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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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EM 1953, DOMINGUES BASTO, DEPUTADO À ASSEMBLEIA NACIONAL, ABORDOU VÁRIOS ASPETOS DA ECONOMIA DO ALTO MINHO

Na sessão de 23 de março da V Legislatura da Assembleia Nacional, o deputado Domingues Basto fez uma longa intervenção através da qual abordou vários aspetos da economia do Alto Minho. A sessão foi presidida por Albino dos Reis Júnior e secretariada por Gastão de Deus Figueira e José de Melo e Castro.

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Manuel Domingues Basto era natural de Monção e foi fundador da Acção Católica de Braga. Sacerdote católico, foi eleito deputado para a V e VI Legislatura da Assembleia Nacional, não tendo chegado a exercer o mandato nesta última em virtude de ter entretanto falecido. Foi vereador da Câmara Municipal de Monção e Presidente da Comissão Municipal de Assistência de Fafe. Em virtude dos seus ideais monárquicos e na sequência do fracasso da Monarquia do Norte, exilou-se em Espanha.

O Sr. Manuel Domingues Basto: - Sr. Presidente: ao subir à tribuna para tomar parte no debate sobre as contas públicas sinto que o posso fazer, ufano do meu patriotismo e contente pelo rumo das nossas coisas na vida política da Nação.

Embora possa haver deficiências e erros - e é isso inevitável em toda a obra humana - e o meu idealismo, que não esmoreceu com o decorrer dos anos e ao contacto das realidades, se tenha esforçado por apontar erros e deficiências, a fim de mais nos aproximarmos do ideal, a clareza das contas públicas, a sua admirável organização e a regularidade com que são apresentadas dão-nos testemunho de que é de saúde o estado da Nação e de que os erros e deficiências dos homens da actual situação política não passam de pequenas sombras, que são o fundo escuro em que se destaca e brilha, com todo o esplendor, a grandeza do conjunto.

Vozes: - Muito bem!

O Orador:-A propósito me lembro de que na sessão da Academia Francesa em que o padre Bremond fez o seu discurso de recepção e posse um velho académico francês disse, malicioso e irónico: «Este padre tem todos os defeitos dos jesuítas, sem ter nenhuma das suas virtudes».

Mas logo um colega, a quem o juízo depreciativo sobre o padre Bremond não tinha agradado, retorquiu, com não menos vitoriosa ironia: «Pois sim. Mas não se esqueça de que os defeitos dos jesuítas são ainda méritos bastantes para fazerem um grande homem».

Também aos críticos derrotistas da actual situação política tinha agora o sacerdote que subiu à tribuna ocasião de dizer, em face da maledicência de uns e da insatisfação de outros, mais prontos ao trabalho negativista de dizer mal do que à colaboração: «Olhem que os defeitos do Estado Novo Corporativo e a época de Salazar, apesar das suas imperfeições, constituem ainda título mais que suficiente para tornarem este período dos mais gloriosos da história de Portugal...

Vozes: - Muito bem!

O Orador:-... e os defeitos motivo de admiração para todas as nações com juízo».

Vozes: - Muito bem!

O Orador:- Quem, sobretudo, pode, devido à sua idade, fazer um confronto entre o que isto foi e o que é actualmente sente que o activo é digno de louvor...

Vozes: - Muito bem!

O Orador:- ... e nos conduz a olhar sem pessimismo nem desalento a obra realizada.

E porque queremos que ela seja garantia e segurança de um futuro desafogado e sem preocupações de maior é que o parecer das contas públicas, profundo e vasto estudo critico que honra o seu relator e nosso ilustre colega Sr. Engenheiro Araújo Correia, foca e aponta aspectos e actividades da vida nacional para que é necessário voltar mais solícitas atenções e a que é preciso consagrar mais carinho e amparo.

Se dou o meu voto de aprovação às contas públicas, dou-o também, com o maior aplauso, ao parecer que as aprecia e ao relatório que o acompanha.

Sr. Presidente: um dos pontos essenciais do parecer das Contas Gerais do Estado é o de que precisamos de dar toda a atenção às despesas produtivas, para criar novas fontes de receita e assegurar à população em aumento um nível económico de vida decente e até evitar que grande número de portugueses abandonem as suas terras e a profissão em que se criaram e se deixem absorver pelas cidades tentaculares, para muitas vezes nelas viverem uma vida de miséria e se converterem, no aspecto moral e social, em elementos indesejáveis e nefastos.

Esta justa observação do parecer sobre as contas públicas sugere algumas considerações, que talvez não sejam novas, mas ainda não foram, como é de justiça, devidamente compreendidas.

Persiste-se no erro de criar nas cidades indústrias que tinham o seu lugar marcado, por direito, nos meios rurais, e continuam sem amparo fontes de riqueza das populações rurais, que são absorvidas pela usura, pelo intermediário e pela ganância exploradora, quando podiam e deviam proporcionar uma melhor situação económica desses rurais e promover o aformoseamento da sua vida, tornando-a mais amada, porque mais compensadora.

Consideremos, por exemplo, as carnes e as frutas. Todas as vezes que o problema dos gados e carnes se aborda nesta Assembleia tenho notado que aparecem alguns técnicos a contrariar a montagem e criação de matadouros nas terras da província que, pela sua riqueza de pastagens, mais se prestam à criação de gado e são os centros naturais para o abastecimento das grandes zonas populacionais e urbanas do País.

Ainda não encontrei nas alegações apresentadas nesse sentido um argumento convincente ou uma razão de peso.

Parece-me que são mais os interesses dos municípios das grandes cidades do País, e não os dos munícipes e da economia nacional, que têm imperado, mas sem razão, em matéria de tanta importância.

As câmaras municipais das cidades cobram um tanto por cada cabeça de gado que entra nas barreiras da cidade para ser abatida; os subprodutos da carne dão lugar a negócio e aumento de receitas, e têm-se essas circunstâncias em maior conta do que a boa e regular economia da Nação e a necessidade de valorizar in loco a riqueza agrícola, em que os gados têm lugar de destaque.

Contra tais pretensões há, porém, além da lógica e verdade dos princípios, algumas experiências já tentadas com pleno êxito. Não vou referir-me à feita com o matadouro rural da Galiza nos tempos em que governava o país vizinho o general Primo de Rivera.

Em França, que é um grande país estragado pelo vício da má política, realizou-se há pouco tempo ainda uma experiência com pleno êxito.

No desejo de dar uma certa ordem ao caos económico e financeiro do seu país, o chefe do Governo, António Pinay, voltou também os seus olhares para o abastecimento de carnes às grandes cidades da França.

Verificou bem depressa que o preço por que se vendia a carne ao público era exorbitante, em relação à exiguidade do que se pagava ao lavrador pelo gado.

Verificou ainda que à custa e com sacrifício do lavrador - criador do gado - e do público - consumidor da carne - se sustentava uma multidão desnecessária de intermediários e que o marchante ou talhante oferecia a maior resistência a sujeitar-se a vender por preço mais justo a carne que servia ao público.

Dando-se mais afincadamente ao estado do problema, chegou à conclusão de que o gado transportado de longe para ser abatido nas cidades chega a perder, em alguns casos, 25 por cento do seu valor.

E foi para uma solução revolucionária pela novidade, simples como a própria verdade, mas eficaz, porque baseada nos mais rigorosos ensinamentos e aperfeiçoamentos da técnica.

Dirigiu-se com os técnicos às regiões da França em que se cria o melhor gado e a carne mais saborosa e, de acordo com os lavradores e associações agrícolas, montaram-se aí matadouros rurais devidamente apetrechados e em condições técnicas de se poderem aproveitar todos os subprodutos da carne.

Esta era metida em pequenos sacos de celofane, com peso certo o indicação da qualidade, saquinhos esses colocados em caixas de alumínio e o transporte feito em camiões.

Nas cidades havia casas de venda, com pessoal irrepreensivelmente limpo e com balança para o consumidor verificar, querendo, o peso exacto da carne que estava no saquinho.

O resultado foi conseguir-se por este processo o que os marchantes diziam impossível: carne ao preço estipulado pelo chefe do Governo e ainda com a promessa da parte dos lavradores associados de se baratear o preço da carne em 25 por cento, desde que as populações citadinas soubessem compreender este esforço das populações rurais em favor dos meios urbanos.

Porque não há-de ser possível em Portugal o que tão recentemente e com tanto êxito se realizou em França? Só o não será se os técnicos, os governantes - com subsídios - e a organização da lavoura - para uma economia mais justa e mais ao serviço da Nação - se não derem as mãos, como é indispensável.

Vozes: - Muito bem!

O Orador:- E digo que é indispensável porque sem isto as populações rurais não terão interesse em criar gado e as citadinas continuarão a pagar a carne a preços exorbitantes. A experiência feita está dentro dos melhores princípios da produção e distribuição da riqueza e da crítica salutar feita no notável parecer das contas públicas.

Sr. Presidente: é com iniciativas destas e olhando a sério para o abandono das populações rurais que a técnica mostra praticamente o seu valor e se faz, a bem da Nação, uma política económica de produção, circulação e consumo justa, equitativa e útil a todos.

Pena é que entre nós os interesses criados sejam tão fortes e certas posições ocupadas tão injusta e obstinadamente defendidas, e assim se não tenha feito em matéria de gados e de carnes a política nacional que se impõe e nos indica a experiência feliz realizada em França pelo Governo Pinay.

Mas o que se passa com gados e carnes acontece também com a fruta.

Que o diga o nosso ilustre colega Dr. Manuel Vaz, relatando-nos o que acontece com a da veiga de Chaves e sua região.

É ela ali excelente, e, contudo, não passa de uma riqueza nacional que se perde ou de um valor quase por completo desvalorizado.

Há nas grandes cidades procura de boa fruta; mas, sendo de região de pequena propriedade, a fruta de Chaves, por falta de cooperativas de lavradores, apodrece ao abandono ou é destinada aos animais, porque nenhum produtor está em condições de a colocar no mercado de Lisboa e muito menos de a exportar.

Vozes: - Muito bem!

O Orador:- Amares é no Minho, terra de excelente laranja, que pela estação de Braga é enviada para os mercados de Lisboa. Só o distrito de Braga vende para Lisboa mais laranja do que todos os outros do País.

Mas aproveitam a lavoura regional o as populações rurais na proporção do valor das laranjas?

Por falta de organização de crédito e de cooperativas de produção e venda de laranja, a economia familiar do lavrador é vitima da exploração mercantil de endinheirados e intermediários, e a laranja é vendida em Janeiro de cada ano ao desbarato, ainda com o encargo de o lavrador a defender dos rapazes e dos ladrões.

Por estudos recentes parece ter-se chegado à conclusão de que as laranjas do Minho não devem ser enviadas para Lisboa cedo, mas nos meses de Verão.

Amadurecendo mais tarde que as laranjas do Centro e Sul do País, não têm nos primeiros meses do ano a doçura das provenientes de regiões mais quentes, mas nos meses de calor possuem a frescura que noutras se não encontra. Fala-se agora muito em aproveitar os terrenos mais pobres do Minho para laranjais, numa cultura associada com oliveiras, que é a forma tradicional no Norte do País e tom a vantagem de defender as laranjeiras das geadas e dos estragos dos vendavais.

Mas nada disso resultará em proveito dos pequenos lavradores se a estes faltar crédito, cooperativas e organização. Cada vez se põe com mais urgência a imperiosa necessidade do dar à lavoura uma organização que mereça tal nome.

Há semanas prestou a lavoura da sua região uma justa homenagem ao nosso ilustre colega Melo Machado, pelo entusiasmo e brilho com que a tem defendido. E quando os homenageantes e o homenageado se dirigiram ao Sr. Ministro da Economia foi para reclamarem de S. Ex.ª cooperativas, como meio indispensável da valorização agrícola e da necessária elevação do nível económico das populações rurais.

Têm os reclamantes toda a razão. Mas o problema é tanto mais grave e crucial quanto mais se caminha para as regiões de pequena propriedade. Nessas é que, ou se criam cooperativas, ou o lavrador, sem nível económico de vida decente, emigra ou procura nas cidades o que elas tantas vezes lhe não podem dar.

Vozes: - Muito bem!

O Orador:-Com razão e muito a propósito se afirma no parecer das contas públicas que a emigração pode ser um mal social grave se se fizer em excesso, e que a fuga para as cidades já está a ser combatida em muitos países como mal que sob muitos aspectos se considera de gravíssimas consequências.

Mas nem é possível travar a emigração, reduzindo-a às proporções de facto social inevitável e natural expansão dos meios populacionais do País ricos em vidas, nem obstar à debandada para as cidades sem que se dê à vida rural mais desafogo e aos rurais mais justa compensação do seu esforço.

Vozes: - Muito bem!

O Orador:- Porque tudo isso falta é que as aldeias se despovoam e só fica no trabalho agrícola quem dele não pode fugir, porque em qualquer outra espécie de actividade em que empregue o seu esforço há melhor salário, mais horas de descanso, mais assistência e mais vantagens.

O problema é sério e tem como causa primária e inicial a desorganização da lavoura. Para se sair deste mal económico e social, que conduz à perda de muita riqueza nacional ou, em muitos casos, a uso dela que aproveita, injustamente, a poucos, com prejuízo de muitos

e até da boa economia da Nação, é forçoso estruturar convenientemente a organização da lavoura.

Não me parece que tal se possa fazer sem que os grémios da lavoura e as Casas do Povo realizem um trabalho de entendimento e colaboração, que até agora não existiu.

A organização profissional dos lavradores deve ser tão simples e fácil que se adapte à pobreza dos caseiros e rendeiros e tão completa que não deixe sem amparo e auxilio qualquer aspecto da vida do associado.

Há necessidade de que não falte em cada organismo profissional e primário dos lavradores a secção de formação e cultura - formação moral, sindical e técnica ou de exploração da terra.

É que não vale nem resulta ter associados uns tantos lavradores; o que vale é convencê-los do valor e necessidade da associação e criar-lhes uma consciência moral e sindical que seja elemento de mística associativa e, mais do que a lei, os congregue em defesa colectiva própria e sempre a bem da Nação.

Este trabalho educativo no aspecto moral e sindical está por fazer. Por isso é que se não ama a organização, pois falta a consciência do seu valor.

O Ministério das Corporações deveria intervir nesse aspecto da vida associativa agrícola, como intervém na vida dos sindicatos operários.

E permitam-me que, sem intuito de ofensa para ninguém, diga que os delegados do Instituto Nacional do Trabalho não deviam ser simples bacharéis em Direito, mas preparados em escola especializada, para que fossem nos seus distritos os disciplinadores e educadores de funcionários, que não seriam apenas burocratas, mas propagandistas do corporativismo e associativismo e capazes de formar um escol de dirigentes entre os associados das várias profissões.

Sem este esforço a organização corporativa terá quadros - os quadros determinados pela lei -, mas não terá mística nem almas e cairá num baixo materialismo de interesses e de luta de classes.

Quando este trabalho de educação sindical, associativa e social se fizer no sector agrícola é ainda preciso defender os associados contra dois grandes inimigos da vida associativa: o usurário e o mau negociante ou negociante ganancioso.

Contra a usara, que aflige a lavoura, mormente a pequena lavoura, são indispensáveis as secções de crédito dentro dos organismos agrícolas e, em união com a secção de crédito e em íntima colaboração com ela, a secção de cooperativas de produção e compra e venda exclusivamente a favor dos associados.

Não se compreende nem justifica que o crédito agrícola não tenha sido ainda reformado e se encontre desarticulado da organização da lavoura, em que se devia incluir, fazendo parte, assim como as cooperativas, da secção económica da organização sindical ou profissional.

O que acabo de dizer, tendente a que se faça das organizações profissionais organismos completos, só é novidade por se não ter praticado. Está, porém, na história, tradição e essência do corporativismo português.

É sabido que as confrarias não eram apenas associações de piedade, com o objectivo da formação religiosa e moral dos associados, mas bancos populares, contra a usura e mutualidades de seguro dos homens, e até dos animais, como as confrarias de Santo Antão, de que encontramos ainda memória em velhos arquivos das nossas paróquias do Minho e de que as mútuas indemnizadoras de gado bovino não são mais que o prolongamento e continuação.

A nossa vizinha Espanha não esqueceu estes ensinamentos e lições da história e mantém prósperas as suas irmandades de lavradores.

Da maneira como ela fomenta o crédito e os organismos populares de economia e crédito entre as populações rurais nos dão eloquente testemunho os cartazes que nas aldeias da Galiza chamam a atenção dos viajantes para a existência em cada localidade da «cajá de abonos».

O problema é vasto e eu já me alarguei em demasia no seu exame ou crítica e estou por isso a cansar V. Ex.ª, Sr. Presidente, e a Câmara.

É que se trata de uma questão de vida ou de morte para a pequena lavoura. Ou esta vive da força e auxílio de uma boa organização ou perece, à míngua de um mínimo económico indispensável.

E o desaparecimento da pequena lavoura, que é o mesmo que dizer da pequena e média propriedade, não se dará sem que toda a vida da Nação se ressinta e o facto traga sérias consequências económicas, sociais e de ordem pública.

Para as evitar se expressa o desejo de que não tardem as federações regionais da lavoura, pelas quais há tempo se clama em vão, e de que o lavrador, ao mesmo tempo que encontre crédito e colocação ajusto preço dos seus produtos, como serviços da organização a que pertence, receba ainda dela a cultura e a educação social, moral e associativa, que não tinha ao lançar-se a organização e que nada se fez para lhe dar.

E que, logo que seja possível - pois vai sendo tempo-, os organismos de coordenação económica, que, por circunstâncias especiais da guerra, se intrometeram na vida da organização corporativa, abandonem as posições tomadas e não estorvem nem tornem odiosa essa organização, permitindo-se nela direitos e funções que a rigor lhes não pertencem.

Sr. Presidente: quando o turista, português ou estrangeiro, se dirige ao Alto Minho, para aceder ao convite do autor do Minho Pitoresco e poder confrontar as belezas das margens do rio Minho com as do rio Lima - que se disputam à porfia vantagens e primazias, pleito difícil que o referido autor se não decide a resolver, comparando-o ao eterno e insolúvel problema dos olhos azuis e dos olhos negros -, e, entrando em Viana do Castelo, sobe a esse incomparável miradouro que é o monte de Santa Luzia, sentirá todo o assombro da maravilha da paisagem, viva, garrida e variegada.

Se, porém, além de admirar a paisagem, o interessa a vida da gente que habita esse rincão português de incomparável beleza, notará bem depressa que o rio

- que em linguagem poética beija os pés da cidade, sua dama, e abraça os campos -, assoreado no seu leito, invade os terrenos marginais e rouba às gentes de Viana e de Ponte de Lima o pão, ou seja as culturas de algumas centenas de hectares de terreno.

É a nota triste e desoladora no meio de tanta garridice e policromia de tons da paisagem e do traje das raparigas.

Muitas vezes tenho contemplado entristecido este pormenor da paisagem e da vida da gente das margens do rio Lima e perguntado a mim próprio se não há quem veja aquilo e se para o caso se não encontrará remédio.

Tendo exposto a alguém o meu sentir em conversa de minhoto que mais ama a sua pátria através da região em que nasceu, vim a saber que já há estudos feitos sobre o aproveitamento total do rio Lima, de que resultará, com outras vantagens, não só o desaparecimento do espectáculo desolador que entristece o turista, mas ainda o melhoramento da barra de Viana do Castelo, a rega e o enxugo do muitas terras marginais e o aproveitamento hidroeléctrico do rio.

De facto, vêm de longe os estudos sobre o assunto, que é hoje de mais importância e de mais urgência na solução, dado que na sua parte inferior se agravam cada vez mais o estado do leito do rio e o lamentável desperdício das terras marginais invadidas pelas águas.

É o rio Lima, na opinião dos técnicos, um dos poucos rios portugueses cujo aproveitamento total se impõe, e esse aproveitamento reveste-se na actualidade da maior necessidade e urgência, por se tratar de uma região de grande densidade de população, em que as indústrias são escassas ou quase não existem, sendo por isso mais necessário intensificar a produção agrícola e aproveitar todos os recursos da terra.

Pelos elementos que me vieram à mão, verifica-se que as duas mais importantes obras para o aproveitamento completo do rio Lima estão já realizadas, e são o porto de Viana do Castelo, na sua foz, e o aproveitamento hidroeléctrico do Lindoso, na fronteira.

Reconhecem os técnicos a que a bacia hidrográfica do rio Lima tem excepcionais condições de aproveitamento e que nela se registam as maiores precipitações anuais médias e, paralelamente, os maiores coeficientes de escoamento de todo o País».

Vê-se dos bem elaborados anuários dos serviços hidráulicos que há possibilidade de um plano geral de aproveitamento a fio de água no rio, a jusante de Lindoso, e de albufeiras de elevada regularização específica nas ribeiras da Peneda e de Castro Laboreiro.

Os resultados desse plano seriam a produção de grande quantidade de energia, a defesa contra cheias, o enxugo do vale inferior do rio a jusante de Ponte de Lima, a rega e valorização com ela de 5 000 ha de terras férteis, o melhoramento da navegação - de grande vantagem económica para a região - e a recuperação integral de algumas centenas de hectares de terrenos de cultura inutilizados.

E se as duas obras maiores deste plano já estão realizadas, há também já muitos estudos feitos para se chegar ao aproveitamento total do rio.

Nos anos de 1939, 1940 e 1941 realizaram-se, por meio de brigadas de estudos dos serviços hidráulicos, levantamentos topográficos e hidrográficos e medições de caudais no rio Lima e seus afluentes.

Maiores foram os estudos e trabalhos dos anos de 1942 e 1943.

Em 1942 fizeram-se os reconhecimentos gerais necessários para a elaboração do plano geral de aproveitamento, o reconhecimento detalhado do rio Lima sob o ponto de vista hidráulico e agronómico e em relação às necessidades de enxugo e rega e ainda o reconhecimento das bacias dos seus afluentes-rio Vez e ribeiro de Castro Laboreiro.

Em 1943 iniciou-se o estudo do plano geral da regularização e aproveitamento das águas de toda a bacia hidrográfica.

O ano de 1944 foi o do início do estudo do aproveitamento hidroeléctrico, estudando-se já os vales do rio Lima e dos ribeiros da Peneda e de Castro Laboreiro.

Dos estudos e trabalhos no ano de 1945 diz o Anuário dos Serviços Hidráulicos:

Prosseguiu a recolha de elementos topográficos, hidrológicos e agronómicos para a elaboração do plano geral de sistematização da bacia deste rio. Ficou concluída a parte referente à correcção torrencial e ao aproveitamento da energia das águas do rio e dos seus afluentes Castro Laboreiro, Peneda e Vez.

O esquema do aproveitamento hidroeléctrico prevê uma possível produção de 450x106 kWh no ano muito seco de 1944-1945, com influência benéfica na utilização de água para a rega e na manutenção de caudais para a navegação e contribuindo ainda para a diminuição dos transportes sólidos.

Nos anos de 1946,1947,1948 e seguintes continuou se com a elaboração do plano geral de regularização e aproveitamento das águas, tendo-se ainda feito o reconhecimento agro-económico dos terrenos a beneficiar e o reconhecimento geológico dos possíveis locais de barragens.

O Sr. Elísio Pimenta: - Não esqueça V. Ex.ª que o problema do rio Lima, nos aspectos que acaba de encarar, não é o único na região do Minho.

Existe um problema paralelo no rio Minho, a poente de Valença, em S. Pedro da Torre.

O Orador:- Tem V. Ex.ª razão. Tanto na veiga de Ganfei como em S. Pedro da Torre, freguesias do concelho de Valença, há problemas idênticos.

Sr. Presidente: parece que os trabalhos sobre o aproveitamento integral do rio Lima pararam ou, pelo menos, não há indicação do que se fez depois de 1950. Diz-se que foi a necessidade de deslocar os técnicos para estudos urgentes no rio Douro o que motivou esta paralisação de trabalhos e estudos.

Permita-me, ao terminar as minhas considerações no debate das contas públicas, lembrar ao Governo a necessidade de se prosseguir nesses trabalhos interrompidos, visto que depende deles o aproveitamento de grandes fontes de receita, bem necessárias à gente do Alto Minho e às prementes necessidades de melhor nível económico, para sustento da sua densa população.

Junte-se à beleza da paisagem e dos trajos regionais a beleza desta possível e urgente realização. As despesas a que obriga são fartamente compensadas pelas receitas que dela hão-de provir para a economia nacional e para melhoria de vida da gente alegre de Viana e da Ribeira Lima.

Que por esta obra tão necessária possam o estrangeiro ou o português que visitam a cidade de Viana ou ali vão pelas festas da Agonia, ao ouvir os cantares das raparigas e ao apreciar as danças regionais, dizer com toda a verdade: «Sente-se que esta gente é mais feliz e canta com mais vivacidade e alegria porque vive no Portugal renovado de Salazar».

Tenho dito.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O orador foi muito cumprimentado.