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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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PESCADORES DE CAMINHA FAZIAM BOA PESCARIA

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A imagem mostra um pescador em Caminha, na foz do rio Lima, levando a sua pescaria. A foto encontra-se publicada no livro “Portugal e o Mar”, de Frederic P. Marjay, editado pelo autor em 1957 com o patrocínio da Junta Nacional da Marinha Mercante e dos Organismos Corporativos da Pesca.

EXTRACÇÃO DO OURO VAI DESTRUIR COVAS, EM VILA NOVA DE CERVEIRA

A empresa canadiana Avrupa Minerals Ltd anunciou recentemente no seu site oficial ter encontrado nas antigas minas de Covas, em Vila Nova de Cerveira, ouro e tungsténio, vulgo volfrâmio, em quantidade “significativa” para ser explorada. As prospecções decorrem numa área de cerca de 900 metros de comprimento por 100 metros de largura, tendo-se registado a presença de ouro em quase todas as amostras recolhidas. O melhor resultado obtido representou 10,2 gramas de ouro por tonelada de terra e rocha removida.

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Com efeito, o ouro encontra-se disperso no subsolo em ínfimas proporções pelo que é necessário proceder à remoção de grandes quantidades de solo para se poder obter uma pequena quantidade de metal precioso. Mais ainda, a sua extracção é efectuada com recurso a lixiviantes com cianeto, mercúrio e metais pesados de elevado teor tóxico e altamente prejudiciais para a saúde e o meio ambiente.

Com a extracção de ouro, na freguesia de Covas, os recursos naturais ficarão contaminados e os solos agrícolas destruídos, a paisagem não será mais a mesma e a população perderá a sua qualidade de vida a troco de uma miragem cujo brilho do ouro jamais enxergarão. Há muitas décadas, também na vizinha Freguesia da Cabração, em Ponte de Lima, se extraiu ouro e estanho sem que a população alguma vez tivésse recebido qualquer benefício da exploração. A própria energia eléctrica só chegou em 1975, muito tempo decorrido desde a suspensão da actividade mineira naquela localidade.

PAPAS DE SARRABULHO ESTÃO NA ORIGEM DO ARROZ DE SARRABULHO À MODA DE PONTE DE LIMA

Arroz de Sarrabulho com Rojões2

Até ao descobrimento da América por Cristóvão Colombo, o milho era completamente desconhecido dos ocidentais. Foi a partir de então que a sua cultura se difundiu entre nós, implantando-se predominantemente no noroeste peninsular.

Beneficiando das excelentes condições climáticas e da abundância de água na nossa região, o milho depressa entrou nos hábitos alimentares das nossas gentes a partir do século XVI e passou a fazer parte da sua dieta, a tal ponto que, entre naturais de outras regiões, o minhoto era usualmente apelidado de “pica-milho”.

Por seu turno, apesar de ter sido introduzido na Península Ibérica pelos muçulmanos e os portugueses terem tido contacto com esta cultura no Japão de onde era originária, desde meados do século XVI, só a partir do século XVIII surge documentação a seu respeito registando o seu cultivo nos campos alagadiços do Ribatejo.

O clima e a orografia impedem a produção de arroz na nossa região pelo que o seu cultivo nos rios Mondego, Tejo, Sorraia, Sado e Mira. Por conseguinte, a sua introdução nos hábitos alimentares dos minhotos é relativamente recente, tendo dado origem a algumas maravilhas da nossa gastronomia como o arroz de sarrabulho à moda de Ponte de Lima, surgido em meados do século XIX pelas mãos da cozinheira Clara Penha cujo testemunho passou a Belozinda Varela.

Sem demérito para aquele maravilhoso prato da gastronomia ponte-limense, a qual aliás, já conta com uma Confraria gastronómica para a promover, as papas de sarrabulho fazem parte do património cultural da nossa região, incluindo o Concelho de Ponte de Lima. Trata-se de uma especialidade da gastronomia minhota que merece ser divulgada!

PELAS ENCRUZILHADAS DE PONTE DE LIMA

A revista “Notícias Magazine”, Suplemento do Jornal de Notícias, publicou no seu nº. 405, de 27 de Fevereiro de 2000, uma extensa reportagem dedicada a “Histórias do Sobrenatural”, fazendo referência a diversos casos ocorridos um pouco de norte a sul do país. Entre esses casos, conta-se uma visita à Freguesia da Correlhã, em Ponte de Lima, onde entrevistou o sr. Artur Lopes, pessoa bastante conhecida no meio local e ligada ao folclore da região. Decorridos mais de onze anos, a reportagem mantém o seu interesse e oportunidade no dia que hoje se celebra, razão pela qual a seguir se reproduz a parte respeitante a Ponte de Lima.

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Gamela dos medos

A reportagem muda-se para Ponte de Lima. O senhor Artur Lopes, editor-livreiro naquela cidade, conduz-nos a mato Pequeno, freguesia da Correlhã. “Era dali. Grunhia. Queria que a seguissem. Depois metia na direcção da Veiga. A cor atirava para o branco… Dizia-se que era o Diabo”. O senhor Lopes explica in situa aparição da coisa: “Porca gorda, assim como surgia, se evaporava no ar. Ela e os bocadinhos que a acompanhavam sempre…”

Gamela de medos, a Corrilhã! O senhor Martins, coveiro, faleceu há uns anos, no lugar de Silveiro. Morreu, mas aqui ninguém lhe esquece o dom perturbador; ela via a procissão dos defuntos!

Conforme o próprio contava, a visão era repentina e nítida: via o caixão, o padre, as velas. Distinguia, um a um, todos os acompanhantes. E ficava a saber quem na freguesia seria o próximo a morrer. O eleito era sempre a primeira pessoa que seguisse atrás do caixão. O senhor Martins nunca lhe revelava o nome. Só dizia: “A seguir é de tal sítio…” E acertava!

Outro caso impressionou e manteve em religioso respeito, as gentes da Correlhã. Em casa de um abastado lavrador, pouco depois de este ter falecido, aconteceram coisas do outro mundo: choviam pedras no telhado, a empregada levava bofetadas no estábulo, quando ía ordenhar a vaca , a roupa, nos coradouros e nos gavetões, aparecia com cortes em forma de cruz.

Não se falava noutra coisa. Segundo o povo, era uma Alma desencaminhada a chamar a atenção: a Alma do agricultor, quase de certeza. Boa pessoa em vida, disso ninguém duvidava. Mas, sabe-se lá, podia ter deixado promessa por cumprir, dizia-se. E toda a gente reclamava a opinião e os serviços de padre Dalmo. Este é que não se mostrava disponível.

Quando se soube que a sopa espumava na panela barrelas de sabão, como nas celhas, o padre finalmente decidiu-se. Foi assistir à feitura do caldo. Manteve-se sempre na cozinha, inspeccionou cada ingrediente. Espiolhou as batatas, os legumes, testou o sal e a água, cheirou a panela. Tudo normal.

Caldo feito, quis o padre ser o primeiro a provar. Mal pôs a colher à boca levou bofetada. Caiu por terra. Aturdido, aconselhou a intervenção de um padre exorcista…

Para melhor apurarmos estas ocorrências, e, eventualmente, desfazermos equívocos, chegámos à fala com dois descendentes da casa. Um recusou falar. O outro sorriu, coçou a cabeça… “Não me lembro de nada, era miúdo. Quem contava isto tudo era a minha mãe. Infelizmente, faleceu a semana passada”.

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O falecido coveiro, senhor Martins, tinha um dom perturbador

SOBRE A PROCISSÃO DOS DEFUNTOS, ELEMENTO DO FOLCLORE NACIONAL

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E porque o dia dois do corrente é Dia dos Mortos, aqui vai um tesouro da mais profunda e eventualmente arcaizante tradição popular portuguesa:

Procissão dos defuntos

Em Ponte de Lima, há «procissão de defuntos». Nestas procissões vai sempre «um vivo», que é a pessoa que primeiro tem de ser sentenciada à morte. O espectador da procissão tem de voltar-lhe as costas, quando ela passar diante dele.

Uma rapariga que tinha de ir regar um campo muito cedo, passou por diante da Igreja e vendo que se estava à missa, deu parabéns à sua fortuna e entrou, indo ajoelhar entre as outras mulheres. Estas começaram a olhar umas para as outras e a rosnar «aqui cheira a fôlego vivo»! Uma das mulheres levantou-se, aproximou-se da rapariga e disse-lhe: «O que te valeu foi vires ajoelhar na campa de tua madrinha, que sou eu. Vai-te e não olhes para trás!» A rapariga saiu, mas não resistiu à curiosidade e olhou para trás. Viu muitas fogueiras a arder. Eram as almas das pessoas, porque se não tinham dito missas (Guimarães)

Uma mulher indo de noite para certo sítio encontrou uma procissão de defuntos que vinha na sua direcção. Escondeu-se logo na croca (oco) de um carvalho. A procissão passou por diante dela e a mulher viu no préstito um filho seu que morrera anjinho, e que ia «com a tocha apagada». E o filho passando por diante da mãe, disse: «Arreda-te, carvalho croquento, que por causa das tuas lágrimas é que eu vou com a luz apagada.» (Louredo).

As almas dos mortos andam pela rua à meia-noite em procissão com luzes acesas. Se alguém por desgraça vai ter com aquela procissão e lhe pede lume, morre infalivelmente. (Lavadores - São Cristóvão de Mafamude).

O abade de Mondanedo de Lugo estava uma vez sentado à beira de uma igreja e viu vir uma procissão de defuntos, todos vestidos de branco, com um esquife diante de si e alumiando com os ossos acesos (sic). (Lugo - Galiza).

Uma pessoa antes de morrer já se vê sete anos antes na «procissão dos defuntos». A procissão dos defuntos faz-se todos os dias às trindades; ninguém a vê senão as pessoas que têm uma palavra de menos no baptismo (sic). E estas são as que sabem as pessoas que hão-de morrer, porque as vêem na procissão. Por isso se diz, quando uma pessoa anda doente: «ah! Fulana (a tal que tem de menos a palavra no baptismo [?]) já há muito tempo que a vi na procissão dos defuntos. (Valença).

O Sr. Leite de Vasconcelos no seu recente e interessante livro nada nos diz sobre tal assunto (vide Tradições Populares de Portugal, pág. 301-3) e o Sr. Adolfo Coelho apenas muito vagamente se refere às procissões de defuntos, não mencionando lenda alguma a tal respeito (vide Revista de Etnologia e de Glotologia, fasc. IV, pág. 163). Para estas procissões, veja-se Afaniev: ob. cit., III, 244 e seg.; e sobretudo Grimm: Deutsche Mythologie, II, 765 e seg.. A «procissão dos defuntos» é uma variante da lenda do Wütendes Heer, o Feralis Exercitus de Tácito, a Arma Coelestia de Plínio. É esta a variante cuja acção se passa na Terra; enquanto noutras versões é no céu ou nas nuvens que tem lugar.

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Desta segunda variedade importantíssima temos também uma lenda portuguesa moderna e várias superstições que a ela se referem. A superstição é antiga na Península, onde o Wütendes Heer tinha o nome de Exercitum Antiquum (Exército Antigo). Cf. Grimm: Deutsche Mythologie, II, 785. Cf. ainda Afanasiev: ob. cit., I, 725.

In Contribuições Para Uma Mitologia Popular Portuguesa e Outros Escritos Etnográficos, de Consiglieri Pedroso, págs. 281-3, Publicações Dom Quixote.

O equivalente galego da Procissão de Defuntos é a Santa Compaña.

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Fonte: http://gladio.blogspot.com/

CASA DO MINHO DO RIO DE JANEIRO: HÁ 58 ANOS ALOJOU A CASA DAS BEIRAS

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A Casa das Beiras, no Rio de Janeiro, foi fundada em 1953. Dois anos decorridos, adquiriu um imóvel situado na Rua Barão de Ubá para aí construir a sua sede social, a qual foi inaugurada em 1957. Durante esse tempo, a Casa das Beiras funcionou nas instalações da Casa do Minho, situadas na Rua Conselheiro Josino, no Rio de Janeiro.

Em 28 de Abril de 1957, a Casa das Beiras prestou à Casa do Minho a sua “homenagem de gratidão pelas atenções dispensadas à Casa das Beiras durante todo o tempo que ocupámos as instalações da sua Sede”, conforme se pode ler no primeiro número do respectivo “Boletim Associativo”, convidando-a especialmente para visitar a Sede da Casa das Beiras onde lhe foi oferecido um Porto de Honra.

A imagem que junto se publica apresenta a Direcção da Casa do Minho, do Rio de Janeiro, em 1957, altura em que foi inaugurada a Sede da Casa das Beiras. Em baixo, o número 1 do “Boletim Associativo” da Casa das Beiras.

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Bolinhos, bolinhós, / Para mim e para vós / E para quem está debaixo da cruz / Truz truz

Desde sempre o Homem acreditou na possibilidade dos mortos intercederem na acção criadora dos deuses e no próprio ciclo da natureza, contribuindo inclusivamente para o renascimento dos vegetais e das culturas que os demónios e maus espíritos do Inverno fizeram desaparecer. Esta crença está na origem de uma infinidade de práticas relacionadas com o culto dos mortos que regra geral se iniciam em Novembro e prolongam-se até à Serração-da-Velha, atravessando as cerimónias solsticiais ou "saturnais" e os festejos carnavalescos.

Naturalmente, os ritos variam consoante as celebrações em causa mas conservam entre si uma finalidade comum que é o de assegurar que o ciclo da vida e da morte não se interrompa, possibilitando por conseguinte que ao Inverno suceda impreterivelmente a primavera. De acordo com as investigações feitas no domínio da arqueologia e da antropologia, acredita-se que as práticas do culto dos mortos tiveram o seu começo na fase de transição da pedra lascada para a pedra polida, sendo disso testemunho os inúmeros monumentos funerários como os dólmenes ou antas, inscrições votivas e outros achados. O folclore trouxe até nós inúmeros vestígios desse modo de pensar e dos cultos praticados pelos nossos ancestrais, devendo por esse modo constituir uma importante fonte de estudo.

Pão por Deus! - pedem as crianças na região saloia, percorrendo as casas em alegre peditório. A ladainha varia contudo de uma região para outra. Por exemplo, para os lados de Braga é costume dizer-se do seguinte modo: "Bolinhos, bolinhós, / Para mim e para vós / E para quem está debaixo da cruz / Truz truz". Na região de Ourém, o rapazio vai pelos casais e suplica: "Ti Maria: dai-me um bolinho em louvor de todos os santinhos!". E, se a dona da casa é pessoa dada à brincadeira, ao assomar à soleira da porta responde prontamente: "Dou sim... com uma tranca no focinho!"

Por esta ocasião, as pessoas cumprem o ritual da visita aos cemitérios e cuidam das sepulturas dos seus entes queridos. Mas, também em casa é costume em muitas localidades, após a ceia, deixar até ao dia seguinte a mesa composta de iguarias para que os defuntos possam banquetear-se. Em Barqueiros, no concelho de Mesão Frio, na noite de Todos-os-Santos coloca-se uma mesa com castanhas para os familiares falecidos, as quais ninguém tocará porque ficam "babadas dos defuntos". Da mesma forma que o azeite que alumia os defuntos jamais alumiará os vivos. Entre alguns povos do leste europeu conserva-se ainda a tradição de organizar o festim no próprio cemitério a fim de que todos em conjunto - mortos e vivos - possam confraternizar !

A partir desta época do ano, as noites das aldeias são povoadas por criaturas extraordinárias que surgem nas encruzilhadas e amedrontam os noctívagos. Uivam os lobos nas penedias enquanto as bruxas se reúnem debaixo das pontes. A prudência aconselha que ao gado se prendam pequenas saquinhas de amuletos que o resguardem do "mau-olhado". O serão é passado à lareira ouvindo histórias que nos embalam num mundo de sonhos e fantasia que nos alimenta a imaginação. E, quando finalmente é chegada a hora de dormir, faz-se o sinal-da-cruz para que o demónio não nos apoquente e a manhã do dia seguinte volte a sorrir radiante a anunciar uma vida nova.

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