Alexandrino de Sousa era um jovem estudante, natural de S. Pedro de Arcos, que frequentava a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Pertencia á Federação dos Estudantes Marxistas-Leninistas (FE M-L), organização de que também fez parte Durão Barroso e era dirigida por Danilo Matos, genro do escritor José Saramago. Tratava-se da estrutura juvenil do Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado (MRPP).
Na noite de 9 de Outubro de 1975, precisamente no período em que as tensões políticas que levaram ao 25 de Novembro se agudizavam, Alexandrino de Sousa integrava uma brigada que procedia à colagem de cartazes na Praça do Comércio, em Lisboa, quando se deparou com outra, numericamente muito superior, identificada com a União Democrática e Popular (UDP), uma das organizações que se encontra na génese do Bloco de Esquerda.
Os confrontos que então se verificavam eram de uma violência desmedida, com recurso a barras de ferro, o que levou à fuga para o rio ou à tentativa de homicídio dos elementos do MRPP – nunca chegou a ficar esclarecido em tribunal por um julgamento demasiado politizado! – de que resultou a morte por afogamento de Alexandrino de Sousa, preso no lodo junto ao cais das Colunas. Garcia Pereira foi um dos advogados que então acompanhou o processo.
O caso ocorrido causou consternação nacional e repulsa pelas práticas sectárias e violentas que caracterizaram a acção de algumas forças políticas nessa época. Por proposta do Grupo Parlamentar do PPD, a Assembleia da República aprovou um voto de pesar, o qual se encontra publicado no Diário da Assembleia Constituinte nº. 62, de 11 de Outubro de 1975.
A foto regista o desfile fúnebre de Martins Soares, na Calçada da Ajuda, ocorrido um ano antes. Tratava-se de um militante do MRPP falecido em consequência de um acidente de viação. Alexandrino de Sousa segue na primeira linha empunhando uma bandeira do seu partido. Na imagem, pode ainda distinguir-se algumas figuras conhecidas como Violante Saramago Matos, filha do escritor José Saramago, transportando a urna e, imediatamente após esta, integrando o grupo de familiares do falecido, Arnaldo Matos, secretário-geral do MRPP. Imediatamente atrás de Alexandrino de Sousa perfila-se o historiador Fernando Rosas (ver foto anterior) e, seguindo pelo passeio do lado esquerdo, integrando o “serviço de ordem” e vestindo um casaco axadrezado, Maria José Morgado.
A foto apresenta o jornaleiro minhoto, de barrete e tamancos de coiro e madeira, segundo uma foto publicada na revista "Ilustração Portugueza" de 1920. Trata-se de um excelente documento de natureza etnográfica que deve ser observado por todos quanto se dedicam à preservação do nosso folclore.
Acaba de sair mais um número do jornal “Novo Panorama”. Trata-se de um novo quinzenário que veio contribuir para a valorização do panorama jornalístico na região do Vale do Lima.
Dirigido por Gil do Lago, este novo título da imprensa limiana procura abranger os concelhos de Viana do Castelo e Ponte de Lima, encontrando-se a sua Redacção sedeada nesta vila, na Rua Agostinho José Taveira, 20.
No próximo dia 30 de Novembro, passam 25 anos sobre a data da realização do “2º Almoço Limiano” que teve lugar em Lisboa, o qual reuniu algumas centenas de pessoas. Teve este evento a particularidade histórica de ter constituído o ponto de partida para a constituição da Casa do Concelho de Ponte de Lima, instituição regionalista que veio a fundar-se escassos dois meses decorridos – em 2 de Fevereiro de 1987 – no 21º Cartório Notarial de Lisboa.
A pretensão da criação de uma associação regionalista que congregasse os limianos radicados na região de Lisboa já havia sido levantada alguns anos antes, no decorrer do “Almoço de Confraternização dos Limianos Residentes em Lisboa”, o qual teve lugar em 30 de Maio de 1982. Era então Presidente da Câmara Municipal de Ponte de Lima o Dr. João Gomes de Abreu de Lima, tendo sido o principal mentor da iniciativa. Porém, tal desejo então não se concretizou, apenas tendo vindo a ganhar forma quase cinco anos depois e após diferentes tentativas infrutíferas de agrupar os limianos noutros moldes associativos.
Os cardápios dos referidos almoços constituem um testemunho documental da realização das iniciativas que então foram levadas a efeito, para além do interesse cultural e artístico que possuem, realçando a qualidade gráfica sobretudo do cardápio referente ao primeiro almoço realizado.
A título de curiosidade, podemos acrescentar que no almoço realizado em 1982 foram servidos, entre outras especialidades da nossa região, o bacalhau à Serra d’Arga e cozido à portuguesa. O 2º Almoço Limiano privilegiou o bacalhau à Ribeira Lima e o arroz de sarrabulho com rojões. A divulgação da nossa cozinha tradicional constituiu sempre uma preocupação da organização destes encontros gastronómicos.
A Arqª Andreia Galvão é a actual Directora do Museu de Arte Popular.
“(…) Resgatámos memórias e buscámos novos caminhos para construir a História deste Museu, pois queremos alicerçar, solidamente, o seu futuro, consolidando um destino, uma vocação.
Procurámos conhecer melhor os actores desta construção; recuámos no Tempo. Hoje, contamos, incondicionalmente, com a participação de todos vós, os novos actores.
Chamámos construtores do MAP aos discípulos de uma identidade nacional de raiz romântica que, cedo ou tarde, foram os actores da afirmação de uma outra identidade já nos primórdios de 1930, dentro de uma modernidade igualmente nacionalista, que, desta feita, metamorfoseada pela batuta da Política do espírito e da assumpção da arte popular, projectou uma imagem desse Portugal.
Nos fundadores da genealogia dos construtores do MAP, os românticos que forjavam uma identidade nacional, encontrámos a génese para a compreensão deste Museu. Nos ideólogos da Política do Espírito reencontrámos a metamorfose dos ideais nacionalistas e da sua produção.
Esperam-nos novos desafios… Considerado hoje como um museu documento, o estudo da colecção, nunca antes investigada é, porventura, o maior desses desafios. Uma colecção que, mais do que informar sobre a produção artística do povo, permite ilustrar não apenas uma tradição de estudos e coleccionismo que remonta aos finais do século XIX, mas também a instrumentalização da arte popular.
Queremos ocupar o lugar que nos pertence e erguer este espaço, este Museu, enquanto lugar de experimentação e fruição das diferentes expressões da cultura popular portuguesas, hoje. Queremos também romper com velhas hierarquias culturais entre centros e periferias. Pretendemos afirmar este museu enquanto centro de investigação e enquanto lugar de atractividade enfrentando os desafios da nossa sociedade actual como os da nova museologia para o século XXI.”
A Directora do Museu de Arte Popular
Arqª Andreia Galvão
in folheto da exposição “Os Construtores do MAP. Museu em Construção"
A imagem mostra um aspecto da entrada do Museu de Arte Popular.
O Povo Português é o verdadeiro autor do Museu de Arte Popular.
A imagem mostra um pescador em Caminha, na foz do rio Lima, levando a sua pescaria. A foto encontra-se publicada no livro “Portugal e o Mar”, de Frederic P. Marjay, editado pelo autor em 1957 com o patrocínio da Junta Nacional da Marinha Mercante e dos Organismos Corporativos da Pesca.
A empresa canadiana Avrupa Minerals Ltd anunciou recentemente no seu site oficial ter encontrado nas antigas minas de Covas, em Vila Nova de Cerveira, ouro e tungsténio, vulgo volfrâmio, em quantidade “significativa” para ser explorada. As prospecções decorrem numa área de cerca de 900 metros de comprimento por 100 metros de largura, tendo-se registado a presença de ouro em quase todas as amostras recolhidas. O melhor resultado obtido representou 10,2 gramas de ouro por tonelada de terra e rocha removida.
Com efeito, o ouro encontra-se disperso no subsolo em ínfimas proporções pelo que é necessário proceder à remoção de grandes quantidades de solo para se poder obter uma pequena quantidade de metal precioso. Mais ainda, a sua extracção é efectuada com recurso a lixiviantes com cianeto, mercúrio e metais pesados de elevado teor tóxico e altamente prejudiciais para a saúde e o meio ambiente.
Com a extracção de ouro, na freguesia de Covas, os recursos naturais ficarão contaminados e os solos agrícolas destruídos, a paisagem não será mais a mesma e a população perderá a sua qualidade de vida a troco de uma miragem cujo brilho do ouro jamais enxergarão. Há muitas décadas, também na vizinha Freguesia da Cabração, em Ponte de Lima, se extraiu ouro e estanho sem que a população alguma vez tivésse recebido qualquer benefício da exploração. A própria energia eléctrica só chegou em 1975, muito tempo decorrido desde a suspensão da actividade mineira naquela localidade.
Até ao descobrimento da América por Cristóvão Colombo, o milho era completamente desconhecido dos ocidentais. Foi a partir de então que a sua cultura se difundiu entre nós, implantando-se predominantemente no noroeste peninsular.
Beneficiando das excelentes condições climáticas e da abundância de água na nossa região, o milho depressa entrou nos hábitos alimentares das nossas gentes a partir do século XVI e passou a fazer parte da sua dieta, a tal ponto que, entre naturais de outras regiões, o minhoto era usualmente apelidado de “pica-milho”.
Por seu turno, apesar de ter sido introduzido na Península Ibérica pelos muçulmanos e os portugueses terem tido contacto com esta cultura no Japão de onde era originária, desde meados do século XVI, só a partir do século XVIII surge documentação a seu respeito registando o seu cultivo nos campos alagadiços do Ribatejo.
O clima e a orografia impedem a produção de arroz na nossa região pelo que o seu cultivo nos rios Mondego, Tejo, Sorraia, Sado e Mira. Por conseguinte, a sua introdução nos hábitos alimentares dos minhotos é relativamente recente, tendo dado origem a algumas maravilhas da nossa gastronomia como o arroz de sarrabulho à moda de Ponte de Lima, surgido em meados do século XIX pelas mãos da cozinheira Clara Penha cujo testemunho passou a Belozinda Varela.
Sem demérito para aquele maravilhoso prato da gastronomia ponte-limense, a qual aliás, já conta com uma Confraria gastronómica para a promover, as papas de sarrabulho fazem parte do património cultural da nossa região, incluindo o Concelho de Ponte de Lima. Trata-se de uma especialidade da gastronomia minhota que merece ser divulgada!
A revista “Notícias Magazine”, Suplemento do Jornal de Notícias, publicou no seu nº. 405, de 27 de Fevereiro de 2000, uma extensa reportagem dedicada a “Histórias do Sobrenatural”, fazendo referência a diversos casos ocorridos um pouco de norte a sul do país. Entre esses casos, conta-se uma visita à Freguesia da Correlhã, em Ponte de Lima, onde entrevistou o sr. Artur Lopes, pessoa bastante conhecida no meio local e ligada ao folclore da região. Decorridos mais de onze anos, a reportagem mantém o seu interesse e oportunidade no dia que hoje se celebra, razão pela qual a seguir se reproduz a parte respeitante a Ponte de Lima.
“Gamela dos medos
A reportagem muda-se para Ponte de Lima. O senhor Artur Lopes, editor-livreiro naquela cidade, conduz-nos a mato Pequeno, freguesia da Correlhã. “Era dali. Grunhia. Queria que a seguissem. Depois metia na direcção da Veiga. A cor atirava para o branco… Dizia-se que era o Diabo”. O senhor Lopes explica in situa aparição da coisa: “Porca gorda, assim como surgia, se evaporava no ar. Ela e os bocadinhos que a acompanhavam sempre…”
Gamela de medos, a Corrilhã! O senhor Martins, coveiro, faleceu há uns anos, no lugar de Silveiro. Morreu, mas aqui ninguém lhe esquece o dom perturbador; ela via a procissão dos defuntos!
Conforme o próprio contava, a visão era repentina e nítida: via o caixão, o padre, as velas. Distinguia, um a um, todos os acompanhantes. E ficava a saber quem na freguesia seria o próximo a morrer. O eleito era sempre a primeira pessoa que seguisse atrás do caixão. O senhor Martins nunca lhe revelava o nome. Só dizia: “A seguir é de tal sítio…” E acertava!
Outro caso impressionou e manteve em religioso respeito, as gentes da Correlhã. Em casa de um abastado lavrador, pouco depois de este ter falecido, aconteceram coisas do outro mundo: choviam pedras no telhado, a empregada levava bofetadas no estábulo, quando ía ordenhar a vaca , a roupa, nos coradouros e nos gavetões, aparecia com cortes em forma de cruz.
Não se falava noutra coisa. Segundo o povo, era uma Alma desencaminhada a chamar a atenção: a Alma do agricultor, quase de certeza. Boa pessoa em vida, disso ninguém duvidava. Mas, sabe-se lá, podia ter deixado promessa por cumprir, dizia-se. E toda a gente reclamava a opinião e os serviços de padre Dalmo. Este é que não se mostrava disponível.
Quando se soube que a sopa espumava na panela barrelas de sabão, como nas celhas, o padre finalmente decidiu-se. Foi assistir à feitura do caldo. Manteve-se sempre na cozinha, inspeccionou cada ingrediente. Espiolhou as batatas, os legumes, testou o sal e a água, cheirou a panela. Tudo normal.
Caldo feito, quis o padre ser o primeiro a provar. Mal pôs a colher à boca levou bofetada. Caiu por terra. Aturdido, aconselhou a intervenção de um padre exorcista…
Para melhor apurarmos estas ocorrências, e, eventualmente, desfazermos equívocos, chegámos à fala com dois descendentes da casa. Um recusou falar. O outro sorriu, coçou a cabeça… “Não me lembro de nada, era miúdo. Quem contava isto tudo era a minha mãe. Infelizmente, faleceu a semana passada”.
O falecido coveiro, senhor Martins, tinha um dom perturbador
E porque o dia dois do corrente é Dia dos Mortos, aqui vai um tesouro da mais profunda e eventualmente arcaizante tradição popular portuguesa:
Procissão dos defuntos
Em Ponte de Lima, há «procissão de defuntos». Nestas procissões vai sempre «um vivo», que é a pessoa que primeiro tem de ser sentenciada à morte. O espectador da procissão tem de voltar-lhe as costas, quando ela passar diante dele.
Uma rapariga que tinha de ir regar um campo muito cedo, passou por diante da Igreja e vendo que se estava à missa, deu parabéns à sua fortuna e entrou, indo ajoelhar entre as outras mulheres. Estas começaram a olhar umas para as outras e a rosnar «aqui cheira a fôlego vivo»! Uma das mulheres levantou-se, aproximou-se da rapariga e disse-lhe: «O que te valeu foi vires ajoelhar na campa de tua madrinha, que sou eu. Vai-te e não olhes para trás!» A rapariga saiu, mas não resistiu à curiosidade e olhou para trás. Viu muitas fogueiras a arder. Eram as almas das pessoas, porque se não tinham dito missas (Guimarães)
Uma mulher indo de noite para certo sítio encontrou uma procissão de defuntos que vinha na sua direcção. Escondeu-se logo na croca (oco) de um carvalho. A procissão passou por diante dela e a mulher viu no préstito um filho seu que morrera anjinho, e que ia «com a tocha apagada». E o filho passando por diante da mãe, disse: «Arreda-te, carvalho croquento, que por causa das tuas lágrimas é que eu vou com a luz apagada.» (Louredo).
As almas dos mortos andam pela rua à meia-noite em procissão com luzes acesas. Se alguém por desgraça vai ter com aquela procissão e lhe pede lume, morre infalivelmente. (Lavadores - São Cristóvão de Mafamude).
O abade de Mondanedo de Lugo estava uma vez sentado à beira de uma igreja e viu vir uma procissão de defuntos, todos vestidos de branco, com um esquife diante de si e alumiando com os ossos acesos (sic). (Lugo - Galiza).
Uma pessoa antes de morrer já se vê sete anos antes na «procissão dos defuntos». A procissão dos defuntos faz-se todos os dias às trindades; ninguém a vê senão as pessoas que têm uma palavra de menos no baptismo (sic). E estas são as que sabem as pessoas que hão-de morrer, porque as vêem na procissão. Por isso se diz, quando uma pessoa anda doente: «ah! Fulana (a tal que tem de menos a palavra no baptismo [?]) já há muito tempo que a vi na procissão dos defuntos. (Valença).
O Sr. Leite de Vasconcelos no seu recente e interessante livro nada nos diz sobre tal assunto (vide Tradições Populares de Portugal, pág. 301-3) e o Sr. Adolfo Coelho apenas muito vagamente se refere às procissões de defuntos, não mencionando lenda alguma a tal respeito (vide Revista de Etnologia e de Glotologia, fasc. IV, pág. 163). Para estas procissões, veja-se Afaniev: ob. cit., III, 244 e seg.; e sobretudo Grimm: Deutsche Mythologie, II, 765 e seg.. A «procissão dos defuntos» é uma variante da lenda do Wütendes Heer, o Feralis Exercitus de Tácito, a Arma Coelestia de Plínio. É esta a variante cuja acção se passa na Terra; enquanto noutras versões é no céu ou nas nuvens que tem lugar.
Desta segunda variedade importantíssima temos também uma lenda portuguesa moderna e várias superstições que a ela se referem. A superstição é antiga na Península, onde o Wütendes Heer tinha o nome de Exercitum Antiquum (Exército Antigo). Cf. Grimm: Deutsche Mythologie, II, 785. Cf. ainda Afanasiev: ob. cit., I, 725.
In Contribuições Para Uma Mitologia Popular Portuguesa e Outros Escritos Etnográficos, de Consiglieri Pedroso, págs. 281-3, Publicações Dom Quixote.
O equivalente galego da Procissão de Defuntos é a Santa Compaña.