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BLOGUE DO MINHO

Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes do Minho e Galiza

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PONTE DE LIMA QUEIMA O JUDAS

Realiza-se hoje em Ponte de Lima a tradicional Queima do Judas. O boneco que este ano é representado com três cabeças, identificando três personagens distintas na mesma identidade, já se encontra exposto no Largo de Camões a aguardar a leitura do testamento.

Desde os tempos mais remotos, o Homem procurou através do rito participar na ação criadora dos deuses, acompanhando o ciclo da vida e da própria natureza com celebrações que nos fazem acreditar que os mesmos possuem alguma dose de magia indispensável a todo o contínuo processo de nascimento, vida, morte e retorno que constitui o eterno ciclo da própria existência.

Eis porque, desde o começo do inverno até à sagração da primavera têm tradicionalmente lugar um conjunto de rituais que visam influenciar o ciclo da vida e dos vegetais de modo a assegurar o renascimento da própria natureza, os quais vão desde o culto aos mortos que ocorre no início de Novembro até à serração da velha, passando pelas festas solsticiais e do entrudo ou carnaval. Com a chegada do cristianismo, estas celebrações pagãs foram adquirindo formas mais ou menos cristianizadas, mas revelando frequentemente características que não se coadunam por completo com a fé cristã.

Entre os antigos ritos pagãos que nalgumas localidades assumiram uma forma cristianizada salienta-se a "serração da velha" destinada a celebrar o renascimento da primavera, a qual foi substituída pela "queima do judas", iniciativa que adquire frequentemente mais notoriedade em Ponte de Lima e também no concelho de Palmela, na margem sul do rio Tejo. Enquanto a serração da velha tinha tradicionalmente lugar na quarta-feira da terceira semana da quaresma, a queima do judas realiza-se invariavelmente no sábado imediatamente anterior ao domingo de páscoa, parecendo evocar a traição de Judas Escariotes a Jesus Cristo como a Bíblia menciona.

De resto, ambas as celebrações seguem no essencial o mesmo rumo que vai da leitura de um testamento à encenação da condenação cuja forma de execução, apesar do seu aspeto lúdico, não exige o rigor da autenticidade, pois em geral o boneco que o representa é armadilhado com fogo pirotécnico para poder rebentar e por fim queimar, quando a narração bíblica nos descreve um enforcamento. Em ambas as situações, na serração da velha e na queima do judas, o boneco a ser executado também faz a representação de alguém a quem se procura visar com a crítica social, não passando atualmente em muitos casos de uma mera brincadeira inofensiva sem a carga que noutras épocas a mesma representava.

Assim, de uma representação simbólica da separação do ano velho em relação ao que acabava de nascer por meio de um ato de serração, estas festividades adquiriram ainda um carácter social que através da ação crítica se procurava exorcizar os males do ano velho aqui simbolizado na figura de uma "velha", aliás da mesma forma que se procedeu durante todo o inverno e sobretudo durante o período carnavalesco onde toda a ordem social foi virada do avesso de modo a afastar os maus espíritos que povoam esta época do ano, associada à morte dos vegetais. E como a mentalidade antiga liga a morte à vida em vez de a separar, a natureza renasce sempre a partir da morte tal como ao inverno sucede invariavelmente a primavera.

É sábado e véspera de dia de Páscoa. Como de costume, as margens do rio Lima oferecem-nos um entardecer tranquilo onde o sol que se esconde para os lados de Viana espalha sobre as águas os seus raios como longas madeixas ruivas. Na Praça de Camões perfilam-se os bonecos que vão ser "executados" após a leitura do respetivo testamento. O bojo está recheado de fogo produzido pelos pirotécnicos da região, por sinal dos mais conceituados a nível internacional. O povo junta-se. Faz-se a leitura do "testamento do judas" onde se descobrem algumas verdades e, eis então que lhe é pegado o fogo. O boneco começa por rodopiar até que, uma quantidade maior de pólvora que é armazenada na cabeça o faz finalmente explodir. No dia seguinte é dia de aleluia e o povo vai, com a cruz florida, percorrer os caminhos da aldeia e visitar amigos e familiares onde a cruz é dada a beijar. É o compasso pascal, uma das tradições de grande beleza em toda a região de Entre-o-Douro-e-Minho!