Existe uma tese segundo a qual o ditador soviético Iosif Vissaniorovich Djugachvili (Estaline) teria ascendência judaica portuguesa ou seja, judeu sefardita.
Em 1496, D. Manuel I assinou o decreto de expulsão do reino de todos os hereges, categoria na qual se incluíam mouros e judeus. Contrariado na sua vontade, o rei limitava-se a cumprir o contrato de casamento com Isabel de Aragão e Castela. Procurou, no entanto, a conversão forçada dos judeus ao catolicismo, concedendo-lhes a possibilidade de permanecerem no reino sob essa condição. Contudo, a desconfiança dos cristãos-velhos em relação á sua sinceridade deu origem a perseguições violentas.
Em consequência de tais perseguições, alguns judeus de origem portuguesa ter-se-ão fixado no Estado Português da Índia.
Com o estabelecimento da Inquisição naquele território, essas famílias terão deixado aquele território e rumado para outras paragens mais a norte, acabando por se fixarem na Geórgia, terra natal de Iosif Vissaniorovich Djugachvili.
Como é sabido, em cirílico o j corresponde ao i das línguas latinas. Por conseguinte, o apelido Djugachvili significará “filho de Diu” segundo uns e, “filho de judeu” segundo outros. Quanto à sua origem judaica, parece não restarem grandes dúvidas, até porque o seu nome próprio – Iosif – é claramente de origem judaica, não sendo utilizados pela população ortodoxa. Recorde-se que Estaline era também conhecido por Kochba ou Koba em evocação do chefe judeu que comandou a terceira revolta judaica contra o Império Romano ao tempo do imperador Adriano.
Finalmente, refira-se como curiosidade que José Estaline terá na sua juventude composto um poema intitulado “Ivéria”, aludindo muito provavelmente à região da Abecasia, na Geórgia, onde existiu um reino independente com esse nome e que na geografia greco-romana era identificado como Península Ibérica, sendo os seus habitantes conhecidos por “caucasianos ibéricos”. Ou terá pretendido evocar a terra de origem dos seus ancestrais e a sua identidade sefardita?
Passam precisamente 110 anos desde a data da inauguração em Lisboa da Sinagoga Shaaré-Tikvá, cuja primeira pedra havia sido lançada dois anos antes. O projeto é da autoria do caminhense Miguel Ventura Terra, considerado um dos maiores arquitetos da sua época, tendo-lhe valido o Prémio Valmor de Arquitetura.
O templo encontra-se situado na rua Alexandre Herculano, nº 59, edificado dentro de um quintal muralhado visto que não era então permitida a outras denominações religiosas para além da Igreja Católica, a construção com fachada para a via pública. O terreno para a construção da sinagoga foi adquirido pela comunidade judaica, em nome de particulares, dadas as dificuldades com que então se debatia para obter o reconhecimento oficial. Até então, o culto era exercido em diversas casas de orações que, no entanto, não reuniam as condições necessárias para o efeito.
Miguel Ventura Terra nasceu em Seixas, no concelho de Caminha, em 14 de julho de 1866, tendo falecido em Lisboa em 1919. Entre as suas inúmeras obras, contam-se a renovação do Palácio de São Bento, a Maternidade Alfredo da Costa, o Teatro Club de Esposende, o Hotel e o Santuário de Santa Luzia em Viana do Castelo, o Hospital de Esposende e o edifício do banco de Portugal, no Porto.
Todos os anos, por ocasião da festa litúrgica a São Bartolomeu que se celebra a 24 de agosto, vão as gentes Esposende em romaria à igreja do santo padroeiro da freguesia de Mar – São Bartolomeu do Mar – para invocar a sua proteção contra o medo e outros males atribuídos ao diabo como a epilepsia e a gaguez. Reza a lenda que, nesse dia, São Bartolomeu solta o diabo que durante o resto do ano traz preso, simbolizado num cão que mantém com uma trela.
Os romeiros levam os filhos transportando consigo ao colo uma galinha preta, dando três voltas em redor da capela antes de nela entrarem procederem á oferenda sacrificial, após o que colocam na cabeça a imagem de São Bartolomeu. Uma vez cumprido o ritual, encaminham-se para a praia onde terá lugar o “banho santo” das crianças nas águas gélidas e purificadoras do mar – aonde o diabo regressará ao anoitecer – que, com a ajuda do sargaceiro, é imersa por diversas vezes, contadas as ondas sempre em número ímpar.
A romaria de São Bartolomeu do Mar aparece documentada desde o século XVI, muito embora evidencie marcas de ancestralidade, devendo muito provavelmente ter tido a sua origem nalgum culto a uma divindade numa época anterior à cristianização dos povos peninsulares. De resto, a associação do cão à representação do diabo remete-nos para a figura do cão tricéfalo guardião do Hades que nos é descrita pela mitologia clássica. Porém, o ritual de exorcização com recurso à galinha preta ter-se-á originado de uma influência mais tardia, muito provavelmente de raiz judaica.
Quando em 1496, o rei D. Manuel ordenou a conversão dos judeus ao Cristianismo sob pena de expulsão, existia em Barcelos uma comunidade judaica, à semelhança aliás do que sucedia noutras localidades minhotas como Braga, Viana do Castelo e Ponte de Lima. Refira-se que, à altura, o território que atualmente faz parte do concelho de Esposende era parte do termo de Barcelos, apenas tendo sido elevado à categoria de município com a atribuição do foral pelo rei D. Sebastião em 19 de agosto de 1572. Terão então os judeus conversos ou seja, os cristãos-novos que habitavam a região, adaptado a sua prática religiosa às que eram geralmente mantidas pela Igreja Católica a fim de serem tolerados no seio das comunidades locais, atitude aliás comum à generalidade dos judeus que permaneceram no país.
O Yom Kippur constitui uma das festividades mais importantes e solenes do judaísmo, destinada ao arrependimento e ao pedido de perdão, correspondendo ao Ano Novo no calendário hebraico (Rosh Hashana) e coincidindo geralmente com os meses de setembro ou outubro do calendário cristão. Nos dias que antecedem o Yom Kippur, praticam os judeus um ritual de expiação dos pecados (Kaparot) que culmina na matança de milhares de galos e galinhas, preferencialmente de cor branca como símbolo de purificação. O ritual propriamente dito consiste em elevar o animal sobre as suas próprias cabeças, dando com eles três voltas enquanto murmuram :“Esta é minha mudança, este é meu substituto, esta é minha expiação”, sendo de seguida degolado com recurso a faca de lâmina rigorosamente afiada, cumprindo-se desta forma o sacrifício.
Com efeito, para além das semelhanças existentes, a altura do ano em que os judeus praticam o Kaparot é praticamente coincidente com a realização da romaria de São Bartolomeu do Mar, da mesma forma que se constata terem os primeiros registos desta festividade surgido pouco tempo decorrido após o início da conversão forçada dos judeus ordenada pelo rei D. Manuel I, fatos que nos levam a acreditar na possível relação entre ambas as tradições.
Colóquio "Judeus Portugueses no Mundo: Pensamento, Medicina e Cultura"
Auditório B1, CP II, campus de Gualtar, Braga
Sexta-feira, 19.10.2012
A Universidade do Minho recebe a 19 de outubro de 2012 o colóquio "Os Judeus Portugueses no Mundo: Pensamento, Medicina e Cultura", que visa refletir sobre a grande ciência e o grande pensamento de autores judaico-portugueses. O evento é organizado por Virgínia Soares Pereira, do Centro de Estudos Lusíadas (CEL) e por Manuel Curado, do Departamento de Filosofia (DF-ILCH) do Instituto de Letras e Ciências Humanas da UMinho. Vai ter lugar no auditório B1 (Complexo Pedagógico II), no campus de Gualtar, Braga. Entrada gratuita. Quem desejar certificado de presença deve solicitá-lo com antecedência aos organizadores virginia@ilch.uminho.pt, curado.manuel@gmail.com
Contextualização
O colóquio procura refletir sobre a grande ciência e o grande pensamento de autores judaico-portugueses. Este é um património cultural riquíssimo que merece ser estudado pelos investigadores. O contributo dos Judeus Portugueses para a história da cultura em Portugal dificilmente pode ser apoucado, dada a sua vastidão. Os aspectos mais infelizes da relação entre os Judeus e Portugal ofuscam muitas vezes este património. Urge estudar e dar a conhecer às novas gerações de universitários portugueses muitos autores cuja obra continua a influenciar e a inspirar o que fazemos em Medicina, em Filosofia e em muitas outras áreas da Cultura.
Programa (provisório)
09h15 | Sessão de abertura
09h30 | Painel I
- Jesué Pinharanda Gomes: "Itinerário do Pensamento Judaico Português"
- António Andrade (Universidade de Aveiro): "Mestre Dionísio, Manuel Brudo e Amato Lusitano: Três Médicos no Exílio"