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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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PONTE DE LIMA: CABRAÇÃO É UM SANTUÁRIO DA NATUREZA!

Rodeada de floresta e sem iluminação pública até há escassas quatro décadas, a Cabração viveu ao longo de séculos isolada na encosta da serra, fechada sobre si mesma, temerosa do bulício que ocorria à sua volta. De importantes acontecimentos que vieram a ficar na História chegava, por vezes, o som longínquo que ecoava para além dos montes, umas vezes do lado da Galiza quando a Espanha esteve a ferro e fogo, outras mais a sul quando os realistas proclamaram em Viana do Castelo a restauração do regime monárquico. Na Cabração, apenas na Além foi hasteada a bandeira monárquica por essa altura, na casa que foi dos Carmo.

Cabração (3)

Nesta casa foi hasteada a bandeira realista quando foi proclamada a Monarquia do Norte, em 1919

À noitinha, à lareira, contavam-se estórias de almas penadas que apareciam nas encruzilhadas e de bruxas que se juntavam sob a velha ponte de madeira que, mais à frente da Regueira ligava à Balouca. Tais crenças que nos testemunham ritos ancestrais ligados ao paganismo, alimentavam a imaginação dos mais novos e fizeram da Cabração terra fértil para a prática de exorcismos que tiveram no senhor abade – o padre Manuel Lopes Miranda – o último representante do guardião do paraíso.

A feira de Ponte de Lima que se realiza todas as segundas-feiras desde tempos imemoráveis e cujo testemunho documental mais antigo que se conhece é o foral atribuído por D. Teresa em 1125, era praticamente a única saída para o mundo. Até ao aparecimento da camioneta da carreira, o povo juntava-se em ranchos e lá ia, reta abaixo, até à bila. Ali, enquanto uns feiravam, outros guardavam as compras. Os mais novos aproveitavam para fazer novos namoricos. O ponto de encontro era junto à torre onde se encontra o magnífico painel de azulejos de Jorge Colaço que conta a lenda da Cabração. Mais recentemente, as pessoas juntavam no Café Guerra que ficava próximo. E, à tardinha, regressavam à terra ainda a tempo de darem de comer ao gado.

A partir dos começos do século vinte, muitos filhos desta terra debandaram para o Brasil e Lisboa. Mais tarde, nos anos sessenta, a França tornou-se o principal destino mas houve ainda quem se aventurasse por outras paragens, como Espanha, Alemanha e até os Estados Unidos da América. E, quem ficava, via com desconsolo as leiras ficarem de velho. À parte a ocasião em que se realiza a festa à Padroeira no 15 de agosto, pouco mais de uma centena de almas povoa a localidade. Porém, a Cabração chegou a ter mais de meio milhar de habitantes.

Apesar de humilde, é uma terra cheia de encantos de rara beleza e um local bastante aprazível para viver, suficientemente distante do frenesi dos grandes aglomerados urbanos. Aqui escorria o mel que as abelhas produziam em milhares de colmeias que povoavam os montes onde cresce toda a sorte de plantas silvestres respirando ar puro. E também o leite dos numerosos rebanhos de cabras que outrora aqui apascentavam e vieram a dar nome à terra – Cabras são, Senhor!

A Cabração é terra antiquíssima como se documenta pelo conhecimento que se tem da existência de um povoado castrejo pré-romano e do Convento da Carrapachana cuja localização não foi ainda possível determinar com absoluta segurança, apesar dos vestígios de ruínas no Outeirinho e na Costa. Mas, a humildade da terra não permitiu despertar até ao presente o interesse dos arqueólogos.

Não obstante, aqui nasceram algumas das mais ilustres figuras de Ponte de Lima como foi o Dr. Augusto Joaquim Alves dos Santos que, para além de eminente pedagogo, teólogo, escritor, político e cientista, foi o introdutor do estudo da Psicologia em Portugal, tendo na Universidade de Coimbra criado um laboratório, atualmente transformado em museu que ostenta o seu nome.

Ao perpetuar a sua memória na toponímia da vila, Ponte de Lima reconheceu a sua importância. Porém, como pedagogo, bem poderia tornar-se o patrono de uma das escolas do nosso Concelho e, sobretudo, a sua vida e a vasta obra que produziu serem dadas a conhecer aos seus conterrâneos.

Nos tempos que correm, a luz elétrica já ilumina os caminhos da freguesia. Porém, a razão ainda não ilumina as mentes que continuam a ignorar a extraordinária riqueza histórica, paisagística e ambiental que a Cabração guarda dentro de si e, qual santuário, preserva longe dos olhares profanos.

O Dr. Alves dos Santos, uma das figuras mais ilustres de Ponte de Lima, nasceu na Cabração

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O padre Manuel Lopes Miranda realizando um dos seus exorcismos