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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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O MINHO NA “REVISTA DE TURISMO” DE 1916

A “Revista de Turismo” de 5 de agosto de 1916, publicou um interessante artigo da autoria do jornalista e escritor Guerra Maio que faz uma descrição algo poética da paisagem e dos costumes minhotos, o qual a seguir se transcreve.

José da Guerra Maio de seu nome completo, colaborou nos jornais “Comércio do Porto” e “Diário de Lisboa”, tendo ainda sido redator da “Gazeta dos Caminhos de Ferro”. Dirigiu mais tarde, em Paris, a Agência de Turismo da Sociedade de Propaganda de Portugal.

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PAISAGENS PORTUGUEZAS. O MINHO

Terra de encanto, em que a videira abraça

Com terna graça o castanheiro em flor

Eu adoro o Minho. E quem não o adora? Quem nunca o viu.

Quem nunca ficou estasiado ante a vista admiravel e soberba do Monte de Santa Luzia, e quem não se sentiu poeta entre o murmurar lento do Ave, quem nunca lhe deu vontade de saltar para o folguedo de uma romaria minhota? Quem não sente vibrar-lhe uma alma de portuguez.

Minho, terra de romarias, paisagens verdes e fragantes para noivos e sonhadores; rios encantados para poetas e sentimentalistas.

Todo o Minho é um sonho.

Braga. Bom Jesus do Monte

A paisagem que nos deslumbra a vista, o perfume suave e doce que nos embalsama a alma, o canto vibrante do melro saltando entre as ramarias, onde a uva pende da videira quasi secular, e ainda o canto melancholico do rouxinol sacudindo os salgueiraes, nas noites em que a lua cheia reflete, sobre a terra bemdita, uma claridade de sol d’Agosto.

Eu fui um dia de longada por esse Minho das romarias, e ao regressar senti que dentro de mim brotara uma alma nova.

Mas não foi no comboio veloz e poeirento que a Natureza se me espelhou na alma. Foi nas jornadas nos char-à-bancs por essas estradas agrinaldadas de verdura, entre terras de fartos milharaes; ora transportando-me de Guimarães para Braga, ou indo em paciente longada até Lanhoso, ao Gerez, aos Arcos, a Monsão, ora descendo ao lado do rio Lima, que as sebes compactas, toldam de u verde bronze, onde ás vezes nos parece surgir aquelas minphas de que nos falam a lenda e os poetas.

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Uma feira no Minho

No Minho, tudo nos arrebata e comove. Na romaria, desejamos vestir uma jaleca e empunhar um cacete, saltar para o meio da folia, cantar á desgarrada com as raparigas de tranças cahidas e de peitos a arfar, mais de amor que de volupia.

Se subirmos ao Bom Jesus, mordesse-nos o beiço de inveja ao ver passar os cedros seculares, noivos sorrindo e sonhando com felicidades futuras; mas ao lado o coração comprime-se nos de dôr, ao ver passar os penitentes subindo de joelhos, em lances angustiosos, a escadaria do santuário n’um fervoroso voto de reconhecimento.

Mais além no Sameiro, a virgem na solidão, convida-nos a admirar um dos mais belos panoramas do Mundo. Bemdita jornada, consolado sacrifício de tão grande subida. Ali, junto á sua capela para qualquer lado que a vista se alargue, uma intensa alegria e uma expansão de grandeza, embriaga-nos o espirito da mais candida suavidade.

Os cerros vestidos de castanheiros e de vinhedos, com a capelinha branca no alto dando uma nota de piedade, descem para os vales ubérrimos, onde casaes de lavradores, com o seu eirado das descamisadas e dos castos beijos amorosos, nos dão a impressão de um capitulo das Pupilas do sr. Reitor.

Todo esse ambiente de bucolismo sentimental, é cortado pelas aguas do Ave, que em brandas curvas vae correndo mansamente e beijando com amor as lavadeiras e as mulheres da rega dos milharaes.

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Guimarães. O castelo

Mas se descermos a Guimarães, temos que nos curvar ante o seu castelo, onde a tradição tem em cada pedra uma pagina da historia pátria.

Mais abaixo, a Natureza, esqueceu-se do resto do Mundo para nos deixar essa encantadora Vizela, onde a par das suas aguas milagrosas, armou um toldo de verdura que o sol de agosto não consegue descer.

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Vizela. Um trecho do rio

O rio Vizela, com a sua ilha dos Amoras onde tantos sentimentais teem ido noivar, parece um Eden, para a gente se esquecer da vida.

A falta do caminho de ferro que nos leve ao Alto Minho não tem permitido ensejo para se admirar essas vilas esquecidas entre as verduras; como sejam: Arcos de Val-de-Vez, Ponte da Barca e Ponte de Lima, d’esta ultima disse um poeta de raça, que era a mais linda vila de Portugal, também lá fomos e não tivemos vontade de contradizer tão balizada opinião.

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Ponte de Lima

Se formos a Viana dos Castelo, ao apearmos na sua estação, janota e elegante, e se ao olharmos para o escabroso monte de Santa Luzia, não nos fica a impressão da sublime e extasiante paisagem que de lá se disfruta, mirando o Rio Lima que n’uma doce alegria se vae juntar ao oceano, depois de fecundar as fartas planícies que o comprimem, e cuja terra forte e creadora é revolvida por charruas colossaes.

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Mulher de Viana

E a mulher minhota? Encantadora e meiga; dizem que a de Viana é linda, é-o certamente, mas para seu mal, vae-se vestindo pelo figurino de importação, e razão não lhe falta, pois a graça do seu vestido, em cuja cinta se lê a palavra Amor ou Saudade, entrou na cidade fazendo o ridículo e hediondo papel de figurino carnavalesco.

Garrida e candida mulher de Viana, rasga o teu vestido, e despresa esta raça de snobistas, que te trouxeram para os bailes desgraciosos de Carnaval.

Gerra Maio