colete de barra preta, a saia com o forro de riscado aos quadradinhos azuis e brancos, trouxinha da roupa para usar, depois, na apanha do sargaço..
Mais atrás, seguem as mães e alguns rapazes que levam os cestos, os bucheiros e as cordas.
Atravessamos a veiga.
E já no cimo dos medos o “quadrilheiro” gritava: Vamos “a ele”!
A maré desce, pouco a pouco. Os grupos sentados no areal riem despreocupados todos à espera do início da “função” que os mais antigos dizem só dever começar depois do nascer do sol!
Chega o momento! Então as moças já vestidas de saiotes, camisas de estopa e lenços vermelhos ao redor do pescoço, de redenho estendido para a frente entram, cautelosamente, ao rebentar da vaga! A cada lanço o redenho enche-se de algas escorregadias, variadas, pequeninas e grandes, que se ensarilham nas pernas, nos braços, na cabeça, no corpo todo. Cheio, é preciso carrega-lo aos ombros e deixá-lo a seco!
Prodígio de equilíbrio… o cabo (tem seguramente dois metros de comprido), segurado tenazmente com as duas mãos enterra-se no ombro; o saco de rede, repleto de sargaço, cola-se ao corpo!
Vezes há que o mar de “correnteza” parece submergir toda a praia! E há gritos, confusão, redenhos que se perdem, lenços, um “ai Jesus” de aflição!
Montes de sargaço vão aparecendo na areia molhada.
E já ao subir da maré, depois de um café bem quente com “sopas” e um dedo de conversa, uma nova “função”: o transporte do sargaço para os medos!
Redenho carregado, o cabo encavalita-se, os ombros vergam, o suor cai, os pés enterram-se na areia e cada passo é uma arrancada de brio até ao cimo das dunas!
Depois… o espalhar do sargaço e ali fica dias a secar como mantas enormes a corar ao sol!
O grupo regressa a casa.
Afife lá ao longe, casario que se desdobra em socalcos, pinceladas brancas naquela teia de verdura, fumo que sobe nos ares e sempre sempre uma canção, um sorriso, um lenço “garoto”, veiga fora:
Ó minha Rosinha
Ei qria eu quero Entrar no teu peito Formar um castelo!
Lai Lai Lai
Larai lai lai lai!
Depois, é o Pinhal da Gelfa, Âncora, Vila Praia de Âncora, a “Praia das Crianças”.
São os pescadores de Raul Brandão!
Fonte: Francisco Sampaio in “Alto Minho – Região de Turismo”. Casa do Concelho de Ponte de Lima, Lisboa, 1997.
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