PONTE DE LIMA: VAI HAVER TOURADA NAS FEIRAS NOVAS
![]()
Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]
![]()
![]()
As principais artérias da vila alto-minhota e o extenso areal banhado pelo rio Lima são o palco desta festividade táurea que se traduz, numa análise mais distante, num jogo de forças e de respeito entre homem e animal. Aqui não há vencedores nem vencidos, apenas a insensatez e a ousadia de uns, em oposição e em rivalidade com o porte intimidante e a astúcia do touro.
A despeito de o ritual estar separado da procissão do Corpo de Deus, contrariamente ao que sucedia no passado, o facto de se realizar na véspera desse dia religioso e de, na sua performance, existirem práticas que associam o percurso do touro à centralidade do templo cristão – local onde decorre um simulacro de batismo – deixa transparecer a carga simbólica relacionada com os rituais sagrados celebrados com animais, de que o touro tem particular tradição ancestral.
A chegada do animal, bravio e corpulento, à vila de Ponte de Lima, acontece sempre na véspera da corrida, noticiando-se o acontecimento com fausto, ao som do ribombar de foguetes. Sabe-se então que a “vaca” se encontra na Expolima, onde fica recolhida até ao momento da festa. Ao final da tarde do dia que precede o Corpo de Deus, a “vaca” sai do lugar de pernoita e é largada na zona do Arrabalde, seguindo presa por cordas até à Igreja Matriz. Aí, o animal é atado às grades da janela da torre onde se realiza o “batismo” com vinho verde tinto da região.
Após as três voltas à igreja, é conduzido ao Largo de Camões e, por fim, guiado para o areal onde se consumam as pegas e as marradas, regressando, mais tarde, à Expolima.
Fonte: Património Cultural
LEMOS, Miguel Roque dos Reis - A corrida da Vaca das Cordas em Ponte de Lima. In Almanaque Ilustrado "O Comércio do Lima". Ponte de Lima: [s.n.]. N.º 2 (1908), p. 153-158. Fonte: Arquivo Municipal de Ponte de Lima
Ora os Cartagineses não se contentaram como os Fenícios com a prática do comércio; lançaram-se, também na exploração das riquezas minerais da Península.
Com a derrota dos Cartagineses na II Guerra Púnica, a Península trocou de senhor>: vieram os Romanos!
E estes, tal como aconteceu com os Fenícios e os Cartagineses, segundo o relato de Plínio, depressa souberam da exploração do ouro na Lusitânia e na Galiza.
Os complexos minerais do Rio Tinto que corre entre Vila Mou e Lanheses e, do mesmo modo, a Ribeira do Âncora (freguesia de Orbacém e Gondar), constituíram a maior exploração da Região do Alto Minho e por aqui passaria um troço da via romana (Per Loca Marítima) que vindo de Braga atravessaria o Rio Lima no “Poço de Esteiro” onde são evidentes os restos de cais e ancoradouros medievais, e seguia em direcção a Caminha e Astorga!...
Não vamos aqui fazer a história de Ponte de Lima e do seu concelho nem vamos aqui justificar mais a presença de fenícios e romanos mas arriscar, também, a opinião de Miguel de Lemos (Anais Municipais de Ponte de Lima), quando este refere que este velho costume da introdução da “vaca das cordas” nas procissões do Corpus Christi, se filia nos cultos egípcios de Ísis, Osiris e Ápis, trazidos para a Península pelos fenícios, aceites pelos romanos e suevos e tolerados pelos cristãos (como o Boi Bento e a Serpe de Lerna).
É que no Olimpo, os Deuses também se apaixonavam!
Segundo a mitologia, Io, filha do rei Inaco e de Ismene, linda como os amores, foi raptada por Júpiter. Juno, irmã e mulher deste, não esteve pelos ajustes e daí a sua perseguição a Io. Júpiter como qualquer mortel, temendo a mulher, metamorfoseou a apaixonada em vaca mas Juno, que lia os pensamentos do sublime adúltero, mandou do céu à terra um moscardo ciumento, incumbido de aferroar, incessantemente a infeliz Io.
Assim, perseguida, Io fugiu para o Egipto onde Júpiter vendo-a tão desconsolada,(diz a lenda que a bela vaca chorava rios de lágrimas, que juntas formariam o Nilo (!), a restituiu à forma natural, fez.lhe ilho (Epafo) e casou-a com Osíris, também adorado com o nome de Apis.
Os egípcios levantaram altares a Io debaixo do nome de Ísis e exibiram nas solenidades, como seu símbolo, a vaca de Júpiter, a deusa da fecundidade teve um culto especial, precisamente, na Regiáo Galaico-Bracária na área de Entre Douro e Minho, no Convento Bracaraugustano, concretamente, numa dependência administrativa judicial do distrito do límicos!
Vai ser ainda o Padre Roberto Maciel (in Almanaque Ilustrado de “O Comércio do Lima” 1908), quem nos vai ajudar a explicar a tradição da “vaca das cordas”. Diz-nos o Verº Abade: A igreja matriz da primitiva vila era um templo pagão dedicado a uma deusa, que, converteram em templo cristão a igreja, tiraram do nicho a imagem da deusa vaca, prenderam-na com cordas, com ela deram três voltas à igreja e depois arrastaram-na pelas ruas da vila, com aprazimento de todos os habitantes. Daí o tradicional costume da “vaca das cordas” pelas ruas, para gáudio do rapazio e até dos mais velhos, com tanto que se pilhem seguros bem longe da rede que os da corda costumam lançar-lhes.
A descrição de Miguel de Lemos é bem mais completa (Estudo para os Anais Municipais da Câmara de Ponte de Lima, 1887).
Espectáulo que os limianos não escusavam e nunca interrompido até 1881 data em que a vereação suspendeu o costume (o Conde D’Aurora refere o seu reaparecimento em 1922 e 1923) e constava do seguinte:
Uma vaca brava era conduzida pelos moleiros do concelho (ministros de função), que tinham a obrigação de pegarem as cordas e executarem a corrida sob condenação de 200 reis pagos nas cadeias (códigos das posturas de 1646) e de 480 reis (códigos das posturas de 1720).
Pelas três horas da tarde prendia-se o animal ao gradeamento de ferro da janela da torre dos sinos. O garotio aproveitava, então, o momento para aguilhoar e picar o inocente bicho procurando embravecê-lo. Cerca das seis horas, prazo determinado pelo Senado, apareciam dois moleiros, dos obrigados, que munidos de cordas de 9 a 10 metros as enlaçavam nas pontas do animal actor e delas se serviam como guias ou tirantes ou leme da corrida.
Obrigatoriamente dava, então, três voltas à Igreja Matriz a trote e pesado galope, sempre aguilhoada e apupada!
Findas as três voltas os ministros da corrida encaminhavam o animal para a alameda do Passeio de D. Fernando, para o vasto areal e para a ponte, em demanda dos grupos de povo expectante contra quem pudessem promover as investidas.
Trambolhões, correrias, sustos, nódoas negras, bravatas, tropelias, algazarra!
Ao toque das trindades o espectáculo tinha terminado! O pessoal recolhia a casa; a “vaca” ao matadoouro!
Todos os anos nas quartas-feiras (véspera do Corpo de Deus), temos novamente “a vaca das cordas” esta edição milenária que metia “ministros” e tudo. Desafiando o basófias do povoléu pois a vaca… vai ser boi!
Velhas usanças, velhos costumes que os pontelimenses não querem perder, a lembrar uma tradição tauromáquica que não se cinge só à corrida da “vaca das cordas”. De facto, desde 1600 (Filipe II) que as custas para a feitura dos redondéis (circo) e o curro eram determinados pela Câmara, com autorização régia (trabalho pessoal por juradias), dando aos jurados das freguesias o direito de determinar quais os moradores que deviam levantar o circo.
Em tempos mais modernos (Séc. XIX e princípios do Séc. XX) houve mesmo uma Praça de Touros em S. Gonçalo, outra na Boa Morte. Também se construíram praças de pouca dura junto à ponte e junto à capela de S. João, a quem chamavam o “santo ganadeiro” já que a Irmandade era proprietária de touros e vacas bravas donde saía a “vaca das cordas” e o curro para as corridas de touros limianas.
E ficaram célebres os espectáculos taurinos nas Feiras Novas (1922 e 1923).
Bem melhores, dizem, que nas Festas d’Agonia, em Viana do Castelo.
Porque não ressuscitar-se em Ponte de Lima, esta velha “paixão” pela arte tauromáquica?
Fonte: Francisco Sampaio in “Alto Minho – Região de Turismo”. Casa do Concelho de Ponte de Lima, Lisboa, 1997.
Autor: Conde d’Aurora /José de Sá Coutinho) / Cedida por: Arquivo da Casa de Nossa Senhora d’Aurora / Fonte: Lugar do Real
![]()
Tal como estava anunciado, no prenúncio da Festa da Vaca das Cordas em Ponte de Lima, realizou-se na Confeitaria Havaneza uma evocação do seu fundador e aficionado pela sua realização, António Vieira Lisboa (1907-1968), formado em Direito mas com perfil literário dominante na poesia. E, resultado dessa sua veia, legou-nos vários livros, nomeadamente: Testamento Sentimental, Versos Estranhos, Mulheres e Ao Longo do Rio Azul.
Na residência do homenageado, o palacete setecentista levantado já num estilo rococó- Casa Dos Da Garrida – descansava o touro numa corte improvisada nos baixos do edifício, para além do contributo pecuniário de António Vieira Lisboa, permitindo assim a realização durante anos da velha usança Pontelimense.
Participaram na cerimónia três dezenas de convidados, provenientes de Lisboa, Porto, Cinfães de Douro, Arcos de Valdevez, Viana do Castelo e Ponte de Lima, para além de felicitações recebidas por parte de familiares que residem na Póvoa de Varzim e Nova Iorque, e representação dos pegadores das cordas do animal. Quanto a entidades oficiais destaquemos a presença de Pedro Ligeiro, Presidente da Assembleia Geral da associação promotora da tradição taurófila, que na sua intervenção destacou o trabalho e empenho de muitos conterrâneos na concretização da Vaca das Cordas e “recordar alguns de referência como acontece aqui hoje”, rematou; Carlos Lago, vereador da Câmara Municipal com o pelouro da Vaca das Cordas, agradeceu o momento de recordar a História da Vaca das Cordas e identificou toda uma logística para a Festa, pois desde há uns anos que ela envolve já um vasto programa, que se prolonga noite fóra com o baile e o sector da restauração a receber centenas de visitantes e o fazer os tapetes nas ruas do centro histórico, a necessitar do apoio do município e das forças de segurança.
Da nossa parte, a primeira palavra foi de agradecimento a todos por ocuparem uns momentos do dia festivo para se juntarem a um tributo a quem estava um pouco esquecido como apoiante ou apreciador da Vaca das Cordas; António Vieira Lisboa é mais um nome a completar o elenco dos que contribuíram para a existência da tradição na segunda metade do século XX, em vias de ser classificada como Património Imaterial.
A encerrar a sessão, a jovem Maria, filha do advogado Alberto Pita Meireles e esposa, Profª Helena, residentes no Porto, apresentou o vinho Lethes, produzido na Quinta de Vilar, Arcozelo, propriedade com quatrocentos anos, vencedor de dois concursos emblemáticos: o dos 900 anos do foral de Ponte de Lima em Junho do ano passado, e o da 33ª edição da Festa do Vinho Verde a semana passada. Para acompanhar, mais uma panóplia de iguarias por selecção do nosso Chefinho João Leonardo Matos, de Arcozelo: uns salgados com rissóis de camarão, croquetes de carne, laminados de salpicão, queijo tipo flamengo, presunto das Argas e paio produções da Arte dos Sabores (Sá e Talho Miguel); os pães a acompanhar foram o de milho de São Martinho da Gândara e um outro de beterraba de Refóios do Lima. Mas, para os que se inscreveram no prolongamento do desejo gastronómico, após a tourada à corda e de rua, o dedicado elemento do nosso Clube, cozinhou um Arroz de feijão com panados, a rematar com leite creme queimado, na reabertura do icónico “Gasparinho do Arrabalde”. Foi tudo um cheirinho dum pitéu confecionado por ele em Estocolmo, na Suécia, há um mês em parceria com o colega Chef Domingos Gomes, de Cardielos, Viana do Castelo.
![]()
Fátima Egger e João Leonardo Matos, os autores da receita
![]()
A Casa do Concelho de Ponte de Lima viu em 1996 impedida a realização em Lisboa de uma demonstração da corrida da Vaca das Cordas, procurando por esse meio divulgar a tradição de Ponte de Lima. A iniciativa deveria ocorrer no dia 2 de junho daquele ano, junto à igreja do Santo Condestável, em Campo de Ourique, e contava nomeadamente com o apoio da respetiva Junta de Freguesia.
Apesar de se tratar de uma manifestação cultural que não integra qualquer ato de crueldade em relação aos animais e terem sido acautelas todas as necessárias medidas de segurança, uma alegada e praticamente desconhecida associação de defesa dos animais à qual, os jornalistas, por dificuldades de melhor identificação, a designaram de “protectora dos animais” logrou convencer o governo civil dos seus intentos ao ponto daquela entidade mobilizar para o local o corpo de intervenção. Não satisfeitos, procuraram de seguida inviabilizar a corrida da vaca das cordas em Ponte de Lima, o que resultou em vão.
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
Um mar de gente inundou ontem as ruas de Ponte de Lima, a ponte medieval e o extenso areal à beira do rio Lima para assistir e participar na tradicional corrida das Vaca das Cordas.
A cada ano, em cada edição deste grandioso espetáculo popular, cresce o número de pessoas que de todo o Minho e até da Galiza afluem a Ponte de Lima. É enorme o entusiasmo tal como é o sentimento de pertença a esta comunidade. É a nossa identidade!
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
Porque hoje realiza-se mais uma Corrida da Vaca das Cordas no centro da vila de Ponte de Lima, selecionamos mais duas imagens antigas da Festa, ou antigo costume Pontelimês. A primeira fotografia documenta a tradição no Largo ou Praça de Camões, e foi publicada no Almanach Ilustrado de O Comercio do Lima para 1908, edição do jornal da nossa terra que existiu entre 1906-1919. A gravura, melhor a zincogravura foi inserida na edição desse ano da revista, mas pode ter sido efectuada no ano(s) anterior(es) e também utilizada posteriormente em noticiário nas colunas do semanário.
A segunda está datada do ano de 1956, e pertence ao arquivo da Casa de Nª Sª da Aurora, antes pessoal do Limianista, magistrado e escritor José António de Sá Coutinho (sº Conde de Aurora).
![]()
![]()
Vaca das Cordas frente à Havaneza / Praça de Camões (1940?)
Hoje, realiza-se mais uma edição da Corrida da vaca das Cordas, o celebérrimo divertimento anual da petizada, juventude e os mais avançados na idade! De tradição, remota, a celebrar 420 anos de referência documental, pois na sessão da Câmara Municipal de 11 de Julho, na adjudicação de fornecimento de carne ao concelho, o adjudicante do serviço estava obrigado a entregar 6 touros para correr no Dia de Corpo de Deus, um deles " trazer às cordas na véspera", portanto quiçá a mais antiga data de realização da Vaca das Cordas em Ponte de Lima. O documento seguinte, é o acórdão municipal de 1646 estipulando a obrigação dos moleiros do concelho pegarem ás cordas do animal, e era até à publicação dos Anais Municipais de Ponte de Lima, elaborador em 1887 por Miguel Roque dos Reis Lemos, mas com suplemento de seu neto Júlio de Lemos, publicados em 1938 pela primeira vez.
Entre lenda e narrativas romanceadas, da nossa parte excluímos essa tese; foi a pesquisa que nos permitiu a conclusão de novos elementos históricos sobre a festividade cíclica Pontelimense, com similitude na vizinha Espanha ou Galiza, a Festa do Boi em Allariz, Ourense, e no Portugal insular, uma vaca também corrida na Ilha Terceira, Açores.
Resultado de anos de recolha de informação, no tentame de maior abrangência documental possível, já escrevemos desde há quarenta e cinco anos (1980) duas centenas de páginas sobre a temática Vaca das Cordas! Como o tempo passa...
Por tal motivo, e porque nos solicitaram sugestões bibliográficas, resolvemos reproduzir a capa de alguns desses trabalhos, folhetos de sugestão de leitura, como seguem.
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
Um tributo a um apaixonado e patrocinador da velha usança dos Pontelimenses – a Corrida da Vaca das Cordas – que nas décadas de quarenta e cinquenta do século passado, relatam conterrâneos desse tempo ou seus descendentes, tinha no poeta António Vieira Lisboa (Luanda 1907 – Ponte de Lima 1968) um de seus apoiantes.
O divertimento centrava-se na Praça de Camões (foto) frente ao chafariz e á Confeitaria Havaneza que o autor de Ao Longo do Rio Azul havia fundado cerca de 1930, depois entregue sua gestão ao afilhado, o saudoso empresário António Martins. Mas, o cornúpeto tinha corte provisória nos baixos da Casa Dos Da Garrida, situada no fim do Arrabalde de São João de Fóra, hoje Universidade Fernando Pessoa, residência desse tiete da tradição tauromárquica num contexto popular, que também como abastado proprietário rural foi um pioneiro na agricultura mecanizada e Presidente da Direcção dos Bombeiros Voluntários locais em 1936 a 1938.
Uma evocação dum mecenas pela cultura Limiana, referência nas Letras Limianas, terá assim lugar amanhã quarta-feira, antes da largada do touro, desde a morte de Vieira Lisboa, agora da Casa dos Condes de Aurora.
Com a presença de convidados oficiais, há a salientar as presenças dos presidentes: Aníbal Varela, da comissão organizadora; Pedro Ligeiro, da Assembleia Geral da associação promotora do evento; Domingos Morais, do GACEL (Grupo de Acção, Cultura e Estudos Limianos); Carlos Lago, vereador do pelouro e Pedro Braga Vieira Lisboa, descendente do homenageado. A organização da cerimónia é do nosso Clube de Gastronomia de Ponte de Lima, que tal como ontem também hoje, os petiscos marcam presença no programa ao anoitecer nas unidades de restauração. E, como isso não foi esquecido, haverá um tempo para essa tarefa, um contributo do nosso Chefinho João Leonardo Matos, de Arcozelo, Ponte de Lima. Para molhar a merenda, o Loureiro Lethes, da quinta de Vilar, vencedor do concurso dos Vinhos Verdes na semana passada e dos 900 anos da fundação de Ponte de Lima em 2024.
![]()
![]()
![]()
![]()
Vaca das Cordas em 1971
Recordamos hoje o Conde d´Aurora, um apaixonado pelas tradições, o magistrado e fidalgo – escritor legou-nos dezenas de livros e folhetos, além de colaboração dispersa em jornais e revistas. Escolhemos para crónica do chá da tarde, um textinho do saudoso Limianista, o qual embora já com dezenas de asnos, recorda-nos, envolve-nos na repetição multisecular da usança dos Pontelimenses e sua Vaca que geralmente é Boi! Coisas de Ponte, história das gentes de antanho que os modernos continuam a soletrar…
Eis então o recordar literário do nosso também aficionado pela Vaca das Cordas, pois o cornúpeto pernoitava nos baixos na sua Casa de Nª Sª da Aurora, até o Pôr do Sol, para pôr o animal na rua a correr, e correr com todos á sua frente! Ontem, tal como hoje, a cena, o espetáculo repete-se!!!
Era então amarrado o animal às grades do janelão do lado sul, cujas frestas alumiam a rendilhada e pequenina capela dos Senhores de Bertiandos, onde dormem o seu longo sono eterno Fernando Pereira e sua mulher D. Leonor de Melo, sob o negro granito ornado da floreada Cruz dos Pereiras.
Terminada a função religiosa, sumidos os últimos ecos do reboar harmonioso do cantar do orgão, espiralando ainda o ar abafadiço e morno as ultimas nuvens de incenso, enquanto o morrão se apaga nas grossas velas de cera que se acastelam pela banqueta do altar, saem em gracioso tropel gritos de alegria ou medo, receosos risinhos de enleio e pânico, as lindas sécias da terra, a fidalguia dos arredores, a mocidade da Ribeira Lima. Momentos passados, afastado o cabresto, preza a vaca por duas longas cordas, ela ahi vai correndo as ruas da vila, escornando a garotada, investindo com os transeuntes, assustando os passeantes, tirando bazófias a marchantes atiradiços e tezos, contundindo a rapaziada estroina, os garbosos marialvas, que em tardes de calma, atroam a Rua do Souto em seus pilecos andaluzes de bracejar remador e cadenciado...
Mas antes, praxe seguida e obrigatória, dava o animal bravio três voltas á Igreja Matriz. Só depois começava a brincadeira...
Trambolhões, correrias, sustos, bravatas, nodoas negras, tropelia, algazarra, e quando a vaca começava a cansar-se, é levada pelo areal, a beber ao Rio. Avança a tarde, é sol-pôsto, mais duas voltas na vila e o animal recolhe-se.
Esta tradicional cerimónia, suspensa durante anos, reatou-se ultimamente, tendo havido vaca das cordas em Ponte de Lima em 1922 e 23.
É dos espetáculos mais queridos do nosso povo, que sai todo – homens, mulheres e crianças – inundando as ruas dum enorme formigueiro humano que se acotovela e empurra e piza, correndo, gritando, gargalhando, em delírio de entusiasmo.
![]()
Fonte: Câmara Municipal de Ponte de Lima
![]()

Ponte de Lima revive no próximo dia 18 de Junho uma das suas tradições mais genuínas: a corrida da Vaca das Cordas. Ao começo da tarde, a vaca preta é presa ao gradeamento da igreja Matriz. Depois, dá três voltas em torno da igreja e é levada para o areal. O povo apinha-se no Largo de Camões e na ponte para ver os mais ousados correrem à frente da vaca que, por vezes é boi…
Existe deste tempos remotos na vila de Ponte de Lima o peculiar costume de, anualmente na véspera do dia de Corpo de Deus, correr uma vaca preta presa e conduzida pelos ministros da função que assim procedem com o auxílio de três longas cordas. Esse divertimento cuja verdadeira origem se desconhece mas que ainda se mantém e parece ganhar ainda mais popularidade, atraindo à terra numerosos forasteiros, era outrora executada por dois moleiros que a isso eram obrigados sob pena de prisão, conforme determinavam as posturas municipais. Muitos desses moleiros eram oriundos da Freguesia de Rebordões-Santa Maria, localidade que possuía numerosos moinhos e que, com a sua decadência, os moleiros da terra emigraram para o Brasil, fixando-se muitos em Goiás.
Ao começo da tarde, uma vaca preta é presa ao gradeamento da igreja Matriz, aí permanecendo exposta à mercê do povo que outrora, num hábito que com o decorrer do tempo se foi perdendo, por entre aguilhoadas e gritaria procurava embravecer o animal a fim de que ele pudesse proporcionar melhor espectáculo. Invariavelmente, às dezoito horas, lá aparecem os executantes da corrida que, após enlaçarem as cordas nos chifres da vaca, desprendem-na das grades e dão com ela três voltas em pesado trote em redor da igreja após o que a conduzem para a Praça de Camões e finalmente para o extenso areal junto ao rio Lima. E, por entre enorme correria e apupos do povo, alguns recebem a investida do animal aguilhoado e embravecido ou são enredados nas cordas, enquanto as janelas apinham-se de gente entusiasmada com o espectáculo a que assiste.
Quando soam as trindades, o espectáculo termina e dá lugar aos preparativos dos festejos que vão ocorrer no dia seguinte. As gentes limianas decoram as ruas com um tapete florido feito de pétalas e serrinha por onde a procissão do Corpo de Deus irá passar.
Com atrás se disse, desconhecem-se as verdadeiras origens deste costume antiquíssimo. Contudo, uma tela de Goya que se encontra exposta no Museu do Prado, em Madrid, leva-nos a acreditar que o mesmo era mantido noutras regiões da Península Ibérica. De igual modo, a tradicional corrida à corda que se realiza nos Açores sugere-nos ter este costume sido levado para aquelas ilhas pelos colonos que as povoaram a partir do continente.
Em meados do século dezanove, o cronista pontelimense Miguel dos Reys Lemos arriscou uma opinião baseada na mitologia, a qual publicou nos "Anais Municipais de Ponte de Lima" e que pelo seu interesse a seguir reproduzimos:
"Segundo a mitologia, Io, filha do Rei Inaco e de Ismene - por Formosa e meiga - veio a ser requestada por Júpiter. Juno, irmã e mulher deste apaixonado pai dos deuses, que lia no coração e pensamentos do sublime adúltero e velava de contínuo sobre tudo quanto ele meditava e fazia, resolvera perseguir e desfazer-se da comborça que lhe trazia a cabeça numa dobadoura.
Ele, para salvar da vigilância uxória a sua apaixonada, metamorfoseou-a em vaca: - mas Juno, sabendo-o, mandou do céu à terra um moscardo ou tavão, incumbido de aferroar incessantemente a infeliz Io, feita vaca e de forçá-la a não ter quietação e vaguear por toda a parte.
Io, assim perseguida e em tão desesperada situação, atravessou o Mediterrâneo e penetrou no Egito: aí, restituída por Júpiter à forma natural e primitiva, houve deste um filho, que se chamou Epafo e, seguidamente, o privilégio da imortalidade e Osiris por marido, que veio ter adoração sob o nome de Ápis.
Os egípcios levantaram altares a Io com o nome de Isis e sacrificavam-lhe um pato por intermédio de seus sacerdotes e sacerdotizas: e parece natural que, não desprezando o facto da metamorfose, exibissem nas solenidades da sua predilecta divindade, como seu símbolo, uma vaca aguilhoada e errante, corrida enfim.
Afigura-se-nos que sim e, portanto, que a corrida da vaca, a vaca das cordas, especialmente quanto à primeira parte, as três voltas à roda da Igreja Matriz, seria uma relíquia dos usos da religião egípcia, como o boi bento, na procissão de Corpus-Christi, é representativo do deus Osiris ou Ápis, da mesma religião. E esta foi introduzida com todos os seus símbolos na península hispânica pelos fenícios, aceite pelos romanos que a dominaram, seguida pelos suevos e tolerada pelos cristãos em alguns usos, para não irem de encontro, em absoluto, às enraizadas crenças e costumes populares.
É que essa Ísis, a vaca de Júpiter, a deusa da fecundidade, teve culto especial precisamente na região calaico-bracarense, na área de Entro Douro e Minho; no Convento Bracaraugustano, ou Relação Jurídica dos Bracaraugustanos (povos particulares de Braga), de que era uma pequeníssima dependência administrativo-judicial o distrito dos límicos, prova-o o cipo encravado na face externa dos fundos da vetusta e venerada Sé Arquiepiscopal, - cipo que a seguirtranscrevemos inteirado, conforme a interpretação que em parte, nos ensinou e em parte nos aceitou o eruditíssimo professor do Liceu, Dr. Pereira Caldas:
ISID · AVG · SACRVM LVCRETIAFIDASACERD · PERP · P ROM · ET · AVG
CONVENTVVSBRACARAVG · D ·
INTERPRETAÇÃO
ISIDI AUGUSTAE SACRUM; LUCRETIA FIDA SACERDOS PERPETUA POPULI ROMANI ET AUGUSTI, CONVENTUUS BRACARAUGUSTANORUM DICAT
TRADUÇÃO
"SENDO LUCRÉCIA FIDA SACERDOTISA PERPÉTUA DO POVO ROMANO E DE AUGUSTO, O CONVENTO DOS BRACARAUGUSTIANOS DEDICA A ISIS AUGUSTA (OU: À DEUSA ISIS) ESTE MONUMENTO SAGRADO"
Acredita-se porém que, no local onde se ergue a igreja matriz de Ponte de Lima existiu outrora um templo pagão onde se prestava culto a uma divindade sob a forma de uma vaca representada num retábulo, o qual era trazido para o exterior e efectuava as referidas voltas ao templo. Em todo o caso e atendendo à elevada importância deste animal na economia doméstica de uma região tão propícia à sua criação em virtude dos seus pastos verdejantes, é perfeitamente natural que a vaca tenha aqui sido venerada como símbolo de fertilidade e de abundância e, desse modo, sido prestado-lhe o devido culto. Não é completamente injustificada a frequente representação deste animal nomeadamente no artesanato da região minhota, ao qual a barrista barcelense lhe deu cores e vivacidade que o ajudaram a tornar-se famoso em todo o mundo.
![]()
![]()
![]()