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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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GUIMARÃES: A CITÂNIA DE BRITEIROS EM 1910

CIDADES MORTAS

Do arraial destroçado que são as citânias pre-romanas de Briteiros, nos arredores de Guimarães, a mais immediata impressão é a de um vasto campo de lucta, ainda quente da ultima peleja, e que um vendaval immenso varreu, com homens e edifícios, como por castigo ás atrocidades estupendas dos povos bárbaros que as habitaram.

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Roteiros indecisos de arruamentos, fragmentos de edifícios, golpes fundos e longos de aqueductos subterrâneos rompendo a montanha e hoje habitados pelas silvas agrestes, as covas abertas e profanas das necrópoles, o esboço circular das construcções – tudo suggestiona, recordando a catástrofe e a ruina. N’aquelles planos de serra (qual dos dois mais impressionante) uma natureza passada, sepulta, em cinzas, para e abysma ao centro da natureza averdiscada e húmida d’um circular e arraizado horisonte de paizagens, fumos de lareiras aldeãs sobem no ar quieto da tarde, azulados e vagos, emquanto vêmos perto, em frente de nós, o logar onde a ensenação familiar não anima, já, rústicos e encantadores domiciliares. Teem a cal agreste dos pedregulhos calcinados de milhares de estações aquellas lages e terras de curioso estudo ethnico. Uma saudade intensíssima brota da dramática exposição d’aquellas ruinas evocadoras; como se, realmente, homens e edifícios, vistos minutos antes, tivessem deixado pouco mais que poisar a poeira do seu ultimo combate e da sua perdição irremediável. 

Subir de S. Pedro de Donim – linda aldeia de cravos e valverdes – pelo serro da Citania de Santo Estêvão de Briteiros, nos dias máximos de calor, é semelhante a um trabalho aguerridoe atrevido da meia-edade, porque a poeira negra da montanha, no largo banho de suor que nos cobre, produz um indefinido cansaço com aquelle bater consecutivo de urzes e pedreiras. Meio corpo do monte cobre-se, ainda das vegetações frescas do campo, de acampamentos altivos e cercados de pinheiraes, por entre os quaes o sol se côa no relvado em admiráveis redes d’ouro. Mas a montanha despe-se; tem o tronco nú e musculoso. E logo as escarpas se succedem, diffíceis e trahindo os passos, para serem vencidas a pau ferrado, incidindo a terra com a coragem tenaz d’um assalto de guerrilheiros – tanto é o perigo que nos atemorisa e a vontade curiosa que nos exalta mais e mais.

Os valles vão subindo, crescendo, como se tivessem a mais vasta sequencia nos montes fronteiros e vestidos de verdura. Tem-se, a todo o momento, a impressão do ingresso ao mastro d’um navio sobre o movimento das vagas altas e inconstantes.

A razão porque descrevemos e estudamos as cidades mortas de Briteiros são os documentos d’arte mycenica, imprescindíveis para o nosso ensaio ethnographico sobre as artes populares do Minho, que nas citânias mais que em nenhuma outra localidade abundam, valiosíssimos. 

Effectivamente, os documentos d’essa arte apagada, d’um alfabeto artístico quasi insignificativo mas notável, precisa, para a coordenação dos factos históricos relativos à evolução artística, marcou um período de attracção muito geral, muito inconfundível. Não pode dizer-se que a passagem da arte mycenica pelas estações históricas do occidente da Europa fosse infructífera. Para que um género artístico chegue até ao momento em que o povo o recebe e utilisa é necessário que muito se tenha evidenciado, que o hábito se torne, por assim dizer, o seu melhor reclamo. E isto, muito principalmente, com povos de insignificante cultura e quasi só vibráteis, sugestionáveis, com os documentos polycromos – aquelles que mais ferem a vista, que d’um modo mais rápido gravam a sua expressão.

Os documentos da pedra, n’essa época mal colocados e custosos de interpretação, eram os que só pela ausência de competidores coloridos estavam em circumstancias de serem utilizados. Aquelles a que nos referimos são d’essa espécie. Bellos, sem duvida; mas belos, ao primeiro encontro, somente para os juízes eruditos, para os indivíduos que facilmente deduzem do seu mérito ou pela educação scientifica ou, pelo menos, pela lucida intuição que possuem. Porque, em verdade, só muito consciente ou inteligentemente se podem explicar a graça e o mérito d’um exemplar d’arte exótica, difícil de estudar-se, e, n’este caso, mais difícil ainda para o esclarecimento da sua estranha situação entre nós. 

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O que já não podemos é continuar afirmando que os elementos d’arte mycenica passaram d’um modo fugaz e occasional entre os castros pré-romanos de Briteiros – o seu melhor repositório. Elles, do mesmo modo porque exercem uma altíssima influencia na evolução de um determinado grupo d’artes populares, chegam também ao extremo erudito das aplicações artísticas – foram um motivo de embelezamento architectonico, servindo a maioria das decorações que existem no precioso templo de Balsemão, nos arredores de Lamego.

E porque assim succedeu, fique contudo bem definido, desde já, que de modo algum podemos admitir a hypothese de terem sido os ornatos d’aquelle templo os transmissores, aos operários ruraes, das bellas esculpturas dos seus productos ingénuos e admiraveis.

Não estão na Citania e no Sabroso, actualmente, os documentos de pedra lavrada a que nos referimos. Com critério e como prova incomparável estima que lhes votava, Martins Sarmento, ao terminar a exploração scientifica dos dois castros, enviou-os cuidadosamente ao archivo do muzeu archeologico de Guimaraes. Mas nem por isso as citânias pré-romanas deixaram de interessar-nos. Pelo contrário; é muito mais suggestivo o logar deserto onde esses raros materiaes estiveram sepultos milhares d’annos, porque não deixa de nos recordar, semelhante ausência, quanta probabilidade podíamos ter em subtrahir, com futuras excavações, muitos outros exemplares preciosos, talvez capazes de darem a este diffícil problema da sua situação entre nós uma solução definida e inilludivel. 

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Curioso, pela associação de factos, o caso de os mais notáveis elementos d’arte mycenica recolhidos em Portugal surgirem precisamente no meio provincial que com eles mais engrandece as suas feitorias d’obra rustica. É, realmente, muito interessante que surjam, despertando o interesse dos estudiosos, precisamente no centro d’uma provincia que fabrica esses incomparáveis jugos lavrados. Porque, dado que não possamos estabelecer praso de vida á civilização mycenica no noroeste da península, o que desde já podemos affirmar é que não foi passageiro, rápido, o estadio do povo que introduziu na nossa terra – isto ainda que o praso que se lhe succedeu, enorme, muito pudesse obrar n’esta adaptação curiosa.

A classificação erudita dos elementos mycenicos das estações de Briteiros nunca soffreu uma hesitação. São palpáveis, mede-os e liga-os o instincto d’um homem intelligente, porque nada tem semelhanças tão consoladoras. São os mesmos cetrascelos tetraslos, os mesmos torsos que a “memoria” notável de Cartaillac reúne e compara. Martins Sarmento chega a affirmar que alguns dos elementos recolhidos no vaiosissimo muzeu de Guimarães são artisticamente superiores aos que o sabio allemão menciona. 

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É, sobre tudo, notável e feliz a casualidade do encontro. Que seriam os jugos ruraes se não adoptassem os vasados e ornatos d’essa arte pre-historica? Sem dúvida que não teriam tão cedo encontrado um alfabeto artístico de tão singular expressão. Seriam, talvez, singelos e vulgares como os ornatos da cerâmica vermelha e negra; ou, talvez, tão inverosímeis como o estão sendo actualmente desde que variados e incongruentes motivos nacionais estão passando utilizados na sua ornamentação, sem constituírem uma fonte de interpretação assaz methodica e acceitável. O problema d’essa arte pittoresca, porque está latente um conflicto d’ordem artística verdadeiramente attendível, resolve-se assim: ou o regresso ás primitivas fontes d’inspiração, seguindo o compendio das decorações mycenicas, ou o estabelecimento erudito d’um compendio exclusiva e caracteristicamente nacional, reproduzindo todos os motivos que nos meios ruraes evidentemente se apropriem.

Isto só.

Fonte: Revista “Ilustração portugueza” de 11 de abril de 1910