Malaca fica situada no litoral sul da Península Malaia, entre Kuala Lumpur e Singapura, a milhares de quilómetros de distância de Portugal. Muitos dos seus habitantes descendem dos descobridores portugueses e de suas famílias miscigenadas, nomeadamente com gentes da antiga Índia Portuguesa e do antigo Reino do Sião, atual Tailândia, onde também se estabeleceram. Em 1511, já lá vão mais de quinhentos anos, Afonso de Albuquerque ali aportou conjuntamente com um milhar de homens. Falam o papiá Kristáng que é como quem diz “fala cristã” e que constitui um crioulo português utilizado na Malásia e em Singapura. São conhecidos como os portugueses de Malaca.
Esta comunidade é atualmente constituída por cerca de cinco mil falantes a viver em Malaca e teve a sua origem nos casamentos celebrados entre navegadores portugueses e migrantes goeses, também eles de ascendência indo-portuguesa, com mulheres malaias.
Com o objetivo de dominar o comércio das especiarias provenientes das Filipinas, Timor, Macau e Ilhas Molucas, os portugueses apoderaram-se de Malaca e ali mantiveram o seu domínio durante quase século e meio até cair em mãos holandesas quando estes, rivalizando com a Espanha e aproveitando-se da situação difícil em que Portugal se encontrava após a proclamação da Restauração da Independência, lograram tomar o território que viria mais tarde a passar ao domínio britânico.
Apesar de jamais terem visitado Portugal e serem escassos os contactos com a cultura e as entidades portuguesas desde o fim da soberania portuguesa naquele território ocorrida no século XVII, os portugueses de Malaca procuram por todos os meios preservar a sua herança cultural e identificar-se o mais possível com os símbolos e até as regiões portuguesas como se nelas tivessem nascido de facto. A manutenção desta identidade tem sido fundamental para assegurar um estatuto próprio e conferir uma autoestima a um povo que, afinal, possui um passado que resulta da grande epopeia realizada pelos portugueses que aproximou povos e criou novas identidades.
Um dos aspetos curiosos da maneira de ser dos portugueses de Malaca consiste na forma como executam danças tradicionais portuguesas como o “Vira di Santa Marta”, o “Verdi Gayo” e a “Ti Anika”, algumas das quais introduzidas em meados do século passado por missionários portugueses enviados com o propósito de lhes prestar assistência religiosa. Existe, porém, quem acredite que algumas daquelas dançam foram levadas pelos navegadores portugueses ao tempo das caravelas.
Os trajes que exibem são naturalmente estilizados e constituem cópias aproximadas dos trajes mais genuínos. As danças são executadas a um ritmo porventura alterado. As cores e formas exuberantes dos trajes minhotos encontram-se entre as suas preferidas. Mas, não se questiona aqui o rigor etnográfico dos seus trajes nem a autenticidade do seu reportório mas a sinceridade dos seus sentimentos que os levam a orgulharem-se das suas origens portuguesas e do legado deixado pelos seus ancestrais, apesar de nunca terem experimentado a felicidade de pisar a terra que viu nascer os seus antepassados antes de partirem nas naus para cumprirem um desígnio e uma missão que foi o de estabelecer o predomínio dos portugueses nos mares do Oriente.
É, naturalmente, algo de bastante comovente quando vemos que, apesar da distância temporal e geográfica que os separa de Portugal, continuam a sentir-se espiritualmente ligados a esta Pátria que a consideram como sua, mantêm a identidade que os identifica por todos os meios ao seu alcance e sem usufruir de quaisquer apoios por parte das entidades portuguesas, orgulhando-se da sua herança cultural e conservando-a com a dignidade que lhes é devida como portugueses. E, envergando fatos que de alguma forma procuram sugerir os nossos trajes tradicionais, exibidos com muito garbo e carinho, vemo-los a executar danças com designações tão sugestivas como “Ao nosso Algarve”, “O Vira vamos”, “Fado di Coimbra” e “Kantu sen fazé fabor”. Trata-se, com efeito, de um extraordinário exemplo de portuguesismo que convida à reflexão por parte daqueles que jamais tiveram a necessidade de viver distante da sua Pátria.
Apesar da distância geográfica e dos quinhentos anos decorridos desde a chegada dos portugueses a Malaca, os seus descendentes conservam como podem a sua identidade cultural.
Sem ter ceias assim o que há-de ser de nós? Sofre meu paladar! Chora meu coração!”
Afonso Lopes Vieira
Reza a História que, ao tempo do Condado Portucalense, D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, concedeu em 1125 ao Arcebispado de Tui o privilégio de tomar como suas as lampreias que apresassem no rio Minho, a montante da Torre da Lapela, a fim de abastecer os mosteiros e conventos por ocasião dos jejuns quaresmais. Mais recentemente, foi nas estantes da Biblioteca de Nápoles encontrado uma obra-prima da culinária portuguesa, remontando ao século XVI, com o título “Livro de Cozinha da Infanta D. Maria”. Com efeito, são inúmeras as referências históricas a tão afamada especialidade da nossa cozinha tradicional.
A lampreia já sube os rios para desovar, depositando sob as rochas ou em pequenos ninhos escavados no leito milhares de minúsculos ovos que garantirão a sobrevivência da espécie. E morrem. Após a desova, as larvas permanecem no rio até que, por meio de metamorfose se tornam adultas. Nessa altura, migram para o mar onde permanecem até atingirem a sua maturação sexual.
A lampreia é um ciclóstomo muito procurado por conceituados gastrónomos e outros apreciadores da nossa culinária. Ela faz os requintes das melhores mesas das mais afamadas unidades hoteleiras, atraindo numeroso público a localidades do nosso país que mantêm a tradição da sua confecção esmerada e o requinte de bem servir. No Minho, a lampreia dos rios Cávado, Lima e Minho constituem o ex-líbris da gastronomia local a promover o desenvolvimento económico daquela região. Não admira, pois, o relevo que lhe é conferido pelas entidades que superintendem a promoção turística e os próprios estabelecimentos de restauração.
A preservação da lampreia nos nossos rios depende também da importância que lhe atribuímos, nomeadamente como parte integrante da nossa alimentação. Ao contrário do que à primeira vista se possa imaginar, não é a pesca mas a poluição das águas e outros atentados ao ambiente que fazem perigar a sua sobrevivência.
Em virtude do período sazonal da desova, o seu consumo verifica-se geralmente entre Fevereiro e os finais de Abril. A partir daí, a lampreia apenas surge figurada na doçaria da Páscoa sob a forma de “lampreia de ovos”, e evocar as delícias de um prato que apenas pode voltar a ser apreciado no ano seguinte. Não admira, pois, que chegue inicialmente a atingir preços exorbitantes que, no entanto, não constituem razão que baste para desmotivar os melhores apreciadores de tão delicioso pitéu.
Refastelando-se na sua casa senhorial de Paredes de Coura, Aquilino Ribeiro, na sua obra “A Casa Grande de Romarigães” afirmava: “Não há como o arroz de lampreia, se lhe adicionarem uma colher de manteiga de pato”. Por seu turno, o poeta e gastrónomo António Manuel Couto Viana, no seu livro “Por horas de comidas e bebidas – crónicas gastronómicas”, dedica um capítulo inteiro à “lampreia divina”, como Afonso Lopes Vieira a designou. Escreveu Couto Viana o seguinte:
“Já a correnteza das águas que jorram da vizinha Espanha se enfeitam com o aparato das estacas e redes, para prenderem, nas suas malhas, noite adiante, o fugidio ciclóstomo, a tentar disfarçar-se aos rés dos seixos do leito; o chupa-pedras tão apreciada por mim, quando de cabidela, afogado no arroz malandrinho, embebido no seu sangue espesso e escuro.
Também a fisga certeira, atirada, firme, dos altos, se os olhos penetrantes do pescador distinguem bem o vulto ondeante, faz içar a lampreia até às mãos ávidas, e lança-a, depois, para a vastidão de um saco que se quer a abarrotar.
(…)
Soberbo petisco! Com que gula a mastigavam os frades medievos torturados pelos jejuns quaresmais!
Com que gula a mastigo eu, em mesa que ma apresente opípara no arroz do tacho, em grossos toros aromáticos, ou à bordalesa, ou de escabeche, que nestas três artes se mantém ela tentadora e sápida”.
Com o talento dos mais consagrados artistas, cozinheiro após pelar a lampreia coloca-a num alguidar deitando sobre ela água a ferver. De seguida, abre-a da cabeça até ao fundo dos buracos e, junto à cauda, desfere-lhe um golpe para lhe retirar a tripa inteira. O sangue é guardado no mesmo recipiente onde a lampreia fica a marinar mergulhada em vinho tinto a que se juntam um ramo de salsa, uma folha de louro, um dente de alho, pimenta, colorau, sal e margarina. No dia seguinte, é feito um refogado onde é colocada a lampreia que fica a cozer durante cerca de quinze minutos, cuidando para que não se desfaça. Após o guisado, retira-se a lampreia. Ao caldo junta-se água no triplo do arroz que vai ao tacho e deixa-se ferver durante mais quinze minutos. Finalmente, serve-se numa travessa funda, cobrindo o arroz com a lampreia, golpeada em troços.
Esta constitui uma das especialidades da gastronomia minhota que merece ser regada com os melhores vinhos verdes da nossa região!
“Um rio de muitas luzes” é um livro do escritor ponte-limense Cláudio Lima, edição do autor que contou com o apoio da Câmara Municipal de Ponte de Lima. A capa é da autoria de Nuno Rogério e apresenta uma agradável combinação de tonalidades de azul onde sobressai uma vista panorâmica de Ponte de Lima com a sua ponte medieval como fundo. Este livro constitui uma colectânea de escritos dispersos por vários jornais e revistas, através dos quais o autor evocou as mais eminentes figuras literárias da terra limiana, trabalhos que agora recupera com o propósito de “acicatar o gosto dos limianos pelo conhecimento de alguns dos seus maiores”. Como ele próprio o afirma, “são, obviamente, textos em que o traço comum não é outro que a paixão por aqueles que nos precederam no estudo e na expressão artística dos nossos valores mais nobres e imperecíveis. Na sua diversidade e desigualdade, da simples nota de recensão ao esboço de ensaio, neles intento promover o interesse e a devoção a personalidades, de hoje ou do passado, que de algum modo contribuíram para dignificar e enriquecer tão vasto património”.
Diogo Bernardes, Cardeal Saraiva, António Feijó, Domingos Tarroso, Delfim Guimarães, Teófilo Carneiro, João Marcos e Couto Viana são apenas alguns dos escritores que Cláudio Lima evoca, algumas das luzes que iluminam este rio de poetas desde sempre celebrado como o mítico Lethes banhando suavemente as margens de Parnaso. Como disse Couto Viana a respeito do seu livro “Arte de Amar Ponte de Lima”, anteriormente publicado, palavras que adquirem toda a actualidade também neste contexto, “a partir deste livro, nenhum limiano pode já esquecer, na teoria dos sublimes poetas do rio lendário, o estro de Cláudio, dos mais apaixonados, dos mais arrebatados, ante a sua braveza e placidez”.
A presença de galegos entre nós remonta aos primórdios da Reconquista e da formação da nacionalidade. Porém, o fenómeno da imigração galega entendida enquanto tal teve o seu começo a partir do século XVII, facto a que não é certamente alheia a situação política da época caracterizada pela dominação filipina. Vinham sobretudo para a lides dos campos, ocupar-se em trabalhos sazonais, procurando obter o indispensável para regressarem às origens e providenciarem o sustento da família. Mas também havia os que se estabeleciam nas cidades, nomeadamente em Lisboa, dedicando-se às mais variadas profissões e ofícios.
Aguadeiros galegos no Chafariz de Alfama
Por essa altura, no alto de uma colina do sítio de Alcântara já se encontrava construída a Capela de Santo Amaro que viria a tornar-se o local mais concorrido dos galegos que viviam em Lisboa, tornando-se palco de festas e romarias em homenagem àquele que se tornara o seu padroeiro nesta cidade. Com efeito, a pequena ermida foi erguida na sequência de uma promessa feita por frades da Ordem de Cristo que, numa viagem de regresso de Roma, a nau em que vinham foi acometida de temporal no mar e, perante o receio de naufrágio, prometeram construir uma capela no local onde aportassem sãos e salvos.
De traça renascentista, a ermida apresenta forma circular e é rodeada por um átrio. A capela original foi construída em 1549 e constitui, muito provavelmente, a actual sacristia. A Capela de Santo Amaro está classificada como Monumento Nacional por Decreto de 16 de Julho de 1910.
Com o tempo, a presença de galegos foi crescendo em número, tendo passado a concentrar-se preferencialmente nas cidades de Lisboa e Porto. Por altura da “Guerra das Laranjas” ocorrida em 1801, altura em que perdemos Olivença, chegou a ser aventada a possibilidade da sua expulsão a qual, proposta que contou com a oposição do Intendente da Polícia porque tal resultaria em deixar de ter “quem servisse as cidades de Lisboa e Porto”. Acredita-se, porém, que em consequência do crescimento económico verificado a partir da segunda metade do século XIX, a comunidade galega tenha atingido perto de trinta mil indivíduos, a maioria dos quais a viver em Lisboa.
Como costuma dizer-se, os galegos eram então pau para toda a obra. Havia entre eles taberneiros e carvoeiros, moços de fretes e hospedeiros. Eça de Queirós, na sua obra “Os Maias”, faz-lhes frequentes alusões, confundindo-os embora com espanhóis. Porém, é a profissão de aguadeiro que mais o identifica e fica associado na vida lisboeta. Com a sua indumentária característica e a respectiva chapa de identificação municipal no boné, o aguadeiro galego percorria a cidade vendendo a água em barris. E era vê-los a abastecer-se nos chafarizes e fontes do Aqueduto das Águas Livres, nas bicas que lhes estavam reservadas pelo município a fim de evitar as brigas que frequentemente ocorriam. De referir que, até ao início do século XX, a maioria da população lisboeta era forçada a recorrer aos fontenários uma vez que poucas eram as habitações que dispunham de água canalizada. Os aguadeiros organizavam-se em companhias e, uma vez que tinham a primazia do abastecimento de água, eram ainda obrigados a participar no combate aos incêndios.
Outra das actividades pela qual ficaram particularmente conhecidos consistiu na venda dos palitos fosfóricos, então feitos de enxofre que tinham de ser mergulhados num pequeno frasco de ácido sulfúrico. Dada a sua utilização demorada e ainda pouco prática, os palitos fosfóricos ficaram então conhecidos por “espera-galego”, criando-se desse modo uma imagem que passou a conotar de forma algo injusta os próprios galegos, sugerindo tratarem-se de mandriões. Porém, a colónia galega não se ocupava apenas das profissões mais labregas, por assim dizer humildes, mas destacava-se em todas as áreas sociais, muitas das quais de grande relevo, tendo nomeadamente eleito vereadores para a edilidade lisboeta como sucedeu com o escritor Carlos Selvagem. É, aliás, no início do século que surge na zona da Graça, em Lisboa, por iniciativa de um empresário galego, um bairro para os trabalhadores da sua fábrica que desperta ainda grande curiosidade devido à simbologia ali sempre presente – o Bairro Estrela d’Ouro.
Todos os anos, por ocasião do dia que é consagrado a Santo Amaro e que ocorre em meados do mês de Janeiro, uma autêntica multidão acorria à Romaria de Santo Amaro para festejar o seu padroeiro. Rezam as crónicas da época que, em redor da capela, era um ver de gaitas-de-foles e pandeiretas e um nunca mais acabar de xotas e muiñeiras, carballesas e foliadas. Contudo, esta festa foi perdendo o seu fulgor e deixou de realizar-se. A própria capela veio a encontrar-se ao abandono, chegando uma das suas dependências a ser utilizada como armazém de carvão.
Entretanto, em 1908, os galegos que vivem em Lisboa constituíram a sua própria associação – a Xuventude de Galicia (Centro Galego de Lisboa). E, em meados do século passado, passaram a celebrar o dia 25 de Julho em homenagem a S. Tiago, Padroeiro da Galiza. E, para o festejar, escolhiam então uma velha capelinha actualmente em ruína, situada no Alto da Boa Viagem, junto ao farol do Esteiro, em Caxias, e para lá acorriam juntamente com os minhotos, o mesmo é dizer os “galegos d’aquém Minho”. Mas, à semelhança do que antes sucedera com a Romaria de Santo Amaro, também esta acabou votada ao esquecimento e deixou de ser celebrada. Também, há pouco mais de meio século, criaram o grupo “Os Anaquinos da Terra” que procura manter e divulgar as tradições folclóricas das gentes da Galiza.
Em virtude da sua identidade cultural e sobretudo linguística, a comunidade galega encontra-se presentemente integrada na sociedade portuguesa a tal ponto que não se faz notar pela forma de estar ou de se exprimir. Pese embora os acontecimentos históricos terem determinado a separação política de um povo que possui raízes comuns, portugueses e galegos continuam irmanados do mesmo sentimento que os une e do supremo ideal de virem ainda um dia a construir uma só nação. Como disse Ramón Cabanillas, no seu poema “Saúdo aos escolares Lusitanos”:
“Olhar Viana do Castelo” é porventura o melhor blogue minhoto que até ao momento encontrámos na Internet. Na realidade, aparece estruturado como um site, com esmerado aspecto gráfico e muita e variada informação de interesse sobretudo de natureza cultural.
O blogue “Olhar Viana do Castelo” cuja visita recomendamos vivamente encontra-se no endereço http://olharvianadocastelo.blogspot.com/. Trata-se, efectivamente, de uma referência bastante positiva da presença do Minho na Internet.
“A Minha Alma Brasileira” é uma das obras produzidas pelo escritor João Marcos, editada pela Universitária Editora, com desenho de capa da autoria da autoria de sua filha, a pintora Armanda Andrade. “A Minha Alma Brasileira” é um livro de contos e narrativas através do qual o autor transmite aos leitores o seu sentir e experiências que viveu durante o seu exílio no Brasil. Como a Drª Manuela Rodrigues refere no seu prefácio, “´são cinco as estórias que este livro nos trás. Todas diferentes. Marcadas pela espiritualidade insíta ao brasileiro, presente em “Do Cerrado à Megacidade (Recordações de uma viagem) em que ao longo de uma viagem o autor nos dá a conhecer paisagens, a vibração e amor ao futebol, o descobrir das sensações face à cidade grande, a mistura de crenças do povo que o leva a associar cartomância, leitura de búzios, candomblé, e de como a partir dessa incrível mistura o pobre cidadão acaba se tornando infeliz dono da fatalidade”. Mas, não nos alonguemos mais na apreciação da obra e deixemos aos leitores uma pitada da sua poesia para que lhes possamos aguçar o interesse pela leitura da sua obra. Nesse sentido, transcrevemos uma breve passagem de um dos seus contos, mais concretamente aquele que descreve “o sonho de Brasília” e dá pelo título “Mesmo que Deus não queira”:
“Nem só o vagabundo sonha. O sonho é próprio do homem. Deus criou a partir do nada, o homem cria a partir do sonho. Há diferença entre o sonho do vagabundo e o sonho do homem criador. Sonhando, o vagabundo recria-se a si próprio; o verdadeiro criador cria principalmente para os outros, o sonho transcende-o em obra para a humanidade. O poeta chegou ao fundo da essência humana: tudo o que existe ou é criação de Deus ou sonho do homem.
Vou contar a minha última história, que não é sonho meu, sonho de um vagabubdo, mas é um sonho do Brasil, um dos sonhos mais gloriosos do Brasil.
A história remonta aos finais dos anos vinte, tinha o Brasil pouco mais de cem anos de independência e um corpo enorme, de que não se conhecia ainda rigorosamente toda a dimensão.
O rosto virado para cima remirando a Europa através do reflector do Atlântico, peito e barriga empinados para o Golfo da Guiné, e encostado às almofadas do Perú e da Bolívia contra a cordilheira dos Andes, parece a rotunda figura de um capitalista, conforme se representa nas caricaturas socialistas, mas em que teratologicamente o cérebro se deslocara para o lugar onde normalmente deve estar o sexo, pois era ali, no Distrito Federal, ao fundo da barriga, que se dinamizava todo o pensamento e se manifestava toda a sua actividade emocional.
O Brasil começara já a perder o fascínio da Europa, mas os seus interesses culturais ainda se não enleavam muito com a sua prórpia pessoa (muito, ainda hoje não acontece), antes se orientavam agora em direcção às multinacionais e às multifilares antenas da cresocultura ianque. Em compensação, eram os homens da cultura da Europa e da América, especialmente os cientistas, que procuravam o Brasil para melhor o conhecerem”.
Sobre o autor propriamente dito, apresenta-o a Drª Manuela Rodrigues como “um português, minhoto da mais preclara cepa, com as suas raízes profundas nesse canto do país onde os celtas e os visigodos plantaram corações e almas fortes, de antes quebrar que torcer. Tão fortes que são capazes de partir, criar raízes e voltar, mantendo a portugalidade mais profunda, sem contudo deixarem de absorver de passagem o que de melhor as culturas locais lhes apresentam".
O Papa Bento XVI convocou o consistório de cardeais para o próximo dia 18 de fevereiro, ocasião em que o Bispo D. Manuel Monteiro de Castro, natural de Guimarães, vai ser nomeado Cardeal. A propósito do assunto, transcreve-se a notícia da Agência Ecclesia.
Braga: Arquidiocese felicita D. Manuel Monteiro de Castro, novo cardeal português
Delegação da comunidade católica minhota vai marcar presença no consistório de 18 de fevereiro
A arquidiocese de Braga enviou este sábado uma mensagem ao novo cardeal português, D. Manuel Monteiro de Castro, natural da região, manifestando o “maior regozijo” pela decisão de Bento XVI, anunciada sexta-feira, no Vaticano.
“A Arquidiocese de Braga sente-se, de facto, lisonjeada por ver um dos seus ilustres membros integrado no corpo dos cardeais e louva Deus por tão honrosa distinção conferida a um dos seus filhos”, pode ler-se no documento, divulgado na página da diocese na Internet.
O consistório em que D. Manuel Monteiro de Castro, penitenciário-mor do Vaticano, vai ser criado cardeal está marcado para 18 de fevereiro.
“Será, certamente, um dia de festa para a Igreja Universal, para a Igreja portuguesa, para a Igreja bracarense”, refere a mensagem, assinada pelo arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga.
Nesse contexto, anuncia-se a presença de um grupo de arquidiocese minhota no Vaticano, para esta celebração.
O documento passa em revista a vida de D. Manuel Monteiro de Castro, de 73 anos, “ao serviço da Igreja Universal, primeiro no serviço diplomático da Santa Sé (tendo marcado presença no Panamá, na Guatemala, no Vietname, na Austrália, no México, na Bélgica, em Trindade e Tobago, África do Sul e em Espanha)” e “ultimamente, na Cúria Romana, primeiro como secretário da Congregação para os Bispos, depois como consultor para a Doutrina da Fé e secretário do Colégio Cardinalício, agora como responsável pela Penitenciaria Apostólica, um dos três tribunais da Cúria Romana”.
“Além do regozijo por esta nomeação, expressamos a D. Manuel a maior gratidão pela entrega que faz da sua vida e deixamos-lhe a certeza das nossas orações e da nossa união em Cristo Jesus”.
Natural de Santa Eufémia de Prazins, Guimarães, o novo cardeal foi ordenado padre em 1961 e bispo em 1985, juntando-se aos também portugueses D. José Saraiva Martins e D. José Policarpo no colégio cardinalício.
É a quarta vez que Bento XVI convoca um consistório, reunião de cardeais para tratar com o Papa de assuntos de especial importância para a Igreja Católica.
“Um novo mundo perfeito” é um livro de poemas do escritor João Marcos, na realidade uma segunda edição revista e aumentada de uma das suas obras de referência como muito justamente se refere José Fernando Tavares nas primeiras linhas de um prefácio que relata de uma forma excepcional o pensamento e os estados de alma do poeta, introduzindo o leitor na poesia e seduzindo-o na sua leitura até à derradeira sílaba do último verso. Mais uma vez, encontra-se de parabéns a editora “Escritor” por mais este contributo na divulgação da literatura portuguesa e pelo excelente aspecto gráfico que vem imprimindo às suas edições. A capa é da autoria de Adalberto Sampaio e a edição contou com o apoio da Câmara Municipal de Ponte de Lima.
“Um novo mundo perfeito” constitui, por assim dizer, um manifesto de liberdade e de esperança, feita daquela utopia que leva os homens a transformar o mundo e construir a cada passo sociedades mais justas e fraternas. Trata-se de um sonho que, melhor do que ninguém, João Marcos sabe transformar em poesia com a mestria dos nossos melhores poetas – assim queira o Homem torná-lo realidade. É, como o próprio prefácio indica referindo-se deslo logo ao título que ostenta, “uma expressão de liberdade, um verdadeiro grito que é mais do que uma metáfora: é uma exigência reclamada pela própria condição humana. Desejar um mundo perfeito mais não é do que a manifestação de uma vontade ancestral do homem. Radica-se aqui a essência de um mito particularmente importante na vivência e nas necessidades do homem contemporâneo: o mito do eterno retorno, aquele de que Nietzche nos fala com a apaixonada exaltação que lhe é característica e que, não muito mais tarde, um Raul proença, em Portugal, irá desenvolver em pensamento autónomo. Desejar um mundo perfeito, mais do que a manifestação de um desejo pessoal, é um direito que todo o homem deve exigir à própria evolução civilizacional. Se assim não for, a humanidade correrá um sério risco, independentemente de todos os bárbaros atentados que se fazem ao planeta”. Não pretendendo alongar-nos em apreciações que certamente o leitor dispensará pelo prazer que seguramente irá usufruir na leitura deste livro de poemas, quedamo-nos na trascrição alguns versos que dão início à obra e que o autor titula “Antes do Princípio”:
Sobre o papel invisível
De milhões de folhas brancas
Escreve a pena dos séculos
Uma história de fantasmas
Em caracteres etéreos…
E eu leio o que não se escreve
Sobre o papel invisível
De milhões de folhas brancas.
O sol, os mares, a Terra
São noções imaginárias,
Ou são conceitos em gérmen
Dum Universo incriado
Que, finalmente, algum dia
Surgirá do imenso Nada.
O escritor Cláudio Lima que foi biógrafo e amigo de João Marcos, definiu a sua poesia da seguinte forma: “um permanente convite à elevação, ao compromisso com a vida e os valores que a substantivam, à prática de um exercício reflectivo sobre o Homem e o Universo. Mesmo quando parece deter-se em coisas miúdas e prosaicas, mesmo quando a sua musa azougada o seduz aos bosques de um erotismo faunesco ou o tenta enredar nos liames de um telurismo primário e convencional – sempre o Poeta se esquiva ao conceito gasto, ao efeito fácil, e imprime o seu selo de autenticidade, fazendo do acto de escrever não um mero auto-enamoramento narcisista, mas o reflexo nítido do que de mais nobre e imperecível deve fundamentar a vida e sublimar a arte”.
É altura de cantar as janeiras ou reisadas. Cumprindo a tradição, o Grupo de Danças e Cantares Besclore levou a efeito as reisadas e cantares ao menino, na Basílica da Estrela, em Lisboa. A iniciativa contou com a participação, além do grupo anfitrião, da Ronda Típica da Meadela, de Viana do Castelo, Grupo Etnográfico de Assafarge, de Coimbra e do Grupo Etnográfico Macenense, de Mação.
A Basílica da Estrela estava repleta de público a assistir à participação dos grupos folclóricos na recriação desta tradição, ouvindo com devoção e respeito e aplaudindo com entusiasmo a forma esmerada como todos transmitiram as diferentes formas de cantar ao menino, desde o Alto Minho à Beira Litoral e à Beira Baixa, através das suas representações neste magnífico espectáculo.
Cantar as Janeiras ou reisadas e cantar ao menino constitui uma das tradições do povo português que consiste basicamente na formação espontânea de grupos que vão de porta em porta anunciando o nascimento de Jesus e pedindo alvíssaras, geralmente algo que ficou no fumeiro ou sobrou das festividades natalícias. O seu cancioneiro é bastante rico e variado. Apesar do seu interesse etnográfico, não se conhece uma recolha dos cantares das janeiras de todas as regiões do país, até porque geralmente são improvisadas.
Fundado há vinte e cinco anos e maioritariamente constituído por funcionários do grupo BES e seus familiares, o Grupo de Danças e Cantares Besclore representa as danças, os cantares e os trajes de várias regiões do Minho, com referência aos finais do século XIX e começos do século XX. Como ele próprio refere, a sua representação incide na “exibição da policromia dos trajes de Viana do Castelo, do requinte dos trajes de Braga, da elegância das modas dos vales dos rios Ave e Este, e da vivacidade e alegria contagiante das modas da Ribeira Lima e Serras d'Arga e Soajo”.
O Presidente do Grupo Danças e Cantares Besclore, sr. José Brito, fez a apresentação do espectáculo
Grupos do Minho, da Beira Litoral e da Beira Baixa participaram nos cantares ao menino
O Grupo Besclore interpretou a forma de cantar as reisadas no Minho
A festa revestiu-se de solenidade e tradição
A Basílica da Estrela, em Lisboa, estava repleta de público para assistir às reisadas
Fez ontem sete anos que o escritor limiano João Marcos partiu do nosso convívio, deixando-nos também privados dos seus poemas e outros escritos. Evocando a sua memória, transcreve-se seguidamente o artigo “João Marcos: Decano dos Poetas Limianos”, da autoria de Carlos Gomes, publicado em 2004, escassos meses antes de falecer, na revista “O Anunciador das Feiras Novas”, nº. 21, publicação anual de informação, cultura, turismo e artes limianas que se edita em Ponte de Lima.
A imagem mostra o escritor João Marcos (à esquerda) e Carlos Gomes
JOÃO MARCOS: DECANO DOS POETAS LIMIANOS
“Não é em vão que se nasce em terras limianas, glorificadas pelos nossos maiores poetas como Diogo Bernardes, Frei Agostinho da Cruz e António Feijó. Ponte de Lima, coração desta região encantada onde os montes de Parnaso envolvem o mítico Letes, tem o privilégio de poder contar com muitos desses poetas entre os seus filhos mais extremosos. João Marcos, justamente considerado o decano dos escritores da Ribeira Lima, é natural de Rebordões – Santa Maria e nunca esqueceu a terra que lhe serviu de berço, mesmo quando o exílio o forçou a partir para terras distantes” – foi com estas palavras que o autor deste artigo começou por prefaciar o livro “João Marcos – 50 anos de vida literária” que transcreve a conferência levada a efeito por Cláudio Lima, em 1997, nas instalações da Casa do Concelho de Ponte de Lima, em Lisboa. Com efeito, tratou-se de uma homenagem justíssima que conterrâneos e amigos resolveram prestar-lhe, revelando-lhe a admiração que sentem pela sua pessoa e pelo seu trabalho nomeadamente como escritor e poeta e ainda um tributo pelo que tem feito no sentido do engrandecimento de Ponte de Lima. E, por ser merecida, também a Câmara Municipal de Ponte de Lima decidiu atribuir-lhe a medalha de mérito cultural, gesto louvável porque teve a virtude de lembrar um dos seus filhos mais ilustres.
Não pretendemos com o presente trabalho proceder a uma análise exaustiva da obra literária de João Marcos nem tão pouco seguir o percurso da sua vida – Cláudio Lima fê-lo melhor do que ninguém, podendo com toda a justiça ser considerado o seu biógrafo. Apenas procuramos render a nossa humilde e sincera homenagem a um dos mais ilustres filhos da terra limiana de quem temos recebido inúmeras manifestações de amizade de que muito nos orgulhamos.
João Marcos não é apenas um poeta limiano. Ele é sobretudo um homem solidário que exprime nos seus versos uma preocupação com o sofrimento humano e revela um compromisso permanente com um ideal de paz e harmonia entre os homens e, simultaneamente, entre o Homem e o Universo. Como disse Cláudio Lima na conferência que proferiu em sua homenagem, “... a par das preocupações sociais (por vezes no seio delas), a poesia de João Marcos patenteia sempre uma inquietação metafísica, uma busca e aprofundamento da natureza do ser, uma incursão porfiada às fronteiras-limite do mistério”.
João Marcos Gonçalves Ribeiro de seu nome completo, o nosso ilustre conterrâneo nasceu na freguesia de Rebordões - Santa Maria, no concelho de Ponte de Lima, em 25 de Abril de 1917, tendo portanto já ultrapassado a provecta e respeitável idade de oitenta e sete anos. Como curiosidade, refira-se que o dia do seu nascimento é no calendário litúrgico dedicado a S. Marcos, facto que muito provavelmente determinou a escolha do seu nome, tanto mais que descende, pelo lado materno, de uma família influente e tradicionalmente monárquica oriunda de Vila Franca de Xira, donde se conclui também rigorosamente observadora dos costumes católicos. Mas esse é também o dia em que, sessenta e um anos após a data do seu nascimento, veio a ocorrer em Portugal um golpe militar que se transformou numa revolução que se prometia libertadora para o povo português e que, por um feliz acaso, ficou conhecida por “Revolução dos Cravos”, facto esse que também marcou um homem que, já em discordância com o regime do Estado Novo, embarca para o Brasil em 5 de Agosto de 1939 de onde só regressa oito anos depois. Aliás, a comprová-lo, foi precisamente o nome “Revolução dos Cravos” a designação escolhida que serviu de título a um poema que publicou no seu livro “Manhãs de Abril” e do qual extraímos a seguinte passagem:
1º acto: Quinta-feira central
de um ano como tantos mais.
Do meu dia natal
mais um beijo de outros natais.
Festa a ser resumida
num bolo de bastantes velas,
família reunida
em manifestações singelas
- mais um vinte e cinco de Abril
soprado na noite vil
Pese embora as influências sobre si exercidas pelas leituras de Rosseau, Proudhon e mais tarde Sartre e ainda o seu posicionamento político adverso à ditadura, João Marcos manteve sempre um elevado portuguesismo que o impeliu a regressar a Portugal. Como Cláudio Lima referiu, “se Ferreira de Castro, nos seringais amazónicos, sofria da lonjura do seu Caima debruado de choupos; se Miguel Torga, nos capinzais mineiros, obsessivamente lançava o pensamento ao seu Douro coleante e impetuoso, também João Marcos, nas poluídas avenidas do Rio ou de S. Paulo, suspirava pelas edénicas belezas do seu Lima”. Aliás, sendo nós conhecedores da sua opinião, entre outros aspectos, relativamente à situação em que ilegitimamente Olivença se encontra sob ocupação de Espanha e os direitos que a esse respeito assistem ao nosso país, estamos em condições de reconhecer o seu patriotismo. Ao prefaciar o seu livro “A Minha Alma Brasileira”, afirma a Drª Manuela Rodrigues tratar-se de “um português, minhoto da mais preclara cepa, com as suas raízes profundas nesse canto do país onde os celtas e os visigodos plantaram corações e almas fortes, de antes quebrar que torcer. Tão fortes que são capazes de partir, criar raízes e voltar, mantendo a portugalidade mais profunda, sem contudo deixarem de absorver de passagem o que de melhor as culturas locais lhes apresentam“.
Colaborador assíduo da revista “O Anunciador das Feiras Novas” e de numerosas publicações de índole cultural e regional, o escritor João Marcos possui uma obra literária assinalável repartida pela poesia, o conto literário, a ficção, o teatro e a investigação histórica. “Polifonia Singela” é o título do seu primeiro livro que publica em 1946, ainda no Brasil, editado pela Norte Editora, do Rio de Janeiro. Trata-se de um livro de poemas que, conforme o Jornal de S. Paulo referiu, são “de leitura agradável e sugestiva, com poesias realmente encantadoras, conseguirá este livro prender a atenção do leitor, pois tem sensibilidade, denota largueza de vistas e expressão justa”. É precisamente de “Polifonia Singela” que repingamos o seguinte quinteto:
Numa terra longe, à procura da sorte,
Vai um peregrino, talvez a pensar
No destino incerto, no inseguro norte:
Procurando a vida, pode achar a morte...
Mas a vida importa, tem de a procurar!
Desde então, a produção literária do escritor João Marcos não mais parou. Publicou em poesia “Um Novo Mundo Perfeito” em 1953, “Colonizados” em 1975, “Ode Terrestre – Separata do “Cardeal Saraiva” em 1986, “Manhãs de Abril” em 1994, “O Ser e o Nada” em 1996, “Meu Verde Minho” em 1997, “Epopeia do Homem Cósmico” em 2000, “Balaio de Camarinhas” em 2001, “Versos do Fim do Dia” em 2002 e “Epopeia do Homem Lusíada” em 2003. Na área da ficção estreou-se em 1987 com o romance “Entre o Amor e a Loucura”, em 1992 publicou “Uma Terra que se chamou Geridel”, em 1993 “Nas Ourelas do Fogo” e, em 1999, o romance “Estrasburgo 1964”. No domínio da investigação histórica publicou em 1993 “O Conde da Barca na política europeia do pré-liberalismo” e em 1995 “O Cardeal Saraiva – Evocação de Frei Francisco de S. Luís” que constitui a edição da conferência que entretanto realizou na Casa do Concelho de Ponte de Lima. Recentemente publicou “A minha Alma Brasileira” que constitui um livro de contos e narrativas que transmite o seu sentir e experiências vividas durante o seu exílio no Brasil, tendo ainda participado com um conto da sua autoria numa colectânea a que foi dado o título “Contos do Minho” e que reuniu duas dezenas de contistas minhotos. Além dos trabalhos publicados, João Marcos possui ainda numerosos inéditos a aguardar publicação, trabalhos de grande valor a aguardar o interesse de alguma editora ou, quem sabe, de qualquer outro organismo cuja actividade esteja orientada para finalidades culturais.
Ainda segundo Cláudio Lima, “em toda a sua obra poética explora João Marcos esse inesgotável veio da nossa tradição lírica moderna. Com maior ou menor ímpeto de militância a favor dos desfavorecidos da sorte e excluídos da sociedade; com diversificados modelos de composição e registos de inspiração, o ideal romântico da poesia como instrumento de denúncia e arma de combate (Victor Hugo, Antero de Quental, etc.) sempre tem apaixonado e mobilizado o vate limiano”. E é precisamente do seu livro “Epopeia do Homem Lusíada” que extraímos o seguinte poema:
Sou português e vou do Algarve ao Minho
sou marinheiro e vou até Timor
de leste a oeste abrindo o meu caminho
levando a língua, a fé e o meu amor.
Eu sou Vasco da Gama, sou Cabral,
Fernão de Magalhães... sou lusitano
e levo o coração de Portugal
além de toda a terra e mar oceano.
Eu levo a minha língua, a minha lei,
as normas e o sentir do meu viver;
além, em toda a parte, espalharei
as eternas raízes do meu ser.
Sem medo, para além do bem, do mal,
abrir um novo mundo é o meu destino,
levar o Império, a Fé, levar meu Hino,
os perigos vencer, sou Portugal.
Com efeito, parafraseando Cláudio Lima, a poesia de João Marcos constitui “um permanente convite à elevação, ao compromisso com a vida e os valores que a substantivam, à prática de um exercício reflectivo sobre o Homem e o Universo. Mesmo quando parece deter-se em coisas miúdas e prosaicas, mesmo quando a sua musa azougada o seduz aos bosques de um erotismo faunesco ou o tenta enredar nos liames de um telurismo primário e convencional – sempre o Poeta se esquiva ao conceito gasto, ao efeito fácil, e imprime o seu selo de autenticidade, fazendo do acto de escrever não um mero auto-enamoramento narcisista, mas o reflexo nítido do que de mais nobre e imperecível deve fundamentar a vida e sublimar a arte”.
Enquanto permaneceu no Brasil, João Marcos foi secretário de Direcção da Companhia de Navegação Aérea, redactor de publicidade científica na sucursal da Companhia Química Rhodia Brasileira e na filial dos Laboratórios Farmacêuticos Glassop. De regresso a Portugal, trabalha como correspondente comercial de uma empresa sediada no Porto, é chefe de correspondência estrangeira da Companhia Colonial de Navegação e, colaboração com a sua espôsa, Drª Agostinha Andrade, licenciada em Farmácia, funda em 1958 a Farmácia “Andrade Ribeiro” que ainda mantém, situada numa das mais movimentadas e bem situadas artérias de Lisboa – a avenida Infante Santo.
Licenciado em Ciências Históricas e Filosóficas, exerceu a carreira docente em diversos estabelecimentos de ensino oficial, leccionando Filosofia, História e Ciências Sociais. O escritor João Marcos é membro da Associação Portuguesa de Escritores, da Associação Portuguesa de Poetas, da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, do Círculo de Cultura Luso-Brasileira e da Sociedade de Língua Portuguesa. Faz ainda parte da Tertúlia Rio de Prata que reúne cerca de quatro dezenas de escritores os quais, todos os anos, vêm publicando um simpático livrinho de poemas com o título “Florilégio de Natal”. A convite da Casa do Concelho de Ponte de Lima, Cláudio Lima proferiu nas suas instalações em Lisboa uma palestra evocativa da passagem dos cinquenta anos de vida literária do escritor, iniciativa que decorreu no dia 25 de Janeiro de 1997 e contou com a presença de apreciável número de conterrâneos.
Com a sua primeira obra publicada há quase sessenta anos, João Marcos, em relação a quem curiosamente se desconhece qualquer pseudónimo literário, é actualmente o decano dos poetas limianos e muito provavelmente de todos os escritores portugueses. A sua obra literária é cada vez mais reconhecida e divulgada. Pena é que, apesar do ritmo a que tem vindo a editar os seus trabalhos literários, muitos dos seus inéditos continuem à espera de uma oportunidade de publicação. O talento e o valor de uma obra tem, frequentes vezes, a particularidade de levar um certo tempo a ser devidamente reconhecida e avaliada pelos espíritos menos iluminados.
BIBLIOGRAFIA:
LIMA, Cláudio. João Marcos – 50 anos de vida literária. O Anunciador das Feiras Novas. Ponte de Lima, 1996
LIMA, Cláudio. João Marcos – 50 anos de vida literária. Casa do Concelho de Ponte de Lima, Lisboa, 1997
Faz hoje precisamente 56 anos, o Grupo Anaquiños da Terra fazia a sua primeira aparição pública na Xuventude da Galiza – Centro Galego de Lisboa. Inicialmente constituído apenas como grupo coral, veio posteriormente a incorporar a dança tradicional do povo galego.
A sua denominação, “Anaquiños da Terra”, significa literalmente “pedaciños da nosa terra”, o que nos remete directamente para a preservação e divulgação dos usos e costumes das gentes da Galiza. De resto, como se indica no seu site oficial, “Os Anaquiños da Terra acaban por ser o principal vehículo de expresión da tradición galega”.
Conforme a sua própria descrição, “os cantares son esencialmente femininos, os instrumentos, entre os cuais destacan as pandeiretas, as cunchas, como as utilizadas pólos peregrinos a Santiago de Compostela, as piñas, o tambor, o bombo, o pandeiro, a zanfona (instrumento de cordas medieval) e a gaita, entre outros.
Na danza tradicional galega, onde destaca especialmente a muiñeira, a xota e a pandeirada, características dos bailes tradicionais, tamén existén danzas asociadas a eventos específicos, como son: a danza de Maio, a danza dos paos ou a danza da regueifa, típica de bodas. Existe tamén otyro tipo de danza mais recente produto de interaccións com outras tradicións, normalmente traídas por emigrantes galegos, como son: a polca, o valse galego ou a mazurca.
Os traxes dos “Anaquiños da Terra” son típicos de Galícia, de varias rexións e com diversas aplicacións”.
Ao Grupo Anaquiños da Terra – e à Xuventude da Galiza – endereça o BLOGUE DO MINHO os parabéns!
O Grupo Anaquiños da Terra é o lídimo representante do folclore galego em Lisboa
As comunidades galega e minhota radicadas na região de Lisboa devem reforçar os seus laços de amizade e colaboração